PICICA - Blog do Rogelio Casado - "Uma palavra pode ter seu sentido e seu contrário, a língua não cessa de decidir de outra forma" (Charles Melman) PICICA - meninote, fedelho (Ceará). Coisa insignificante. Pessoa muito baixa; aquele que mete o bedelho onde não deve (Norte). Azar (dicionário do matuto). Alto lá! Para este blogueiro, na esteira de Melman, o piciqueiro é também aquele que usa o discurso como forma de resistência da vida.
PICICA: Para Carlos Alberto Saraiva, Juiz de Direito aposentado pelo TJ/RJ, José Serra, o Obscuro, perdeu até pra ele mesmo no debate da noite passada na TV Record. Leia o texto postado pelo eminente juiz no seu blog.
Dilma foi bem neste debate e venceu sem muito esforço.
Ela não estava cansada como no último debate, seguiu a estratégia de falar com o telespectador, recusou provocações, foi firme e propositiva, foi convincente no que disse, deu nó em Serra em vários momentos, denunciando quando estava enrolando e mentindo. E evitou as picuinhas, se fixando no PAC, pré-sal e empregos, principalmente.
Serra perdeu até para ele mesmo. Exagerou na agressividade, foi uma pessoa extremamente desagradável para o telespectador, parecendo aquela visita mal educada em sua casa, que numa conversa onde há controvérsia, em vez de argumentar, quer vencer no grito, e com ofensas à outros visitantes.
O telespectador viu em Serra uma pessoa desequilibrada, parecendo estar com os nervos abalados, à beira do descontrole.
Dilma foi nota 10 no quesito emprego. E Serra caiu na armadilha de não responder mais uma vez, mesmo Dilma incluindo na pergunta, a observação que ele não respondia esta pergunta nos outros debates. O telespectador percebeu que ele novamente fugir da pergunta. Só respondeu quando Dilma voltou a perguntar pela segunda vez neste mesmo debate.
Dilma foi ótima no pré-sal. Serra foi tão patético em acusar Dilma de privatista quanto Alckmin em 2006 quando acusou Lula de privatizar a Amazônia. Dilma foi muito bem na defesa do PAC.
E Serra cometeu alguns erros fatais em debates: mentiu sobre fatos e números. Tivéssemos uma imprensa imparcial, e ele teria se tornado carta fora do baralho amanhã, só com o noticiário, análises e desmentidos do que ele disse. Como a imprensa é serrista, as mentiras serão relevadas à segundo plano.
Serra capotou feio ao dizer que o pré-sal (onde há certeza de ter petróleo) e áreas de risco (onde não há certeza, pode perfurar e não encontrar) são a mesma coisa. Também mostrou desconhecimento ao não distinguir petróleo pesado, do petróleo leve do pré-sal (mais caro).
Ele despertou desconfiança no telespectador, pareceu querendo enganar o eleitor, por estar de rabo-preso com os interesses estrangeiros. Ele pareceu defender os interesses estrangeiros, usando o argumento patético de que Dilma e Lula teriam feito a mesma coisa.
O telespectador o enxergou como um político safado tentando enganá-lo ou alguém muito mal informado (e para um assunto dessa importância do pré-sal é imperdoável para um candidato à presidente ser mal informado).
As mentiras gravíssimas de Serra, foram:
- não distinguir as diferenças em leilões de blocos de risco, do pré-sal onde quase não há risco;
- Negar que o governo FHC cogitou mudar o nome de Petrobras para PetrobraX;
- Negar que o DEMos entrou com ação no STF contra o PROUNI;
- Desqualificar obras do PAC, como a refinaria Abreu e Lima;
- querer crédito pela integração da Bacia do São Francisco, quando o governo FHC enrolou para levar adiante, devido a contrariedade de Paulo Souto, então governador da Bahia;
- inventar que gerou 1 milhão de empregos com Ministro da Saúde. Ele demitiu gente em massa, como os mata-mosquitos, congelou concursos e carreira profissional no serviço público, sucateou a rede pública.
- Se contradisse, ao dizer que vai vigiar fronteiras e debochou de soluções técnicas da própria Polícia Federal, como os aviões não tripulados. Serra foi infeliz em chamar pejorativamente de discos voadores.
