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setembro 13, 2010

A crise dos vínculos de confiança (III)


A crise dos vínculos de confiança (III)

         Nos artigos anteriores, partimos da afirmação do psicanalista Joel Birman, em “Arquivos do mal estar e da resistência”, para quem se somos servos e assujeitados, o somos por deliberação própria. Neste, abordaremos a questão da disciplina e da servidão no regime democrático.

         O autor constata que ao olharmos para o século XIX, nos damos conta de que as coisas não funcionavam de modo linear na construção da democracia, e nos convida a examinar criticamente os projetos utópicos dos filósofos e a assunção das liberdades pelos cidadãos no espaço social. Decididamente, eles se davam de maneira desigual. 

         De acordo com Birman, é forçoso reconhecer que a servidão voluntária continuou seu galope triunfante sobre o mundo. Além de ocupar novos territórios reais e imaginários, conquistaria os corações e mentes da multidão. A expressão de La Boétie – servidão voluntária – voltaria a inscrever-se no mundo de forma mordaz, desafiando a temporalidade e a história.

         Contudo, diz ele, não se trata, aqui, de atribuir aos totalitarismos que marcaram o século XX, como o nazismo, o fascismo, o stalinismo, o determinante na produção da servidão voluntária. O intrigante é que ela continuava incólume no interior da própria democracia. E esta vem funcionando permeada pelas novas formas de servidão, sobretudo pela exclusão de vários grupos e segmentos sociais. Basta olhar o mundo ao redor.

         Nos anos 1970, Gilles Deleuze retomou as indagações do “Tratado Teológico Político”, de Espinosa, sobre a seguinte questão: “Por que o povo é tão profundamente irracional? Por que ele se honra da sua própria escravidão?” Se o Mundo é produzido por nós, que elementos contribuem para fazer da posição subalterna o estatuto da relação entre opressores e oprimidos? 

         Por ora, fiquemos com Foucault. É ele quem descreve esse período recente da “democracia” ocidental com o conceito de sociedade disciplinar. Sua descrição da constituição da sociedade democrática na segunda modernidade é exemplar. Para ele, em oposição à sociedade soberana, os jogos de poder passaram a se realizar sobre os corpos, tornando-os dóceis e obedientes, assujeitados no confronto das forças. Por isso, segundo Joel Birman, não surpreende que a servidão volte a se produzir em todas as dimensões, nos eixos voluntário e involuntário.

         Mas, há ainda algo sobre o qual vale a pena se deter. Foucault, em seus estudos, adverte que, no contexto das relações de servidão, a discursividade é fundamental para a implementação dos jogos de poder. Ou seja, na democracia a retórica da persuasão é crucial, pois, conforme Joel Birman, a individualidade dos agentes sociais é considerada um valor.

         O autor dos “Arquivos do mal estar e da resistência”, nos adverte sobre a importância de reconhecer que a discursividade se funda num saber que sustenta aquela com critério de verdade. Daí porque o exercício do poder implica o saber. São as ciências humanas que irão legitimar as práticas de poder.
         O problema é que temos o péssimo hábito de confundir os saberes com as verdades. Os discursos jurídicos e religiosos estão cheios delas. Ora, teorias, idéias, religiões são produções possíveis entre outras, no campo do Ser.

         Mas essa é outra história. Por ora, importa reconhecer que esses saberes como discursividade e jogos de fala, pela mediação da vontade dos homens, irão articular-se com as estratégias de poder. A partir deles serão tecidas novas modalidades de servidão.

Manaus, Agosto de 2010.

Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental

Nota do blog: Artigo publicado no jornal Amazonas em Tempo, caderno Saúde & Bem Estar.

maio 20, 2010

Lutas sociais precisam se articular contra o modelo neodesenvolvimentista

MST

Lutas sociais precisam se articular contra o modelo neodesenvolvimentista


Brasil - Laboral/Economia
Quinta, 20 Maio 2010 02:00 
200510_lutasocial Adital - Camponeses, camponesas e movimentos sociais têm um grande desafio pela frente. Isso é o que afirma o pesquisador do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores (Cepat), César Sanson. Presente no debate de ontem (18), no segundo dia do III Congresso Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Sanson acredita que um dos principais desafios para os movimentos sociais é perceber "o momento de profundas transformações que impactam a sociedade".
O pesquisador explica que o mundo está vivendo uma "crise civilizacional" composta não por apenas uma ou duas crises, mas por um conjunto de cinco crises: a econômica, a ecológica, a alimentar, a energética e a do trabalho. Crises que afetam gravemente o planeta e o homem. "A crise civilizatória ameaça a espécie humana", revela.

De acordo com ele, o sistema capitalista provoca uma forte "pressão no planeta Terra". Isso porque está relacionado ao modo de produzir e de consumir. "Para o capitalismo, o crescimento tem que ser infinito. E, para isso, ele precisa de recursos naturais, que são finitos", destaca.

De todas as crises vividas atualmente pela humanidade, Sanson ressalta a ecológica, que também está relacionada com as outras. Para ele, esse modelo que prega o "crescer, crescer e crescer" impacta principalmente o meio ambiente e as comunidades locais.

A opção pelos modelos desenvolvimentistas mostra isso. "O modelo neodesenvolvimentista é perverso. Os governos financiam projetos que impactam as comunidades", afirma. Para ele, Belo Monte é um exemplo claro. Segundo Sansnon, a ideia da construção da hidrelétrica no Rio Xingu é para fins econômicos, mas também está relacionado com a energia (produção energética) e com o ecológico (impacto ambiental). "Belo Monte é emblemático nesse aspecto. Que tipo de país nós queremos?", questiona.

Na opinião dele, é preciso articular as lutas sociais contra esses modelos e crises. "É necessário se contrapor a esse modelo com projetos alternativos", considera. E, para o pesquisador, a solução para essas crises será dada pelas comunidades locais. "A resposta [à crise civilizatória] virá do local, de experiências alternativas, do respeito ao meio ambiente", acredita.

III Congresso da CPT

O III Congresso Nacional da CPT começou na segunda-feira (17) e vai até a próxima sexta-feira (21) em Montes Claros (MG). O evento, que tem como tema "Biomas, Territórios e Diversidade Camponesa", reúne cerca de 900 pessoas, entre trabalhadores e trabalhadoras do campo, movimentos sociais e assessores da Comissão.

Na noite de hoje (19), as atividades do Congresso prosseguem com uma caminhada pelas ruas da cidade mineira em memória às vítimas da violência no campo. Os participantes sairão do Colégio São José, Marista, às 19h, e seguirão rumo à Igreja do Senhor do Bonfim, na Praça do Morrinho. No decorrer da caminhada, serão realizadas seis paradas, uma para cada bioma brasileiro: Amazônico, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal.


maio 12, 2010

Como os pobres deste país ajudaram os ricos a enfrentar a crise: consumindo

Foto postada em Carta Maior

"Consumo dos pobres ajudou país a enfrentar crise dos ricos"

Em discurso proferido na abertura do Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar, Combate à Fome e Desenvolvimento Rural, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou a contribuição das políticas sociais do governo brasileiro no enfrentamento da crise econômica internacional. "O dado concreto é que passados alguns anos veio a crise econômica mundial e ficou provada uma coisa, para que os pesquisadores publiquem por muito tempo: foi a capacidade de consumo dos pobres que fez a economia brasileira resistir à crise dos países ricos", disse Lula.
Redação

No dia 10 de maio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou a realização da reunião Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar, em Brasília, para fazer um balanço das políticas sociais implementadas pelo governo brasileiro nos últimos anos. Lula falou sobre as dificuldades, resistências e preconceitos enfrentados no início e sobre como os resultados de hoje mostram o acerto do caminho adotado. Após receber o prêmio da ONU “Campeão do Mundo na Batalha Contra a Fome”, o presidente lembrou que foi o consumo das classes menos favorecidas um dos responsáveis pelo fortalecimento da economia nacional, que se descolou do cenário internacional e sofreu menos com os efeitos da crise econômica mundial.

“A classes D e E do Norte e do Nordeste consumiram mais que as classes A e B do Sul e Sudeste, ou seja, os pobres foram à luta para comprar. (…) O que nós fizemos foi garantir um pouquinho para muita gente. E os pobres, que antes ficavam à margem, viraram gente de classe média e compraram coisas que só parte da classe media podia comprar”, destacou Lula. O presidente resumiu assim as dificuldades enfrentadas no início da implementação de programas como o Bolsa Família:

"Tinha gente que falava assim para mim: “Por que o presidente Lula vai criar o programa Fome Zero, gastar R$ 12 bilhões se isso daria para fazer pontes, fazer estradas?” Na verdade, daria para fazer pontes e fazer estradas. Mas naquele momento, o mais importante do que uma ponte era colocar comida na barriga de uma criança, era colocar comida na barrida de uma mulher ou de um homem que estava fragilizado. E a gente não poderia vacilar entre os discursos daqueles que são contra e a realidade. O dado concreto é que passados alguns anos veio a crise econômica mundial e ficou provada uma coisa, para que os pesquisadores publiquem por muito tempo: foi a capacidade de consumo dos pobres que fez a economia brasileira resistir à crise dos países ricos..."

Publicamos a seguir o discurso proferido pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de abertura do Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar, Combate à Fome e Desenvolvimento Rural (Palácio Itamaraty, 10 de maio de 2010).

Quero dizer para vocês da alegria imensa de vocês terem aceito o convite nosso para participar deste debate sobre a relação África-Brasil e a questão da segurança alimentar.

