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março 24, 2010

Lendo nas entrelinhas: a questão da quantidade e da qualidade dos CAPS

CAPS de Tefé
Foto: Rogelio Casado - Manaus-AM, 2006
Nota do blog: Não pense o prezado leitor que o Conselho de Medicina de São Paulo está preocupado em melhorar a rede de CAPS paulistana. Dou minha cara a bofete, como diria a saudosa tia Pátria, se for essa a intenção. Leia com atenção a matéria da Agência Estado abaixo. O sujeito da ação parece claro, mas nas entrelinhas sabemos que a psiquiatria conservadora alimenta em várias instâncias a idéia de não podermos viver sem os hospitais psiquiátricos. Ora, o quadro diagnosticado (certamente, real), não é outra coisa do que a ausência de investimentos na formação de profissionais e de todos os dispositivos criados (e em funcionamento) para substitutir o modelo baseado no hospital psiquiátrico. Essa psiquiatria omissa no passado recente, quer humanizar o hospital psiquiátrico e enfiar na nossa goela. Não precisamos desses críticos. Temos as nossas próprias. No caso do Amazonas, se bobear o CAPS do município de Tefé-AM (médio Solimões) é melhor do que os dois CAPS de Manaus. O da prefeitura de Manaus, tido como tipo II, não tem leitos para casos que exigem período de observação e ainda mantém vínculo não esclarecido com uma ONG (segundo informações, para a prática de terapia ocupacional; o que confugura uma distorção). O do governo do Estado, tido como tipo III, tem deficência no quadro de pessoal, mas é o que mais se aproxima do modelo de atenção psicossocial. Se conseguirmos resolver o imbróglio criado pelo município que agendou a conferência municipal de saúde mental para o final de abril, desrepeitando os prazos estabelecidos pela organização nacional, teremos muito a discutir e esclarecer. Inclusive a distorção de um militante ligado a ABRASME que afirmou na primeira reunião intersetorial que a Conferência Nacional de Saúde Mental só será realizada este ano porque o Ministério da Saúde reconheceu que estava em dívida com a Reforma Psiquiátrica. Essa meia verdade omite o papel do movimento social. Foi a realização da Marcha à Brasília por uma Reforma Psiquiátrica Antimanicomial, organizada pelo Conselho Nacional de Psicologia e Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (da qual é filiada, pelo Amazonas, a Associação Chico Inácio) que conquistou o direito de realizar nossa conferência. Quando digo que é preciso enfrentar esses reformistas de araque, o exemplo está aí em toda a sua desfaçatez. Eles podem mimetizar nossos discursos, mas não subtrairão nossa história.

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Agência Estado

Unidades psiquiátricas têm falta de médicos em SP


São Paulo - Serviços de saúde normatizados em 2002 para substituírem as internações em grandes hospitais psiquiátricos registram em São Paulo falta de profissionais e acompanhamento inadequado de pacientes, como ausência de planos individuais de tratamento e de controle sobre efeitos dos medicamentos utilizados. A conclusão é de avaliação inédita do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) sobre uma amostra vistoriada de 37% dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) paulistas.

Os centros foram criados durante a reforma psiquiátrica, iniciada há 30 anos no Brasil para evitar que pessoas com doenças mentais fossem isoladas em grandes hospitais psiquiátricos. Preveem equipes com diferentes profissionais de saúde, tratamento médico, oficinas terapêuticas e ações para reintegrar o paciente à sociedade.

O Cremesp calculou que menos da metade dos 85 Caps vistoriados (entre os 230 existentes no Estado) cumpre a própria regulamentação, de 2002, e que um terço fica sem médico em pelo menos um período do dia. "Não queremos demonizar a ideia, mas, como aplicação concreta, os Caps estão bastante deficitários", disse o psiquiatra Mauro Aranha de Lima, coordenador do estudo. O órgão não divulgou os nomes dos Caps analisados, alegando que, como o trabalho foi realizado entre 2008 e 2009, a situação pode ter melhorado. Os dados seguiram para as unidades e o Ministério Público.