- Foi muito mal quando disse que os 15 milhões de empregos gerados eram só regularização com carteira assinada. Todo mundo sabe que empregos estão mais fáceis no governo Lula. E pegou mal ao admitir que no governo de FHC e Serra, a fiscalização do trabalho era frouxa;
- Mentiu na reforma agrária, dizendo que fez mais do que no governo Lula;
- foi patético ao querer acusar Dilma, principal ministra do governo Lula, de não dar atenção ao Nordeste; é o tipo de argumento que em vez de agradar, faz perder votos, de tão sem-noção.
Nas acusações de escândalos, Dilma deu respostas para o telespectador, enfrentou o problema de frente. Serra deixou sem resposta, se limitando a atacar os outros. Perdeu votos, não foi convincente, reforçou a idéia de que tem rabo preso com Paulo Preto.
Dilma só perdeu algumas oportunidades de detonar Serra em alguns temas, como banda larga, porque a privataria que ele deixou foi um modelo de banda larga cara e elitista, que a recriação da Telebras está tendo que consertar. E também que foi o governo FHC que criou a confusão com a Eletronet ao privatizá-la mal e porcamente.
Outro momento que poderia ter detonado foi na segurança pública, podendo lembrar da corrupção do DENARC e do secretário-adjunto de Segurança Pública, e da guerra de policiais que Serra promoveu.
Quando Serra falou que criou 1 milhão de empregos no Ministério da Saúde (êta mentira mal contada), bastaria lembrar da demissão dos mata-mosquitos, se bem que nesta hora ela não tinha direito à réplica.
Quando Serra esbraveja ser honesto e acusava Dilma, ela poderia ter falado sobre a folha corrida de 17 processos que ele próprio declarou ao TSE, e que ela tem ZERO. Talvez tenha guardado essa resposta para o debate da Globo.
Mas debates com regras rígidas, sempre acontece isso. Não dá tempo para dizer tudo o queria, e acaba tendo que escolher o que responder.
Uma performance impagável com a trupe d'OS MELHORES DO MUNDO.
Nota do blog: A dica da perfomance é do blog Quem tem medo do Lula?Aproveite e leia matéira "Mídia duela e debate democracia e liberdade", postada no Portal Terra. O texto final é revelador: "Mas, é a revista Época que observa: "Apesar de todas as manobras e discursos contra a imprensa, até o momento não houve por parte do governo nenhuma medida concreta de censura ou cerceamento à liberdade de expressão." Cai a máscara dos analistas de araque, incapazes de reconhecer que no governo Lula, nunca houve uma ação do presidente da república contra qualquer órgão de comunicação.
Radioagência NP transmite debate dos presidenciáveis de esquerda
A Radioagência NP transmite nesta terça-feira (21) a partir das 21h o debate dos presidenciáveis de esquerda, promovido pelo jornal Brasil de Fato. O ouvinte terá acesso ao debate em áudio, e poderá ficar por dentro dos projetos defendidos no campo da esquerda para o Brasil. Estão confirmados o candidato José Maria do PSTU, Rui Costa Pimenta do PCO e Ivan Pinheiro do PCB. De acordo com o jornal Brasil de Fato, o debate é um esforço para politizar E ampliar a democracia do atual processo eleitoral. Espalhe a notícia e não deixe de ouvir o debate, ao vivo, na Radioagência NP!
As eleições – espaço político importante para apresentar projetos para o país e elevar a consciência política da população brasileira – estão cada vez mais despolitizadas e mais dependentes do poder econômico.
Com o debate sobre os rumos do país colocado em segundo plano, a grande ausente do processo eleitoral brasileiro é a política. A mídia corporativa cumpre um papel fundamental nesta mediocrização das campanhas eleitorais. A cobertura limita-se exatamente a aqueles com os orçamentos milionários, a linha editorial prioriza as trajetórias e características pessoais dos candidatos. Ou seja, projetos para o país jamais são discutidos.
