Em 2006, 60 leitos do hospital foram fechados, seguindo as diretrizes da nova política nacional de saúde mental. Para Maria Ivone, que trabalha há mais de 20 anos no Eduardo Ribeiro, a mudança foi “precipitada”. “O argumento usado é que [o fechamento de leitos no hospital psiquiátrico] foi ousado para provocar a abertura de leitos em hospitais gerais. Mas foi precipitado, porque colocaram o carro na frente dos bois. Os pacientes que utilizavam esse serviço ficaram a ver navios”, critica. (Precipitação e passividade são as faces de uma mesma moeda. Foram os "precipitados" que romperam a passividade das últimas décadas de algumas categorias do campo da saúde mental. Tanto assim, que ao longo dos últimos anos, entre os reformistas de boa cêpa, surgiram os "reformistas de araque". O perigo é que eles costumam agir nos bastidores do poder).
PICICA - Blog do Rogelio Casado - "Uma palavra pode ter seu sentido e seu contrário, a língua não cessa de decidir de outra forma" (Charles Melman) PICICA - meninote, fedelho (Ceará). Coisa insignificante. Pessoa muito baixa; aquele que mete o bedelho onde não deve (Norte). Azar (dicionário do matuto). Alto lá! Para este blogueiro, na esteira de Melman, o piciqueiro é também aquele que usa o discurso como forma de resistência da vida.
julho 01, 2010
Ou avançamos na reforma psiquiátrica antimanicomial ou vamos pro beleléu
Em 2006, 60 leitos do hospital foram fechados, seguindo as diretrizes da nova política nacional de saúde mental. Para Maria Ivone, que trabalha há mais de 20 anos no Eduardo Ribeiro, a mudança foi “precipitada”. “O argumento usado é que [o fechamento de leitos no hospital psiquiátrico] foi ousado para provocar a abertura de leitos em hospitais gerais. Mas foi precipitado, porque colocaram o carro na frente dos bois. Os pacientes que utilizavam esse serviço ficaram a ver navios”, critica. (Precipitação e passividade são as faces de uma mesma moeda. Foram os "precipitados" que romperam a passividade das últimas décadas de algumas categorias do campo da saúde mental. Tanto assim, que ao longo dos últimos anos, entre os reformistas de boa cêpa, surgiram os "reformistas de araque". O perigo é que eles costumam agir nos bastidores do poder).
junho 14, 2010
Pelo fim dos hospícios
março 27, 2010
O equívoco de Contardo Calligaris
Nota do blog: Contardo Calligaris escreve um texto na Folha "Ditabranda" de S. Paulo sobre a morte do grande Glauco e seu filho Raoni, pisa na bola, e tem como resposta um texto de Luciano Elia, que nos mostra o perigososo desdobramento de um pensamento que reforça a idéia de que "louco" bom é aquele que é internado para evitar atos perigosos. Taí um reforço inesperado para a sociedade da internação, bem ao gosto de quem quer reabilitar o hospício humanizado. Contardo sabe (se não sabe, fique sabendo) mas não toma posição sobre o número de CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) na cidade de São Paulo, muito aquém das necessidades de uma população de mais de 10 milhões de habitantes. Até o final de 2009, segundo Claudia Vieira, existia 60 CAPS na cidade, o que dá uma taxa de cobertura em torno de 0.60. Nestes ultimos dois anos, foram criados 15 novos CAPS na cidade, e 5 deles formam transformados em CAPS III. 3 CAPS Adulto III: o Sapopemba, o Itaim Bibi e o Mandaqui (aguarda-se o CAPS Adulto III em Parelheiros), e também o CAPS AD III Centro e o CAPS Infantil III Santana. Ora, optar por reforçar a idéia de internação, significa apostar no velho modelo iatrogênico de cuidados em saúde mental. A propósito, o Conselho Regional de Medicina de S. Paulo, depois de uma pesquisa fajuta (com metodologia que não trabalha com indicadores de resultados) chegou à conclusão de que os CAPS em 20 anos não resolveu os complexos problemas de cobertura da maior cidade da América Latina. Grande merda!, diria a saudosa tia Pátria. Que eu saiba os 200 anos de hospício, só piorou a vida dos loucos institucionalizados! De longe, os CAPS produziram resultados que mais de dois séculos não foram capazes. Te orienta, Calligaris! O que está em jogo são duas concepções de reforma psiquiátrica. A que nos queremos é a antimanicomial. Cada vez que ouço os cães ladrarem, estou certo de que estamos no caminho certo. Quanto mais tivermos dinheiro e pessoal habilitado, mais o modelo manicomial terá seus dias contados. A propósito, quando fui coordenador estadual de Saúde Mental (2003-2007) propus uma residência médica em psiquiatria em Manaus (parte da estagnação da reforma psiquiátrica no estado do Amazonas tem a ver - mas não só - com a ausência desse tipo de profissional). Cheguei a me corresponder com o Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Dependia de uma decisão da Coordenação Nacional de Saúde Mental. À falta de força política ficamos fora do mapa. Nessas ocasiões, costumam ser privilegiados os estados mais organizados, digamos assim. Não cruzamos os braços. Com a ajuda do Secretário de Saúde da Capital, Dr. Raymison Monteiro, da Secretária de Estado de Saúde, montamos uma residência que está indo para o seu quarto ano, aos trancos e barrancos, situado num péssimo lugar: no próprio hospital psiquiátrico. O lugar não poderia ser pior, sobretudo quando faltam preceptores identificados com o modelo psicossocial. A idéia era "quem não tem cão caça com gato". Só agora o Ministério da Saúde passará a incubar a residência médica em psiquiatria do Amazonas. Significa dizer que os novos residentes terão contato com experientes preceptores. Ufa! Já era hora. Para celebrar a persistência e teimosia, te convido a ver o vídeo do artista Nilo Neto - De usuário para usuário -, antimanicomial até a última raiz de cabelo.