Hoje, a maioria dos serviços é de gestão municipal, com financiamento e apoio das três esferas de governo. Procurado, o Ministério da Saúde disse que vai analisar os dados. A Secretaria de Estado da Saúde não se manifestou. "Certamente eles não foram aos nossos Caps", defendeu-se o secretário da capital paulista, Januário Montone, alvo de ação do Ministério Público para a criação de 57 novos serviços. A pasta afirma que um acordo será analisado pela Justiça e que, desde 2005, 16 Caps foram criados. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

janeiro 27, 2010

Saúde Mental e Economia Solidária

Acervo Associação Chico Inácio
(filiada à Rede Nacional Intenúcleos da Luta Antimanicomial - RENILA)


Associação Chico Inácio na luta pela IV Conferência Nacional de Saúde Mental
(Por uma Reforma Psiquiátrica Antimanicomial): de olho nas etapas municipal e estadual

Saúde Mental e Economia Solidária


Iniciou-se em Manaus curso sobre economia solidária para profissionais de saúde mental e organizações da sociedade civil. Lugar escolhido: Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro.

O lugar não poderia ter sido pior. A bandeira de luta por uma sociedade sem manicômios é de 1987, e a meta da política nacional de saúde mental é substituir hospitais psiquiátricos por uma rede de atenção em saúde mental, que tem no CAPS - Centro de Atenção Psicossocial – um dos seus dispositivos de cuidados.

A baixa oferta de CAPS em Manaus (um implantado no governo Eduardo Braga em 2006; outro recém-inaugurado pelo município, a quem compete oferecer esse serviço) não nos autoriza a criar “alternativas” que comprometam os princípios éticos da reforma psiquiátrica antimanicomial que queremos, às vésperas da IV Conferência Nacional de Saúde Mental.

Voltando à vaca fria: por que o local é problemático? Porque não pode haver dubiedade de comunicação com a sociedade. Se queremos o fim do hospício, realizar um curso dessa relevância ali será interpretado como sinal de que ele pode ser "humanizado" e continuar entre nós depois de um século de existência (vixe!).

Fui honrosamente indicado pela professora Heloisa Helena Corrêa da Silva para palestrar no evento. Ponderei sobre a impropriedade do local. Resumo da ópera: o segundo módulo será oferecido fora do espaço hospitalar, caso contrário declinarei do convite, por uma questão de princípios.

Também me foi assegurado que o curso se propõe a fomentar iniciativas de economia solidária fora do espaço hospitalar. O tempo de ações intra-muros passou.

No início dos anos 1980, quando criei um trabalho de reabilitação num espaço abandonado do velho hospício, tinha dupla intenção: produzir novos efeitos de sentido quanto ao lugar do louco na nossa cultura e começar o processo de criação de novos territórios existenciais fora dos muros do hospício.

A escolha do trabalho agrícola remunerado foi uma opção política: além de ir ao encontro da história dos usuários, teve ótima acolhida pela opinião pública, graças ao apoio da imprensa local. Inicia aí o processo de restituição da cidadania negada aos usuários de saúde mental, e interrompida por todos os anos 1990.

É hora de trabalhar o setor, sobretudo os CAPS. Alguns deles costumam, nas falhas das políticas públicas, abrigar projetos que tem como efeito perverso vincular o usuário ao dispositivo. A hora é essa: criar novos territórios na cultura, fora dos hospícios e dos CAPS, sem desvirtuar princípios, nem da economia solidária, nem da reforma psiquiátrica.

Manaus, Janeiro de 2010.
Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental
Pro-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UEA
www.rogeliocasado.blogspot.com

Nota do blog: Artigo publicado no caderno Saúde & Bem Estar do jornal Amazonas em Tempo, que sai aos domingos.
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janeiro 17, 2010

Aviso aos navegantes antimanicomiais


REDE NACIONAL INTERNÚCLEOS DA LUTA ANTIMANICOMIAL


Diante da avalanche de e mail com questionamentos sobre a IV CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE MENTAL, penso que para esse momento temos que provocar AÇÃO em todas as instâncias, com o que temos:

Haverá a IV CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE MENTAL;

Esta confirmada a reunião da Comissão Organizadora Provisória da Conferência:

Recebemos a seguinte resposta do Ministério:

