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novembro 25, 2010

Órgãos de imprensa incentivam o preconceito, segundo Carlos Brickman

PICICA: A imagem abaixo é uma cortesia do PICICA, enviada pelo nosso correspondente Zefofinho de Ogum, para quem os preconceituosos costumam ter como fonte de informação a leitura acritica da revista VEJA.
O preconceito é burro e emburrece
 

Por Carlos Brickmann em 23/11/2010

Numa história em quadrinhos clássica, internacionalmente premiada, Maurício de Souza mostra Cebolinha pintado de verde. É o mesmo Cebolinha de sempre, com a mesma roupa, o mesmo cabelo, o mesmo medo da Mônica, a mesma troca de letras nas palavras, o mesmo gosto pelo futebol, a mesma vontade de envolver o amigo Cascão em seus planos infalíveis para tornar-se o dono da rua.

Mas não era possível: quando viam Cebolinha de outra cor, seus amigos se escondiam, fugiam, não queriam jogar bola, não queriam falar de planos. Queriam apenas ver-se longe daquele ser estranho – que, de estranho, só tinha a cor diferente da habitual.

Burros, né? No entanto, o preconceito existe. Existe preconceito racial, existe preconceito social, existe preconceito de cor, existe agora preconceito geográfico (aliás, não existe, ou só existe para quem é burro: os empresários do Nordeste continuam negociando com os empresários do Sul, os banqueiros de uma região procuram expandir-se para outra; não há intelectual sulista que se preze que tenha deixado de ler Gilberto Freyre e não se delicie com Ariano Suassuna, não há um intelectual nordestino que se preze que não tenha lido de Monteiro Lobato a Fernando Henrique, passando por Sérgio Buarque de Holanda – cuja família, aliás, tem origem em Pernambuco – não há paulista, paranaense, barriga-verde ou gaúcho que não queira passar férias no Nordeste, há raros nordestinos que não têm parentes em São Paulo). O pior do preconceito, entretanto, é o apoio a ele de muitos meios de comunicação: é a tomada de posição antialguma coisa com base em discriminações partidárias, geográficas, políticas ou de comportamento.

Há, por exemplo, uma certa proteção da imprensa a jovens bem-postos que, gritando slogans homofóbicos, agridem pessoas e as ferem seriamente. No caso da Avenida Paulista, em que cidadãos pacíficos foram atacados com lâmpadas fluorescentes (além de cortantes, venenosas), pontapés e socos, todos os meios de comunicação informaram que os agressores estudavam em escolas particulares da região. Qual escola, ou quais escolas? No fim, meio a fórceps, soube-se que pelo menos um deles tinha sido expulso há tempos de uma escola conhecida, exatamente por seu comportamento agressivo. Mas, neste momento, onde estaria estudando? Como serão seus colegas? Como é tratada, ali, na escola que hoje frequenta, a questão do preconceito?

Há certo encorajamento, especialmente por jornalistas que perderam posições nas empresas e se dedicaram à internet, ao preconceito contra elites e contra São Paulo; esse encorajamento se repete em veículos impressos, como o que se refere àquela idiota que divulgou em seu twitter ataques a nordestinos, como "a paulista". E não houve qualquer pressão da imprensa sobre a polícia para que investigasse quem é que, também em mensagens pelo twitter, propunha que um atirador de elite alvejasse a cabeça de um candidato à Presidência da República.

O papel dos meios de comunicação é, sem dúvida, relatar os fatos – mas sem maximizá-los, sem incentivá-los. E, se é para tomar posição, que seja a posição do bem, de luta contra os preconceitos em geral. Caso o veículo seja favorável ao mal, aos preconceitos, está protegido pela liberdade de imprensa; mas todos saberão o que é que realmente defende. O que não se pode é tolerar que, fingindo combater preconceitos, órgãos de comunicação incentivem os preconceituosos de seu lado enquanto condenam apenas os adversários. Como disse certa vez John dos Passos, que não o convidassem para condenar meia guerra; que se unissem a ele para condenar a guerra inteira.

Fonte: Observatório da Imprensa

novembro 17, 2010

O imaginário da violência é alimentado pela mídia, segundo o professor Adrelino Campos, da Uerj

PICICA: "A violência tem muito do imaginário", afirma o professor. "As pessoas passam a enxergar as coisas a partir desse discurso. Quem vive no lugar apontado como violento reconhece o problema, mas não com a intensidade que lhe é atribuída. Para eu tornar um lugar violento, basta colocá-lo na mídia. O imaginário da violência potencializa os fatos."

Quarta-feira, 17 de novembro de 2010
ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 616 - 16/11/2010

ENTREVISTA / ANDRELINO CAMPOS
Mídia alimenta imaginário da violência
Por Mauro Malin em 16/11/2010



O professor de Geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Andrelino Campos vê na atuação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) fluminenses não apenas um instrumento de combate à violência, mas também de reordenamento do solo urbano. E lamenta que o foco da mídia se concentre na questão do tráfico de drogas e suas consequências, porque a mídia robustece assim o imaginário da violência, socialmente tão importante quanto a violência propriamente dita. 

Andrelino Campos é autor do livro Do Quilombo à Favela – A Produção do "Espaço Criminalizado" no Rio de Janeiro, publicado em 2005. Ele dá como exemplo de imaginário de violência inflado o Jardim Catarina, considerado um dos bairros mais violentos do município de São Gonçalo, no Grande Rio. "Alguns pontos são destacados, ganham a atenção da imprensa, e qualquer evento passa a ser visto como tributário do tráfico. Na verdade, só uma parte da violência é decorrente do tráfico de drogas. Quanto se começa a mostrar muito determinada coisa, podemos ter certeza de que outras coisas, muito relevantes, ficarão escondidas", desconfia. 

E exemplifica:

"A cocaína faz parte do ambiente no Rio de Janeiro, mas não é um ponto central na favela. Existem vários outros fatores geradores de violência. A violência na escola, por exemplo, tem sido noticiada. O fato é que até algum tempo atrás as famílias tinham maior controle sobre as crianças. Hoje, as crianças chegam da escola e ficam sozinhas. Crescem sem controle nenhum. E, pior, muitos chegam à adolescência e à idade adulta sem qualquer tipo de formação."

Fora de foco
Na lista de fatos ou fenômenos que não são devidamente percebidos porque o foco da mídia está muito voltado para o "combate" ao tráfico, Campos cita uma forma de corrupção associada ao Bolsa Família: "Há crianças que não frequentam a escola, mas os pais corrompem diretores para evitar que isso chegue ao conhecimento de quem é responsável por fiscalizar o cumprimento dos compromissos que habilitam ao benefício".

A degradação de padrões morais se apresenta em várias modalidades. Segundo Campos, em São Gonçalo algumas famílias descobriram como ganhar dinheiro de professores. "Ameaçam ir ao Ministério Público ou a uma delegacia de polícia denunciar o professor por agressão ou assédio contra aluno. Cobram do professor, cujo salário, dando aula em duas ou três escolas, está na casa dos R$ 2 mil, R$ 500 para não fazer isso. Em alguns casos, o professor acaba preso."

A questão do ensino, em si, também não merece da mídia a atenção necessária, diz o professor da Uerj: 

"Os professores são recém-formados, nas escolas se colocam vinte, trinta alunos em cubículos. As escolas acabam servindo para muitas outras coisas que não a educação: comer, dormir, jogar bola. Servem até para ensinar. Não é de estranhar que haja tanta violência nelas."

Escola é síntese da sociedade
"A escola está violenta, mas ela é uma síntese da sociedade", diz o professor. "Recebe pessoas que vêm da sociedade e as devolve para ela. Como se sabe, em muitas escolas os alunos marcam sua filiação a uma das organizações criminosas do Rio pela escolha de um boné de determinada cor. Os garotos assumem uma cor, sem mesmo saber por quê."

Não estaria havendo uma deficiência nas pautas da imprensa? Para Campos, não: "A mídia é direcionada. Tem interesse em dizer algumas coisas e não outras. Dirige a cobertura para a violência e a ação da polícia".

"A violência tem muito do imaginário", afirma o professor. "As pessoas passam a enxergar as coisas a partir desse discurso. Quem vive no lugar apontado como violento reconhece o problema, mas não com a intensidade que lhe é atribuída. Para eu tornar um lugar violento, basta colocá-lo na mídia. O imaginário da violência potencializa os fatos."

Como assim?

