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novembro 26, 2010

O ódio pequeno burguês aos pobres

PICICA: "(...) “o pequeno burguês se faz pequeno para ser burguês”, quer dizer, é melhor ser um burguês minúsculo (e medíocre) do que ser um pobre. (...) O ódio que expressam quando falam dos pobres é um ódio que, na verdade, poderia ser voltado a si mesmos. Odeiam-se por estarem tão próximos dos pobres, mas não conseguem enxergar essa proximidade como o que ela é: o fato de fazerem parte de uma fração mediana da pirâmide econômica, sem o capital – financeiro, social, cultural – necessário para serem alçados à classe mais alta."

Pierre Bourdier
Imagem postada em bracosaoalto.blogspot.com

A Mídia, Prates, Pondé e os pobres



Na mesma semana, dois fenômenos idênticos: de um lado, um “tal de” Luiz Carlos Prates (desculpem, eu o desconhecia até então) diz na TV que pobres não devem ter carros; do outro, o intelectual (?) Luiz Felipe Pondé lamenta no jornal o fato de pobres viajarem de avião. Manifestações que chocaram muitos telespectadores e leitores.

Prates e Pondé são figuras emergentes no Olimpo dos repetitivos popstars da grande mídia, que tem ainda o vazio Arnaldo Jabor e os Veja boys Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo entre seus membros, todos altamente irritados com o governo Lula.


Não vou entrar nos méritos do atual presidente. Mas o fato é que seu governo permitiu, sim, que muitos pobres – embora não todos – passassem a comprar mais, a realizar “planos” ou “sonhos” de consumo. Ainda que o carro não seja zero quilômetro e a viagem de avião seja comprada em uma promoção, o fato é que uma parcela da população mais pobre saiu do patamar da mera satisfação de necessidades para o nível da realização de desejos. E isso incomoda muito aos colunistas e comentaristas da mídia.


A principal função do consumo na atualidade não é satisfazer necessidades, mas diferenciar e identificar os consumidores em grupos. Ou seja: diferenciar os pobres da classe média e identificar entre si os membros da classe média. Mas e os ricos? Bem, os ricos estão acima disso tudo, seguros em sua diferença porque seu dinheiro provém do capital e não da renda e essa é uma vantagem estratosférica na lógica da diferenciação.


A partir do momento em que um pobre pode comprar as mesmas coisas que eu, que sou da classe média, pouco me diferencia dele e meu lugar privilegiado na ordem social está ameaçado. Meu pequeno consumo (no sentido de pequeno burguês) de luxo se torna algo básico e acessível a todos. Se os pobres passam a ter autonomia de consumir o mesmo que eu, eles passam a integrar o mesmo espaço que eu na pirâmide da dominação social. E isso me obriga a gastar mais, a trabalhar mais e a me endividar mais caso eu queira continuar me diferenciando pelo consumo e queira subir um degrau nessa escala. A situação é de total insegurança: meus limites estão abalados, minha estabilidade econômica também e minhas certezas mais profundas, idem. Os pobres estão mais próximos de mim do que nunca e meu pavor de me tornar um deles começa a se concretizar.


Em
O Mal-Estar na Civilização, Freud mostra que é a proximidade do outro que incomoda. (O livro, um dos mais importantes de Freud para pensar a sociedade, você baixa aqui). Quanto mais semelhante ele é de nós, mais o desprezamos, principalmente porque essa semelhança ameaça a noção construída de “nós” e de “outros”. As menores diferenças nos servem para construir tal diferenciação, e Freud deu a isso o nome de “narcisismo das pequenas diferenças”, O dinheiro e, no capitalismo atual, principalmente o consumo – sim, podemos consumir sem ter dinheiro, graças a cheque especial, cartão de crédito e financiamentos – ajudam a classe média a forjar sua “pequena diferença” em relação aos pobres.

Freud é bem específico:

"É sempre possível unir um considerável número de pessoas no amor, enquanto sobrarem outras pessoas para receberem as manifestações de sua agressividade" (p. 136 da edição da Imago).
A diferença forjada é o principal elemento para legitimar a estratificação social e, com ela, a dominação de um grupo sobre outro. E quando falamos em mídia falamos em dominação.

Um dos principais estudiosos contemporâneos da mídia, John B. Thompson mostra que todo o conteúdo produzido pela mídia é ideológico. Ele estuda os principais conceitos de ideologia da filosofia e da política – Marx, Napoleão, Lukács, Lênin, Mannheim – e elabora uma definição própria do termo: ideologia é um sistema de crenças e práticas que serve para estabelecer e sustentar as relações de dominação. (O desenvolvimento e definição literal do conceito estão em seu livro
Ideologia e Cultura Moderna, Editora Vozes.) Thompson também mostra que uma das mais eficazes práticas ideológicas é a diferenciação entre “nós” e os “outros”.

Os (pseudo)intelectuais que proliferam na mídia – comentaristas e cronistas que expressam opiniões preconceituosas contra os pobres, como Pondé, Prates, Jabor, Mainardi, Azevedo – têm espaço privilegiado nos veículos e estão ali por uma razão. Eles são capazes de produzir argumentos, elaborar teses, forjar ideias, colocar em palavras a lógica nem sempre consciente de diferenciação à qual a classe média se apega para construir sua identidade e excluir os pobres de quase todos os campos da vida em sociedade. Esses “intelectuais” – alçados a esse posto não por sua competência e conhecimento, mas por dizerem o que certos grupos querem ouvir – alimentam com suas frases bem construídas a fragmentação da sociedade em camadas e a diferenciação entre cada uma delas. E não é por acaso que “situam” a diferença no universo do consumo e do prazer. São esses os elementos que humanizam o outro, o pobre, e os aproximam cada vez mais da classe média.


O ódio que expressam quando falam dos pobres é um ódio que, na verdade, poderia ser voltado a si mesmos. Odeiam-se por estarem tão próximos dos pobres, mas não conseguem enxergar essa proximidade como o que ela é: o fato de fazerem parte de uma fração mediana da pirâmide econômica, sem o capital – financeiro, social, cultural – necessário para serem alçados à classe mais alta.


Pierre Bourdieu, um mestre da sociologia e do estudo das formas de diferenciação de classe, além de “pai” dessa visão do capital como algo que vai além do dinheiro, tem duas falas muito apropriadas em seu livro A Distinção (pdf) para pensar esse ódio dos pobres. Uma é sobre a classe média (pequena burguesia): “o pequeno burguês se faz pequeno para ser burguês”, quer dizer, é melhor ser um burguês minúsculo (e medíocre) do que ser um pobre. A outra é sobre os intelectuais. Diz que eles são a fração dominada da classe dominante, ou seja, o capital de que dispõem (conhecimento, talvez, ou o mero bom uso das palavras) não é suficiente para lhes dar o poder, apenas para colocá-los a serviço do poder. Duas ideias para ter em mente na próxima vez que você abrir um jornal ou ouvir um “tal de” Prates falar na TV.