A reunião da Comissão Provisória no dia 26/01, conforme deliberado pelo CNS, discutirá uma proposta de regimento e de Comissão Organizadora definitiva, que deverão ser aprovados na reunião do pleno do CNS em fevereiro. A Comissão Provisória terá as seguintes representações:

· 2 representantes do Ministério da Saúde – Área Técnica de Saúde Mental/Secretaria de Atenção à Saúde e Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa;

· 2 representantes da Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH)

· 2 representantes do Conselho Nacional de Saúde

· 4 representantes da CISM – Associação Brasileira dos Terapeutas Ocupacionais (ABRATO), Federação Nacional dos Psicólogos (FENAPSI), Movimento da Luta Antimanicomial (MLA) e Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (RENILA)

A reunião acontecerá em Brasília, a partir das 09h00, em local a ser definido.

3. O Calendário foi aprovado no Conselho Nacional de Saúde:

· Até março: etapas municipais,

· Até maio: etapas estaduais;

· Em junho a Nacional.

4. Sandra Fagundes é a responsável da Organização da Conferência pelo Ministério;

5. Garantimos o caráter intersetorial da Conferência (como será a distribuição das vagas: 70% da saúde?);

6. Recebemos notícias de alguns Estados:

‘’ Em Minas já temos data para a conferência estadual que será em maio’’

‘’Aqui em Pernambuco o Conselho Estadual de Saúde discutiu na sua reunião de dezembro e já deixou pautada para o dia 13 de fevereiro o detalhamento, que dependia do chamamento da Nacional.’’

‘’O Conselho Estadual de Saúde RS já realizou a 3ª reunião sobre a organização da Conferência. Em uma das reuniões, contamos com a presença da Interlocutora do MS para os assuntos da IVCNSM - Intersetorial, Sandra Fagundes. Estamos formando a Comissão Organizadora e contamos com o apoio, mobilização e divulgação de tod@s. O Controle Social gaúcho já assumiu a responsabilidade de promover a organização deste processo no Estado. A Conferência Estadual de Saúde Menta RS já está marcada para os dias 20,21,22 de maio.”

Vamos solicitar apoio ao CNS, CISM, MS e CES para os locais onde as coisas andam travadas e os gestores se fazem de mortos...

Vamos fazendo pressão, organizando e divulgando amplamente. A Conferência já está nas ruas. Portanto, temos muito trabalho pela frente. Teremos, cada um de nós, que assumir o compromisso de articular nos espaços micro para que cheguemos na Nacional com a maturidade já acumulada para construção da Política de Saúde Mental que queremos. Sei que com o nosso trabalho, potência e força, os prazos apertados nem serão lembrados.

Vamos pedir informações aos Conselhos de Saúde, as Comissões de Reforma, aos Gestores (Secretários e Coordenadores). Perguntar aos Serviços de Saúde Mental como andam as discussões, aos usuários, familiares...

Sugiro resgatar os Relatórios de Conferências Anteriores do seu Estado e Município. Segue o link da III Conferência Nacional:

http://conselho.saude.gov.br/comissao/conf_saudemental/index.htm

Eventos CNS

III Conferência Nacional de Saúde MentalBrasília, 11 a 15 de dezembro de 2001

Apresentação

Regimento

Termos de Referencia

Representação de Delegados

Calendário

Coordenadores estaduais

Comissão organizadora da Conferência Nacional de Saúde Mental

Deliberações da Comissão

Pré Programa da Conferência


Edital de textos

Experiências de Sucesso


Relatório Final


Legislação da Saúde Mental

Fale Conosco

Outra sugestão são as Pautas das Audiências da Marcha:

Informações no blog: http://marchadosusuarios.blogspot.com

No mais, também precisamos de informações.

Nelma Melo
P/ Secretaria da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial
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dezembro 22, 2009

"Você tem medo de conversar sobre drogas?"