Num esforço para apresentar alternativa ao quadro eleitoral, o Jornal Brasil de Fato realizará no dia 21 de setembro, em São Paulo, um debate entre os candidatos à Presidência da República representados em nosso conselho editorial. Foram convidados Dilma Rousseff (PT), Ivan Pinheiro (PCB), Marina Silva (PV), Plínio Arruda Sampaio (PSOL), Rui Costa Pimenta (PCO) e Zé Maria (PSTU). Estão confirmadas as presenças de Ivan Pinheiro (PCB), Rui Costa Pimenta (PCO) e Zé Maria (PSTU). O debate acontecerá às 21h na Ação Educativa.
Seguindo sua característica de ser plural no campo da esquerda, o jornal Brasil de Fato convida também outros veículos de comunicação da imprensa no sentido de dar amplitude ao debate. A atividade não será aberta ao público, mas terá transmissão pela página do Brasil de Fato ( www.brasildefato.com.br).
Debate dos presidenciáveis da esquerda
Data: 21 de setembro Local: Ação Educativa (Rua: General Jardim, 660. Vila Buarque, São Paulo - SP) Credenciamento de imprensa pelo email:agencia@brasildefato.com.br IMPORTANTE: O debate NÃO será aberto ao PÚBLICO.
Entulho neoliberal
Está claro que a sociedade entre a filha de Serra e a irmã de Dantas tem relação direta com a privatização Editorial ed. 394 do Brasil de Fato
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Evento internacional no Rio de Janeiro debaterá o Brasil e o Conselho de Segurança da ONU
27 de agosto de 2010 · Comunicados
Na próxima quarta-feira, 1o de setembro, será realizada a jornada “A ONU e as Questões Internacionais Contemporâneas: O Brasil no Conselho de Segurança das Nações Unidas”. O evento será realizado no Salão Nobre da Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ (Rua Moncorvo Filho, 8) e debaterá o papel do Brasil no Conselho de Segurança (CS) e o papel do Conselho na paz e segurança internacionais.
Na abertura do evento, que acontece às 09h00, estarão presentes o Reitor da UFRJ, Aloísio Teixeira; o Chefe do Departamento de Organismos Internacionais do Ministério das Relações Exteriores (MRE), Ministro Carlos Duarte; o Diretor da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ, Flávio Martins; o Diretor do UNIC Rio, Giancarlo Summa; e o Diretor do Centro de Direito Internacional (CEDIN), Jean-Marc Thouvenin.
Durante a tarde, haverá apresentação de trabalhos acadêmicos, vídeos e cartazes pelos participantes do projeto “Universitários pela Paz”.
Fechando a Jornada, será realizado o lançamento do site em português sobre o Conselho de Segurança (www.brasil-cs-onu.com) com informações atualizadas sobre a missão e funcionamento do mesmo, com destaque para a atuação do Brasil no órgão da ONU.
O evento é uma parceria entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Organização das Nações Unidas (ONU), por meio da Faculdade Nacional de Direito (FND) da UFRJ e do Centro de Informação das Nações Unidas no Brasil (UNIC Rio). A entrada é franca e não é preciso se inscrever previamente.
Confira a programação completa e todos os convidados:
9h – 9h30 – Mesa de Abertura
Aloísio Teixeira (Reitor UFRJ), Flávio Martins (Diretor FND), Ministro Carlos Duarte (Chefe do Departamento de Organismos Internacionais do MRE), Giancarlo Summa (Diretor UNIC Rio), Jean-Marc Thouvenin (CEDIN)
Assinatura de Termo Aditivo ao Convênio UFRJ/Universidade Paris X (CEDIN e FND).
09h30 – 10h00 – Coffee Break
10h00 – 11h30 – O Papel do Brasil no Conselho de Segurança das Nações Unidas
Presidente da Mesa: Professor Paulo Emílio Macedo (FND/UFRJ).
Palestrantes: Ministro Carlos Duarte (Chefe do Departamento de Organismos Internacionais do MRE), Antonio Celso Alves Pereira (UFRJ), Williams Gonçalves (UERJ).
