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julho 26, 2010

Extermínio de crianças na Paraíba

Imagem postada em crianca.pb.gov.br

Não dá mais pra assistir o extermínio dos nossos jovens!

“Uma a cada três vítimas de homicídios na Paraíba é criança ou adolescente. De 2000 a 2009, 38,8% do total de mortes no Estado atingiram o público de zero a 18 anos, ou seja, das 2479 vítimas, 963 eram menor de idade. Os dados da Secretaria de Saúde do Estado ainda revelam um aumento de 105,7% do número de crianças e adolescentes, que de 2000 a 2009, subiram de 70 para 144 mortes anuais. Segundo a Pesquisa ‘Mapa da Violência 2010’, divulgada em 30 de março deste ano em São Paulo, a Paraíba saiu da 17º (1997) para a 11º (2007) colocação no ranking dos estados onde mais crianças e adolescentes morrem vítimas de homicídio... De acordo com o Mapa, João Pessoa é a oitava capital onde mais pessoas entre zero e 19 anos morrem por conta desse tipo de violência. De acordo com o estudo, é a partir dos 12 anos que inicia o “crescente espiral da violência”. Mas não são apenas os números de homicídios que crescem. Segundo apuração do CREAS (Centro de Referencia Especializada em Assistência Social), somente em 2009, 87,5% dos casos de violência registrados em todo o Estado da Paraíba foram com crianças e adolescentes. No total, foram 4024 vítimas de zero a 18 anos negligenciadas, violadas psicologicamente, violentadas, exploradas e abusadas sexualmente.”

O longo excerto jornalístico acima foi transcrito duma notícia de jornal de João Pessoa, de abril deste ano. A matéria foi escrita após a divulgação do “Mapa da Violência de 2010”. Não lembro se houve repercussão entre os poderes públicos em nosso estado, ou mesmo na própria sociedade civil. Os jornais todos os dias, escritos e televisionados, registram estas mortes. Para a maior parte da população são apenas números. Chama a atenção o modo como grosso modo estes assassinatos são divulgados, há um tom freqüentemente sensacionalista e a um só tempo de banalização total destas mortes, sobretudo quando se trata de jovens usuários de drogas, que perfazem a grande maioria. É como se houvesse praticamente uma resignação, eu pensei inicialmente em dizer, mas é mais que isso, muitas vezes parece que há um alívio, ou, arriscaria denunciar, um desejo que estas mortes acontecessem. A maioria dos assassinatos são perpetrados a jovens do sexo masculino, sobretudo negros e usuários de drogas. (A Paraíba inclusive é o estado no Brasil onde mais morrem negros assassinados! ). No Direito Romano Antigo havia uma categoria que traz uma triste analogia com estes meninos mortos – homo sacer. Eram pessoas que não podiam oficialmente ser mortas, mas se o fossem, tudo bem – era uma vida indigna de ser vivida. 

 Então me permitam me apresentar, meu nome é Flávia Fernando Lima Silva, sou médica psiquiatra, especialista em Psiquiatria da Infância e Adolescência. Sou trabalhadora do SUS, militante da luta antimanicomial, trabalho em centros de atenção psicossocial (CAPS) na grande João Pessoa, Paraíba ( num caps infantil e num caps álcool e drogas). Atendo jovens em extrema vulnerabilidade. Muitos com baixa escolaridade, sem terem tido os cuidados parentais mínimos, os seus direitos garantidos, pobres ou muitos pobres, muitos foram ou estão institucionalizados . Os meninos costumam encontrar no uso abusivo de substancias um modo possível de alívio em vidas tão marcadas pelo sofrimento, os meninos algumas vezes vão se agregando assim, junto ao prazer de estarem juntos e usarem drogas, construindo inclusive identidades em torno disto. Recebo-os encaminhados de outras instituições, jovens em situação de rua, trazidos por parentes, os que tem parentes.Os jovens são pessoas, são seres humanos – eles tem afetos, eles nos afetam, alguns  estão reaprendendo a sonhar. Eles me fazem sonhar/lutar por outro mundo possível. Nos últimos quatro meses, seis dos meus pacientes morreram de morte matada. Eles morrem de tiro e de faca. Quatro tinham menos de 18 anos. Um 18, outro menos de 30 anos. Afora os filhos dos lutos, crianças que perderam seus pais assassinados, que já começam a nos chegar no caps infantil. Além das mães dos jovens mortos. A maior parte destes assassinatos foram anunciados. Os meninos vinham, angustiados, nos pediam ajuda. Lembro de um dia que passei inteiro no Ministério Público a fim de pedir proteção para um jovem que acabava de completar dezoito anos e estava sendo ameaçado – acabou sendo encaminhado para um hospício, o estado não tinha/não tem nenhum “outro” dispositivo de acolhimento efetivo e proteção a estes jovens! Este menino depois sumiu, tentei contato com a família, estes dias soube – ele acabou sendo assassinado mês passado. Estamos falando de negligencia do estado e da sociedade, estamos falando de banalização de vidas e mortes, de lutos não autorizados por uma sociedade que compactua/deseja estas mortes. Estamos falando de extermínio! 

Este texto não se trata de um relatório técnico no sentido estrito do termo, com relação à situação de vulnerabilidade e dos assassinatos dos nossos jovens. Trago aqui a minha experiência, um relato afetivo duma trabalhadora que cuida destes jovens que são mortos, lembrando que a maioria deles sequer chega em um serviço de saúde ou assistência social. 

Falo em todos os espaços coletivos que participo da urgência da implementação de sistemas de proteção à vida em nosso estado. Falo mas escuto pouca ressonância! Agora escrevo, escrevo enquanto uma trabalhadora de saúde que cuida destes jovens que tem suas mortes anunciadas e nada é feito para mudar estas realidades. Por que nosso estado ainda não implementou por exemplo o PPCAAM (Programa de Proteção à criança e ao adolescente ameaçados de morte)??? Este é um Programa da Secretaria Especial de Direitos Humanos, que existe desde 2007. Como poderíamos exigir a sua urgente implementação?? Além claro de outros sistemas de proteção que atenda adultos, que também são vítimas. O que precisamos fazer para que isto seja feito? Logo, urgente!

