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setembro 19, 2010

Poesia é sarjeta

    Várias pessoas me indagam sobre a origem do nome "TODA POESIA É SEMENTE" que dei a esta news-letter poética, e do subtítulo "Nenhum verso virá pó. Todo verso vira pólen".  É o seguinte: Em 2008, diante de uma foto publicada pelo Correio Braziliense mostrando a consternação do jornalista e mosaicista Gougon recolhendo os cacos dos tótens que ergueu nos pontos de ônibus em homenagem os poetas de Brasília, demolidos por ordem de algum imbecil do Governo do Distrito Federal, escrevi um poema. Que terminaria se transformando num belo mosaico de Gougon, plantado hoje no piso da parada de ônibus da 509 Sul. 
    Bom fim de semana! PJ
    
    Poesia na sarjeta


Explicação dada, agora um poema curtinho, pra sair assoviando por aí e fechar esta edição:


Bendita insônia

No amor, ao contrário da vida,
nada é melhor
do que uma noite mal dormida

setembro 06, 2010

Toda poesia é semente

O CASO DOS DOIS BEIJOS 

No tapete ao lado da cama,
hoje pela manhã,
encontrei dois beijos vadios
que se desprenderam à noite
de teus cabelos
e caíram no chão.

Um deles (o mais tímido)
machucou-se um pouco na queda,
chora e só fala em voltar pra casa.
Já o outro, de uma família de saltimbancos,
em troca de dois vinténs
tomou o lugar de um dos meus.

Agora, teu beijo saltimbanco anda comigo.
Faz piruetas dentro do bolso da calça,
e diz que nunca mais voltará pra casa.

Enquanto isso o meu beijo, um andarilho,
fugiu e agora anda contigo.
Tem feito longas caminhadas pelo teu rosto,
se enrosca em teus cabelos,
escorrega pelo teu corpo,
pendura-se no bico de um seio,
vez por outra se esborracha no chão,
e, com um sorriso safado,
abre os bracinhos
e diz umas piadas sujas
que te fazem rir,
encabulada...


Paulo José Cunha é poeta, jornalista e professor.

setembro 05, 2010

Dêem-me uma imagem e moverei o ibope, por Paulo José Cunha

nekneves | 30 de novembro de 2009
Governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, recebendo dinheiro de propina em esquema de corrupção montado dentro do governo.

Gravada pelo então secretário de Relações Institucionais, Durval Barbosa, a fita anexada ao inquérito da Polícia Federal, desencadeou a Operação Caixa de Pandora na última sexta, que resultou no cumprimento de 29 mandados de busca e apreensão em gabinetes de órgãos públicos, residências e empresas em três cidades.

***

TELEJORNALISMO EM CLOSE

Dêem-me uma imagem e moverei o ibope
                                                                                       Paulo José Cunha


         A equipe de José Serra sabe que somente um belo escândalo seria capaz de alterar os rumos da campanha eleitoral que se encaminha para uma vitória em primeiro turno da candidata petista Dilma Roussef. O problema é que um escândalo capaz de mexer com a cabeça do eleitor precisa ter força midiática. É fundamental que contenha os componentes que o façam “ver” o crime praticado, “sentir” o impacto desse crime em seu bolso, em sua vida, no futuro de sua família.

         O escândalo da invasão dos dados da receita dos tucanos de farta plumagem e até da filha do tucano-mor José Serra, em sociedades onde sigilo fiscal é reconhecido com direito fundamental do cidadão (como nos States, por exemplo), teria a força devastadora de um furacão. Bisbilhotar a intimidade do adversário já custou o mandato de Richard Nixon. E olha que Nixon nem mandou fazer o serviço sujo no edifício Watergate. Bob Woodward e Carl Berenstein apenas provaram que ele tinha conhecimento da invasão.

         A oposição brasileira, desesperada com a queda livre de Serra nas pesquisas, precisa urgentemente de um escândalo. O que apareceu é gravíssimo, do ponto de vista do direito à privacidade, direito assegurado constitucionalmente, mas fraquíssimo do ponto de vista do apelo midiático. Não tem força suficiente para mexer o ponteiro do ibope. Por mais que esteja sendo mantido nas primeiras páginas, não tem o poder de comoção de uma imagem como aquela, inesquecível, de 1 milhão e 300 mil reais em dinheiro vivo, apreendidos numa operação da Polícia Federal na sede da Lunus, a empresa do marido de Roseana Sarney, e que custou a candidatura dela à Presidência da República. Nem a força das maravilhosas imagens do mensalão do DEM, que valeram o mandato de José Roberto Arruda no Distrito Federal.   

