março 14, 2010

Sua Excelência, o fato


Sua Excelência, o fato

Paulo José Cunha

Dr. Ulysses Guimarães gostava da expressão -Sua Excelência, o fato-, para se referir a algo irrefutável, semelhante ao -los hechos son los hechos- dos espanhóis. Em jornalismo muitas vezes temos de provar com fatos uma afirmação, uma denúncia, até mesmo uma insinuação. Duas historinhas pra ilustrar. E de como fui salvo por -Sua Excelência, o fato-.

Trabalhava no Jornal do Brasil quando fui escalado para cobrir uma visita de Niemeyer a Brasília. Há mais de oito anos ele não punha os pés por aqui. Fez um tour pela cidade cercado de repórteres. Mas sem dar entrevistas, apenas fazendo comentários a um grupo de arquitetos seus amigos. A redação queria porque queria que eu arrancasse uma entrevista exclusiva dele. Já ao final da visita, depois de muita insistência, concordou em responder por escrito a algumas indagações. Marcou hora e disse que fosse pegar o texto com as respostas na portaria do hotel. De posse das anotações, escritas a mão em cinco laudas, em que analisava a situação da cidade e comentava as intervenções em suas obras, redigi a matéria que o JB publicou com amplo destaque. No mesmo dia recebi uma cobrança dura do editor-chefe do jornal no Rio de Janeiro, Juarez Bahia. Niemeyer escrevera carta ao jornal acusando-me de colocar palavras em sua boca, inventado declarações dele etc. Bahia exigia explicações urgentes. Não discuti. Apenas enviei cópia xerox do manuscrito para Juarez Bahia, no Rio. Nunca mais tocou do assunto. -Sua Excelência, o fato-, falou mais alto.

No tempo da ditadura, diante das dificuldades para se obter informação de bastidores, boa parte da cobertura política era sobre os discursos em plenário. Durante o Pinga-fogo, horário de breves comunicações, os deputados tratavam de tudo, de concursos de miss a brigas de galos. Resolvi juntar os discursos mais curiosos em uma matéria publicada numa segunda-feira, chamada "O circo da Câmara". Começava dizendo: "Senhoras e Senhores: vai começar o espetáculo!" No dia seguinte, dezenas de deputados foram à tribuna me "homenagear" com adjetivos pouco edificantes. Queriam minha cabeça. Exigiam meu descredenciamento por denegrir a imagem do Congresso. O então presidente da Câmara, hoje senador Marco Maciel, chamou-me ao gabinete dele. Disse-me que os deputados tinham ido se queixar a ele, e exigiam providências. Abri uma pasta com uma coleção de discursos da semana anterior sobre os temas mais esdrúxulos. Surpreso, Maciel revelou desconhecê-los, pois naquela época eram dados como lidos e entregues diretamente ao setor de publicação. Nunca mais tocou no assunto. Deve ter dito aos reclamantes que não havia como argumentar. Se os discursos existiam mesmo, ia fazer o quê?

Novamente, -Sua Excelência, o fato-. Sempre ele. Irrefutável. Definitivo. Como a imagem daquele dinheiro na meia. Refutar como? Versão até que dá pra contestar, reformular. Mas fatos são fatos. Sua Excelência é fogo.

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