"Se, quando ocorre um evento violento, ele é noticiado e depois o caso e o local saem do noticiário, não existe a potencialização. Mas em alguns casos, sobretudo quando acontece algo muito violento, um lugar é associado com a violência durante um longo período. Como no caso do assassinato do menino João Hélio [Fernandes Vieites, nascido em 2000; durante assalto ao carro da mãe em Oswaldo Cruz, Zona Norte, em 2007, ficou preso pelo cinco de segurança do lado de fora e foi arrastado por centenas de metros quando os ladrões levaram o carro]. Se a cobertura se prolonga, sempre haverá alguém que leia o caso como novo. O jornal administra o assunto em doses homeopáticas, até que ele se exaura completamente, ou melhor, seja cortado por outro evento. O jornal faz, na dimensão do tempo, uma conexão do local com eventos violentos que não corresponde à vida real."

Segundo Campos, a cidade toda é pontilhada de eventos, mas o tratamento dado na mídia é seletivo. "O assassinato de Artur Sendas [2008], um empresário importante", exemplifica, "ocorreu em Ipanema. Mas Ipanema não perdurou no noticiário como lugar de violência. Há outras coisas para se falar de Ipanema, coisas positivas. O assunto só retornou à mídia quando houve o julgamento do assassino."

Outra faceta da dimensão temporal é a ligação que se faz entre fatos ocorridos em momentos distintos. O professor da Uerj aponta: 

"A mídia falada, por exemplo, quando relata um fato novo, sempre vai buscar referência em algum fato antigo. Há uma invasão policial no Morro dos Macacos, virá como referência a derrubada de um helicóptero da polícia ocorrida lá, fato gravíssimo, não há dúvida, mas sem conexão com a invasão que está sendo noticiada."

Cidade e território
O professor faz uma distinção entre cidade e território. "Copacabana, Ipanema, Madureira são parte da cidade. A Serrinha, o Vidigal, a Cidade de Deus são territórios. Território é um recorte espacial onde pré-existe uma hierarquia e o conflito é constante." Há fatos violentos na cidade, mas a polícia não invade os lugares da cidade. "Quem vive em favela pode ser invadido a qualquer momento, porque território é um lugar de luta", constata.

A associação entre a dimensão espacial e o imaginário opera porque "ninguém vive cem por cento da cidade. Cada um conhece alguns bairros e algumas pessoas", diz Campos. "Como a capacidade de circular é extremamente restrita, cada pessoa conhece os lugares onde estuda ou trabalha, mora, frequenta bares, se diverte etc. O resto vem do imaginário."

A imagem que os habitantes têm da cidade é, portanto, fornecida pela mídia. Mais uma razão para o professor da Uerj condenar a atenção quase obsessiva dada à questão da segurança pública. Para exemplificar por que acha que deveriam ser enfocadas também outras questões, como a do reordenamento urbano, ele menciona um texto seu de 1997 no qual mostrou que, em aparente paradoxo, as áreas envolvidas no Favela-Bairro, programa criado em 1994 pelo então prefeito César Maia, começaram, depois de uma valorização inicial, a perder valor, porque os investimentos nesses lugares foram pontuais e não contínuos."Como a violência foi exacerbada nos últimos dez a quinze anos, houve uma depreciação do solo urbano nesses locais", aponta Campos. 

O que Copa e Olimpíada podem – ou não – trazer
Com as intervenções atuais ‒ presença de UPPs e obras de urbanização, teleféricos, etc. haverá, como no caso do Favela-Bairro, valorização no primeiro momento. E o desdobramento do processo poderá ser bem diferente.

"Se for regularizada a posse dos lotes, o mercado imobiliário poderá comprar terras e fazer seus próprios investimentos", diz Campos. "Estamos no limiar de dois projetos imensos: a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016. Imagine-se o que, nessa situação muito especial, poderá ser feito numa área como o Vidigal, por exemplo."

Para o professor, o Rio tem a possibilidade de ser visto como modelo, a exemplo do que aconteceu com Barcelona depois da Olimpíada de 1992. "A partir de 2014-2016, o que se fizer aqui pode se irradiar para todo o país e para o mundo", afirma.

Apesar de levantar essa hipótese, ele é cético quanto à possibilidade de que a realização dos dois grandes eventos se traduza em melhorias reais para a população do Rio de Janeiro. "O Pan-Americano veio, acabou, a cidade permaneceu a mesma. Acredito que com a Olimpíada a imagem poderá se modificar, algumas estratégias de sobrevivência serão criadas, mas isso não vai alterar muito a vida das pessoas. Continuará havendo assaltos, com mais ou menos violência, mortes. As favelas e outros lugares subalternos continuarão sendo territórios, onde viver é uma arte e morrer violentamente é consequência do contexto."

Fonte: Observatório da Imprensa

novembro 08, 2010

Ministério das Comunicações: um ministério essencial para o governo Dilma Rousseff


PICICA:  "O governo Dilma Rousseff já tem um programa para as Comunicações. Ele foi escrito pelo movimento popular, juntamente com o empresariado moderno e o próprio governo Lula, na 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom). (...) "Uma das áreas nas quais o governo Lula muito pouco avançou foi na das Comunicações. Reivindiquemos: esta é, agora, uma das áreas a ser priorizada".


Segunda-feira, 8 de novembro de 2010
ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 614 - 2/11/2010


PROGRAMA DE GOVERNO
O que fazer do Ministério das Comunicações

Por Marcos Dantas em 3/11/2010

Reproduzido do Observatório do Direito à Comunicação, 1/11/2010; título original “É hora de avançar também no Ministério das Comunicações” 
O processo de transformação democrática do Brasil prosseguirá por mais quatro anos. Assim decidiu a maioria da nação. Será muito difícil, ao cabo desses 12 anos, que desse processo não se consolide uma realidade social e econômica muito distinta da que tínhamos antes de iniciado o primeiro governo Lula e, sobretudo, que seus avanços ainda possam ser revertidos. Quem quer que suceda Dilma Roussef, em 2015, não poderá mais voltar atrás nas conquistas alcançadas. O país será outro.

No entanto, se muito avançou em algumas áreas importantes, o governo Lula pouco ou nada avançou em outras. Admitamos, para sermos generosos, que cada fase determina suas prioridades. Uma das áreas nas quais o governo Lula muito pouco avançou foi na das Comunicações. Reivindiquemos: esta é, agora, uma das áreas a ser priorizada.

Há oito anos, recém-eleito presidente, Lula ocupou, como um terceiro "âncora", ao lado do casal William Bonner-Fátima Bernardes, todo o tempo de quase uma hora, em edição especial, do Jornal Nacional da Rede Globo. Para as corporações mediáticas (doravante CM), este seria o símbolo maior de suas expectativas em domesticá-lo. Mas para o próprio Lula, este seria também o símbolo maior da sua expectativa de vir ser aceito como um novo integrante das elites políticas e econômicas de nosso país. Dois mandatos depois, era perceptível, na reta final da última campanha, a frustração do presidente, respondendo em tom maior a cada cretinice da qual foi vítima ao longo de todos esses oito anos. Preconceito, como subdesenvolvimento, não se improvisa, é obra de séculos...

Primeira página
Lula e o PT alimentaram a ilusão de que poderiam conviver civilizada e democraticamente com as CMs; que pouco ou nada haveria a fazer no campo das Comunicações. Na verdade – é necessário dizê-lo –, Lula e o PT nunca tiveram uma política clara para as Comunicações. Omitiram-se por ocasião da privatização da Telebrás, efetivada às vésperas das eleições de 1998. Não "dava votos". Agora, durante esta última campanha, viu-se uma candidata Dilma Rousseff sem respostas para as falsidades demagógicas de seu opositor sobre o "êxito" da privatização da Telebrás, embora, qualquer observador independente conheça bem as mazelas resultantes (ver "Privatização, a política que atrasou as telecomunicações no Brasil" e "Telecomunicações, ainda falta muito para universalizar").

Já no governo, Lula e seu governo deixaram morrer nas gavetas do Ministério das Comunicações até mesmo os três ante-projetos que seu antecessor elaborara, para consumar a reforma que vinha avançando no setor, depois da privatização da Telebrás. Fernando Henrique Cardoso, ao menos, desejara atualizar o ordenamento jurídico da "comunicação social eletrônica". O governo Lula nem nisso avançou. Fez que esqueceu. 

Pagou pelo erro. E se Dilma não mudar, continuará pagando. Basta ler o noticiário de O Globo no dia seguinte à sua eleição, a começar pela manchete de primeira página para não ter o direito de seguir alimentando ilusões: "Lula elege Dilma e aliados já articulam sua volta em 2014". Precisa mais?