Trabalho de RTVC, dos alunos da Universidade Estácio de Sá - curso de Comunicação Social - Rebouças. Institucional - Grife Das Doida Mais informações sobre a instituição: www.dasdoida.com.br

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Nota do blog: Meu caro ministro Temporão, substitua rapidamente a infeliz campanha sobre o crack veiculada na mídia nacional. Entregue a nova tarefa para os alunos da Universidade Estácio de Sá, do curso de Comunicação Social. Eles sabem tudo sobre material publicitário não estigmatizante. E tem mais. Se eles tiverem acesso ao material abaixo, que colhi no grupo de discussão em-defesa-da-reforma-psiquiátrica, o resultado será bem melhor do que o telespectador brasileiro está sendo obrigado a engolir. Num cenário em que os conservadores estão deitando e rolando na mídia brasileira, não vai faltar quem diga que a campanha atual foi a "campanha possível". Bobagem! Com um pouco de coragem, e com a força do movimento social, que recentemente pôs o bloco na rua (Marcha dos Usuários), conte conosco pra qualquer parada. A propósito, quando o Ministério da Saúde irá anunciar a Conferência Nacional de Saúde Mental, já aprovada pelo Conselho Nacional de Saúde? Dê um puxão de orelhas nos seus assessores; alguém precisa fazer interlocução com o movimentos social, ora pois!

Contribuição para uma nova campanha sobre o crack

- Por uma nova campanha - Pensar em política de drogas na atual conjuntura é pensar nos efeitos contidos na linha divisória entre Saúde e Segurança Pública. Agentes de saúde não podem agir como agentes da lei. Temos ferramentas para campanhas que fogem dessa armadilha. Eis seus elementos:

- Subjetividade - A "subjetividade" a ser trabalhada deve associar a ideologia antidrogas ao medo de conversar sobre drogas. Portanto, é o despreparo que está em jogo. E isso não é novidade, está condizente com os pressupostos da atual lei sobre drogas, 11.343/06.

- Desconhecimento - Sugerir, sem tons de alarde, como os usos de drogas diversas estão inevitavelmente presentes na sociedade, para depois lançar de alguma forma uma pergunta que ainda não foi feita à "sociedade", e sobretudo aos/às trabalhadores/as da saúde: "Você tem medo de conversar sobre drogas?"

- Ao SUS o que é do SUS - Incentivar como eixo desse movimento a Atenção para a Estratégia de Saúde da Família. O CAPS-AD seria a referência num segundo plano. Vale lembrar que a alternativa de internação, via fazendas, faz parte de um eixo paralelo. Esse eixo atende uma parcela ínfima da demanda e é muito menor do que o SUS: famílias pagam mensalidades abusivas por estes serviços com dinheiro que não têm. Não esquecer que os contratos com essas clínicas são feitos com o dinheiro do SUS, pago pelos contribuintes, que estão a merecer acolhimento integral articulando Saúde Mental e Atenção Básica.

- Acolhimento e trabalho - Ressaltar que o acolhimento envolve escuta qualificada. As pessoas têm suas histórias de vida. Homogeneizar as demandas das pessoas que usam drogas é pecado capital. É preciso dizer com todas as letras que trabalhar em saúde envolve trabalhar. Esse é um ponto de honra na luta pela Saúde Coletiva, contra o corporativismo e a promoção dos serviços milagrosos (via ato médico, por exemplo).

- Nova visão sobre ilicitude e clandestinidade - Considerar a ilicitude e a clandestinidade como parte do problema, mas nunca como uma espécie de conseqüência dos usos.

- Redução de Danos – Jamais promover os saberes da Redução de Danos como um amontoado de sugestões para "usos seguros" do tipo "beba água". RD trata-se de um trabalho responsável diante do grave problema das demandas explícitas mal-acolhidas (usos problemáticos/abusivos) e as demandas invisíveis não-acolhidas (usos não-problemáticos e suas nuances). A RD não tem medo de conversar sobre drogas (o que é um ótimo dispositivo para provocar redutores/as de danos antimanicomiais também).

- Autonomia – Antes de incentivar a autonomia das pessoas que usam drogas existem etapas a serem cumpridas. É tarefa dificílima. Em primeiro lugar, não só porque a Saúde tem algo a aprender com elas, mas porque Saúde não anda sem o apoio de uma nova cultura em Saúde. Atualmente, a grande maioria das pessoas que vão parar nos serviços pedindo por desintoxicação (a demanda explícita) já chega imbuída da idéia do "objeto de cuidado", pedindo por drogas pra desintoxicar (?), drogas pra conter fissura, dentre outras "pílulas". Este “vício” deve ser combatido, pois ele ameaça trabalhadores/as da saúde a naturalizar a demanda. É claro que acolher não é concordar com todas as demandas. Muitas das vezes a demanda é uma idéia fantasiosa, nascida de política que no tem no modelo médico de mercado sua fonte de inspiração.