Finalmente lembro aqui das mães da praça de maio, guerreiras da utopia ativa, que nos ensinam há décadas, que uma vida não pode ser esquecida. Em frente à Casa Rosada em Buenos Aires, há mais de 30 anos, pedem pelos seus filhos desaparecidos. Lembro também de Antígona, que luta até mesmo com a ordem do rei, seu tio, para velar o corpo dos seu irmão morto. 

Na história contemporânea da Guerra às Drogas em nosso país e especialmente na Paraíba, conclamo aos poderes públicos e a sociedade civil como um todo – protejamos os nossos jovens, não os deixemos morrer assim. A Guerra, claro está, é direcionada às pessoas. Sim, é de pessoas que estamos falando.
Chega de extermínio!
                                        
Flávia Fernando Lima Silva
25 de julho de 2010, João Pessoa, Paraíba 

Leia mais sobre o extermínio de crianças na Paraiba em http://crianca.pb.gov.br/contador/?p=318

junho 30, 2010

Ampliar os serviços substitutivos ao manicômio e investir em formação

Nota do blog: O presidente da Associação Chico Inácio - filiada à Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (RENILA) -, e a companheira Helinda, presentes à IV Conferência Nacional de Saúde Mental, assinam embaixo da declaração da Secretária Executiva da RENILA, e dizem mais: além de ampliação do recurso financeiro para a expansão da rede substitutiva aos manicômios (vixe!), é preciso investir maciçamente em formação, caso queiramos impedir a transformação dos CAPS em CAPSicômios.

Especialistas dizem que reforma psiquiátrica foi revolução, mas cobram ampliação de atendimento

Agência Brasil

Publicação: 28/06/2010 16:36

A Lei da Reforma Psiquiátrica (Lei nº 10.216), criada em 2001, promoveu uma revolução no tratamento de pessoas com transtornos mentais no país. Depois de nove anos de implantação, as mudanças começam a se consolidar com o fechamento de grandes hospitais psiquiátricos, mas a rede substitutiva está muito aquém da demanda gerada pela reforma, afirmam especialistas.

A lei regulamenta os direitos do portador de transtornos mentais, veta a internação em instituições psiquiátricas com característica de asilo e cria programas que propõem um tratamento humanizado. Nestes nove anos, foram fechados 17.536 leitos em hospitais psiquiátricos. Ainda restam, no entanto, mais de 35 mil.


Além do fechamento dos leitos, os hospitais psiquiátricos estão ficando menores. Em 2002, apenas 24,11% das vagas estavam em hospitais de pequeno porte (até 200 leitos), hoje são cerca de 50%. O programa consiste no incentivo, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), para que os hospitais de grande porte (acima de 400 leitos) e de médio porte (acima de 200 leitos) reduzam essas vagas progressivamente.

O Ministério da Saúde criou um tripé de desinstitucionalização psiquiátrica no Brasil: os centros de Assistência Psicossocial (Caps), as residências terapêuticas e o programa De Volta pra Casa.

Atualmente, há em todo o país 1.513 Caps. Existem ainda 564 residências terapêuticas (dado de maio deste ano) onde vivem pessoas que saíram dos manicômios e perderam seus vínculos familiares. Além disso, 3.445 pacientes que foram internados por mais de dois anos em hospitais psiquiátricos são atendidos pelo programa De Volta para Casa e recebem mensalmente um auxílio-reabilitação no valor de R$ 320.

Paralelamente ao fechamento de leitos em hospitais psiquiátricos, a reforma propõe a abertura de vagas em unidades de saúde comuns. Nesses espaços, conhecidos como hospitais gerais, as pessoas com transtornos mentais são atendidas em momentos de crise e não ficam internadas por longos períodos, como ocorria nos antigos manicômios.

Para o vice-diretor do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB), Ileno Izídio da Costa, a reforma é um caminho sem volta. Ele defende a necessidade de mais investimento para a área e a qualificação de profissionais.

“É preciso aumentar os recursos para a saúde mental. Se pensarmos que deve haver um Caps para cada 100 mil habitantes e que o Brasil tem cerca de 200 milhões de habitantes, então, 1,5 mil Caps é muito pouco. Obviamente o país todo não está coberto”, afirma.

A secretária executiva da Rede de Internúcleos da Saúde Mental (Renila), Nelma Melo, também critica a demora na implantação da rede substitutiva. “A gente vê os avanços, mas não podemos continuar a conviver com esses modelos, completamente antagônicos, o manicomial e o que vem para substituí-lo”, disse.

O coordenador de Saúde Mental, Álcool e Drogas do Ministério da Saúde, Pedro Gabriel Delgado, reconhece que é preciso avançar na ampliação e qualificação dos mecanismos de substituição para consolidar da reforma.

“A cobertura em saúde mental é ainda insuficiente em vários estados. Alguns Caps precisam ser mais bem qualificados, precisamos melhorar a articulação da nossa rede com a de urgência e emergência e ampliar muito as ações de saúde mental no âmbito da atenção básica”, destaca.

A Lei de Reforma Psiquiátrica levou 12 anos para ser aprovada no Congresso Nacional. Ela alterou o modelo de tratamento de pessoas com transtorno mental no país, nos moldes do que foi feito, na década de 70, em países como a Itália – que inspirou a reforma brasileira –, a França, a Inglaterra e os Estados Unidos.

De acordo com vice-diretor do Instituto de Psicologia da UnB, a reforma brasileira é a mais avançada da América Latina. “Segundo a Organização Mundial da Saúde [OMS], o Brasil é protagonista de uma reforma diferenciada em relação à saúde mental”, destaca.

Fonte: Correio Brasiliense

junho 15, 2010

Carta denúncia sobre a situação da saúde mental em Itabuna-Ba

Imagens do relatório fotográfico
realizado pelas equipes dos CAPS de Itabuna-BA
Carta denúncia sobre a situação da saúde mental em Itabuna-Ba


  “Sonhar mais um sonho impossível. Lutar quando é fácil ceder. Vencer o inimigo invencível. Negar quando a regra é vender... E o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão” Joe Darion, Mitch Leigh (versão em português de Chico Buarque)

 Prezadas(os) gostaríamos de situá-los(as) na realidade caótica em que se encontra a rede de saúde mental em Itabuna, região Sul da Bahia.