Eu queria começar contando um caso para vocês. Hoje, graças a Deus, eu não tenho discurso. Tenho apenas aqui alguns pontos de conversação, e eu penso que vai ser mais rápido, não vou tomar muito o tempo de vocês. De vez em quando o improviso faz com que a gente utilize muito mais tempo do que se tivesse o discurso por escrito. Mas, de qualquer forma, eu vou compreender que vocês viajaram muito para chegar aqui, atravessaram o Atlântico e, portanto, o fuso horário deve estar mexendo com a cabeça de vocês.

Então, eu vou começar contando uma história, das dificuldades das relações entre os estados. Eu não vi aqui o meu ministro Eloi, companheiro ministro da Igualdade Racial. Eu tinha aproximadamente três meses de mandato na Presidência da República do Brasil, quando o presidente Wade, do Senegal, me liga pedindo ajuda do Brasil para que lhe enviasse um avião, chamado Ipanema, para enfrentar uma praga de gafanhotos que se aproximava do Senegal. Eu fiquei muito entusiasmado porque era o meu primeiro gesto de solidariedade com um país africano, e decidimos, então, mandar o avião. Entre decidir mandar o avião e o avião chegar lá, levou seis meses. A praga de gafanhotos já tinha comido todo o milharal, e o avião... Foi para lá, está lá. Eu espero que tenha combatido outras pragas de gafanhotos, mas aquela não deu porque eu não sabia que, para dar um avião, tinha que passar pelo Congresso Nacional, tinha que debater não sei das quantas, e demorou muito.

Eu estou dizendo isso apenas para mostrar para vocês que, muitas vezes, a gente toma as decisões – vocês, do lado de vocês; nós, do nosso lado; os americanos, do lado deles; os europeus, do lado deles – e até a gente concretizar as coisas, leva um tempo muito grande. Para quem está com fome, para quem está sofrendo muito e para quem precisa comer as calorias e as proteínas necessárias, são tempos intermináveis que, muitas vezes, não chegam a tempo de as pessoas sobreviverem. Esse é um assunto que eu quero discutir com vocês.

"A gente pensa de acordo com o chão que os nossos pés pisam".
Eu queria, antes, agradecer o prêmio que eu recebi. Eu penso que cada dirigente, no mundo, ou melhor, cada um de nós, a gente pensa de acordo com o chão que os nossos pés pisam. Se os dirigentes políticos do mundo não estiverem, cotidianamente, comprometidos com as pessoas que estão em pior situação no seu estado e no seu país, fica mais difícil a gente tomar decisão em benefício dos mais pobres. A verdade é que, normalmente, nós somos eleitos pelos mais pobres, mas quando a gente ganha as eleições, quem tem acesso ao gabinete dos dirigentes não são os mais pobres, são os mais ricos. E, muitas vezes, o orçamento da União é feito para aquelas pessoas na sociedade que já estão organizadas e que, portanto, fazem uma pressão sobre o governo, e o orçamento é dividido normalmente para a parte organizada da sociedade e, quando a gente vai ver, não sobra nada para a gente fazer política para aqueles que não têm sindicato, para aqueles que não vão à capital, para aqueles que não fazem passeata, para aqueles que não têm sequer o direito de protestar porque não têm como protestar.

Esse é um desafio que está colocado para as gerações de dirigentes do século XXI: é ter claro que o combate à pobreza só será vencido se houver determinação, se houver uma determinação de prioridade na política orçamentária de cada país, de tratar a questão da fome como coisa prioritária. Se a gente esperar sobrar dinheiro no orçamento para cuidar da fome, nunca vai sobrar, porque os que têm acesso ao orçamento são gananciosos e querem todo o dinheiro para eles, e não fica nada para os pobres. Essa é uma experiência muito rica que eu vivi aqui no Brasil.

A segunda coisa importante, meu caro Diouf, é que os dirigentes políticos do mundo precisam definir que não tem nada mais importante para cada país, não tem nada mais importante para cada povo do que a segurança alimentar, como a forma mais extraordinária de garantir a soberania e a autodeterminação dos povos. Se um país tiver a arma mais poderosa que tiver, mas ele não tiver a comida de cada dia, do seu povo, plantada no seu território ou comprada fora, esse país não tem soberania.

"Quem tem fome não pensa, a dor do estômago é maior do que muita gente imagina".
Então, a segurança alimentar precisa ser vista como uma questão de soberania de cada país. Nós temos que garantir a cada cidadão do nosso país que ele possa ter o café da manhã, o almoço e a janta todos os dias, porque isso é o que permite às pessoas terem tempo de pensar no que fazer no dia seguinte. Quem tem fome não pensa, a dor do estômago é maior do que muita gente imagina. E as pessoas que têm fome não viram revolucionárias, elas viram submissas, elas viram pedintes, elas viram dependentes. Portanto, a fome não faz o guerreiro que nós gostaríamos que fizesse. A fome faz um ser humano subserviente, humilhado e sem forças para brigar contra os seus algozes, que são responsáveis pela fome.

Em terceiro lugar, é importante que a gente tenha clareza... eu estava ouvindo o discurso do companheiro Diouf e estava prestando muita atenção. Nenhum ser humano do mundo é contra os pobres, nem nos nossos países. Vocês nunca viram, numa campanha política eleitoral em cada país africano, em cada país latino-americano, em cada país do mundo, um candidato fazer campanha defendendo os ricos contra os pobres.

Normalmente, a campanha é feita, todo mundo defendendo os pobres, até o rico que é candidato. O problema é que na hora de governar, o pobre sai da agenda e o rico permanece na agenda. São eles que indicam ministros, são eles que indicam assessores, ou seja, são, na maioria das vezes, eles que determinam a política que você tem que fazer.



Como mudar isso para que a gente possa garantir um mundo de paz, um mundo sem fome, um mundo com mais educação, um mundo com mais desenvolvimento? Qual é a lógica que explica a África, que é o berço da Humanidade, chegar ao século XXI ainda como o continente mais atrasado na questão do combate à miséria e à fome? Qual é a explicação sociológica, qual é a explicação econômica, mesmo quando o continente africano foi ocupado por nações extremamente ricas? Ao conquistar a independência, muitos países africanos continuaram pobres depois da independência, como foi o caso do nosso querido país, como é o caso de todos na América do Sul, em que os colonizadores foram embora, depois de levar grande parte da riqueza existente no país, e nós continuamos pobres.

"Nós temos apenas um mar de obstáculosentre nós"
Bem, essa lição eu aprendi aqui no Brasil. Nós precisamos aprender a nos conhecer melhor para que a gente possa tomar decisões a partir da nossa realidade, a partir da nossa similaridade, a partir daquilo que a gente pode produzir e construir juntos, e, na maioria das vezes, nós não fizemos isso. No século XX, possivelmente o Brasil tenha se preocupado mais com a sua relação com os europeus e com os americanos, e vocês também, com os europeus e com os americanos. A nossa relação era um pouco estranha, mesmo nós sendo tão parecidos, mesmo nós tendo tanta coisa em comum, a verdade é que nós tínhamos outros parceiros, tínhamos outras expectativas e outra esperança.

Bem, nós já fizemos um primeiro encontro Brasil, América do Sul e África, que a ideia era tentar fazer os dois continentes se enxergarem. Nós temos apenas um mar de obstáculo entre nós, e o mar termina sendo um ponto que facilita a nossa relação e não um ponto que dificulta a nossa relação. Já fizemos dois encontros. Certamente, ainda não colhemos aquilo que era necessário colher mas, certamente, países que nunca tinham ido à África já foram à África, já participaram de encontros com a África e já não acham o continente africano tão estranho a eles. Da mesma forma, os africanos que jamais imaginaram ter ido à Venezuela participar de um encontro, certamente passaram a conhecer outros povos e outros países. E começar a discutir outras possibilidades, aprofundar, de forma meticulosa, o que nós poderemos fazer uns pelos outros.

Bem, nós acabamos de perder um guerreiro, o presidente Yar’Adua, da Nigéria, que visitou o Brasil em julho do ano passado, já não está mais entre nós. Ele era um homem que veio conversar comigo e veio dizer, categoricamente, que ele estava disposto a fazer com que a Nigéria olhasse mais para a relação Sul-Sul, para ver se nós poderíamos construir o que não foi construído no século XX. Eu espero que quem vier para o governo continue pensando nessa mesma trajetória, pensando nesse [com esse] mesmo olhar para o Sul-Sul, porque nós nos olhamos muito pouco no século passado.

Eu já disse a vocês que a África é prioridade na minha relação. Eu já visitei... eu devo terminar o meu mandato visitando 25 países africanos. Isso é mais do que tudo o que já foi visitado por todos aqueles que governaram o Brasil desde que Cabral chegou ao Brasil, em 1500, para descobrir o Brasil. Eu espero que outros presidentes que venham a governar o Brasil viajem mais, viajem mais do que eu e viajem mais países do que eu, para que a gente possa descobrir o potencial que existe nas nossas relações, e trabalhar com a ideia firme e a convicção de que o século XXI tem que ser o século do renascimento africano. Isso só será possível se nós acreditarmos e se nós trabalharmos para isso. Não é possível acontecer alguma coisa se nós não quisermos que aconteça.

