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agosto 13, 2010

Carta Final da Mobilização em Defesa do Xingu: Contra Belo Monte

Imagem postada em portalfda.blogspot.com

Carta Final da Mobilização em Defesa do Xingu: Contra Belo Monte
"O modelo de desenvolvimento econômico, em benefício de poucos, continua o mesmo, assim como a forma autoritária de implantação dos grandes projetos. Belo Monte é um exemplo claro". O texto integra a Carta Final da Mobilização em Defesa do Xingu: Contra Belo Monte emitida nessa quinta-feira, 12-08-2010, no encerramento do Acampamento terra Livre Amazônico.
Eis a carta.

Nós, povos indígenas Juruna, Xipaya, Arara da Volta Grande, Kuruaia e Xicrin da região de Altamira, Guajajara, Gavião, Krikati, Awa Guajá, Kayapó do MT e PA, Tembé, Aikeora, Suruí, Xavante, Karintiana, Puruborá, Kassupá, Wajapi, Karajá, Apurinã, Makuxi, Nawa AC, Mura do AM, Tupaiu, Borari, Tapuia, Arapiuns, Pataxó, Tupiniquim, Javaé, Kaingang, Xucuru, Marubu, Maiuruna, Mundukuru do AM e do PA e dos demais estados da Amazônia e do Brasil, agricultores, ribeirinhos e moradores das cidades de Itaituba, região do Tapajós, Trairão, Medicilândia, Uruará, Placas, Rurópolis, Gurupá, Altamira, dos travessões do Cobra-Choca (km45 sul), km 27 sul, Paratizão (km23 sul), Assurini e das comunidades do Arroz Cru, Santa Luzia e São Pedro, representantes de organizações indígenas e da COIAB, da APIB, APOINME, ARPIMSUL, do MAB, da Via Campesina, do MXVPS, de pastorais e ONGs, reunidos no Acampamento terra Livre Amazônico, em Altamira/PA, nos dias 9 a 12 de agosto de 2010, para lutar pela vida, pela cultura e biodiversidade da floresta e discutir os impactos dos grandes projetos na região, especialmente a Usina de Belo Monte, viemos a público para afirmar, denunciar e assumir:

1.      Manifestamo-nos a favor da preservação do Rio Xingu e todos os rios do Brasil, principalmente os que passam por terras indígenas.
2.      Manifestamo-nos com toda a veemência contra a construção da Usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu e outros empreendimentos que agridem a vida de nossas comunidades e destroem o meio ambiente, como por exemplo: Jirau e Santo Antônio no rio Madeira, Santa Izabel no rio Araguaia, rio Culuene, Estreito, Transposição do São Francisco, Ribeirão Tabajara, asfaltamento das BR 317, 163, 156, 319, 429 e 421, gasoduto Urucu-Porto Velho, entre outros.
3.      O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) prevê 426 empreendimentos que incidem em terras indígenas, ameaçando de extinção povos indígenas isolados. Para a Amazônia estão sendo projetadas mais de 300 novas hidrelétricas. Uma verdadeira loucura para quem mora na Amazônia e tem a terra e a água como segurança de vida para as atuais e futuras gerações.
4.      Continua vivo na nossa memória a destruição e a morte, provocada pelos grandes projetos implantados de forma autoritária pelos governos da ditadura militar como a construção da Transamazônica (BR 230), as BRs 174, 364 163, e as UHE de Tucuruí e Balbina. Povos indígenas e comunidades tradicionais foram duramente golpeados. Povos como os Arara, Parakanã, Waimiri Atroari chegaram a beira da extinção.
5.     O modelo de desenvolvimento econômico, em benefício de poucos, continua o mesmo, assim como a forma autoritária de implantação dos grandes projetos. Belo Monte é um exemplo claro. Os estudos de impacto ambiental foram feitos para respaldar a obra e não para medir os reais impactos socioambientais. Os povos indígenas e comunidades tradicionais atingidas não foram devidamente ouvidos como determina a Constituição Federal, a Convenção 169 da OIT e Declaração da ONU sobre os povos indígenas, nem tampouco os cientistas que sistematicamente alertam sobre as graves falhas do projeto.
6.      Fazem parte da estratégia perversa desse modelo de desenvolvimento a desinformação, a mentira, o desrespeito às leis, a criminalização de lideranças indígenas e populares, bem como ações de sedução e promessas feitas às comunidades.
7.      Os povos indígenas, na luta por seus direitos à terra são acusados erroneamente de serem violentos, obstáculos ao desenvolvimento e manipulados por ONGs, para confundir a população sobre o que verdadeiramente acontece na Amazônia.
8.      Refletimos durante os quatro dias do Acampamento Terra Livre Amazônico sobre as estratégias de luta contra Belo Monte e outros grandes empreendimentos.
9.      Queremos alertar a todos, que a Amazônia será irreversivelmente comprometida se continuar a loucura da super-exploração dos seus recursos naturais. Dessa forma, os compromissos assumidos pelo Brasil nos tratados internacionais sobre o clima, não serão cumpridos.
10.  Assumimos coletivamente o compromisso de fortalecer a aliança dos povos indígenas, ribeirinhos e demais comunidades da Amazônia na luta para assegurar integridade de seus espaços territoriais e para construir o futuro da região a partir das suas experiências de vida.
11.  Convocamos a todos para um enfrentamento comum articulado e organizado contra Belo Monte e os demais empreendimentos planejados contra a Amazônia.
12.  Solicitamos o apoio da sociedade do campo e da cidade, pois a vida da Amazônia está em risco.

