
PICICA - Blog do Rogelio Casado - "Uma palavra pode ter seu sentido e seu contrário, a língua não cessa de decidir de outra forma" (Charles Melman) PICICA - meninote, fedelho (Ceará). Coisa insignificante. Pessoa muito baixa; aquele que mete o bedelho onde não deve (Norte). Azar (dicionário do matuto). Alto lá! Para este blogueiro, na esteira de Melman, o piciqueiro é também aquele que usa o discurso como forma de resistência da vida.
setembro 19, 2010
Poesia é sarjeta

setembro 06, 2010
Toda poesia é semente
Paulo José Cunha é poeta, jornalista e professor.
setembro 05, 2010
Dêem-me uma imagem e moverei o ibope, por Paulo José Cunha
Gravada pelo então secretário de Relações Institucionais, Durval Barbosa, a fita anexada ao inquérito da Polícia Federal, desencadeou a Operação Caixa de Pandora na última sexta, que resultou no cumprimento de 29 mandados de busca e apreensão em gabinetes de órgãos públicos, residências e empresas em três cidades.
agosto 26, 2010
Toda poesia é semente
onde a vida perde o viço
e o mundo é palha.
Tudo é fumo no horizonte desses campos
lavados ao calor que avança em ondas.
O peito dói, e se esfarela
como o barro calcinado nas queimadas.
Uma angústia se instala sem aviso.
Todo gesto é lento.
Até o silêncio agride.
Derrotado à fornalha dos cerrados,
o frágil coração nem mais bombeia.
O sangue vira pó dentro da veia.
Nesta umidade baixa e relativa,
qualquer canto de sereia me cativa,
qualquer ponta de cigarro me incendeia
agosto 13, 2010
O marketing político e a ética
julho 10, 2010
Clésio: aquele menino bom
vez que os meninos do Piauí iam lançar um disco levavam a fita demo pra
gente ouvir em primeira mão lá em casa. Fatinha fazia uns tira-gostos, a
gente bebia uma cachacinha e o bolachão estava batizado. Uma vez,
embriagados até o deslimite da embriaguez, vimos o fantasma de Torquato
Neto passando da sala pra cozinha. Outra vez a americana Ellen, que
morava no apartamento de cima e havia chegado, atraída pela algazarra,
resolveu provar cachaça e plantou banaeira no meio da sala até vir
abaixo, num estrondo que acordou metade da Asa Norte, enquanto ríamos de
sua falta de jeito com a bebida mais nacional do Brasil. Foi assim com
"São Piauí", o primeiro bolachão deles. E o "batismo" regado a cachaça
Mangueira e boa conversa se repetiu pelos demais discos, virou uma
espécie de ritual, uma simpatia pra que tudo desse certo. E dava. Até que
me separei da Fatinha. Até que eles se separaram, cada um com sua
carreira solo. Até que nos reencontramos, todos, na Fac-UnB, dando aulas,
tomando café nos intervalos, rindo de nós mesmos. Naquela época, num
artigo escrito sobre "São Piauí" para o Correio Braziliense eu me referia
ao Clésio como "aquele menino bom".
E assim foi que ele se guardou em mim: um menino bom, de riso franco,
eternamente com aquele cigarrinho no canto da boca, a barba rala, os
olhos miúdos, sagazes, atrás dos óculos. E uma sensibilidade destamanho,
expressa nas letras de simplicidade marcante. E a voz do Clésio? Pequena
e claudicante, mas ele não forçava nada, mantinha-se nos limites de suas
possibilidades (como Nara Leão).
A cada encontro ou reencontro, a efusão de alegria, a festa do abraço, a
explosão do bem-querer.
É.
O planeta ficou um tantinho menor, sem aquele menino bom.