***
OUVIU O GALO CANTAR E SABE AONDE,
...mas diz que é em outro terreiro!
Luciano Elia
O texto de Contardo Calligaris (encontrável em seu Blog, no endereço: http://contardocalligaris.blogspot.com/) a respeito do brutal assassinato de Glauco e Raoni contém importantes pontos de reflexão: qual é, efetivamente, a dimensão real de periculosidade que a condição da loucura comporta? O que significa ignorar isso, no suposto otimismo, apontado por Calligaris como aquilo “que nos leva a acreditar na possibilidade de transformações definitivas” [...] e que é “provavelmente, um efeito da ideia cristã de que não existe um pecado que não possa ser esquecido e perdoado se o penitente for sincero”. A leitura de seu texto também me suscitou a velha questão dessa espécie de benevolência que consiste em tornar “inadmissível internar um indivíduo perigoso na intenção de proteger a sociedade dos atos que ele poderia cometer”, e, indo mais longe, recoloca a questão da inimputabilidade e da irresponsabilidade civil do louco, que me parece exigir uma análise caso-a-caso, no mínimo.
São questões sérias, agudas, cruciais, e que devem ser trazidas ao debate público em uma sociedade democrática, como a nossa, que se consolida cada vez mais nesse estatuto.
No entanto, no mesmo espírito democrático que, quero crer, lastreia a iniciativa de Calligaris em trazer ao debate público as questões que o assassinato de Glauco e Raoni a seu ver coloca, quero expressar, de forma igualmente pública, os perigosos desdobramentos de um pensamento como o de Calligaris, sobretudo quanto à influência que pode ter na formação de uma opinião pública favorável às internações psiquiátricas. O problema que vejo nisso não é a defesa da internação psiquiátrica, que, concordemos com ela ou a deploremos, ela é, de resto, uma posição como qualquer outra, tão legítima quanto qualquer outra no debate democrático. O problema maior é fazer crer ao leitor que, de todas as medidas possíveis de tratamento, assistência, atenção, reabilitação, cuidado ou proteção àquele que sofre de transtornos mentais, a internação seria aquela que maior eficácia teria, no caso em questão, no impedimento do atos perigosos como o assassinato de Glauco e Raoni.
Senão, vejamos. Será que se internássemos todos os cidadãos que emitissem sinais de periculosidade (começando pelos que andam com cães pitbull pelas ruas, ou que se parecem, eles próprios, com esses cães pitbull), teríamos reduzida a estatística de assassinatos? Não me parece evidente. Mas certamente teríamos a maior taxa de internação e superlotação de manicômios do planeta. Os indivíduos “perigosos” deste tipo, os agressivos, impulsivos, que estrangulam namoradas que terminam o namoro com eles ou atiram filhos pela janela por acharem que já os mataram por atos precedentes, esses não são os verdadeiros loucos, os psicóticos sobre os quais incidem em geral (e cada vez menos, felizmente) as internações psiquiátricas.
