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março 20, 2010

Cuidado com a mensagem subliminar (o daime, o doido e o crime)

Nota do blog: O tom da matéria é sensacionalista. Salta aos olhos na manchete. Um ato de violência ganha repercussão por ter num dos vértices uma substância que está na mira da intolerância religiosa, travestida de jornalismo. Longe de ser tratado como enigma, a natureza do ato, a ação dos personagens está elucidada. Todas as pistas levam aos culpados. Uma família que negligencia sinais de desordem mental, uma religião indiferente aos conflitos existenciais de um jovem de 24 anos. A interpretação lógico-linguística das declarações de alguns sujeitos desse drama urbano tem uma função ideológica: estabelecer o que é crime, o que é aceitável na ordem social e o que esperar do sistema judiciário. A revista nos trata como se fóssemos movidos pelo espírito de rebanho, desprovidos de inteligência. Bem faria a "Época" se não apelasse para o estímulo ao imaginário, que tratasse de lidar mais com nossa inteligência do que com a exarcebação das nossas emoções. Partir da emoção para criar a narrativa encanta os leitores afeitos às superfícies da vida social, mas não os que desejam a revelação da espessura existencial do drama que tirou a vida de Glauco, em todas as suas dimensões.

fevereiro 16, 2010

Época repete história conhecida no meio político


Nota do blog: A revista Época, das Organizações Globo, reproduz uma história conhecida no meio político. Se na primeira vez essa história tinha um caráter trágico - até então dizia-se que a esquerda comia criancinhas -, dessa vez a opinião pública está vacinada contra a farsa da família Roberto Marinho.

A revista Época já está com medo

por Daniel Lopes – Até o momento, nenhuma estrela global manifestou qualquer sentimento mais forte em relação à pré-candidata Dilma Rousseff, mas a revista semanal das Organizações, sim.

-- Matéria de 14 de fevereiro de 2010 --

Dê uma lida na reportagem. O diabo, segundo ela, é que o Partido dos Trabalhadores, nem bem o ano começou, já aparece articulando “propostas esquerdistas” para um eventual governo Dilma. Imagine uma revista britânica mostrando surpresa diante do fato de propostas conservadoras estarem sendo fomentadas no seio do Partido Conservador, ainda mais a poucos dias do congresso nacional da agremiação. Ou imagine uma revista estadunidense indignada por propostas liberais estarem pululando em segmentos do Partido Democrata. Pois é.

Mas – ah sim! – eu já ia esquecendo. É que para a imprensa brasileira as ideologias morreram na década de 1990, então como diabos alguém pode se atrever a elaborar propostas de esquerda? O documento do PT, “A grande transformação”, informa a Época, propõe entre outras coisas uma “maior influência do Estado nos rumos da economia, com o fortalecimento de empresas e bancos estatais” – algo que o Carlos Alberto Sardenberg já disse que não funciona! Vasculhando os arquivos da revista, não consegui encontrar nenhuma crítica à reestatização de agências de crédito, resultado da última crise do sistema laissez-faire. Vai ver foi porque a reestatização das agências privatizadas na década de 1980 se deu nos EUA.

O único intelectual não petista que a Época consultou foi o sociólogo Francisco de Oliveira. Não é alguém muito conhecido por suas posições moderadas, mas serve. Não, ele garante, o PT não é de esquerda. Ideias como as contidas no documento “A grande tranformação” são meros “exercícios de intelectuais desocupados”. “O programa petista de esquerda é pura fantasia”. E, já que estamos por aqui mesmo neste ilustre veículo, “o Zé Dirceu é hoje um homem de negócios”.

Não faz sentido que durante o ano a imprensa conservadora recorra a Chico de Oliveira e outros esquerdistas da gema para acalmar o Mercado. Para isso, bastará ela comparar a situação econômica do país durante os governos FHC e Lula. Os intelectuais do PSoL serão úteis para mostrar aos leitores que PT e PSDB são a mesma coisa, que nenhum é mais de esquerda que outro – não tratam os movimentos sociais diferentemente, nem a saúde e educação públicas, nem os estados mais pobres, nem têm políticas de emprego ou sociais diferentes.

O importante não é mostrar coerência, é minar a candidata do Lula – por um lado, o partido do presidente não é substancialmente diferente do principal partido da oposição (diz Chico); por outro, mesmo os dois partidos sendo parecidos, um, com seus esqueletos esquerdistas no armário, tem mais potencial para causar sustos do que o outro, que não tem nada de ideológico, como mostra seu comportamento em relação ao movimento dos sem-terra e suas propostas para a política externa.

Assim, o PT assusta a Época em 2010 exatamente como assustou a Veja em 2002, em matéria da edição de 23 de outubro de 2002 (foto acima).

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Para ler o texto original, acesse Amálgama