Fonte: O Pensador Selvagem

novembro 17, 2010

O imaginário da violência é alimentado pela mídia, segundo o professor Adrelino Campos, da Uerj

PICICA: "A violência tem muito do imaginário", afirma o professor. "As pessoas passam a enxergar as coisas a partir desse discurso. Quem vive no lugar apontado como violento reconhece o problema, mas não com a intensidade que lhe é atribuída. Para eu tornar um lugar violento, basta colocá-lo na mídia. O imaginário da violência potencializa os fatos."

Quarta-feira, 17 de novembro de 2010
ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 616 - 16/11/2010

ENTREVISTA / ANDRELINO CAMPOS
Mídia alimenta imaginário da violência
Por Mauro Malin em 16/11/2010



O professor de Geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Andrelino Campos vê na atuação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) fluminenses não apenas um instrumento de combate à violência, mas também de reordenamento do solo urbano. E lamenta que o foco da mídia se concentre na questão do tráfico de drogas e suas consequências, porque a mídia robustece assim o imaginário da violência, socialmente tão importante quanto a violência propriamente dita. 

Andrelino Campos é autor do livro Do Quilombo à Favela – A Produção do "Espaço Criminalizado" no Rio de Janeiro, publicado em 2005. Ele dá como exemplo de imaginário de violência inflado o Jardim Catarina, considerado um dos bairros mais violentos do município de São Gonçalo, no Grande Rio. "Alguns pontos são destacados, ganham a atenção da imprensa, e qualquer evento passa a ser visto como tributário do tráfico. Na verdade, só uma parte da violência é decorrente do tráfico de drogas. Quanto se começa a mostrar muito determinada coisa, podemos ter certeza de que outras coisas, muito relevantes, ficarão escondidas", desconfia. 

E exemplifica:

"A cocaína faz parte do ambiente no Rio de Janeiro, mas não é um ponto central na favela. Existem vários outros fatores geradores de violência. A violência na escola, por exemplo, tem sido noticiada. O fato é que até algum tempo atrás as famílias tinham maior controle sobre as crianças. Hoje, as crianças chegam da escola e ficam sozinhas. Crescem sem controle nenhum. E, pior, muitos chegam à adolescência e à idade adulta sem qualquer tipo de formação."

Fora de foco
Na lista de fatos ou fenômenos que não são devidamente percebidos porque o foco da mídia está muito voltado para o "combate" ao tráfico, Campos cita uma forma de corrupção associada ao Bolsa Família: "Há crianças que não frequentam a escola, mas os pais corrompem diretores para evitar que isso chegue ao conhecimento de quem é responsável por fiscalizar o cumprimento dos compromissos que habilitam ao benefício".

A degradação de padrões morais se apresenta em várias modalidades. Segundo Campos, em São Gonçalo algumas famílias descobriram como ganhar dinheiro de professores. "Ameaçam ir ao Ministério Público ou a uma delegacia de polícia denunciar o professor por agressão ou assédio contra aluno. Cobram do professor, cujo salário, dando aula em duas ou três escolas, está na casa dos R$ 2 mil, R$ 500 para não fazer isso. Em alguns casos, o professor acaba preso."

A questão do ensino, em si, também não merece da mídia a atenção necessária, diz o professor da Uerj: 

"Os professores são recém-formados, nas escolas se colocam vinte, trinta alunos em cubículos. As escolas acabam servindo para muitas outras coisas que não a educação: comer, dormir, jogar bola. Servem até para ensinar. Não é de estranhar que haja tanta violência nelas."

Escola é síntese da sociedade
"A escola está violenta, mas ela é uma síntese da sociedade", diz o professor. "Recebe pessoas que vêm da sociedade e as devolve para ela. Como se sabe, em muitas escolas os alunos marcam sua filiação a uma das organizações criminosas do Rio pela escolha de um boné de determinada cor. Os garotos assumem uma cor, sem mesmo saber por quê."

Não estaria havendo uma deficiência nas pautas da imprensa? Para Campos, não: "A mídia é direcionada. Tem interesse em dizer algumas coisas e não outras. Dirige a cobertura para a violência e a ação da polícia".

"A violência tem muito do imaginário", afirma o professor. "As pessoas passam a enxergar as coisas a partir desse discurso. Quem vive no lugar apontado como violento reconhece o problema, mas não com a intensidade que lhe é atribuída. Para eu tornar um lugar violento, basta colocá-lo na mídia. O imaginário da violência potencializa os fatos."

Como assim?

"Se, quando ocorre um evento violento, ele é noticiado e depois o caso e o local saem do noticiário, não existe a potencialização. Mas em alguns casos, sobretudo quando acontece algo muito violento, um lugar é associado com a violência durante um longo período. Como no caso do assassinato do menino João Hélio [Fernandes Vieites, nascido em 2000; durante assalto ao carro da mãe em Oswaldo Cruz, Zona Norte, em 2007, ficou preso pelo cinco de segurança do lado de fora e foi arrastado por centenas de metros quando os ladrões levaram o carro]. Se a cobertura se prolonga, sempre haverá alguém que leia o caso como novo. O jornal administra o assunto em doses homeopáticas, até que ele se exaura completamente, ou melhor, seja cortado por outro evento. O jornal faz, na dimensão do tempo, uma conexão do local com eventos violentos que não corresponde à vida real."

Segundo Campos, a cidade toda é pontilhada de eventos, mas o tratamento dado na mídia é seletivo. "O assassinato de Artur Sendas [2008], um empresário importante", exemplifica, "ocorreu em Ipanema. Mas Ipanema não perdurou no noticiário como lugar de violência. Há outras coisas para se falar de Ipanema, coisas positivas. O assunto só retornou à mídia quando houve o julgamento do assassino."

Outra faceta da dimensão temporal é a ligação que se faz entre fatos ocorridos em momentos distintos. O professor da Uerj aponta: 

"A mídia falada, por exemplo, quando relata um fato novo, sempre vai buscar referência em algum fato antigo. Há uma invasão policial no Morro dos Macacos, virá como referência a derrubada de um helicóptero da polícia ocorrida lá, fato gravíssimo, não há dúvida, mas sem conexão com a invasão que está sendo noticiada."

Cidade e território
O professor faz uma distinção entre cidade e território. "Copacabana, Ipanema, Madureira são parte da cidade. A Serrinha, o Vidigal, a Cidade de Deus são territórios. Território é um recorte espacial onde pré-existe uma hierarquia e o conflito é constante." Há fatos violentos na cidade, mas a polícia não invade os lugares da cidade. "Quem vive em favela pode ser invadido a qualquer momento, porque território é um lugar de luta", constata.

