dezembro 05, 2014

"Sobre as vítimas e os nossos desafios", por Fran e Dan

PICICA: "Como encorajar, ouvir, acolher, compreender e fortalecer o protagonismo direto das vítimas, exatamente contra a lógica disseminada por este Estado Penal ao mesmo tempo sem recairmos em concepções práticas de “justiça” supostamente novas, porém derivadas da mesma lógica seletiva-punitivista que insiste em nos violentar."

Sobre as vítimas e os nossos desafios

4 de dezembro de 2014  
Como encorajar, ouvir, acolher, compreender e fortalecer o protagonismo direto das vítimas, exatamente contra a lógica disseminada por este Estado Penal ao mesmo tempo sem recairmos em concepções práticas de “justiça” supostamente novas, porém derivadas da mesma lógica seletiva-punitivista que insiste em nos violentar.  Por Fran e Dan

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A recente polêmica em torno do caso Idelber Avelar trouxe à tona uma série de questões importantes para toda a esquerda, e para as lutas feministas em especial. E talvez ninguém tenha sintetizado mais precisa e serenamente as suas implicações do que o historiador André Godinho. Segundo ele:
“A exposição do assédio pelas duas mulheres se coloca numa esfera que não é nem a judicial nem a moral, mas de natureza ética e política. Sendo que a questão colocada nos relatos é, sobretudo, a da consensualidade, que no meio da treta muitas vezes é reduzida à opção dessas mulheres em continuar ou não conversando com ele – uma das muitas variantes da culpabilização da vítima. Só que consensualidade não é só isso. Para não serem opressivas e abusivas, as práticas sexuais podem escapar a normas morais estabelecidas, mas não podem ignorar questões éticas, o que é bem diferente. Os relatos indicam se tratar de jogos recorrentes nos quais as regras não são claras para as mulheres envolvidas, que são abordadas de forma abusiva e que são manipuladas por alguém que usa privilégios sociais [e credenciais de esquerda feminista e libertária] para explorar suas fragilidades. Se fosse apenas conversa suja, mesmo que muito suja, entre duas pessoas adultas, cada qual buscando seu prazer, daria pra falar em tribunal moral. Mas não é o caso, o caso é de autodefesa das mulheres e de necessidade de autocrítica para todos nós. Nenhuma dessas questões se esgotam neste caso e espero que ele sirva para o aprendizado de todos.” [1]
Ocorre que a mesma polêmica suscita também a nós outra reflexão política mais profunda, para além destes pontos já levantados pelo André: sobre a condição e o papel das vítimas diante de uma situação de opressão ou violência – visando nossa própria autodefesa, a reparação dos danos causados aos indivíduos vitimados [dimensão particular], e a elaboração da situação de conflito buscando a construção horizontal de (novo) convívio [tendo sempre em vista a totalidade]. Em suma: a superação efetiva das situações concretas de opressão ou violência por parte diretamente das vítimas, a partir de uma perspectiva feminista mais ampla, autônoma e anticapitalista.

O presente texto pretende, a partir desta polêmica, por um lado, contrapor-se àqueles que estão buscando deslegitimar o papel das vítimas (silenciando sobre elas; culpabilizando-as novamente; acusando-as de vitimização; e, pior, de “punitivistas” ou “misândricas” pura e simplesmente) – para os quais nós procuraremos mostrar que o punitivismo capitalista moderno nasce exatamente da negação à autonomia das vítimas poderem construir suas próprias formas de elaboração dos conflitos, autodefesa e proposição coletiva de novas formas horizontais/igualitárias de liberdade [confiscadas pelo Sistema Penal]. Por outro lado, pretendemos também problematizar a ênfase demasiada na denúncia do algoz machista (e seu possível escracho ou linchamento, mesmo que virtual), que pode ser parente da lógica de “estereotipia e extermínio do inimigo” – tão cara ao Estado Penal Patriarcal que se busca criticar.

