março 21, 2013

"Eduardo e a bactéria-FC (esboço de artigo em desenvolvimento)", por Cleber Lambert

PICICA: "Agradeço ao meu irmão por ter me feito escutar FC, há anos atrás. Eu fazia um curso de jornalismo absolutamente insuportável. A filosofia e o rap forçaram-me mais do que qualquer outra coisa a pensar outra prática comunicacional, que mais tarde eu chamaria de imidiática. É que o rap sempre foi uma máquina informacional, com seu conectivismo material e semiótico, uma composição vital de corpos e de signos. Ele constitui um modo de pensamento singular. A rima, tal como o conceito filosófico, o bloco de sensações artístico ou a imagem cinematográfica, é pensamento em ato. O rap traça seu próprio plano, capaz de fazê-lo sair eficientemente do caos mental e social que ameaça o povo da periferia. Nesse sentido, ele é capaz de ricas ressonâncias e interferências com a filosofia."


Eduardo e a bactéria-FC (esboço de artigo em desenvolvimento)


Mesmo que o Facção Central continue, sem Eduardo já não teremos as rimas potentes que, no auge do neoliberalismo descreveram com absoluta precisão o funcionamento do aparelho de captura e de violência que continuava, por outros meios, a Casa Grande e Senzala, a maquina de moer gente da periferia, negros e pobres, através do crime, da prisão, da máquina judiciária, da mídia, do separatismo urbano, e que Eduardo bem chamou de "Sistema Brasileiro de Corpos", pois sempre se tratou disso, de partilhar os corpos segundo funções e atribuições bem delimitadas, ou seja, num espaço previamente repartido. Eduardo, com sua voz e suas rimas, fez comunicar linhas até então solidamente mantidas a distância e contribuiu certamente para instaurar uma subjetividade molecular que, para além desse Sistema, conseguiu eleger Lula em 2002, um dos "nossos". Porém, desde que o Brasil passou pelas transformações da última década, o Facção parecia dividido. Dum Dum, de um lado, afirmando que já não era mais possível cantar a pobreza num país onde as coisas melhoraram para os manos da periferia, de outro, Eduardo, agora leitor de Marx, a dizer que o fato de ter TV, carro e geladeira, não mudava a condição daqueles que jamais participaram das decisões efetivas e continuavam sem fazê-lo de fato. E não se trata de uma crítica simplista ao consumismo dos ex-pobres, como se poderia supor a princípio. Sem contar que a máquina continua a moer, com seus mais de 40 mil mortos por ano. Na verdade, para Eduardo não é, nem nunca foi, uma questão de re-presentação. Ele não lastima o fato de ser bem ou mal representado. Ele sempre desejou a transmutação, não apenas ser uma linha de fuga da sociedade, mas fazer a sociedade fugir, ao rimar a violência das palavras, dos gestos, dos corpos, das leis, como agenciamentos concretos que a recortam, mais, que a produzem continuamente (com seu lado ora mais repressivo, ora mais insinuante, a se exercer ainda mais insidiosamente nas periferias). Como instauração e afirmação de um modo de vida irredutível a essa máquina, ele rimou seu ser periférico alegremente, um pensamento sem o cogito do poder e uma vida sem limites carcerários (a dupla face do que ele chamou de “detenção sem muro” como regime imanente de controle): “sou periferia em cada célula do corpo, por isso uma pa de porco ta me querendo morto ”. E, segundo suas críticas recentes ao Governo, os porcos que ontem o queriam morto, hoje o querem meramente incluído através do consumo? É o que ele parece indicar como sendo a via que sua máquina de guerra sonora e rimática tomará agora, ela que afirma a exterioridade periférica irredutível a qualquer modelo, repressivo ou permissivo, para melhor salvaguardar sua potência criadora quase divina. A questão é, então, quais riscos e quais possibilidades nessa empresa? Risco de uma abolição pura e simples? Fechamento num gueto? Possibilidade de estabelecimento de um plano onde essa potência, para além da simples crítica contra o consumismo, coincida com a dimensão desejante que está em jogo nesse processo pelo qual o Brasil vem passando de criação de direitos (para o qual Rodrigo Guéron, recentemente, no artigo “Teocracia fundamentalista, ódio aos pobres e resistência”, chamou atenção através da questão da monetarização)? A criação de direitos não responde a colocação problemas precisos que, sem duvida, a bactéria FC ajudou a disseminar nos milhões de jovens das periferias? Ou ainda outra via insuspeita? De qualquer maneira, não há máquina de guerra que não envolva risco, mesmo o mais letal, pois ela mobiliza o conjunto do vital, para liberá-lo das forças que o aprisionam, mesmo sem muros. Ora, suas rimas colocaram com precisão problemas que hoje se tenta ainda morosamente responder . Agradeço ao meu irmão por ter me feito escutar FC, há anos atrás. Eu fazia um curso de jornalismo absolutamente insuportável. A filosofia e o rap forçaram-me mais do que qualquer outra coisa a pensar outra prática comunicacional, que mais tarde eu chamaria de imidiática. É que o rap sempre foi uma máquina informacional, com seu conectivismo material e semiótico, uma composição vital de corpos e de signos. Ele constitui um modo de pensamento singular. A rima, tal como o conceito filosófico, o bloco de sensações artístico ou a imagem cinematográfica, é pensamento em ato. O rap traça seu próprio plano, capaz de fazê-lo sair eficientemente do caos mental e social que ameaça o povo da periferia. Nesse sentido, ele é capaz de ricas ressonâncias e interferências com a filosofia. Do ponto de vista desta última, o plano recorta o caos de uma maneira que ainda deve ser determinada, porém não resta dúvida de que nele a estética e política se tornam indiscerníveis, o sensível e o comum remetem um ao outro, passam um pelo outro... Eduardo é um dos muitos nomes próprios desta espécie de “quarta pessoa do singular” em que estamos continuamente em vias de nos tornar, para além do individual e do coletivo, do particular e do geral, uma vasta periferia, o singular tornado universal sem deixar de ser singular, como já dizia alguém que entendia duas ou três coisas de periferia, fuga, exterioridade. 
 
Fonte: Cleber Lambert

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