A associação entre a dimensão espacial e o imaginário opera porque "ninguém vive cem por cento da cidade. Cada um conhece alguns bairros e algumas pessoas", diz Campos. "Como a capacidade de circular é extremamente restrita, cada pessoa conhece os lugares onde estuda ou trabalha, mora, frequenta bares, se diverte etc. O resto vem do imaginário."

A imagem que os habitantes têm da cidade é, portanto, fornecida pela mídia. Mais uma razão para o professor da Uerj condenar a atenção quase obsessiva dada à questão da segurança pública. Para exemplificar por que acha que deveriam ser enfocadas também outras questões, como a do reordenamento urbano, ele menciona um texto seu de 1997 no qual mostrou que, em aparente paradoxo, as áreas envolvidas no Favela-Bairro, programa criado em 1994 pelo então prefeito César Maia, começaram, depois de uma valorização inicial, a perder valor, porque os investimentos nesses lugares foram pontuais e não contínuos."Como a violência foi exacerbada nos últimos dez a quinze anos, houve uma depreciação do solo urbano nesses locais", aponta Campos. 

O que Copa e Olimpíada podem – ou não – trazer
Com as intervenções atuais ‒ presença de UPPs e obras de urbanização, teleféricos, etc. haverá, como no caso do Favela-Bairro, valorização no primeiro momento. E o desdobramento do processo poderá ser bem diferente.

"Se for regularizada a posse dos lotes, o mercado imobiliário poderá comprar terras e fazer seus próprios investimentos", diz Campos. "Estamos no limiar de dois projetos imensos: a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016. Imagine-se o que, nessa situação muito especial, poderá ser feito numa área como o Vidigal, por exemplo."

Para o professor, o Rio tem a possibilidade de ser visto como modelo, a exemplo do que aconteceu com Barcelona depois da Olimpíada de 1992. "A partir de 2014-2016, o que se fizer aqui pode se irradiar para todo o país e para o mundo", afirma.

Apesar de levantar essa hipótese, ele é cético quanto à possibilidade de que a realização dos dois grandes eventos se traduza em melhorias reais para a população do Rio de Janeiro. "O Pan-Americano veio, acabou, a cidade permaneceu a mesma. Acredito que com a Olimpíada a imagem poderá se modificar, algumas estratégias de sobrevivência serão criadas, mas isso não vai alterar muito a vida das pessoas. Continuará havendo assaltos, com mais ou menos violência, mortes. As favelas e outros lugares subalternos continuarão sendo territórios, onde viver é uma arte e morrer violentamente é consequência do contexto."

Fonte: Observatório da Imprensa

novembro 02, 2010

Uma nova mídia está escrevendo o futuro

PICICA: Novas mídias estão nascendo. O futuro está começando. Com a expansão da banda larga em todo o país, ao final do governo Dilma Rousseff estarão consolidados os instrumentos que precisamos para mediar as relações entre os diversos campos das atividades humanas. Quem quiser se habilitar à produção de novos sentidos, está convidado a fazer parte de uma revolução nos meios de comunicação.


Terça-feira, 2 de novembro de 2010
ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 614 - 2/11/2010

CREDIBILIDADE EM QUESTÃO
O poder de persuasão da mídia

Por Washington Araújo em 2/11/2010



Assim como sabemos que após uma chuva a cidade fica molhada, sabemos também que é imenso o poder de persuasão que os meios de comunicação têm atualmente junto à sociedade: as manchetes dos jornais, as chamadas na TV, as notícias instantâneas na internet, os comentários nas emissoras de rádio, todos esses "suportes" do campo midiático ganham imediata repercussão, espraiando-se pela sociedade com velocidade alucinante. 

Ainda que em alguns casos não seja algo feito de caso pensado, é fato que a utilização de manchetes de jornais e capas de revistas em programas eleitorais dos candidatos à presidência da República tornou-se mais que corriqueiro no presente pleito de 2010. O candidato José Serra foi brindado com dezenas de manchetes, capas e ilustrações constantes de veículos da mídia impressa, com direito a que locutores leiam os textos e adicionem observações de condenação a quem já é contumaz condenado pelo jornalismo de nossas revistas e jornais de maior circulação.

Nos últimos dias da campanha, algumas manchetes do jornal Folha de S.Paulo sobre comprovada corrupção em licitação para construção de linhas do metrô paulista também se transformaram em material televisivo para a campanha de Dilma Rousseff. Mas nesse jogo de ver bola levantada na imprensa escrita em apoio candidato Serra, o tucano ganhou de lavada: converteu a cada semana diversas capas de jornais em material de sua propaganda política. A ocorrência do expediente só fez crescer o sentimento de que nossa imprensa mais vistosa não apenas tinha seu candidato ao Planalto como também se mostrou seu mais importante instrumento para alavancar votos e constranger sua principal oponente. E como tudo tem um custo – porque também na mídia não existe almoço grátis –, quem paga o preço mesmo é essa coisa muitas vezes intangível chamada credibilidade jornalística.


Interesses determinados

Uma análise mais detida dará conta que os processos comunicativos e os processos político-eleitorais são mais entrelaçados do que podemos imaginar. São vasos comunicantes em que se misturam tanto desprezo quanto preconceitos comezinhos pelo governo de plantão, com a almejada e incontida pressão para que haja alternância na chefia do Poder Executivo. É assim que práticas de corrupção em qualquer escalão do governo parecem estar sempre a poucos centímetros do presidente da República. O mesmo não ocorre com práticas similares afeitas à territorialidade do estado de São Paulo. 

Enquanto a campanha situacionista precisou se desdobrar para prover esclarecimentos, tomar ações administrativas de supetão, a campanha oposicionista pôde até "dar de ombros" para qualquer acusação que já foi suficiente para estancar qualquer iniciativa mais arrojada para continuar a investigação jornalística. Para um qualquer, onda pode se transformar em tsunami indonésio, enquanto para outro qualquer tsunami aterrador pode se transmutar em pequena marola de beira de praia.

A política, por estar representada com pessoas de diversas origens partidárias e ideológicas – seja pelo pouco "escolado" Tiririca ou por um "especialista em educação" Gabriel Chalita –, continua sendo palco para encenações e necessita da visibilidade proporcionada pelo campo midiático, já que qualquer acontecimento ou indivíduo só comprova que existe na sociedade se estiver representado na mídia. A visibilidade midiática e a complexidade desse meio levam os media a se constituírem enquanto campo social, isto é, a possuir regras e valores (axiologia), código e gramática próprios, e as costumeiras tensões com outros campos, além da busca por legitimidade, traço natural de qualquer campo social.