         Na sociedade atual, dominada pela força do audiovisual, é praticamente impossível convencer o eleitor que recebe o bolsa-família a retirar o apoio a Dilma, candidata de Lula, e transferi-lo a Serra ou a qualquer outro oposicionista só porque alguém do PT teria ido espiar a declaração do imposto de renda de pessoas próximas ao seu adversário. “Que mal há nisso?”, deve estar pensando o eleitor da zona rural de Quixeramobim, no Ceará, conferindo a conta do bolsa-família. Se a denúncia não se consubstanciar numa boa imagem ou, no mínimo, numa boa gravação de conversa suspeita, não tem apelo algum.   
        
         Lamento informar, mas se querem mudar o rumo dos ventos, consigam rapidamente uma foto, um vídeo, uma imagem incriminadora, uma gravação de conversa comprometedora. Algo que detone os sentimentos de forma direta, sem a mediação do racional. Invasão de sigilo fiscal ou bancário ainda é inóquo para o cidadão comum do Brasil. Pode até funcionar nos States. No máximo, dá uma peninha do caseiro Francenildo, que teve a conta bancária revirada supostamente com o conhecimento do então ministro Antonio Palocci. Mais nada. Do ponto de vista da percepção imediata, para o cidadão comum, se não houver roubo, ferimento, morte, pedofilia ou estupro, então não existe crime. No máximo, “uma história que andam falando aí de alguém que andou vendo a conta bancária dos outros”, algo assim. Ainda mais se a denúncia não trouxer pelo menos a imagem, mesmo borrada, de uma cédula de 50 reais escondida numa cueca. “Dêem-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo”, disse Arquimedes. Na sociedade midiática centrada no audiovisual é só trocar a palavra “alavanca” por “uma imagem”. Dessa forma, sim, dá pra mexer no ponteiro do ibope. Sem precisar nem de ponto de apoio. 


Paulo José Cunha é jornalista, professor universitário e poeta    

agosto 26, 2010

Toda poesia é semente


Inauguro esta news-letter poética, que passo a enviar semanalmente, com a "Cantiga da baixa umidade", escrita há dois anos, em plena seca. Naquele ano o ápice da secura foi em setembro (este ano parece que agosto é o mês mais seco, basta verificar a quantidade de queimadas em todo o nosso centro-oeste e as baixas taxas de umidade que temos enfrentado).
Diz assim:

CANTIGA DA BAIXA UMIDADE
O mato estala nos campos de setembro
onde a vida perde o viço
e o mundo é palha.


Tudo é fumo no horizonte desses campos
lavados ao calor que avança em ondas.


O peito dói, e se esfarela
como o barro calcinado nas queimadas.


Uma angústia se instala sem aviso.
Todo gesto é lento.
Até o silêncio agride.


Derrotado à fornalha dos cerrados,
o frágil coração nem mais bombeia.
O sangue vira pó dentro da veia.


Nesta umidade baixa e relativa,
qualquer canto de sereia me cativa,
qualquer ponta de cigarro me incendeia

agosto 13, 2010

O marketing político e a ética

Imagem postada em ronieventos.blogspot.com

TELEJORNALISMO EM CLOSE

O marketing político e a ética
                    Paulo José Cunha


         Qual a diferença entre a propaganda eleitoral e o debate eleitoral? Simples: a propaganda tenta mostrar o candidato como ele (ou os marqueteiros) gostaria(m) que fosse visto. E o debate eleitoral mostra o candidato como ele efetivamente é. Alguém pode argumentar que as técnicas de marketing destinadas à preparação dos candidatos para debates encobrem a verdade e por isso se aproximariam da publicidade porque os faria aparecerem como gostariam de ser vistos, e não como são. Mas o argumento é falho por duas razões. A primeira é que, por mais sofisticadas que sejam as técnicas de preparação para debates – e falo com algum conhecimento de causa, porque venho me dedicando a essa atividade há vários anos – elas não conseguem encobrir a personalidade de ninguém. No máximo, se consegue organizar ou “construir” o discurso do candidato a partir de suas idéias, e  preparar as melhores respostas para perguntas que possam atingir seus calcanhares de aquiles, aqueles pontos onde é frágil (inexperiência administrativa, por exemplo). Segundo, porque todo o preparo da voz, do visual e da expressão gestual é incapaz de esconder defeitos graves. E sua correção completa carrega um risco perigosíssimo: o de o candidato ser tão “maquiado” que o eleitor perceba que ele está tentando aparentar o que não é.

         Dois exemplos. Uma vez um especialista em debates e mídia-training cuidou da imagem de um candidato gago. O candidato já era conhecido do eleitorado e a gagueira fazia parte de sua personalidade. Durante o período de preparação para debates e gravações para o horário gratuito o especialista recebeu dezenas de sugestões no sentido de que deveria contratar os serviços de fonoaudiólogos para corrigir a gagueira do cliente. Recusou-se. Como se tratava de gagueira discreta, que não comprometia a imagem e já era um traço incorporado à personalidade, um traço plenamente aceito pelo eleitorado, preferiu se concentrar nas técnicas de argumentação, expressões faciais e gestuais. Funcionou. Ele continuou a ser o que era – gaguejando aqui e ali – mas passou a demonstrar mais firmeza nas opiniões e posições sobre temas polêmicos. A gagueira, antes de ser percebida como traço negativo, passou a servir de mecanismo de identificação, algo como “ele é o que sempre foi, só que agora parece mais firme nas convicções, ganhou mais credibilidade”.

