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novembro 17, 2010

O imaginário da violência é alimentado pela mídia, segundo o professor Adrelino Campos, da Uerj

PICICA: "A violência tem muito do imaginário", afirma o professor. "As pessoas passam a enxergar as coisas a partir desse discurso. Quem vive no lugar apontado como violento reconhece o problema, mas não com a intensidade que lhe é atribuída. Para eu tornar um lugar violento, basta colocá-lo na mídia. O imaginário da violência potencializa os fatos."

Quarta-feira, 17 de novembro de 2010
ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 616 - 16/11/2010

ENTREVISTA / ANDRELINO CAMPOS
Mídia alimenta imaginário da violência
Por Mauro Malin em 16/11/2010



O professor de Geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Andrelino Campos vê na atuação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) fluminenses não apenas um instrumento de combate à violência, mas também de reordenamento do solo urbano. E lamenta que o foco da mídia se concentre na questão do tráfico de drogas e suas consequências, porque a mídia robustece assim o imaginário da violência, socialmente tão importante quanto a violência propriamente dita. 

Andrelino Campos é autor do livro Do Quilombo à Favela – A Produção do "Espaço Criminalizado" no Rio de Janeiro, publicado em 2005. Ele dá como exemplo de imaginário de violência inflado o Jardim Catarina, considerado um dos bairros mais violentos do município de São Gonçalo, no Grande Rio. "Alguns pontos são destacados, ganham a atenção da imprensa, e qualquer evento passa a ser visto como tributário do tráfico. Na verdade, só uma parte da violência é decorrente do tráfico de drogas. Quanto se começa a mostrar muito determinada coisa, podemos ter certeza de que outras coisas, muito relevantes, ficarão escondidas", desconfia. 

E exemplifica:

"A cocaína faz parte do ambiente no Rio de Janeiro, mas não é um ponto central na favela. Existem vários outros fatores geradores de violência. A violência na escola, por exemplo, tem sido noticiada. O fato é que até algum tempo atrás as famílias tinham maior controle sobre as crianças. Hoje, as crianças chegam da escola e ficam sozinhas. Crescem sem controle nenhum. E, pior, muitos chegam à adolescência e à idade adulta sem qualquer tipo de formação."

Fora de foco
Na lista de fatos ou fenômenos que não são devidamente percebidos porque o foco da mídia está muito voltado para o "combate" ao tráfico, Campos cita uma forma de corrupção associada ao Bolsa Família: "Há crianças que não frequentam a escola, mas os pais corrompem diretores para evitar que isso chegue ao conhecimento de quem é responsável por fiscalizar o cumprimento dos compromissos que habilitam ao benefício".

A degradação de padrões morais se apresenta em várias modalidades. Segundo Campos, em São Gonçalo algumas famílias descobriram como ganhar dinheiro de professores. "Ameaçam ir ao Ministério Público ou a uma delegacia de polícia denunciar o professor por agressão ou assédio contra aluno. Cobram do professor, cujo salário, dando aula em duas ou três escolas, está na casa dos R$ 2 mil, R$ 500 para não fazer isso. Em alguns casos, o professor acaba preso."

A questão do ensino, em si, também não merece da mídia a atenção necessária, diz o professor da Uerj: 

"Os professores são recém-formados, nas escolas se colocam vinte, trinta alunos em cubículos. As escolas acabam servindo para muitas outras coisas que não a educação: comer, dormir, jogar bola. Servem até para ensinar. Não é de estranhar que haja tanta violência nelas."

Escola é síntese da sociedade
"A escola está violenta, mas ela é uma síntese da sociedade", diz o professor. "Recebe pessoas que vêm da sociedade e as devolve para ela. Como se sabe, em muitas escolas os alunos marcam sua filiação a uma das organizações criminosas do Rio pela escolha de um boné de determinada cor. Os garotos assumem uma cor, sem mesmo saber por quê."

Não estaria havendo uma deficiência nas pautas da imprensa? Para Campos, não: "A mídia é direcionada. Tem interesse em dizer algumas coisas e não outras. Dirige a cobertura para a violência e a ação da polícia".

"A violência tem muito do imaginário", afirma o professor. "As pessoas passam a enxergar as coisas a partir desse discurso. Quem vive no lugar apontado como violento reconhece o problema, mas não com a intensidade que lhe é atribuída. Para eu tornar um lugar violento, basta colocá-lo na mídia. O imaginário da violência potencializa os fatos."

Como assim?

"Se, quando ocorre um evento violento, ele é noticiado e depois o caso e o local saem do noticiário, não existe a potencialização. Mas em alguns casos, sobretudo quando acontece algo muito violento, um lugar é associado com a violência durante um longo período. Como no caso do assassinato do menino João Hélio [Fernandes Vieites, nascido em 2000; durante assalto ao carro da mãe em Oswaldo Cruz, Zona Norte, em 2007, ficou preso pelo cinco de segurança do lado de fora e foi arrastado por centenas de metros quando os ladrões levaram o carro]. Se a cobertura se prolonga, sempre haverá alguém que leia o caso como novo. O jornal administra o assunto em doses homeopáticas, até que ele se exaura completamente, ou melhor, seja cortado por outro evento. O jornal faz, na dimensão do tempo, uma conexão do local com eventos violentos que não corresponde à vida real."

Segundo Campos, a cidade toda é pontilhada de eventos, mas o tratamento dado na mídia é seletivo. "O assassinato de Artur Sendas [2008], um empresário importante", exemplifica, "ocorreu em Ipanema. Mas Ipanema não perdurou no noticiário como lugar de violência. Há outras coisas para se falar de Ipanema, coisas positivas. O assunto só retornou à mídia quando houve o julgamento do assassino."

Outra faceta da dimensão temporal é a ligação que se faz entre fatos ocorridos em momentos distintos. O professor da Uerj aponta: 

"A mídia falada, por exemplo, quando relata um fato novo, sempre vai buscar referência em algum fato antigo. Há uma invasão policial no Morro dos Macacos, virá como referência a derrubada de um helicóptero da polícia ocorrida lá, fato gravíssimo, não há dúvida, mas sem conexão com a invasão que está sendo noticiada."