Desde julho de 2008, estamos tentando agendar uma pauta com os secretários de saúde de Itabuna. Em 2008, o secretario Jesuíno chegou a agendar com o representante da SESAB que se deslocou de Salvador até Itabuna para, surpreendentemente, não ser atendido pelo secretário que havia assumido outro compromisso naquela mesma hora. Para não ficar de mãos abanando, o Sr. Jesuíno solicitou que a conversa fosse feita com a Srª. Varlei, na ocasião diretora de planejamento da secretaria de saúde. O único compromisso assumido foi o de fazer o PNASH (Programa Nacional de Avaliação dos Serviços Hospitalares), o que não resolve em nada a situação da rede local, apenas encontra um bode expiatório em outro lugar, qual seja, o caos do hospital psiquiátrico de Itabuna. Até o final da gestão de Fernando Gomes, não conseguimos nenhuma audiência com nenhum dos representantes da prefeitura.

Finalizada a gestão de FG, o saldo foi de 3 meses de salários atrasados para os trabalhadores, desligamentos e demissões de profissionais dos CAPS, falta de insumos e falta de alimento nos serviços.


 No dia 20 de janeiro de 2009, resolvemos ter uma primeira audiência com o Sr. Antônio Vieira, secretário recém empossado. Mostramos a situação caótica da falta de salários dos trabalhadores, falta de alimentos, falta de insumos, precarização das instalações dos CAPS, número insuficiente de profissionais nos serviços. Na oportunidade o secretário justificou o atraso nos salários em função da falta de repasse do FAEC (Fundo de Ações Estratégicas e Compensação). Dissemos-lhe que não era verdade porque outros setores da saúde estavam com salários atrasados e que o recurso FAEC não deveria ser usado para pagamento de pessoal exatamente por se tratar de um recurso variável e extra-teto. O secretário fez ar de desentendido; supusemos ser por conta da inexperiência no cargo que recentemente estava assumindo. O referido secretário solicitou um relatório circunstanciado da situação real da rede de saúde mental no prazo de uma semana. Organizamos uma reunião com representantes dos três CAPS para construir o relatório solicitado. Em reunião com o secretário, tivemos o cuidado de fazer inclusive um relatório fotográfico da situação. Para nossa surpresa, o secretário outra vez não deu a devida importância ao pleito e, sem nem mesmo abrir o documento, encaminhou para a assistente que, por coincidência, era a Srª Varlei. Não se sabe ao certo qual destino dado ao relatório. O secretário nunca fez referência a ele. O secretário pediu um prazo para resolver a situação da equipe. Passaram-se quase três meses em que os CAPS funcionaram com 2 ou 3 técnicos com formação universitária, sem equipes técnicas de apoio e auxílio. Os CAPS ficaram sem coordenador e, segundo o secretário, assim deveria ser porque não estava no organograma do município a função de coordenador de CAPS. Logo na seqüência, os CAPS foram surpreendidos com a chegada de Administradores para ocupar uma função ainda sem compreensão nos CAPS. Por vezes estes administradores têm produzido mais desconforto do que propriamente solução. Diga-se de passagem que as pessoas escolhidas para ocupar esta função não tinham nenhuma experiência com CAPS, nem com reforma psiquiátrica. Passaram a exercer uma função de técnico-adminstrativo, principalmente, na fiscalização de cargas horárias. Os CAPS continuaram sem referência de coordenação técnica em saúde e sem qualquer articulação com a rede de saúde.

Em março de 2009, em virtude da insuficiência de respostas da Secretaria Municipal de Saúde, um grupo de trabalhadores e estudantes que faziam parte de um projeto de extensão da UNIME resolveu provocar o Ministério Público, na pessoa do Dr. Clodoaldo Anunciação, no sentido de que se fizesse uma avaliação sobre a situação da rede de saúde mental, tendo em vista o programa “Metas do Milênio”, de acompanhamento e avaliação de serviços de saúde e educação que estava sendo realizada pelo Ministério. O Promotor de Justiça mostrou-se sensível a causa; com ele ficaram as mesmas cópias que haviam sido entregues ao Secretário de Saúde. Chegou-se a fazer visitas in loco com o Promotor no CAPS II. Sabendo dessa articulação que estava sendo feita, no dia 15 de maio de 2009, a diretora da média e alta-complexidade, Srª Ana Lídia, chamou um dos técnicos do CAPS que participou das conversas e visitas com o Ministério Público e ameaçou-lhe de retaliação e transferência de local de trabalho caso situação se mantivesse. Na ocasião, a mesma anunciou que estava indicando o Sr. José Lopes (terapeuta ocupacional do CAPS II) para a função não oficial e não gratificada de coordenador da rede de Saúde Mental. Ocorre que o referido técnico passou a exercer uma dupla função porque não lhe foi autorizado que se desincompatibilizasse das suas funções no CAPS II, configurando uma sobreposição de tarefas.

Em março de 2009, um grupo de trabalhadores dos CAPS encaminhou uma denúncia para a Ouvidoria do Ministério da Saúde ([Nº 1193/ senha Q7BCC8]; [Nº 1195/ senha: A3W518] e [Nº 1199/ senha: X33IQR]). Segundo informações do então coordenador, por ordem superior, a demanda da Ouvidoria de Saúde havia sido engavetada pela Secretaria Municipal de Saúde.

Por iniciativa própria o coordenador de Saúde Mental articulou técnicos dos vários CAPS para que se iniciasse a construção de um fluxograma de assistência e os parâmetros para a construção de uma rede mínima. Ao que se sabe todo trabalho foi infrutífero porque a diretora Ana Lídia desde os primeiros passos não acatou o plano que estava sendo gestado.


 Os CAPS's continuaram num caos absoluto. De janeiro à julho de 2009 passaram-se 7 meses sem alimentação regular e, conseqüentemente, com baixíssima demanda. Era comum os serviços fecharem ao meio dia por conta da falta de usuários. O CAPS’ad atendeu nesse período uma média de 5 usuários por dia, que heroicamente passavam o dia sem alimentação. O alimento foi regularizado somente no mês 8 de 2009, situação em que passou-se a fornecer quentinhas no almoço. As demais refeições são incertas e insuficientes. No CAPS II é comum ver um número de quentinhas abaixo da quantidade de usuários que frequentam o serviço. Existe uma LISTA DE COMENSAIS. O usuário que estiver no serviço e não tiver listado para almoço não TEM DIREITO A COMIDA SERVIDA ALÍ.