Segundo exemplo: quando era candidato a presidente da França, a equipe de publicitários que cuidou da imagem de François Miterrand recolheu, em pesquisas, a constatação de que o candidato transmitia a sensação de agressividade ao aparecer falando na televisão. Quando falava no rádio a sensação desaparecia. Logo, era um problema com o visual, e não com o tom da voz ou a entonação. Ao examinar com mais cuidado a expressão visual de Miterrand, descobriu-se que tinha caninos superiores pronunciados, e aí residia a “sensação” de agressividade que transmitia. Até porque Miterrand era um homem tranquilo e nada tinha de agressivo. O que fazer? Vencidas várias etapas de campanha, e depois de ganhar a confiança do candidato, os publicitários finalmente propuseram-lhe que limasse os caninos. Resistiu um pouco mas terminou concordando. Graças a essa mudança no visual, Miterrand pôde transmitir a imagem real de si próprio e não a imagem deformada que levava ao público quando ainda “usava” caninos agressivos.

No primeiro exemplo, o marketing, em vez de encobrir, manteve um defeito para reforçar a credibilidade do candidato junto ao eleitorado. Se de repente aparecesse em toda a campanha sem gaguejar, era sinal de que estava escondendo alguma coisa. No segundo caso, uma intervenção no visual revelou a imagem real do candidato, até então deformada por um detalhe de natureza física. Ajudou a mostrá-lo como era na realidade, e não como aparentava ser. Os que satanizam o marketing eleitoral precisam saber que suas técnicas buscam apenas realçar os pontos positivos de um candidato. Já quem vende gato por lebre não é marqueteiro político. É um picareta eleitoral. Está cheio deles por aí.   

julho 10, 2010

Clésio: aquele menino bom



    Clésio Ferreira (à direita), ao lado dos músicos e irmãos Clodo e Climério - (Paola Antony/CB/D.A Press)                                       
Clodo, Climério e Clésio
 
                                                Aquele menino bom                                                              Paulo José Cunha
 
 
"...Quando a gente tenta
de toda maneira
dele se guardar
sentimento ilhado,
morto e amordaçado
volta a incomodar" - Trecho de "Revelação", de Clodo e Clésio
 
 
     Lá nos anos 70, quando nós ainda sabíamos caminhar sobre as nuvens, toda
vez que os meninos do Piauí iam lançar um disco levavam a fita demo pra
gente ouvir em primeira mão lá em casa. Fatinha fazia uns tira-gostos, a
gente bebia uma cachacinha e o bolachão estava batizado. Uma vez,
embriagados até o deslimite da embriaguez, vimos o fantasma de Torquato
Neto passando da sala pra cozinha. Outra vez a americana Ellen, que
morava no apartamento de cima e havia chegado, atraída pela algazarra,
resolveu provar cachaça e plantou banaeira no meio da sala até vir
abaixo, num estrondo que acordou metade da Asa Norte, enquanto ríamos de
sua falta de jeito com a bebida mais nacional do Brasil.  Foi assim com
"São Piauí", o primeiro bolachão deles. E o "batismo" regado a cachaça
Mangueira e boa conversa se repetiu pelos demais discos, virou uma
espécie de ritual, uma simpatia pra que tudo desse certo. E dava. Até que
me separei da Fatinha. Até que eles se separaram, cada um com sua
carreira solo. Até que nos reencontramos, todos, na Fac-UnB, dando aulas,
tomando café nos intervalos, rindo de nós mesmos. Naquela época, num
artigo escrito sobre "São Piauí" para o Correio Braziliense eu me referia
ao Clésio como "aquele menino bom".

     E assim foi que ele se guardou em mim: um menino bom, de riso franco,
eternamente com aquele cigarrinho no canto da boca, a barba rala, os
olhos miúdos, sagazes, atrás dos óculos. E uma sensibilidade destamanho,
expressa nas letras de simplicidade marcante. E a voz do Clésio? Pequena
e claudicante, mas ele não forçava nada, mantinha-se nos limites de suas
possibilidades (como Nara Leão).

     A cada encontro ou reencontro, a efusão de alegria, a festa do abraço, a
explosão do bem-querer.

     É.

     O planeta ficou um tantinho menor, sem aquele menino bom.
    
                                                                                           

Do site 24 horas

 
Tributo a Clésio de Souza Ferreira, músico
Raimundo Fagner era o convidado especial de Clodo, Climério e Clésio no show que os irmãos fizeram no Teatro Galpãozinho, em 1977, para lançar o LP São Piauí. Embora não estivesse no disco, Revelação foi incluída no roteiro da apresentação. Impressionado com a melodia e a letra que acabara de tomar conhecimento, o cantor e compositor cearense, naquele mesmo momento, decidiu gravá-la.
 