Parceiro do irmão Clodo em Revelação, Clésio de Souza Ferreira, 65 anos, morreu na madrugada de terça-feira de insufiência respiratória e foi sepultado na tarde de quarta-feira, no cemitério Campo da Esperança, em Brasília. Nascido em Teresina, foi com a família para Brasília em 1964, indo morar em Taguatinga e depois na SQN 214. Clésio deixou cinco filhos e três netos. A capa de um dos discos dos irmãos Ferreira: Clodo, Climério e Clésio Juliana Braga - Da Secretaria de Comunicação da UnB
junho 20, 2010
À mesa com Saramago
Paulo José Cunha
Quando o jornalista Lustosa da Costa me ligou com o convite para ir jantar em sua casa na companhia de José Saramago, não acreditei que era verdade. Mas como já conheço esse cearense há algumas dezenas de anos e sei de seu atrevimento, terminei por acreditar que ele iria mesmo receber o português que havia me impressionado fortemente quando concluí a leitura de Jangada de Pedra.
Com a ironia afiada, sua marca registrada, Lustosa provocou: - Preciso de gente inteligente para entreter o homem, Bozó. E tu és metido a sabido, bicho. Trata de vir, não vai falhar, heim?
Que enrascada. Apesar da tentação dos camarões e dos líquidos preciosos que Lustosa e Verônica não economizam quando recebem amigos, objetei que, de Saramago, só havia lido a Jangada. E gostara (apesar das frases compriiiidas e da ousadia da falta de pontuação). - Pois olha, Bozó, trata de ler e logo O Ano da Morte de Ricardo Reis e o que mais encontrar por aí, porque vou te colocar na mesa do homem. E vais ter de arrumar assunto pra conversar com ele, ordenou.
Cá comigo, pensei: Saramago é comunista, logo há de gostar de falar sobre a obra de outro comunista, o colombiano Gabriel García Márquez. E essa eu conheço bem, li tudo dele. Se o problema é papo, pode deixar que eu resolvo.
Lustosa havia conhecido Saramago numa de suas viagens à Europa, não me lembro mais em que circunstância, acho que num evento na embaixada do Brasil em Portugal. Atrevido como é, convidara o português para jantar, quando voltasse a Brasília, onde já havia estado algumas vezes. Saramago não se fez de rogado. Ao vir receber o prêmio Luís de Camões, cobrou de Lustosa e o jantar foi agendado. Naquela noite, acomodaram-no entre mim e a Verônica (foto). Lustosa, agitado como sempre, pulava de mesa em mesa.
Noite inesquecível. Até porque o receio inicial de conversar com um intelectual do porte de Saramago (que alguns anos depois conquistaria o Nobel) e cometer alguma gafe logo se desvaneceu diante de sua simpatia e franqueza. Franqueza que quase nos mata de rir quando contou, entre generosas taças de vinho, da overdose de Juscelino que havia tido ao se hospedar no Kubitscheck Plaza, em Brasília, onde a figura do construtor da Capital é reverenciada em todos os ambientes. “Pois nunca na vida convivi tanto com um homem como tenho convivido com vosso Juscelino. Durmo com ele e acordo com ele. Encontro-o à entrada, no hall, no desjejum, em toda parte. Até quando estou nu já me deparei com ele, em plena casa de banhos”, dizia, às gargalhadas. Uma senhora que se sentava à nossa mesa não gostou. Quando ele saiu para ir à “casa de banhos”, mostrou-se incomodada ao vê-lo “zombando” da figura de Juscelino. Deu-me pena de ela não perceber que Saramago queria apenas um motivo pra deixar mais descontraída a conversa com quem provavelmente nunca lera uma página de suas obras. Pedi-lhe que relevasse, não havia zombaria, só brincadeira pra descontrair o ambiente. Não adiantou. Retirou-se antes que ele retornasse. A conversa correu. Revelou que o que desejava mesmo era ser um andarilho, pra espiar em detalhes todas as bibocas do mundo. E depois contar tudo o que visse (nosso jantar foi terminar num de seus livros de viagens). Paradoxalmente, disse ter preguiça de viajar. Confessou-se fã da arquitetura de Brasília. Mas, novamente às gargalhadas, perguntou se quando Brasília havia sido construída não haviam inventado tintas de outras cores. “Ora, pois! Tudo é branco por aqui! Quando encontrar Oscar (Niemeyer) vou indagar-lhe se não gosta de cores”.