- Indicador da campanha - ABP. Isso mesmo, Associação Brasileira de Psiquiatria. Se eles gostarem é porque alguma coisa fizemos de errado. Nessa guerra não estamos sozinhos: temos uma lei sobre drogas que nos fornece ferramentas, temos estratégias que dão certo e milhares de pesquisas que o embasam; só temos que fazer algo organizado entre gestão e movimento social, declarar guerra oficialmente e sair para o abraço.


novembro 23, 2009

“El manicomio liberado”

Franco Basaglia
Nota do blog: A imprensa argentina por pouco deixa passar desapercebida a aprovação pela Câmara dos Deputados de uma lei anti-manicomial, a exemplo da que já existe no Brasil. O texto garante os direitos humanos dos usuários dos serviços de saúde mental, proíbe a criação de novos manicômios, estabelece novas regras para os existentes e restringe a internação involuntária. Se lei passar no Senado, e se for totalmente aprovada, irá por fim às práticas de internação indiscriminada. Leia o texto de autoria de Franco Basaglia publicado no jornal Pagina 12. Basaglia é uma das principais referências da luta manicomial na Itália e no mundo. O presente texto faz parte das conferências feitas por ele no Brasil em 1979 em São Paulo. Vale a pena reler suas reflexões sobre a loucura, a sociedade e a emancipação.

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“El manicomio liberado”

Fundador de la desmanicomialización en Italia y en el mundo, pronunció en 1979 en San Pablo, Brasil, una serie de conferencias –hoy recogidas en libro– en las que reflexiona sobre la locura, la sociedad y la emancipación.

Por Franco Basaglia *

Es difícil decir si la psiquiatría es por sí misma instrumento de liberación o de opresión. Tendencialmente la psiquiatría es siempre opresiva, es una manera de manifestarse el control social. Si partimos del origen de la psiquiatría, debemos recordar a Philippe Pinel, que a fines del siglo XVIII liberó a los locos de las prisiones; pero desgraciadamente, luego de haberlos liberado, los encerró en otra prisión que se llama manicomio. Empieza así el calvario del loco y el gran destino del psiquiatra. Luego de Pinel, en la historia de la psiquiatría aparecen nombres de grandes psiquiatras; pero del enfermo mental sólo existen denominaciones, etiquetas: histeria, esquizofrenia, manía, astenia. La historia de la psiquiatría es la historia de los psiquiatras y no la historia de los enfermos.

Desde el siglo XVIII, este tipo de relación ligó indisolublemente al enfermo con su médico, creando una condición de dependencia de la cual el enfermo no ha logrado liberarse. Diría que la psiquiatría nunca fue otra cosa que una mala copia de la medicina, una copia en la cual el enfermo aparece siempre totalmente dependiente del médico que lo atiende: lo importante es que el enfermo no se coloque nunca en una posición crítica en relación con el médico.

Cuando el pueblo, en el siglo XIX, comenzó a rebelarse en contra de la autoridad del Estado, se advirtió que quería participar en la gestión del poder y, sobre todo, que el pueblo no era un animal que podía ser dominado fácilmente. Así se pudo distinguir la existencia de dos clases: la de los trabajadores, que no quiere más ser dominada y quiere participar del poder, y la clase dominante, que no quiere ceder espacios. Fueron más de cien años de luchas, de sangre, de guerras civiles: la clase trabajadora conquistó un espacio relevante en nuestros países. Pienso que es fundamental que los médicos y los psiquiatras sepan estas cosas.