Um ano depois, quando Fagner chegou ao mercado com o álbum Eu canto, Revelação aparecia como a canção que abria o repertório. Mais do que isso, transformou-se no primeiro grande sucesso radiofônico do cantor. Depois ganhou várias regravações, incluindo as de Simone, Wando e Humberto Gessinger, vocalista da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii.
 
Parceiro do irmão Clodo em Revelação, Clésio de Souza Ferreira, 65 anos, morreu na madrugada de terça-feira de insufiência respiratória e foi sepultado na tarde de quarta-feira, no cemitério Campo da Esperança, em Brasília. Nascido em Teresina, foi com a família para Brasília em 1964, indo morar em Taguatinga e depois na SQN 214. Clésio deixou cinco filhos e três netos. A capa de um dos discos dos irmãos Ferreira: Clodo, Climério e Clésio
 
Durante longo período Clésio, foi professor de matérias ligadas à língua portuguesa em universidades particulares e, por 10 anos, ensinou na Faculdade de Comunicação da UnB. Prestou relevantes serviços na área da educação pública, como servidor da Fundação Educacional do Distrito Federal, onde exerceu importantes cargos. Paralelamente, desenvolveu elogiada carreira artística.
 
Para Climério, Clésio era, entre os irmãos, o melhor melodista. “As nossas músicas mais conhecidas, têm melodia de Clésio, inclusive, e principalmente, Revelação, que veio a ser o primeiro grande sucesso popular de Fagner. Em nosso processo de criação, por vezes ele vinha com a melodia pronta e nós colocávamos a letra. Em outras, o Clodo e eu escrevíamos a letra e ele musicava depois.”
 
Mesmo sem se considerarem um trio, Clodo, Climério e Clésio formaram durante 20 anos — entre 1977 e 1997 — um grupo que lançou seis discos, virou referência na música brasiliense e conquistou destaque no cenário nacional. “Compositor desde os 16 anos, Clésio deixou mais de 100 músicas, 50 gravadas. Comigo e Climério ele fez Por um triz, incluída por Nara Leão no LP Romance popular, de 1986. Caxinguelê e Dia claro são parcerias dele com Domiguinhos. Com Augusto Pontes compôs Folia ou pressa, gravada por Ednardo”, lembra Clodo, emocionado.
 
“Conheci Clésio um ano depois de vencer o Festival do Ceub, com Mucuripe, minha e de Belchior. De volta a Brasília, onde cheguei a fazer o curso de arquitetura, fui apresentado a ele por Augusto Pontes e Fausto Nilo, cearenses como eu, que à época eram professores da UnB. Logo me tornei amigo do Clésio e do Clodo, que viriam a ser autores de Revelação, a primeira música gravada por mim tocada pelas rádios AM, que veio a ser meu primeiro sucesso popular”, recorda-se Raimundo Fagner. “Produzi dois discos dos irmãos e musiquei uma letra de Nara Leão e Fausto Nilo, intitulada Cli, Cle, Clo que faz parte do LP Romance popular, da cantora”, acrescenta.
 
Parceria
A exemplo de Fagner, consternado com a morte de Clésio, Dominguinhos demonstrou claramente sua tristeza, ao ser alcançado pelo Correio durante viagem de carro para Curvelo (MG), onde iria apresentar-se. “Clésio foi um parceiro formidável. Juntos compomos três músicas. Aliás, tenho música com todos os irmãos Ferreira, por quem tenho grande admiração e apreço. Não o via há bastante tempo e soube que ele estava bem doentinho há alguns anos.”
 
Clésio desenvolveu parceria, também, com o pernambucano Dinaldo Domingues, compositor e diretor do bloco carnavalesco Galinho de Brasília. “Conheci Clésio, há 20 anos, no Peixaria, um bar da 214 Norte, ponto de encontro de músicos, principalmente de chorões. Ficamos amigos e o levei para o Galinho. Por 10 anos, participou ativamente das atividades do bloco, tendo, inclusive, composto comigo músicas como Galinho no frevo e Galinho chegou. Na década de 1990, não perdia nenhum desfile. Lamento muito a perda de uma pessoa tão especial.”
 
