PICICA: "A
pesquisadora da Unicamp recorda que colegas da Universidade de
Montreal, com a colaboração de movimentos de usuários do Canadá, tinham
desenvolvido um guia para ajudar o paciente a autogerenciar a sua
medicação. “Decidimos trazer este guia para traduzi-lo e adaptá-lo à
realidade brasileira. Formamos equipes com apoio de outras universidades
públicas brasileiras em Campinas, Rio de Janeiro (UFF e UFRJ) e Novo
Hamburgo (UFRGS). Trabalhamos primeiro na tradução e depois com grupos
de pacientes para adaptar a linguagem. Agora estamos na versão final,
financiada pelo IDRC [Centro Internacional de Pesquisas para o
Desenvolvimento do Canadá], que esperamos disponibilizar online antes do
fim do ano.”
Segundo
Rosana Onocko-Campos, o trabalho com o Guia para Gestão Autônoma da
Medicação (GGAM) dentro dos Centros de Atenção Psicossocial permitiu
perceber que, apesar de todos os valores pregados na reforma
psiquiátrica (como o protagonismo do usuário e a cogestão dos seus
problemas familiares e de vida), o tema da medicação continua sendo um
ponto cego. “Os trabalhadores da saúde dizem que medicação é com o
médico, que por sua vez não dá muitas explicações e nem é questionado
pelo usuário, que fica sem saber de possíveis interações dos
medicamentos com substâncias como álcool, café, chás e outras consumidas
no dia a dia.”"
Pesquisas revelam hipermedicação
de pacientes com transtorno mental
Levantamentos apontam que uso crescente de medicamentos está associado a fatores socioeconômicos


A professora Rosana Teresa Onocko-Campos, do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, atuou na coordenação destes projetos. Um deles está sendo finalizado agora e envolveu 25 dos 26 Caps III paulistas (os centros de tipo III são de cidades com mais de 200 mil habitantes). O financiamento veio da Fapesp, do Programa de Pesquisa para o SUS (PPSUS, do Ministério da Saúde) e da Aliança de Pesquisa Comunidade-Universidade (Aruc-Canadá). Uma pesquisa anterior de 2008 a 2010, esta financiada pelo CNPq e focada em Campinas, resultou no Guia de Boas Práticas nos Caps, que foi publicado na Revista de Saúde Pública (2009;43(Supl. 1):16-22).
Os Caps são unidades de referência de saúde mental e os de tipo III, particularmente, visam se tornar substitutivos ao hospital psiquiátrico, possuindo equipes multiprofissionais com a missão de tratar de forma intensiva os portadores de transtorno mental com idade superior a 18 anos. O tratamento se dá na própria comunidade e junto às famílias, evitando a internação psiquiátrica integral e promovendo a reabilitação psicossocial dos cronicamente comprometidos. Funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana, contando com leitos para o acolhimento noturno de portadores de sofrimento psíquico em períodos de crise.
“O trabalho empírico junto aos Caps de São Paulo foi realizado no ano passado, com a colaboração da equipe do professor Juarez Pereira Furtado, da Unifesp/Santos. Oferecemos um curso para capacitar os trabalhadores da saúde a avaliar os serviços em seus Caps, seguindo metodologia desenvolvida por pesquisadores da Universidade de Montreal, os Grupos de Apreciação Compartilhada: a cada encontro, tematizava-se uma questão dos Caps, com aporte teórico como de uma palestra, e depois eram decididos conjuntamente os aspectos relevantes a serem avaliados”, explica Rosana Onocko-Campos.
Na tarefa seguinte, a “dispersão”, os trabalhadores levavam os indicadores para testá-los em suas unidades. Chegou-se a um leque de 25 indicadores de avaliação e, no momento, os pesquisadores retocam a fotografia dos Caps III do Estado, trabalho que estão encaminhando para publicação. “Isso é muito relevante porque os Caps são a grande aposta da reforma psiquiátrica: garantindo uma boa qualidade nesses serviços, a fim de que deem conta dos pacientes graves, poderemos prescindir de fato do hospital psiquiátrico. Mas ainda chama atenção a grande heterogeneidade dos Caps III no Estado de São Paulo: alguns estão bastante dentro do desenho de política elaborado para eles, enquanto outros estão bem longe do que prevê a portaria do Ministério da Saúde.”
Grupos de sobreviventes

Cada Caps possui uma média de 300 a 400 pacientes cadastrados, sendo que a frequência deles depende do tratamento planejado pela equipe multiprofissional. Rosana Onocko-Campos conta que na pesquisa em Campinas foram organizados grupos focais compostos por trabalhadores, usuários, familiares e gestores para avaliação dos serviços. “A família agora sabe que tem para onde ligar em caso de problema urgente: as equipes vão ao domicílio ou acionam o socorro para trazer o portador de distúrbios ao Centro. Outros estudos pelo Brasil apontam vários pontos de coincidência. Diria que já temos evidências suficientes para afirmar que, onde a rede está razoavelmente estruturada, ela é capaz de dar atendimento a esta população.”
A pesquisadora insiste que a reforma psiquiátrica no Brasil avançou o suficiente para eliminar qualquer controvérsia em relação à importância dos Centros de Atenção Psicossocial. “Em outra pesquisa financiada pela Fapesp, em 2010 e 2011, avaliamos os centros de atenção primária de Campinas e entrevistamos familiares de pessoas que tinham sido encaminhadas aos Caps. Em todos os casos, as famílias afirmam que o acesso ao serviço melhora o histórico do tratamento e a trajetória de vida do usuário. Temos dados para mostrar que a reforma psiquiátrica não gera desassistência, não gera abandono ou morador de rua. E gostamos de ouvir aqueles depoimentos.”