Eu lembro perfeitamente bem, e vou dar esse testemunho para vocês, que quando nós começamos a pensar o projeto Fome Zero e depois pensar o programa Bolsa Família – o Graziano está aqui –, nós tivemos muita adversidade. Adversidade numa parte da elite política brasileira, que dizia que dar dinheiro na mão de pobre era proselitismo, era compra de voto, era favor, era... tem todos os adjetivos que vocês possam imaginar. Depois, a incompreensão de alguns que diziam: “Se você vai dar R$ 100 para um pobre, ele não vai querer mais trabalhar, ele não vai querer mais trabalhar, vai virar um vagabundo”. Era isso que diziam. “Ele vai tomar cachaça, ele não vai querer mais trabalhar”. E nós tivemos que enfrentar esse preconceito. O Graziano, que foi o primeiro ministro, Diouf, tinha hora que eu tinha ficar paparicando ele aí, para ninguém desistir, porque a pressão era para desistir, a pressão era que cuidar de pobre não podia. Tinha gente que falava assim para mim: “Por que o presidente Lula vai criar o programa Fome Zero, gastar R$ 12 bilhões se isso daria para fazer pontes, fazer estradas?” Na verdade, daria para fazer pontes e fazer estradas. Mas naquele momento, o mais importante do que uma ponte era colocar comida na barriga de uma criança, era colocar comida na barrida de uma mulher ou de um homem que estava fragilizado. E a gente não poderia vacilar entre os discursos daqueles que são contra e a realidade.

"Foi a capacidade de consumo dos pobres que fez a economia brasileira resistir à chamada crise dos países ricos".
O dado concreto é que passados alguns anos veio a crise econômica mundial e ficou provada uma coisa, para que os pesquisadores publiquem por muito tempo: foi a capacidade de consumo dos pobres que fez a economia brasileira resistir à chamada crise dos países ricos. Os pobres do Norte brasileiro e do Nordeste consumiram mais. As Classes D e E do Norte e do Nordeste consumiram mais do que as classes A e D da região Sul e Sudeste. E os pobres foram à luta comprar coisas que, até então, eles não estavam habituados a comprar. Porque quem tem muito dinheiro, quem tem muito dinheiro dá US$ 30, US$ 40 de gorjeta, depois de tomar dez uísques no restaurante. Mas quem não tem nada e pega US$ 40, é capaz de levar comida para seus filhos comerem durante 20 dias ou 30 dias, é capaz de fazer a multiplicação dos pães, é capaz de garantir o sustento de uma família. Esse é um dos milagres que aconteceram neste país.

Neste país, eles diziam: “Nós não podemos aumentar o salário mínimo, porque o salário mínimo vai causar inflação”. Quando nós chegamos aqui, o salário mínimo – se eu não estiver enganado – comprava 1,4 cesta básica. Hoje está comprando 2,4 cestas básicas, ou seja, praticamente, o dobro, e a inflação está totalmente controlada.

O problema é simples: pouco dinheiro na mão de muitos é distribuição de riqueza; muito dinheiro na mão de poucos é concentração de riqueza. Então, o que nós fizemos foi garantir um pouquinho para muita gente, e os pobres, que antes ficavam à margem, viraram gente de classe média, começaram a frequentar shopping centers, começaram a comprar coisas que antes só uma parte da sociedade podia comprar.

Esse é um dos milagres das coisas que aconteceram aqui no Brasil, mediante também muitas outras políticas. Eu, hoje, sou um homem convencido de que o problema nosso não é apenas a questão de dinheiro. Dinheiro é sempre muito importante, dinheiro é sempre muito importante, mas o problema maior nosso é a falta de definição de prioridades. O problema nosso, às vezes, é a falta de projeto, e o problema nosso, às vezes, é a falta de focar aquilo que é prioridade.

O Brasil, na década de 70, tinha uma extraordinária assistência técnica na agricultura brasileira e, no final dos anos 90, toda a assistência técnica estadual tinha, praticamente, com raríssimas exceções, sido dizimada. Nós precisamos reconstruir, porque senão a agricultura familiar não sobrevive. E eu tenho verdadeira ojeriza ao discurso da agricultura de subsistência, tenho verdadeira ojeriza. Dizer para um agricultor: “Você tem que plantar a sua mandioquinha, você tem que plantar o seu milhozinho, você tem que plantar o seu arrozinho”, só para comer? Não! Nós precisamos mostrar que ele tem direito ao acesso à tecnologia, que ele tem que ter direito ao acesso a crédito para ele produzir com mais escala, para, além de comer, ele poder ter um dinheiro e ter acesso a outros bens, senão o homem não fica no campo. O velho fica, mas a juventude não fica no campo, porque as luzes da cidade são uma paixão para a juventude. Entre ficar ouvindo um grilo cantar ou a luz de um vagalume a nos clarear, na porta de um cinema no centro da cidade, com tanta coisa bonita acontecendo lá, é uma paixão a que nenhum jovem resistirá. E ele só vai ficar no campo na hora em que a gente criar as condições para que ele possa ficar no campo.

Aqui, eu penso que o Brasil acumulou uma experiência. Eu não vou entrar em detalhes, porque muita gente nossa vai falar com vocês. Depois das 15h, nós vamos visitar a Embrapa, vocês vão ver de perto uma apresentação na Embrapa. Então, eu não vou me ater a coisas técnicas porque vocês vão ouvir, até enjoar, nesses dias que vocês vão estar aqui.

"Teve um tempo em que o culpados eram “os chineses, os chineses estão comendo demais”.
Mas vou contar uma coisa para vocês. Em julho de 2008 nós fomos pegos de surpresa pelo aumento dos alimentos. Feijão, no Brasil, não é uma coisa de exportação e, de repente, o saco de feijão saiu de R$ 60 para R$ 200; a soja subiu de forma extraordinária; o arroz tinha desaparecido, e todo mundo querendo saber o que era, todo mundo querendo saber o que era.

Então, a coisa mais fácil era dizer: “São os chineses”. Teve um tempo em que o culpados eram “os chineses, os chineses estão comendo demais”.

Bom, e eu fui constatar que não tinha havido nenhum grão de feijão importado pela China, do Brasil. Então, não poderia ser a China. Eu fui detectar que a soja tinha tido a mesma quantidade do ano anterior. Também não tinha sido. E também o preço do petróleo: de US$ 30 para US$ 150. Eu me reunia com as empresas, inclusive com a minha, e com as outras multinacionais, para alguém me explicar por que o petróleo tinha chegado a US$ 150. Eles diziam: “É a China, é o consumo da China”. Aí, quando sai a crise do subprime, quando sai a crise da especulação imobiliária nos Estados Unidos é que a gente descobriu que já tinha, no mercado futuro, a mesma quantidade de petróleo comprada no mercado futuro, que a China consumia. Os espertalhões, que estavam ganhando dinheiro especulando com papel, resolveram tirar o dinheiro do fracassado subprime e ir para a soja, para os alimentos e para o petróleo, e muita gente sofreu com isso.

Nós estávamos prontos para fazer o acordo da Rodada de Doha. Tinha só uma divergência entre a China, entre a Índia e os Estados Unidos, e o problema eleitoral, porque isso era mais ou menos no mês de julho, e tinha eleições em novembro nos Estados Unidos, e tinha eleições em maio do ano seguinte, no estado do negociador indiano, que é na Índia, mas, sobretudo no estado do negociador, que era candidato. Por conta disso, nós não avançamos na Rodada de Doha e, lamentavelmente, já faz dois anos e a gente ainda não retomou as negociações. A Rodada de Doha, no entendimento do Brasil, e certamente no de vocês, era a possibilidade de a gente abrir um pouco mais do mercado para que vocês pudessem exportar os produtos de vocês para os mercados mais ricos. Bem, mas não andou, vamos ver se andamos. Parece que a teoria do livre mercado era extraordinária quando nós só éramos compradores. Na hora em que a gente quer ser vendedor, o livre mercado não era tão livre como parecia ser. E as pessoas não levam...

Eu acho isso, Diouf, uma barbaridade, uma barbaridade da visão capitalista, porque cabe a um homem que tem uma visão capitalista compreender que quanto mais os africanos comerem, quanto mais os latino-americanos comerem, quanto mais nós ganharmos um dinheirinho, mais nós seremos consumidores dos produtos de alto valor agregado que eles produzem. Isso, (incompreensível), você deve ter aprendido na escola de Economia, não precisava ser nenhum dirigente sindical para vir dizer isto aqui. Henry Ford dizia, no começo do século XX: “Eu preciso pagar aos meus trabalhadores para que eles possam comprar o carro que eu produzo, senão eu não vendo”. A mesma coisa é o mundo desenvolvido.

Eles têm que contribuir para a melhoria de vida na África, o Brasil tem que contribuir, os americanos têm que contribuir, os chineses têm que contribuir, porque vocês passarão a ser consumidores no planeta Terra e, portanto, um mercado extraordinário para quem tem sofisticada tecnologia.

Nós estamos há quanto tempo pedindo para os países mais ricos construírem parceria conosco? Fizemos uma com o Japão, em Moçambique, e queremos fazer com outros países para produzir as coisas que interessam a vocês com a nossa tecnologia, mas com incentivo financeiro nosso, para que eles comprem.

Me diga uma coisa: a Europa vai precisar colocar, nos próximos [anos], até 2020, 10% de etanol na sua gasolina, não é isso? A Europa não pode ficar produzindo etanol de beterraba, fica muito caro, ou de milho, não é prudente. É prudente, então, que a gente, olhando o mapa-mundi, [veja] onde é que tem terra para produzir. Onde é que tem terra para produzir?