 
Edição:redacao@24horaspiaui.com.br
Com informações do Correio Braziliense - 8-7-2010

Do site da UnB
 
Morre professor Clésio Ferreira
O poeta, músico e professor aposentado da UnB Clésio Ferreira foi enterrado na tarde dessa quarta-feira

Juliana Braga - Da Secretaria de Comunicação da UnB

 
Foi enterrado na tarde desta quarta-feira, 7 de julho, o músico, poeta e professor aposentado da UnB Clésio Ferreira. Ele morreu, aos 65 anos, de insuficiência respiratória. O sepultamento aconteceu às 16h no Cemitério Campo da Esperança.
Clésio fazia parte de um trio musical formado por ele e por dois irmãos, Clodomir e Climério Ferreira. O grupo, chamado de Trio Piauí, gravou seu primeiro disco em 1977.  Clésio é autor de Revelação, o primeiro sucesso do cantor Raimundo Fagner. Também escreveu, com os irmãos, as músicas Por um Triz, gravada por Nara Leão e Caxinguelê e Dia Claro, interpretadas por Dominguinhos.
A vida de Clésio na UnB começa no final da década de 80. O professor foi cedido pela Secretaria de Educação do GDF à Faculdade de Educação, por meio de um convênio em que as duas instituições mantinham. A FE, por sua vez, cedeu o professor à Faculdade de Comunicação, onde lecionava a disciplina Oficina de Texto.
Sérgio Porto, professor da UnB e amigo pessoal de Clésio, diz que o que destacava o músico era a habilidade com as palavras. “Ele foi um homem de texto, um escritor, um poeta. O conhecimento dele ia muito além da gramática”, lembra Sérgio.  Clésio foi revisor dos dois romances publicados por Sérgio, A Volta do Capitão Florzinha e Café Concerto. “Ele dava muitos pitacos nas edições. E em geral, pitacos excelentes”, diz.
Segundo Sérgio, Clésio era uma pessoa muito bem humorada e que se dava bem com todo mundo. “Era aquele tipo de homem difícil de se encontrar nos dias de hoje”, elogia.
Todos os textos e fotos podem ser utilizados e reproduzidos desde que a fonte seja citada. Textos: UnB Agência. Fotos: nome do fotógrafo/UnB Agência.

junho 20, 2010

À mesa com Saramago

José Saramago
Foto postada em catalogodeindisciplinas.wordpress.com
À mesa com Saramago

Paulo José Cunha

Quando o jornalista Lustosa da Costa me ligou com o convite para ir jantar em sua casa na companhia de José Saramago, não acreditei que era verdade. Mas como já conheço esse cearense há algumas dezenas de anos e sei de seu atrevimento, terminei por acreditar que ele iria mesmo receber o português que havia me impressionado fortemente quando concluí a leitura de Jangada de Pedra.

Com a ironia afiada, sua marca registrada, Lustosa provocou: - Preciso de gente inteligente para entreter o homem, Bozó. E tu és metido a sabido, bicho. Trata de vir, não vai falhar, heim?

Que enrascada. Apesar da tentação dos camarões e dos líquidos preciosos que Lustosa e Verônica não economizam quando recebem amigos, objetei que, de Saramago, só havia lido a Jangada. E gostara (apesar das frases compriiiidas e da ousadia da falta de pontuação). - Pois olha, Bozó, trata de ler e logo O Ano da Morte de Ricardo Reis e o que mais encontrar por aí, porque vou te colocar na mesa do homem. E vais ter de arrumar assunto pra conversar com ele, ordenou.

Cá comigo, pensei: Saramago é comunista, logo há de gostar de falar sobre a obra de outro comunista, o colombiano Gabriel García Márquez. E essa eu conheço bem, li tudo dele. Se o problema é papo, pode deixar que eu resolvo.

Lustosa havia conhecido Saramago numa de suas viagens à Europa, não me lembro mais em que circunstância, acho que num evento na embaixada do Brasil em Portugal. Atrevido como é, convidara o português para jantar, quando voltasse a Brasília, onde já havia estado algumas vezes. Saramago não se fez de rogado. Ao vir receber o prêmio Luís de Camões, cobrou de Lustosa e o jantar foi agendado. Naquela noite, acomodaram-no entre mim e a Verônica (foto). Lustosa, agitado como sempre, pulava de mesa em mesa.

Noite inesquecível. Até porque o receio inicial de conversar com um intelectual do porte de Saramago (que alguns anos depois conquistaria o Nobel) e cometer alguma gafe logo se desvaneceu diante de sua simpatia e franqueza. Franqueza que quase nos mata de rir quando contou, entre generosas taças de vinho, da overdose de Juscelino que havia tido ao se hospedar no Kubitscheck Plaza, em Brasília, onde a figura do construtor da Capital é reverenciada em todos os ambientes. “Pois nunca na vida convivi tanto com um homem como tenho convivido com vosso Juscelino. Durmo com ele e acordo com ele. Encontro-o à entrada, no hall, no desjejum, em toda parte. Até quando estou nu já me deparei com ele, em plena casa de banhos”, dizia, às gargalhadas. Uma senhora que se sentava à nossa mesa não gostou. Quando ele saiu para ir à “casa de banhos”, mostrou-se incomodada ao vê-lo “zombando” da figura de Juscelino. Deu-me pena de ela não perceber que Saramago queria apenas um motivo pra deixar mais descontraída a conversa com quem provavelmente nunca lera uma página de suas obras. Pedi-lhe que relevasse, não havia zombaria, só brincadeira pra descontrair o ambiente. Não adiantou. Retirou-se antes que ele retornasse. A conversa correu. Revelou que o que desejava mesmo era ser um andarilho, pra espiar em detalhes todas as bibocas do mundo. E depois contar tudo o que visse (nosso jantar foi terminar num de seus livros de viagens). Paradoxalmente, disse ter preguiça de viajar. Confessou-se fã da arquitetura de Brasília. Mas, novamente às gargalhadas, perguntou se quando Brasília havia sido construída não haviam inventado tintas de outras cores. “Ora, pois! Tudo é branco por aqui! Quando encontrar Oscar (Niemeyer) vou indagar-lhe se não gosta de cores”.