Não sei se indagou. Certo é que tivemos uma noite memorável. E nem precisei citar o nome de Gabriel García Márquez...
maio 12, 2010
Paulo José Cunha critica uso da expressão "imprensa burguesa"
Culpa da imprensa burguesa
Paulo José Cunha
Por medida de segurança, toda vez que ouço ou leio a expressão "imprensa burguesa" me empertigo e adoto posição de defesa e alerta. Não se trata de atitude preconceituosa ou ideológica, mas o contrário: defendo a preservação da minha liberdade e a garantia de minha autonomia em relação às diversas tendências editoriais, sejam elas quais forem. Meu cuidado em relação à autonomia se estende à mídia estatal, à mídia institucional, à mídia sindical, à mídia de mercado e a todas as nuances do que se tenta englobar como mídia pública.
A expressão "imprensa burguesa" carrega um viés ideológico surrado que só. Até porque esta mesma imprensa, dependendo de como atua, é aplaudida ou condenada pelos seus detratores. Veja-se o caso da inclusão de Lula na lista das 25 personalidades mais influentes pelo New York Times. O fato foi saudado até a exaustão pelos que apóiam o presidente e seu governo. Mas ninguém se lembrou de dizer que a láurea, se assim se pode chamar, partiu do jornal que poderia ser classificado como líder mundial disso aí que acusam de ser "imprensa burguesa" . Ao mesmo tempo, publicações da Editora Abril (dirigida por um dos líderes tupiniquins da "imprensa burguesa" , um certo Victor Civita) já incensaram Lula, lembrando as boas realizações de seu governo. Jornais como "O Estado de S. Paulo", "O Globo" e "Folha de São Paulo" já enalteceram os méritos da equipe econômica, e brindaram os bons resultados da economia brasileira que permitiram ao país passar praticamente incólume pelo tsunami gerado pela bolha imobiliária norte-americana. Mas, ainda assim, essa imprensa é sistematicamente acusada de "burguesa" e golpista toda vez que aponta o dedo para atos de corrupção ou para as bobagens cometidas por Lula, membros de sua equipe ou por Dilma, esta que tenta pegar o bastão e fazer o revezamento. Curioso, mas foi nessa mesma imprensa que eu fiquei sabendo de denúncias contra Serra por propaganda antecipada ou o ato politicamente correto (depois desmentido) de associar fumantes a ateus. O que teria ocorrido? Fogo amigo?
Tudo isso escrevo pela singela razão de que os veículos de comunicação de todos os matizes, agora desapeados da condição de quarto poder com a popularização da internet, passaram a ser fiscalizados com muito mais cuidado. Mas, ao mesmo tempo, surgiu uma contracorrente que busca na desqualificação desses mesmos veículos a afirmação de suas convicções ideológicas. Para me proteger disso adoto as providências mencionadas nas primeiras linhas deste suelto.
Como diria um certo Caetano Veloso, esse papo já tá qualquer coisa. Há momentos em que me arrepiam certas posturas editoriais dos jornalões e das revistonas, reacionárias que só. Mas toda vez que isso acontece tento me lembrar da campanha das Diretas Já, lideradas por uma das mais bravas representantes da imprensa burguesa, a Folha de São Paulo (a mesma que colaborou vergonhosamente com a ditadura, como registra a história). Ou das receitas de bolo e trechos de Camões como forma de resistência à censura, publicados pelo centenário Estadão. O mesmo Estadão que brada em favor da livre iniciativa e de vez em quando mete a peia nas baboseiras do atual governo, este que se diz de esquerda. Contradições? Sim, elas existem, são naturais do bicho-homem, que faz os jornais e as salsichas. Na dúvida, como recomenda o Detran, não ultrapasse. Mantenha o desconfiômetro ligado para os que condenam a imprensa burguesa, que faz parte do PIG - o Partido da Imprensa Golpista. E mantenha ligado o pisca-alerta para os que colocam em campos opostos (e não complementares) mídia pública e mídia privada. Se considerarmos o fato de que toda vírgula encobre uma opinião e defende uma fatia de interesse, o melhor é manter sempre um pé atrás em relação a todas as mídias - a golpista, a burguesa, a estatal, a chapa-branca, a institucional e a que pretende ser pública. E vamos viver a vida.