Cidade e território
O professor faz uma distinção entre cidade e território. "Copacabana, Ipanema, Madureira são parte da cidade. A Serrinha, o Vidigal, a Cidade de Deus são territórios. Território é um recorte espacial onde pré-existe uma hierarquia e o conflito é constante." Há fatos violentos na cidade, mas a polícia não invade os lugares da cidade. "Quem vive em favela pode ser invadido a qualquer momento, porque território é um lugar de luta", constata.

A associação entre a dimensão espacial e o imaginário opera porque "ninguém vive cem por cento da cidade. Cada um conhece alguns bairros e algumas pessoas", diz Campos. "Como a capacidade de circular é extremamente restrita, cada pessoa conhece os lugares onde estuda ou trabalha, mora, frequenta bares, se diverte etc. O resto vem do imaginário."

A imagem que os habitantes têm da cidade é, portanto, fornecida pela mídia. Mais uma razão para o professor da Uerj condenar a atenção quase obsessiva dada à questão da segurança pública. Para exemplificar por que acha que deveriam ser enfocadas também outras questões, como a do reordenamento urbano, ele menciona um texto seu de 1997 no qual mostrou que, em aparente paradoxo, as áreas envolvidas no Favela-Bairro, programa criado em 1994 pelo então prefeito César Maia, começaram, depois de uma valorização inicial, a perder valor, porque os investimentos nesses lugares foram pontuais e não contínuos."Como a violência foi exacerbada nos últimos dez a quinze anos, houve uma depreciação do solo urbano nesses locais", aponta Campos. 

O que Copa e Olimpíada podem – ou não – trazer
Com as intervenções atuais ‒ presença de UPPs e obras de urbanização, teleféricos, etc. haverá, como no caso do Favela-Bairro, valorização no primeiro momento. E o desdobramento do processo poderá ser bem diferente.

"Se for regularizada a posse dos lotes, o mercado imobiliário poderá comprar terras e fazer seus próprios investimentos", diz Campos. "Estamos no limiar de dois projetos imensos: a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016. Imagine-se o que, nessa situação muito especial, poderá ser feito numa área como o Vidigal, por exemplo."

Para o professor, o Rio tem a possibilidade de ser visto como modelo, a exemplo do que aconteceu com Barcelona depois da Olimpíada de 1992. "A partir de 2014-2016, o que se fizer aqui pode se irradiar para todo o país e para o mundo", afirma.

Apesar de levantar essa hipótese, ele é cético quanto à possibilidade de que a realização dos dois grandes eventos se traduza em melhorias reais para a população do Rio de Janeiro. "O Pan-Americano veio, acabou, a cidade permaneceu a mesma. Acredito que com a Olimpíada a imagem poderá se modificar, algumas estratégias de sobrevivência serão criadas, mas isso não vai alterar muito a vida das pessoas. Continuará havendo assaltos, com mais ou menos violência, mortes. As favelas e outros lugares subalternos continuarão sendo territórios, onde viver é uma arte e morrer violentamente é consequência do contexto."

Fonte: Observatório da Imprensa

setembro 19, 2010

4º Fórum Violência, Participação Popular e Direitos Humanos no Rio de Janeiro

4º Fórum Violência, Participação Popular e Direitos Humanos no Rio de Janeiro



Em comemoração ao Dia Internacional da Paz, o Centro de Informação das Nações Unidas do Brasil (UNIC Rio), o Movimento Rio de Paz e o Centro Cultural Justiça Federal têm a honra de convidar para o 4º Fórum Violência, Participação Popular e Direitos Humanos.
 
O evento será no dia 21 de setembro de 2010, no Rio de Janeiro. 

Local: Centro Cultural Justiça Federal (Av. Rio Branco, 241, Centro). Não é necessário confirmar presença.

Acesse a programação:
Clique aqui para acessar o convite (formato PDF).

A Segurança Pública no Estado do Rio de Janeiro nos anos 2007-2010

 

14:00h – Abertura
  • Márcia Helena Ribeiro Pereira Nunes – Juíza federal e conselheira do CCJF
  • Giancarlo Summa – Diretor do Centro de Informações das Nações Unidas do Brasil
  • Antônio Carlos Costa – Presidente do Rio de Paz
  •  
14:30h – UNIDADE DE POLÍCIA PACIFICADORA: fim do domínio territorial armado de facções criminosas?
  • Robson Rodrigues da Silva – Coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro e comandante das Unidades de Polícia Pacificadoras
  • Jacqueline Muniz – UCAM – Sócia fundadora da Rede Latino-Americana de Policiais e Sociedade Civil
  • Mediador: Jorge Antonio Barros – Jornalista e autor do blog Repórter de Crime

16:15h – Intervalo

16:30h – SISTEMA PRISIONAL: avanço na reintegração social do preso?
  • Elizabeth Sussekind – Professora de criminologia da Puc-Rio emembro do conselho consultivo do Departamento de Pesquisas Judiciárias do CNJ
  • Orlando Zaccone – Delegado de Polícia Civil do Rio de Janeiro e coordenador – Nucop / Polinter – Núcleo de Presos Polinter
  • Mediador: Giancarlo Summa, Diretor do Centro de Informações das Nações Unidas do Brasil

17:45h – Intervalo

18:00h – MORTES VIOLENTAS: tendência para a redução de homicídios?
  • Ana Paula Miranda – Antropóloga e coordenadora do Curso de Especialização em Políticas Públicas de Justiça Criminal e Segurança Pública
  • Ignacio Cano – Professor e coordenador da Pós-Graduação de Ciências Sociais daUERJ
  • Mediador: Elizabeth Sussekind – Professora de criminologia da PUC

19:45h – Encerramento

Fonte: UNIC Rio de Janeiro

setembro 15, 2010

Hoje à noite, o CRP de São Paulo apresenta "Relembrando Toninho". Violência e impunidade.