Conflitos e dinâmica da política diferem bastante daqueles que caracterizam o campo social da mídia. Política e mídia atraem para seu entorno um campo simbólico de disputa, onde parece reinar nossa velha conhecida lei da selva, segundo a qual cada um tem como principal missão defender seus próprios interesses. 

Principalmente os imediatos. Assim como a política exerce papel de articulação – articula ideias, lideranças, formulação legislativa e supervisiona a execução de políticas públicas –, a mídia também não prescinde desse mesmo papel e é a mídia que articula a informação que se transforma em notícia, a notícia que abastece a opinião e que desemboca na sociedade em uma mistura nem sempre palatável de fatos reais, fatos imaginados e opiniões sobre um e outro. A mídia sabe que para ter credibilidade – ser crível, digna de confiança dos consumidores de seus produtos – precisa, antes de tudo, ser pautada pela transparência e para a "publicidade" de fatos, com ênfase maior para aqueles carimbados como espetaculares ou pela simples ocultação ou supressão destes quando conflitarem com seus interesses.

Para escrever o futuro
Não faz muito tempo que a academia passou a considerar a mídia também como produtora de sentidos, e não somente mediadora entre os campos. E é no contexto da mídia como produtora de sentidos que percebemos que a visibilidade midiática se revela quase sempre através da massificação dos conteúdos jornalísticos, que movimentam um verdadeiro mercado no qual o consumo da informação não tem fronteiras econômicas, políticas, sociais, culturais ou comportamentais. É fato que em nossa sociedade do consumo da informação, da agilidade e da instantaneidade das notícias, ocorre a busca pelo que carregue nas tintas da diferença, do não-similar, do que trafega entre o grandioso e o épico, da aberração que se encaminha para a espetacularização pura e simples, se assim podemos dizer.

Não é arriscado inferir que se antes éramos buscadores de notícias, hoje a situação piramidal se inverteu por completo: são as notícias que nos buscam. E isso nos faz ter a sensação de que os telejornais são todos iguais, com variações meramente cosméticas, superficiais, e que a imprensa escrita, por trabalhar com as mesmas pautas, só pode se diferenciar uma da outra através da carga ideológica despejada no suporte por quem sabe apenas produzir jornalismo opinativo.

Crescendo o espaço de colunas de opinião, nos distanciamos mais dos fatos, da realidade factual, para tocar nas franjas de aspirações ideológicas. Mas se todos os colunistas rezam pela mesma cartilha ideológica, se tomam caminhos os mais diversos para trilhar e, ainda assim, insistem e forçam a barra para chegarem todos eles ao mesmo lugar e ao mesmo tempo, então estamos construindo um imenso edifício da singularidade em campanha aberta à pluralidade de pensamento. Enquanto o mundo se reorganiza em várias áreas de atuação, encontramos pesadas barricadas da mídia para manter tudo como está: não mexer em nada, fazer de conta que o mundo todo pode mudar, menos os seus conceitos do que é o jornalismo e a concepção de como poder ser exercido.

E não era, absolutamente, para ser assim. As transformações tecnológicas, os avanços da ciência que impactam tanto o que entendíamos como "acúmulo de conhecimento humano", tomaram de assalto os caminhos da informação desde sua produção até o seu usufruto. A concorrência dos suportes midiáticos tradicionais com os novos suportes – e o rápido acesso das massas da humanidade a seus poderes semimágicos a transitar entre o real e o virtual – formam um poderoso quebra-cabeças do que será a comunicação deste futuro-que-se-torna-presente quase que imediatamente.

A hesitação – ou seria o desnorteio? – dos que detêm o processo decisório sobre nossos veículos tradicionais de comunicação é que determina o tempo de sobrevida que lhes resta. Sábios e prudentes são os que aproveitam este momento atual para escrever o seu futuro, um futuro prenhe de coisas como pluralidade de pensamento, delegação de poder decisório, desconcentração de propriedade, abertura inaudita ao que é novo e ao que privilegia a velha e santa atividade de pensar.

Poderosos desdobramentos
A revolução no campo das comunicações, para sermos francos, ainda nem começou. Estamos vendo apenas os ingredientes serem apresentados um a um. Muitos destes nem se tornaram ainda conhecidos. Isto porque não existe caso na literatura humana que diga que as grandes revoluções do conhecimento começaram de fora para dentro. Não foram as máquinas que chegaram primeiro. Nem os tipógrafos, nem os foguetes chegaram primeiro ao mundo da existência. Primeiros eles brotaram dentro do ser humano e foram, como flor que é despetalada, se ajeitando, se organizando, encontrando seu lugar no mundo real.

Não demora mais três ou cinco anos e teremos condições de saber tudo o que acontece no mundo, do jeito que acontece, por que acontece desse e não daquele jeito e quais as consequências imediatas, no curto, médio e longo prazos do que aconteceu. E tudo isso será acessível a todos sem que paire sobre todos nós a ameaçadora sombra da incerteza e da dúvida.

Da mesma forma, não causará espanto algum se aqueles há tanto tempo marginalizados pela mídia, como se inexistentes fossem, resolverem ir a campo e criar seus próprios veículos de comunicação, seus próprios impérios de produção de sentidos e assumirem, eles mesmos, a mediação entre os campos em que se dá a atividade humana em toda a sua extensão e plenitude.

O futuro dos meios de comunicação tradicionais (rádio, jornal, televisão) precisa parar de lutar ante a evidência a que ele chegou, e daqui para a frente veremos não mais que seus poderosos desdobramentos. É tempo para se perceber como metáfora completa do dilema da comunicação estes versos de Pablo Neruda:


"Tu eras também uma pequena folha/ que tremia no meu peito./ O vento da vida pôs-te ali./ A princípio não te vi: não soube/ que ias comigo,/ até que as tuas raízes/ atravessaram o meu peito,/ se uniram aos fios do meu sangue,/ falaram pela minha boca,/ floresceram comigo."
Fonte: Observatório da Imprensa

setembro 22, 2010

A eleição agora é entre Dilma e a mídia, segundo Paulo Henrique Amorim

Dilmanarede | 21 de setembro de 2010
Segunda parte da entrevista de Dilma Rousseff ao telejornal Bom Dia Brasil, da Rede Globo, que foi ao ar no dia 21 de setembro de 2010.

setembro 17, 2010

Lula, o marco regulatório de comunicação, a internet e a participação popular

Tijolaco | 17 de setembro de 2010
Em entrevista ao IG, Lula fala sobre a "Revolução na Internet".

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Lula: internet é participação popular


Em entrevista ao IG, o presidente Lula afirma que a grande imprensa banaliza a democracia e toca no assunto que leva os barões midiáticos a entrar em pânico: o debate sobre o novo marco regulatório da comunicação no país.

