outubro 10, 2008

Crise financeira, segundo o Le Monde diplomatique

À conquista do Oeste
Editorial de Serge Halimi

«Quando o Estado norte-americano decide socializar as perdas abissais dos seus bancos, como pode o Partido Republicano orgulhar-se da sua filosofia liberal ou da acção que tem tido no poder? [...] A resposta democrata será também mais táctica e com alvos mais precisos. A eleição presidencial ganha-se estado após estado; muitos deles, inclusive os mais importantes, parecem já ter aderido a um ou ao outro campo (Califórnia, Nova Iorque, Illinois, Texas, etc.). Mas o Oeste republicano parece vacilar. Foi ali que Barack Obama iniciou a luta.»

O dia em que Wall Street se tornou socialista
Frédéric Lordon

«Para evitar o colapso da Bolsa e a paralisação do mercado do crédito, que poderia contaminar todas as actividades económicas, as autoridades norte-americanas abandonaram os salvamentos a conta-gotas, em benefício de um plano de conjunto. Henry Paulson e Ben Bernanke, respectivamente secretário do Tesouro e presidente da Reserva Federal, propuseram que os poderes públicos – isto é, os contribuintes – adquirissem os créditos bancários duvidosos, num valor de 700 mil milhões de dólares. Em plena campanha eleitoral, o Congresso americano está desagradado com um tal compromisso financeiro, sem precedentes nem contrapartidas, que ameaça fazer disparar o défice orçamental e desferir um novo golpe na credibilidade do dólar. Um senador não hesitou até em criticar um «socialismo financeiro», que considera «não ser americano». Como muitas vezes acontece em circunstâncias semelhantes, a borrasca financeira provocou uma multiplicação de discursos de tribuna sobre a «moralização» do capitalismo, a urgência de uma «regulação» e a necessidade de castigar os «culpados». Alguns vão até mais longe: «Tal como a conhecemos, Wall Street vai deixar de existir», anuncia já o The Wall Street Journal… [...]» Sobre este tema, leia de Ignacio Ramonet «A crise do século», inédito e em acesso livre no sítio Internet do jornal. Aí encontra também uma cronologia sobre a crise financeira.

A queda da Fannie Mae e da Freddie Mac
Ibrahim Warde


«[...] O governo norte-americano tomou então consciência do inevitável. A falência das pedras angulares do sistema hipotecário norte-americano seria inconcebível e o seu salvamento pelos fundos soberanos da Ásia ou do Médio Oriente seria politicamente impossível. Restava a nacionalização pura e simples, mesmo que a palavra, com uma conotação muito negativa, não tenha sido jamais pronunciada. Seria apenas uma tutela (conservatorship). [...]»

Universidade: a turbulência da nova gestão pública
Nuno David

«[...] Parece, apesar de tudo, consensual que o sistema universitário português carecia, e carece, de mudanças no seu modo de funcionamento, sob pena de não estar preparado para enfrentar nas próximas décadas os desafios, agora globalizados, da criação de cultura, conhecimento e tecnologia. [...]»

Para onde vai a universidade?
João Arriscado Nunes


«[...] No caso de Portugal, a diversidade de formas de organização e de governo permitidas pelo novo Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior torna ainda mais imprevisível o que poderá ser o futuro das universidades, especialmente se atendermos às variantes possíveis do jogo entre os poderes de um reitor numa universidade em que as unidades orgânicas (como as faculdades) não dispõem de autonomia administrativa e financeira, ou de uma dispersão que admite que unidades orgânicas com autonomia possam ter estatutos jurídicos distintos do da universidade a que (nominalmente) pertencem. [...]»

A massificação da selectividade: desigualdades sociais em Portugal
Hugo Mendes

«[...] No que toca às desigualdades, as enormes assimetrias de rendimentos e de qualificações como as que atravessam a população não podem deixar de ter um fortíssimo impacto na escolarização das crianças, cuja proporção a viver abaixo da linha de pobreza é das mais elevadas da União Europeia (UE). [...]»