"Toda vez que nos unimos reforçamos nosso movimento. Não devemos ter medo da polícia, do fazendeiro, de ninguém que está ameaçando a natureza. Natureza é vida, ela nos sustenta até hoje, por isso, temos que defendê-la como pai e mãe que nos dá vida". (Cacique Raoni Kayapó)

Altamira, 12 de agosto de 2010.

Para ler mais:

Fonte: IHU

julho 20, 2010

“Xingu, o sangue da nossa sobrevivência”

Companheiros e companheiras.

O Movimento dos Atingidos por Barragens historicamente tem resistido contra a construção de barragens e lutado pela garantia dos direitos dos atingidos. Com a ameaça de Belo Monte, mais uma vez se faz necessário e urgente denunciar que a água e a energia não são mercadorias e que a vida do povo e do meio ambiente deve ser respeitada.

Neste sentido, produzimos o vídeo: “Xingu, o sangue da nossa sobrevivência”, que retrata a luta e a resistência dos povos do Xingu contra Belo Monte. O vídeo foi dirigido e editado pelo cineasta italiano Andrea Rossi, diretor do filme “O Chamado do Madeira”.

O lançamento será no Rio de Janeiro, às 20 horas do dia 22 de julho (Escola de Educação Física, UFRJ – Ilha do Fundão). Convidamos a todos e a todas para que participem de mais este ato de manifestação pública contra Belo Monte.

O vídeo pode ser acessado pelos links abaixo:


Em defesa da Amazônia, não à Belo Monte!
Águas para vida, não para morte!

Setor de Comunicação
Movimento dos Atingidos por Barragens



 


xingulivre | 3 de julho de 2010
O documentário destaca a luta e a resistência dos povos indígenas, das comunidades tradicionais, da população do município de Altamira e dos movimentos sociais, da região conhecida como Transamazônica, no Oeste do Pará, contra o projeto de barramento do rio Xingu, antigamente chamado Karararô, e recentemente modificado para UHE Belo Monte. Um mega projeto de exploração em plena floresta amazônica que tem como principal objetivo a produção de energia para as grandes empresas mineradoras, madeireira e do agronegócio implantadas na Amazônia e em outras regiões do Brasil.

É com esse nome aparentemente bonito que se pretende esconder da população brasileira um grande genocídio dos povos e de todas as comunidades tradicionais (indígenas, ribeirinhos, pescadores) que moram ao longo do rio Xingu, além das populações urbanas que serão afetadas por esse projeto. Mais uma vez estamos falando de um Brasil colonial disposto a esconder a verdade para fortalecer o avanço do capital internacional na região amazônica, que ainda detém as maiores reservas de minérios, água e biodiversidade do mundo.