O desespero da grande imprensa e seu apoio incondicional a Serra passa muito por aí. Lula já mudou um pouco as regras do jogo. O governo teve interesse em fortalecer a imprensa regional e o surgimento de novas mídias, distribuindo de forma mais democrática a sua publicidade, antes concentrada nos jornalões, revistonas e redes de rádio e TV. Não é por outro motivo que a procuradora eleitoral Sandra Cureau quer saber o que Carta Capital recebe de propaganda do governo.

Mas o principal avanço de Lula foi a realização ano passado da primeira Conferência Nacional de Comunicação, que pela primeira vez debateu com vários setores da sociedade o futuro do setor no país.

Os grandes meios fizeram o que foi possível para inviabilizar a conferência, tentaram deslegitimá-la, mas ela foi adiante e apresentou uma série de conclusões que a sociedade quer ver debatidas.

E Lula não só deu o seu aval ao encontro como quer levar adiante a melhoria da comunicação no país. “Queremos a contribuição de todo mundo no debate que nós vamos fazer sobre o marco regulatório de comunicação. Vocês sabem que não pode ficar do jeito que está porque nós estamos com um marco regulatório de 1962, quando não tinha TV digital, quando não tinha TV a cabo, quando não tinha internet, quando não tinha nada”, afirma Lula.
O presidente lembra que foi atacado impiedosamente em seus oito anos de mandato, muitas vezes de forma desrespeitosa, o que o atingia e à instituição Presidência da República. “Peguem algumas capas de revista, peguem algumas coisas que, sabe, você aí foge da liberdade de imprensa e anda na banalização da democracia”, critica.
Lula adverte que a grande imprensa não aprendeu a lição de que o país é outro e que a informação se dá por outras fontes, especialmente a internet. A velocidade da informação deixa a imprensa tradicional com “gosto de pão velho”, diz Lula, que se mostrou entusiasmado com a capacidade da internet.

“A maior vantagem e que eu acho que é importante, é que é uma coisa interativa. O cidadão participa do processo. Ele participa”, destaca.

Para nós, que estamos nesse front da internet, as palavras de Lula são gratificantes. Sobretudo por saber que funcionamos como contraponto ao massacre que sofreu durante todo o seu mandato e que está em curso contra Dilma na tentativa desesperada e irrealizável de mudar o curso da história.

Fonte: Tijolaço

setembro 07, 2010

Greve de fome de mapuches chilenos é solenemente ignorada pela grande mídia

Grande mídia ignora greve de fome de mapuches chilenos

Ainda hoje a nossa mídia de referência (também conhecida como grande mídia, mídia hegemônica, mídia golpista) ecoa comentários raivosos contra o governo cubano ao abordar a greve de fome realizada por alguns presos da Ilha, soltos recentemente. A conduta desses meios de comunicação em relação à greve de fome dos índios mapuches chilenos, que rola há 53 dias, é bem diferente.

Neste caso, predomina, e não é só no Chile, o silêncio cínico e a cumplicidade com a repressão e a criminalização dos movimentos e das lutas sociais.

O uso de dois pesos e duas medidas pelos meios de comunicação monopolizados por um pequeno grupo de famílias capitalistas não chega a ser novidade. Reflete o pensamento e a prática da direita. Tal mídia tratou como “presos de consciência” indivíduos que foram encarcerados por crimes comuns, conforme esclareceu o governo cubano. Agora, como os presos políticos são índios (sujeitos secularmente à opressão e ao genocídio) em luta contra grandes empresas capitalistas, a preocupação com as liberdades humanas e a democracia desaparece. A situação dos grevistas é dramática.

Continue a ler o artigo clicando abaixo:
Fase crítica

A coordenadora de familiares dos 32 mapuches presos advertiu para o agravamento do estado de saúde dos indígenas, alguns já com risco vital. Segundo a porta-voz dos familiares, María Tracal, os grevistas se encontram em fase crítica, evidenciada pela perda de tecido muscular e o enfraquecimento de órgãos vitais como os pulmões, os rins, o coração e o fígado.

Nos últimos dias, vários dos detentos em presídios do sul do país tiveram que ser transportados com urgência para os hospitais. Corre-se o risco de celebrar o bicentenário da independência do colonialismo espanhol com mapuches agonizando, alertou um comentarista da rádio chilena Bío Bío, que considerou iminente um desfecho fatal.

Manifestações

Enquanto isso, continuam as manifestações nesta cidade em defesa da causa mapuche e denúncia de setores políticos e intelectuais opostos à aplicação da lei antiterrorista na região chilena de Araucanía. Ontem, um grupo de historiadores chilenos divulgou uma declaração em apoio à luta da etnia por direitos tão sagrados como o da terra e em rejeição à militarização do território arauco.

Silêncio da mídia

Os profissionais criticaram o silêncio dos grandes meios de comunicação no Chile e convocaram uma manifestação de solidariedade com os povos originários para 7 de setembro, em frente ao Arquivo Histórico Nacional.

Por sua vez, o deputado e presidente do Partido Comunista, Guillermo Teillier, defendeu uma mesa de diálogo do governo com os representantes do povo mapuche. “Justo agora, quando vamos celebrar o bicentenário, sendo este povo ancestral o que primeiro lutou pela liberdade da nossa pátria, não podemos dar o pagamento que lhe estamos dando hoje, temos que consertar esta dívida histórica”, sublinhou Teillier.

Contra o latifúndio

Os mapuches lutam ininterruptamente contra os latifundiários, exigindo que saiam imediatamente de seus territórios. Esses indígenas são povos concentrados principalmente nas regiões centro-sul do Chile e no Sudeste da Argentina. São historicamente perseguidos e reprimidos e hoje representam cerca de 900 mil habitantes.

Durante os anos 1990, eles se notabilizaram por deflagrar inúmeros protestos contra empresas florestais e proprietários agrícolas. As terras em luta são caracterizadas pela alta fertilidade, sobretudo as de Bío Bío e Araucanía, atualmente infestadas de plantações de pinheiros e eucaliptos, no qual prepondera a monocultura e, sendo assim, prejudica o ecossistema de quem depende das tais terras.

Repressão

O Estado chileno, por seu turno, não poupa esforços na repressão aos indígenas, que necessitam das terras para sobreviver. Mas, em defesa da propriedade privada, as autoridades alegam que a repressão é necessária para que "não se crie problemas para a economia regional".

Os mapuches reivindicam o fim da aplicação da "lei anti-terrorista", em vigência no país desde 1984, promulgada no gerenciamento de Augusto Pinochet (1973-1990). Além da lei possuir dispositivos que dobram automaticamente as penas dos condenados, ela ajuda a criminalizar qualquer luta indígena, o que também viola os direitos humanos.

Entre outras atribuições é a supressão do direito ao hábeas corpus e consolidação do "inimigo interno", mecanismo que possibilita ao aparato policial e militar torturar e prender à bel prazer sob pretexto da violação da propriedade privada, da terra e de "ameaça ao povo". Aproximadamente 500 pessoas continuam em cárcere no Chile devido esta lei.

Falsa democracia

O Chile é um país que se supõe democrático, mas que oculta práticas de tortura e políticas genocidas. Dessa forma, os latifúndios se apoderaram das terras, tendo poder e privilégios que mantêm utilizando forças paramilitares, quando não contam com as forças de segurança oficiais. O etnocídio, portanto, é um dos subsídios conquistados pelas transnacionais com a exploração dos povos indígenas. As riquezas petrolíferas e hidráulicas junto com a madeira são as mais exploradas. Por exemplo: em 1999, a empresa transnacional Ralco ficou com os territórios do povo indígena Pehuenche causando o desaparecimento de seu patrimônio cultural.

Em defesa dos seus direitos territoriais, a resistência do povo Mapuche tem provocado descontentamento à classe dominante chilena. Em 2001, quatro líderes de comunidades Mapuches — Juan Marileo, Juan Carlos Huenulao, Florencio Marileo e Patricia Troncoso — da cidade de Ercilla, a 560 quilômetros de Santiago, também na fértil região da Araucanía, foram acusados pelo incêndio de cerca de cem hectares de pinheiros pertencentes à empresa Florestal Mininco. Contra eles foi aplicada a lei antiterrorista. A decisão judicial estabeleceu aos acusados indenização com o pagamento de 423 milhões de pesos, o equivalente a US$ 821 mil.

Os acusados pelas leis de exceção costumam ficar em prisão preventiva por mais de um ano antes que seu caso chegue a julgamento. A conduta do governo direitista do Chile, sustentada em leis criadas na ditadura de Pinochet, atenta contra os direitos humanos, a liberdade e a democracia. E a mídia hegemônica, tão combativa na exploração dos presos cubanos, se refugia num silêncio cínico e revelador.
 
Fonte: SOUCUBA - Blog da Associação Cultural José Martí - Bahia

julho 17, 2010

Mídia e drogas

 Nota do blog: A Veja, como sempre, prestando um desserviço ao jornalismo brasileiro. Daí a importância do evento divulgado abaixo.

***

Venha fazer parte do processo e construa interrogações pertinentes conosco:

ð      Porque o discurso oficial veiculado na mídia atribui as drogas à responsabilidade pelo consumo, abuso e conseqüências?

ð      Porque a mídia reduz a problemática das drogas (ampla, complexa e multifacetada) a uma concepção moralista, unilateral, hegemônica e dominante?

ð      Porque a mídia enfoca a militância contra as drogas?

ð      A mídia, pelo discurso veiculado, não estaria marginalizando os usuários de drogas?  

ð      Porque a mídia incentiva de um lado o uso de drogas e de outro condenada seu consumo?

ð      O que são de fato campanhas institucionais sobre drogas?

ð      Em que medida a mídia constrói crenças, valores e a opinião pública sobre drogas?


Atenciosamente,

Agradecemos

Psicólogo Dr. Arnaldo Chagas
Mestre em Psicologia Social e Institucional  & Dr. em Ciências da Comunicação 

Nota do blog: Meu querido amigo Dorival Carvalho - ator e poeta - tem razão em reclamar. Divulgação de evento sem mencionar o lugar da ocorrência é pra frustrar gregos e troianos. "Ô, pessoal, manda o endereço do evento, pô!".

julho 13, 2010

Violência, gênero e mídia


DEBATE ABERTO

Crimes, machismo e vinganças

Os brasileiros mais atentos sabem que inúmeras mulheres apanham, algumas são torturadas, outras mortas e todas são desvalorizadas diariamente pelas grandes e pequenas mídias. Nestas, são tratadas como carne, bichos ou brinquedos masculinos.
As grandes mídias já esqueceram os crimes rumorosos de ontem e já escolheram um novo para continuar o espetáculo de sangue e de ódio. Afinal, o show não pode parar. A idéia é esta: juntar a oportunidade ao script de sempre. Os ingredientes são bem conhecidos, tornam-se ainda mais fortes quando se trata de pessoas que já haviam alcançado alguns degraus da fama e do dinheiro fácil.

Os grandes assuntos que perpassam estes acontecimentos funestos estão presentes nas palavras usadas para noticiar os fatos. Mas, esta presença não é interpretada, o que interessa é narrar o horror e ganhar audiência com os detalhes sórdidos. Estes atraem o grande público, já corrompido com a lógica irracionalista do mundo cão do cotidiano de suas vidas e o descrito no universo alucinado das reportagens.

Quando menos se esperava, o Brasil parou. Parece que agora só existe um crime e que aquele fato é o único assunto a ser consumido. A cobertura das emissoras de Tv e de rádio, dos jornais e das revistas impressas é cerrada. Tudo ecoa na Internet, repetindo-se interminavelmente até o cenário final do julgamento. Ninguém é poupado dos detalhes, por mais escabrosos que sejam. Os operadores da Justiça e da Polícia dão inúmeras entrevistas focando o drama deste último caso, como ocorreu nos anteriores. Tudo se repete melancolicamente, sem qualquer reflexão.

O crime escolhido agora para representar o Brasil nas mídias tem o poder aparente de se fazer esquecer de todo o resto. Não há mais uma eleição em curso. A tragédia do Golfo do México sumiu do mapa midiático. A Copa do Mundo acabou, porque o Brasil foi desclassificado. Os mil e um problemas do Brasil são reduzidos a um único episódio, com farta mobilização das pessoas que clamam por justiça e gritam xingamentos para os acusados que desfilam frente às câmeras. A catarse, obtida com muita emoção alienada, paralisa o pensamento, impedindo qualquer espaço para o advento de uma visão racional.

O grito arcaico de vingança é fortemente estimulado e as pessoas acreditam que haverá justiça unicamente com a necessária punição daqueles culpados. O contexto onde o crime brutal foi cometido desaparece do cenário. Ele é ocupado pelos arquétipos do mal e do bem, personalizados pela bela e a fera, esta última é, com razão, estigmatizada como fosse única e solitária. Com isto, os verdadeiros problemas sociais, econômicos, políticos e culturais que permitiram a barbárie deste fato, como a de muitos outros, são colocados para baixo do tapete.

A violência deste último crime foi radical e impressionante. Entretanto, infelizmente, tratar violentamente mulheres é um esporte nacional. Não casualmente, foi feita uma lei – Maria da Penha – para tentar coibir e punir fatos desta natureza. Não são poucas mulheres que são assassinadas pelo ‘crime’ de serem mulheres. Ainda há um contexto social que apóia e considera normal o sexismo de muitos homens que se acreditam como superiores às mulheres e com o direito de dispor delas como quiserem.