11h30 – 12h – Perguntas
12h – 14h – Intervalo para o almoço
14h30 – 18h00 – Apresentação de papers, vídeos e pôsteres pelos participantes do projeto “Universitários pela Paz”
Coordenação: Professor Luiz Eduardo Figueiras (Vice-Coordenador de Pesquisa da FND/UFRJ)
18h00 – O papel do Conselho de Segurança da ONU na segurança internacional: conflitos, terrorismo e a questão nuclear
Presidente da Mesa: Professor Sidney Guerra (FND/UFRJ)
Palestrantes: Jean-Marc Thouvenin (Diretor CEDIN – Université Paris X); Franklin Trein (IFCS/UFRJ)
Giancarlo Summa (Diretor UNIC Rio); Ministro Carlos Duarte (Chefe do Departamento de Organismos Internacionais do MRE), Vanessa Oliveira Batista (FND/UFRJ), Luciana Boiteux (FND/UFRJ), Mohammed ElHajji (ECO/UFRJ).
Nota do blog: Dilma Roussef participou do primeiro debate pela internet, promovido pela Folha de S. Paulo e UOL. Veja os principais trechos da candidata do Partidos dos Trabalhadores à presidência da república neste debate. Serena, tranquila, e dura quando necessário, sin perder la ternura.
A candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff, finaliza sua participação no 1º debate entre os presidenciáveis, transmitido pela TV Bandeirantes, no dia 05/08/2010.
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Nota do blog: Tem luz própria a candidata do PT, Dilma Roussef. No seu primeiro debate público televisivo, até os tropeços em algumas palavras contribuiu para a percepção de quem estamos diante de uma candidata que não perde o rebolado frente a um adversário habituado a manipular e distorcer os fatos políticos da história recente da república. No quesito saúde, enquanto o sinistro Serra tentou a pegadinha do mutirão, pratica assistencialista feita pra tapar o sol com a peneira, ela perdeu a oportunidade de defender um novo modo de lidar com a questão do crack. Dilma não embarcou na onda do furor midiático da questão das susbstâncias psicoativas, que já foi chamado, inapropriadamente, de "epidemia de crack". Mas, convenhamos, faltou assessoria. Ou, no mínimo, a assessoria agiu de modo particularmente conservador, para não estimular, mais ainda, o viés sensacionalista com que a mídia trata a questão. Ao dar visibilidade à existência das eufêmicas "comunidades terapêuticas", deixou de reconhecer nosso know how em redução de danos, que tão bem ensinamos aos canadendes, a ponto deles terem ultrapassado os mestres, tornando-se referência mundial. É fundamental dar visibilidade à política de redução de danos, aliado aos dispositivos previstos para acolher com dignidade os usuários no Sistema Único de Saúde. A resposta da candidata ainda está aquém do que temos de conhecimento para mudar os rumos da atual política para tratar os problemas do uso abusivo de substâncias psicoativas.
Nota do blog:A passionalidade com que se discute a questão das drogas no Brasil é um fato. Lamentável, mas um fato. Como o são outros temas sobre os quais interlocutores desqualificados para encerrar a discussão atribuem ao seu oponente o rótulo de apoiador, consumidor ou usuário de maconha... e ponto final. O mérito da questão passa ao largo. Que o diga o Ministro Carlos Minc, alvo de ofensas morais públicas. Em Manaus, sou testemunha de que um parlamentar e um radialista usaram de seus ofícios para desqualificar a posição do ministro em relação à re-construção da BR-319, cujo relatório de impactos ambientais está eivada de erros. Se é duvidoso que ambos usem de suas prerrogativas profissionais para desinformar a opinião pública, é inaceitável que usem de argumentos depreciativos com a intenção de sujar a barra do seu oponente. O exemplo não dignifica nem o radialismo, nem o parlamento amazonense. Tampouco o jornalismo que omite o fato da opinião pública.
O descongelamento do debate sobre drogas é uma das melhores novidades na arena pública brasileira recente. Faz um bem imenso que o assunto possa ser discutido sem a censura prévia do tabu, e que a razão possa afinal incluir-se entre os elementos envolvidos na conversa.
