Gravada pelo então secretário de Relações Institucionais, Durval Barbosa, a fita anexada ao inquérito da Polícia Federal, desencadeou a Operação Caixa de Pandora na última sexta, que resultou no cumprimento de 29 mandados de busca e apreensão em gabinetes de órgãos públicos, residências e empresas em três cidades.
PICICA - Blog do Rogelio Casado - "Uma palavra pode ter seu sentido e seu contrário, a língua não cessa de decidir de outra forma" (Charles Melman) PICICA - meninote, fedelho (Ceará). Coisa insignificante. Pessoa muito baixa; aquele que mete o bedelho onde não deve (Norte). Azar (dicionário do matuto). Alto lá! Para este blogueiro, na esteira de Melman, o piciqueiro é também aquele que usa o discurso como forma de resistência da vida.
setembro 05, 2010
Dêem-me uma imagem e moverei o ibope, por Paulo José Cunha
Gravada pelo então secretário de Relações Institucionais, Durval Barbosa, a fita anexada ao inquérito da Polícia Federal, desencadeou a Operação Caixa de Pandora na última sexta, que resultou no cumprimento de 29 mandados de busca e apreensão em gabinetes de órgãos públicos, residências e empresas em três cidades.
abril 16, 2010
A esfinge do cerrado
A esfinge do cerrado
Paulo José Cunha
A cidade é de vidro e de luz, de régua e de compasso, mas sobretudo, de amplidão e espaço. Em Brasília o olhar nunca chega ao fim, e quando parece que chega, outro horizonte se abre, e depois dele mais outro, e assim a cidade de mil horizontes, em todos os sentidos, vai misteriosamente multiplicando seus espaços. Para onde se olha, a cidade não acaba. Marcada pelos horizontes sem fim, a cidade é um convite permanente à reflexão. Talvez por isso todo mundo é meio filósofo em Brasília, porque todo mundo é obrigado a parar de vez em quando, diante da ousadia dos traços do arquiteto, diante da ousadia do por do sol, diante da ousadia dos homens que um dia arrancaram da imaginação uma cidade que dormia no centro do Brasil profundo. Aqui, o que se conhece como modernidade, começou. Aqui, o Brasil entendeu que futuro é apenas o que ainda não foi tentado. Aqui, o espaço é uma interrogação permanente, testando os limites da liberdade e do sonho.
Dizem que a cidade é fria. Dizem que a cidade é exata. Dizem que a cidade é burocrática. Dizem que a cidade é atrevida. Dizem que a cidade é monótona. Dizem que a cidade não tem alma. Dizem isso. E dizem mais. E vão continuar a dizer, porque Brasília é principalmente um enigma em permanente busca de tradução. Vão continuar a dizer coisas de Brasília. E nunca conseguirão traduzi-la. Brasília, a esfinge plantada no meio do Planalto Central, foi criada para provocar o espanto dos filósofos. Porque a cidade dos espaços, do vidro e da luz, da amplidão que o olhar não consegue abarcar, foi condenada em sua origem a ser eterna, e mesmo que um dia se transforme em ruínas, provavelmente serão as mais belas ruínas da história do homem. Ruínas de curvas e retas e horizontes, esfinge de concreto e aço propondo e repropondo um enigma que ninguém sabe qual é, embora saiba que existe. O que atordoa os críticos e os estudiosos é que daqui a alguns milênios, mesmo se ela tomar a forma das ruínas, permanecerá moderna. E assim, por dentro dos milênios, entre seus planos de vidro e de luz, a cidade feita de régua e compasso descobre, espantada, que guarda o mistério de uma esfinge, entre seus espaços infinitos, que os olhos não conseguem abarcar.
abril 10, 2010
Abaixo a ditadura do gancho
Bombeiros ainda não sabem quantas pessoas estão soterradas no Morro do Bumba, em Niterói
Fonte: Globo Vídeos***
TELEJORNALISMO EM CLOSE
Abaixo a ditadura do gancho
Paulo José Cunha
Há quem diga que a imprensa vive sob a ditadura dos prazos, dos dead-lines (os horários de fechamento), principalmente agora, com a aceleração alucinada das notícias em tempo real. Costuma-se debitar os erros, as omissões, as trapalhadas e equívocos que custam arranhões ou dilacerações brutais à dignidade e à honra alheias na conta da falta de tempo que impede apuração mais criteriosa.