A regularização da alimentação ficou acordada desde a primeira audiência com o Sr. Secretário de Saúde assim como a recomposição das equipes. Ao que se sabe, o CAPS’ad continua sem médico clínico regular desde o mês janeiro de 2009, contrariando a portaria 336 que regulamenta os CAPS. O CAPS II ficou um ano e quatro meses sem assistente social. Isso sem falar na ausência de oficineiros e demais profissionais que deveriam compor as equipes. Itabuna não tem nem ao menos a equipe mínima dos serviços que, evidentemente, já é insuficiente desde o preconizado pela referida portaria.

Até onde se sabe a Secretaria de saúde não abastece de insumos as oficinas terapêuticas. Não há custeio das atividades. Os técnicos precisam adquirir o material que será utilizado nas oficinas ou usar da criatividade para fazer oficinas sem material.

Findados quase um ano e meio de gestão todas as promessas foram em vão. A lógica dominante no âmbito do município continua sendo a da hospitalização. Não há ação coordenada entre os serviços de saúde mental, não existe coordenação de saúde mental, não há qualquer discussão consistente sobre quais objetivos e metas da gestão. O município continua CAÓTICO na gestão em saúde mental. A novidade é que, desde meados de 2009, o Secretário de Saúde diz aos quatro ventos que tem um recurso que vai usar para construir os TRÊS CAPS no mesmo lugar, contrariando todo e qualquer compromisso com uma saúde mental de base territorial e descentralizada, reproduzindo o velho modelo dos conglomerados de “tratamento”.

A conseqüência desse cenário é a superlotação hospital psiquiátrico da cidade. A Gestão municipal não tem uma só ação que se paute na desconstrução da manicomialização da loucura no âmbito da cidade de Itabuna.

Diante desse cenário, sabendo da inconsistência e da incredibilidade de tudo o que está sendo apregoado pela Secretaria Municipal de Saúde, não resta alternativa. Precisamos articular os movimentos sociais proativos em Saúde Mental. Estamos convidando a todas(os) para uma conversa com urgência para que possamos adotar encaminhamentos que objetivem lutar por uma reforma psiquiátrica consistente, digna, resolutiva, humanizada e cidadã. Não dá para esperar que essa transformação seja conduzida pelos atores da Gestão de Saúde do município, o exemplo da fragilidade foi a Conferência Municipal de Saúde Mental em que se viu gestores em completo descompasso em relação às demandas da rede de Saúde.

Não é digno que continuemos à deriva nesse protótipo de “nau dos loucos”, sem rumo e sem compromisso com a dignidade dos usuários dos serviços de Saúde Mental. 

A gestão é unilateral quando decide! Não há alternativa negociável com a gestão!

A solução é a luta coletiva. Somos controle social e vamos atuar nesse sentido. Assim sendo seria importante que pudéssemos estar articulando com os movimentos nacionais. Por muito tempo o interior da Bahia ficou isolado de qualquer importante discussão. Estamos fazendo um esforço para sairmos dessa condição de isolamento.

Em termos práticos, na última reunião local decidimos pedir em abaixo-assinado intervenção da Secretaria de Saúde do Estado e da CIB no sentido de que o município perca a gestão dos CAPS até que a situação se resolva. Gostaríamos de contar com o apoio dos movimentos nacionais nesse sentido.

Seguem alguns anexos com fotos de como estão nossos serviços aqui em Itabuna.

Atenciosamente,

Coletivo pró Luta-antimanicomial de Itabuna
Junho de 2010

março 24, 2010

Lendo nas entrelinhas: a questão da quantidade e da qualidade dos CAPS

CAPS de Tefé
Foto: Rogelio Casado - Manaus-AM, 2006
Nota do blog: Não pense o prezado leitor que o Conselho de Medicina de São Paulo está preocupado em melhorar a rede de CAPS paulistana. Dou minha cara a bofete, como diria a saudosa tia Pátria, se for essa a intenção. Leia com atenção a matéria da Agência Estado abaixo. O sujeito da ação parece claro, mas nas entrelinhas sabemos que a psiquiatria conservadora alimenta em várias instâncias a idéia de não podermos viver sem os hospitais psiquiátricos. Ora, o quadro diagnosticado (certamente, real), não é outra coisa do que a ausência de investimentos na formação de profissionais e de todos os dispositivos criados (e em funcionamento) para substitutir o modelo baseado no hospital psiquiátrico. Essa psiquiatria omissa no passado recente, quer humanizar o hospital psiquiátrico e enfiar na nossa goela. Não precisamos desses críticos. Temos as nossas próprias. No caso do Amazonas, se bobear o CAPS do município de Tefé-AM (médio Solimões) é melhor do que os dois CAPS de Manaus. O da prefeitura de Manaus, tido como tipo II, não tem leitos para casos que exigem período de observação e ainda mantém vínculo não esclarecido com uma ONG (segundo informações, para a prática de terapia ocupacional; o que confugura uma distorção). O do governo do Estado, tido como tipo III, tem deficência no quadro de pessoal, mas é o que mais se aproxima do modelo de atenção psicossocial. Se conseguirmos resolver o imbróglio criado pelo município que agendou a conferência municipal de saúde mental para o final de abril, desrepeitando os prazos estabelecidos pela organização nacional, teremos muito a discutir e esclarecer. Inclusive a distorção de um militante ligado a ABRASME que afirmou na primeira reunião intersetorial que a Conferência Nacional de Saúde Mental só será realizada este ano porque o Ministério da Saúde reconheceu que estava em dívida com a Reforma Psiquiátrica. Essa meia verdade omite o papel do movimento social. Foi a realização da Marcha à Brasília por uma Reforma Psiquiátrica Antimanicomial, organizada pelo Conselho Nacional de Psicologia e Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (da qual é filiada, pelo Amazonas, a Associação Chico Inácio) que conquistou o direito de realizar nossa conferência. Quando digo que é preciso enfrentar esses reformistas de araque, o exemplo está aí em toda a sua desfaçatez. Eles podem mimetizar nossos discursos, mas não subtrairão nossa história.

*****

Agência Estado

Unidades psiquiátricas têm falta de médicos em SP


São Paulo - Serviços de saúde normatizados em 2002 para substituírem as internações em grandes hospitais psiquiátricos registram em São Paulo falta de profissionais e acompanhamento inadequado de pacientes, como ausência de planos individuais de tratamento e de controle sobre efeitos dos medicamentos utilizados. A conclusão é de avaliação inédita do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) sobre uma amostra vistoriada de 37% dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) paulistas.