A solidariedade masculina vista no episódio é habitual, atingindo, igualmente, a um grande conjunto de mulheres que aceitam sem qualquer problema o machismo de seus parceiros. O sexismo é uma ideologia, não tem sexo, idade, cor ou classe social. Esta solidariedade explicaria a inação das autoridades que foram alertadas deste crime anunciado pela própria vítima, que registrou o problema em uma longa entrevista incriminadora dada à maior rede de Tv do país e deu queixa às autoridades. Tudo isto faz com que se compreenda sua ingenuidade relativa de vítima traída por quem poderia ajudá-la: as instituições de Estado.

Philippe Breton, falando dos episódios de violência terríveis conhecidos em casos como o do nazifascismo e das guerras dos últimos cem anos, desenvolveu a hipótese da lógica da vingança. Este se aplica a este caso, com as diferenças de não se tratar de um bando organizado de grandes proporções e de um massacre étnico ou político específico. Mas, nele pode se ver os ovos da serpente chocando sem maiores problemas.

A violência de indivíduos ou de bandos não sai de uma cartola mágica. Ela surge de um processo complexo, onde ela é disseminada, desde a mais tenra idade. Homens ou mulheres violentas não são necessariamente loucos. As pesquisas de Breton e de outros mostram que a loucura explicaria a violência de alguns indivíduos de um mesmo bando de facínoras. Seria incapaz de fazer compreender a violência extrema de todos.

A maioria dos violentos sofreria de uma espécie de divisão psíquica. Esta seria cultivada desde cedo no ambiente familiar, nas comunidades onde se vive, nas instituições que recolhem menores e adultos, nas escolas, nos grupos de camaradagem e, hoje, com grande força, na exposição diária às mídias que exploram a violência de modo sistemático e radical. As mídias isoladamente não transformariam ninguém em pessoa violenta, mas dariam uma boa ajuda. O ambiente econômico-político geral seria um outro fator facilitador da explosão de violência radical.

O primitivismo arquetípico da vingança contra uma pessoa simboliza, nesse caso, o ato de um pequeno grupo masculino que empunhou o ódio contra gênero feminino. Este visto como inferior e sem qualquer direito. As coisas saíram do controle e chegaram ao extremo. Todavia, os brasileiros mais atentos sabem que inúmeras mulheres apanham, algumas são torturadas, outras mortas e todas são desvalorizadas diariamente pelas grandes e pequenas mídias. Nestas, são tratadas como carne, bichos ou brinquedos masculinos.

Não deveria causar espanto a ninguém a possibilidade de acontecer o que aconteceu. Não é segredo que o machismo seduz a consciência feminina brasileira. É bastante comum que muitas mulheres, principalmente, mas não unicamente as mais pobres, achem que o comportamento masculino sexista e avesso ao amor seja natural e correto. Infelizmente, a consciência crítica do problema é indigente, tanto para os homens, como para uma grande parte das mulheres. Como estas são as mais fracas, tendem a sofrer mais. Mas, há situações onde as coisas se invertem e a vingança feminina aparece com todo o seu furor.

Nas classes médias, onde elas têm mais poder, facilmente, a vingança feminina se materializa, com a ajuda das instituições de Estado, no fundo conservadoras e defensoras da ordem tradicional. O fenômeno da alienação parental afeta homens e mulheres. Entretanto, o mais comum que esta prática seja mais feminina do que masculina. A única solução para as relações de gênero equilibradas é que elas sejam pautadas pela real afetividade e não por interesses mesquinhos, como se viu no crime em tela.

O ódio de qualquer natureza é algo mortal e avesso a qualquer racionalidade. Só se justifica em situações de defesa de uma forte opressão. Ao adotá-lo de modo frívolo e inconseqüente, os personagens do crime em tela optaram por algo vazio e sem sentido. Deverão pagar exemplarmente pelos seus crimes, assim todos os brasileiros conscientes esperam. Todavia, este, bem como outros crimes, deveria também servir para que se compreendessem melhor vários aspectos problemáticos da sociedade brasileira.

Luís Carlos Lopes é professor e escritor.

junho 15, 2010

A crise do quarto poder

A crise do Quarto Poder

Por Josué Montenello Júnior
 
Apresentação
O mês de maio e o início de junho não foram muito favoráveis ao candidato da oposição José Serra. Seu pesadelo começou após a divulgação das pesquisas VOX POPULI e CNT/SENSUS, em que a candidata do governo à Presidência, Dilma Rousseff, supera, pela primeira vez, o percentual de votos do candidato tucano. E as pesquisas dos institutos DATAFOLHA e IBOPE confirmaram o crescimento da candidata do governo, apontado empate técnico entre ela e Serra. Muitos analistas consideram que a grande mídia irá se organizar para deter a vitória da candidata governista. Em outras palavras, “vem chumbo grosso” pela frente. A grande mídia irá patrocinar vários jogos e tentará deixar a bola na marca do pênalti, cabendo aos partidos de oposição (PSDB e DEM) fazer o gol. O problema é que bola murcha não obedece ao chute do atacante (vide o caso do dossiê contra o Serra, armado pela revista Veja, que até agora não apareceu). Estamos fazendo um mapeamento dos braços e dedos da mídia (Veja, Globo e Folha) nesta grande rede de comunicação sem dono, que é a Internet, bem como listamos alguns campos neutros que os torcedores podem se alimentar para participar do jogo eleitoral de 2010.

1. A imprensa escrita
Jornal O Globo
É um jornal que detesta ser provinciano, vive difamando o Rio de Janeiro. No caso das enchentes que assolaram o Estado, em abril, o Globo saiu com uma manchete de capa culpando os governantes pelos incidentes. Já na enchente que ocorreu em São Paulo, o jornal atribuiu os desastres aos fenômenos da natureza e ao lixo jogado nas ruas pelos moradores. Essa é a tal liberdade de imprensa das organizações Globo: os adversários merecem um tratamento de choque e os aliados, os afagos de sempre!
Site do jornal O Globo
http://oglobo.globo.com/    
Sobre a manchete da enchente no Rio do jornal O Globo
Sobre a enchente em São Paulo

Jornal Folha de São Paulo
É um jornal que não serve para enrolar peixe de feira livre. Recentemente, uma executiva da Folha escreveu a seguinte pérola: “A liberdade de imprensa é um bem maior que não deve ser limitado. A esse direito geral, o contraponto é sempre a questão da responsabilidade dos meios de comunicação e, obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada”. O jornal é um ferrenho defensor da economia de mercado e contra qualquer interferência do Estado na iniciativa privada. Não sei por que o referido jornal aceitou do ex-governador Serra uma ajuda para alavancar suas vendas: a assinatura, em abril/2009, de 5.449 jornais para as escolas estaduais de São Paulo, contribuição do Secretário Estadual de Educação, o sr. Paulo Renato.  
Site da Folha de São Paulo
Assinatura da folha e do Estadão pelo governo paulista
A imprensa como partido político (discurso da Executiva da Folha de São Paulo)

