janeiro 07, 2016

De Dakar a Brazaville, de Abidjan a Niamey: o manifesto anticolonial de Afrique 50. POR Joaquim Pedro Marques Pinto (BUALA)

PICICA: "Foi no ano de 1950 que a Ligue de L’Enseignement desafiou o cineasta bretão René Vautier (n. 1928), desce cedo um convicto activista político e um determinante resistente à ocupação nazi, a realizar um filme que elogiasse a presença da administração colonial francesa na faixa ocidental da costa africana, do Senegal à Costa do Marfim, passando pelo Alto Volta e o Sudão, destinado a “montrer aux éléves des lycées et des collèges ‘comment vivent les villageois d’Afrique occidentale française’”[1]. Indignado com as condições de vida e de trabalho das populações autóctones e rompendo com a “oficialidade” do discurso colonial francês, René Vautier decide audaciosamente subverter as prerrogativas do projecto institucional, construindo um relato cinematográfico politica e ideologicamente engajado que pretendia denunciar acerbamente não apenas as arbitrariedades cometidas pelo aparelho colonial francês em África, como também os “(…) meios de opressão cultural, de exploração industrial e de repressão violenta a que as populações autóctones estavam constrangidas pelas autoridades e pelas empresas ocidentais (…)”[2]. Nascia assim, na historiografia do cinema francês de intervenção social, o “premier film militant anticolonial français”[3], um filme urgente “sobre a necessária libertação”[4] que se constitui como um “trabalho exemplar de cidadania”. A visão subversiva de Vautier e o seu declarado compromisso de emancipação política face aos povos africanos colonizados, custou-lhe a sentença a um ano de prisão e a um regime de censura que se prolongou durante quase meio século, tendo a “primeira projecção oficial” do documentário histórico Afrique 50 apenas sido realizada em França já no ano de 1996[5]. O primeiro filme de René Vautier exibe as imagens de uma ferida colonial que a Europa achava então curada e esquecida da memória colectiva. A câmara militante do cineasta bretão, empenhado tanto na causa da libertação nacional argelina como na reivindicação dos direitos políticos do movimento feminista em França, presta-se a “dénoncer la barbarie de la politique coloniale française, la realité de l’exploitation ouvriére qui n’est pas sans évoquer l’esclavage, et les massacres perpétrés par l’armée française qui assassine femmes et enfants ‘en notre nom à nous gens de France’”[6]. Trata-se de uma percepção disposta a desconstruir minuciosamente a narrativa montada e legitimada pelo poder colonial francês, que evidencia o facto silenciado, ou seja, a repressão ideológica das tradições culturais africanas, a ausência de um sistema de ensino democrático, a escravização da mão-de-obra negra em favor de ditames industriais e capitalistas, as matanças locais perpetradas pelo exército francês, a apropriação do trabalho infantil, o consumo em grande escala dos produtos africanos pelo Ocidente industrializado com base na exploração dos trabalhadores negros que ganham cinquante francs par jour, que, deste modo, agilizam a “procura por parte das nações coloniais de matérias-primas destinadas a alimentar as indústrias metropolitanas” e a consequente “(…) estagnação económica das massas indígenas”[7]." 

EM TEMPO: A dica é de Laura Burocco.

De Dakar a Brazaville, de Abidjan a Niamey: o manifesto anticolonial de Afrique 50

Foi no ano de 1950 que a Ligue de L’Enseignement desafiou o cineasta bretão René Vautier (n. 1928), desce cedo um convicto activista político e um determinante resistente à ocupação nazi, a realizar um filme que elogiasse a presença da administração colonial francesa na faixa ocidental da costa africana, do Senegal à Costa do Marfim, passando pelo Alto Volta e o Sudão, destinado a “montrer aux éléves des lycées et des collèges ‘comment vivent les villageois d’Afrique occidentale française’”[1]. Indignado com as condições de vida e de trabalho das populações autóctones e rompendo com a “oficialidade” do discurso colonial francês, René Vautier decide audaciosamente subverter as prerrogativas do projecto institucional, construindo um relato cinematográfico politica e ideologicamente engajado que pretendia denunciar acerbamente não apenas as arbitrariedades cometidas pelo aparelho colonial francês em África, como também os “(…) meios de opressão cultural, de exploração industrial e de repressão violenta a que as populações autóctones estavam constrangidas pelas autoridades e pelas empresas ocidentais (…)”[2]. Nascia assim, na historiografia do cinema francês de intervenção social, o “premier film militant anticolonial français”[3], um filme urgente “sobre a necessária libertação”[4] que se constitui como um “trabalho exemplar de cidadania”. A visão subversiva de Vautier e o seu declarado compromisso de emancipação política face aos povos africanos colonizados, custou-lhe a sentença a um ano de prisão e a um regime de censura que se prolongou durante quase meio século, tendo a “primeira projecção oficial” do documentário histórico Afrique 50 apenas sido realizada em França já no ano de 1996[5]. O primeiro filme de René Vautier exibe as imagens de uma ferida colonial que a Europa achava então curada e esquecida da memória colectiva. A câmara militante do cineasta bretão, empenhado tanto na causa da libertação nacional argelina como na reivindicação dos direitos políticos do movimento feminista em França, presta-se a “dénoncer la barbarie de la politique coloniale française, la realité de l’exploitation ouvriére qui n’est pas sans évoquer l’esclavage, et les massacres perpétrés par l’armée française qui assassine femmes et enfants ‘en notre nom à nous gens de France’”[6]. Trata-se de uma percepção disposta a desconstruir minuciosamente a narrativa montada e legitimada pelo poder colonial francês, que evidencia o facto silenciado, ou seja, a repressão ideológica das tradições culturais africanas, a ausência de um sistema de ensino democrático, a escravização da mão-de-obra negra em favor de ditames industriais e capitalistas, as matanças locais perpetradas pelo exército francês, a apropriação do trabalho infantil, o consumo em grande escala dos produtos africanos pelo Ocidente industrializado com base na exploração dos trabalhadores negros que ganham cinquante francs par jour, que, deste modo, agilizam a “procura por parte das nações coloniais de matérias-primas destinadas a alimentar as indústrias metropolitanas” e a consequente “(…) estagnação económica das massas indígenas”[7].  

            Aquilo que em Afrique 50 parece ser uma paisagem pituresque, a imagem pacífica de um conjunto de países africanos que devem agradecer a benevolente e solidária acção da administração colonial francesa, é desde o início do documentário desmentida pela afirmação retumbante de Vautier:

“Les seuls Blancs qui sont entres avant toi dans ce village sont ou bien l’administrateur qui venait prendre l’argent pour l’impôt ou bien le recruteur qui venait prendre les hommes pour l’armée”[8]

Fotograma de Afrique 50, de René Vautier 
Fotograma de Afrique 50, de René Vautier

Um filme que tende aparentemente a ser trivial insurge-se, com efeito, “contre les méfaits et les atrocités perpétrés par les colons français et l’armée au nom de la France”[9]. Em Afrique 50 assiste-se a uma necessidade vital de contestar a narrativa oficial do regime colonial francês, de um discurso histórico unívoco e hegemónico, enunciando-se desde a introdução que a “excelência da raça branca”[10], subtraindo-se aos seus princípios civilizadores, mais não faz do que invadir as vilas e as terras das populações negras com o intuito de cobrar impostos ou recrutar elementos para o contingente militar. Manifesta-se, pois, a função de questionar o sentido das macro-narrativas históricas[11] criadas e reproduzidas pelo Ocidente europeu em relação às nações africanas primitivas e ahistóricas. O cinema de compromisso praticado por Vautier, a denúncia enérgica das estruturas coloniais que oprimem e exploram as populações negras, permite precisamente desconstruir a macro-narrativa vigente através de uma reabilitação do que “não foi enunciado como objecto ou tema histórico, e relegado para o plano privado e íntimo da memória (…)”[12]. Só reinvocando a memória a partir da imagem cinematográfica enquanto “espaço discursivo” é que será possível reconhecer a vasta diversidade das “(…) experiências e narrativas, das versões históricas e da produção de significados e sentidos a partir de lugares distintos”[13]. O próprio Vautier sublinha esta versão única do discurso histórico produzida pela nação dominante, uma imagem oficial da colonização, equiparando metaforicamente a presença colonial francesa em África a um grupo de abutres que, no decorrer do filme, surgem a devorar um pedaço de carne que jaz putrefacto no solo. É todo um discurso histórico colonial que se legitima num sistema de “binary oppositions”, do primitivo ao civilizado, entre o moderno (civilização europeia) e o tradicional (cultura autóctone), que impede a tangibilidade da african gnosis[14], do processo de autoconhecimento histórico da designada civilização negro- africana enquanto portadora de um “conjunto de valores materiais e espirituais criados por uma sociedade no decurso da sua história (…)”[15]. É, em suma, devido “(…) à infabilidade das narrativas da História e da memória” que a “responsabilidade ética da dúvida e do questionamento crítico”[16] se nos impõem.

Afrique 50 é um documentário assumidamente anti-colonial que procura revelar a verdade de um regime colonial francês que baseia a sua supremacia no primado da força e da violência, na exploração capitalista da mão-de-obra negra assalariada, na negação da liberdade dos povos africanos e na falsa ideologia do progresso e da superioridade da cultura europeia. O já citado Aimé Césaire aborda um tema particularmente caro ao documentário de Vautier: a repressão, sobretudo política e militar, dos valores e costumes das culturas indígenas às mãos do sistema colonial francês, determinado na missão de “civilizar” os povos colonizados. Césaire é claro quanto a reforçar a presença nefasta da civilização do colonizador no espaço geográfico e cultural da civilização indígena:

“(…) um regime político e social que suprime a autodeterminação de um povo, mata ao mesmo tempo o seu poder criador. Ou, (…), que sempre que houve colonização, povos inteiros foram esvaziados da sua cultura, esvaziados de toda a cultura”[17].

Por este meio, Césaire conclui que a colonização europeia, e não apenas estritamente francesa, promove a “limitação da civilização colonizada” e a “supressão” ou “abastardamento” das suas estruturas sociais e culturais. “Onde quer que o colonialismo se manifeste”, observa Césaire, “a cultura indígena começa a estiolar”[18]. A Europa acaba, pois, por ser responsabilizada de não ter favorecido o desenvolvimento intelectual e político-social das “civilizações que ainda não tinham cumprido todas as suas promessas (…)”. Tal como demonstra Afrique 50, as populações negras são instrumentalizadas, e não chamadas a usufruir, a favor de uma gigantesca máquina capitalista implementada pela administração colonial francesa, que se fundamenta no argumento do “desenvolvimento técnico” e da modernização das estruturas económicas. As elites coloniais, intermediárias dos interesses capitalistas ocidentais, dedicam-se a explorar e a exportar os recursos naturais dos países africanos, enquanto o proletariado rural negro se reserva à condição de classe subalterna e economicamente miserável. Em Afrique 50 as prisões substituem as escolas e os hospitais, o trabalho manual desempenhado por operários negros a baixos custos executa o papel da maquinaria prometida pela retórica ocidental (Memba Bagayoko foi morta pelas autoridades coloniais pela luta política que encabeçou em favor do desenvolvimento humano e tecnológico em África, segundo René Vautier). Aimé Césaire reflecte sobre esta questão, apoiando-se principalmente na história da colonização:

“Que a técnica no país colonial se desenvolve sempre à margem da sociedade indígena, sem que jamais seja dada a possibilidade aos colonizados de a dominar. (…) No que se refere às funções intelectuais, não existe nenhum país colonizado cuja característica não seja o analfabetismo e o baixo nível de instrução pública. Em todas as colónias, no que diz respeito às funções de organização e coordenação, o poder político pertence aos poderes colonizadores e é directamente exercido pelo governador ou pelos residentes gerais ou, pelo menos, controlado por eles”[19].


As populações autóctones não são convidadas a participar das vantagens políticas oferecidas pelo Ocidente. Exemplo disso, em Afrique 50, é a camponesa negra que trabalha longas horas debaixo de um sol tórrido nas férteis searas africanas, enquanto o funcionário colonial francês descansa prazenteiramente na sua cabana privilegiada. Ou os trabalhadores que se exercitam manualmente nas turbinas, com o objectivo de fornecer electricidade às populações brancas instaladas nas colónias francesas em África. Ou ainda os pescadores que arriscam a vida para tentar colectivamente desencalhar um navio destinado a carregar os produtos e as matérias-primas que alimentarão os mercados europeus, sustentados por uma mão-de-obra negra escravizada que goza de um salário irrisório por dia. Tudo isto, ironiza Vautier, em nome do sacrossanto valor do progrés e da aura civilizadora assumidos messianicamente pela nação francesa. Não desejando beneficiar o progresso material e económico da colónia, o colonizador entende-a como “um meio de criação de riqueza”[20]. Pelos países africanos trilhados pelo périplo da câmara de Vautier somente 4% das crianças é que consegue atingir a idade de escolaridade, precisamente a percentagem suficiente de funcionários do regime colonial francês necessários ao domínio e subjugação dos territórios ocupados. E o estatuto de colónia é precisamente definido como “um país em que uma minoria europeia se impôs a uma maioria indígena com uma civilização e um comportamento diferentes”[21]. A colonização embrutece o colonizador, desciviliza-o. No momento de atender às mais básicas necessidades democráticas das nações colonizadas, a Europa ignora os seus próprios ideias, nega-os à vontade que os povos africanos têm de gerir os seus recursos e de se autogovernarem:

“A prova é que actualmente são os indígenas de África ou da Ásia que reclamam escolas e é a Europa colonizadora que as recusa; que é o homem africano que pede portos e estradas e é a Europa colonizadora que regateia; que é o colonizado que quer avançar e é o colonizador que o retém”[22]

            A África que René Vautier nos apresenta resume-se à função de continente produtor e exportador de matérias-primas raras e preciosas que abastecerão os desenvolvidos mercados europeus. Os barcos que vemos aportarem em Afrique 50 à espera das tão desejadas mercadorias africanas, obtidas através da exploração do proletariado negro, apresentam-se ao serviço dos interesses capitalistas da administração colonial francesa e de grande parte do Ocidente. As colónias francesas continuam a ser fornecedoras de “(…) matérias-primas baratas e de alimentos tropicais, servindo simultaneamente de mercados reservados para os produtos franceses”[23]. As nações africanas vêem-se envolvidas numa relação assimétrica mantida com a metrópole, que se esforça por estimular a sua economia e os seus mercados internos e eximir-se da sua missão de promover o desenvolvimento técnico dos territórios colonizados:

“(…) estes países continuam a viver na relação clássica da colónia com o seu ‘patrão’ metropolitano, isto é, a produzir matérias-primas e a servir-lhe de mercado exclusivo”[24]

A mão-de-obra africana é assim, pois, explorada em detrimento dos objectivos comerciais e industriais das grandes companhias coloniais e capitalistas do Ocidente. Veja-se, por exemplo, os trabalhadores negros que calcetam estradas, que garantem o bom funcionamento das turbinas fornecedoras de água potável e electricidade aos colonizadores brancos residentes no Níger, que se dedicam ao abate de árvores em troca de um salário anedótico. Essa é a mão-de-obra barata, desprovida de dignidade, que sustenta o aparelho económico do regime colonial francês. Esses são os trabalhadores explorados economicamente, porquanto a instalação e difusão da maquinaria nestes países africanos resultaria muito mais dispendiosa:

“Falo dos que, no momento em que escrevo, cavam à mão o porto de Abidjan”[25]

            Afrique 50 também é um documentário lúcido no que respeita a exibir as imagens mais bestiais da colonização francesa na África ocidental, a excessiva violência, a repressão armada, a subjugação pela força das populações autóctones, os massacres, as pilhagens e as execuções arbitrárias. As balas que cravejam o chão, o sangue que se incrusta nas paredes, as habitações locais devastadas pelas incursões militares, testemunham a barbárie imposta pelas tropas coloniais francesas. Esta difícil coexistência entre diferentes raças e culturas, esta relação frágil que se legitima em torno do poder e da dominação, leva Césaire a concluir que “entre colonizador e colonizado, só há lugar para o trabalho forçado, a intimidação, a pressão, a polícia, o imposto, o roubo, a violação, as culturas obrigatórias, o desprezo, a desconfiança, a arrogância, a suficiência, a grosseria, as elites descerebradas, as massas aviltadas”[26]. Se considerarmos o racismo como “a opressão sistemática de um povo”[27], que o racismo se possibilita e legitima graças à herança da opressão de tipo militar e económica, então poderemos afirmar, a meu ver, que a administração colonial francesa pateada corrosivamente por Vautier é claramente racista. Uma das prerrogativas imprescindíveis de um programa colonial racista, segundo o já citado Frantz Fanon, é a escravização irrepreensível das populações indígenas como factor determinante à posterior “destruição dos valores culturais”. A consagração ideológica do racismo passa pelo desmantelamento brutal dos sistemas de referência de um povo colonizado. Essa condição central legitimará a acção do sistema colonial:

“A expropriação, o despojamento, a razia, o assassínio objectivo, desdobram-se numa pilhagem dos esquemas culturais ou, pelo menos, condicionam essa pilhagem. O panorama social é desestruturado, os valores ridicularizados, esmagados, esvaziados. Desmoronadas, as linhas de força já não ordenam. Frente a elas, um novo conjunto, imposto, não proposto mas armado, com todo o seu peso de canhões e sabres”[28]