No continente africano, no Brasil e na América Latina. Os outros países já produziram muito, já utilizaram grande parte da sua terra agricultável, nós é que estamos... Ora, uma parte dessa terra tem que garantir a segurança alimentar da humanidade; na outra parte, onde puder, as pessoas têm que plantar aquilo que vai render dinheiro para as pessoas poderem fazer a economia crescer. E tudo isso é muito visível e perceptível por todos os dirigentes. Mas entre a gente compreender e a gente executar um projeto, é difícil.

Depois vocês conversem com o companheiro de Angola que tem um grande projeto lá, de etanol, do governo de Angola com uma empresa brasileira, que vai suprir, na Angola, metade do etanol que a Angola usa e também metade do açúcar, ou seja, isso é um salto extraordinário – em pouco tempo, em pouco tempo. Essa tecnologia o Brasil domina e é essa tecnologia que o Brasil quer repartir com vocês.

A Embrapa... Eu vou assinar a lei hoje, aqui, vou mandar a medida provisória. É na Embrapa que eu vou assinar, Pedro? Porque a Embrapa está em Gana, ela já estudou projetos em 16 países, e nós já temos a convicção de que parte da savana africana tem as mesmas características produtivas do cerrado brasileiro. O cerrado brasileiro, há 40 anos, era tido como terra imprestável. Na minha ignorância, Pedro, quando eu vinha de carro de São Paulo para Brasília, que passava no Cerrado, a gente dizia: “Essa terra não presta para nada, olha como as árvores estão tortas, nem crescer não crescem”. Bastou um pouco de carinho com a terra, ela virou a área de maior produção de grãos do nosso país. E isso pode acontecer com a savana africana e com muitos países.

Uma outra coisa que eu fico vendo o mapa e fico imaginando, é que tem problema de água na África, em alguns países, mas tem excesso de água na África, em outros países. E nós, os países que têm um pouco mais de recursos, mais os países ricos, nós temos que começar a imaginar como é que a gente socializa essa água. Eu estou fazendo um canal aqui, no Brasil, de 640 quilômetros para levar água para 12 milhões de pessoas da área mais seca do Brasil. Esse projeto está sendo pensado desde 1847 – o Brasil ainda tinha um imperador –, e esse projeto não saía do papel. Pois bem, ele agora saiu do papel e eu inauguro a primeira parte dele. Eu fico vendo ali, na África, alguns rios, a imensidão de água que vai para o mar sem a gente aproveitar. E eu sei que não tem dinheiro nos países, mas é essa contribuição que os países ricos podem dar, financiar um projeto. É esse o financiamento que a gente tem que fazer.

"Quando eu cheguei ao governo, no Brasil inteiro, em todo o território brasileiro, nós tínhamos apenas R$ 380 bilhões de crédito".
No G-20, se pensou em US$ 22 bilhões para ajudar. Agora, esses US$ 22 bilhões precisam ter uma coordenação eficaz, projetos bastante definidos, porque senão o dinheiro desaparece. E quando a gente vai ver não ficou nada no lugar, porque dinheiro, de vez em quando, voa. Então é preciso... e eu acho que as organizações que vocês construíram na África são muito representativas. Acho que eu poderia citar como exemplo aqui, por exemplo, a União Africana, que está mais organizada do que a nossa Unasul; eu poderia citar o Banco Africano, que é um banco que tem um potencial de crescimento, e é lá que os bancos de fomento tipo o FMI, tipo o Banco Mundial, deveriam colocar um pouco de dinheiro para que vocês pudessem administrar do jeito que quisessem, para fazer funcionar o crédito. Uma coisa, Diouf, eu vou dizer a você: quando eu cheguei ao governo, no Brasil inteiro, em todo o território brasileiro, nós tínhamos apenas R$ 380 bilhões de crédito. Eu fiquei pensando: como é que este país quer ser um país capitalista se não tem nem crédito? Pois bem, hoje o nosso país tem mais de 1 trilhão e 500 bilhões de crédito, por isso a economia funciona. Nós criamos aqui um crédito para os pequenos, crédito para o trabalhador aposentado, para o trabalhador que não tem nem conta bancária. Esse crédito já disponibilizou, nesses quatro anos, R$ 115 bilhões de financiamento para as pessoas físicas, aposentados, catadores de papel. Essa é uma parte da explicação do sucesso da agricultura familiar brasileira e do sucesso do agronegócio no Brasil. Aqui no Brasil, o governo tem que financiar o agronegócio e a agricultura familiar, e fazemos isso com prazer porque sabemos da importância que tem os dois setores na economia brasileira.

Bem, nós... uma notícia boa que eu quero dar para os companheiros. Antes, dizer para vocês o seguinte a África já tem um instrumento como o Nepad, a África já tem o Banco de Desenvolvimento, portanto, nós temos instituições mais sólidas na África com quem o restante dos outros países e o Brasil podem fazer negócio. Nós temos condições de criar, para a África, as mesmas políticas de crédito que nós oferecemos aos agricultores brasileiros, mas isso, vai ter gente que vai conversar com vocês, porque muitas vezes as pessoas querem se modernizar, muitas vezes as pessoas até recebem máquinas de graça, mas não tem a formação para a pessoa manusear a máquina, ou às vezes não tem tecnologia para fazer funcionar, às vezes tem a máquina, precisa do combustível, não é?

Eu lembro que quando nós lançamos o Programa Mais Alimentos, no auge da crise do alimento, nós, em 18 meses, criamos uma linha de crédito para o pequeno produtor, nós vendemos aqui, internamente, 25 mil tratores para pessoas que jamais tinham imaginado ter um trator. E esse programa terminava agora, nós vamos ter que continuar com ele, porque... E eu quero ver se estendo essa mesma linha de crédito para o Brasil, para a América Latina e para os países africanos que precisarem modernizar a sua agricultura.

Nós gostaríamos de partilhar com vocês, companheiros, as nossas experiências, e vocês vão ter o prazer de conhecer a Embrapa. A Embrapa é a empresa responsável pela revolução tecnológica no Brasil na questão da agricultura, e nós queremos que ela faça com a África o mesmo que está fazendo no Brasil, por isso nós estamos com os técnicos lá fora. Mas hoje nós vamos mandar um projeto de lei oficializando a implantação da Embrapa em território estrangeiro, coisa que a lei atual não permite.

Nós estamos querendo, temos intenção de implantar 10 projetos-piloto nos moldes do programa de aquisição de alimentos na África. O programa de aquisição de alimentos, certamente o Ministro vai falar, na parte da tarde, mas uma coisa extraordinária aqui, no Brasil, é o programa da compra de alimentos feito pelo governo. E a outra coisa extraordinária é que nós determinamos que 30% do alimento vendido para a merenda escolar seja da agricultura familiar, mas que seja da agricultura local, regional, ou seja, para um cidadão comprar do produtor na sua cidade, para fomentar a produção da sua cidade. Senão, o cidadão planta a 2 mil quilômetros de distância, esse produto sai de lá, vai para, aqui no Brasil, vai para o Ceasa, que é um setor de comercialização e depois volta para lá, ou seja, anda 4 mil quilômetros para ganhar preço, para depois chegar ao produtor [consumidor]. Então, nós decidimos que 30% é comprado ali, na cidade do pequeno produtor rural dali: é a batatinha, é o feijão, é a mandioca, ou seja, tem que ser comprada lá, para a gente fomentar a produção.

Bem, uma coisa importante que eu queria dizer para vocês: finalmente, a Câmara dos Deputados, no Brasil, aprovou – e eu queria que o Eduardo prestasse atenção, porque vai para o Senado –, a Câmara dos Deputados finalmente aprovou, na semana passada, a Universidade Afro-Brasileira. É uma universidade que nós estamos pensando em 10 mil alunos, metade africanos, metade brasileiros. Ela vai ser no estado do Ceará, portanto, estarão todos os estudantes olhando para o continente africano, para que ninguém esqueça de onde veio, porque se a gente não tomar cuidado, esses meninos vêm, se formam, arrumam uma namorada e já ficam por aqui mesmo; e nós queremos que eles fiquem de olho para o continente africano, olhando ali... Quem é de Cabo Verde, vai estar ali, olhando Cabo Verde. Se ele não quiser ir, a gente empurra ele e ele vai nadando, e volta para o seu local. O que nós queremos é dar uma contribuição... Se for aprovada no Senado, Eduardo, nós ainda lançaremos a pedra fundamental e começaremos a construí-la ainda este ano. Será na cidade de Redenção, no Ceará, que é a cidade onde começou a luta pelo fim da escravidão no nosso país.

Por último, companheiros e companheiras, nós também queremos oferecer treinamento técnico em extensão rural, num trabalho com o nosso Ministério, com a Embrapa, com o Sebrae. O que nós precisamos habituar é fazer com que as nossas pessoas viajem mais e se encontrem mais. Por isso é que nós vamos inaugurar, à tarde, um centro da Embrapa, que é uma coisa chique, que tem... é um centro de tecnologia, de formação, de treinamento, em que a gente quer receber muitos engenheiros agrônomos, técnicos agrícolas da África, para poderem fazer treinamento na Embrapa, aprender a tecnologia que nós temos aqui, de ponta, levar para a África e produzir o mesmo que nós produzimos aqui.