Um guia para pôr
fim ao ‘ponto cego’
Na pesquisa que coordenou em Campinas, com financiamento do CNPq, a professora Rosana Onocko-Campos identificou o que considera o engodo da reforma psiquiátrica: a hipermedicação de muitos pacientes, tanto na rede de atenção primária como nos Centros de Atenção Psicossocial. “Não é um problema somente do sistema brasileiro, há evidências disso no mundo inteiro. Muitas vezes, o tratamento em saúde mental está reduzido aos psicotrópicos, sendo que a comunicação entre os profissionais da saúde e os usuários é deficiente. A qualificação da utilização de psicofármacos e a qualificação de pessoal têm sido pontos sensíveis da expansão da rede.”
A pesquisa aponta que o uso crescente destes medicamentos está associado a fatores socioeconômicos, com prevalência de medicação associada aos indivíduos de maior vulnerabilidade social, baixa escolaridade e menor renda per capita. Em Campinas, no primeiro semestre de 2010, apenas na rede pública de farmácias, 65.778 pessoas receberam prescrição de psicofármacos, o que equivale a 6,5% dos habitantes da cidade. Segundo os autores, igual processo vem sendo observado na atenção primária europeia, com taxas de prescrição de psicofármacos que chegam a 8% da população.
Além da crescente medicação, o estudo revela também a medicalização da população – fenômeno de transformação de situações corriqueiras em objeto de tratamento da medicina. Na opinião dos pesquisadores, em ambas as situações, um dos efeitos produzidos é a redução das experiências singulares das pessoas a meros fenômenos bioquímicos. “Nas entrevistas, os trabalhadores da saúde alegam que, vendo pessoas em situação tão difícil e desfavorável, decidem dar o medicamento para ‘acalmá-las’. É algo sobre o qual eles devem refletir: na verdade, se está medicalizando um problema que faz parte da vida e que não é doença; se as condições do seu bairro estão péssimas, a pessoa deve primeiro se indignar, pois vivendo sob a ação de calmantes, nada vai fazer”, observa Rosana Onocko-Campos.
A pesquisadora da Unicamp recorda que colegas da Universidade de Montreal, com a colaboração de movimentos de usuários do Canadá, tinham desenvolvido um guia para ajudar o paciente a autogerenciar a sua medicação. “Decidimos trazer este guia para traduzi-lo e adaptá-lo à realidade brasileira. Formamos equipes com apoio de outras universidades públicas brasileiras em Campinas, Rio de Janeiro (UFF e UFRJ) e Novo Hamburgo (UFRGS). Trabalhamos primeiro na tradução e depois com grupos de pacientes para adaptar a linguagem. Agora estamos na versão final, financiada pelo IDRC [Centro Internacional de Pesquisas para o Desenvolvimento do Canadá], que esperamos disponibilizar online antes do fim do ano.”
Segundo Rosana Onocko-Campos, o trabalho com o Guia para Gestão Autônoma da Medicação (GGAM) dentro dos Centros de Atenção Psicossocial permitiu perceber que, apesar de todos os valores pregados na reforma psiquiátrica (como o protagonismo do usuário e a cogestão dos seus problemas familiares e de vida), o tema da medicação continua sendo um ponto cego. “Os trabalhadores da saúde dizem que medicação é com o médico, que por sua vez não dá muitas explicações e nem é questionado pelo usuário, que fica sem saber de possíveis interações dos medicamentos com substâncias como álcool, café, chás e outras consumidas no dia a dia.”
Para a professora, a centralização da prescrição na figura do médico é um aspecto ainda não reformado da reforma, assim como o desconhecimento que também os trabalhadores da saúde demonstram sobre medicação. “Os profissionais vivem cotovelo a cotovelo com o médico e os pacientes graves, às vezes durante anos, mas conhecem quase tão pouco quanto os usuários. É um paradoxo. Pressupõe-se que eles tenham interesse em aprender, pelo menos, qual é o efeito do remédio ou por que ele é combinado com um e não com outro.”
Um dos desdobramentos interessantes da pesquisa, conforme Rosana Onocko-Campos, é que os pacientes começaram a se responsabilizar mais pelo seu tratamento. “Os usuários são os únicos que podem falar da experiência do adoecimento, de como é estar com psicose ou depressão. No diabético, o médico mede a glicose e verifica se é preciso reduzir ou aumentar a dose. Mas se a pessoa sofre de transtorno do humor, como saber se a dosagem está boa, a não ser confiando no que ela diz? A valorização da palavra do outro é condição para a qualidade do tratamento. O médico que não faz isso, não é bom clínico.”
Um dos desdobramentos interessantes da pesquisa, conforme Rosana Onocko-Campos, é que os pacientes começaram a se responsabilizar mais pelo seu tratamento. “Os usuários são os únicos que podem falar da experiência do adoecimento, de como é estar com psicose ou depressão. No diabético, o médico mede a glicose e verifica se é preciso reduzir ou aumentar a dose. Mas se a pessoa sofre de transtorno do humor, como saber se a dosagem está boa, a não ser confiando no que ela diz? A valorização da palavra do outro é condição para a qualidade do tratamento. O médico que não faz isso, não é bom clínico.”
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