Ecos - um tiro e perguntas sem respostas [Part. 1] from Ecos on Vimeo.

Ecos - um tiro e perguntas sem respostas [Part. 2] from Ecos on Vimeo.

Ecos - um tiro e perguntas sem respostas [Part. 3] from Ecos on Vimeo.

Ecos - um tiro e perguntas sem respostas [Part. 4] from Ecos on Vimeo.

Filme independente de diretores estreantes
Pedro Henrique França e Guilherme Manechini
retrata o assassinato de Toninho do PT e a luta de uma viúva e sua filha há oito anos em busca da verdade


***

Videoclube CRP
Relembrando Toninho15/09/2010

Há nove anos Antonio da Costa Santos, então prefeito de Campinas, morreu assassinado. Até hoje não se determinou a autoria nem a punição ao crime.

Para que esse triste episódio de nossa história recente não se apague de nossa memória e afim de discutir as consequências subjetivas da violência e da impunidade, o CRP promove o videoclube “ECOS”, documentário independente que retrata a trajetória e as investigações do Caso Toninho.

Cineclube: ECOS. (Brasil/2008, aprox. 70 min.) Documentário. Dir. Pedro Henrique França e Guilherme Manechini

Apresentação: Paula Moura Lacerda de Souza, psicóloga, membro da Comissão de Saúde do CRP – Subsede Campinas.

Debatedores:

Roseana Moraes Garcia, representante do movimento “Quem matou Toninho?”, mestra e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP, especialista em Saúde Mental Infantil pela FCM-Unicamp, professora e supervisora da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana, diretora do Centro Winnicott Campinas.

Eduardo Passos, doutor em Psicologia, professor Associado do departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Data: 15/09/2010 (quarta-feira)

Horário: 19h00

Local: Hotel Nacional Inn - Av. Benedito de Campos, 35 - Jardim do Trevo - Campinas - SP

Informações - CRP: (19) 3243-7877 / 3241-8516

Fonte: CRP-SP

julho 29, 2010

Projetos de Prevenção a Violência


Projetos de Prevenção a Violência


Prezados Gestores,


A Igarape, rede de pesquisadores, está fazendo um mapeamento de projetos e programas de redução e prevenção a violência armada no Brasil.


Esta iniciativa faz parte de um projeto maior apoiado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e implementado em 6 países por um consórcio de parceiros liderados pelo Small Arms Survey, sediado em Genebra, na Suíça.


O objetivo do projeto é mapear os projetos e explorar suas características específicas em cada país, em suas áreas urbanas e rurais, além de criar uma base de dados que será disponibilizada para potenciais parceiros e apoiadores. O projeto é focado em seis países, Brasil, Colômbia, Libéria, África do Sul e Timor-Leste.


Caso vocês ou suas prefeituras desenvolvam projetos desta naturea e tenham interesse em compartilar a iniciativa com os pesquisadores, segue em anexo, uma carta de apresentação da pessoa responsável e o questionário.


ps: podem ser projetos de atendimento à vítimas de violência, projetos de prevenção a grupos em situação de risco, projetos de melhoria das instituição que tem como atuação a violência urbana...


Qualquer dúvida, entrem em contato.


Um abraço,
Milena Duarte
www.juventude.sp.gov.br


Coordenadoria Estadual de Juventude
Secretaria de Relações Institucionais
(11) 3333-0586
mdnpereira@sp.gov.br
__._,_.___





Nota do blog: A dica é de Fernanda Penkala.

julho 19, 2010

Luto como Mãe


cinemanosso | 16 de julho de 2010
Trailer do Filme Luto como Mãe, com direção de Luis Carlos Nascimento, 1º longa Metragem do Cinema Nosso.

Nota do blog: Em dez anos, mais de 5 mil pessoas morreram vítimas de ações da polícia. Em sua maioria eram negros, jovens e pobres.

julho 13, 2010

Violência, gênero e mídia


DEBATE ABERTO

Crimes, machismo e vinganças

Os brasileiros mais atentos sabem que inúmeras mulheres apanham, algumas são torturadas, outras mortas e todas são desvalorizadas diariamente pelas grandes e pequenas mídias. Nestas, são tratadas como carne, bichos ou brinquedos masculinos.
As grandes mídias já esqueceram os crimes rumorosos de ontem e já escolheram um novo para continuar o espetáculo de sangue e de ódio. Afinal, o show não pode parar. A idéia é esta: juntar a oportunidade ao script de sempre. Os ingredientes são bem conhecidos, tornam-se ainda mais fortes quando se trata de pessoas que já haviam alcançado alguns degraus da fama e do dinheiro fácil.

Os grandes assuntos que perpassam estes acontecimentos funestos estão presentes nas palavras usadas para noticiar os fatos. Mas, esta presença não é interpretada, o que interessa é narrar o horror e ganhar audiência com os detalhes sórdidos. Estes atraem o grande público, já corrompido com a lógica irracionalista do mundo cão do cotidiano de suas vidas e o descrito no universo alucinado das reportagens.

Quando menos se esperava, o Brasil parou. Parece que agora só existe um crime e que aquele fato é o único assunto a ser consumido. A cobertura das emissoras de Tv e de rádio, dos jornais e das revistas impressas é cerrada. Tudo ecoa na Internet, repetindo-se interminavelmente até o cenário final do julgamento. Ninguém é poupado dos detalhes, por mais escabrosos que sejam. Os operadores da Justiça e da Polícia dão inúmeras entrevistas focando o drama deste último caso, como ocorreu nos anteriores. Tudo se repete melancolicamente, sem qualquer reflexão.