Os centros foram criados durante a reforma psiquiátrica, iniciada há 30 anos no Brasil para evitar que pessoas com doenças mentais fossem isoladas em grandes hospitais psiquiátricos. Preveem equipes com diferentes profissionais de saúde, tratamento médico, oficinas terapêuticas e ações para reintegrar o paciente à sociedade.

O Cremesp calculou que menos da metade dos 85 Caps vistoriados (entre os 230 existentes no Estado) cumpre a própria regulamentação, de 2002, e que um terço fica sem médico em pelo menos um período do dia. "Não queremos demonizar a ideia, mas, como aplicação concreta, os Caps estão bastante deficitários", disse o psiquiatra Mauro Aranha de Lima, coordenador do estudo. O órgão não divulgou os nomes dos Caps analisados, alegando que, como o trabalho foi realizado entre 2008 e 2009, a situação pode ter melhorado. Os dados seguiram para as unidades e o Ministério Público.

Hoje, a maioria dos serviços é de gestão municipal, com financiamento e apoio das três esferas de governo. Procurado, o Ministério da Saúde disse que vai analisar os dados. A Secretaria de Estado da Saúde não se manifestou. "Certamente eles não foram aos nossos Caps", defendeu-se o secretário da capital paulista, Januário Montone, alvo de ação do Ministério Público para a criação de 57 novos serviços. A pasta afirma que um acordo será analisado pela Justiça e que, desde 2005, 16 Caps foram criados. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

fevereiro 24, 2010

Ufa! Mais um CAPS...

Marcha dos Usuários de Saúde Mental a Brasília
Foto: Nivya Valente - Brasília-DF - Setembro, 2009

Ufa! Mais um CAPS...

Bem vindos, companheiros(as) do Centro de Atenção Psicossocial da Cachoeirinha. Finalmente, saiu o primeiro CAPS da Prefeitura. A Associação Chico Inácio – filiada à Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial – fez uma visita no local, no mês de janeiro, e me garantiu que a equipe que a recebeu merece crédito. O espírito ali reinante é antimanicomial, até que se prove o contrário.

O déficit de CAPS em Manaus, bem como a implantação de leitos psiquiátricos no hospital geral, ainda é muito grande. Com apenas dois CAPS, estamos aquém das demandas de uma cidade com dois milhões de habitantes. Nos sessenta e dois municípios amazonenses ainda não chegamos a meia dúzia de CAPS. É pouco.

Vale a pena repetir: é preciso CAPS para adultos com problemas severos e persistentes, CAPS para crianças e adolescentes psicóticos e autistas, CAPS para abusadores de álcool e outras drogas, sem esquecermos dos Centros de Convivência com programas de geração de renda.

A Associação Chico Inácio não pretende baixar a guarda dos direitos de cidadania dos usuários dos serviços de saúde mental de Manaus. Enquanto não houver uma rede de CAPS capaz de oferecer tratamento que não se baseie apenas em medicamentos, silenciar é pecado capital.

Basta o silêncio de anos seguidos de quem tem a responsabilidade de gestão da saúde. Um deles chegou a dizer que “era só o que faltava investir em presos e loucos”. Essa cultura da indiferença vem sendo enfrentada pela Chico Inácio com a dignidade dos que jamais perdem a cordialidade.

É fundamental não perder o espírito crítico, sob pena de retrocesso das poucas conquistas obtidas. E isso vale para todos, sobretudo para a categoria mais reticente aos princípios que norteiam a reforma psiquiátrica brasileira: médicos.

Lembro-me do questionamento que fizemos, ainda estudante de medicina, no IV Congresso Brasileiro de Psiquiatria, realizado em Fortaleza, no Ceará. Época de ditadura militar. A formação do estudante de medicina em psiquiatria era o tema do congresso:


“Nós não compreendemos porque ocupando os psiquiatras irremediavelmente o lugar de intelectuais, negam esse papel e simplesmente se justapõem ao aparelho burocrático estatal que consideram incondicionalmente benéfico e justo”.


O texto lido por mim na plenária final do congresso é de autoria do saudoso Humberto Marouelli Mendonça, médico psiquiatria com quem dividi importantes momentos da vida acadêmica em Manaus. Seu texto continua atual. Até porque pouco mudou na formação elitizada da medicina brasileira.

Moral da história: mesmo numa cidade habituada a promover a “desafiliação” dos que nadam contra a correnteza, uma outra gramática é possível.

Manaus, Fevereiro de 2010.
Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental
Pro-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UEA
www.rogeliocasado.blogspot.com

Nota do blog: Artigo publicado no jornal Amazonas em Tempo, no caderno Saúde & Bem Estar, que sai aos domingos.


janeiro 15, 2010

Caps. vs. Hospício (III)

CAPS Silvério Tundis
Foto:
Rogelio Casado - Manaus-Amazonas-Brasil, 2006
Nota do blog: Está acontecendo em Manaus um curso sobre economia solidária para o setor de saúde mental. Público alvo: profissionais de saúde e organizações da sociedade civil. O lugar escolhido não poderia ter sido pior: o Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro. Em todo o país os militantes da luta por uma sociedade sem manicômios trabalham em consonância com a política nacional de saúde mental, que tem como meta a substituição dos hospitais psiquiátricos por uma rede diária de atenção de saúde mental, e que tem no CAPS - Centro de Atenção Psicossocial - um dos novos dispositivos de cuidados em saúde mental. Por que o local é problemático? Porque não pode haver dubiedade de comunicação com a sociedade. Se queremos o fim dos hospícios, realizar um curso de tão nobre propósito será interpretado como um sinal de que essa instituição pode ser "humanizada" e continuar entre nós depois de dois séculos de existência (vixe!). Fui honrosamente indicado pela professora Heloisa Helena Corrêa da Silva a participar como palestrante do evento. Ponderei sobre a impropriedade do local. Resumo da ópera: o segundo módulo será oferecido fora do espaço hospitalar, caso contrário declinarei do convite (questão de princípios). E mais: foi-me assegurado que o curso se propõe a fomentar iniciativas de economia solidária fora do espaço hospitalar. A propósito, Manaus já tem dois CAPS. O que se vê acima foi implantado pelo governo Eduardo Braga em 2006, quando já não era responsabilidade do Estado. O município inaugurou o seu CAPS neste mês de janeiro (é do município a responsabilidade de oferta desse tipo de serviço). Faltam mais seis, para uma população de 2 milhões de habitantes da cidade de Manaus. É bom lembrar que esses CAPS só atendem adultos com problemas severos e persistentes. Estão fora da área de cobertura: crianças/adolescentes e abusadores de álcool e outras drogas, que devem ter CAPS específicos. Sem falar da ausência de Centros de Convivência para abrigar incubadoras de projetos de geração de renda. Paro por aqui. Por ora, só a Associação Chico Inácio, que lutou praticamente sozinha pela Lei de Saúde Mental do Estado do Amazonas, é a única a romper com o silêncio do setor de saúde mental, incapaz de fazer valer os princípios da Reforma Psiquiátrica, entre eles substituir o manicômio por uma rede de CAPS.