Não sei se indagou. Certo é que tivemos uma noite memorável. E nem precisei citar o nome de Gabriel García Márquez...

maio 12, 2010

Paulo José Cunha critica uso da expressão "imprensa burguesa"

TELEJORNALISMO EM CLOSE


Culpa da imprensa burguesa

Paulo José Cunha

Por medida de segurança, toda vez que ouço ou leio a expressão "imprensa burguesa" me empertigo e adoto posição de defesa e alerta. Não se trata de atitude preconceituosa ou ideológica, mas o contrário: defendo a preservação da minha liberdade e a garantia de minha autonomia em relação às diversas tendências editoriais, sejam elas quais forem. Meu cuidado em relação à autonomia se estende à mídia estatal, à mídia institucional, à mídia sindical, à mídia de mercado e a todas as nuances do que se tenta englobar como mídia pública.

A expressão "imprensa burguesa" carrega um viés ideológico surrado que só. Até porque esta mesma imprensa, dependendo de como atua, é aplaudida ou condenada pelos seus detratores. Veja-se o caso da inclusão de Lula na lista das 25 personalidades mais influentes pelo New York Times. O fato foi saudado até a exaustão pelos que apóiam o presidente e seu governo. Mas ninguém se lembrou de dizer que a láurea, se assim se pode chamar, partiu do jornal que poderia ser classificado como líder mundial disso aí que acusam de ser "imprensa burguesa" . Ao mesmo tempo, publicações da Editora Abril (dirigida por um dos líderes tupiniquins da "imprensa burguesa" , um certo Victor Civita) já incensaram Lula, lembrando as boas realizações de seu governo. Jornais como "O Estado de S. Paulo", "O Globo" e "Folha de São Paulo" já enalteceram os méritos da equipe econômica, e brindaram os bons resultados da economia brasileira que permitiram ao país passar praticamente incólume pelo tsunami gerado pela bolha imobiliária norte-americana. Mas, ainda assim, essa imprensa é sistematicamente acusada de "burguesa" e golpista toda vez que aponta o dedo para atos de corrupção ou para as bobagens cometidas por Lula, membros de sua equipe ou por Dilma, esta que tenta pegar o bastão e fazer o revezamento. Curioso, mas foi nessa mesma imprensa que eu fiquei sabendo de denúncias contra Serra por propaganda antecipada ou o ato politicamente correto (depois desmentido) de associar fumantes a ateus. O que teria ocorrido? Fogo amigo?

Tudo isso escrevo pela singela razão de que os veículos de comunicação de todos os matizes, agora desapeados da condição de quarto poder com a popularização da internet, passaram a ser fiscalizados com muito mais cuidado. Mas, ao mesmo tempo, surgiu uma contracorrente que busca na desqualificação desses mesmos veículos a afirmação de suas convicções ideológicas. Para me proteger disso adoto as providências mencionadas nas primeiras linhas deste suelto.

Como diria um certo Caetano Veloso, esse papo já tá qualquer coisa. Há momentos em que me arrepiam certas posturas editoriais dos jornalões e das revistonas, reacionárias que só. Mas toda vez que isso acontece tento me lembrar da campanha das Diretas Já, lideradas por uma das mais bravas representantes da imprensa burguesa, a Folha de São Paulo (a mesma que colaborou vergonhosamente com a ditadura, como registra a história). Ou das receitas de bolo e trechos de Camões como forma de resistência à censura, publicados pelo centenário Estadão. O mesmo Estadão que brada em favor da livre iniciativa e de vez em quando mete a peia nas baboseiras do atual governo, este que se diz de esquerda. Contradições? Sim, elas existem, são naturais do bicho-homem, que faz os jornais e as salsichas. Na dúvida, como recomenda o Detran, não ultrapasse. Mantenha o desconfiômetro ligado para os que condenam a imprensa burguesa, que faz parte do PIG - o Partido da Imprensa Golpista. E mantenha ligado o pisca-alerta para os que colocam em campos opostos (e não complementares) mídia pública e mídia privada. Se considerarmos o fato de que toda vírgula encobre uma opinião e defende uma fatia de interesse, o melhor é manter sempre um pé atrás em relação a todas as mídias - a golpista, a burguesa, a estatal, a chapa-branca, a institucional e a que pretende ser pública. E vamos viver a vida.

abril 10, 2010

Abaixo a ditadura do gancho


Bombeiros ainda não sabem quantas pessoas estão soterradas no Morro do Bumba, em Niterói

Fonte: Globo Vídeos

***

Desculpem aí, tinha prometido este mês só escrever sobre o aniversário da bela Brasília, mas não deu. (PJC).