Fonte: MAB - Movimento dos Atingidos por Barragens

junho 23, 2010

Pela abertura do diálogo com os manifestantes contrários a Belo Monte

Lula se irrita com manifestantes no Pará

Em visita a Altamira, região paraense onde será construída a controversa hidrelétrica de Belo Monte, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se irritou nesta terça-feira (22) com manifestantes presentes no local. Durante discurso, ele afirmou que os adversários deveriam ter paciência para ouvir seus argumentos. Leia mais

Nota do blog: Por trás desse imbróglio, um fato incontestável: o governo não teve habilidade para abrir diálogo com importantes setores da sociedade brasileira, entre eles a comunidade indígena e a igreja católica, que se manifestam contrários ao projeto da hidrelétrica de Monte Belo, e certamente não o são por ignorância, tampouco são tão jovens como afirma o companheiro presidente!

junho 19, 2010

Hidrelétrica de Belo Monte: mobilizações e protestos

Belo Monte
Foto postada em eixodajustica.blogspot.com

Visita do presidente Lula à Altamira será marcada com mobilizações e protestos

No Próximo dia 22 de junho (terça-feira) o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, estará vindo à Altamira para lançar a pedra fundamental da construção do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte e reafirmar mais uma vez que esta sairá de qualquer jeito, desconsiderando a opinião dos movimentos dos atingidos pelo projeto na região. Por esta razão, no dia 21 (segunda-feira) diversos movimentos sociais ligados a Via Campesina e Movimento Xingu Vivo para Sempre em protesto à imposição deste projeto que vem para fortalecer um modelo de desenvolvimento que não se preocupa com os povos da Amazônia, irão interditar por tempo indeterminado a BR 230 Rodovia Transamazônica.

No dia 22 de junho estão programadas varias mobilizações e ações massivas nas ruas da cidade de Altamira, em oposição e descontentamento com a afronta do presidente da república que desafia os povos da região com petulância e arrogância, passando por cima destes e empurrando o projeto de Belo Monte “goela abaixo”, não cumprindo com sua palavra. Lula desafiou os povos indígenas do Xingu, afirmando que neste país quem manda é o governo e agora ultraja o povo da Transamazônica com sua visita.

Talvez o presidente tenha esquecido, ou não sabe, que os povos desta região são calejados da resistência, lutam por seus direitos desde a abertura da rodovia e arrostam contra a construção da hidrelétrica a mais de 30 anos, os povos indígenas alegam que vai ter guerra se o governo continuar e a população de Transamazônica garante que da luta não vai sair.

Nas quatro últimas décadas a Amazônia tem sido alvo de inúmeros projetos que visam exclusivamente aproveitar nossos recursos florestais, minerais e hídricos para a acumulação de capitais das grandes empresas nacionais e transnacionais. Total modelo de desenvolvimento que tem avançado com o apoio do estado brasileiro tem evidenciado uma brutal contradição: A exploração da riqueza contrastando com a destruição da biodiversidade e a enorme pobreza de milhões de pessoas. A isso, jamais poderemos chamar de desenvolvimento para nossa região.

Infelizmente, o governo Lula não teve a coragem suficiente para mudar este modelo de desenvolvimento desumano, voltado a atender às necessidades do mercado internacional, que expulsa agricultores familiares, comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas de seu território, que cria bolsões de pobreza nas periferias das cidades Amazônicas, que concentra terra, que incentiva a monocultivo e destrói a biodiversidade e que promove trabalho escravo e degradante. Esta é a principal razão de nossa crítica e protesto à este projeto, já que a construção da AHE Belo Monte vem somente para fortalecer este modelo de desenvolvimento.

Não precisamos de megas empreendimentos que apenas favorecem as grandes empresas transnacionais. Precisamos é de um novo modelo de desenvolvimento para a Amazônia, com um novo modelo energético, que valorize sua biodiversidade, que promova a reforma Agrária, que combata as desigualdades e a pobreza.

Nós Somos a Consulta Popular!

Pátria Livre!

Venceremos!

junho 09, 2010

Pinguelli defende Belo Monte, com reservas

Luiz Pinguelli Rosa
Foto postada em upload.wikimedia.org

Pinguelli defende necessidade de Belo Monte

Construção de hidrelétricas sempre gera impactos ambientais, afirma físico

Por: Nielmar de Oliveira

Publicado em 20/04/2010, 13:20


Pinguelli defende necessidade de Belo Monte
Para Pinguelli, desenvolvimento do país passa necessariamente por novas hidrelétricas (Foto: Lars Sundstrom/Sxc.hu) 

Brasília - O diretor da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Luiz Pinguelli Rosa, defende que o suprimento de energia para o desenvolvimento do país passa “necessariamente” pela construção de novas usinas hidroelétricas.

“O fato é que o desenvolvimento do país e o suprimento energético necessário passa necessariamente pela construção de novas hidrelétricas. É claro que sempre há impactos ambientais numa obra desse porte”, disse em entrevista à Agência Brasil.

Na avaliação do ex-presidente da Eletrobras, houve, no entanto, “uma certa falta de competência” do governo federal na construção de um pacto em torno da necessidade da construção da hidroelétrica de Belo Monte. Duas subsidiarias da Eletrobras disputam a licitação para a construção da Usina de Belo Monte – cujo leilão deve ocorrer nesta terça-feira (20), caso não haja reviravolta na disputa de liminares na Justiça.

“Houve uma certa falta de competência do governo em fazer um pacto com os grupos e movimentos sociais e ambientais. Há a questão das terras indígenas, um complicador. Havia e há a necessidade de se chegar a um acordo com eles. As condições de vida na região são muito precárias em geral e tem muito que se fazer. Isto também não foi bem resolvido. A princípio, eu sou a favor (da construção de Belo Monte), mas com essa ressalva”.

Luiz Pinguelli Rosa disse que também concorda com as posições defendidas pelo presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Mauricio Tolmasquim, e pelos últimos dois ministros de Minas e Energia (Silas Roundeau e Edison Lobão) de que o país tem que optar por qual tipo de energia prefere na continuidade do seu modelo energético: as hidrelétricas (com menos impacto ambiental e proveniente de uma fonte mais limpa), a água, ou a obtidas de fontes não tão limpas e, em geral utilizando combustível fóssil – como o carvão e o óleo combustível.

“Se você não tiver as hidrelétricas, outras usinas, utilizando outras fontes, serão feitas. E pelo andar da carruagem tenderão majoritariamente ser usinas termelétricas, a partir do carvão, do gás, do óleo combustível. O fato é que esse impasse ambiental tem levado a um crescimento grande da participação do combustível fóssil na nossa matriz energética.”

Segundo Pinguelli Rosa, é “uma utopia” pensar que é possível atender ao crescimento da economia brasileira a partir do aumento da oferta de energias alternativas – como a eólica e a solar. “É muito difícil que isso possa ocorrer. Elas podem ter uma participação, um papel maior do que tem hoje, mas nunca cobrirão toda a oferta de geração que propiciará Belo Monte, por exemplo. Seria impossível.”

Para Pinguelli, porém, o governo tem a obrigação de respeitar e ouvir os ambientalistas. “Acho que os ambientalistas devem ser respeitados. Acho que o governo deve responder a todas as perguntas e questionamentos deles, mas eu não vejo, a princípio, um impedimento maior em fazer essa usina (de Belo Monte). Ela não inunda muito. O problema é, inclusive, o contrário: a redução da água em grande parte do Rio (Xingu), mas isso pode ser evitado com condições restritivas na operacionalização da usina. Então, há solução.”

Leia também:

Fonte: Agência Brasil

Fonte da fonte: Brasil Atual

abril 28, 2010

Índios Kayapó paralisam BR e resistem a Belo Monte

Foto postada em amazonwatch.org
Índios Kayapó paralisam BR e resistem a Belo Monte
ter, 27/04/2010 - 16:35 — aline

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(1'50'' / 431 Kb) - Os índios Kayapó, da aldeia Piaraçu, divulgaram um comunicado avisando que continuarão resistindo à construção da hidrelétrica de Belo Monte no Rio Xingu, no Pará. É uma reação às declarações do presidente Lula, que classificou como “insana” a atuação dos indígenas, ambientalistas, movimentos sociais e até mesmo do Ministério Público Federal.

Desde o dia 23 de abril, o tráfego da balsa que corta o Rio Xingu, na BR-080, no Mato Grosso, foi interrompido por grupos que serão afetados pelo empreendimento. O coordenador do Programa Xingu, André Villas Boas, do Instituto Socioambiental (ISA), considera legítima a reação dos indígenas.

“É uma reação a essa situação de insegurança que o próprio governo criou. Cada um reage a sua maneira e da forma que acha legítimo em função de suas tradições culturais. No caso dos Kayapó, a conversa deles vem com o estilo guerreiro da etnia.”
O coordenador do ISA diz que Lula tenta transferir responsabilidades ao dizer que ambientalistas devem apresentar projetos alternativos à Belo Monte para a geração de energia do país.

“O governo tem que produzir informações e apresentá-las para que a sociedade possa opinar. Ele não pode ficar centrado num modelo hidrelétrico, que é o modelo que movimenta essas empreiteiras.”

Villas Boas defende que o Brasil não pode ser dependente de uma única matriz energética e, fundamentalmente, das hidrelétricas que causam graves prejuízos socioambientais onde são construídas. Até o momento, o governo não disse para onde serão transferidas pelo menos 30 mil pessoas afetadas pelo alagamento da região com a construção de Belo Monte.

De São Paulo, da Radioagência NP, Jorge Américo.
27/04/10

Mais sobre o assunto
Hidrelétrica Belo Monte: população atingida vive situação dramática
Hidrelétrica de Belo Monte é ameaça aos indígenas do Xingu no Pará

Fonte: Radioagência NP
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abril 27, 2010

Manifesto internacional contra Belo Monte

Companheiros e Companheiras.

Nesta semana, o MAB esteve participando da “Conferência Mundial dos Povos sobre Mudanças Climáticas e os Direitos da Mãe Terra”, que aconteceu em Cochabamba, na Bolívia. Lá expusemos a problemática referente à construção da usina de Belo Monte.

Frente à situação, 120 pessoas, vindas de 28 países e integrantes de 57 organizações escreveram o manifesto que segue abaixo, posicionando-se contrários à construção da barragem. É o avanço da internacionalização da luta!

Nos manteremos firmes!
Globalizemos a luta, globalizemos a esperança!

Alexania – MAB
_____________________________

La Via Campesina Internacional
viacampesina@viacampesina.org

MANIFESTO INTERNACIONAL EM DEFESA DA AMAZÔNIA E CONTRA A CONSTRUÇÃO DA HIDRELÉTRICA DE BELO MONTE

Nós, organizações que fazem parte da Via Campesina Internacional, apoiadores e amigos da Via, reunidos na “Conferencia Mundial dos Povos sobre Mudanças Climáticas e os Direitos da Mãe Terra”, na Bolívia, estamos acompanhando a luta contra a hidrelétrica de Belo Monte no Brasil. Diante disso, vimos nos manifestar publicamente, em caráter internacional, em defesa da Amazônia e contra a construção da Barragem de Belo MonteBrasil, que está sendo leiloada pelo Governo Brasileiro nesta semana.

Entendemos que está em curso uma ofensiva mundial das grandes empresas para apropriar-se dos bens naturais estratégicos em todos os países, como a água, a energia, a terra, a biodiversidade e os minérios, através de grandes projetos de desenvolvimento. Estes grandes projetos de interesses das transnacionais são contra os interesses dos povos, porque refletem na perda de soberania energética e alimentar. Por isso, temos assumido um compromisso internacional de denunciar e lutar contra esta lógica que tem como único objetivo a busca do lucro.

A região amazônica é uma das regiões mais ricas do mundo, com enorme diversidade, as maiores reservas mundiais de água, minérios, biodiversidade, terras, petróleo, gás, entre outros. Por ter essa diversidade de riquezas naturais, e por ser um dos últimos territórios com grandes quantidades de bases naturais, está no centro de todo e qualquer projeto das transnacionais.