abril 10, 2010
Abaixo a ditadura do gancho
Bombeiros ainda não sabem quantas pessoas estão soterradas no Morro do Bumba, em Niterói
Fonte: Globo Vídeos***
TELEJORNALISMO EM CLOSE
Abaixo a ditadura do gancho
Paulo José Cunha
Há quem diga que a imprensa vive sob a ditadura dos prazos, dos dead-lines (os horários de fechamento), principalmente agora, com a aceleração alucinada das notícias em tempo real. Costuma-se debitar os erros, as omissões, as trapalhadas e equívocos que custam arranhões ou dilacerações brutais à dignidade e à honra alheias na conta da falta de tempo que impede apuração mais criteriosa.
Tudo isso é verdade. Mas existe uma outra ditadura que pode ser mais perigosa do que a ditadura do dead-line: é a ditadura do gancho. Em jornalismo, “gancho” é o fato que justifica a realização e publicação de matéria ou reportagem. Só pra exemplificar: só se justifica a publicação de matéria sobre o preço do bacalhau perto da Semana Santa, quando o produto é mais consumido. Senão ningupém presta atenção. No momento em que se noticia a tragédia do Rio de Janeiro convém publicar matéria sobre as providências que não foram tomadas para evitar a catástrofe. Tem gancho. E nós, jornalistas, caímos de pau nos governantes por não terem se antecipado com medidas capazes de evitar o pior.
É da natureza da imprensa trabalhar sobre os fatos que estão na ordem do dia. Se não existem fatos, a gente busca as efemérides – os fatos programados, datas comemorativas, que salvam muito pauteiro nas horas de sufoco. Mas até hoje fomos incapazes de fazer a nossa parte no que diz respeito à antecipação dos problemas, no apontamento dos riscos, na previsão das tragédias. Noutras palavras: não temos tido a coragem de enfrentar a ditadura do gancho. De todos, talvez o jornalismo antecipatório seja o mais importante, mas ainda é o mais negligenciado. Raramente, muito raramente, jornalistas publicam matérias sobre os riscos disso ou daquilo. O Jornal Nacional divulgou trechos de um documentário de 30 anos atrás, sobre os perigos do lixão do Morro do Bumba,
Lamento, coleguinhas, mas tenho de escrever com todas as letras: não temos feito outra coisa. E mais: ou temos criatividade e coragem para romper com a ditadura do gancho ou essa situação não vai mudar nunca.
março 14, 2010
Sua Excelência, o fato
Sua Excelência, o fato
Paulo José Cunha
Dr. Ulysses Guimarães gostava da expressão -Sua Excelência, o fato-, para se referir a algo irrefutável, semelhante ao -los hechos son los hechos- dos espanhóis. Em jornalismo muitas vezes temos de provar com fatos uma afirmação, uma denúncia, até mesmo uma insinuação. Duas historinhas pra ilustrar. E de como fui salvo por -Sua Excelência, o fato-.
Trabalhava no Jornal do Brasil quando fui escalado para cobrir uma visita de Niemeyer a Brasília. Há mais de oito anos ele não punha os pés por aqui. Fez um tour pela cidade cercado de repórteres. Mas sem dar entrevistas, apenas fazendo comentários a um grupo de arquitetos seus amigos. A redação queria porque queria que eu arrancasse uma entrevista exclusiva dele. Já ao final da visita, depois de muita insistência, concordou em responder por escrito a algumas indagações. Marcou hora e disse que fosse pegar o texto com as respostas na portaria do hotel. De posse das anotações, escritas a mão em cinco laudas, em que analisava a situação da cidade e comentava as intervenções em suas obras, redigi a matéria que o JB publicou com amplo destaque. No mesmo dia recebi uma cobrança dura do editor-chefe do jornal no Rio de Janeiro, Juarez Bahia. Niemeyer escrevera carta ao jornal acusando-me de colocar palavras em sua boca, inventado declarações dele etc. Bahia exigia explicações urgentes. Não discuti. Apenas enviei cópia xerox do manuscrito para Juarez Bahia, no Rio. Nunca mais tocou do assunto. -Sua Excelência, o fato-, falou mais alto.