Eu quero ressaltar o papel das Nações Unidas e, particularmente, do Fida, do PMA e da FAO, porque o papel de vocês é decisivo para construir este mundo sem fome que todos nós queremos construir. Acho que nós precisamos implementar a reforma do Comitê de Segurança Alimentar, e é preciso torná-lo um fórum representativo de todos os acordos relevantes para a construção de uma parceria global para a agricultura e a segurança alimentar. Acho que o Programa Mundial de Alimentos deve ampliar suas atividades, por meio de compras locais de alimentos que assegurem o fornecimento às populações vulneráveis e estimulem o pequeno produtor. O Fida pode ajudar muito no apoio aos programas nacionais de regularização fundiária e de ampliação de crédito e seguro agrícola.

"Temos que fazer um esforço e não ficar competindo com países mais pobres do que nós".
Aqui, eu queria dizer uma coisa, tanto ao Diouf, quanto ao Programa (incompreensível): o Brasil, o Brasil, graças a Deus, o Brasil não precisa de ajuda financeira para fazer as suas coisas. O Brasil tem tamanho, tem tecnologia, dinheiro e tem vergonha. Portanto, nós temos que fazer um esforço e não ficar competindo com países mais pobres do que nós. Nós temos que colocar dinheiro no orçamento e aprovar as coisas que nós precisamos, porque o Brasil, Diouf, o Brasil ainda não aprendeu que entrou no rol dos países doadores. O Brasil não é mais um país receptor. E isso está acontecendo, e é importante, Celso, as ONGs...

As ONGs importantes que atuavam no Brasil, elas estão comunicando à gente que estão indo embora, muitas delas, para cuidar de outros países mais pobres. Qual é o sentido de o Brasil ficar competindo com a Tanzânia, com Botsuana? Não, o Brasil tem que entrar no rol dos países doadores e contribuir. Ora, se nós tivemos coragem de aprovar US$ 14 bilhões para emprestar para o FMI, por que é que a gente não pode ter, através do nosso BNDES, uma política de financiamento para os países africanos? É só decisão política, que já está tomada. Por isso, isso vai ser discutido à tarde com os companheiros aí.

Por último, eu queria dizer para vocês que no G-20 nós vamos continuar brigando para que a gente possa fortalecer as instituições multilaterais, para que a gente faça o Banco Mundial cumprir com as suas funções de ajudar os países em desenvolvimento, para que o FMI empreste dinheiro sem precisar das exigências que fazia antigamente, e vamos continuar brigando para que a gente possa concluir a Rodada de Doha da forma mais justa possível.

Uma coisa que eu queria pedir para vocês... Nós vamos estar juntos ainda, na Embrapa, hoje à noite; depois nós vamos estar juntos na visita de uma feira de agricultura familiar, é isso? Hoje ainda, ou amanhã? Amanhã. Eu quero estar junto com vocês nessa visita à feira. Eu quero que a gente, ao terminar isto aqui, eu não sei qual é a ideia central, Celso, mas que a gente crie uma espécie de grupo dirigente disso aqui, para que a gente possa acompanhar e dar sequência a cada coisa que a gente vai fazer. Cada projeto tem que ter um acompanhante, para que a coisa possa vencer as barreiras com mais facilidade do que nós temos hoje.

Eu acho que o Brasil tem um problema para resolver, o Celso tem me cobrado, que é a questão de vôos para o continente africano. As empresas brasileiras adoram ir para Paris, adoram ir para Londres, adoram... mas não querem parar no território africano. Agora, com esse vulcão soltando fumaça preta para tudo quanto é lado, eles estão parando em qualquer lugar, com medo. Mas nós estamos trabalhando, o ministro Jobim já tem pronta uma proposta que ele quer me apresentar, para ver se a gente começa a fazer com que nossas empresas possam parar em alguns países africanos, porque se não tiver possibilidade de trabalhar, se a gente não tiver voo para garantir o direito de ir e vir dos ministros, dos empresários, dos cientistas, a gente não vai conseguir o desenvolvimento que nós queremos.

Então, eu queria dizer para vocês, do fundo do coração: muito obrigado por vocês terem aceito o nosso convite, muito obrigado. E eu espero que desta reunião aqui a gente tire uma nova e mais aperfeiçoada política com os nossos irmãos africanos. E, certamente, certamente, eu me encontrarei com vocês, porque eu ainda tenho que visitar cinco países africanos. Mas, no dia 11 estarei na África do Sul, para a final da Copa do Mundo. Não é que eu seja tão otimista que o Brasil vá para a final, não é que eu seja tão otimista que vai para a final. É que eu tenho que estar lá porque, como o Brasil vai sediar a Copa do Mundo de 2014, eu tenho que estar na festa de encerramento, para trazer o espírito da Copa do Mundo para o Brasil. E, certamente, eu posso trazer junto a Taça do Mundo, pela sexta vez.

Um abraço e muito obrigado, companheiros.

Fonte: Carta Maior

fevereiro 20, 2010

Entrevista com Peter Pál Pelbart

Nota do blog: A dica de leitura é do companheiro Luiz Gonzaga Falcão Vasconcellos. Em julho de 2006, Peter Pál Pelbart fez a principal conferência do Encontro Nacional de Saúde Mental, realizada em Belo Horizonte e organizada pelo Conselho Federal de Psicologia e a Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial. Nascido em Bupadeste, Peter mora no Brasil, em São Paulo, onde leciona na PUC. É leitura obrigatória para os militantes da luta por uma sociedade sem manicômios. Boa leitura!

Fuera de lugar

“Una crisis de sentido es la condición necesaria para que algo nuevo aparezca”
13 Feb 2010


Peter Pál Pelbart es filósofo. Nacido en Budapest, formado filosóficamente en París, actualmente es profesor en la Universidad Católica de São Paulo (Brasil). Es coordinador de una compañía teatral con pacientes psiquiátricos. Entre sus temas de investigación se encuentran la locura, el tiempo, lo común o la biopolítica. En castellano ha publicado Filosofía de la deserción (Tinta Limón ediciones).

Por obra y gracia de la crisis económica, la palabra “crisis” está hoy por todos lados. Con ella solemos referimos a un proceso fundamentalmente negativo, que padecemos pasivamente como víctimas y del que hay que salir cuanto antes para regresar a la normalidad. Pero en las crisis subyace también un gran potencial de transformación.

¿Cómo piensas las crisis?

En España seguramente se conozca bien a François Tosquelles, psiquiatra, psicoanalista y militante anarquista catalán. Refugiado en Francia tras la guerra civil española, fue responsable de una verdadera revolución en la psiquiatría a partir de su trabajo en el hospital de Saint Alban. Comprendió inmediatamente la similitud entre la situación de los hospitales y de los campos de concentración, lo que le impulsó a una subversión de la lógica institucional. Lo que se conoce menos de Tosquelles es su producción teórica. Escribió un libro llamado La vivencia del fin del mundo en la locura, donde describe los cuadros clínicos en los que se pierde radicalmente la confianza en el mundo, la expectativa elemental de que el mundo pueda continuar, tras una quiebra en la vida, un desastre, una crisis. Todo eso apenas sería una contribución en la descripción fenomenológica de un cuadro clínico, como las que hicieron Binswager o Minkowski. Pero su idea más interesante, desarrollada a partir del trabajo de Goldstein, es que esa catástrofe anímica coincide con la apertura a la creación de mundo. Junto a la disolución padecida de la existencia, se da un esfuerzo vital de invención de una nueva forma de vida. Es decir, catástrofe y creación van unidas.

Algo parecido escribió el medico y neurólogo alemán Viktor von Weizsäcker, que lo formuló de manera igualmente sugerente. El momento de la crisis, dice él, es aquel en el que ya nada parece posible. Pero también es el momento en que se cruzan muchas transformaciones. Y por eso, aunque la actualidad le parezca al enfermo completamente bloqueada, es el momento en que se abren todas las posibilidades. Es decir, la crisis es una conjunción del “nada es posible” y del “todo es posible”. La crisis revela las fuerzas que estaban en juego o, más bien, las redistribuye respondiendo a la pregunta: ¿irán las cosas en la dirección de la vida o de la muerte? Así concebida, la crisis no es el resultado acumulativo de una serie previa, sino un comienzo, un origen, una decisión vital. Corresponde a la creación de un espacio y de un tiempo propio, que ya no obedece a las coordenadas del mundo objetivo u óntico, sino a la dimension pática como él la nombra, allí donde puede ocurrir una mutación de la experiencia y de las posibilidades. Félix Guattari bebió de esa fuente aunque lo haya enunciado a su manera, con sus palabras, cuando se refiere al “caos”, a la “caósmosis”, a la “heterogénesis” y, sobre todo, cuando explicita hasta qué punto un hundimiento caosmótico es la condición para una heterogénesis, no sólo en la psicosis, no sólo en el plano psicológico, no solo en el plan individual, sino también colectivo, político, estético, etc. Entonces yo diría, operando transversalmente entre esos niveles tan distintos, que la crisis, la catástrofe, la ruptura, el colapso de sentido o como queramos llamar a esos momentos de derrumbe, son las condiciones de posibilidad para una mutación subjetiva, existencial, vital, sea en contextos micro o macro.

¿Por qué dices que en el momento de crisis “nada es posible” y, al mismo tiempo, “todo se hace posible”? Explícame esa (aparente) paradoja.