"Perdeu, playboy"
Não é de hoje que as CMs se colocam em bloco contra o progresso social e a democratização de nossa sociedade. Foi assim em meados dos anos 1950 quando levaram Getulio Vargas ao suicídio, foi assim em 1964 quando pregaram e saudaram o golpe e a ditadura militar. Ao longo de mais de meio século, agruparam-se e consolidaram-se em um pequeno grupo de grandes organizações capitalistas (nacionais e regionais) essenciais à produção e reprodução de um determinado modelo de desenvolvimento, aquele promotor do consumo conspícuo e da concentração de renda. Pretendem-se responsáveis pelo agendamento da "opinião pública", esta definida enquanto um certo senso comum político e moral daquela parcela mais rica e escolarizada da população, na qual são recrutados os quadros dirigentes da economia e da política nacionais – além, claro, dos próprios jornalistas. 

Pela natureza essencialmente simbólica da atividade mediática, as CMs tornaram-se, no Brasil, o núcleo formulador essencial do projeto conservador de poder, ocupando o espaço que caberia ao próprio Estado, aos partidos políticos, à Academia, à Igreja, a outras instituições. Aos poucos, todas foram se colocando a reboque da agenda midiática. Se aborto vira, ou não, tema de campanha, não o será porque a Igreja queira ou deixa de querer, mas porque as CMs o querem, ou não.

Mas a sociedade muda. A cada ciclo de mais ou menos meio século, qualquer sociedade capitalista passa por grandes mudanças. Nos últimos 15 a 20 anos, o mundo e o Brasil passaram e seguem passando por grandes transformações econômicas, políticas e culturais. O mundo e o Brasil de hoje não são mais os mesmos que eram quando as CMs se consolidaram de vez, no Brasil, ali por volta dos anos 70 do século passado. 

No próprio campo interno do capital, emergiram novas forças produtoras de imaginário e consumo. A "comunicação de massa" está dando lugar a uma comunicação segmentada, identitária, atomizada. Não é o caso, aqui, de examinar se isto é bom ou ruim. É fato. Fato que se expressa no deslocamento das audiências para os canais de TV por assinatura, portais e blogs de internet, música via iPod ou MP3, entretenimentos pelo "celular" etc. Novas grandes corporações midiáticas emergiram, associando produtores e programadores de "conteúdos" com provedores de infraestrutura, para atender a essas novas realidades econômicas e culturais (é o que se chama "convergência de mídias"). 

O Brasil não acompanhou essa evolução. Ao destruir a Telebrás do jeito como destruiu (oposto ao que fizeram, com suas "telecoms", todos os países sérios do mundo, inclusive o México), o governo FHC impôs enormes obstáculos, no Brasil, à evolução do nosso capital midiático para essa nova fronteira. O que sobrou – as CMs comerciais de imprensa e radiodifusão – viram-se numa condição bastante fragilizada e disto muito se queixam agora, assumindo subitamente um falso discurso "nacionalista", depois de terem aplaudido entusiasmadamente a desastrada privatização cardosina.

Ao mesmo tempo, graças sobretudo, no Brasil, ao governo Lula, uma grande parcela da nossa população foi incorporada ao universo do consumo conspícuo. Esta foi a maior realização deste governo. As últimíssimas palavras da candidata Dilma Rousseff, no debate na Globo, interrompidas pelo cronômetro, deixam isto claro, consciente ou subconscientemente: "melhoria da vida material"... Ficou fora, a cultural, a simbólica.

Esta nova massa consumidora é a massa da internet e do celular. Nem por isso culta, se por cultura entendemos uma evolução racional, ilustrada, simbolicamente cada vez mais rica, da mente social humana. Basta ouvirmos a miséria melódica e poética (se dá para usar estes termos) do som dito "popular" que toca nas praias do Nordeste ou nas favelas funqueiras cariocas para percebermos o retrocesso estético e ético que paradoxalmente está acompanhando aquela melhoria material. No fundo, essa massa consumidora por enquanto feliz, será presa fácil do fascismo e do obscurantismo tão logo a economia comece a ratear. E que ninguém espere progresso sem crises, numa economia capitalista... Aliás, o obscurantismo evangélico não teria tido a força que teve nesta última campanha se à "prosperidade" dos irmãos não correspondesse equivalente pauperização intelectual.

As CMs, nesta última campanha, tudo fizeram, até mesmo promover perigoso obscurantismo, para impor ao país o governo que imaginavam lhes seria favorável na construção de políticas implícitas ou explícitas em defesa dos seus interesses. Querem controlar a "convergência", subordinando-a aos seus estreitos e ultrapassados limites. E talvez se iludam (não há, por enquanto, outra explicação) imaginando que ainda podem monopolizar, a partir "de cima", a produção do imaginário político e cultural do país. "Perdeu, playboy", diz-se na linguagem lúmpen. Resta saber se Dilma Rousseff entendeu isto.

Um ministério estratégico
Na cabeça e mãos da primeira presidenta do Brasil, encontra-se o desafio de reconstruir a indústria cultural brasileira, sem falar, claro, da valorização ética e estética de toda a enorme riqueza cultural do país ainda a margem e ao largo da produção capitalista. No governo Lula, se teve um ministério atento tanto à indústria empresarial quanto às expressões amadoras genuinamente populares, este ministério foi o da Cultura. Mas se há um ministério essencial para esta tarefa, este é o das Comunicações. Durante o governo Lula, foi omisso – mas o foi propositadamente omisso. O pouco que o governo avançou, quando avançou, deve-se a iniciativas da Cultura ou da sua Casa Civil – nesta brotaram os programas de "inclusão digital", inclusive, por último, o Plano Nacional de Banda Larga.

Dilma Rousseff não poderá seguir olhando para o Ministério das Comunicações como um espaço de barganha política. Nesta era da "sociedade da informação", da "economia criativa", do "capitalismo cognitivo", que outros nomes queiram dar ao atual capitalismo, as Comunicações são tão estratégicas quanto eram siderurgia ou petróleo nos anos 1950. Este é um segmento que já atinge 7% do PIB mundial (indústria eletro-eletrônica mais produção e programação de conteúdos audiovisuais). O Brasil não pode se atrasar nele. Espera-se que a presidenta Dilma nomeie para as Comunicações um ministro comprometido com um projeto estratégico de país, não com as vulgaridades da micropolítica partidária – e correspondentes interesses de um sistema ultrapassado de comunicação social.

O governo Dilma Rousseff já tem um programa para as Comunicações. Ele foi escrito pelo movimento popular, juntamente com o empresariado moderno e o próprio governo Lula, na 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom). Se Dilma se comprometeu, em seu primeiro pronunciamento, logo após anunciado o resultado, com a Constituição, a Confecom quer, justamente, ver regulamentado os artigos 220 a 224 dessa mesma Constituição. A Confecom quer mais: pediu programas de defesa, apoio, fomento à produção audiovisual brasileira, à diversidade cultural, à pluralidade de vozes. Reivindicou uma grande reforma normativa em direção à "convergência", mas priorizando a defesa da cultura brasileira, da economia e do desenvolvimento científico-tecnológico nacionais. E sustentou a necessidade de o governo implementar um programa de universalização da banda larga, em regime público (neste aspecto, o PNBL deixado pelo governo Lula não atende a esta demanda). Por fim, mas não por último, defende que os órgãos normativos e regulamentadores sejam transparentes, plurais, democráticos, na forma de Conselhos nos quais se possam ouvir as vozes dos diferentes segmentos da sociedade. 

O governo Dilma Rousseff terá quatro anos para pôr essas resoluções em prática, condição sine qua non de consolidação e aprofundamento dos avanços sociais e econômicos até agora conquistados. Para isto, precisará de um ministro das Comunicações comprometido com o movimento popular, com o capitalismo de fronteira e com as reformas democráticas por ambos aprovadas na Confecom. Já é mais do que passada a hora de o projeto representado por Lula e por Dilma, mais uma vez reafirmado nas urnas, assumir de uma vez por todas o comando desse ministério.  

Fonte: Observatório da Imprensa

novembro 02, 2010

Uma nova mídia está escrevendo o futuro

PICICA: Novas mídias estão nascendo. O futuro está começando. Com a expansão da banda larga em todo o país, ao final do governo Dilma Rousseff estarão consolidados os instrumentos que precisamos para mediar as relações entre os diversos campos das atividades humanas. Quem quiser se habilitar à produção de novos sentidos, está convidado a fazer parte de uma revolução nos meios de comunicação.