Conforme alertou recentemente Suellen: “Nesse sentido, uma parte da militância feminista que não atenta para a totalidade do sistema que combatem em algumas de suas especificidades acaba por se valer da prática do inimigo e, desta forma, reproduz internamente o sistema: não só se submete ao Estado capitalista e ao sistema enquanto um todo integrado, mas pior, se integra nele. A luta acaba, então, [consciente ou inconscientemente] sendo assimilada, e passa a cumprir funções de legitimação do sistema causador das demandas que a luta inicialmente buscava ver atendidas.” [2]. Uma estratégia cuja lógica pode, portanto, ser muito facilmente recuperada pelo sistema patriarcal-capitalista, voltando-se novamente contra as próprias vítimas históricas.

O Sistema Penal Capitalista Histórico

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Antes de falarmos propriamente sobre a condição e o papel das vítimas em contextos atuais afins é preciso, porém, ter-se em vista o avanço histórico do Sistema Penal-Punitivo no qual estamos metidxs até o último fio de cabelo, que é correlato à própria evolução do capitalismo moderno. Um desenvolvimento histórico que fez com que sua violência heterônoma (material, simbólica, penal e militar) se disseminasse, constantemente atualizada, para todas as esferas (e corpos administrados) da vida social – por meio de diversos dispositivos biopolíticos [3]. Essa estrutura sócio-penal moderna, marcada pela constante ameaça de punição, funde a exploração de classe com a dominação racial e de gênero, inter-relacionando-as de forma desigual e combinada entre as distintas sociedades capitalistas conectadas entre si (sob a égide da gestão dos corpos trabalhadores e sob a constante violência punitiva contra o dominado/explorado que ousa subvertê-las).

Um processo que não ocorreu de forma diferente no Brasil – país em que a questão racial, por conta do escravismo, tem ainda mais peso relativamente a outros países: a formação histórica de nosso Sistema Penal é marcada pelo constante incremento do controle total sobre os corpos – negros em especial, tendo como pano de fundo o genocídio (via sistema carcerário e/ou extermínio policial), conforme já bem analisou Ana Flauzina [4]. De modo que não é de hoje (remonta ao tempo dos Pelourinhos em praças públicas), nem é por acaso, que a ideia de “justiça”, por exemplo, também por aqui a cada dia mais tem se confundido imediatamente, seja à direita ou à esquerda, com a ideia de “punição”. A razão de todas prementes questões (sociais, raciais, de gênero, sexuais etc) seria “a impunidade”… “Justiça”, então, seria igual a + Leis, + Tribunais (Reais ou Virtuais) e + Mecanismos Punitivos.

Esse punitivismo generalizado no Brasil e no mundo, no entanto, tem tudo a ver com a própria lógica histórica do Estado Penal (Capitalista) e a sua progressiva priorização da heteronomia disciplinar-repressiva em detrimento do protagonismo autônomo das vítimas para (re)construírem outras formas possíveis de elaboração dos conflitos (construção horizontal do convívio; socialização igualitária da produção; justiça restaurativa, por exemplos). “A história da criminologia está […] intimamente ligada à história do desenvolvimento do capitalismo. […] A invenção da pena pública supõe o confisco do conflito da vítima, que se torna apenas uma figura secundária na reconfiguração do poder punitivo”, sintetiza Vera Malaguti. [5]

Os punitivismos do Estado de Direito

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Por isso soa mais do que patético, diante da reação legítima de vítimas que conseguem se levantar e denunciar agressões físicas, simbólicas ou ético-políticas, em nossa sociedade – como no caso dos abusos e da predação sexual público/privada em série do Idelber Avelar, recorrer à suposta “legalidade” daquilo que está sendo denunciado publicamente. “O quê o sujeito fez está ou não está prescrito no Código Penal?”, questionam supostos militantes de esquerda – inclusive feministas (como fizeram respectivamente Túlio Vianna e Cynthia Semíramis). Estando ou não dentro da legalidade – para estes cúmplices do Estado de Direito realmente existente: literalmente foda-se o testemunho, a condição e o papel das vítimas – atuais e potenciais! Como disse Godinho, “mais uma das muitas variantes da culpabilização (e silenciamento) das vítimas”, confiscando-as novamente a palavra – neste caso apoiado na suposta ilegalidade ou ilegitimidade de suas denúncias.