O crime escolhido agora para representar o Brasil nas mídias tem o poder aparente de se fazer esquecer de todo o resto. Não há mais uma eleição em curso. A tragédia do Golfo do México sumiu do mapa midiático. A Copa do Mundo acabou, porque o Brasil foi desclassificado. Os mil e um problemas do Brasil são reduzidos a um único episódio, com farta mobilização das pessoas que clamam por justiça e gritam xingamentos para os acusados que desfilam frente às câmeras. A catarse, obtida com muita emoção alienada, paralisa o pensamento, impedindo qualquer espaço para o advento de uma visão racional.

O grito arcaico de vingança é fortemente estimulado e as pessoas acreditam que haverá justiça unicamente com a necessária punição daqueles culpados. O contexto onde o crime brutal foi cometido desaparece do cenário. Ele é ocupado pelos arquétipos do mal e do bem, personalizados pela bela e a fera, esta última é, com razão, estigmatizada como fosse única e solitária. Com isto, os verdadeiros problemas sociais, econômicos, políticos e culturais que permitiram a barbárie deste fato, como a de muitos outros, são colocados para baixo do tapete.

A violência deste último crime foi radical e impressionante. Entretanto, infelizmente, tratar violentamente mulheres é um esporte nacional. Não casualmente, foi feita uma lei – Maria da Penha – para tentar coibir e punir fatos desta natureza. Não são poucas mulheres que são assassinadas pelo ‘crime’ de serem mulheres. Ainda há um contexto social que apóia e considera normal o sexismo de muitos homens que se acreditam como superiores às mulheres e com o direito de dispor delas como quiserem.

A solidariedade masculina vista no episódio é habitual, atingindo, igualmente, a um grande conjunto de mulheres que aceitam sem qualquer problema o machismo de seus parceiros. O sexismo é uma ideologia, não tem sexo, idade, cor ou classe social. Esta solidariedade explicaria a inação das autoridades que foram alertadas deste crime anunciado pela própria vítima, que registrou o problema em uma longa entrevista incriminadora dada à maior rede de Tv do país e deu queixa às autoridades. Tudo isto faz com que se compreenda sua ingenuidade relativa de vítima traída por quem poderia ajudá-la: as instituições de Estado.

Philippe Breton, falando dos episódios de violência terríveis conhecidos em casos como o do nazifascismo e das guerras dos últimos cem anos, desenvolveu a hipótese da lógica da vingança. Este se aplica a este caso, com as diferenças de não se tratar de um bando organizado de grandes proporções e de um massacre étnico ou político específico. Mas, nele pode se ver os ovos da serpente chocando sem maiores problemas.

A violência de indivíduos ou de bandos não sai de uma cartola mágica. Ela surge de um processo complexo, onde ela é disseminada, desde a mais tenra idade. Homens ou mulheres violentas não são necessariamente loucos. As pesquisas de Breton e de outros mostram que a loucura explicaria a violência de alguns indivíduos de um mesmo bando de facínoras. Seria incapaz de fazer compreender a violência extrema de todos.

A maioria dos violentos sofreria de uma espécie de divisão psíquica. Esta seria cultivada desde cedo no ambiente familiar, nas comunidades onde se vive, nas instituições que recolhem menores e adultos, nas escolas, nos grupos de camaradagem e, hoje, com grande força, na exposição diária às mídias que exploram a violência de modo sistemático e radical. As mídias isoladamente não transformariam ninguém em pessoa violenta, mas dariam uma boa ajuda. O ambiente econômico-político geral seria um outro fator facilitador da explosão de violência radical.

O primitivismo arquetípico da vingança contra uma pessoa simboliza, nesse caso, o ato de um pequeno grupo masculino que empunhou o ódio contra gênero feminino. Este visto como inferior e sem qualquer direito. As coisas saíram do controle e chegaram ao extremo. Todavia, os brasileiros mais atentos sabem que inúmeras mulheres apanham, algumas são torturadas, outras mortas e todas são desvalorizadas diariamente pelas grandes e pequenas mídias. Nestas, são tratadas como carne, bichos ou brinquedos masculinos.

Não deveria causar espanto a ninguém a possibilidade de acontecer o que aconteceu. Não é segredo que o machismo seduz a consciência feminina brasileira. É bastante comum que muitas mulheres, principalmente, mas não unicamente as mais pobres, achem que o comportamento masculino sexista e avesso ao amor seja natural e correto. Infelizmente, a consciência crítica do problema é indigente, tanto para os homens, como para uma grande parte das mulheres. Como estas são as mais fracas, tendem a sofrer mais. Mas, há situações onde as coisas se invertem e a vingança feminina aparece com todo o seu furor.

Nas classes médias, onde elas têm mais poder, facilmente, a vingança feminina se materializa, com a ajuda das instituições de Estado, no fundo conservadoras e defensoras da ordem tradicional. O fenômeno da alienação parental afeta homens e mulheres. Entretanto, o mais comum que esta prática seja mais feminina do que masculina. A única solução para as relações de gênero equilibradas é que elas sejam pautadas pela real afetividade e não por interesses mesquinhos, como se viu no crime em tela.

O ódio de qualquer natureza é algo mortal e avesso a qualquer racionalidade. Só se justifica em situações de defesa de uma forte opressão. Ao adotá-lo de modo frívolo e inconseqüente, os personagens do crime em tela optaram por algo vazio e sem sentido. Deverão pagar exemplarmente pelos seus crimes, assim todos os brasileiros conscientes esperam. Todavia, este, bem como outros crimes, deveria também servir para que se compreendessem melhor vários aspectos problemáticos da sociedade brasileira.