Será que já nos detivemos suficientemente no fato clínico, evidência comprovada por qualquer profissional experiente da área da saúde mental, de que o louco que comete crime o faz no interior de uma história, um enredo, um delírio que tem uma estrutura discursiva, um texto, uma narrativa? [que não se entenda que estou com isso afirmando qualquer atenuante para o ato, mas sim situando-o no interior de uma estrutura que nos permite intervir, acessar, tratar a patologia do ato, digamos, que pode conter tanta violência quanto qualquer outro ato de qualquer outro cidadão não louco - a violência, a morte causada ou sofrida está para todos]. Este é exatamente o caso, aqui mais uma vez comprovado, de Cadu, o assassino de Glauco, em relação ao qual ele vinha entretendo uma complicada história. Ora, o que é que uma internação faz senão começar por cortar justamente os elos da história, os ganchos textuais, as referências do enredo e a própria narrativa, inclusive aquela que poderia comportar a morte ou o assassinato como seu ponto de confluência? Então a internação é precisamente o que retira os meios de acesso, tratamento e evitação do ato, por cortar o texto que lhe fornece o enredo. Se evita o ato agressivo, é simplesmente por evitar qualquer outro, por paralisar o movimento, o pensamento e a ação. Entende-se o que aqui se diz? A internação não é condenável por ser pouco humanitária, mas por ser burra mesmo, cientificamente falando, é uma asneira sem qualquer possibilidade de validação pela inteligência ou pela razão científicas: Se o ato eventualmente assassino de um doente mental requer, necessita de um delírio que o determine, cortar as vias de acesso e tratamento do delírio (internar) é um curiosíssimo método que consiste em privar-se justamente dos meios mesmos de chegar aos seus objetivos.
Pela via da internação, não estaríamos tratando nossos “perigosos” loucos, que estão longe de ser os mais perigosos cidadãos exatamente por força de sua narrativa delirante, que fornece sinais, alertas, pedidos de intervenção que impeçam seus atos, via de regra do modo tempestivo. A história da psiquiatria mundial já demonstrou suficientemente que a internação não é a forma mais eficaz de tratamento dos distúrbios psíquicos – muito pelo contrário -, e um psicanalista não poderia ignorar isso. Contardo Calligaris é um psicanalista.
É importante deixar aqui bem claro que, no importantíssimo processo histórico que atravessamos e que responde pelo nome de Reforma Psiquiátrica Brasileira, a internação não é um recurso execrável e inadmissível, como sugere Calligaris, em uma alusão que, embora anônima, deixa bem clara sua referência ao processo da luta anti-manicomial que o campo da Saúde Mental e as Políticas Públicas em vigor no Brasil sustentam, porque pactuadas junto à sociedade brasileira. A internação é um recurso legítimo, aplicável, indicável, necessário e em alguns casos indispensável, mas desde que articulada a uma rede de cuidado cuja lógica, pautada nas ações comunitárias, territoriais, intersetoriais – a sociedade toda precisa se envolver com a questão da loucura e dos seus "perigos" – não é a lógica da segregação, da exclusão, da internação como exílio social no próprio seio da sociedade. No caso de Cadu, uma internação certamente poderia ter sido bastante acertada e providencial. Mas esta internação estaria sendo acompanhada por equipes de saúde mental não hospitalares, e o delírio de Cadu, uma vez tratado, teria tomado outro curso, como em centenas de casos clínicos similares que teríamos a contar aqui e a fornecer como evidências científicas do que estamos afirmando, nos quais assassinatos, em geral de familiares e pessoas muito próximas do doente, determinados por “comandos mentais” deixaram de ocorrer pela intervenção das equipes de técnicos responsáveis pelo tratamento fora da internação.
Contra a crença inabalável em uma redenção inexorável – cujos equívocos e perigos Calligaris corretamente assinala – este autor poderia fazer inúmeros e outros questionamentos, envolvendo diversos procedimentos e dispositivos, ao invés de simplesmente invocar a internação e lamentar que ela não tenha sido praticada: Poderia interrogar que medidas de atenção e tratamento o assassino, Cadu, estaria recebendo de equipes de saúde mental do território (Osasco); Poderia indagar se essas equipes, bem como as do PSF (Programa de Saúde da Família) local colocaram-se ao alcance da comunidade do Santo Daime (Céu de Maria) que Cadu freqüentava e onde já tinha dado inúmeros sinais de seu transtorno (a ponto de estar proibido de tomar o chá alucinógeno dos rituais); Poderia também indagar por que essas equipes não estavam intervindo junto a Cadu, levando-o ao Centro de Atenção Psicossocial mais próximo, ou que espécie de rede social protetiva ou preventiva poderia ter detectado o perigo iminente de um ato com o dele e assim o tivesse podido evitar, fazendo justamente o trabalho que precisava ser feito com respeito ao delírio e às histórias que circundavam o ato assassino final, trabalho que é justamente o que as internações não fazem. Se Calligaris fizesse essas perguntas, estaria engrossando as fileiras de milhões de brasileiros que vêm, há quase trinta anos, lutando de forma árdua e exitosa contra as truculentas, ineficazes e mercenárias (com o dinheiro público) práticas manicomiais no Brasil.
Mas Calligaris preferiu, ao analisar a relação entre a doença mental e a violência que matou Glauco e Raoni, iludir a si mesmo e à opinião pública quanto aos poderes enganosos da internação como forma de enfrentamento dessas eventuais associações entre loucura e violência.
É uma pena.