Indefesas e oprimidas, as populações negras que Afrique 50 reporta são as testemunhas fiéis da mais alta prepotência protagonizada pelo regime colonial francês. As aldeias arruinadas, os fuzilamentos sumários, os trabalhadores explorados pelas grand compagnie coloniale, lembram ou relembram as premissas racistas da colonização. O autóctone transforma-se num homem-objecto, vítima do regime de opressão a que o submete a “nação ocupante”. É um inferiorizado relativamente às nações civilizadoras europeias. Mas os povos africanos colonizados, como o faz notar René Vautier, não podem mais tolerar cette exploitation, cette misére, cette morte colectife perpetrada pelo homem branco europeu, exigem a libertação nacional, a emancipação política face às nações colonizadoras. As populações negras revoltam-se pacificamente. O homem negro recusa que o seu filho combata nas guerras travadas no Vietname e em Madagáscar, que seja morto pelas balas disparadas pelas metralhadoras financiadas pelo Ocidente capitalista e colonial. A independência torna-se na palavra de ordem das reivindicações entoadas pelos povos africanos, o valor derradeiro que preconizará o florescimento da cultura negra, do desenvolvimento autónomo do sistema político e económico, do fim da escravização, do imperialismo e do racismo. “O povo, os nossos povos, libertos dos seus entraves; os nossos povos e o seu génio criador finalmente desembaraçado daquilo que o contraria ou esteriliza”, afirma Césaire, apelando à admissão dos povos negros no “grande palco da história”[29]. “O fim lógico desta vontade de luta é a libertação total do território nacional”, enuncia por seu turno Fanon[30]. “As massas africanas, assim como assimilaram instintivamente a fé na indivisibilidade da liberdade, também compreendem e apoiam espontaneamente a ideia da unidade africana (…), acredita Nkruhmah, defendendo que uma União dos Estados Africanos “tornará possível a expressão total da personalidade africana”[31]. E a contestação anticolonial conduzida pelos povos africanos ecoa e encontra compreensão junto da consciência política dos cidadãos franceses, que se unem fraternalmente ao grito de emancipação proclamado pelas populações negras da África ocidental. A conquista dos direitos democráticos e da dignidade política e humana revela-se uma luta transnacional. René Vautier assume deste modo o papel do arauto que promove a união e o diálogo intercultural, num momento em que as imagens de uma manifestação cívica em França e uma marcha política em África parecem fundir-se num grande caminho rumo à instauração da liberdade nos países colonizados. De Dakar a Brazaville, de Abidjan a Niamey, o signo de uma luta comum contra a presença colonial é a grande mensagem do manifesto anticolonial de Afrique 50, uma condição inalienável para a efectivação da libertação dos povos africanos. Em pleno século XXI, o documentário militante de René Vautier, agora já não circunscrito pelo olhar atento da censura, ensina-nos que a independência dos povos dominados pelo colonialismo europeu é um ideal pelo qual vale a pena lutar.  

Filmografia

- VAUTIER, René, Afrique 50, Brest, 1950.

Bibliografia

- BHABHA, Homi, Ética e Estética do Globalismo: Uma Perspectiva Pós-Colonial - a urgência da teoria, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2007.
 
- BALANDIER, Georges, A situação colonial: uma abordagem teórica - Malhas que os Impérios tecem: Textos Anticoloniais, Contextos Pós-Coloniais, Ed. 70, Lisboa, 2011.
 
- CARDOSO, João Sousa, Notas para uma Oresteia africana, Buala, 2010.
 
- CÉSAIRE, Aimé, Cultura e Colonização – Malhas que os Impérios tecem: Textos Anticoloniais, Contextos Pós-Coloniais, Ed. 70, Lisboa, 2011.
 
- DUBOIS, Régis, Les Noirs dans le cinéma français – Images et imaginaires d’hier et d’aujourd’hui, The Book Edition, 2012.
 
- FANON, Frantz, Racismo e Cultura - Malhas que os Impérios tecem: Textos Anticoloniais, Contextos Pós-Coloniais, Ed. 70, Lisboa, 2011.
 
- GOMES, Catarina/MENESES, Maria Paula, História e Colonialismo: Por uma Inter-historicidade, Terra, 2011.
 
- IMBERT, Henri-François, Cinéaste documentariste africain, L’Harmattan, Paris, 2007.
 