Luís Carlos Lopes é professor e escritor.

julho 06, 2010

Violência no Sul do Pará

krishnamurtibr1 | 5 de fevereiro de 2010
"Nas Terras do Bem-Virá"
(Brasil, 2007, 111min.- Direção: Alexandre Rampazzo)

Um dos documentários mais completos para se entender a questão dos conflitos agrários no Brasil.
Trabalhadores sem opção de sobrevivência em seus estados partem para a Amazônia, no Pará, para trabalhar nas fazendas iludidos pelo sonho de se poder conseguir o sustento de suas famílias. Mas a realidade é outra, grande parte não volta mais, torna-se um contingente de trabalhadores escravos, inseridos em um ciclo vicioso de trabalho e dívida com seu patrão. Após serem explorados durante décadas, muitos tornam-se indigentes. Muitos dos que tentam escapar desse sistema, são assassinados.
O chamado "Agronegócio" do latifúndio está quase sempre associado a diversas práticas nocivas a sociedade e ao planeta: quase todas as fazendas da região são produtos da grilagem, ou seja, são terras da União que de alguma forma foram fraudadas em nome de alguém; os pistoleiros, quando não a polícia do Estado, promovem a "limpeza" humana das áreas, ameaçando, assassinando os colonos que lá antes habitavam. Esse modelo está ligado a derrubada de florestas, extinção de espécies, queimadas, contaminação dos recursos hídricos, a concentração de terras e de renda.
Para fazer frente a isso, surgem os grupos sociais, como o Movimento dos Sem Terra, a Pastoral da Terra e personalidades internacionais, como Dorothy Stang, que enfrentam o poder dos fazendeiros, políticos corruptos, assassinos e a mídia tradicional.

Crédito & Download:
http://docverdade.blogspot.com/2010/0...

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MILICIAS ARMADAS MATAM E PROVOCAM TERROR NAS FAZENDAS CRISTALINO E ESTRELA DE MACEIÓ, SUL DO PARÁ

Conforme informações 3 pessoas foram assassinadas entre o final do mês de maio e inicio de junho de 2010, em 02 ocupações de terra nos Municípios de Santana do Araguaia e Cumaru do Norte, no Sul do Pará. 

O lavrador Paulo Roberto Paim, posseiro da ex-Fazenda Cristalino, em Santana do Araguaia, vivia fortemente ameaçado de morte. Apesar de ter registrado ocorrência na Delegacia de Policia de Santana do Araguaia, ele foi assassinado em 28.05.10 e toda a diretoria da Associação dos Pequenos e Médios Produtores Rurais dos Retiros 1 ao 15 da antiga Fazenda Cristalino também está ameaçada. 

Trata-se de uma ocupação realizada em 2008, quando centenas de famílias de pequenos agricultores ocuparam essa área. Após a ocupação, durante uma reunião na sede da Fazenda Cristalino, na presença do então Superintendente do INCRA, Sr. Raimundo Oliveira, de autoridades locais e de centenas de pessoas, a Deputada Estadual Bernadete Ten Caten e o Deputado Federal Zé Geraldo se comprometeram com a regularização da posse das famílias, garantindo que dentro de 90 dias estaria criado o Projeto de Assentamento.  

Passado mais de um ano, a promessa não foi cumprida e a situação das famílias é trágica: passam fome, sofrem ameaças, perseguição, extorsão e toda sorte de violência por parte de grupos fortemente armados que os pressionam para sair dali. As famílias não conseguem sequer colocar roças, pois disputam espaço com os fazendeiros e com os seus animais. 

Outra tragédia humana e social acontece no Acampamento “Cangaia”, na Fazenda Estrela de Maceió, Município de Cumaru do Norte, onde segundo informações, um grupo fortemente armado e encapuzado invadiu o acampamento há cerca de 3 semanas e mataram 2 pessoas e outros estariam desaparecidos. As centenas de famílias ocupantes da área estão aterrorizadas pelo grupo armado e pressionadas a desocupar a terra. O clima é de total pavor. Foi instaurado inquérito policial pela DECA (Delegacia de Conflitos Agrários), mas tudo indica que terão mais assassinatos nas 2 áreas em conflito se não forem tomadas providencias urgentes.  

A tarefa de encontrar uma solução urgente para essa tragédia e evitar outras mortes é de responsabilidade da DECA, do INCRA, bem como do Deputado Federal Zé Geraldo e da Deputada Estadual Bernadete Ten Caten.   

Xinguara-PA, 01 de julho de 2010.

COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

fevereiro 22, 2010

Chega de violência e extermínio de jovens


Vídeo de divulgação e apresentação da Campanha Nacional contra a violência e o extermínio de jovens, produzido pelo Rali de Comunicação - Trilha Cidadã em São Leopoldo/RS durante o Fórum Social Mundial 2010.

CHEGA DE VIOLÊNCIA E EXTERMÍNIO DE JOVENS!

www.juventudeemmarcha.org

fevereiro 03, 2010

"Violência repõe luta de classes no centro do debate da esquerda"

A violência do Estado
Foto postada em grazaza.blogspot.com
"Violência repõe luta de classes no centro do debate da esquerda"

Resultado da ação do Estado que, por um lado, não garante a estrutura necessária para uma vida digna nas grandes cidades e, por outro, responde à criminalidade através de uma intervenção militar nesses territórios, a violência urbana tem transformado as periferias em espaços de resistência. Para o escritor uruguaio Raul Zibechi, a esquerda precisa enxergar este cenário e retomar a luta revolucionária, como uma alternativa ao crime para a juventude e à militarização imposta pelo Estado.

Bia Barbosa

O título da mesa, em mais uma das atividades do FSM Temático da Bahia, neste domingo (31), era “Violência nas periferias urbanas e ameaça è democracia”, mas unanimemente, entre palestrantes e participantes, o centro do debate deveria ser a militarização e a violência do Estado nas periferias. A explicação é simples: ao contrário do que propagandeiam os meios de comunicação, os grupos dominantes e os responsáveis pelas políticas de segurança pública no país, o principal responsável pela violência que atinge a imensa maioria das periferias brasileiras não é o crime organizado, e sim o próprio Estado brasileiro.

“A violência de hoje das regiões metropolitanas é sintoma das condições em que vivem os trabalhadores e trabalhadoras nessas áreas. Faltam empregos, urbanização, equipamentos sociais, educação e espaços de convívio social. As pessoas vivem sem acesso aos direitos básicos à sobrevivência humana e, assim, se tornam reféns desta situação, sendo levadas à marginalidade. As áreas dominadas pelo tráfico e pelo crime organizado são aquelas onde o poder público não se faz presente”, explica Bartíria Lima da Costa, presidente da CONAM (Confederação Nacional das Associações de Moradores).