Abraços a todos, em particular a Beatriz, viúva de Glauco, seus filhos, a namorada de Raoni, e aos companheiros da luta anti-manicomial, que é também a luta anti-violência, anti-assassinatos de todas as espécies.
Luciano Elia, psicanalista, e um desses companheiros.
janeiro 15, 2010
Caps. vs. Hospício (III)
CAPS vs. Hospício (III)
Ao traçar um paralelo entre dois modelos de saúde mental, em suas diferentes dimensões político-ideológicas, o professor e psicanalista Abílio da Costa-Rosa faz as seguintes afirmações sobre o modelo psicossocial, que tem no CAPS – Centro de Atenção Psicossocial – um dos seus dispositivos:
Neste modelo o ambiente sociocultural é determinante. A palavra e a ação do homem ganham a cena. É com ela que ele se administra.
Considerando o contínuo saúde-doença psíquica como o modo de posicionamento do sujeito frente aos conflitos e contradições vividas, o modelo psicossocial visa um reposicionamento do sujeito: ao invés de sofrer os efeitos do conflito, que se reconheça como um dos agentes implicados nesse “sofrimento”, abrindo caminho para agir como agente da possibilidade de mudança. Aqui a implicação é subjetiva. O sujeito não é mais apenas aquele que sofre.
No modelo psicossocial, suas diferentes possibilidades de ação se estendem desde a continência do indivíduo em crise até o reconhecimento da implicação familiar e social nos mesmos problemas. Tanto um quanto outro assumem parte do compromisso na atenção e no apoio.
É decisiva a ênfase na reinserção social do indivíduo nesse modelo de atenção, embora nem sempre seja a problemática que ele traz a responsável pela sua saída da circulação sociocultural. Desse modo, dá-se ênfase às formas de recuperação da cidadania pela via das cooperativas de trabalho.
O meio de trabalho desse modelo é a equipe interprofissional. Sua constituição supera em muitos aspectos o grupo de especialistas do modelo manicomial, na medida em que inclui dispositivos entre as mais diferentes formas de arte e artesanato. A superação da estratificação do saber dos especialismos se dá pela ampliação do conceito de tratamento e dos meios a ele dedicados, através da crítica ao paradigma doença-cura, agora tendo como “objeto” das novas práticas de saúde mental o conceito de existência-sofrimento.
Essa diferença conceitual é de uma sutileza elefantina, posto que o ato anterior de tratamento, baseado na doença-objeto, é transmutado por um verdadeiro exercício estético que tem como objetivo a experimentação de novas possibilidades de ser.
Para Antonio Lancetti, é esse deslocamento do pólo técnico-científico para o pólo ético-estético, onde se usam recursos além dos medicamentosos, que é capaz de gerar “novas formas de sociabilidade que escapam à produção em série dos manicômios hospitalares e profissionais”.
No próximo artigo, outras características desse novo paradigma de atenção à saúde mental.
Manaus, Dezembro de 2009.
Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental
Pro-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UEA
www.rogeliocasado.blogspot.com
Nota do blog: Artigo publicado no caderno Bem Estar & Saúde do jornal Amazonas em Tempo.
dezembro 30, 2009
CAPS vs. Hospício (II)
CAPS vs. Hospício (II)
Estamos traçando um paralelo entre dois modelos de saúde mental com diferentes dimensões político-ideológicas. Semana retrasada foi a vez do modelo manicomial, cuja referência é o hospício. Hoje é a do modelo psicossocial, que tem no CAPS – Centro de Atenção Psicossocial – um dos seus dispositivos (além dos Centros de Convivência, Serviços Residenciais Terapêuticos, leitos psiquiátricos em hospitais gerais, cooperativas sociais).
Antes, um lembrete: falar em novo paradigma em saúde mental é reconhecer que entre seus componentes estão novas formas de divisão de trabalho, novos dispositivos institucionais, novos modos de relacionamento entre os usuários dos serviços com a população, e que são outras as implicações éticas das novas práticas em termos jurídicos, teórico-técnicos e ideológicos. Valho-me das afirmações abaixo, do professor e psicanalista Abílio da Costa-Rosa, para dizer que sem elas não há radicalidade na mudança de modelo.
O modelo psicossocial tem entre seus objetos e meios de trabalho as psicoterapias, laborterapias, socioterapias e um conjunto de dispositivos de reintegração social, com ênfase nas cooperativas de trabalho, além da medicação.
É decisiva a participação do sujeito no tratamento, consideradas suas peculiaridades individuais e socioculturais.
Assume capital importância a relação do indivíduo com seu grupo social e familiar. Ambos são trabalhados como agentes das mudanças que se pretende.
Dado que o indivíduo não é único problemático, a família é incluída no tratamento.
Vale lembrar que a loucura não é um fenômeno exclusivamente individual, mas social, ainda que nossa cultura o negue.