Da mesma forma que dizer, pura e simplesmente, que “essas feministas estão sendo punitivistas” (e até misândricas), ignora o fato de que a origem deste punitivismo moderno denunciado reside justamente na negação [o confisco por parte do Estado Penal] do protagonismo autônomo das vítimas, no caso mulheres que se sentem violentadas, para elaborar sua própria autodefesa, a reparação dos danos causados e a elaboração pública da situação de violência visando à construção horizontal de (novo) convívio – entre mulheres e homens. “Por todos os meios possíveis e necessários” (e legítimos).

De modo que é impensável construir uma verdadeira luta autônoma contra o Estado Penal e o punitivismo histórico (incluindo sua forma “Democrática”) que não passe, de alguma maneira, pela reparação e re-empoderamento autônomo das vítimas históricas no processo de construção direta de novas formas de justiça – entendendo “justiça” aqui como elaboração e superação autônoma das opressões, buscando a construção horizontal de um (novo) convívio, como já foi dito.

Dilemas atuais

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Ocorre que hoje vivemos uma situação-limite, que leva este desafio ao paroxismo: essa lógica histórica do Estado Penal sofisticou-se e espraiou-se a tal ponto (por meio de uma quantidade infinita de dispositivos sociais e tecnológicos – do aparato policial-prisional à TV, internet e às redes sociais, passando pelo trabalho disciplinando integralmente nossos corpos), que praticamente todos indivíduos, (de)formados por esta sociedade, somos altamente punitivistas e, no limite, linchadores em potencial (ou em real time). A lógica mais perversa do Sistema Penal – o extermínio do inimigo e a invisibilidade da vítima – introjetou-se perfeitamente em cada indivíduo de nossa sociedade atual, tornando inclusive muitas vezes desnecessária a presença externa dos braços armados do Estado para se garantir a realização de sua violência (já internalizada em nós mesmxs). Introjetou-se, portanto, inclusive na postura das vítimas históricas. Somos todxs punitivistas voluntárixs. [6]

Não é à toa que assistimos à multiplicação de “justiceiros” populares – de bairros nobres ou mesmo em comunidades periféricas (sob diversas facetas), em situações que chegam, muitas vezes, à mobilização para o linchamento/execução real. Qualquer semelhança com as estruturas da lógica policial de “encarceramento em massa dos bandidos” ou “extermínio sumário dos suspeitos” não é mera coincidência. As Sheherazades e os Datenas da vida não trabalham gratuitamente (nem desprovidos de interesses raciais, classistas e sexistas por trás das suas escalações) durante todas as longas tardes das semanas fazendo trabalho de base real nos lares e sobre os corpos de brasileirxs…

Daí o dilema redobrado: como encorajar, ouvir, acolher, compreender e fortalecer o protagonismo direto das vítimas (do nosso luto à nossa luta), exatamente contra a lógica disseminada por este Estado Penal (Capitalista, Racista e Patriarcal) – que sempre culpabiliza a vítima já violentada a priori, praticamente relegando-a ao desaparecimento subjetivo ou objetivo (e, no limite, ao genocídio); ao mesmo tempo sem recairmos em concepções práticas de “justiça” supostamente novas, porém derivadas da mesma lógica seletiva-punitivista que insiste em nos violentar (até porque está arraigada em nossos próprios corpos). Afinal, o talhão (o seletivismo; o punitivismo; o escracho; o linchamento; o extermínio) sempre retorna às vítimas históricas. Aliás, como dito anteriormente, o talhão não deixa de ser uma espécie de solidariedade velada com o opressor – ao priorizar desproporcionalmente a sua figura individual na “resolução” de conflitos sociais, ao preço da secundarização (do todo social) e o esquecimento da própria condição específica da vítima a ser reparada (ela que acaba tendo reconfiscada sua autonomia para escolher, organizar e concretizar suas próprias formas de autodefesa e superação concreta da violência). Satisfeita a “sede de justiça” com a aniquilação do agressor, qual lugar efetivo sobrará para as suas vítimas específicas – virada a página do espetáculo para o próximo alvo?