Sí, es un fenómeno paradójico. “Nada es posible”, “todo es posible”. Pero, ¿no oscilamos constantemente entre esas disyuntivas o, más bien, no las vivimos simultáneamente? ¿No podríamos reconocer en esa extraña conjunción un rasgo de nuestra sensación contemporánea? Pero no se trata de una sensación individual o psicológica, sino que es una lógica más amplia que se puede encontrar en los fenómenos de cultura o de civilización. Quizá en Nietzsche y en su análisis del nihilismo es donde esa lógica se explicita más claramente. ¿Qué es el nihilismo para él? Es el proceso por lo cual los valores que fundamentaban la cultura de nuestro Occidente se desvalorizan. Es el proceso histórico-filosófico por el cual aquello que era objeto de creencia suprema (el Ser, el Bien, Dios, la Razón, el Progreso) pierde su credibilidad. Así, las figuras metafísicas, religiosas o morales que daban sentido al mundo o a la vida dejan de ser operativas, con lo cual el mundo o la vida pierden el sentido que antes tenían y caen en una orfandad ontológica. Es un proceso de vaciamiento muy complejo que se detecta en dominios tan distintos como la filosofía, el arte, la política, la historia, pero que se puede leer siempre al menos de dos maneras opuestas: una apocalíptica, otra jubilatoria.

En efecto, el fin de una interpretación del mundo dominante (socrático-cristiana) equivale, para unos, al tenebroso fin del mundo y del hombre: es el “nada es posible”. Para otros, por el contrario, la liberación de una interpretación hegemónica del mundo, y por ende el fin de un mundo y de un hombre, representa la apertura a otro mundo y a algo más allá del hombre: es el “todo es posible”. La posición particularísima de Nietzsche consiste en pensar ambas cosas juntas, en asumirlas juntas. Porque, para él, un mundo desprovisto de sentido, tras la desvalorización de los sentidos supremos, nada tiene de condenable, ni de aterrador, y sólo lleva a la parálisis a una voluntad empobrecida, ya que una vida superabundante, por el contrario, soporta y hasta necesita de ese vaciamiento para dar lugar a su fuerza de interpretación y de creación, aquella que no busca el sentido en las cosas, pues se lo impone. En contraposición al creyente que dependía de los sentidos trascendentes, Nietzsche reivindica un espíritu que “se despide de toda creencia, de todo deseo de certeza, ejercitado, como está, en poder mantenerse sobre delgadas cuerdas y posibilidades, e incluso ante el abismo, danzar”. Una lectura nihilista del proceso del nihilismo se queda en el “nada es posible”. ¿Como hacer el pasaje, que ya está en el concepto mismo de nihilismo, del “nada es posible” al “todo es posible”? Sabemos cómo cierta posmodernidad hizo una interpretación nihilista y cínica de la contemporaneidad: fin de las utopías, de las ideologías, de la política, de la historia, etc. Por tanto, nada merece la pena, todo es equivalente: “nada es posible”. Sería necesario examinar cómo otras perspectivas, por el contrario, piensan positivamente estos pasajes históricos de crisis, sin nostalgias en relación a las formas tradicionales que caducaron y de las cuales el presente trata de liberarse, en favor de otras fuerzas y formas por venir: “todo es posible”.

Asocias la crisis (o la catástrofe del sentido) a la creación de mundo. Por tanto, la crisis se convierte en un momento decisivo de la política o la transformación social, porque éstas pasan por la creación de (otros) mundo(s). Sin embargo, a nadie le gusta estar en crisis, que los sentidos que hasta ayer te orientaban ya no funcionen más, porque eso duele. ¿Cómo podríamos sostener entonces una crisis de modo activo?

Es evidente que ante la amenaza de una crisis siempre hay un esfuerzo por preservar la forma de vida previa, la identidad preexistente, la subjetividad cristalizada, los valores tradicionales, en definitiva, el sistema vigente. La incertidumbre puede desencadenar crispaciones identitarias defensivas para aplacar la angustia, reterritorializaciones (1) brutales, a veces mortíferas. El problema es que esa reactividad no “alcanza” lo que está en juego en esos momentos cruciales de transformación. Podríamos usar aquí la bella fórmula de Deleuze: la única ética es estar a la altura del acontecimiento. ¡Pero cuánto desapego implica esto a veces! Nietzsche decía que hay que desprenderse de la religión, de la patria, de la familia, del saber, de los amigos, de uno mismo… ¡y también de la voluptuosidad del desapego! Pero claro, está el miedo a desprenderse de las pertenencias y los territorios, a perderse uno mismo, a enloquecer o morir, a vivir un derrumbe, una separación, un duelo, un hundimiento. El miedo a dejar que se caigan las máscaras y a no conseguir aferrar las nuevas posibilidades que se abren cuando las formas de existencia establecidas se muestran ya inviables. Sí, son pasajes en que uno se ve afectado por una gran incertidumbre, una indeterminación, un vacío incluso, ya sea en el dominio individual o colectivo, existencial o axiológico. Nada de esto se da sin dolor, sin cierto tipo de muerte, sin una experiencia radical de desterritorialización (1). El desafío es vivir la crisis como un proceso (2) abierto, en el que las reservas de vida y de virtualidad que la crisis revela y desvela sean la materia prima del cambio. Esto requiere todo un arte de la mutación muy complejo y sutil. Claro que la perdida de referencias, de límites, de dirección implica muchos riesgos y peligros, como ocurrió tras la caída del Muro de Berlín con las resurgencias nacionalistas, fascistas, fundamentalistas. No sé si es un problema de conciencia. Es más bien una cierta posición de deseo lo que está en juego, sin duda. Lo que se necesita es un nuevo agenciamiento (3) para sostener la mutación en curso, ése es el desafío. Se requiere un arte, mayor o menor: una inteligencia afectiva, un constructivismo experimental, una cartografía esquizoanalítica (4), una micropolítica.

¿Podríamos decir que el proceso de elaboración positiva de una crisis (la creación de nuevos sentidos y relaciones) es al mismo tiempo un proceso terapéutico, sanador de algún modo? Sería una terapia distinta a la habitual que no pasa por la “contención” ni la “reparación”, sino por la renovación existencial y una cierta metamorfosis. ¿Qué piensas?

Estoy totalmente de acuerdo. El desafío es, a partir de ese “agujero de sentido” que se vive, y de los índices de desterritorialización que se despliegan, poder construir nuevos territorios existenciales (1), abrir nuevas líneas de vida, generar nuevos sentidos, engendrar nuevos ritornelos. Pero no se trata de sustituir los sentidos existentes por nuevos sentidos provenientes de la sensibilidad anterior que justamente se está acabando o que entró en colapso. Como decía François Zourabichvili a partir de Deleuze, una mutación de la sensibilidad, individual o colectiva, se caracteriza justamente por una redistribución de la frontera entre aquello que ya no se tolera, aunque antes era lo más cotidiano, y aquello que en adelante se desea, aunque poco antes fuese inimaginable. No se puede hacer la economía de esa mutación, que es de la sensibilidad, de la percepción, del pensamiento, de la vitalidad –una metamorfosis, como dices. Sí, es un proceso que se podría llamar terapéutico, si se quiere y si ampliamos mucho el sentido de la palabra, o esquizoanalítico, si queremos radicalizar la apuesta en nuevas coordenadas de enunciación a partir de una molecularidad (5) intensiva y de agenciamientos abiertos, acompañadas de formas de expresión que se engendran en el proceso mismo de las subjetivaciones en curso. Es verdad que en ocasiones esto exige cosas muy triviales también, un tipo de cuidado, de continuidad. El colectivo Situaciones habla de manera muy pertinente de tejer lo común cada día, punto por punto, en un trabajo de gran delicadeza, casi artesanal. En todo caso, yo vería todo este conjunto como la construcción y el sostenimiento de un plan de consistencia (6). En ciertos trabajos con grupos o colectivos eso es imprescindible. Pero hay que agregar –ese plan es constituido por una materia de virtualidad– un inconsciente, si se quiere todavía utilizar la palabra, vuelto hacia al futuro. Un inconsciente ampliado y abierto al futuro hace que los cortes y quiebres de sentido no remitan a una interpretación de contenidos profundos, sino que participen de una maquínica (7) extendida, de modo que manifiestan una subjetividad en estado naciente, apertura desterritorializante necesaria para que advenga algo allí donde todo parecía cerrado.

Retomas una cita de Deleuze para afirmar que hoy “no creemos en el mundo”: que nada nos concierne, que somos espectadores de lo que (nos) pasa. ¿Podrías explicarme qué significa esto? ¿Tiene relación con la cuestión de las crisis?

Es como un grito filosófico: “Perdimos el mundo, nos lo quitaron”. O, en otro contexto, Deleuze dice lo mismo con otras palabras: “El hecho moderno es que ya no creemos en este mundo. Ni siquiera en los acontecimientos que nos suceden, el amor, la muerte, como si nos concernieran apenas por la mitad”. Es enigmática esa exclamación. Pero no debería ser leída como una lamentación, trágica o melancólica, sino más bien como un signo del presente. Y de hecho, cuando en sus libros sobre cine, Deleuze analiza el pasaje del cine clásico al contemporáneo, por ejemplo con el neo-realismo italiano, Rosselini, De Sica, insiste sobre esos personajes que delante de una situación de extremo horror o belleza, como una ciudad destruida por la guerra o un volcán en erupción, se ven atravesados por un estupor, una parálisis, una suspensión de la acción. Frente a un exceso de sufrimiento, belleza o abyección, ya ni siquiera consiguen reaccionar, se vuelven como espectadores de lo que les afecta. Para Deleuze, esa situación es un síntoma de que se rompió la conexión sensorio-motora con el mundo, de que ya no estamos en un régimen de acción-reacción.

