fevereiro 22, 2011

"Ditaduras na África e no Oriente Médio? Que surpresa!", por Ignacio Escolar

PICICA: Zefofinho de Ogum, correspondente do PICICA, jura que já viu muito telespectador da TV Globo acometido de grave intoxicação ideológica. O principal sintoma é uma diarréia mental. O doente costuma ter um prognóstico sombrio, caso insista em continuar refém da desinformação. Tanto assim que vários telespectadores tiveram um colapso mental quando souberam da existência de um monte de ditadura na África e no Oriente Médio. Confusos, estão a perguntar: "Mas esse árabes não eram apenas um bando de terroristas?" Calma, bobinhos. Não há nada que James Bond não possa resolver. E, se nada der certo, o Jabor vai sacar da sua caixola delirante uma explicação para esse inesperado fenômeno do século XXI. 
ferrorama | 18 de outubro de 2006 | 

***

Ditaduras na África e no Oriente Médio? Que surpresa!

Graças às revoltas árabes, o Ocidente acaba de descobrir com grande assombro que o Bahrein não é só esse exótico lugar onde voam os bólidos da Fórmula 1 e onde amarram os porta-aviões da Quinta Frota. Qual será a próxima tirania que descobriremos no Oriente Médio ou África? A da Guiné? A de Marrocos, que possui uma "relação privilegiada" com a União Europeia? Que grande contrarieddade para o cinismo da realpolitik! O artigo é de Ignacio Escolar.


O país que os Estados Unidos apresentava como exemplo para a região acaba por ser retratado também como uma brutal ditadura, capaz de colocar o Exército na rua com ordem de disparar contra o povo. Que terrível e inesperada notícia! Que grande contrariedade para o cinismo da realpolitik! Qual será a próxima tirania que descobriremos no Oriente Médio ou África? A da Guiné? A de Marrocos?

Comecemos por Guiné. “Mais coisas nos unem do que nos separam”, ressaltou o presidente do Congresso espanhol, José Bono, em recente visita oficial – junto a representantes do PP, PSOE e CiU – Convergência e União. É óbvio o que “nos une”: o petróleo e os interesses comerciais. E o que nos separa? Minúcias: as execuções de opositores políticos, as torturas, a corrupção do regime de Obiang, que não só conta com a cumplicidade tácita do Estado espanhol, como também com seu respaldo público a título de vacina, já que a liberdade é uma enfermidade contagiosa.

Prossigamos com o Marrocos, essa monarquia absoluta com um cenário democrático que pode presumir “uma relação privilegiada” com a União Europeia, nas palavras do comissário de Ampliação e Vizinhança, Stefan Füle. “Seu país pode estar orgulhoso do que conseguiu até hoje”, felicitou Fule não faz muito tempo ao ministro de Relações Exteriores do Marrocos, elogiando as “reformas políticas” que requerem microscópio para serem apreciadas em sua justa dimensão.

E a que vem tanto elogio? Fácil: neste domingo venceu o acordo de pesca com a Europa que terá que ser renegociado. Em cima da mesa, o incômodo assunto do Saara ou os direitos humanos são só outra moeda de troca.

(*) Ignacio Escolar é blogueiro e jornalista espanhol, colunista do jornal “Público”, de Madri (21/02/2011)

Tradução: Katarina Peixoto

Nenhum comentário: