fevereiro 12, 2013

"A Caverna dos Sonhos Esquecidos de Werner Herzog", por Leandro Calbente

PICICA: "[...] a caverna de Chauvet poderia ser vista como uma mensagem para o futuro, já que existe um liame subterrâneo que une a consciência daqueles que produziram aquelas imagens com a nossa própria forma de compreensão do mundo. [...] Porém, compreender o sentido daquelas imagens está bastante além das capacidades dos pesquisadores. Não há possibilidades de construir uma narrativa que retire a estranheza daquele local." 


O documentário A Caverna dos Sonhos Esquecidos, do diretor alemão Werner Herzog, é construído a partir de uma oportunidade muito singular: a descoberta de uma materialidade quase inexplorada do passado humano. O material do filme é a caverna de Chauvet, um sítio arqueológico encontrado recentemente na França. Este local traz não apenas o registro fóssil de inúmeros animais que viveram e morreram dentro da caverna, mas também a presença de algumas das pinturas rupestres mais antigas já encontradas. A riqueza desse material advém tanto de sua preservação, o sítio encontrava-se apartado da existência humana em decorrência de um soterramento no local, preservando uma memória de um tempo absolutamente ancestral (vale dizer que a singularidade da experiência no interior da caverna, propiciada pelo filme, é ainda maior quando temos em vista que, com a exceção de pouquíssimos pesquisadores, ninguém tem autorização para visitar a caverna), mas também da própria beleza do local. A riqueza das pinturas é combinada com uma arquitetura natural muito rica, criando um ambiente visualmente deslumbrante e encantador. Esse rico material é potencializado pela opção estilística do filme, que utiliza a tecnologia 3D para ampliar o impacto das imagens no espectador. A partir desse material, o diretor alemão realiza um documentário que, do ponto de vista formal, é bastante clássico: as imagens captadas são ordenadas a partir do discurso de um narrador (que é o próprio diretor), o qual também é encarregado de introduzir o material externo à caverna (basicamente, entrevistas com pesquisadores que estudaram o local e o passado pré-histórico da humanidade). Ao lado desse discurso narrativo clássico, porém, existe uma espécie de segundo discurso: o das próprias imagens que são construídas no interior da caverna. Estas, que num primeiro olhar funcionariam numa espécie de articulação com o próprio narrador, acabam ganhando uma vida e um rumo próprio, que possibilita um tensionamento, ou mesmo uma torção da narrativa de Herzog. Esse movimento transforma o que seria um simples e comum documentário histórico numa experiência muito interessante de descentramento e de alteridade radical naquilo que entendemos por humanidade. Nesse sentido, a principal característica da narrativa do filme é a tentativa de empreender um esforço analítico, ou seja, apresentar, compreender e explicar a natureza do material encontrado no interior da caverna. Esta narrativa não está muito distante daquela que podemos encontrar numa tese acadêmica, ou livro científico. Pretende-se, por meio do levantamento sistemático de informações, explicar alguma coisa de forma clara, ordenada e a partir de critérios de cientificidade bem assegurados. Para isso, o filme utiliza não apenas as palavras dos especialistas, mas também os fartos recursos tecnológicos que estão a disposição dos estudiosos. Nesse sentido, o nexo central que pretende ser demonstrado nessa narrativa é que aquele local funciona como uma espécie de cena inaugural da alma do homem moderno, no qual a construção de imagens figurativas, que poderiam ser classificadas como arte, se constitui como meio privilegiado de expressão e compreensão do mundo. Esta postura diante do mundo, que pode agora ser compreendido a partir de um universo simbólico e não apenas na concretude das coisas mesmas, é o que afasta o homem da natureza e dá o pontapé inicial naquilo que chamamos de cultura. Ainda que essa formulação não seja claramente enunciada no texto do filme, ela aparece no interstício de todo o discurso que é narrado pelo diretor. Não seria difícil, inclusive, relacionar a arte figurativa feita nas paredes da caverna com a essência do cinema moderno. Tanto lá quanto cá, o que existe é uma preocupação em narrar simbolicamente o mundo que cerca a humanidade. Assim, a caverna de Chauvet poderia ser vista como uma mensagem para o futuro, já que existe um liame subterrâneo que une a consciência daqueles que produziram aquelas imagens com a nossa própria forma de compreensão do mundo. Essa interpretação, que percorre a integralidade do filme, é claramente enunciada no excessivo epílogo do documentário. Os dois crocodilos albinos que se observam revelariam uma espécie de jogo especular entre passado e futuro, no qual a própria definição de humanidade seria organizada: o humano como a capacidade de representar figurativamente o mundo. Esse discurso analítico, porém, é tensionado pelo discurso que encontramos nas próprias imagens que foram captadas no interior da caverna. Estas são espantosas e misteriosas. As pinturas produzidas nas paredes, as formações rochosas que se formaram pelas superfícies da caverna, os restos de animais que viveram e morreram lá, enfim, todo o local é constituído por imagens que despertam uma espécie de fascinação no observador. Esta fascinação, em grande medida, advém da estranheza e do distanciamento, do estar diante de um universo particular e singular, um mundo estrangeiro, enfim. Por mais que à visibilidade da caverna esteja sobreposto outro discurso, que tenta explicá-la e traduzi-la, tudo permanece incerto, confuso, distante de nós. Isso fica muito claro quando pensamos na oposição mais elementar de nosso pensamento, entre natureza e cultura. Como operar com tal oposição no interior da caverna de Chauvet? Tudo lá se encontra num espaço que impede o discernimento claro entre o que é humano (figurativo, simbólico) e o que é natural e concreto. A própria separação entre humano e animal é suspensa na única figura humana que fora pintada naquelas paredes (a mulher que tem seu corpo misturado com o de um animal). Bem distante do liame que é construído na narrativa do filme, o que observamos é uma cisão entre nós, os homens modernos, e aquilo que emana das imagens que foram paralisadas no tempo dentro da caverna. As imagens encontradas no interior da caverna funcionam justamente na suspensão das categorias e oposições que fundamentam o pensamento moderno. Nesse sentido, a vontade de saber do pesquisador-documentarista é sempre superada pela impossibilidade mesma de reduzir aquilo às categorias de nosso pensamento. As explicações dos especialistas não podem ir muito adiante da mera descrição formal e topológica do interior da caverna. Isso permite, por exemplo, afirmar que o indivíduo que fez as pinturas (ou parte delas) tinha 1,80 de altura. Porém, compreender o sentido daquelas imagens está bastante além das capacidades dos pesquisadores. Não há possibilidades de construir uma narrativa que retire a estranheza daquele local. É apenas no campo das suposições que o narrador (suportado pelo discurso dos especialistas) pode dizer que um determinado crânio funcionava como um instrumento ritual para os homens que passaram pela caverna. Estamos, assim, diante de um regime de visibilidade diverso do nosso, que não pode ser simplesmente enquadrado numa espécie de genealogia da sensibilidade moderna, mas que justamente coloca essa sensibilidade em questionamento. É esse processo que possibilita tanto o assombro quanto o deslumbramento no espectador, como se fosse possível vislumbrar por algum momento a existência de um mundo outro, de uma humanidade outra, tão distante e misterioso, com uma potência que lhe é própria e que pede tão-somente nossa contemplação. Nesse caso, o momento mais luminoso do filme é justamente o momento em que essa vontade de explicar é suspensa, e podemos observar no silencioso respeitoso as belas imagens que foram registradas no interior da caverna.
Fonte: Ensaios Ababelados

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