março 28, 2006

Aristófanes Castro, o "velho". Adeus!

Certa vez um representante de uma associação patronal afirmou que a Zona Franca de Manaus estava sendo esvaziada devido a presença de mendigos e doentes mentais pelas ruas e praças da cidade. A declaração ganhou espaço nos jornais. Estávamos em meados da década de 80, nem bem déramos os primeiros passos rumo à redemocratização da república.

O descuidado analista esmerou-se ao acusar os profissionais da saúde mental como responsáveis por tal “desordem”. “Médicos travestidos de sociólogos”, assim referiu-se aos trabalhadores da saúde mental empenhados na construção da Reforma Psiquiátrica em solo amazonense.

“Alto lá”, respondi com indignação pelos mesmos meios de comunicação, época em que havia mais zelo com o contraditório. “O buraco é mais embaixo”, afirmei com a autoridade de assessor da direção do Centro Psiquiátrico Eduardo Ribeiro. Para mim, era espantoso que o douto representante patronal não enxergasse as verdadeiras determinantes de tamanha tragédia para a economia baré: preços abusivos das passagens aéreas, da rede hoteleira e da quantidade de dinheiro necessário para obter um produto importado na Zona Franca, quando bastava atravessar a fronteira do Paraguai para adquiri-lo a preços mais convidativos.

Ao ler a crônica do respeitado advogado Aristófanes Bezerra de Castro, que acaba de nos deixar, intitulado “Adeus à Zona” e publicado pela Editora Valer, em 2000, encontrei defesa semelhante, a propósito de uma das suas inúmeras impressões de viagem, desta vez à cidade turística de Foz do Iguaçu. Data dos anos 80. Ei-la:

“Vim a compreender da liquidação da Zona Franca que, para mim, perdoem-me os doutos, está se degringolando de desfiladeiro abaixo, para o fim. Além do comércio local enfrentar insuportável carga tributária repassada ao preço de venda, a desvalorização bissemestral do cruzeiro e o conseqüente aumento do dólar e da inflação liquidam com o poder aquisitivo do povo. O preço da passagem aérea para outros centros do país vai afastando o turista nacional de Manaus, e o alto custo da mercadoria, aqui, não compensa a despesa de viagem. Em Presidente Stroessner, porto livre, as mercadorias são comercializadas a cem por cento ou mais, aquém do valor de venda da Zona Franca manaura, isto comprovei pesquisando e comprando algumas lembranças para amigos ou para nós mesmos”.

Inúmeros são os exemplos de cidadania deixados pelo “velho” Ari, que nem nas impressões de viagem deixava de exercitar seu espírito crítico, num compromisso insofismável com a educação e formação do cidadão. Lastimável a escassez de homens públicos a seguir-lhe o exemplo.

Penso eu que a imprensa amazonense está devendo às novas gerações algumas páginas sobre o perfil de um homem que respondeu a quatro IPMs (Inquérito Policial Militar) por subversão durante a ditadura de 1964, e que passaria o resto da vida subvertendo a ordem imposta pela apatia, pela indiferença e pelo cinismo, fiel à idéia da impossibilidade de uma comunidade pensar de uma maneira só. Na crônica “Adeus ao patriarca”, eis os princípios que norteavam o cidadão Aristófanes Castro:

“Portanto, nosso dever não é silenciar, mas protestar, porque os que se acomodam, os que se esquivam, os que se acovardam, compactuam, pela omissão com a truculência, as injustiças, o jugo da espada, a brutalidade dos brutos, a ignorância dos ignorantes, a ladroeira dos ladrões, a corrupção dos corruptos, a iniqüidade dos iníquos, a hipocrisia dos hipócritas, a escravatura dos escravocratas, o esmagamento do povo sob o tacão dos que se nomearam dirigentes, prendendo, torturando, massacrando, aviltando, desprezando a grande massa espoliada de desassistidos e abandonados, que são empurrados ao crime, ao serem lançados ao despenhadeiro da miséria, da ignorância espiritual e fisicamente desamparados”.

Em meu nome, e da minha família, sinceras condolência a todos os familiares pela perda irreparável do “velho” Ari, em especial à nossa querida Emília. À dor dos filhos de sangue – os estimados amigos Arizinho, Cacau e Regina –, venho somar a minha dor. Eu também sou filho do “velho”. Filho intelectual, com muito orgulho.

Rogelio Casado

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