Exemplos concretos

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O movimento de familiares de vítimas da violência policial, por exemplo, uma vertente importante de certo feminismo negro e popular que tem ganhado destacado protagonismo nos últimos tempos, vive e é plenamente consciente deste tipo de impasse há anos. Isto se explicita numa situação concreta recorrente: o movimento exige os devidos julgamentos e mais punições aos policiais assassinos dos filhos, sabendo que mais procedimentos punitivos (ainda mais neste Estado de Direito Penal), no final das contas, só reforçam um sistema penal-carcerário cuja maior vítima é a mesma das execuções policiais: jovens negros, pobres e periféricos (e nossas famílias, vítimas conexas). Exige-se mais direitos aos familiares, mesmo sabendo que + Leis significam legitimar e fortalecer um Estado Democrático de Direito estabelecido contra nós. Como garantir avanços concretos sem ser cooptado/recuperado pelo Sistema que combatemos? Como sair desta armadilha? Não há ninguém que viva mais este dilema do que as famílias de vítimas negras, pobres e periféricas deste Estado Penal no Brasil, enquanto convivem com um sofrimento profundo (não-reparado) e totalmente invisibilizado pelas burocracias; que apenas se torna visível quando se exige espetacularmente mais punição (e não mais reparação substantiva, muito menos qualquer superação coletiva autônoma efetiva). Afinal, a sociedade só tem olhos (obsessivos) para o próximo suspeito-inimigo. O Estado Penal Capitalista promove um rol de alvos em série e massifica este olhar – e esta agenda prática genocida sem fim.

Mas este dilema não é privilégio da luta dos familiares de vítimas da violência policial. Todo e qualquer movimento que lide com opressões, violências ou – como tem se costumado dizer desde fins dos anos 1970 no admirável mundo nomeado pelas leis democráticas – “violações de direitos humanos”, está sujeito em maior ou menor grau a este dilema. Ou a criação da Lei Maria da Penha e a multiplicação de Delegacias da Mulher podem ser consideradas objetivo-final de uma luta pela emancipação da mulher? Ou a criminalização efetiva do racismo e da homofobia (por meio desta Polícia e deste Sistema Judiciário) significará a superação plena da histórica opressão racial e sexista que constituem também a exploração capitalista?

Cada grupo ativista um novo dispositivo de controle?

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O fato é que esta batalha está sendo definitivamente perdida por nós. E o que temos assistido, de maneira aparentemente incontornável, é a multiplicação entre nós de práticas de controle, seletivas, hierarquizantes e punitivas (inclusive contra nós mesmxs), tornando cada pequeno grupo de militantes num novo dispositivo disciplinar, competitivo e violento, a serviço do sistema que dizemos combater. Não há mais “companheiros e companheiras”, por exemplo, mas no máximo “aliados” táticos-conjunturais – de quem todo mundo sabe que apenas se aguarda o momento para romper, atualizando-o como inimigo. Estamos todxs, portanto, altamente mobilizadxs em “modo de espera” (pela iminente próxima violência) – totalmente reativxs, sem maiores perspectivas. Como vem dizendo o professor Paulo Arantes: “o novo tempo [emergencial] do mundo” está marcado pelo encurtamento radical de nossos horizontes emancipatórios. Não há, portanto, estratégia; é o reino da conjuntura e das táticas defensivas/reativas perenes [7]. Cada tendência política, cada grupo de ativistas, cada ONG, cada indivíduo-militante (ou cada microblog; twitter ou perfil de facebook) pode virar, a qualquer momento, um Órgão de Vigilância, uma Delegacia de Costumes ou um Tribunal Sumário em potencial – na verdade já o são, como sabemos, sobretudo para as corporações que controlam privadamente estas “redes nada sociais”. “Causas” e “Perfis” é o quê não faltam à disposição no mercado. As Corporações Transnacionais e o seu Estado Penal Globalizado (Capitalista, Racista e Patriarcal) ri de nós mesmxs, e agradece pelos ótimos serviços prestados.