El médico que presta asistencia en una comunidad debe saber que en ella están presentes por lo menos dos clases, una que quiere dominar y la otra que no quiere dejarse dominar. Cuando un psiquiatra entra en un manicomio encuentra una sociedad bien definida: por un lado, los “locos pobres” (el sistema de los manicomios públicos en los países industrializados nació para el tratamiento a cargo del Estado de los “locos pobres”; así lo decían las disposiciones legales) y, por otro lado, los ricos, la clase dominante, que dispone los medios para el tratamiento de los pobres locos. Desde esta perspectiva, ¿cómo podemos pensar que la psiquiatría pueda ser liberadora? El psiquiatra estará siempre en una situación de privilegio, de dominio con respecto al enfermo. Desde este punto de vista, la psiquiatría es, desde su nacimiento, una técnica altamente represiva, que el Estado siempre usó para oprimir a los enfermos pobres, es decir: la clase trabajadora que no produce.

Sin embargo, desde la segunda mitad del siglo XX sucedió algo nuevo, que puso al alcance de la psiquiatría instrumentos de liberación. Luego de la Segunda Guerra Mundial el pueblo y algunos técnicos comenzaron a poner en discusión las instituciones del Estado. En los años ’60 hemos visto rebelarse, como en una gran llamarada, a la juventud del mundo entero. En ese levantamiento, nosotros, los técnicos de la represión psiquiátrica, estábamos presentes; dimos nuestro apoyo a esa rebelión. Más tarde, mientras la revuelta de 1968 se perdía en varias direcciones y era reformulada en una suerte de nueva opresión y restauración, hubo una serie de situaciones que unieron las luchas en las instituciones con las luchas de los trabajadores. Hubo ilusiones, pero también certezas. Hemos visto que cuando el movimiento obrero toma en sus manos luchas reivindicativas, de liberación, antiinstitucionales, esta ilusión se vuelve realidad. En Italia, luego de 1968 hubo grandes huelgas en las que los obreros reivindicaron el derecho a la salud, es decir que llevaron su lucha al nivel de las instituciones públicas. Paralelamente algunos técnicos demostraron que el manicomio era un lugar de opresión y de dolor, no de cuidado. Finalmente, en aquellos años y en los siguientes, las mujeres demostraron que la opresión del hombre y de la familia trataba de impedirles tener una subjetividad propia.

Todos estos movimientos han puesto en evidencia la voluntad de afirmación, no sólo como objetividad, sino como subjetividad. Esta es la fase que estamos viviendo, y es un desafío a aquello que somos, a la relación entre nuestra vida privada y nuestra vida como hombres políticos.

Cuando el enfermo pide al médico explicaciones sobre su tratamiento y el médico no sabe o no quiere responder, o cuando el médico pretende que el enfermo se quede en la cama, es evidente el carácter opresivo de la medicina. Cuando el médico, en cambio, acepta el reclamo, entonces la medicina y la psiquiatría se transforman en instrumentos de liberación.

Es en esta cuestión que tenemos que elegir nuestro camino: si preferimos quedarnos en la oscuridad o queremos estar presentes en nuestro tiempo y cambiar, en la práctica, nuestra vida.

Desmanicomio

Después de la Segunda Guerra Mundial, Italia era todavía, en lo económico y cultural, un país campesino. En la década de 1950 comenzó un proceso de cambio determinado por el desarrollo de la sociedad industrial y, consecuentemente, de una clase obrera cada vez más fuerte. En aquellos años iniciamos el trabajo en Gorizia, una pequeña ciudad en la frontera con Yugoslavia. Allí había un hospital con 500 camas dirigido de manera totalmente tradicional; era usual la práctica del electroshock y el shock insulínico; antes que nada, era un hospital dominado por la miseria, la misma que encontramos en todos los manicomios. En cuanto entramos, dijimos: no. Un no a la psiquiatría, pero sobre todo un no a la miseria.

Vimos que, desde el momento en que dábamos respuesta a la pobreza del internado, su posición cambiaba totalmente: dejaba de ser un loco para transformarse en un hombre con el cual podíamos entrar en relación.