Terça-feira, 2 de novembro de 2010
ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 614 - 2/11/2010

CREDIBILIDADE EM QUESTÃO
O poder de persuasão da mídia

Por Washington Araújo em 2/11/2010



Assim como sabemos que após uma chuva a cidade fica molhada, sabemos também que é imenso o poder de persuasão que os meios de comunicação têm atualmente junto à sociedade: as manchetes dos jornais, as chamadas na TV, as notícias instantâneas na internet, os comentários nas emissoras de rádio, todos esses "suportes" do campo midiático ganham imediata repercussão, espraiando-se pela sociedade com velocidade alucinante. 

Ainda que em alguns casos não seja algo feito de caso pensado, é fato que a utilização de manchetes de jornais e capas de revistas em programas eleitorais dos candidatos à presidência da República tornou-se mais que corriqueiro no presente pleito de 2010. O candidato José Serra foi brindado com dezenas de manchetes, capas e ilustrações constantes de veículos da mídia impressa, com direito a que locutores leiam os textos e adicionem observações de condenação a quem já é contumaz condenado pelo jornalismo de nossas revistas e jornais de maior circulação.

Nos últimos dias da campanha, algumas manchetes do jornal Folha de S.Paulo sobre comprovada corrupção em licitação para construção de linhas do metrô paulista também se transformaram em material televisivo para a campanha de Dilma Rousseff. Mas nesse jogo de ver bola levantada na imprensa escrita em apoio candidato Serra, o tucano ganhou de lavada: converteu a cada semana diversas capas de jornais em material de sua propaganda política. A ocorrência do expediente só fez crescer o sentimento de que nossa imprensa mais vistosa não apenas tinha seu candidato ao Planalto como também se mostrou seu mais importante instrumento para alavancar votos e constranger sua principal oponente. E como tudo tem um custo – porque também na mídia não existe almoço grátis –, quem paga o preço mesmo é essa coisa muitas vezes intangível chamada credibilidade jornalística.


Interesses determinados

Uma análise mais detida dará conta que os processos comunicativos e os processos político-eleitorais são mais entrelaçados do que podemos imaginar. São vasos comunicantes em que se misturam tanto desprezo quanto preconceitos comezinhos pelo governo de plantão, com a almejada e incontida pressão para que haja alternância na chefia do Poder Executivo. É assim que práticas de corrupção em qualquer escalão do governo parecem estar sempre a poucos centímetros do presidente da República. O mesmo não ocorre com práticas similares afeitas à territorialidade do estado de São Paulo. 

Enquanto a campanha situacionista precisou se desdobrar para prover esclarecimentos, tomar ações administrativas de supetão, a campanha oposicionista pôde até "dar de ombros" para qualquer acusação que já foi suficiente para estancar qualquer iniciativa mais arrojada para continuar a investigação jornalística. Para um qualquer, onda pode se transformar em tsunami indonésio, enquanto para outro qualquer tsunami aterrador pode se transmutar em pequena marola de beira de praia.

A política, por estar representada com pessoas de diversas origens partidárias e ideológicas – seja pelo pouco "escolado" Tiririca ou por um "especialista em educação" Gabriel Chalita –, continua sendo palco para encenações e necessita da visibilidade proporcionada pelo campo midiático, já que qualquer acontecimento ou indivíduo só comprova que existe na sociedade se estiver representado na mídia. A visibilidade midiática e a complexidade desse meio levam os media a se constituírem enquanto campo social, isto é, a possuir regras e valores (axiologia), código e gramática próprios, e as costumeiras tensões com outros campos, além da busca por legitimidade, traço natural de qualquer campo social.

Conflitos e dinâmica da política diferem bastante daqueles que caracterizam o campo social da mídia. Política e mídia atraem para seu entorno um campo simbólico de disputa, onde parece reinar nossa velha conhecida lei da selva, segundo a qual cada um tem como principal missão defender seus próprios interesses. 

Principalmente os imediatos. Assim como a política exerce papel de articulação – articula ideias, lideranças, formulação legislativa e supervisiona a execução de políticas públicas –, a mídia também não prescinde desse mesmo papel e é a mídia que articula a informação que se transforma em notícia, a notícia que abastece a opinião e que desemboca na sociedade em uma mistura nem sempre palatável de fatos reais, fatos imaginados e opiniões sobre um e outro. A mídia sabe que para ter credibilidade – ser crível, digna de confiança dos consumidores de seus produtos – precisa, antes de tudo, ser pautada pela transparência e para a "publicidade" de fatos, com ênfase maior para aqueles carimbados como espetaculares ou pela simples ocultação ou supressão destes quando conflitarem com seus interesses.

Para escrever o futuro
Não faz muito tempo que a academia passou a considerar a mídia também como produtora de sentidos, e não somente mediadora entre os campos. E é no contexto da mídia como produtora de sentidos que percebemos que a visibilidade midiática se revela quase sempre através da massificação dos conteúdos jornalísticos, que movimentam um verdadeiro mercado no qual o consumo da informação não tem fronteiras econômicas, políticas, sociais, culturais ou comportamentais. É fato que em nossa sociedade do consumo da informação, da agilidade e da instantaneidade das notícias, ocorre a busca pelo que carregue nas tintas da diferença, do não-similar, do que trafega entre o grandioso e o épico, da aberração que se encaminha para a espetacularização pura e simples, se assim podemos dizer.

Não é arriscado inferir que se antes éramos buscadores de notícias, hoje a situação piramidal se inverteu por completo: são as notícias que nos buscam. E isso nos faz ter a sensação de que os telejornais são todos iguais, com variações meramente cosméticas, superficiais, e que a imprensa escrita, por trabalhar com as mesmas pautas, só pode se diferenciar uma da outra através da carga ideológica despejada no suporte por quem sabe apenas produzir jornalismo opinativo.

Crescendo o espaço de colunas de opinião, nos distanciamos mais dos fatos, da realidade factual, para tocar nas franjas de aspirações ideológicas. Mas se todos os colunistas rezam pela mesma cartilha ideológica, se tomam caminhos os mais diversos para trilhar e, ainda assim, insistem e forçam a barra para chegarem todos eles ao mesmo lugar e ao mesmo tempo, então estamos construindo um imenso edifício da singularidade em campanha aberta à pluralidade de pensamento. Enquanto o mundo se reorganiza em várias áreas de atuação, encontramos pesadas barricadas da mídia para manter tudo como está: não mexer em nada, fazer de conta que o mundo todo pode mudar, menos os seus conceitos do que é o jornalismo e a concepção de como poder ser exercido.

E não era, absolutamente, para ser assim. As transformações tecnológicas, os avanços da ciência que impactam tanto o que entendíamos como "acúmulo de conhecimento humano", tomaram de assalto os caminhos da informação desde sua produção até o seu usufruto. A concorrência dos suportes midiáticos tradicionais com os novos suportes – e o rápido acesso das massas da humanidade a seus poderes semimágicos a transitar entre o real e o virtual – formam um poderoso quebra-cabeças do que será a comunicação deste futuro-que-se-torna-presente quase que imediatamente.

A hesitação – ou seria o desnorteio? – dos que detêm o processo decisório sobre nossos veículos tradicionais de comunicação é que determina o tempo de sobrevida que lhes resta. Sábios e prudentes são os que aproveitam este momento atual para escrever o seu futuro, um futuro prenhe de coisas como pluralidade de pensamento, delegação de poder decisório, desconcentração de propriedade, abertura inaudita ao que é novo e ao que privilegia a velha e santa atividade de pensar.

Poderosos desdobramentos
A revolução no campo das comunicações, para sermos francos, ainda nem começou. Estamos vendo apenas os ingredientes serem apresentados um a um. Muitos destes nem se tornaram ainda conhecidos. Isto porque não existe caso na literatura humana que diga que as grandes revoluções do conhecimento começaram de fora para dentro. Não foram as máquinas que chegaram primeiro. Nem os tipógrafos, nem os foguetes chegaram primeiro ao mundo da existência. Primeiros eles brotaram dentro do ser humano e foram, como flor que é despetalada, se ajeitando, se organizando, encontrando seu lugar no mundo real.

Não demora mais três ou cinco anos e teremos condições de saber tudo o que acontece no mundo, do jeito que acontece, por que acontece desse e não daquele jeito e quais as consequências imediatas, no curto, médio e longo prazos do que aconteceu. E tudo isso será acessível a todos sem que paire sobre todos nós a ameaçadora sombra da incerteza e da dúvida.

Da mesma forma, não causará espanto algum se aqueles há tanto tempo marginalizados pela mídia, como se inexistentes fossem, resolverem ir a campo e criar seus próprios veículos de comunicação, seus próprios impérios de produção de sentidos e assumirem, eles mesmos, a mediação entre os campos em que se dá a atividade humana em toda a sua extensão e plenitude.