No caso da energia das hidrelétricas, tem servido para ser usada para alimentar a indústria eletrointensiva exportadora (de alumínio, celulose, ferro, etc), considerada uma das mais poluidoras do mundo.

Em relação ao projeto de construção da hidrelétrica de Belo Monte, na Região Amazônica, nossa posição é contrária e esperamos que se cancele definitivamente este plano. Caso esta obra seja construída, entregará parte da Amazônia ao controle das transnacionais e ao mesmo tempo causará um dos maiores desastres sociais e ambientais.

Assim solicitamos às autoridades responsáveis que revejam este procedimento de tentar construir esta obra, e se estabeleça um amplo debate sobre esta questão e a questão energética envolvendo os amplos setores da sociedade.

Conclamamos finalmente a todo o povo e aos movimentos e entidades a continuarem suas lutas, a se solidarizarem em defesa da Amazônia e contra a hidrelétrica de Belo Monte.

Globalizemos a luta, globalizemos a esperança.

La Via Campesina, presentes em Cochabamba - Bolívia
28 países, 120 pessoas de 57 organizações.

Nota do blog: Companheiro presidente, não sou a favor de apagão, nem jogo no time do quanto pior melhor, tampouco nasci com vocação pra tucano. Certamente sou minoria no interior da democracia petista, mas quero, respeitosamente, fazer deste manifesto internacional o meu posicionamento pessoal. Soy contra!

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abril 22, 2010

Coletiva dos Movimentos Sociais e Indígenas sobre Belo Monte


Coletiva dos Movimentos Sociais e Indígenas sobre Belo Monte, com a participação de James Cameron - 12/04/2010
Coletiva de imprensa dos Movimentos Sociais e Indígenas sobre a implantação da usina de Belo Monte - PA, realizada em 12/04/2010 em Brasília - DF. Além dos porta-vozes dos movimentos e organizações que lutam contra a usina de Belo Monte, participaram como convidados o cineasta James Cameron e os atores Sigourney Weaver, Joel David Moore e Victor Fasano.

Fonte: TV Brasil de Fato

Nota do blog: Veja a entrevista que irritou o vice-presidente da república. Tudo porque o cineasta James Cameron resolveu dar picica no caso da construção da Usina de "Belo Monstro", direito que lhe assiste. Lula, que é "o cara", piciqueiro-mor deste país, foi quem nos ensinou a conjugar o verbo: Eu picico, tu picicas, o Cameron também picica. Em tempo: o projeto energético brasileiro em vigência foi concebido na ditadura militar. É tempo de novos projetos.

abril 15, 2010

Marcha pede cancelamento da construção de Belo Monte


jornalcidadelivre 1 de junho de 2008 — Na beira do Rio Xingu índios e movimentos populares encerram o encontro Xingu vivo para sempre. Repórteres: Benilza Miranda Reginaldo e Erivaldo

Foi em frente ao rio Xingu a cerimônia de encerramento do encontro dos povos indígenas. Foi lá que eles afirmaram o não à construção de barragens.


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Nota do blog: É hora de pensar novos modelos de energia para a Amazônia, pois os que estão projetados até 2030 são um desastre para a Amazônia. A maior parte desses projetos foram concebidos ainda durante o regime militar.

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Marcha pede cancelamento da construção de Belo Monte

- Para pedir o cancelamento da licença prévia e do leilão da construção da hidrelétrica de Belo Monte – marcado para o dia 20 de abril –, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), realizou, nesta segunda-feira (12), uma marcha na cidade de Brasília (DF).

Com o apoio da Via Campesina, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento Xingu Vivo para Todos, entre outros, aproximadamente mil pessoas percorreram a Esplanada dos Ministérios, Ministério do Meio Ambiente, Congresso Nacional, Ministério da Justiça, Ministério das Minas e Energia, Ministério da Indústria e Comércio e ANEEL.