Com a abertura do debate, multiplicam- se as vozes. Fernando Henrique Cardoso, Ernesto Zedillo, César Gaviria e as comissões latinoameri cana<http://bit.ly/a3GznA>e brasileira <http://bit.ly/awKzwZ>sobre drogas e democracia, chamando a atenção para o fracasso da guerra às drogas. Ethan Nadelmann<http://bit.ly/akBOPo> e sua Drug Policy Alliance, demonstrando as incongruências presentes na construção histórica das políticas sobre drogas. Jack Cole<http://bit.ly/bzE6eK>,ex-detetive especializado em drogas da polícia de Nova Jersey, e sua Law Enforcement Against Prohibition, expondo números e resultados da proibição. John Grieve, ex-comandante da unidade de inteligência criminal da Scotland Yard, e suas 10 Razões para Legalizar as Drogas <http://bit.ly/8Y1Jib>. Organizações da área traçando alternativas de regulação legal<http://bit.ly/b72Y9A> para as diferentes drogas. O Ministério da Justiça apoiando o mapeamento<http://bit.ly/d0cKPm>dos padrões de aplicação da lei de drogas no Brasil. Grupos brasileiros como o Growroom <http://bit.ly/9mt7Px>, o Desentorpecendo a Razão<http://bit.ly/9mYZbm> e a Marcha da Maconha <http://bit.ly/aQ9p5k> demonstrando muito mais consistência e lucidez do que gostariam os críticos que tentam proibi-los. Veículos tão diversos como a The Economist <http://bit.ly/cTGXia> e o Le Monde Diplomatique <http://bit.ly/9kJBdO>repercutindo esses movimentos. E assim por diante, com cada vez mais agentes entrando em cena e mais links aqui <http://bit.ly/ddMhHb>.
Vale a pena dedicar atenção a eles, no mínimo pelo gosto da exploração de um conjunto de informações muito mais amplo do que o revelado pelo senso comum sobre o tema. De forma resumida, as evidências e argumentos reunidos neste esforço convergem para três observações principais.
A primeira: o que pauta a nossa atitude coletiva em relação às drogas é historicamente muito mais a maneira como elas são socialmente percebidas do que os riscos associados a elas. Preconceitos e tensões entre classes ou grupos sociais importam mais do que evidências científicas (reproduzindo, de resto, um viés bem conhecido das políticas criminais em geral). Assim é que, por exemplo, ópio, maconha e cocaína foram utilizados cotidiana e mesmo clinicamente nos Estados Unidos até o início do século 20, até que a percepção do seu consumo por parte de imigrantes chineses e mexicanos e de negros – e os medos associados a isso – levaram à sua proibição. Assim é que, por outro lado, o consumo de álcool e tabaco, produzidos
industrialmente por cidadãos respeitáveis, pôde ao mesmo tempo ser estimulado – inclusive por seus supostos efeitos benéficos, retratados na publicidade <http://bit.ly/cMp6iK> relacionada a eles. Ou que hoje antidepressivos, estimulantes, energéticos e fortificantes diversos tornam-se cada vez mais onipresentes, em pleno apogeu da estratégia de “guerra às drogas”. Cada um com seus vícios, medos e manias: mas em função deles a linha mestra do tratamento público às drogas foi sempre dada pelo lugar social de quem produz e quem consome cada uma delas, bem antes de uma análise objetiva de suas faculdades.
A segunda: é preciso retomar a questão dos limites do direito do Estado e da sociedade a controlar hábitos privados. Não é o argumento mais forte no front do debate público atual, mas mereceria mais atenção. Porque se o fundamento é a proteção do indivíduo contra um hábito que pode lhe fazer mal, então seria preciso admitir a possibilidade de amanhã proibirmos ou limitarmos legalmente o consumo individual de açúcares e gorduras, além do próprio tabaco e do álcool. Se o que importa é o risco indireto do consumo vir a causar danos a terceiros, então parece óbvio que um consumidor eventual de vinho deveria ter o mesmo tratamento de um consumidor eventual de maconha. Os paralelos poderiam seguir (incluindo mais uma vez o universo dos estimulantes - que “te dão asas <http://bit.ly/bMstvT>” -, anabolizantes e drogas terapêuticas em geral), e seu cruzamento com a perspectiva histórica apontada acima dá o que ponderar. Não existe razão objetiva para que os termos “enólogo”, “cervejeiro”, “cocalero” e “maconheiro” tenham as conotações distintas que têm. É uma questão de justiça e de igualdade perante a lei compatibilizar os tratamentos a estes diferentes consumidores.