CAPS vs. Hospício (III)

Ao traçar um paralelo entre dois modelos de saúde mental, em suas diferentes dimensões político-ideológicas, o professor e psicanalista Abílio da Costa-Rosa faz as seguintes afirmações sobre o modelo psicossocial, que tem no CAPS – Centro de Atenção Psicossocial – um dos seus dispositivos:

Neste modelo o ambiente sociocultural é determinante. A palavra e a ação do homem ganham a cena. É com ela que ele se administra.

Considerando o contínuo saúde-doença psíquica como o modo de posicionamento do sujeito frente aos conflitos e contradições vividas, o modelo psicossocial visa um reposicionamento do sujeito: ao invés de sofrer os efeitos do conflito, que se reconheça como um dos agentes implicados nesse “sofrimento”, abrindo caminho para agir como agente da possibilidade de mudança. Aqui a implicação é subjetiva. O sujeito não é mais apenas aquele que sofre.

No modelo psicossocial, suas diferentes possibilidades de ação se estendem desde a continência do indivíduo em crise até o reconhecimento da implicação familiar e social nos mesmos problemas. Tanto um quanto outro assumem parte do compromisso na atenção e no apoio.

É decisiva a ênfase na reinserção social do indivíduo nesse modelo de atenção, embora nem sempre seja a problemática que ele traz a responsável pela sua saída da circulação sociocultural. Desse modo, dá-se ênfase às formas de recuperação da cidadania pela via das cooperativas de trabalho.

O meio de trabalho desse modelo é a equipe interprofissional. Sua constituição supera em muitos aspectos o grupo de especialistas do modelo manicomial, na medida em que inclui dispositivos entre as mais diferentes formas de arte e artesanato. A superação da estratificação do saber dos especialismos se dá pela ampliação do conceito de tratamento e dos meios a ele dedicados, através da crítica ao paradigma doença-cura, agora tendo como “objeto” das novas práticas de saúde mental o conceito de existência-sofrimento.

Essa diferença conceitual é de uma sutileza elefantina, posto que o ato anterior de tratamento, baseado na doença-objeto, é transmutado por um verdadeiro exercício estético que tem como objetivo a experimentação de novas possibilidades de ser.

Para Antonio Lancetti, é esse deslocamento do pólo técnico-científico para o pólo ético-estético, onde se usam recursos além dos medicamentosos, que é capaz de gerar “novas formas de sociabilidade que escapam à produção em série dos manicômios hospitalares e profissionais”.

No próximo artigo, outras características desse novo paradigma de atenção à saúde mental.

Manaus, Dezembro de 2009.
Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental
Pro-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UEA
www.rogeliocasado.blogspot.com

Nota do blog: Artigo publicado no caderno Bem Estar & Saúde do jornal Amazonas em Tempo.
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dezembro 30, 2009

CAPS vs. Hospício (II)

Mapa dos serviços de sáude mental da cidade de Manaus
Nota do blog: Há 7 anos ininterruptos colaboro com o jornal Amazonas em Tempo escrevendo sobre o espinhoso tema reforma psiquiátrica e saúde mental. Na verdade, não tão ininterruptamente assim. Neste ano que está findando, lá no seu comecinho, fiquei mais de um mes sem publicação dos meus artigos. Transmiti para a editoria do caderno a perplexidade dos meus leitores (diferentemente de Márcio Souza que diz ser lido, em A Crítica, por apenas sete leitores, só o pessoal de casa ultrapassa esse montante). Desculpas à parte, o fato voltou a se repetir. Pedi novos esclarecimentos. Obtive como resposta a mudança de publicação dos artigos: de semanal para quinzenal. Para quem já escreveu mais de 4 mil caracteres com espaço, foi reduzido a 1500, passou para 2500, e é capaz de escrever se lhe for dado apenas 100 palavrinhas, habituado a fazer samba com uma nota só, as variações sempre foram bem recebidas, afinal o jornal tem sua política de editoria. Duro é ficar na dependência dos humores da editoria. O artigo abaixo, por exemplo, deveria ter saído no domingo retrasado. Como ando tão atarefado, sem tempo nem pra ler jornal, só ontem soube que ele não havia sido publicado, depois de ter enviado o CAPS vs. Hospício (III), que deve ser publicado no primeiro domingo de 2010. Por respeito aos meus leitores (mais de sete), publico o CAPS vs. Hospício (II), pois que se trata de uma sequência cuja alteração da ordem dos tratores altera a estrada da compreensão do que estou a comunicar. Se resolvermos essa questão ética, estou certo de que o caráter didático dessa comunicação será preservado. Aproveito o ensejo para manifestar minha gratidão ao jornal Amazonas em Tempo pelo único espaço a divulgar a experiência de trinta anos de compromissos com a sociedade amazonense e de leitura crítica da cultura institucional e dos movimentos sociais do meu estado, fiel ao propósito de transformar informação em conhecimento.

CAPS vs. Hospício (II)

Estamos traçando um paralelo entre dois modelos de saúde mental com diferentes dimensões político-ideológicas. Semana retrasada foi a vez do modelo manicomial, cuja referência é o hospício. Hoje é a do modelo psicossocial, que tem no CAPS – Centro de Atenção Psicossocial – um dos seus dispositivos (além dos Centros de Convivência, Serviços Residenciais Terapêuticos, leitos psiquiátricos em hospitais gerais, cooperativas sociais).

