março 19, 2014

"Nem sobrado, nem prédio", por Érico Andrade

PICICA: "Na história o passado se torna presente porque se repete. É possível vesti-lo com cores mais acesas. Disfarçá-lo com o progresso. A construção de casas grandes e sobrados – construídos sem os critérios que determinam o que é espaço público e o que é espaço privado – foi feita sem critérios, sem planejamento e sem discussão pública. Não houve uma discussão sobre as calçadas, sobre a distribuição dos terrenos e sobre a construção de moradias em conformidade com as demandas sociais. Pessoas foram expulsas sem saber a razão. A existência de sobrados e das casas grandes era o sintoma da exclusão e da cidade pouco ecológica porque era uma cidade para poucos. Uma cidade para os senhores e seus descendentes. Hoje, vão-se os sobrados erguem-se os prédios. No entanto, permanece a mentalidade do sobrado: construções que avançam nas calçadas, nos rios, no espaço público. Construções que não obedecem às leis ou aos estudos de impacto. Construções que subornam o estado, com o pagamento, esporádico, de multas, para manterem a cidade vertical. Estádios construídos sob o escombro dos mocambos. Mocambos que se dissipam em nome do progresso que não lhes concerne, que não lhes pertence. Construções que reconhecem nas questões ecológicas um obstáculo a ser contornado, mas não um problema a ser resolvido."

Nem sobrado, nem prédio


por Érico Andrade, doutor em filosofia pela Sorbonne. Membro dos Direitos Urbanos e da Ameciclo. Professor da UFPE / ericoandrade@gmail.com

Casas antigas que atravessam a cidade. Modelam o desenho do passado, rarefeito. Sobrados descoloridos pelo tempo. Muita memória que se apaga com os traços do progresso. Inexorável, o progresso segue derrubando a memória dos sobrados, das casas grandes, dos pequenos sítios que situavam a cidade na rota das grandes famílias. Poucas pessoas para vários metros quadrados. Famílias que concentravam a cidade nos seus quintais. Depois dos sobrados, o tempo presente se ramifica em construções que revertem a falta de distribuição do espaço num modelo que comporta mais famílias.

Os grandes sobrados e os condomínios de casas, nobres casas, são dragados por arranha-céus que empatam o vento, a vista, a paisagem, acima de tudo, o próprio céu. No entanto, diante de uma cidade marcada ao longo da sua história pela divisão social, materializada na existência de grandes sobrados, poucos em relação aos mocambos, a existência de grandes construções  poderia ser a redenção em face de um passado turvo. Em uma palavra: excludente. No lugar onde habitava uma família, várias famílias moram. No lugar do reino na terra, destinado a poucas famílias, com sobrenomes bem definidos, temos agora o reino das torres que embora não alcancem o céu, conseguem encobri-lo. Conseguem encobrir o mar que, como diz o poeta, é o seu espelho. Devemos saudar as torres para apagar nosso passado colonial e excludente?

Na história o passado se torna presente porque se repete. É possível vesti-lo com cores mais acesas. Disfarçá-lo com o progresso. A construção de casas grandes e sobrados – construídos sem os critérios que determinam o que é espaço público e o que é espaço privado – foi feita sem critérios, sem planejamento e sem discussão pública. Não houve uma discussão sobre as calçadas, sobre a distribuição dos terrenos e sobre a construção de moradias em conformidade com as demandas sociais. Pessoas foram expulsas sem saber a razão. A existência de sobrados e das casas grandes era o sintoma da exclusão e da cidade pouco ecológica porque era uma cidade para poucos. Uma cidade para os senhores e seus descendentes. Hoje, vão-se os sobrados erguem-se os prédios. No entanto, permanece a mentalidade do sobrado: construções que avançam nas calçadas, nos rios, no espaço público. Construções que não obedecem às leis ou aos estudos de impacto. Construções que subornam o estado, com o pagamento, esporádico, de multas, para manterem a cidade vertical. Estádios construídos sob o escombro dos mocambos. Mocambos que se dissipam em nome do progresso que não lhes concerne, que não lhes pertence. Construções que reconhecem nas questões ecológicas um obstáculo a ser contornado, mas não um problema a ser resolvido.

O problema que liga o Caiçara às casas destruídas em Camaragibe, para a construção das condições para a copa, é que ele revela o DNA do passado que repete o desmando, o casuísmo, a vitória da grana em face da lei. Revela o poder das famílias que governam o estado e reconhecem nele apenas a forma mais prática de perpetuarem seus interesses. Essas famílias e seus subordinados nos pressionam para optar entre o progresso, com os seus prédios paramentados, e o passado colonial dos sobrados. Não se trata de ser contra a verticalização ou contra a expansão da cidade para além das fronteiras do Recife. A cidade pode se ampliar e se descentralizar. A verticalização é necessária, em alguma medida e quando planejada, para termos cidades mais viáveis ecologicamente. No entanto, o que o falso dilema esconde, dissimula é que em Pernambuco o passado é uma história que não se acaba porque apaga a memória na mesma proporção que destrói o presente.

Fonte: Direitos Urbanos

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