Más allá de una consideración sobre el cine, y de ese pasaje de un cine del movimiento a un cine del tiempo, hay en el fondo una reflexión sobre una mutación más profunda, una ruptura en la conexión entre el hombre y el mundo. Más radicalmente, lo que fue perturbado es la creencia en el mundo. ¿Y no es el cine, el arte, el pensamiento o la política los que podrían devolvernos la creencia en el mundo? Pero no se trata, justamente, de volver a creer en lo que antes nos hacía actuar, ya sean los dogmas metafísicos, religiosos o políticos. William James, junto a Nietzsche, fue uno de los autores que inspiró a Deleuze en ese tema, porque él pensó a fondo el tema de la creencia en el contexto de un mundo precisamente pluralista, incierto, peligroso, con partes inconexas, indeterminaciones –un mundo no determinista, sino agonístico. Para James, como para Nietzsche, no se trata de creer en cosas que justamente cayeron en el descrédito: Dios, la Revolucion, el Progreso, esos universales o absolutos que se arruinaron, sino de reactivar la creencia a partir de un pluralismo, de un perspectivismo, de un indeterminismo, de una colisión de las voluntades y de las partículas. Según la bella lectura que nos ofrece David Lapoujade a partir de James, creer en el mundo no es creer que el mundo existe, de lo cual no dudamos, sino creer en las posibilidades del mundo, tener confianza en nuestra capacidad de conectarnos con las fuerzas del mundo, tener confianza en la capacidad de nuestras fuerzas de conectarse con las fuerzas del mundo o, como dice él, en una vía más bien bergsoniana, tener simpatía, simpatizar con el mundo, con sus fuerzas, con su devenir, con el devenir de los otros, con el devenir-otro de los otros en el mundo. Si se reivindica esa confianza es precisamente porque ha sido perturbada. Es sobre el fondo de esa perturbación que la acción se volvió problemática, y tanto más necesaria. Toda esa filosofía pragmatista americana es leída por Deleuze como un esfuerzo constructivista, donde los fragmentos se conectan, pedazo a pedazo, donde la simpatía o la confianza son elementos positivos sobre el fondo de una abisalidad caotica. Creo que ese elemento está presente en Deleuze, aunque no siempre explícito, y a veces se utiliza en los contextos más inesperados. Cuando Negri pregunta a Deleuze qué politica puede prolongar en la historia el esplendor del acontecimiento, Deleuze responde: “Creer en el mundo es lo que más nos hace falta. Creer en el mundo significa sobre todo suscitar acontecimientos, aunque sean pequeños, que escapen al control, o hacer nacer nuevos espacio-tiempos, incluso de superficie y volumen reducidos”.

Otro de los temas de tu trabajo es la cuestión de lo común, ¿cómo la piensas? ¿Qué es lo común? ¿Qué relación tiene -si la tiene- con el problema de la crisis?

Varios autores contemporáneos –entre otros, Toni Negri, Giorgio Agamben, Paolo Virno, Jean-Luc Nancy e incluso, antes que ellos, Maurice Blanchot- se refieren con insistencia a una evidencia: vivimos hoy una crisis de lo “común”. Las formas que antes parecían garantizarles a los hombres un contorno común, que le aseguraban alguna consistencia al lazo social, perdieron su pregnancia y entraron definitivamente en colapso. Desde la llamada esfera pública hasta los modos de asociación consagrados: comunitarios, nacionales, ideológicos, partidarios, sindicales. Deambulamos entre espectros de lo común: los media, la escenificación política, los consensos económicos legitimados, pero también las recaídas en lo étnico o en la religión, la invocación civilizadora basada en el pánico, la militarización de la existencia para defender la “vida” supuestamente “común” –o, más precisamente, para defender una forma-de-vida llamada “común”. No obstante, sabemos bien que esta “vida”, o esta “forma-de-vida”, no es realmente “común”, que cuando participamos en esos consensos, esas guerras, esos pánicos, esos circos políticos, esos modos caducos de asociación, o incluso en ese lenguaje que habla en nuestro nombre, somos víctimas o cómplices de un secuestro.

Si hoy hay, de hecho, un secuestro de lo común, una expropiación de lo común, una manipulación de lo común, bajo formas consensuales, unitarias, espectacularizadas, totalizadas, transcendentalizadas, es necesario reconocer que, al mismo tiempo y paradójicamente, tales figuraciones de lo “común” comienzan a aparecer finalmente como aquello que son: puro espectro. En otro contexto, Deleuze nos recuerda que, a partir sobre todo de la Segunda Guerra Mundial, los clichés comenzaron a aparecer como aquello que son: meros clichés. Los clichés de la relación, los clichés del amor, los clichés del pueblo, los clichés de la política o de la revolución, los clichés de aquello que nos liga al mundo. Y sólo en el momento en que, vaciados de su pregnancia, se revelaron como clichés –esto es, como imágenes acabadas, prefabricadas, esquemas reconocibles, meros calcos de lo empírico-, el pensamiento pudo liberarse de ellos para encontrar aquello que es “real”.

Ahora bien: hoy, tanto la percepción del secuestro de lo común, como la revelación del carácter espectral de ese común transcendentalizado, se dan en condiciones muy específicas: precisamente en un momento en que lo común –y no su imagen- está preparado para aparecer en su máxima fuerza de afectación, y de manera inmanente, dado el nuevo contexto productivo y biopolítico actual. Para decirlo con claridad: a diferencia de lo que ocurría algunas décadas atrás, cuando lo común se definía y era vivido como aquel espacio abstracto que conjugaba las individualidades y se sobreponía a ellas –fuera como espacio público, fuera como política-, hoy lo común es el espacio productivo por excelencia. El contexto contemporáneo trajo a la luz, de manera inédita en la historia –pues lo hizo en su núcleo propiamente económico y biopolítico-, la prevalencia de lo “común”. El llamado trabajo inmaterial, la producción posfordista, el capitalismo cognitivo, son todos fruto de la emergencia de lo común: todos exigen facultades vinculadas a lo que nos es más común, esto es, el lenguaje y su haz correlativo: la inteligencia, los saberes, la cognición, la memoria, la imaginación y, por consiguiente, la inventiva común. Pero también exigen requisitos subjetivos vinculados con el lenguaje, como la capacidad de comunicar, de relacionarse, de asociar, de cooperar, de compartir la memoria, de forjar nuevas conexiones y hacer proliferar las redes. En este contexto de capitalismo en red o conectivo –que algunos llaman incluso rizomático (8)-, por lo menos idealmente aquello que es común se pone a trabajar en común. Y no podría ser de otro modo: a fin de cuentas, ¿qué sería un lenguaje privado? ¿Qué vendría a ser una conexión solipsista? ¿Qué sentido tendría un saber exclusivamente referido a sí mismo? Poner en común lo que es común, poner en circulación lo que ya es patrimonio de todos, hacer proliferar lo que está en todos y en todas partes, sea el lenguaje, la vida, la inventiva… Pero esta dinámica sólo parcialmente corresponde a lo que de hecho sucede, ya que se hace acompañar de la apropiación de lo común, de la expropiación de lo común, de la privatización de lo común, de la vampirización de lo común emprendida por las diversas empresas, mafias, estados e instituciones, con finalidades que el capitalismo no puede disimular, ni siquiera en sus versiones más rizomáticas.

También en este caso la crisis de la representación de lo comun abre y revela, al mismo tiempo, otra modalidad de producción del común.

Decías recientemente en Madrid que tal vez parezca extraño escuchar a un deleuziano hablar de crisis o catástrofes de sentido (aunque sea por ejemplo el tema principal del libro de Deleuze sobre la pintura y el diagrama), ¿por qué? En la filosofía contemporánea está muy presente el problema de la crisis, el acontecimiento, la interrupción, la discontinuidad, ¿qué diferencias encuentras entre las diferentes lecturas?

En una necrológica de 1995 tras la muerte de Deleuze, Giorgio Agamben compara dos seminarios a los que asistió, uno de Heidegger y otro, veinte años después, de Deleuze: “Un abismo separa a esos dos filósofos… la tonalidad general de Heidegger es de una angustia tensa y casi metálica… Por el contrario, nada expresa mejor la tonalidad fundamental de Deleuze que una sensación que le gustaba llamar por el nombre inglés de self-enjoyment”. La conclusión de Agamben es la siguiente: “La gran filosofía de este siglo sombrío, que empezó por la angustia, terminó con la alegría” Eso nos suena justo y, al mismo tiempo, paradójico. Pero algunas décadas antes, Jean Hyppolite decía algo muy similar, comparando el bergsonismo y el existencialismo, pero con el signo invertido, como si lo lamentara. Él advertía que no hay lugar en Bergson para la angustia humana, sólo para la serenidad. Y agregaba: “es esa serenidad la que hoy ya no estamos en condiciones de comprender. Como si en un periodo de la historia especialmente trágico como el nuestro, no hubiera más lugar para esa serenidad”.