É a participação da família e dos grupos sociais referidos ao usuário, sob as mais variadas formas, quem supera as posturas assistencial e orientadora do modelo manicomial. As próprias associações de usuários, surgidas sob inspiração do modelo psicossocial, tem papel ativo no tratamento, sobretudo na inclusão social dos usuários dos serviços.
O contexto social assume uma importância fundamental na medida em que é no espaço social que se praticam as mudanças desejadas na relação sociedade e loucura.
A loucura e o sofrimento psíquico não precisam mais ser removidos a qualquer preço. Ambos passam a ser reintegrados como parte da existência e, portanto, considerados como um patrimônio inalienável dos sujeitos e da humanidade.
No modelo psicossocial, os conflitos são considerados constitutivos e designam o posicionamento do sujeito e o lugar do homem na sociedade e na cultura.
Tem mais no próximo artigo.
Manaus, Dezembro de 2009.
Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental
Pro-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UEA
www.rogeliocasado.blogspot.com
Nota do blog: Artigo que deveria ter sido publicado, duas semanas passadas, no Caderno Saúde & Bem Estar do jornal Amazonas em Tempo.
dezembro 14, 2009
CAPS versus Hospício
Em Saúde Mental qualquer modelo terapêutico tem seu arcabouço ideológico e teórico-técnico. Mas é o dispositivo institucional no qual ele é executado que faz a diferença. É o caso dos modelos antagônicos sobre os quais venho escrevendo neste jornal: o manicomial e o psicossocial. Desse último faz parte o CAPS – Centro de Atenção Psicossocial (dispositivo que substitui o modelo baseado no hospital psiquiátrico); do primeiro, o hospício (dispositivo presente na história da humanidade nos últimos duzentos anos).
Para o psicanalista e professor universitário Abílio da Costa-Rosa, no modelo manicomial consideram-se orgânicos os problemas mentais, sendo o tratamento medicamentoso. Não havendo sujeito desejante, ele não é co-participante do tratamento, sendo mero organismo a receber medicamentos.
Isolado do contexto social – família, amigos, trabalho –, o sujeito em sofrimento serve apenas como objeto assistencial, enquanto famílias são alvo de uma pedagogia fracassada, que não leva em conta o sujeito que vive a experiência da loucura. Daí intermináveis palestras, indutoras da passividade, fadadas ao fracasso.
Quanto ao tratamento, pense numa fábrica de linha de montagem. Como se o sujeito fosse uma mercadoria, primeiro ele recebe um diagnóstico mal formulado, para depois passar nas mãos de outros especialistas. Pior que essa ultrapassada divisão do trabalho, só a visão alienada dos ambulatórios que julga ter posto fim ao confinamento, próprio dos dispositivos da sociedade disciplinar, sem se dar conta que deu lugar a um outro tipo de dispositivo da modernidade, onde se operam formas sutis de controle social.
Os recursos multiprofissionais deste modelo, considerado secundário, qualquer que seja a disciplina – psicologia, psicanálise, terapia ocupacional – não altera a natureza do modelo, nem a realidade política e sócio-cultural dos sujeitos em tratamento. Todos se assumem como sujeitos de especialidades (disciplina), diante de uma clientela concebida como objeto inerente da sua intervenção – clientela desprovida de história e contexto social.
Nesse modelo, o modo de tratamento da psicose é refém do modelo de cura dos cânones médicos. Pior; outras problemáticas são incluídas no mesmo saco de gatos desse modelo curativo: o alcoolismo, a drogadicção e as neuroses graves.
É instituição por excelência desse modelo o hospital psiquiátrico e seus ambulatórios de consulta, medicalizadores das dores humanas e das dores da existência.
No próximo artigo, o modelo psicossocial, com seus objetos e seus meios de trabalho.
Manaus, Dezembro de 2009.
Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental
Pro-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UEA
www.rogeliocasado.blogspot.com
Nota do blog: Artigo publicado no Caderno Saúde & Bem Estar do jornal Amazonas em Tempo, que sai aos domingos.
novembro 24, 2009
Modelos contraditórios
Foto: Rogelio Casado - Manaus - Amazonas - Brasil, 18.maio.2007
Entre 1980-1981 fui diretor clínico do Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro. As conquistas desse período da Reforma Psiquiátrica foram registradas nos livros “Cidadania e Loucura”, num artigo de Pedro Gabriel Delgado, e “Psicologia e Terapia Ocupacional”, de Gilberto Verardo Moulard.
O primeiro registro é político-ideológico: a luta pela substituição do modelo asilar e sua tecnologia. O segundo é teórico-técnico: a transformação radical do campo da saúde mental pela terapia ocupacional. Ambas as esferas são indissociáveis.
Foi a firmeza do movimento dos trabalhadores de saúde mental, e das práticas que tentaram desmontar o modelo asilar, que pôs abaixo o cenário de horror do hospício amazonense.