Mesmo diante de casos legítimos de denúncia pública de violência para a nossa própria autodefesa, nos casos de abusos (inclusive de menor) feito por Idelber de onde partimos para esta reflexão, como não temos autonomia sobre as formas, processos e dispositivos por meio dos quais disseminamos estas denúncias, a iniciativa pode ser facilmente recuperada pelo Sistema Penal e voltar-se novamente contra nós. Isso não significa condenar as denúncias, mas encarar todas as suas possíveis consequências (boas e também ruins).

Exemplo concreto de como a violência pode retornar? Ao terem sido obrigadas a expor massivamente conversas íntimas para se autodefenderem (e prevenirem outras mulheres) sobre os riscos reais de predação sexual implicados na postura privada de Avelar (em total oposição à sua também massificada imagem pública – que era um dos recursos manipulados por ele para sua predação em série), as vítimas necessariamente tiveram que vigiar e violar a intimidade não só dele, mas também delas próprias – algo caro a todo mundo, de esquerda inclusive, colocando-as juntas a outras mulheres sob novos riscos de vigilância/exposição massiva, e de retaliações afins por parte deste ou daquele outro agressor. Já se tornaram célebres casos de homens de esquerda escrachados que, ao sentirem que foram liquidados política e moralmente, voltam-se ainda mais violentos contra suas vítimas e contra toda a esquerda (inclusive às vezes passando a trabalhar diretamente para a Inteligência Policial do Estado). [8] Mas não só os agressores escrachados voltam-se contra a esquerda – o quê no final das contas poderia ser o menor dos problemas, pois personalizado. Tem sido recorrente nos últimos dias, por conta desta famigerada polêmica, manifestar-se entre feministas de esquerda uma série de comentários neste sentido, deslegitimando (e punindo preventivamente?) homens de esquerda por causa deste caso específico: “não dá para confiar mesmo em ‘homens feministas’, de esquerda então…”; “não dá para confiar em homens de forma geral…”. Mais uma vez a parte [o indivíduo agressor] pelo todo [a esquerda e os homens]. No caso dos comentários acima, aí sim, flertando com o biologismo e a misandria (existem feministas que flertam com essas concepções, devemos ser francxs e admitir). Homens não teriam legitimidade, sequer, para se manifestar sobre o assunto…

E outro saldo indiscutível desta polêmica, para o bem e para o mal: todxs aumentaremos a vigilância e o controle mútuo (pessoal e social) sobre nossas conversas íntimas em redes sociais. As vítimas talvez não pudessem encontrar, neste caso em questão, outra maneira de prevenir outras mulheres (vítimas em potencial) – demonstrando, assim, solidariedade prática de gênero – sem recorrer massivamente a este sempre perigoso e questionável recurso: a quebra do acordo tácito de confidencialidade (que a violenta abordagem de Idelber e sua ‘falsa simetria’, ademais, já havia feito implodir, tornando as mulheres reféns de um novo silêncio imposto só por ele). Para fazer este novo omelete julgaram ter sido necessária a quebra desses sagrados ovos (sem trocadilhos) para todxs nós, o quê ao mesmo tempo produziu novas consequências – repressivas e/ou emancipatórias?

Contexto ambivalente e necessidade de autocrítica permanente para a esquerda

Neste contexto ambivalente, como então valorizar a palavra direta das vítimas e o nosso protagonismo, (re)empoderando-nos contra a histórica lógica negacionista e punitivista deste Estado Penal, agora turbinado ciberneticamente [9], sem reproduzir nas nossas tão necessárias novas formas de autodefesa (de elaboração de conflitos, reparação e construção horizontal de novos convívios), os atuais padrões de disciplinarização, vigilância e violência punitiva – contra o outro, que pode ser inclusive nós mesmxs?