Antes, um lembrete: falar em novo paradigma em saúde mental é reconhecer que entre seus componentes estão novas formas de divisão de trabalho, novos dispositivos institucionais, novos modos de relacionamento entre os usuários dos serviços com a população, e que são outras as implicações éticas das novas práticas em termos jurídicos, teórico-técnicos e ideológicos. Valho-me das afirmações abaixo, do professor e psicanalista Abílio da Costa-Rosa, para dizer que sem elas não há radicalidade na mudança de modelo.

O modelo psicossocial tem entre seus objetos e meios de trabalho as psicoterapias, laborterapias, socioterapias e um conjunto de dispositivos de reintegração social, com ênfase nas cooperativas de trabalho, além da medicação.

É decisiva a participação do sujeito no tratamento, consideradas suas peculiaridades individuais e socioculturais.

Assume capital importância a relação do indivíduo com seu grupo social e familiar. Ambos são trabalhados como agentes das mudanças que se pretende.

Dado que o indivíduo não é único problemático, a família é incluída no tratamento.

Vale lembrar que a loucura não é um fenômeno exclusivamente individual, mas social, ainda que nossa cultura o negue.

É a participação da família e dos grupos sociais referidos ao usuário, sob as mais variadas formas, quem supera as posturas assistencial e orientadora do modelo manicomial. As próprias associações de usuários, surgidas sob inspiração do modelo psicossocial, tem papel ativo no tratamento, sobretudo na inclusão social dos usuários dos serviços.

O contexto social assume uma importância fundamental na medida em que é no espaço social que se praticam as mudanças desejadas na relação sociedade e loucura.

A loucura e o sofrimento psíquico não precisam mais ser removidos a qualquer preço. Ambos passam a ser reintegrados como parte da existência e, portanto, considerados como um patrimônio inalienável dos sujeitos e da humanidade.

No modelo psicossocial, os conflitos são considerados constitutivos e designam o posicionamento do sujeito e o lugar do homem na sociedade e na cultura.

Tem mais no próximo artigo.

Manaus, Dezembro de 2009.
Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental
Pro-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UEA
www.rogeliocasado.blogspot.com

Nota do blog: Artigo que deveria ter sido publicado, duas semanas passadas, no Caderno Saúde & Bem Estar do jornal Amazonas em Tempo.
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dezembro 14, 2009

CAPS versus Hospício

Hospício de Manaus
Foto: Rogelio Casado - Manaus-Amazonas-Brasil, 2008

CAPS versus Hospício

Em Saúde Mental qualquer modelo terapêutico tem seu arcabouço ideológico e teórico-técnico. Mas é o dispositivo institucional no qual ele é executado que faz a diferença. É o caso dos modelos antagônicos sobre os quais venho escrevendo neste jornal: o manicomial e o psicossocial. Desse último faz parte o CAPS – Centro de Atenção Psicossocial (dispositivo que substitui o modelo baseado no hospital psiquiátrico); do primeiro, o hospício (dispositivo presente na história da humanidade nos últimos duzentos anos).

Para o psicanalista e professor universitário Abílio da Costa-Rosa, no modelo manicomial consideram-se orgânicos os problemas mentais, sendo o tratamento medicamentoso. Não havendo sujeito desejante, ele não é co-participante do tratamento, sendo mero organismo a receber medicamentos.

Isolado do contexto social – família, amigos, trabalho –, o sujeito em sofrimento serve apenas como objeto assistencial, enquanto famílias são alvo de uma pedagogia fracassada, que não leva em conta o sujeito que vive a experiência da loucura. Daí intermináveis palestras, indutoras da passividade, fadadas ao fracasso.

Quanto ao tratamento, pense numa fábrica de linha de montagem. Como se o sujeito fosse uma mercadoria, primeiro ele recebe um diagnóstico mal formulado, para depois passar nas mãos de outros especialistas. Pior que essa ultrapassada divisão do trabalho, só a visão alienada dos ambulatórios que julga ter posto fim ao confinamento, próprio dos dispositivos da sociedade disciplinar, sem se dar conta que deu lugar a um outro tipo de dispositivo da modernidade, onde se operam formas sutis de controle social.

Os recursos multiprofissionais deste modelo, considerado secundário, qualquer que seja a disciplina – psicologia, psicanálise, terapia ocupacional – não altera a natureza do modelo, nem a realidade política e sócio-cultural dos sujeitos em tratamento. Todos se assumem como sujeitos de especialidades (disciplina), diante de uma clientela concebida como objeto inerente da sua intervenção – clientela desprovida de história e contexto social.

Nesse modelo, o modo de tratamento da psicose é refém do modelo de cura dos cânones médicos. Pior; outras problemáticas são incluídas no mesmo saco de gatos desse modelo curativo: o alcoolismo, a drogadicção e as neuroses graves.

É instituição por excelência desse modelo o hospital psiquiátrico e seus ambulatórios de consulta, medicalizadores das dores humanas e das dores da existência.

No próximo artigo, o modelo psicossocial, com seus objetos e seus meios de trabalho.

Manaus, Dezembro de 2009.
Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental
Pro-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UEA
www.rogeliocasado.blogspot.com

Nota do blog: Artigo publicado no Caderno Saúde & Bem Estar do jornal Amazonas em Tempo, que sai aos domingos.
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novembro 13, 2009

A Clínica da Saúde Mental - CAPS e Reforma Psiquiátrica

Manaus - Amazonas - Brasil
Nota do blog: Manaus continua com três míseros serviços de saúde mental: o hospital psiquiátrico (com um ambulatório e um pronto atendimento), um caps (centro de atenção psicossocial) e um ambulatório na Policlínica Codajás. Dois milhões de habitantes não merecem tanta indiferença no campo da saúde mental. Enquanto o país se mobiliza para a Conferência Nacional de Saúde Mental, aqui não se ouve falar do assunto. Já em Frutal-MG vai rolar um curso sobre a clínica da saúde mental; em pauta, o CAPS e a Reforma Psiquiátrica. Quando é que o Ministério da Saúde vai aproveitar o potencial da Universidade do Estado do Amazonas que tem um belo Programa de Telessaúde? Por que não são programados cursos de curta duração, teleconferências etc., com o objetivo de fazer a conversão dos recursos humanos ao novo paradigma de atenção à saude mental e formação de novos valores aos que estão entrando no serviço público? A única maneira de vencer grandes distâncias tem no meio eletrônico nosso principal dispositivo. Fica aí a dica da semana que se encerra.