O desmonte ficou no meio do caminho, devido uma assustadora inércia institucional. Só no governo Eduardo Braga resgatamos parte das pulsações da história da reforma psiquiátrica, abrindo espaço para a implantação do primeiro Centro de Atenção Psicossocial de Manaus, apesar da torcida contrária.
Hoje temos dois modelos contraditórios de saúde mental: um no qual o sujeito é refém da especialidade e da expectativa de eficácia da medicação psiquiátrica, no qual vigora saberes e práticas cristalizadas. Nesse contexto, articular novos meios visando fins terapêuticos concorre para uma perigosa produção subjetiva: a de que é possível humanizar o hospital psiquiátrico. Com a ressignificação do imaginário social sobre o papel dessa instituição de controle, teríamos um desserviço à reforma psiquiátrica antimanicomial que queremos.
O segundo pode operar como fator de avanço das práticas antimanicomiais, em que sujeitos em tratamento são mobilizados a considerar que a loucura não é um fenômeno individual, mas social. Daí porque familiares são parte integrante dos projetos terapêuticos. Conflitos são constitutivos do humano, designam a posição do sujeito. O lugar sociocultural da loucura ganha nova dimensão.
É neste segundo modelo, chamado psicossocial, que os ambientes assumem importância. São nos ambientes socioculturais que a palavra e a ação do homem assumem novas possibilidades de administrar conflitos. Neles o sujeito com transtorno psíquico em vez de sofrer os efeitos do conflito reconhece que é um dos implicados na produção do sofrimento. Neste modelo, o sujeito pode ser o agente da mudança, negado no outro modelo.
Reposicionar o sujeito em sua subjetividade e promover a desinstitucionalização da loucura não se faz sem a construção de uma consciência crítica do modelo manicomial. Caso contrário, é obra pra inglês ver.
Manaus, Novembro de 2009.
Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental
Pro-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UEA
www.rogeliocasado.blogspot.com
Nota do blog: Artigo publicado no Caderno Saúde & Bem Estar do jornal Amazonas em Tempo.
novembro 23, 2009
“El manicomio liberado”
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“El manicomio liberado”
Fundador de la desmanicomialización en Italia y en el mundo, pronunció en 1979 en San Pablo, Brasil, una serie de conferencias –hoy recogidas en libro– en las que reflexiona sobre la locura, la sociedad y la emancipación.
Por Franco Basaglia *
Es difícil decir si la psiquiatría es por sí misma instrumento de liberación o de opresión. Tendencialmente la psiquiatría es siempre opresiva, es una manera de manifestarse el control social. Si partimos del origen de la psiquiatría, debemos recordar a Philippe Pinel, que a fines del siglo XVIII liberó a los locos de las prisiones; pero desgraciadamente, luego de haberlos liberado, los encerró en otra prisión que se llama manicomio. Empieza así el calvario del loco y el gran destino del psiquiatra. Luego de Pinel, en la historia de la psiquiatría aparecen nombres de grandes psiquiatras; pero del enfermo mental sólo existen denominaciones, etiquetas: histeria, esquizofrenia, manía, astenia. La historia de la psiquiatría es la historia de los psiquiatras y no la historia de los enfermos.
Desde el siglo XVIII, este tipo de relación ligó indisolublemente al enfermo con su médico, creando una condición de dependencia de la cual el enfermo no ha logrado liberarse. Diría que la psiquiatría nunca fue otra cosa que una mala copia de la medicina, una copia en la cual el enfermo aparece siempre totalmente dependiente del médico que lo atiende: lo importante es que el enfermo no se coloque nunca en una posición crítica en relación con el médico.
Cuando el pueblo, en el siglo XIX, comenzó a rebelarse en contra de la autoridad del Estado, se advirtió que quería participar en la gestión del poder y, sobre todo, que el pueblo no era un animal que podía ser dominado fácilmente. Así se pudo distinguir la existencia de dos clases: la de los trabajadores, que no quiere más ser dominada y quiere participar del poder, y la clase dominante, que no quiere ceder espacios. Fueron más de cien años de luchas, de sangre, de guerras civiles: la clase trabajadora conquistó un espacio relevante en nuestros países. Pienso que es fundamental que los médicos y los psiquiatras sepan estas cosas.
El médico que presta asistencia en una comunidad debe saber que en ella están presentes por lo menos dos clases, una que quiere dominar y la otra que no quiere dejarse dominar. Cuando un psiquiatra entra en un manicomio encuentra una sociedad bien definida: por un lado, los “locos pobres” (el sistema de los manicomios públicos en los países industrializados nació para el tratamiento a cargo del Estado de los “locos pobres”; así lo decían las disposiciones legales) y, por otro lado, los ricos, la clase dominante, que dispone los medios para el tratamiento de los pobres locos. Desde esta perspectiva, ¿cómo podemos pensar que la psiquiatría pueda ser liberadora? El psiquiatra estará siempre en una situación de privilegio, de dominio con respecto al enfermo. Desde este punto de vista, la psiquiatría es, desde su nacimiento, una técnica altamente represiva, que el Estado siempre usó para oprimir a los enfermos pobres, es decir: la clase trabajadora que no produce.