TELEJORNALISMO EM CLOSE


Abaixo a ditadura do gancho

Paulo José Cunha


Há quem diga que a imprensa vive sob a ditadura dos prazos, dos dead-lines (os horários de fechamento), principalmente agora, com a aceleração alucinada das notícias em tempo real. Costuma-se debitar os erros, as omissões, as trapalhadas e equívocos que custam arranhões ou dilacerações brutais à dignidade e à honra alheias na conta da falta de tempo que impede apuração mais criteriosa.


Tudo isso é verdade. Mas existe uma outra ditadura que pode ser mais perigosa do que a ditadura do dead-line: é a ditadura do gancho. Em jornalismo, “gancho” é o fato que justifica a realização e publicação de matéria ou reportagem. Só pra exemplificar: só se justifica a publicação de matéria sobre o preço do bacalhau perto da Semana Santa, quando o produto é mais consumido. Senão ningupém presta atenção. No momento em que se noticia a tragédia do Rio de Janeiro convém publicar matéria sobre as providências que não foram tomadas para evitar a catástrofe. Tem gancho. E nós, jornalistas, caímos de pau nos governantes por não terem se antecipado com medidas capazes de evitar o pior.


É da natureza da imprensa trabalhar sobre os fatos que estão na ordem do dia. Se não existem fatos, a gente busca as efemérides – os fatos programados, datas comemorativas, que salvam muito pauteiro nas horas de sufoco. Mas até hoje fomos incapazes de fazer a nossa parte no que diz respeito à antecipação dos problemas, no apontamento dos riscos, na previsão das tragédias. Noutras palavras: não temos tido a coragem de enfrentar a ditadura do gancho. De todos, talvez o jornalismo antecipatório seja o mais importante, mas ainda é o mais negligenciado. Raramente, muito raramente, jornalistas publicam matérias sobre os riscos disso ou daquilo. O Jornal Nacional divulgou trechos de um documentário de 30 anos atrás, sobre os perigos do lixão do Morro do Bumba, em Niterói. Nem por isso o morro continuou a ser ocupado irregularmente. A chuva chegou e pelo menos duas centenas de vidas foram ceifadas. Era obrigação da imprensa local ter feito uma, dez, cinquenta matérias denunciando aqueles riscos. E não apenas chorar sobre o leite derramado e por a culpa nos governantes. Igualmente não cabe a desculpa de que os espaços os jornais e das emissoras de rádio e tv estavam ocupados com matérias sobre o que estava na pauta da ordem do dia. Conversa. Toda redação tem crise de pauta. E é nelas que as abobrinhas (que os calhaus, como dizemos em nosso jargão) entopem as páginas. Calhau é parte de nosso comodismo. Temos uma parcela de culpa, sim, em relação aos mortos de Niterói. E ela é produto dessa ditadura a que nos sujeitamos, de raramente olharmos para o problema antes que ele cause o estrago. Como escreveu o professor e jornalista Luiz Martins num artigo brilhante publicado no portal da UnB, “Meteorologistas e jornalistas têm algo em comum, ler o mundo e interpretá-lo: de preferência, antes que o terremoto aconteça e os tsunamis devastem tudo. Pois dizer para quem já está arrasado que houve uma tragédia é zombar da inteligência das vítimas”.


Lamento, coleguinhas, mas tenho de escrever com todas as letras: não temos feito outra coisa. E mais: ou temos criatividade e coragem para romper com a ditadura do gancho ou essa situação não vai mudar nunca.

março 14, 2010

Sua Excelência, o fato


Sua Excelência, o fato

Paulo José Cunha

Dr. Ulysses Guimarães gostava da expressão -Sua Excelência, o fato-, para se referir a algo irrefutável, semelhante ao -los hechos son los hechos- dos espanhóis. Em jornalismo muitas vezes temos de provar com fatos uma afirmação, uma denúncia, até mesmo uma insinuação. Duas historinhas pra ilustrar. E de como fui salvo por -Sua Excelência, o fato-.

Trabalhava no Jornal do Brasil quando fui escalado para cobrir uma visita de Niemeyer a Brasília. Há mais de oito anos ele não punha os pés por aqui. Fez um tour pela cidade cercado de repórteres. Mas sem dar entrevistas, apenas fazendo comentários a um grupo de arquitetos seus amigos. A redação queria porque queria que eu arrancasse uma entrevista exclusiva dele. Já ao final da visita, depois de muita insistência, concordou em responder por escrito a algumas indagações. Marcou hora e disse que fosse pegar o texto com as respostas na portaria do hotel. De posse das anotações, escritas a mão em cinco laudas, em que analisava a situação da cidade e comentava as intervenções em suas obras, redigi a matéria que o JB publicou com amplo destaque. No mesmo dia recebi uma cobrança dura do editor-chefe do jornal no Rio de Janeiro, Juarez Bahia. Niemeyer escrevera carta ao jornal acusando-me de colocar palavras em sua boca, inventado declarações dele etc. Bahia exigia explicações urgentes. Não discuti. Apenas enviei cópia xerox do manuscrito para Juarez Bahia, no Rio. Nunca mais tocou do assunto. -Sua Excelência, o fato-, falou mais alto.