Habíamos comprendido que un individuo enfermo no sólo necesita la cura de la enfermedad: necesita una relación humana con quien lo atiende, necesita respuestas reales para su ser, necesita dinero, una familia; necesita todo aquello que también nosotros, los que lo atendemos, necesitamos. Este fue nuestro descubrimiento. El enfermo no es solamente un enfermo, sino un hombre con todas sus necesidades. Por ejemplo, yo recuerdo que después de que abrimos los pabellones en Gorizia, en 1963-1964, todos esperábamos ver cosas terribles. No sucedió nada. Vimos que las personas se comportaban correctamente, pedían cosas muy justas: querían comida mejor, posibilidad de relaciones hombre-mujer, tiempo libre, libertad para salir. Son cosas que un psiquiatra ni siquiera imagina que el enfermo pueda pedir. Sería como si, en una sociedad fundada sobre el puritanismo, una hija le pidiera al padre salir de noche. Eso sería terrible para el padre, ¿no iba a poder saber cuándo su hija volvería a casa? Ocurre lo mismo con el enfermo mental, porque el psiquiatra siempre confundió la internación del enfermo con la propia libertad. Cuando el enfermo está internado, el médico está en libertad; cuando el interno está en libertad, el internado es el médico.

Entonces, cuando empezamos a organizar algo tendencialmente igualitario, vimos, por ejemplo, que un hombre se encontraba con una mujer y no sucedía nada violento. Se enamoraban. Naturalmente, luego podían tener una relación sexual, como sucede en las mejores familias y ¿por qué no habría de suceder en el manicomio liberado? Empezamos a divulgar la experiencia para demostrar que era posible dirigir el manicomio de otra manera. Y todo esto nos llevó también a una reflexión política: los internados pertenecían a las clases oprimidas y el hospital era un medio de control social.

En Gorizia organizamos una comunidad con el objetivo de curar y de mostrar que era posible una vida distinta. Lo sorprendente fue que mucha gente que venía a vernos percibía que la vida dentro de la comunidad era mejor que la vida afuera. Era que dentro de esa comunidad, el egoísmo que domina nuestras vidas era afrontado de otra manera: mi sufrimiento era el sufrimiento del otro. Con este tipo de lógica empezamos.

Después, muchos de los que habían trabajado en Gorizia fueron a dirigir otras instituciones psiquiátricas y así se generaron cuatro, cinco, seis experiencias diferentes. De todos modos, nosotros sabíamos que el manicomio, aun el dirigido de modo alternativo, era siempre una forma de control social, porque la gestión no podía sino estar en manos del médico, y la mano del médico es la mano del poder. Entonces, cuando, en 1971, empezamos a trabajar en Trieste, continuamos la experiencia de Gorizia, pero con el proyecto de eliminar el manicomio y sustituirlo por una organización mucho más ágil, para poder afrontar la enfermedad allí donde tenía origen. Empezamos con un manicomio que tenía 1200 personas y hoy, luego de ocho años de trabajo, no quedó casi nadie en esa estructura. Esas personas procuraron reinsertarse socialmente, con nosotros, con la sociedad, con la comunidad.

Podríamos decir que somos personas que transforman en oro lo que tocan, aunque en realidad nuestro trabajo fue muy simple. Como ya dije, en Gorizia descubrimos que la clase trabajadora, en caso de enfermedad, era destinada al manicomio. Entonces, pensamos que esta clase debía tener responsabilidades y poder en la gestión del problema de la salud y que esto podría cambiar las cosas. Por ejemplo, la discusión sobre cuándo se podía dar de alta a un paciente no era sólo entre nosotros, los médicos, sino también con las personas del barrio donde el enfermo iba a ir a vivir. De esta forma, el vecino del barrio se daba cuenta de que las necesidades del paciente no eran distintas a las suyas. Ante el problema de dar de alta a una persona pobre, que no tenía dinero ni casa, ni familia, muchos percibían que estaban o que podían llegar a estar en las mismas condiciones. Comenzaba así la identificación entre el sano y el enfermo, y el inicio de la integración del enfermo.

Entonces, día a día, año a año, paso a paso, desesperadamente, encontrábamos la manera de llevar al que estaba adentro, afuera, y al que estaba afuera, adentro. En la medida en que el número de los internados disminuía, íbamos creando en la ciudad los centros de salud mental. Teníamos una estructura externa muy ágil, en la cual la enfermedad se enfrentaba fuera del manicomio. Y veíamos que los problemas referidos a la peligrosidad de los enfermos comenzaba a disminuir: empezábamos a afrontar, no ya una “enfermedad”, sino una “crisis”.