O futuro dos meios de comunicação tradicionais (rádio, jornal, televisão) precisa parar de lutar ante a evidência a que ele chegou, e daqui para a frente veremos não mais que seus poderosos desdobramentos. É tempo para se perceber como metáfora completa do dilema da comunicação estes versos de Pablo Neruda:


"Tu eras também uma pequena folha/ que tremia no meu peito./ O vento da vida pôs-te ali./ A princípio não te vi: não soube/ que ias comigo,/ até que as tuas raízes/ atravessaram o meu peito,/ se uniram aos fios do meu sangue,/ falaram pela minha boca,/ floresceram comigo."
Fonte: Observatório da Imprensa

setembro 30, 2010

Gilmar Mendes compromete a independência do poder judiciário, e já se fala em impeachment do gajo

O serviçal
Postada em joildo.net
Nota do blog: A charge acima, do Bessinha, não consta no post abaixo, do Observatório da Imprensa. É uma cortesia do PICICA. Aproveite e leia também sobre o que se fala nos corredores do Supremo: "impeachment de Gilmar Mendes".

COBERTURA ELEITORAL
O escândalo definitivo
Por Luciano Martins Costa em 30/9/2010




Comentário para o programa radiofônico do OI, 30/9/2010

Parece ironia, mas o último grande escândalo da atual campanha eleitoral não vai atingir a candidata do governo, mas seu principal adversário. Segundo a Folha de S.Paulo, foi após um telefonema do ex-governador José Serra que o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes decidiu pedir vistas do processo e interromper a votação da Ação Direta de Inconstitucionalidade impetrada pelo Partido dos Trabalhadores contra a obrigatoriedade de o eleitor apresentar dois documentos na hora de votar.
Tanto o ministro como o ex-governador negam ter conversado por telefone, mas um repórter da Folha testemunhou a ligação, e foi capaz até mesmo de reproduzir a introdução da conversa. 

Segundo o jornal paulista, José Serra ligou para Gilmar Mendes pouco antes das 14 horas de quarta-feira (29/9). Algumas horas mais tarde, Mendes pediu vistas do processo, interrompendo o julgamento, quando o pedido de suspensão da nova norma já tinha sete votos favoráveis à eliminação da exigência e nenhum contra. 

Relações impróprias
O que está em julgamento é a determinação, criada por lei do ano passado, de que o cidadão tenha que apresentar, na hora da votação, além do seu título eleitoral, outro documento com fotografia.

 
A direção da campanha da ex-ministra Dilma Rousseff concluiu, recentemente, que essa norma pode prejudicá-la, pois as pesquisas mostram que ela conta com os votos da maioria da população mais pobre e menos escolarizada, que tem mais dificuldade para obter documentos. Além disso, segundo o partido governista, muitos cidadãos de cidades do Nordeste atingidas por inundações e deslizamentos perderam seus documentos, o que os impediria de exercer o direito de voto.

Até ser interrompido pelo pedido de vistas do ministro Gilmar Mendes, o julgamento estava 7 a 0 em favor da extinção dessa exigência. Mendes alegou que o caso não era de urgência, uma vez que os interessados tiveram um ano para contestar a lei.

Teoricamente, sua alegação poderia ser justificada, mas a reportagem da Folha sugere que a decisão do ministro foi tomada sob influência de um dos candidatos.

A suspeita de relações impróprias entre um ministro do Supremo Tribunal Federal, ex-presidente da corte, e um candidato em disputa eleitoral, é o escândalo da hora.

O jornal por testemunha
Os jornais O Estado de S.Paulo e O Globo também noticiaram a suspensão do julgamento, e o Estadão chega a citar especulações sobre um eventual telefonema de José Serra ao ministro Gilmar Mendes, mas acaba optando por valorizar a declaração dos dois personagens, negando a ocorrência do telefonema.

Sabe-se, agora, que houve realmente a conversa telefônica antes da decisão do ministro porque os repórteres da Folha de S.Paulo puderam testemunhá-la. Além disso, se a polêmica se estender, a qualquer momento pode-se confirmar a ocorrência dessa conversação, por decisão judicial, consultando-se a empresa de telefonia celular utilizada.

Esse é o valor crítico do jornalismo presencial, no qual o repórter se coloca junto ao local dos acontecimentos, em vez de fazer a cobertura por telefone ou pela internet.

A informação bancada pela Folha equivale a uma denúncia de tráfico de influência e pode afetar a imagem do Supremo Tribunal Federal, que vem sendo criticado por não haver tomado uma decisão clara no caso da Lei da Ficha Limpa.

O Estadão publica na edição de quinta-feira (30/9) um comentário sobre a politização do Supremo, afirmando que a corte "há muito perdeu sua característica essencialmente constitucional".

O ministro Gilmar Mendes não tem certamente uma imagem pública favorável desde que mandou soltar o banqueiro Daniel Dantas. A suspeita de que toma decisões sob influência de um candidato configura escândalo de proporções republicanas, agravado pelo fato de que o ministro usou como justificativa para interromper o julgamento um argumento utilizado por José Serra na segunda-feira (27) – a de que o PT pretende mudar a regra do jogo na última hora. 

Um presente
Diante dos números contraditórios das últimas pesquisas eleitorais, os analistas de campanha vêm afirmando que apenas um fato novo poderia alterar o equilíbrio de forças nas eleições de domingo, 3 de outubro.

Apesar de toda a imprensa estar forçando, nos últimos dias, para que esse fato seja a discussão em torno da legalização do aborto, que em tese prejudicaria a candidata governista, o acontecimento envolvendo o candidato da oposição e um ministro do Supremo Tribunal Federal pode ser o elemento que faltava para definir se teremos ou não segundo turno.

Para os marqueteiros da candidata governista, a reportagem da Folha é um presente dos deuses.




Fonte: Observatório da Imprensa

setembro 25, 2010

Lúcio Flávio Pinto provoca os leitores do Observatório da Imprensa ao negar a existência do PIG

Bessinha
PARTIDO DA IMPRENSA GOLPISTA
A imprensa conspira? Desconfie dos profetas
Por Lúcio Flávio Pinto em 21/9/2010

Reproduzido do Jornal Pessoal nº 472, 1ª quinzena de setembro/2010
Existe realmente o PIG, Partido da Imprensa Golpista? Os petistas – seus aliados e porta-vozes – não têm dúvida: existe e age a todo vapor. Mas só conseguiram provar até agora (o que não é pouco) que os principais órgãos da imprensa brasileira não gostam de Lula e nem do PT, que preferem José Serra a Dilma Rousseff, que são conservadores e elitistas, e que defendem acima de tudo seus interesses corporativos. Mas ninguém apresentou uma prova da ação desses veículos de comunicação para romper a ordem legal no patrocínio das suas idéias, que contêm alguma dose de preconceito e má-fé. A democracia é suficientemente elástica para incluí-los na ordem legal como grupos de pressão, agindo às claras ou nos bastidores.

Golpísta, sem dúvida, foi O Estado de S. Paulo no combate ao governo de João Goulart. Seu diretor responsável, Júlio de Mesquita Filho, participou das conspirações que visavam a deposição do presidente constitucional do país. O segundo Mesquita na direção do grande jornal paulista se viciara no combate à margem da lei por causa do antagonismo extremado com o getulismo, antes e depois do Estado Novo (1937-45). Mas a virulência do famoso editorial que ele escreveu ("Instituições em frangalhos") contra a edição do AI-5, em 13 de dezembro de 1968, mostrava-o já do outro lado do balcão, de onde não mais retornou. A partir do ano seguinte, seu filho e sucessor na direção do centenário jornal, Júlio de Mesquita Neto, faria sua a resistência da redação às garras totalitárias do regime militar. Foi um dos períodos mais gloriosos da imprensa brasileira, glória feita de muita persistência e alguma coragem.

Enquanto o dono do Estadão se envolvia na relação promíscua com os militares e civis golpistas da década de 1960, o jornal de maior influência política na época, o Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, mesmo à margem das tratativas conspirativas, foi quem deu a senha para a derrubada do presidente e a adesão da classe média aos usurpadores do poder, com dois editoriais sucessivos ("Basta!" e "Fora!"), escritos por um jornalista de esquerda.

Tanto quanto os Mesquitas, os Bittencourt – então reduzidos a Niomar, mulher de Paulo, sucessor do fundador da empresa, em 1901, Edmundo – defendiam idéias, algumas delas, não sem certa ironia, semelhantes às do governo de Jango. O Correio também queria as reformas de base, mas depois de cumpridas as formalidades previstas em lei, incluindo a aprovação pelo Congresso Nacional e não por um golpe de mão do chefe de Executivo. Depois do comício de 13 de março de 1964, o jornal se convenceu, com sinceridade, que Jango queria criar um confronto para assumir plenos poderes, tornando-se um ditador. Iria tentar o golpe no qual Jânio Quadros fracassara, três anos antes.