Caros Amigos,

O Instituto Gregório Baremblitt de Frutal, inaugura suas atividades com:

Instituto Gregório Baremblitt
Rua Antônio de Paula, n°4 – Centro – Frutal/MG - CEP 38200-000.
Convida:

Curso: “A CLÍNICA DA SAÚDE MENTAL – CAPS E REFORMA PSIQUIÁTRICA”

CARGA HORÁRIA: 40 HORAS, DIVIDIDOS EM 5 ENCONTROS DE 8 HORAS.

PROFESSORES: JORGE ANTÔNIO NUNES BICHUETTI (Diretor Clínico e Psiquiatra do NAPS “Maria Boneca”);
MARIA DE FÁTIMA OLIVEIRA (Coordenadora e Psicóloga do NAPS “Maria Boneca”) da Fundação Gregório Baremblitt em Uberaba.

Objetivos:
1. Capacitar intervenções na clínica da crise e da psicose;
2. Desenvolver manejo de grupo psicoterápico e de oficinas terapêuticas;
3. Compreender a lógica do hospício e o modo de ver e agir da clínica antimanicomial;
4. Instrumentalizar práticas clínicas e sociais com família e comunidade;
5. Subsidiar leituras, intervenções e a produção de vida na lida com o sofrimento mental grave;

Conteúdo:

Dia 28 de novembro de 2009 (último sábado do mês):
a) Crise e desinstitucionalização. Cuidado antimanicomial.
Lógica do hospício. Cuidado de crise. Acolhimento e vínculo.
b) Caps. Reforma Psiquiátrica.
Convivência. Maternagem e trocas solidárias.
Transferência e transversalidade.
Exercícios: cuidando de crise

Dia 19 de dezembro de 2009 (último sábado útil do mês):
a) Clínica da Psicose.
Freud, Basaglia e Deleuze-Guattari. Lacan
Loucura, desrazão – diferença.
Outras clínicas do CAPS, do PSF e da rede básica. Psicopatologia – dinâmica dos transtornos mentais
b) Grupalidade. Freud, Bion, Pichón-Riviere, Sartre e Deleuze-Guattari.
Exercícios: a cena temida e bricolagem

Dia 30 de janeiro de 2010 (último sábado do mês):
a) Oficinas terapêuticas.
Repertório. Vivências.
b) Família – equipe – gestão
Exercícios: construindo oficinas para o dia-a-dia

Dia 27 de fevereiro de 2010 (último sábado do mês):
a) Cotidiano da clínica. Situações limite e o inédito viável.
Perfil da demanda. Admissão, alta. Plano terapêutico. Ética: estética e não-violência. Festas e – passeios.
Atividades comunitárias. Rede e socius no Caps.
b) Reabilitação Psicossocial.
Exercícios: Caçando linhas de fuga

Dia 27 de março de 2010 (último sábado do mês):
a) Esquizodrama: Laboratório – drama do devir
b) Teoria e prática: produzindo o novo pela experimentação. Exploração de multiplicidades. Nós e saídas.
Exercícios: esquizodrama
Entrega dos certificados assinados pelos docentes e Direção do Instituto, com 75% de assiduidade.
OBSERVAÇÃO: Todos os encontros funcionaram na seguinte dinâmica, podendo haver mudanças se o coletivo assim decidir:
c) Primeira parte do encontro, das 9:00 horas às 13:00 horas, com intervalo de 15 minutos para lanche;
d) Das 13:00 horas às 14:00 horas – almoço;
e) Segunda parte do encontro, das 14:00 horas às 18:00 horas, com intervalo de 15 minutos para lanche.

Carga horária: 8 horas/encontro, com vivências e exposição teórica.
Investimento: R$ 500, 00, divididos em cinco parcelas de R$100,00.
Data limite de inscrição: 20 de novembro de 2009.
Local do Curso: Rua Antônio de Paula, n°4 – Centro – Frutal/MG - CEP 38200-000.
Comissão Organizadora e Contato para Inscrições: Arlete Borges de Morais (tel.99956847); Celso Peito M. Filho (tel.99944041); Bernardino Lopes Neto (tel.99252396), Simone A. Cavalcanti (tel.96811296).
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a história Extra-Oficial, de Marcelo Reis


CINEMA DE INVENÇÃO

Caixa Preta apresenta:

Making of do filme História Extra-oficial de Marcelo Reis, roteirizada na caixa preta do Caps Itapeva

outubro 31, 2009

3 de novembro: inauguração do CAPS Tereza Noronha... em Pernambuco

Paulista - Pernambuco - Brasil
Postada em pernambucocultural.com

Nota do blog: No aprazível litoral pernambucano tem uma cidade de nome Paulista (foto) onde os "doidos" (expressão pop) comiam o pão que o diabo amassou. O hospício da cidade fechou, tamanha foi a pressão do movimento de luta por uma sociedade sem manicômios. Em seu lugar - não no mesmo lugar, bem entendido - será implantado o serviço substitutivo conhecido como Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). É o segundo CAPS 24 horas - também conhecido como CAPS III - do estado de Pernambuco (Manaus só tem um; na verdade um CAPS meia boca, que só funciona em dois turnos). Nelma Melo, da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial, mais feliz do que aquele pintinho da história, é quem enviou o convite abaixo da Prefeitura do Município de Paulista. A propósito: quando sai o CAPS do município de Manaus? E quantos sairão até o fim da administração atual? A partir de agora o CAPS de Paulista passará pelo processo de credenciamento. O Ministério da Saúde cadastrou, recentemente, 73 novos CAPS, de tipos I, II e III. Com isto, o total de CAPS cadastrados é de 1.467, e a cobertura Brasil passa para para 0.60 Caps por 100.000 habitantes. Ainda é pouco, para substituir o modelo de confinamento. Mexam-se militantes! Alô, Ministério Público, alguém na escuta?

Valeu o esforço de todos os municípios e dos(as) colegas que implantaram os serviços, enfrentando dificuldades, como todos(as) sabem.

CONVITE

O Prefeito do Paulista, Yves Ribeiro de Albuquerque,
e o Secretário de Saúde do Município,
Nelson Falcão de Melo convidam V.Sª. para
a inauguração
do CAPS III Tereza Noronha (24 horas),
que irá acontecer no dia 03 de novembro
às 16:00h, na Av. Beira Mar 3419
(Janga – Paulista – PE)

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