Revista Veja
É uma revista de conteúdo insosso, mas com o preço salgado. A revista Veja manipula informações, dados, e consegue, às vezes, convencer seus leitores de que o porco espinho é um coelho. Durante o governo Lula, a revista Veja realizou uma operação de estômago e ficou tão magra que alguns acreditam que esteja sofrendo de anorexia. Acesse os links abaixo e conheça o mundo absurdo da Veja. Este é meu depoimento: eu era cego, mas agora Vejo, por isso cancelei a minha assinatura da Veja. 
Site da Veja
Sobre o estilo da Revista Veja (muito bom)
Sobre a demissão de um jornalista da Veja (cadê a liberdade de imprensa?)
Como demonizar populações vulneráveis (o preconceito da Veja contra os índios, negros, antropólogos etc)

2. TV aberta
A TV Globo
A TV Globo é a maior emissora de televisão do Brasil. Mas nos últimos anos tem recebido notícias ruins. Sua audiência despenca a cada ano, a cada mês, a cada dia, a cada hora. O Jornal Nacional, por exemplo, com sua cobertura “imparcial” dos eventos que acontecem no país e no mundo, tem perdido audiência desde 2006. E a última novela das oito foi o maior fiasco da Globo para o horário. Mas quando o assunto envolve os aliados, o ibope da Globo sobe bastante. Por exemplo, um dos últimos atos do ex-governador Serra foi legalizar um terreno público invadido pela Globo em São Paulo e ainda construir uma escola técnica para “futuros profissionais da televisão”. O terreno valia R$ 11 milhões e a construção da escola técnica custará aos cofres do governo de São Paulo centenas de milhões de reais. Por favor, alguém avisa o MST que a Globo está prestando assessoria gratuita sobre como invadir terrenos públicos e depois legalizá-los! 
Site da globo
Sobre a invasão do terreno pela Globo e depois doado pelo Serra (acessem os links)
Sobre a queda de audiênica da Globo

3. Os blogueiros da direita na Internet
Arnaldo Jabor
 É um coroa enxuto, com uma grande cabeça de cabelos grisalhos. Jabor é um ex-comunista que se arrepende de ter feito a defesa intransigente da economia planificada. Agora, Jabor se julga um sujeito possuidor de idéias novas, mas que já fracassaram no Primeiro Mundo e nos EUA (liberalismo econômico, privatização, diminuição do Estado, cartilha do FMI etc.). Recentemente Jabor destilou sua ira contra a tal nova classe média, que está abarrotando os aeroportos do país, impedindo o atendimento rápido da classe executiva!
Jabor fazendo a defesa do estado liberal
Jabor e a classe média nos aeroportos

Reinaldo Azevedo
É um coroa maltrato pelo tempo, com uma cabeça grande, mas com certa insuficiência capilar. Azevedo possui uma autocrítica invejável, digna dos grandes homens. Certa vez, com a mente carregada de uísque e o pulmão de cigarros, bradou sobre si mesmo: “"imaginem o sujeito olhar a própria cara triste no espelho, todos os dias, e constatar: “sou um vendido, um vagabundo, um pilantra”. Azevedo escreve na Revista Veja e seu blog é a sensação dos 5% que acham o governo Lula ruim ou péssimo. Nada como uma ilha de ceticismo cercada por um mar de pessoas nadando alegremente.
Sobre o blog do Azevedo
Sobre o caráter de Azevedo

Diogo Mainardi
Deve seu emprego, sua fama e seu salário mensal a Lula. Nunca vi um sujeito admirar tanto uma pessoa e ao mesmo tempo falar tão mal dela. Mainardi deveria cantar para Lula: “você está tão perto dos meus olhos e tão longe do meu coração”. Mainardi se considera o cara mais difamador do Brasil. Mas ainda prefiro o César Maia. Quando Serra decidiu ser candidato, Mainardi não se contentava de contente, escreveu um artigo chamado Yabadabadoo. Sinceramente, no fundo, no fundo, Mainardi vai votar na Dilma só por causa do Lula.
O blog do Mainardi
A histeria do Mainardi sobre a candidatura do Serra

Ricardo Noblat        
Blogueiro do jornal O Globo. Noblat é um ferrenho defensor de José Serra.  Em seu blog já condenou a campanha presidencial antecipada feita por Lula e que, segundo ele, contraria a legislação eleitoral. Foi um crítico feroz do programa do PT, exibido em maio. No entanto, se mostrou a favor de que o PSDB faça o mesmo na exibição de seu programa eleitoral de TV, em junho. É a contradição em pessoa. No momento Noblat está meio aturdido pelo fato de Serra não ter ainda escolhido seu vice e pede sugestões. Já dei a minha: Geraldo Alckmin ou FHC, pois o Aécio desistiu!
Blog do Noblat
http://oglobo.globo.com/pais/noblat/

4. Sobre o clube campestre da direita
Instituto Millenium
É o instituto que congrega a nata do pensamento liberal brasileiro. Recentemente, o instituto promoveu o “1º Forum Democracia e Líberdade de Expressão”, onde diversos palestrantes conclamaram a grande imprensa a se contrapor à candidata do governo Dilma Rouseff. Estavam presentes no encontro, dentre outros: João Roberto Marinho, Marcelo Madureira e Arnaldo Jabor. A missão do instituto Millenium é “Promover a Democracia, a Economia de Mercado, o Estado de Direito e a Liberdade”, desde que o país seja dirigido pelos tucanos. Dentre os seus valores está a meritocracia (ministro no país, só com doutorado; presidente com diploma do SESI, nem pensar!). São considerados articulistas e especialistas do instituto: Ali Kamel (Diretor da Central Globo de Jornalismo – hum!, isso é meio esquisito!); Carlos Alberto Sandenberg (comentarista do Jornal da Globo – é aquele que só vê desgraça na economia do país!); Roberto Civita (sem comentários); Carlos Vereza (uma maravilha de ator); Everardo Maciel  e outros...
Sobre o instituto Millenium
Instituto Millenium debate ameaças à liberdade de expressão (dá vontade de rir...)
Grande mídia organiza campanha contra candidatura de Dilma (texto sobre o evento do Millenium)

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Sites que recomendo a leitura

Revista Carta Capital

Revista Caros Amigos

Observatório da imprensa

Agência Carta Maior

Conversa Afiada

Blog do Nassif