Tudo isso é verdade. Mas existe uma outra ditadura que pode ser mais perigosa do que a ditadura do dead-line: é a ditadura do gancho. Em jornalismo, “gancho” é o fato que justifica a realização e publicação de matéria ou reportagem. Só pra exemplificar: só se justifica a publicação de matéria sobre o preço do bacalhau perto da Semana Santa, quando o produto é mais consumido. Senão ningupém presta atenção. No momento em que se noticia a tragédia do Rio de Janeiro convém publicar matéria sobre as providências que não foram tomadas para evitar a catástrofe. Tem gancho. E nós, jornalistas, caímos de pau nos governantes por não terem se antecipado com medidas capazes de evitar o pior.
É da natureza da imprensa trabalhar sobre os fatos que estão na ordem do dia. Se não existem fatos, a gente busca as efemérides – os fatos programados, datas comemorativas, que salvam muito pauteiro nas horas de sufoco. Mas até hoje fomos incapazes de fazer a nossa parte no que diz respeito à antecipação dos problemas, no apontamento dos riscos, na previsão das tragédias. Noutras palavras: não temos tido a coragem de enfrentar a ditadura do gancho. De todos, talvez o jornalismo antecipatório seja o mais importante, mas ainda é o mais negligenciado. Raramente, muito raramente, jornalistas publicam matérias sobre os riscos disso ou daquilo. O Jornal Nacional divulgou trechos de um documentário de 30 anos atrás, sobre os perigos do lixão do Morro do Bumba,
Lamento, coleguinhas, mas tenho de escrever com todas as letras: não temos feito outra coisa. E mais: ou temos criatividade e coragem para romper com a ditadura do gancho ou essa situação não vai mudar nunca.
março 14, 2010
Sua Excelência, o fato
Sua Excelência, o fato
Paulo José Cunha
Dr. Ulysses Guimarães gostava da expressão -Sua Excelência, o fato-, para se referir a algo irrefutável, semelhante ao -los hechos son los hechos- dos espanhóis. Em jornalismo muitas vezes temos de provar com fatos uma afirmação, uma denúncia, até mesmo uma insinuação. Duas historinhas pra ilustrar. E de como fui salvo por -Sua Excelência, o fato-.
Trabalhava no Jornal do Brasil quando fui escalado para cobrir uma visita de Niemeyer a Brasília. Há mais de oito anos ele não punha os pés por aqui. Fez um tour pela cidade cercado de repórteres. Mas sem dar entrevistas, apenas fazendo comentários a um grupo de arquitetos seus amigos. A redação queria porque queria que eu arrancasse uma entrevista exclusiva dele. Já ao final da visita, depois de muita insistência, concordou em responder por escrito a algumas indagações. Marcou hora e disse que fosse pegar o texto com as respostas na portaria do hotel. De posse das anotações, escritas a mão em cinco laudas, em que analisava a situação da cidade e comentava as intervenções em suas obras, redigi a matéria que o JB publicou com amplo destaque. No mesmo dia recebi uma cobrança dura do editor-chefe do jornal no Rio de Janeiro, Juarez Bahia. Niemeyer escrevera carta ao jornal acusando-me de colocar palavras em sua boca, inventado declarações dele etc. Bahia exigia explicações urgentes. Não discuti. Apenas enviei cópia xerox do manuscrito para Juarez Bahia, no Rio. Nunca mais tocou do assunto. -Sua Excelência, o fato-, falou mais alto.
No tempo da ditadura, diante das dificuldades para se obter informação de bastidores, boa parte da cobertura política era sobre os discursos em plenário. Durante o Pinga-fogo, horário de breves comunicações, os deputados tratavam de tudo, de concursos de miss a brigas de galos. Resolvi juntar os discursos mais curiosos em uma matéria publicada numa segunda-feira, chamada "O circo da Câmara". Começava dizendo: "Senhoras e Senhores: vai começar o espetáculo!" No dia seguinte, dezenas de deputados foram à tribuna me "homenagear" com adjetivos pouco edificantes. Queriam minha cabeça. Exigiam meu descredenciamento por denegrir a imagem do Congresso. O então presidente da Câmara, hoje senador Marco Maciel, chamou-me ao gabinete dele. Disse-me que os deputados tinham ido se queixar a ele, e exigiam providências. Abri uma pasta com uma coleção de discursos da semana anterior sobre os temas mais esdrúxulos. Surpreso, Maciel revelou desconhecê-los, pois naquela época eram dados como lidos e entregues diretamente ao setor de publicação. Nunca mais tocou no assunto. Deve ter dito aos reclamantes que não havia como argumentar. Se os discursos existiam mesmo, ia fazer o quê?
Novamente, -Sua Excelência, o fato-. Sempre ele. Irrefutável. Definitivo. Como a imagem daquele dinheiro na meia. Refutar como? Versão até que dá pra contestar, reformular. Mas fatos são fatos. Sua Excelência é fogo.