Neste contexto, a resposta do Estado à criminalidade crescente nas periferias não tem sido responder as suas causas estruturais, e sim promover uma intervenção com base na presença da polícia militar. Em muitas regiões, a polícia é a principal ou única presença do Estado nas periferias.

“Isso parte da criminalização da pobreza. No Uruguai, Argentina, Chile há muitas políticas sociais para a periferia, mas uma boa parte delas são formas de disciplinamento dos pobres”, acredita o escritor e ativista uruguaio Raul Zibechi. “A ameaça à democracia, na verdade, vem da suposta resposta que o Estado, apoiado por um setor da sociedade e pela mídia, dá a essa questão da violência: é uma resposta militar, violenta e policial. Tanto que organizações internacionais de direitos humanos já disseram que a polícia brasileira é a que mais mata no mundo. Essa é uma subversão completa da democracia”, critica o carioca Maurício Campos, da Rede Contra a Violência.

Somente em 2008, 2.340 pessoas foram mortas em Salvador e região metropolitana, das quais 60% tinham em seu atestado o auto de resistência da polícia militar. De acordo com a coordenação da campanha “Reaja ou será morta, reaja ou será morto”, o modelo de segurança pública no estado da Bahia não se alterou na gestão atual. “Exigimos a demissão do secretário de segurança pública, César Nunes. Esses números são uma aberração que precisamos bradar pelo país. E este cortejo de defuntos que está atrás de nós nos convida a isso: a reagir”, afirma Hamilton Borges. “Se quisermos sobreviver, precisamos politizar a nossa morte, senão ela passará despercebida. Não somos reféns do medo veiculado pela mídia. Todos os dias somos ameaçados e podemos morrer. Mas o medo não nos neutraliza”, completa.

E se num momento havia a necessidade de um discurso de ataque aos negros e pobres nas periferias, por parte da elite conservadora, agora ele não é mais necessário, analisa a jornalista Suzana Varjão, do Movimento Estado de Paz, que articula comunicadores em torno do debate sobre o tema, e integrante do grupo gestor do Fórum Comunitário de Combate à Violência. Agora, o pensamento está embutido no próprio discurso da imprensa, em diálogo com os interesses das classes dominantes.

Mesmo a violência dos grupos criminosos, que representa um problema sério para as periferias, foi apontada no debate como resultante de uma ação estatal secundada pela classe dominante e pelo setor empresarial: o tráfico internacional e comércio global de armas. Na avaliação de Maurício Campos, a legislação internacional – imposta pelos Estados Unidos e que vigora em todo o mundo, materializada em convenções entre os países – que proíbe a comercialização de todas as drogas, incluindo as que sequer foram desenvolvidas, e, por outro lado, libera totalmente a produção de armas, sem controle dos Estados, criou um cenário propício para a proliferação de grupos armados nas periferias.

“A legislação absoluta conta o comércio de drogas tornou esta indústria extremamente lucrativa e seu combate via repressão tem gerado uma violência enorme. Isso somado à ausência de controle da venda de armas, por uma ação consciente do sistema interestatal, tem levado a uma situação caótica nas periferias”, afirma Campos.

Como pano de fundo desta fórmula mortífera, o crescimento do capitalismo financeiro que, também sem controle dos Estados, permite à indústria da droga esconder seus lucros no sistema monetário internacional, via remessa de dinheiro aos paraísos fiscais.

Território revolucionário
Para Maurício Campo, esta situação permite ao Estado e às classes dominantes manter uma guerra permanente e progressiva contra o povo, utilizando a política de segurança pública como uma forma de elitização das cidades. “Se não percebemos isso, faremos políticas pontuais que não resolverão um problema que é global. Temos que encarar a luta do ponto de vista imperialista. Trata-se aqui de discutir projetos diferentes de organização da sociedade. A violência recoloca a questão da luta de classes, de varrer o que ainda existe de racismo e colonialismo, no centro da nossa reflexão”, afirma.

Se há um aspecto positivo nisso tudo é que a violência dos grupos criminosos e do aparato estatal tem transformado as periferias em territórios de resistência, provocada pelo sentimento de injustiça social e indignação que todas essas populações cotidianamente. Foi isso o que demonstraram os fatos acontecidos em Caracas, na Venezuela, em 1999 ou em Santa Cruz, na Bolívia, em 2008.

“Ali, onde vivem as pessoas que não têm nada a perder, há o único movimento potencialmente anti-sistêmico, e a esquerda precisa compreender esse território a partir de uma análise diferente da que fazem a mídia e as elites. Se compreendermos porque os meninos das periferias entram em relação com o crime, saberemos que buscam, não racionalmente, um pouco de dinheiro, um pouco de sucesso, mas buscam também auto-estima, autonomia, não só financeira, mas pessoal, e buscam poder”, analisa Zibechi.

“Se não formos capazes de mostrar para eles outro pensamento, não vamos mudar essa realidade. E fazer isso significa a retomada, pelos movimentos, da luta pela mudança e pela revolução. Para esses meninos, a luta revolucionaria será uma alternativa, um caminho diferente da militarização, que retomará a utopia real da revolução. Muitos ficarão com o crime, mas muitos virão conosco”, acredita o escritor uruguaio.

“Isso não nos impede de atuar aqui e agora, e operar localmente para combater a violência. Mas a necessidade é a de demolir este modelo de Estado. A perspectiva ainda é a de outro Estado, outro modelo de nação. No capitalismo, nenhum sonho é possível”, conclui Hamilton Borges.

Fonte: Agência Carta Maior

dezembro 21, 2009

Drogas “ilícitas”: tentando superar a hipocrisia

Foto postada em pintandoosete.blogspot.com

... não é a mão que acende o "baseado", mas a que dissemina a hipocrisia.
(Zefofinho de Ogum)
ou qual o mal maior: a descriminalização ou a violência do narcotráfico?