Sairemos mais fortes ou mais fracxs após cada fratura – e cada agressor/opressor – que conseguirmos expor, por nós mesmxs, deste Sistema Capitalista, Racista e Machista? Com quem (grupo, gênero, raça ou classe) e de que forma podemos nos organizar horizontal e efetivamente para forçar essas fraturas – analisando-as caso a caso? Este esgarçamento fortalece a nossa Autonomia e propõe novas formas efetivas de Elaboração dos Conflitos e Construção Coletiva da Liberdade, ou pode acabar criando outras armadilhas para nós mesmxs – estruturas opressivas similares, nos jogando, fragmentadxs, deformadxs e desconfiadxs entre si (beirando à paranóia), totalmente integradxs ao sistema que buscávamos destruir: nós contra nós mesmxs?

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Por enquanto o Sistema Penal, direta (com seus próprios braços civis e militares) ou indiretamente (com nosso ativismo retro-punitivista), tem conseguido nos manter cada vez mais desagregadxs e fragilizadxs: plenamente capturadxs pela gramática que pretendíamos combater. Há uma competição frenética entre nós mesmxs para demarcar (frente ao outro-inimigo) quem é verdadeiramente mais de esquerda (via de regra, pelo discurso), quem é a feminista mais radical (às vezes inclusive pelo grau de misandria, deve-se admitir), quem é mais autenticamente negro (às vezes sob a medição dos níveis de melanina), quem é a periferia mais original (o CEP mais alto?), quem é o anarquista mais libertário (às vezes pela disposição sexual), quem é o autônomo mais combativo, quem… ?

A consciência de trabalhadores e trabalhadoras que um dia pudesse ter nos unido (enquanto classe, enquanto comum) ficara para trás com o ciclo político que se fechou com a triunfante farsa da “esquerda” lulo-petista – gestores de partidos e sindicatos ossificados e movimentos sociais totalmente cooptados à frente. Sintomático que a célebre saudação, feita pelo ex-torneiro-ainda-representante-mor deste finado ciclo, “companheiros e companheiras”, fora com o tempo substituída sem maiores resistências, no discurso e na prática, por “meus amigos e minhas amigas” (enquanto Ele-trabalhador se transformava no principal gestor do capitalismo no Brasil)… Não deveria surpreender que alguns militantes de esquerda estejam silenciando sobre ou até justificando a postura de Idelber Avelar sob o mesmo critério – da amizade com ele. Nem que algumxs governistas estejam aproveitando esta tragédia para tirar uma casquinha do caso contra as boas críticas que Idelber costumava fazer à gestão neodesenvolvimentista do capitalismo feita pela mulher Dilma – estaria tudo explicado pela questão de gênero…

A marcha fúnebre promovida pelo Estado e a (auto)predação social – com esta “esquerda” à frente – prosseguem, porém, mais fortes do que nunca. “O inimigo é um só, mas a luta insiste em se [des]organizar aos fragmentos”, como disse recentemente a Suellen em artigo já citado neste texto.

Teremos classe para encarar esta reflexão autocrítica e este desafio permanente pelos quais passa fundamentalmente a atual construção anticapitalista prática, coletiva e autônoma, de mulheres e homens realmente novxs por aqui no Brasil?

NOTAS

[1] Ler o texto completo de André Godinho aqui.

[2] Ler o texto completo da Suellen aqui.

[3] Sobre isso ler sob uma perspectiva anticapitalista os livros de Michel Foucault: Segurança, Território, População. Curso no Collège de France (1977-1978) [São Paulo: Martins Fontes, 2008] e Nascimento da Biopolítica. Curso no Collège de France (1978-1979) [São Paulo: Martins Fontes, 2008].