Sin embargo, desde la segunda mitad del siglo XX sucedió algo nuevo, que puso al alcance de la psiquiatría instrumentos de liberación. Luego de la Segunda Guerra Mundial el pueblo y algunos técnicos comenzaron a poner en discusión las instituciones del Estado. En los años ’60 hemos visto rebelarse, como en una gran llamarada, a la juventud del mundo entero. En ese levantamiento, nosotros, los técnicos de la represión psiquiátrica, estábamos presentes; dimos nuestro apoyo a esa rebelión. Más tarde, mientras la revuelta de 1968 se perdía en varias direcciones y era reformulada en una suerte de nueva opresión y restauración, hubo una serie de situaciones que unieron las luchas en las instituciones con las luchas de los trabajadores. Hubo ilusiones, pero también certezas. Hemos visto que cuando el movimiento obrero toma en sus manos luchas reivindicativas, de liberación, antiinstitucionales, esta ilusión se vuelve realidad. En Italia, luego de 1968 hubo grandes huelgas en las que los obreros reivindicaron el derecho a la salud, es decir que llevaron su lucha al nivel de las instituciones públicas. Paralelamente algunos técnicos demostraron que el manicomio era un lugar de opresión y de dolor, no de cuidado. Finalmente, en aquellos años y en los siguientes, las mujeres demostraron que la opresión del hombre y de la familia trataba de impedirles tener una subjetividad propia.
Todos estos movimientos han puesto en evidencia la voluntad de afirmación, no sólo como objetividad, sino como subjetividad. Esta es la fase que estamos viviendo, y es un desafío a aquello que somos, a la relación entre nuestra vida privada y nuestra vida como hombres políticos.
Cuando el enfermo pide al médico explicaciones sobre su tratamiento y el médico no sabe o no quiere responder, o cuando el médico pretende que el enfermo se quede en la cama, es evidente el carácter opresivo de la medicina. Cuando el médico, en cambio, acepta el reclamo, entonces la medicina y la psiquiatría se transforman en instrumentos de liberación.
Es en esta cuestión que tenemos que elegir nuestro camino: si preferimos quedarnos en la oscuridad o queremos estar presentes en nuestro tiempo y cambiar, en la práctica, nuestra vida.
Desmanicomio
Después de la Segunda Guerra Mundial, Italia era todavía, en lo económico y cultural, un país campesino. En la década de 1950 comenzó un proceso de cambio determinado por el desarrollo de la sociedad industrial y, consecuentemente, de una clase obrera cada vez más fuerte. En aquellos años iniciamos el trabajo en Gorizia, una pequeña ciudad en la frontera con Yugoslavia. Allí había un hospital con 500 camas dirigido de manera totalmente tradicional; era usual la práctica del electroshock y el shock insulínico; antes que nada, era un hospital dominado por la miseria, la misma que encontramos en todos los manicomios. En cuanto entramos, dijimos: no. Un no a la psiquiatría, pero sobre todo un no a la miseria.
Vimos que, desde el momento en que dábamos respuesta a la pobreza del internado, su posición cambiaba totalmente: dejaba de ser un loco para transformarse en un hombre con el cual podíamos entrar en relación.
Habíamos comprendido que un individuo enfermo no sólo necesita la cura de la enfermedad: necesita una relación humana con quien lo atiende, necesita respuestas reales para su ser, necesita dinero, una familia; necesita todo aquello que también nosotros, los que lo atendemos, necesitamos. Este fue nuestro descubrimiento. El enfermo no es solamente un enfermo, sino un hombre con todas sus necesidades. Por ejemplo, yo recuerdo que después de que abrimos los pabellones en Gorizia, en 1963-1964, todos esperábamos ver cosas terribles. No sucedió nada. Vimos que las personas se comportaban correctamente, pedían cosas muy justas: querían comida mejor, posibilidad de relaciones hombre-mujer, tiempo libre, libertad para salir. Son cosas que un psiquiatra ni siquiera imagina que el enfermo pueda pedir. Sería como si, en una sociedad fundada sobre el puritanismo, una hija le pidiera al padre salir de noche. Eso sería terrible para el padre, ¿no iba a poder saber cuándo su hija volvería a casa? Ocurre lo mismo con el enfermo mental, porque el psiquiatra siempre confundió la internación del enfermo con la propia libertad. Cuando el enfermo está internado, el médico está en libertad; cuando el interno está en libertad, el internado es el médico.