Imprudência e irresponsabilidade
Se o Correio da Manhã estava certo ou não, é a face controversa da questão. Que se pronunciou pelo afastamento do presidente convicto de que era a única maneira de prevenir o golpe por cima, não há mais dúvida alguma. A maior parte da elite da redação do jornal era de esquerda. Foram esses jornalistas que conduziram o maior jornal que a República teve até hoje para a reação aos militares, a partir do segundo dia do golpe.
Contaram com a inexperiência e síndrome de heroísmo de Niomar Moniz Sodré Bittencourt para colocar o jornal em confronto aberto com o governo forte (e apoiado majoritariamente pela classe média e o povo em geral). O mesmo aconteceria, sob outras circunstâncias, com a Folha do Norte diante do coronel Jarbas Passarinho, no Pará (depois o jornal, com a morte do seu chefe lendário, Paulo Maranhão, passaria ao extremo oposto, mas já como caricatura do que fora, pronto para morrer).

Esse radicalismo infantil conduziu o Correio direto aos rochedos e ao naufrágio, com direito à tradicional fuga dos ratos antes de a nau adernar para o fundo da memória nacional, de onde nunca mais emergiu, para infelicidade da cultura brasileira. Não estava escrito nas estrelas que semelhante destino era inevitável diante de um governo forte, mas cheio de escrúpulos udenistas, como o do marechal Castelo Branco e mesmo o do seu companheiro de armas, Costa e Silva, o segundo presidente-general (o posto honorário de Castelo e vários outros, inclusive o que dirigiu a Folha do Norte nos seus estertores medíocres, foi extinto por excesso de demanda, mas não de qualificação).

Um pouco mais de realismo e de boa fé teriam permitido ao jornal contornar os perigos sem trair seus ideais, sobrevivendo às intempéries da época. Foi assim que o Estadão se comportou a partir do momento em que Júlio Neto assumiu o leme e estabeleceu o contraste com o pai conspirador. Colocou o jornal nos trilhos do profissionalismo, tendo como norte a busca da verdade, ainda que sujeita a todos os graus de variações em função da dinâmica cotidiana e dos miasmas editoriais da empresa.

Por isso se impôs ao respeito até dos inimigos. Nunca acatou a presença do censor estatal na redação, mas não pediu que ele se retirasse. Fez o que era certo: o combateu sem descanso. Quem acabou cedendo foi o governo militar, já no consulado do general Geisel. Em 1975, foi ele que tomou a iniciativa de retirar o censor. Era um presente ao centenário do jornal, que suspirou aliviado, mas não bateu palmas. Era seu direito voltar a assumir a plena responsabilidade pelos seus atos. O Correio da Manhã só não partilhou esse momento por imprudência e irresponsabilidade de alguns dos seus condutores, que queriam fazer história pessoal, não coletiva.

Mais recursos
Por acaso trabalhei nos dois jornais, efemeramente no Correio e muito mais no Estadão. Neste, durante grande parte da intervenção da censura. Como muitos outros na empresa, não tive gestos de heroísmo (daqueles que, depois, permitem o descanso do guerreiro, que viria a ser remunerado – imoralmente – já sobre as cinzas da ditadura), mas não cometi a menor das indignidades. Nem mesmo a de vergar a coluna para saudar o patrão (conforme a curvatura, sujeitando o acólito a exibir as partes pudendas ao distinto público).

Tive conflitos com a direção e seus prepostos, algumas vezes levados ao limite do rompimento. Em alguns saí perdedor, noutros venci. Tive que engolir certas matérias publicadas no jornal que considerava inverídicas ou tendenciosas. Mas vibrei ao conseguir dar à luz reportagens que contrariavam frontalmente não só o pensamento mais íntimo da "casa" como suas manifestações explícitas, através de editoriais. Foi o caso da série de reportagens sobre conflitos de terras na Amazônia, que só saiu depois de passar pelo crivo de um censor interno. Felizmente, o que decidiu a parada foi a capacidade dos litigantes em demonstrar sua verdade. A nossa foi maior do que a do oponente.

Vários livros já foram escritos sobre O Estado de S.Paulo. A meu ver, nenhum reproduziu satisfatoriamente a complexidade do funcionamento do jornal e da sua relação com o poder e a sociedade. Não tenho a menor dúvida, entretanto, que a história desse período se empobreceria se o Estadão não tivesse existido ou fosse conduzido a um falso destino e sucumbisse por não se ajustar ao campo de batalha. Na luta diária com a censura, bem ao nosso lado, aprendemos muito: a apurar melhor as informações, a escrever nossos textos de tal maneira que eles pudessem passar pelo crivo do censor sem se desnaturar (embora muitas vezes perdendo em clareza), a sermos responsáveis, a avivarmos nosso compromisso com o leitor e até mesmo a nos tornarmos maleáveis, sem perder de vista qual era o inimigo. E continuar a combatê-lo, sempre.
Com o fim da censura estatal, vários dos princípios adotados em conjunto – tanto pela empresa quanto pelos seus funcionários – se diluíram ou foram esquecidos. Há menos empenho pela verdade do que antes, mais condicionantes e uma profunda autocensura. As redações se encolheram, se submetendo mais docilmente às ordens pelo risco da perda do emprego valioso. Ou então adotaram um espírito sindical e corporativo, que reduz o horizonte de visão e estreita as margens da atuação.

Com todos esses problemas, é melhor ter a atual imprensa do que vê-la sujeita a novos, mais sutis e não menos poderosos mecanismos de interferência – e mesmo de intervenção – do governo, sempre um macaco em loja de louças quando se trata de apurar o grau de liberdade em sociedade – e as manifestações do espírito humano.
A chamada grande imprensa continua a abusar do seu poder e a tentar conduzir a opinião pública para onde lhe interessa, mesmo que não seja através dos fatos e da verdade. Mas hoje as formas de denunciar essa conduta são mais amplas, imediatas e convincentes do que nunca – e estão ao alcance do cidadão médio. Não é a ausência de meios de expressão que surpreende, mas a dificuldade que esse cidadão médio enfrenta para dar conteúdo à sua manifestação.

Reportagem negligenciada
A internet é um alto-falante como jamais houve igual pelo seu poder de alcance e de convencimento, além da instantaneidade do seu efeito. A potência do meio, porém, contrasta com o raquitismo da mensagem. Blogs e sites são tecidos através de adjetivações e sentenças, mas lhes faltam fatos, argumentos e até mesmo razoabilidade.

A revista Época, por exemplo, integrante do PIG por sua dupla condição de filiada às Organizações Globo e à Folha de S. Paulo (sócia da Globo no diário Valor Econômico), foi acusada pelos "anti-piguismo" de golpe baixo numa matéria sobre o passado da candidata do PT na luta armada contra o regime militar. Os exemplares da revista acabaram rapidamente nas bancas e livrarias por conta dessa propaganda involuntária.

Li a reportagem e sua continuação na edição seguinte. Nada encontrei que pudesse justificar o tom de indignação dos adeptos de Dilma Rousseff. A matéria se enquadra na boa técnica jornalística: fatos apurados, narrativa correta, versões acolhidas. Claro que a revista, pró-Serra, destacou sua própria interpretação dos acontecimentos. A imprensa existe também como órgão da opinião pública. Suas informações, entretanto, podiam fundamentar interpretação oposta à dela.

Pode-se encontrar elementos de aproximação entre Época e Veja, mas uma leitura comparativa das duas revistas mostrará que elas estão muito longe de formar um todo homogêneo, compacto, monolítico. Época melhora em qualidade jornalística. Veja só tem piorado. Não porque seja menos "serrista". Simplesmente por informar menos, com menos dados concretos e mais adjetivação na linguagem. Suas matérias costumam virar editoriais pouco conspícuos quando trata de temas políticos, eleitorais, ideológicos e até culturais. Um contraste enorme com a Veja de anos atrás, que não era menos conservadora do que agora.

Só um fanático haverá de considerar como gêmeos O Estado de S.Paulo e a Folha de S.Paulo. O problema não é ideológico, ou não é esta a questão principal: é técnico. Mesmo quando experimentava sua iconoclasta aventura esquerdista, a Folha não era confiável nos dados. Tinha diversidade de opiniões, o que ajudava o leitor a também opinar, mas era carente de reportagens boas, daquelas que contribuem para se informar suficientemente bem para julgar melhor. Hoje, que deu uma volta de 360 graus às origens, a Folha não ficou melhor.

Até melhorou quanto à parte opiniática. O que piorou foi a reportagem. O mesmo aconteceu com o Estadão. Só que um dos últimos patrimônios da grande folha dos Mesquita ainda é refletir com nitidez e consistência a opinião da plutocracia paulista. Pode-se e deve-se discordar dos editorais do Estadão. Lê-los, porém, é um aprendizado como poucos sobre a sociedade brasileira – e sua história.

Edição leviana
Receber os boletins do Grande Irmão é o pior que pode acontecer. Nunca houve imprensa digna do nome no chamado "socialismo real", o único que existiu na prática até a queda do muro de Berlim, em 1989. A liberdade não tem sobrevivido ao dia seguinte das revoluções, com ênfase nas socialistas.

O socialismo é a meta por excelência dos sonhos de igualdade dos povos, mas não conseguiu dar uma boa resposta ao desafio da oposição. Sua tendência dominante é esmagá-la, sob os mais generosos e altissonantes pretextos (como os de Leon Trotski na revolução bolchevique). Aí começa a tirania, que pode ser mais duradoura do que as de direita e não ter o fim adequado.
Para que não haja novas desilusões, deve-se resistir à tentação de condenar os críticos e adversários só porque não partilham a nossa opinião. Sustentar um campo – se não neutro – objetivo, no qual as partes possam dialogar e medir forças com as armas da razão, com argumentos, através da demonstração da verdade. Não com tacapes e rasteiras.

Esse território só existirá – ou só se manterá – com plena liberdade de expressão e uma imprensa sem peias, exceto as dos cidadãos, sem a interferência do leviatã estatal. A imprensa continua repleta de vícios e erros, muitos deles graves, como o de editar levianamente as cartas dos leitores e desprezar o direito de resposta, além de não quebrar a cadeia dos elos corporativistas. Mas essa invenção do PIG é para puni-la ou extingui-la pelos seus acertos. Ainda que poucos, necessários à democracia, planta tão frágil neste país sempre autoritário.


Comentários(9)


Cristiana Castro , Rio de Janeiro-RJ - Advogada
Enviado em 25/9/2010 às 03:25:53
Olha Lúcio Flávio, aí na sua terra eu não sei mas aqui na minha existe e existe mesmo. Nasci logo após um golpe efetivo, comprovado pelas próprias matérias dos jornais e vivi, ninguém me contou, eu VIVI mais três. E era golpe mesmo, não tinha nada a ver com liberdade de Imprensa, não. Tentativa explícita de alterar o resultado do pleito. E aqui nem estou contabilizando a eleição e derrubada de F. Collor. Aqui no RJ, não existe dúvida nenhuma, a respeito. Espero que por aí não seja assim. Aqui, novela convoca pro Cansei. Tá bom prá vc? Imagine uma novela convocando para uma invasão do MST ou da Via Campesina? A chapa aqui é quente, companheiro.
Denise Valente Azevedo , Rio de Janeiro-RJ - Arquiteta
Enviado em 24/9/2010 às 12:12:46
Olhando esta matéria, me pergunto a que ponto o ser humano chegou ao seu auto-engano . Um pouco de análise seria preciso para que um jornalista podesse pelo menos entender que todo ponto de vista é referenciado, o que não é errado . O grande absurdo nesta pseudo honestidade dele é não se ver como um ser humano e sim como detentor da verdade . Não pronunciar seu favoritismo com ser humano e ao mesmo tempo ser um profissional integro que apura a fundo fatos e atos e depois se dispõem como tal a relata-los . Como todo profissional de qualquer área o jornalista tambem pode ter suas convicções . Porem não pode omitir fatos ou escamotear dados . Este é o grande problema da atual imprensa é partidarista sem dizer que é. Pelo menos no tempo da ditadura sabiamos onde estavam os censuradores hoje eles são os donos dos jornais?
Claudio Silva , Belém-PA - e
Enviado em 24/9/2010 às 11:34:29
A discussão sobre a existência do PIG é válida, mas, como em tudo no Brasil, toma uma proporção exaustiva. Descontados os argumentos irracionais de parte a parte, o que resta é um conflito de interesses, onde cada um tenta impor suas ideias. O ruim é que, no meio desta celeuma toda, quem perde é a parte mais vunerável - o povo, para variar -, que, na maioria das vezes, não possui visão crítica para saber o quão está sendo manipulado por notícias que pululam nos meios de comunicação, ditos isentos. Por outro lado, dos ditos progressistas, há uma tentativa permanente de desqualificar, por mínima que seja, qualquer notícia que ouse criticar o governo de plantão, ao qual eles se apegam tanto. Nesse ponto, é importante termos em conta a opinião de um jornalista como Lúcio Flávio que, por todo seu histórico, sua conduta, tem autoridade suficiente para contribuir com o arrefecimento de ânimos de parte a parte, principalmente neste instante de paixôes políticas exacerbadas. Por outro lado, é interessante saber se as pessoas que cunharam o termo PIG entendem da magnitude de um termo como o golpe. Muitos deles viveram os anos de ditadura militar e não conseguiram extrair lição da tragédia imposta aos meios de comunicação daquela época, nada comparável, nem de perto, ao ambiente que temos hoje, como faz referência o autor do artigo.
Rogelio  Casado , Manaus-AM - Médico
Enviado em 24/9/2010 às 11:10:48
Se a "internet tem poder de alcance e de convencimento", amparada na "instantaneidade do seu efeito", como você sugere em seu artigo, certamente não foi o "raquitismo da mensagem", tampouco as "adjetivações e sentenças"com que são tecidos os "blogs e sites" - convenhamos, uma generalização incabível -, muito menos a falta de "fatos, argumentos" e "razoabilidade" da mídia alternativa, como alguns a denominam, nada disso ocuparia o tempo do jornalista mais corajoso do norte do país se não fosse indisfarçável mal estar provocado em nossa sociedade por uma imprensa que goza da falta de um marco regulatório para sua prática. Para além das questões técnicas do fazer jornalístico, dissociá-la das questões ideológicas que o permeia, me parece uma temeridade. Acho louvável seu cuidado para com os excessos entre as partes. Mas, aposto que é desse confronto que nascerá o novo território que desejamos.
Antonio Verdadeiro , São Paulo-SP - professor
Enviado em 24/9/2010 às 10:43:36
Pois bem. Se já foi comprovado que a grande imprensa não gosta do Lula nem do PT e que apóia Serra, então está comprovado que ela age como um partido político. Além disso, há diversas comprovações de má fé por parte da Globo, Folha e Veja. Sem dúvida muitas reportagens se "enquadram na categoria de bom jornalismo", pensado do modo puramente formal. Mas nem todas. Leia o blog do Nassif. Curiosamente, as que não se enquadram são costumeiramente contra Dilma. Achar que o movimento anti-pig ameaça a existência dos jornais é no mínimo ingenuidade. O movimento tem algumas milhares de pessoas, bem menos que os assinantes dos jornais, além de também possuir um capital político e econômico infinitamente menor. Além disso, a maioria de seus representantes mais influentes não defendem nem a extinção da imprensa empresarial livre, nem sequer o controle social dos meios de comunicação. Embora alguns de seus membros defendam realmente essa última proposta. A maioria dos anti-piguistas defendem apenas a descentralização do controle dos meios de comunicação, que hoje se encontra nas mãos de 8 famílias. Essa concentração, como todos sabemos não se deu somente pelas forças do mercado e pela livre escolha dos consumidores. Se deu em grande parte pela aproximação dessas famílias com o poder político, muitas vezes um poder ditatorial.
Montezuma  Cruz , Guará I-DF - Jornalista
Enviado em 23/9/2010 às 17:12:56
Lúcio Flávio Pinto alerta: não se condena críticos e adversários apenas porque não partilham a nossa opinião. Goebels está aí, redivivo, babão. Admiro o Presidente Lula, com quem participei de um comício na carroceria de um caminhão na primeira campanha eleitoral para o governo estadual rondoniense, em 1982. Repudio seus atuais arroubos, ao mesmo tempo em que discordo dos excessos por ventura cometidos por repórteres que não apuram ou por editores e patrões deliberadamente dispostos a julgar ou punir. Vislumbro um horizonte sombrio e jamais concordarei com métodos reacionários tais quais os praticados pela repressão política nos anos 1970 e 80, tempos em que a censura baixou às Redações e as bancas "voaram" sob o efeito de bombas fabricadas por aqueles que deveriam nos guarnecer contra inimigos pátrios, nunca contra a imprensa livre. Nos anos 1960 do século passado, o senhor governador Sarney mandou apreender exemplares da revista "O Cruzeiro" (queimada em seguida) quando chegou ao Aeroporto de São Luís. Não aprecio apurações imediatas, malfeitas, que se transformam em reportagens incompletas. Revistas têm praticado esse jornalismo. No entanto, jamais discordarei de fatos escancarados, impossíveis de serem varridos para baixo do tapete, feito tapar o sol com a peneira. Em relação aos honestos, o que dizer? O País perdeu-os. Ainda temos os corretos. Menos mal. É um grande bem.
Zé da Silva Brasileiro , Belo Horizonte-MG - Bancário Aposentado
Enviado em 23/9/2010 às 12:30:48
É uma pena que o competente Lúcio Flávio não tenha avançado um pouco mais para dizer que os jornais e revistas, enquanto não concessionários de serviço público, podem sim e devem, de forma absolutamente legítima, expressar suas opções político-eleitorais, desde que o façam nos editoriais, espaço privilegiado e exclusivo de manifestação da opinião do dono de jornal que o escreve de próprio punho ou se serve de um jornalista assalariado que deve anular-se ao ponto de esquecer a sua própria opinião para, com a fidelidade canina que dele se espera , compreender e manifestar a opinião do seu patrão. De outro lado se espera, nas páginas do noticiário, um mínimo de compromisso com a verdade factual. O que está envenenando o ambiente é o processo de inversão de valores. No espaço do editorial, onde os herdeiros midiáticos deveriam expor suas compreensíveis e legítimas preferências político-eleitorais, eles preferem anunciar um discurso de imparcialidade e isenção em que somente os mais obtusos acreditam. Já no espaço destinado ao noticiário, onde deveria haver um mínimo de compromisso com a verdade factual, eles demonstram até nas vírgulas, com uma sutileza de elefantes em lojas de louça, as suas preferências político-partidárias. Talvez seja o caso de os jornais brasileiros procurarem aprender com os grandes jornais norte-americanos ou europeus.
Ricardo Pereira , Campinas-SP - quimico
Enviado em 22/9/2010 às 16:40:03
"A revista Época, por exemplo, integrante do PIG por sua dupla condição de filiada às Organizações Globo e à Folha de S. Paulo (sócia da Globo no diário Valor Econômico), foi acusada pelos "anti-piguismo" de golpe baixo numa matéria sobre o passado da candidata do PT na luta armada contra o regime militar. Os exemplares da revista acabaram rapidamente nas bancas e livrarias por conta dessa propaganda involuntária." Caro jornalista, a quem vc quer convencer com este comentario? Ao publico deste site? Vai ter que gastar mais neuronios nesta empreita. Como diria um certo jornalista : a intençao da revista ao publicar isto é de conhecimento do mundo mineral. Se este assunto tivesse surgido em um momento nao eleitoral, a titulo de curiosidade (especialidade deste tipo de revista generica), eu concordaria contigo. Ou seja, tudo é uma questao de contexto. Simples assim.
Silvério Cardoso Corrêa , Juiz de Fora-MG - Advogado
Enviado em 21/9/2010 às 11:59:43
Esqueceu de dizer que não há nada demais ou errado que esses veiculos de comunicação tomarem partido de determinado candidato e por eles trabalharem. Isso é normal, é natural. Isso é o que tem feito esses veiculos de comunicação, é claro, é obvio que tendem a acolher as propostas da oposição, nesta eleição personificadas pelo tucano José Serra. Só que esses meios de comunicação não são suficientemente HONESTOS para dizerem claramente isso em seus editoriais, deveriam como fez a revista Carta Capital, sendo honesta que em editorial com toda clareza esclareceu aos leitores de que lado está nesta eleição. Falta HONESTIDADE aos meios de comunicação, citando-os: Folha, Veja, Globo e Estadão. São DESONESTOS portanto.
Fonte: Observatório da Imprensa