A terceira: abuso de drogas é ruim, a guerra às drogas é pior. A proibição, gerando o mercado ilegal e a violência, corrupção e marginalização cotidianas associadas a ele, é responsável por muito mais danos e vidas perdidas do que o consumo que ela visa – sem sucesso – combater. É preciso ter claro: nenhuma das vozes citadas questiona que drogas sejam potencialmente danosas ou defende a sua legalização pura e simples, sem controles e políticas públicas associados. O que está em questão é a coerência, a eficácia e os efeitos colaterais das estratégias adotadas para lidar com elas. Passadas mais de 4 décadas de políticas baseadas na proibição e na meta de erradicação, será que faz mesmo sentido ter multiplicado por 4 a taxa de encarceramento relacionada a delitos de drogas nos Estados Unidos e por 700 as despesas com o seu combate, sem qualquer alteração perceptível nos indicadores de consumo dessas substâncias? Ou contar com 40% dos detentos brasileiros em regime fechado condenados por tráfico de drogas (a grande maioria na condição de pequenos funcionários do negócio)? Ou mobilizar organizações policiais ou divisões militares inteiras para converter regiões de cidades ou países em verdadeiras praças de guerra em nome da reiteração sem fim dessa estratégia? São questões como essas que motivam um número crescente de observadores lúcidos a buscar um caminho alternativo. E a senha para ele também não chega a ser surpreendente: controlar, informar e reduzir danos, reconhecendo a existência do fenômeno social, é muito mais eficaz do que tentar eliminá-lo. E você não tem como controlar e regular algo que é ilegal.
Sabemos disso: usamos a alternativa da regulação e da informação para lidar com o álcool, tabaco, analgésicos, estimulantes, calmantes, antidepressivos e outros produtos cuja fronteira entre o uso benéfico ou recreativo e o abuso danoso está nas condições e nas doses com que são consumidos. Esta via se mostrou ao longo do tempo mais bem-sucedida tanto em relação à permissividade plena por muito tempo adotada para o álcool e o tabaco, quanto à proibição absoluta que impera até hoje para a maconha, a coca, os alucinógenos e outras substâncias ilícitas. Foi positivo reduzir a permissividade em relação ao tabaco e ao álcool, será positivo e realista ampliá-la em grau adequado em relação às drogas hoje criminalizadas.
E o caso é que esta correção de rumo não é apenas um componente secundário, de interesse específico de uma parcela reduzida da sociedade, representada pelos interessados em consumir legalmente esta ou aquela substância ou por liberais zelosos da autonomia individual. É, sim, um elemento central para a possibilidade de superar com sucesso alguns dos nossos principais problemas nos âmbitos da segurança e da saúde públicas. Não é de fato um exagero óbvio dizer que na perspectiva dessas duas áreas, a opção pela guerra às drogas é hoje de longe causa de mais problemas do que o consumo delas.
São recursos públicos mobilizados, vidas consumidas e estigmas ampliados demais para que se possa deixar de tratar a questão em nome de poupar-se de um debate público desgastante e controverso. Foi preciso substituir o objetivo primordial da erradicação do narcotráfico pelo do primado da vida e da liberdade de circulação para poder-se falar com consistência na pacificação das favelas do Rio de Janeiro. É preciso substituir a marginalização pela compreensão e oferta pública de apoio para a superação da dependência química de qualquer substância. Será preciso rever preconceitos e atitudes em relação às drogas ilícitas para conter o círculo vicioso perverso associado à sua proibição.
Por isso, talvez, é que a conversa franca sobre o assunto imponha-se aos poucos com a força que precisa ter. Com o passar do tempo, vai ficando claro que não haverá como avançar sem encará-la. Para isso, não é preciso concordar com tudo o que está dito acima. Basta ter abertura para a busca de soluções com base na observação serena de evidências e argumentos, e não em crenças ou temores pré-estabelecidos (sem que se saiba bem quando e por quem). De fato, uma injeção de sobriedade tem tudo para incidir saudavelmente sobre a nossa relação com as drogas.