No tempo da ditadura, diante das dificuldades para se obter informação de bastidores, boa parte da cobertura política era sobre os discursos em plenário. Durante o Pinga-fogo, horário de breves comunicações, os deputados tratavam de tudo, de concursos de miss a brigas de galos. Resolvi juntar os discursos mais curiosos em uma matéria publicada numa segunda-feira, chamada "O circo da Câmara". Começava dizendo: "Senhoras e Senhores: vai começar o espetáculo!" No dia seguinte, dezenas de deputados foram à tribuna me "homenagear" com adjetivos pouco edificantes. Queriam minha cabeça. Exigiam meu descredenciamento por denegrir a imagem do Congresso. O então presidente da Câmara, hoje senador Marco Maciel, chamou-me ao gabinete dele. Disse-me que os deputados tinham ido se queixar a ele, e exigiam providências. Abri uma pasta com uma coleção de discursos da semana anterior sobre os temas mais esdrúxulos. Surpreso, Maciel revelou desconhecê-los, pois naquela época eram dados como lidos e entregues diretamente ao setor de publicação. Nunca mais tocou no assunto. Deve ter dito aos reclamantes que não havia como argumentar. Se os discursos existiam mesmo, ia fazer o quê?
Novamente, -Sua Excelência, o fato-. Sempre ele. Irrefutável. Definitivo. Como a imagem daquele dinheiro na meia. Refutar como? Versão até que dá pra contestar, reformular. Mas fatos são fatos. Sua Excelência é fogo.
março 02, 2010
A primeira lealdade
A primeira lealdade
Paulo José Cunha
O que sei, conto. O que aprendo, ensino. Tem sido assim, na vida de repórter e de professor. Vem dando certo. Faço como me ensinou o "turquinho" Flamarion Mossri, colega jornalista e amigo querido que sabia como ninguém preservar as amizades, inclusive as dos políticos de quem recolhia as informações do dia-a-dia. Mas sempre preservando a isenção. Uma vez recomendaram-lhe que não noticiasse que o deputado Souto Maior havia dado um soco em Nelson Carneiro, porque Nelson poderia reagir de forma violenta ao ver o fato estampado em jornal. Noticiou tudo. No dia seguinte, Nelson chegou armado ao Congresso, para acertar contas com o desafeto. Flamarion, amigo dos dois, fez o papel de deixa-disso e evitou uma tragédia.
Fernando Collor, recém-empossado presidente, declarou - e a Globo botou no ar - que eu era o jornalista que mais gostava de Brasília. Aquele barbudinho é a cara de Brasília, disse aos repórteres, descendo de um jet-ski. Embora não o apreciasse politicamente, envaideci-me com o elogio. Recentemente eu entrevistava o jornalista Wilson Ibiapina quando ele se lembrou do episódio. Comentei que o elogio de Collor era bom, a fonte é que não ajudava. Um amigo do ex-presidente subiu nas tamancas, mandou dizer que eu estava cuspindo no prato em que comi.
Quando Arruda era sei-lá-o-quê no governo Roriz fiz uma matéria pra Globo sobre os canteiros floridos da cidade. Terminava em tom de poesia, falando da renovação da vida representada no trabalho da abelha que, ao recolher o néctar, espalha o pólen, que gera uma nova flor, que outra abelha um dia irá beijar, e novamente espalhar o pólen... E seguia por aí. Arruda gostou tanto que mandou bilhete de próprio punho dizendo que naquela noite Brasília tinha ido dormir mais feliz. Envaideci-me com o elogio, saí mostrando o bilhete dele a todo mundo. Agora, depois da publicação do artigo "Chega", em que defendi sua saída do governo por corrupção, amigos dele mandam mensagens dizendo que estou "chutando cachorro morto".
Na condição de cidadão e jornalista, nunca me senti cuspindo no prato em que comi nem chutando cachorro morto. Apenas preservo a isenção. Como me ensinou o "turquinho", conceito depois repetido por Franklin Martins, em seu "Jornalismo Político", "a primeira lealdade de um jornalista é com a sociedade". Ser fiel a esse conceito ajuda inclusive a conciliar o sono.
Talvez nem Arruda nem Collor me elogiem mais. Que pena. Mas é a vida.