Entonces, cuando empezamos a organizar algo tendencialmente igualitario, vimos, por ejemplo, que un hombre se encontraba con una mujer y no sucedía nada violento. Se enamoraban. Naturalmente, luego podían tener una relación sexual, como sucede en las mejores familias y ¿por qué no habría de suceder en el manicomio liberado? Empezamos a divulgar la experiencia para demostrar que era posible dirigir el manicomio de otra manera. Y todo esto nos llevó también a una reflexión política: los internados pertenecían a las clases oprimidas y el hospital era un medio de control social.
En Gorizia organizamos una comunidad con el objetivo de curar y de mostrar que era posible una vida distinta. Lo sorprendente fue que mucha gente que venía a vernos percibía que la vida dentro de la comunidad era mejor que la vida afuera. Era que dentro de esa comunidad, el egoísmo que domina nuestras vidas era afrontado de otra manera: mi sufrimiento era el sufrimiento del otro. Con este tipo de lógica empezamos.
Después, muchos de los que habían trabajado en Gorizia fueron a dirigir otras instituciones psiquiátricas y así se generaron cuatro, cinco, seis experiencias diferentes. De todos modos, nosotros sabíamos que el manicomio, aun el dirigido de modo alternativo, era siempre una forma de control social, porque la gestión no podía sino estar en manos del médico, y la mano del médico es la mano del poder. Entonces, cuando, en 1971, empezamos a trabajar en Trieste, continuamos la experiencia de Gorizia, pero con el proyecto de eliminar el manicomio y sustituirlo por una organización mucho más ágil, para poder afrontar la enfermedad allí donde tenía origen. Empezamos con un manicomio que tenía 1200 personas y hoy, luego de ocho años de trabajo, no quedó casi nadie en esa estructura. Esas personas procuraron reinsertarse socialmente, con nosotros, con la sociedad, con la comunidad.
Podríamos decir que somos personas que transforman en oro lo que tocan, aunque en realidad nuestro trabajo fue muy simple. Como ya dije, en Gorizia descubrimos que la clase trabajadora, en caso de enfermedad, era destinada al manicomio. Entonces, pensamos que esta clase debía tener responsabilidades y poder en la gestión del problema de la salud y que esto podría cambiar las cosas. Por ejemplo, la discusión sobre cuándo se podía dar de alta a un paciente no era sólo entre nosotros, los médicos, sino también con las personas del barrio donde el enfermo iba a ir a vivir. De esta forma, el vecino del barrio se daba cuenta de que las necesidades del paciente no eran distintas a las suyas. Ante el problema de dar de alta a una persona pobre, que no tenía dinero ni casa, ni familia, muchos percibían que estaban o que podían llegar a estar en las mismas condiciones. Comenzaba así la identificación entre el sano y el enfermo, y el inicio de la integración del enfermo.
Entonces, día a día, año a año, paso a paso, desesperadamente, encontrábamos la manera de llevar al que estaba adentro, afuera, y al que estaba afuera, adentro. En la medida en que el número de los internados disminuía, íbamos creando en la ciudad los centros de salud mental. Teníamos una estructura externa muy ágil, en la cual la enfermedad se enfrentaba fuera del manicomio. Y veíamos que los problemas referidos a la peligrosidad de los enfermos comenzaba a disminuir: empezábamos a afrontar, no ya una “enfermedad”, sino una “crisis”.
Hoy nos es evidente que cada situación que nos llega es una crisis vital y no “una esquizofrenia”. En aquel momento, ya veíamos que aquella “esquizofrenia” era la expresión de una crisis, existencial, social, familiar, no importa cuál. Una cosa es considerar el problema como una crisis y otra cosa es considerarlo como un diagnóstico: el diagnóstico apunta a un objeto, y la crisis a una subjetividad; subjetividad que a su vez pone en crisis al médico.
He hablado de manera muy general del camino que hicimos para tratar de eliminar el hospital psiquiátrico y crear una situación tendencialmente terapéutica. No puedo decir más que “tendencialmente”, porque no puede ser plenamente terapéutica: yo trato de curar a una persona, pero no puedo tener la certeza de si la curo o no. Es lo mismo que cuando digo que amo a una mujer: es muy fácil decir esto, pero en algún sentido es falso, porque el hombre tiende a un tipo de relación y la mujer a otro; la relación que se crea entre los dos no es más que una crisis, es una crisis en la que hay vida, siempre que no haya dominación del hombre sobre la mujer o de la mujer sobre el hombre. En una situación que es tendencialmente de amor, se puede crear una relación muy libre.
* Extractado de La condena de ser loco y pobre. Alternativas al manicomio, de reciente aparición, que reúne conferencias pronunciadas en San Pablo, Brasil, en 1979.
Fonte: Página/12