No tempo da ditadura, diante das dificuldades para se obter informação de bastidores, boa parte da cobertura política era sobre os discursos em plenário. Durante o Pinga-fogo, horário de breves comunicações, os deputados tratavam de tudo, de concursos de miss a brigas de galos. Resolvi juntar os discursos mais curiosos em uma matéria publicada numa segunda-feira, chamada "O circo da Câmara". Começava dizendo: "Senhoras e Senhores: vai começar o espetáculo!" No dia seguinte, dezenas de deputados foram à tribuna me "homenagear" com adjetivos pouco edificantes. Queriam minha cabeça. Exigiam meu descredenciamento por denegrir a imagem do Congresso. O então presidente da Câmara, hoje senador Marco Maciel, chamou-me ao gabinete dele. Disse-me que os deputados tinham ido se queixar a ele, e exigiam providências. Abri uma pasta com uma coleção de discursos da semana anterior sobre os temas mais esdrúxulos. Surpreso, Maciel revelou desconhecê-los, pois naquela época eram dados como lidos e entregues diretamente ao setor de publicação. Nunca mais tocou no assunto. Deve ter dito aos reclamantes que não havia como argumentar. Se os discursos existiam mesmo, ia fazer o quê?

Novamente, -Sua Excelência, o fato-. Sempre ele. Irrefutável. Definitivo. Como a imagem daquele dinheiro na meia. Refutar como? Versão até que dá pra contestar, reformular. Mas fatos são fatos. Sua Excelência é fogo.

março 02, 2010

A primeira lealdade

Paulo José Cunha
Foto postada em www.triangulomineiro.com
TELEJORNALISMO EM CLOSE

A primeira lealdade

Paulo José Cunha

O que sei, conto. O que aprendo, ensino. Tem sido assim, na vida de repórter e de professor. Vem dando certo. Faço como me ensinou o "turquinho" Flamarion Mossri, colega jornalista e amigo querido que sabia como ninguém preservar as amizades, inclusive as dos políticos de quem recolhia as informações do dia-a-dia. Mas sempre preservando a isenção. Uma vez recomendaram-lhe que não noticiasse que o deputado Souto Maior havia dado um soco em Nelson Carneiro, porque Nelson poderia reagir de forma violenta ao ver o fato estampado em jornal. Noticiou tudo. No dia seguinte, Nelson chegou armado ao Congresso, para acertar contas com o desafeto. Flamarion, amigo dos dois, fez o papel de deixa-disso e evitou uma tragédia.

Fernando Collor, recém-empossado presidente, declarou - e a Globo botou no ar - que eu era o jornalista que mais gostava de Brasília. “Aquele barbudinho é a cara de Brasília”, disse aos repórteres, descendo de um jet-ski. Embora não o apreciasse politicamente, envaideci-me com o elogio. Recentemente eu entrevistava o jornalista Wilson Ibiapina quando ele se lembrou do episódio. Comentei que o elogio de Collor era bom, a fonte é que não ajudava. Um amigo do ex-presidente subiu nas tamancas, mandou dizer que eu estava cuspindo no prato em que comi.

Quando Arruda era sei-lá-o-quê no governo Roriz fiz uma matéria pra Globo sobre os canteiros floridos da cidade. Terminava em tom de poesia, falando da renovação da vida representada no trabalho da abelha que, ao recolher o néctar, espalha o pólen, que gera uma nova flor, que outra abelha um dia irá beijar, e novamente espalhar o pólen... E seguia por aí. Arruda gostou tanto que mandou bilhete de próprio punho dizendo que naquela noite Brasília tinha ido dormir mais feliz. Envaideci-me com o elogio, saí mostrando o bilhete dele a todo mundo. Agora, depois da publicação do artigo "Chega", em que defendi sua saída do governo por corrupção, amigos dele mandam mensagens dizendo que estou "chutando cachorro morto".

Na condição de cidadão e jornalista, nunca me senti cuspindo no prato em que comi nem chutando cachorro morto. Apenas preservo a isenção. Como me ensinou o "turquinho", conceito depois repetido por Franklin Martins, em seu "Jornalismo Político", "a primeira lealdade de um jornalista é com a sociedade". Ser fiel a esse conceito ajuda inclusive a conciliar o sono.

Talvez nem Arruda nem Collor me elogiem mais. Que pena. Mas é a vida.