Doclisboa 2008. Novas famílias, novas identidades
Sérgio Tréfaut e João de Pina Cabral


«Será a pluralidade de famílias e identidades um fenómeno novo nas sociedades? Onze filmes documentais contribuem para a reflexão, para lá de ideias preconcebidas, sobre «modernidade» e «tradicionalismo», identidade sexual e de género, papéis sociais e relação com os afectos, a religião, etc. Em democracia, o essencial não será garantir os direitos fundamentais a todos os cidadãos? [...]»

Os povos dispõem de si mesmos?
Bruno Coppieters

«[...] O Kosovo, a Abecázia e a Ossétia do Sul afirmaram-se assim como Estados soberanos. O seu reconhecimento, apenas parcial, sublinha a que ponto a «comunidade internacional» se encontra fragmentada quanto à atitude a tomar; coisa que não a impede de utilizar os mesmos princípios para justificar o nascimento de um Estado ou para se opor a ele. Podemos ver nisso, pelo menos, uma linguagem comum. [...]»

Afeganistão, Paquistão: a irrupção dos «neotalibãs»
Syed Saleem Shahzad

«O atentado de 20 de Setembro contra o hotel Marriot de Islamabade matou cerca de sessenta pessoas. O ataque, comparado pelas autoridades paquistanesas ao 11 de Setembro, poderá marcar uma viragem na história do conflito na região. O presidente Bush autorizou operações terrestres contra bases talibãs no Paquistão, país que está a tornar-se o principal terreno da «guerra contra o terrorismo». Esta extensão do conflito, que não deixa de recordar a decisão americana da década de 1970 de estender a guerra do Vietname ao Camboja, tem poucas hipóteses de conduzir a uma vitória. Além de suscitar a oposição da grande maioria dos paquistaneses, esbarra com uma estratégia regional particularmente audaz dos «neotalibãs». [...]»

O negócio da «floresta verde» na Amazónia
Jacques Denis


«A 1 de Outubro, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva assinou um decreto que cria o Fundo Amazónico, destinado a financiar medidas de combate à desflorestação e a promover actividades florestais sustentáveis. Por seu lado, várias empresas privadas afirmam estar interessadas no «salvamento do planeta». Contudo, se observarmos o que se passa no estado do Amazonas, será possível contar com essas empresas para livrar a Amazónia de uma destruição maciça? [...]»

O que os dados oficiais revelam sobre os conflitos sociais
Sophie Béroud, Jean-Michel Denis, Guillaume Desage, Baptiste Giraud e Jérôme Pélisse


«A 23 de Setembro, a acção sindical contra a privatização dos correios franceses mobilizou entre um quarto e metade dos assalariados. Esta acção captou a atenção pública, mas a maioria dos conflitos da empresa passam despercebidos. E, no entanto, existem. São mais numerosos, mais determinados e mais frequentemente impulsionados pelos sindicatos do que geralmente se afirma. [...]»

Estudantes e futuros decisores
Ornella Guyet, Maxime Sauvêtre e Éric Scavennec


«O Parlamento Europeu dos Jovens (PEJ), discreto mas ambicioso, definiu como sua missão a difusão do ideal comunitário junto dos futuros quadros do Velho Continente. Desde 1987, a associação organiza sessões internacionais de formação. Apoiado pelos poderes públicos, personalidades políticas e empresas, o PEJ professa uma curiosa visão do mundo, situada entre o negócio e os bons sentimentos. O fórum que acaba de organizar na Bretanha ilustra bem os seus métodos e influência. [...]»
Sobre a construção europeia, leia no sítio Internet do jornal, inédito e em acesso livre, o artigo de Pierre Rimbert «Se queres a Europa, prepara a guerra».


Estes são alguns dos principais destaques do número de Outubro do Le Monde diplomatique - edição portuguesa, que já chegou às bancas.
O
sumário completo da edição está acessível em http://pt.mondediplo.com.


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Boas leituras!

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