[4] Sobre isso ler a tese “Corpo negro caído no chão: o sistema penal e o projeto genocida do Estado Brasileiro”, de Ana Luíza Pinheiro Flauzina (Disponível aqui: http://bdtd.bce.unb.br/tedesimplificado/tde_arquivos/44/TDE-2006-12-01T170601Z-520/Publico/2006_AnaLuizaPinheiroFlauzina.pdf)
[5] Ver Introdução Crítica à Criminologia Brasileira de Vera Malaguti Batista (Rio de Janeiro: Revan, 2011 – p.23/24).

[6] Ver Guy Debord, em Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo: “O governo do espetáculo, que presentemente detém todos os meios de falsificar o conjunto da produção assim como da percepção, é senhor absoluto das recordações tal como é senhor incontrolado dos projetos que modelam o mais longínquo futuro. Ele reina só em todo o lado; ele executa os seus julgamentos sumários (…) Os rumores mediático-policiais adquirem num instante, ou no pior dos casos depois de terem sido repetidos três ou quatro vezes, o peso indiscutível de provas históricas seculares. Segundo a autoridade lendária do espetáculo do dia, estranhos personagens eliminados no silêncio reaparecem como sobreviventes fictícios, cujo retorno poderá sempre ser evocado ou calculado, e provado pela mais simples diz-se dos especialistas. Algures entre Aqueronte e Letes estão estes mortos que não foram regularmente enterrados pelo espetáculo; é suposto estarem adormecidos, esperando que se queira acordá-los, todos, o terrorista descido de novo das colinas, e o pirata regressado do mar, e o ladrão que já não tem necessidade de roubar” [Disponível aqui: http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/comentariosse.html].

[7] Ver o livro de Paulo Arantes, O novo tempo do mundo (São Paulo, Boitempo, 2014). Em especial o primeiro e último ensaio: “O novo tempo do mundo” e “Depois de Junho a Paz será Total”.

[8] Ler, por exemplo, esta crônica de Dokonal que deve ter se inspirado num caso real recente no Rio de Janeiro (pós-Junho de 2013).

[9] Ler aqui texto de Julian Assange (Wikileaks) sobre as relações umbilicais entre a Google e o Departamento de Estado Norte-Americano.

ARTIGOS E LIVROS CITADOS

Ana Luíza Pinheiro Flauzina – Tese de Doutorado: “Corpo negro caído no chão: o sistema penal e o projeto genocida do Estado Brasileiro” (Disponível em http://bdtd.bce.unb.br/tedesimplificado/tde_arquivos/44/TDE-2006-12-01T170601Z-520/Publico/2006_AnaLuizaPinheiroFlauzina.pdf ).

André Godinho – Postagem de Facebook: “Sobre o caso do Idelber, tenho a dizer apenas que não se trata de uma questão judiciária ou moral, mas ética e política” (Disponível em https://www.facebook.com/andree.godinho/posts/951490284878269).

Dokonal – Artigo: “Sobre escrachos, extrema-esquerda e suas próprias novelas: o conto que pensei em escrever” (Disponível aqui)

Guy Debord – Livro: Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo (Disponível aqui).

Julian Assange – Trecho de livro: “Google não é o quê parece” (Disponível aqui)

Michel Foucault – Livros: Segurança, Território, População. Curso no Collège de France (1977-1978) [São Paulo: Martins Fontes, 2008] e Nascimento da Biopolítica. Curso no Collège de France (1978-1979) [São Paulo: Martins Fontes, 2008].

Paulo Arantes – Livro: O novo tempo do mundo (São Paulo, Boitempo, 2014). Em especial o primeiro e último ensaio: “O novo tempo do mundo” e “Depois de Junho a Paz será Total”.

Suellen – Artigo: “Reflexões acerca de nossas lutas pelo feminismo” (Disponível aqui).

Vera Malaguti Batista – Livro: Introdução Crítica à Criminologia Brasileira (Rio de Janeiro: Revan, 2011)

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