Nota do blog:  A charge do Bessinha, acrescentada neste post, não consta no texto postado no Observatório da Imprensa. É uma cortesia do PICICA.
 

setembro 16, 2010

O ataque dos pássaros

FOLHA DE S. PAULO
Suzana Singer


Por Suzana Singer em 14/9/2010
"O ataque dos pássaros", copyright Folha de S. Paulo, São Paulo (SP), 12/9/10.

"A Folha vem se dedicando a revirar vida e obra de Dilma Rousseff. Foi à Bulgária conversar com parentes que nem a candidata conhece, levantou a fase brizolista da ex-ministra, suas convicções teóricas e até uma loja do tipo R$ 1,99 que ela teve com uma parente no Sul. Tudo isso faz sentido, já que Dilma pode se tornar presidente do Brasil já no primeiro escrutínio que disputa.

Mas, no domingo passado, o jornal avançou o sinal ao colocar na manchete ‘Consumidor de luz pagou R$ 1 bi por falha de Dilma’. O problema nem era a reportagem, que questionava a falta de iniciativa do Ministério de Minas e Energia para mudar uma lei que acabava por beneficiar com isenção na conta de luz quem não precisava.

Colocar uma lupa nas gestões da candidata do governo é uma excelente iniciativa, mas dar tamanho destaque a um assunto como este não se justifica jornalisticamente.

Foi iniciativa de Dilma criar a tal Tarifa Social? Não, foi instituída no governo Fernando Henrique Cardoso. É fácil mexer com um benefício social? Não, o argumento de que faltava um cadastro de pobres que permitisse identificar apenas os que mereciam a benesse faz muito sentido. Existe alguma suspeita de desvio de verbas? Nada indica.

O lide da reportagem dava um peso indevido ao que se tinha apurado. Dizia que a propaganda eleitoral apresenta a candidata do PT como uma ‘eficiente gestora’, mas que ‘um erro coloca em xeque essa imagem’. Essa tem que ser uma conclusão do leitor, não do jornalista.

Uma manchete forçada como a da conta de luz, somada a todo o noticiário sobre o escândalo da Receita, desequilibrou a cobertura eleitoral. Dilma está bem à frente nas pesquisas de intenção de voto e isso é suficiente para que se dê mais atenção a ela do que a seu concorrente, mas, há dias, José Serra só aparece na Folha para fazer ‘denúncias’. Nada sobre seu governo recente em São Paulo. Nada sobre promessas inatingíveis, por exemplo.

Os leitores perceberam a assimetria. Durante a semana, foram 194 mensagens à ombudsman protestando contra o noticiário, mas o maior ataque ocorreu no Twitter, a rede social simbolizada por um pássaro azul, que reúne pessoas dispostas a dizerem o que pensam em 140 caracteres. Até quinta-feira passada, tinham sido postadas mais de 45 mil mensagens anti-Folha.

Criatividade
Os internautas inventaram manchetes absurdas sobre a candidata de Lula: ‘Empresa de Dilma forneceu a antena para o iPhone 4’, ‘Dilma disse para Paulo Coelho, há 20 anos: continue a escrever, rapaz, você tem talento!’, ‘Serra lamenta: a Dilma me indicou o Xampu Esperança’ e ‘Errar é humano. Colocar a culpa na Dilma está no Manual de Redação da Folha’.

O movimento batizado de #Dilmafactsbyfolha virou um dos assuntos mais populares (‘trending topics’) do Twitter em todo o mundo, impulsionado, em parte, pela militância política -segundo levantamento da Bites, empresa de consultoria de planejamento estratégico em redes sociais, 11 mil tuítes usaram um #ondavermelha, respondendo a um chamamento da campanha do PT na rede. Até o candidato a governador Aloizio Mercadante elogiou quem engrossou o coro contra o jornal.

Mas é um erro pensar que apenas zumbis petistas incitados por lideranças botaram fogo no Twitter. O partido não chegou a esse nível de competência computacional.

Na manada anti-Folha, havia muito leitor indignado, gente que não queria perder a piada, além de velhos ressentidos com o jornal.

Não dá para desprezar essa reação e a Folha fez isso. Não respondeu aos internautas no Twitter e não noticiou o fenômeno. O ‘Cala Boca Galvão’ durante a Copa virou notícia. No primeiro debate eleitoral on-line, feito por Folha/UOL em agosto, publicou-se com orgulho que o evento tinha sido um ‘trending topic’. Não dá para olhar para as redes sociais apenas quando interessa.

A Folha deveria retomar o equilíbrio na sua cobertura eleitoral e abrir espaço para vozes dissonantes. O apartidarismo -e não ter medo de crítica- sempre foram características preciosas deste jornal."

Fonte: Observatório da Imprensa