Tenemos aquí un tema fundamental, la Stimmung, la tonalidad afectiva de un pensamiento. Es admirable que tras la posguerra una línea tan sobria atraviese toda la obra de Deleuze, hecha de afirmatividad y de alegría, tan distinta a la que dominó la filosofía inmediatamente anterior. Deleuze nunca se dejó llevar por la negatividad y sus afectos, ni por el culto a la angustia, mucho menos por el tema del fin (la clausura de la metafísica, el fin de la filosofía etc.). ¡No el trabajo de lo negativo, sino el goce de la diferencia! Ahora bien, creo que eso fue mal entendido. Algunos llegaron a hacer de él un apóstol del espontaneísmo hedonista –él se explicó ampliamente sobre eso (el deseo no es natural, sino puro artificio, construcción, etc.). Pero más profundamente, habría que preguntar si la tonalidad afectiva a la cual nos referimos, esa afirmatividad tan característica de su filosofía de la diferencia, justifica una lectura monocorde que la transforma en una positividad plena, y a su alegría, en un dictamen afectivo. Yo veo tantos saltos, desajustes, agujeros, huidas, tantos movimientos y parálisis, velocidades y lentitudes, gritos, incluso derrumbes, colapsos, catatonias… Y no creo que su pensamiento los oculte, muy al contrario, los expone, se instala a veces en ellos para alimentarse, para después saltarlos, como un diablo o una pulga. Es lo que lo hace tan contemporáneo, tan múltiple, tan divertido, polifónico, pero también tan enigmático. Deleuze desordena las cartas de nuestro abanico afectivo.

Véase el tema del agotamiento, para quedarnos en un único ejemplo. Deleuze dice en un pequeño texto sobre Beckett que el agotado es distinto al cansado –el cansado descansa para recuperar sus fuerzas y volver a trabajar, según una dialéctica interna al trabajo y a su lógica. El agotado, en cambio, es aquel que agotó los posibles, que agotó el mundo y se agotó a sí mismo. El agotado es aquel que está instalado en la imposibilidad. Insomne, sentado, en la oscuridad, como en Beckett, en vigilia, en ocasiones le vienen imágenes fugitivas, efímeras, que se consumen y desaparecen… Son fenómenos de videncia, son vislumbres, son flashes de intensidad. Es un texto enigmático, muy bello. ¿Qué es el agotamiento, qué es esa combustión de intensidades, qué es esa parálisis? La mejor lectura está en François Zourabichvili, que explica que ese texto fue escrito por Deleuze poco después del derrumbe del muro de Berlín. Era un momento en que se tenía la impresión de que todos los posibles se habían intentado, se habían agotado y se estaba en una imposibilidad. El agotamiento significa que el repertorio de los posibles que teníamos almacenado se vacía, que abandonamos, lo desertamos. Significa también que todos los clichés sobre qué es lo que debemos sentir, pensar, hacer, cómo debemos amar, indignarnos, hacer la revolución, evocar el pueblo, también se han evaporado, dejándonos vacíos frente al mundo, sin mediaciones ni filtros. Es un encuentro con lo real, a partir de un vaciamiento, de una imposibilidad. Pero nada de eso lleva al llanto ni a la lamentación, mucho menos a la nostalgia, sino que nos fuerza, ya no a elegir entre los posibles existentes que se han agotado, sino a inventar un posible, a volvernos “videntes”, es decir, a vislumbrar potencias justamente a partir de la impotencia. Es un extraña manera de describir una época, pensarla desde el fondo del agotamiento, apoyarse en la impotencia para recusar la melancolía, la esperanza, la angustia o el voluntarismo.

Toni Negri protestó una vez, con razón, de que la gente se acercaba a él con la expectativa de escuchar palabras de esperanza. Y agregó que no era un sacerdote spinozista, que no era su papel expresar retóricas de alegría o de superabundancia, y que la función de la teoría no es reconfortar a nadie. Yo creo que, así, Negri pudo tematizar un cierto desencantamiento, incluso un vaciamiento, pero no para deleitarse en una voluptuosidad nihilista, como lo hicieron algunos de sus contemporáneos, sino más bien para señalar que algo se ha agotado, una época, un ciclo, un paradigma y que frente a eso no deberíamos atrincherarnos en lo que se está acabando. Que era necesario admitir el vacío –no es una palabra muy frecuente en el discurso político. Pero el vacío que él señalaba, a diferencia del vacío depresivo, parecía más bien una indeterminación, la sensación de que está todo abierto, potencia de innovacion, desutopía. Ese vacío permite un principio nuevo, un deseo autónomo, un procedimiento absoluto. Es a partir de un vacío así como él trata de pensar una potencia no subordinada ni a la necesidad, ni al resentimiento, ni a la compasión. No se trata de llenarlo a la manera voluntarista o nostálgica, sino insistir en afirmar la pura pulsión etica y la pasión constructiva.

Así que ni Deleuze ni Negri, aunque muy distintos entre ellos, son líricos leopardianos o sacerdotes spinozistas. Cada uno articuló a su manera, y con su tono, la relación entre la discontinuidad y el acontecimiento. Otros pensadores como Badiou o Rancière, así como Benjamin antes que todos ellos, lo hicieron de otra manera y con otra tonalidad afectiva. Tendríamos que pensar mejor lo decisivo que es eso en un pensamiento, la tonalidad afectiva…

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Otras dos entrevistas con Peter Pál Pelbart:

Sobre el agotamiento de los posibles

“Cuando uno piensa está en guerra contra sí mismo…”

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NOTAS*:


1. Territorio, reterritorialización, desterritorialización: la noción de territorio se entiende aquí en un sentido muy lato, que desborda el uso que recibe en la etología y en la etnología. El territorio puede ser relativo a un espacio vivido, así como a un sistema percibido en cuyo seno un sujeto se siente «en su casa». El territorio es sinónimo de apropiación, de subjetivación encerrada en sí misma. El territorio puede desterritorializarse, esto es, abrirse y emprender líneas de fuga e incluso desmoronarse y destruirse. La desterritorialización consistirá en un intento de recomposición de un territorio empeñado en un proceso de reterritorialización. El capitalismo es un buen ejemplo de sistema permanente de desterritorialización: las clases capitalistas intentan constantemente «recuperar» los procesos de desterritorialización en el orden de la producción y de las relaciones sociales. De esta suerte, intenta dominar todas las pulsiones procesuales (o phylum maquínico) que labran la sociedad.

2. Proceso: secuencia continua de hechos o de operaciones que pueden conducir a otras secuencias de hechos y de operaciones. El proceso implica la idea de una ruptura permanente de los equilibrios establecidos. El término no se emplea aquí en la acepción de la psiquiatría clásica, que habla de proceso esquizofrénico, lo que implica siempre la llegada a un estado terminal. Su acepción está más próxima de lo que Ilya Prigogine e Isabelle Stengers denominan «procesos disipativos».

3. Agenciamiento:
noción más amplia que la de estructura, sistema, forma, proceso, etc. Un agenciamiento acarrea componentes heterogéneos, también de orden biológico, social, maquínico, gnoseológico. En la teoría esquizoanalítica del inconsciente, el agenciamiento se concibe en oposición al «complejo» freudiano.

4. Esquizoanálisis: mientras que el psicoanálisis partía de un modelo de psique basado en el estudio de las neurosis, centrado en la persona y en las identificaciones, y que opera a partir de la transferencia y de la interpretación, el esquizoanálisis se inspira, por el contrario, en las investigaciones acerca de la psicosis; se niega a rebajar el deseo a los sistemas personológicos y niega toda eficacia a la transferencia y a la interpretación.

5. Molecular/molar: los mismos elementos que existen en flujos, estratos, agenciamientos, pueden organizarse de un modo molar o de un modo molecular. El orden molar corresponde a las estratificaciones que delimitan objetos, sujetos, las representaciones y sus sistemas de referencia. El orden molecular, por el contrario, es el de los flujos, los devenires, las transiciones de fase, las intensidades. Llamaremos «transversalidad» a este atravesamiento molecular de los estratos y los niveles, operado por los diferentes tipos de agenciamientos.

6. Plan de consistencia: los flujos, los territorios, las máquinas, los universos de deseo, con independencia de su diferencia de naturaleza, se remiten al mismo plano/plan de consistencia (o plano/plan de inmanencia), que no debe confundirse con un plano de referencia. En efecto, las diferentes modalidades de existencia de los sistemas de intensidades no atañen a idealidades transcendentes, sino a procesos de engendramiento y a transformaciones reales.

7. Máquina (y maquínico):
distinguiremos aquí la máquina de la mecánica. La mecánica está relativamente encerrada en sí misma; sólo mantiene relaciones perfectamente codificadas con los flujos exteriores. Las máquinas, consideradas en susevoluciones históricas, constituyen, por el contrario, un phylum comparable a los de las especies vivas. Se engendran unas a otras, se seleccionan, se eliminan y dan lugar a nuevas líneas de potencialidad. Las máquinas, en sentido lato, esto es, no sólo las máquinas técnicas sino también las máquinas teóricas, sociales, estéticas, etc., nunca funcionan de forma aislada, sino por agregado o por agenciamiento. Por ejemplo, una máquina técnica en una fábrica entra en interacción con una máquina social, con una máquina de formación, con una máquina de investigación, con una máquina comercial, etc.

8. Rizoma, rizomático: los diagramas arborescentes proceden con arreglo a jerarquías sucesivas, a partir de un punto central, de tal suerte que cada elemento local remonta a ese punto central. Por el contrario, los sistemas en rizomas o en emparrado pueden derivar hasta el infinito y establecer conexiones transversales sin que puedan ser centrados o clausurados. El término «rizoma» procede de la botánica, donde define los sistemas de tallos subterráneos de plantas vivaces que emiten yemas y raíces adventicias en su parte inferior. (Ejemplo: rizoma de lirio).

* Todas las notas han sido extraídas del “Glosario de esquizoanálisis” presente al final de Plan sobre el planeta, de Félix Guattari (Traficantes de Sueños, 2004)

Para ler la versión completa de la entrevista con Peter Pál Pelbart aparecida el 13 de febrero de 2010 en Público. Realizada tras la visita de Peter Pál a Madrid: Público.es