Luzete Pereira

Vou fazer aqui tão somente um exercício e defender a hipótese de que não existe qualquer interesse em acabar com o tráfico de drogas e que a sua descriminalização se apresenta como a única saída, para por fim à violência decorrente das fracassadas políticas repressivas. Seria também uma forma de a sociedade se repensar, na medida em que o uso indiscriminado da droga funciona como fuga a algo que não está sendo fácil de enfrentar pelos individuos.

Todos nós sabemos que, do ponto de vista individual, o uso indiscriminado de qualquer droga provoca danos à saúde do indivíduo. Este dano se agrava se nossa referência for aquelas drogas classificadas de ilícitas. E é disto que queremos tratar aqui. Estamos falando de cocaína, maconha, ópio, anfetaminas, drogas cujo uso indiscriminado e sem finalidade terapêutica, alteram o estado de consciência do sujeito, a ponto de provocar danos com severas repercussões sobre a vida pessoal do sujeito e estendendo-se sobre a vida familiar. E, do ponto de vista social, todos nós somos vítimas da violência decorrente do flagrante insucesso das políticas de repressão, comandadas desde sempre pelo país que agrega o maior número de usuários.

Apesar de ser um país que reúne as condições mais precisas para ser definido como portador de uma narcoeconomia, os Estados Unidos continuam reunindo o maior número de consumidores de cocaína do mundo, com 2,5% da população viciada na droga, algo em torno de 7 milhões de pessoas, seus sucessivos governos se declaram e assim agem como o grande gestor das políticas mundiais de combate ao narcotráfico.E é aí que reside a hipocrisia!

Para se entender este aparente paradoxo, é importante saber que a indústria do narcotráfico movimenta entre 750 bilhões de dólares a US$ 1 trilhão, com lucros que não se comparam àqueles obtidos em qualquer outro ramo da produção. E isto sem falar na indústria de combate às drogas e que vai desde a produção de armas, aviões, até as políticas de repressão, à manutenção de presídios e hospitais, além do fornecimento de parte importante dos insumos e compostos químicos destinados a industrialização da droga, o qual rende à economia norte-americana algo em torno de US$ 240 bilhões anuais.

Estes números se elevam se considerarmos dados da revista Newsweek. Ela estima que o capital acumulado, a cada ano, por todas as máfias do mundo é estimado em US$ 3 trilhões, ou seja, mais de 10% de toda produção mundial de bens e serviços.

Talvez esta seja a contribuição mais relevante do neoliberalismo dos anos 90: a abertura indiscriminada dos mercados, a desregulamentação financeira internacional, abrindo as comportas do sistema financeiro mundial para uma enxurrada de narco-dólares que são lavados em paraísos financeiros do Caribe, Uruguai, Argentina, Brasil, Suíça, EUA, Israel. Grandes bancos aceitam de bom grado o que se estima em US$ 1 trilhão de narco-dólares que são lavados anualmente no sistema financeiro mundial.

A parte do leão fica com os países imperialistas que recolhem a maior parte dos lucros deste negócio, enquanto que para os países "produtores de matérias primas", ficam as menores fatias do bolo e, mesmo assim, nas mãos dos grandes traficantes.

A etapa principal do processo está nas mãos dos distribuidores nos grandes centros de consumo (principalmente EUA, que consome 240 toneladas de cocaína por ano, e Europa), em geral controlada pelas máfias destes países, estas raramente denunciadas ou perseguidas. Elas ficam com a maior parte dos lucros do negócio e estima-se que, sozinho, os EUA reciclam US$ 500 bilhões do negócio. Isto transforma os EUA no país onde a narco-economia tem uma importância vital, ocupando, aproximadamente, 5% do PIB e se convertendo no setor mais importante da economia norte-americana. Estima-se que apenas 10% do lucro ficam nos países produtores, enquanto 90% vão para as mãos das máfias que operam dentro dos EUA.

Estudo efetuado pela Secretaria de Fazenda do Estado do Rio de Janeiro "A Economia do Tráfico na Cidade do Rio de Janeiro: Uma Tentativa de Calcular o Valor do Negócio", efetuado em dezembro de 2008, estimou que o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, envolvendo maconha, cocaína e crack, fatura entre 316 e 633 milhões de reais por ano.

Portanto, os interesses em jogo são muitos. No que se refere as políticas de combate às drogas, os Estados Unidos servem, novamente como referência. Dados indicam que, entre 1980 e 2000, o orçamento federal passou de 1 bilhão para 18.5 bilhões de dólares. E são reveladores estes dados trazido por Jack Cole. Detetive aposentado da Polícia de Nova Jersey, nos Estados Unidos, ele diz que quando o combate começava, na década de 1970, os estudos apontavam que cerca de 1,3% da população era viciada em algum tipo de droga. Por conta disso, começamos uma guerra, diz ele, com custos de aproximadamente US$ 100 milhões ao ano. Passadas algumas décadas, os gastos que temos nessa área já chegam a US$ 70 bilhões e o percentual de viciados continua nos 1,3%, argumenta.

E, apesar disto, o acesso a droga não é nenhum mistério. Dados de 1999 revelam que estudantes secundários americanos consideram fácil adquirir drogas ilícitas: 88% dos entrevistados disseram que é fácil comprar maconha e 47% afirmaram poder comprar cocaína sem dificuldades. E as coisas não mudaram. No Brasil, a realidade das ruas é suficiente para ilustrar o fato.

Se formos considerar a letalidade das drogas ilícitas, anualmente (para dados por volta do ano 2000) morrem, nos Estados Unidos, aproximadamente 500.000 pessoas em conseqüência do uso de drogas lícitas e apenas 20.000 mortes relacionam-se ao uso de drogas ilícitas. A ponderação dos dados mostra que as drogas lícitas são, de fato, muito mais letais: morrem 506 pessoas em cada 100.000 usuários de álcool e tabaco, contra 166 em cada 100.000 usuários de maconha, cocaína, crack e heroína. Talvez aqui, tenha que se considerar o custo psicológico e social das drogas ilícitas, sem dúvida mais danoso.