- LE GONIDEC, Isabelle, Afrique 50’: René Vautier, le ‘petit Breton à la caméra rouge’, rfi, 2013.
 
- MUDIMBE, V. Y., The Geography of a Discourse, 1988.
 
- NKRUHMAH, Kwame, O neocolonialismo em África – Malhas que os Impérios tecem: Textos Anticoloniais, Contextos Pós-Coloniais, Ed. 70, Lisboa, 2011.



[1] Texto institucional do portal digital do canal televisivo arte (Março de 2003).
 
[2] João Sousa Cardoso, Notas para uma Oresteia africana, portal digital da revista Buala (Setembro de 2010).

[3] Isabelle Le Gonidec, ‘Afrique 50’: René Vautier, le ‘petit Breton à la caméra rouge’, portal digital da estação de rádio francesa rfi (Setembro de 2013).

[4] João Sousa Cardoso, Ibidem.

[5] Isabelle Le Gonidec, Ibidem.

[6] Régis Dubois, Les Noirs dans le cinéma français – Images et imaginaires d’hier et d’aujourd’hui, The Book Edition, 2012, p. 33.

[7] Georges Balandier, A situação colonial: uma abordagem teórica, in Malhas que os Impérios tecem – Textos Anticoloniais, Contextos Pós-Coloniais, Ed. 70, Lisboa, 2011, p. 229.

[8] René Vautier, Afrique 50, 1950.

[9] Henri-François Imbert, Cinéaste documentariste africain, L’Harmattan, Paris, 2007, p.67.   

[10] Georges Balandier, Ibidem, p. 237.

[11] As macro-narrativas históricas ou metanarrativas (Lyotard, 1984) são concepções unívocas e parciais referentes à construção do conhecimento histórico produzido por uma determinada nação a fim de legitimar a sua própria vigência política e cultural, censurando a versão da história do “outro” e ampliando consideravelmente o “imaginário colectivo sobre o passado”.

[12] Catarina Gomes/Maria Paula Meneses, História e Colonialismo: Por uma Inter-historicidade, 2011, p.6.

[13] Ibidem, p. 7.

[14] V. Y. Mudimbe, The Geography of a Discourse, 1988, p. 187. 

[15] Aimé Césaire, Cultura e colonização, in Malhas que os Impérios tecem – Textos Anticoloniais, Contextos Pós-Coloniais, Ed. 70, Lisboa, 2011, p. 255.

[16] H. Bhabha, Ética e Estética do Globalismo: Uma Perspectiva Pós-Colonial - a urgência da teoria, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2007, p. 44.

[17] Ibidem, p. 254.

[18] Ibid, p. 266.

[19] Ibid. 

[20] Georges Balandier, Ibid., p. 241.

[21] Ibid., p. 235.

[22] Aimé Césaire, Discurso sobre o Colonialismo, p. 24/25.

[23] Kwame Nkruhmah, O neocolonialismo em África, in Malhas que os Impérios tecem – Textos Anticoloniais, Contextos Pós-Coloniais, Ed. 70, Lisboa, 2011, p. 289.

[24] Kwame Nkruhmah, Ibidem, p. 290.

[25] Aimé Césaire, Ibid, p. 25.

[26] Ibid.

[27] Frantz Fanon, Racismo e Cultura, in Malhas que os Impérios tecem – Textos Anticoloniais, Contextos Pós-Coloniais, Ed. 70, Lisboa, 2011, p. 275.

[28] Ibidem.


[29] Aimé Césaire, Cultura e colonização, in Malhas que os Impérios tecem – Textos Anticoloniais, Contextos Pós-Coloniais, Ed. 70, Lisboa, 2011, p. 272.

 [30] Fanon, Ibid., p. 284.


[31] Kwame Nkruhmah, O neocolonialismo em África, in Malhas que os Impérios tecem – Textos Anticoloniais, Contextos Pós-Coloniais, Ed. 70, Lisboa, 2011, p. 307.

Joaquim Pedro Marques Pinto

(Porto, 1991). Licenciado em Ciências da Comunicação e da Cultura pela Universidade Lusófona do Porto, professor assistente na mesma instituição e doutorando em Modernidades Comparadas: Literaturas, Artes e Culturas pela Universidade do Minho, preparando uma tese intitulada A recepção do marxismo e da negritude nas literaturas africanas de língua portuguesa: a geração da Mensagem. Escreve ensaio, poesia e textos críticos sobre cinema e arte contemporânea.

Fonte: BUALA

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