Hoy nos es evidente que cada situación que nos llega es una crisis vital y no “una esquizofrenia”. En aquel momento, ya veíamos que aquella “esquizofrenia” era la expresión de una crisis, existencial, social, familiar, no importa cuál. Una cosa es considerar el problema como una crisis y otra cosa es considerarlo como un diagnóstico: el diagnóstico apunta a un objeto, y la crisis a una subjetividad; subjetividad que a su vez pone en crisis al médico.

He hablado de manera muy general del camino que hicimos para tratar de eliminar el hospital psiquiátrico y crear una situación tendencialmente terapéutica. No puedo decir más que “tendencialmente”, porque no puede ser plenamente terapéutica: yo trato de curar a una persona, pero no puedo tener la certeza de si la curo o no. Es lo mismo que cuando digo que amo a una mujer: es muy fácil decir esto, pero en algún sentido es falso, porque el hombre tiende a un tipo de relación y la mujer a otro; la relación que se crea entre los dos no es más que una crisis, es una crisis en la que hay vida, siempre que no haya dominación del hombre sobre la mujer o de la mujer sobre el hombre. En una situación que es tendencialmente de amor, se puede crear una relación muy libre.

* Extractado de La condena de ser loco y pobre. Alternativas al manicomio, de reciente aparición, que reúne conferencias pronunciadas en San Pablo, Brasil, en 1979.

Fonte: Página/12
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novembro 05, 2009

CARTA DE OLINDA

CARTA DE OLINDA

Nós, defensores do Sistema Único de Saúde – SUS, reunidos no IX Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva – ABRASCO, após discussões com usuários, militantes de movimentos sociais, trabalhadores, gestores e acadêmicos, reinvindicamos a realização da IV Conferencia Nacional de Saúde Mental (CNSM) nos pautando em vários eventos e documentos:

A III e última CNSM foi realizada em 2001 o que representa um longo período de 8 anos sem a realização de uma Conferência;

Na plenária da ABRASCO durante o VIII Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva realizado no Rio de Janeiro em 2006, foi aprovada moção de reinvindicação à realização da IV CNSM;

Em 2008 a XIII Conferencia Nacional de Saúde aprovou a indicação da realização da IV Conferencia Nacional de Saúde Mental; em 30 de setembro de 2009 foi realizada a Marcha dos Usuários pela Reforma Psiquiátrica Antimanicomial, em que 2.500 usuários de serviços de saúde mental foram reinvindicaram a realização da IV CNSM e foram atendidos pelo chefe da Casa Civil e pela ministra interina da Saúde, tendo recebido o comprometimento com a realização da IV CNSM;

Em 21 e 22 de outubro de 2009 aconteceu a reunião ampliada da Comissão Intersetorial de Saúde Mental do Conselho Nacional de Saúde em que estavam representados os Estados Brasileiros por seus conselheiros estaduais e nela foi reafirmada a necessidade da realização da IV CNSM e nesta mesma reunião o ministro Paulo Vanucchi afirmou a parceria da Secretaria Especial de Direitos Humanos na realização da IV CNSM;

Reafirmamos e exigimos o cumprimento do compromisso assumido pelo Governo Federal pela realização da IV CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE MENTAL. A realização da IV Conferência foi uma das principais reivindicações feita pelos 2.500 usuários durante a “Marcha dos Usuários pela Reforma Psiquiátrica Antimanicomial” realizada dia 30 de Setembro de 2009 em Brasília.

Outro aspecto relevante apontado pelos usuários durante a Marcha foi a defesa radical pela consolidação do Sistema Único de Saúde, conquista histórica do Movimento Sanitarista Brasileiro.

Propomos ainda que a IV Conferencia Nacional de Saúde Mental:

* Efetive a Reforma Psiquiátrica Antimanicomial e consolide o modelo de atenção à saúde mental na lógica dos serviços comunitários de base territorial;

* Seja convocada intersetorialmente;

* Seja convocada impreterivelmente na próxima plenária do Conselho Nacional de Saúde em 11 de Novembro de 2009, afim de garantir sua realização até junho de 2010.

POR UMA REFORMA PSIQUIÁTRICA ANTIMANICOMIAL

Olinda, 02 de novembro de 2009
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