As mortes clínicas são superadas pelas mortes decorrentes da violência que ronda as políticas de combate ao tráfico. Nos Estados Unidos, 2/3 dos homicídios envolvendo drogas são provocados por armas de fogo. E aqui o dano é final.

Mas, para o grande gerente do mundo, o mal está nos produtores das matérias primas. São citados os 20 países que, de acordo com o Departamento de Estado norte-americano, são considerados produtores ou plataformas de drogas: Afeganistão, Bahamas, Bolívia, Brasil, Mianmar, Colômbia, República Dominicana, Equador, Guatemala, Haiti, Índia, Jamaica, Laos, México, Nigéria, Paquistão, Panamá, Paraguai, Peru e Venezuela.

Trata-se apenas de mais uma desculpa para criar outra frente de negócios, numa forma clássica de transferência de problema e abrir mais uma frente de exploração. Esta é a hipocrisia. Por exemplo, a pretexto de defender uma política de combate às drogas, Estados Unidos e Colômbia anunciaram, em 31 de agosto de 2000, em Cartágena, o lançamento do Plano Colômbia que, apesar do nome, estendia as ações americanas, desde o início, para o Equador e Peru. Com a eleição de Rafael Correa, o Equador se retirou do processo e revogou a presença dos EUA na base localizada em Manta, no litoral noroeste do país.

A Colômbia previa ceder sete bases em seu território e um investimento de US$7,5bilhão, em cinco anos, para fomentar o desenvolvimento econômico do país e financiar culturas alternativas em substituição às plantações de coca. Mas, do montante, os EstadosUnidos forneceriam apenas U$1,3 bilhão (incluindo U$47 milhões como ajuda ao Equador), e US$4 bilhões seriam providos pelo Governo da Colômbia, US$1.9 bilhão pela Europa e algumas instituições. Essa iniciativa afigurou-se uma estratégia, visando a redesenhar o mapa da América do Sul. Não é à toa que tal “ajuda” tem sido questionada especialmente por Bolívia, Venezuela e Equador, que veem riscos a sua soberania. Mas tal plano também foi levado aos mexicanos.

Oficialmente aprovado em maio de 2008, o Plano México tem um orçamento de 1,4 bilhão de dólares durante três anos e pretende, sobretudo, criar um corredor de capacitação das instituições de segurança mexicanas, estadunidenses e colombianas, numa clara intromissão no gerenciamento do país.

Com essa estratégia, os Estados Unidos visam diminuir a oferta da cocaína em seu país. Mas, além de obter vantagens com a venda de armas e aeronaves norte-americanas,, também ficam livres para exercer o poder na região. Como é o caso do que ocorreu no departamento de Arauca, no oriente colombiano, onde está a segunda riqueza em petróleo do país, explorada pela multinacional dos Estados Unidos Exxon. Ali, o governo estadunidense entregou uma quantidade enorme de recursos para a unidade militar da região e, assim, tratando a população camponesa local como se fosse guerrilha, perseguiram sistematicamente os movimentos sociais que se opunham ao projeto. E, em se tratando de fronteira com a Venezuela, é fácil entender o valor desse investimento.

Atualmente, os EUA mantêm cerca de 820 bases em 60 países. Dispõem de um exército de 1,5 milhões de homens, dos quais 300 mil no exterior, sendo metade no Iraque e no Afeganistão. A outra metade espalha-se por outros países. O Grande Império do Norte gasta em seu aparato bélico o equivalente a 42% dos gastos militares globais, algo próximo a 610 bilhões de dólares.

Muitas são as mentiras. Pouco interessa o combate às drogas. Pouco interessa que as sociedades regulem seu destino. Se alega que a descriminalização da droga fará com que os traficantes se desloquem para outras áreas, inclusive chegando-se ao cúmulo de alegar que isto provocaria desemprego.

Proibir é o que mais interessa. É a única coisa que interessa. Só isto gera os lucros astronômicos que assistimos impávidos. Mas a sociedade e seus homens precisam entender que políticas de prevenção (no Brasil o caso da política de combate à AIDS é exemplar) é a única política que pode dar certo. Orientar. Prevenir. Este é o caminho.

A agressividade tem que mudar de lugar. Tem que ir para a nossa coragem de dizer não. Para a coragem de exigir uma legislação de controle de venda da droga. Para uma política que busque entender porque tantos dos nossos homens precisam desta fuga psicológica que arruína suas vidas. Arruína, sobretudo, porque a violência resulta na única forma de vida permitida por aqueles que alegam defender a sociedade.

E, afinal, por que tantos precisam de drogas para viver? Estamos esquecendo de ensinar que viver é bom, mas não é fácil. É fácil apenas para os aproveitadores da boa fé dos homens ingênuos.Para fazer este texto usei referências de artigos encontrados nestes endereços:

http://www.brasildefato.com.br/v01/impresso/anteriores/jornal.2009-...
http://cebrapaz.org.br/site/index.php?option=com_content&task=v...
http://www.ucamcesec.com.br/md_art_texto.php?cod_proj=33
http://veja.abril.com.br/idade/educacao/pesquise/drogas/1465.html
http://processocom.wordpress.com/2009/09/14/bases-militares-dos-eua...
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=40919
http://www.portalpopular.org.br/joomla/index.php?option=com_content...
http://www.pampalivre.info/narcotrafico_maior_negocio_imperialista.htm

Fonte: Portal Luis Nassif
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dezembro 18, 2009

Imprensa de Rondônia: vergonha nacional


Nota do blog: Latifundiários assassinam camponeses pobres e a imprensa rondoniense silencia. Cumplicidade com os crimes do latinfúndio? Que vergonha!
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