Para o integrante da coordenação nacional do MAB, Rogério Hohn, a marcha evidenciou a preocupação da população brasileira em relação às construções de hidrelétricas no Brasil.

“Somos contra o modelo energético e contra a construção de Belo Monte. O ato não é contra o governo pois entendemos que as grandes empresas multinacionais estão interessadas na construção de barragens no Brasil com o objetivo de privatizar os rios e a energia, e no final quem paga a por esse projetos é o povo. Todo o Brasil está sendo solidário à essa resistência contra a construção de Belo Monte, construção que de fato trará grandes problemas para a população.”

A marcha faz parte das atividades do Encontro Nacional da Juventude do Mab. O evento que teve início na última sexta-feira (09) termina nesta segunda. O tema do Encontro foi “pelos direitos dos atingidos por barragens e por um projeto energético popular.”

De São Paulo, da Radioagência NP, Danilo Augusto.

Belo Monte: doze questões sem resposta

Rio Xingu
Foto postada em www.outraspalavras.net

Por Dion Márcio C. Monteiro

Encravado na Amazônia brasileira, o Xingu é um dos mais importantes rios da região. Dele dependem aproximadamente 14 mil indígenas do Mato Grosso e Pará, além de centenas de comunidades compostas por ribeirinhos, pescadores, extrativistas, quilombolas e agricultores familiares. Tiram sua alimentação das águas deste rio, e o utilizam como meio de transporte — não raro, o único. Antes das expedições holandesas, inglesas e portuguesas ao Xingu, ocorridas principalmente no século 17, a população indígena era muito maior, com aldeias que contabilizavam até 3 mil habitantes. Com o passar do tempo, a situação só tem se agravado para as comunidades originárias e tradicionais existentes na região.

Em 1975, sob o comando dos militares que governavam o Brasil desde o golpe de Estado de 1964, a Centrais Elétricas do Norte do Brasil S.A (Eletronorte) iniciou os estudos do Inventário Hidrelétrico da Bacia Hidrográfica do Rio Xingu, primeiro passo no projeto de construção da Usina Hidrelétrica (UHE) de Belo Monte. Foi responsável por este levantamento o Consórcio Nacional de Engenheiros Consultores S.A (CNEC Engenharia), empresa naquele momento integrante do grupo Camargo Correa, um dos maiores interessados em participar do processo de construção de Belo Monte.

O ano de 1989 é um marco no processo de resistência ao então chamado Complexo Hidrelétrico do Xingu (o conjunto então proposto, sete barragens no curso do rio). Ralizou-se em Altamira, Pará, o 1º Encontro dos Povos Indígenas do Xingu. Reuniu aproximadamente 3 mil pessoas, entre lideranças indígenas como Raoni Metuktire (cacique Kayapó), Marcos Terena e Ailton Krenak; o então diretor da Eletronorte José Antônio Muniz Lopes (que se tornou presidente da Eletronorte no governo FHC e preside agora a Eletrobrás; o cantor inglês Sting; além de centenas de ambientalistas e jornalistas.

Aenorme indignação dos indígenas e demais povos da floresta, e sua intensa repercussão internacional, forçaram o governo a recuar, mudar de estratégia e refazer seu projeto. Porém a ponto de levar empresários e políticos influentes a desistir de suas intenções iniciais. Dezesseis anos depois, em agosto de 2005, a Eletrobrás firmou acordo de cooperação com as construtoras Norberto Odebrecht, Andrade Gutierrez e Camargo Correa para a conclusão dos Estudos de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental da UHE Belo Monte. Em maio de 2009 o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) foram entregues ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), órgão brasileiro responsável pela análise destes documentos e posterior emissão das licenças para a realização do leilão e obras da hidrelétrica.

Em fevereiro de 2010, o governo brasileiro emitiu a chamada Licença Prévia (LP) que autoriza o leilão de Belo Monte. Além das empreiteiras já citadas, teve apoio do grupo francês GDF Suez; de importantes grupos eletro-intensivos e mineradores, como Votorantim, Vale e Alcoa; diversos empresários; governadores, prefeitos e parlamentares. Mas por que os povos do Xingu lutam, há mais de vinte anos, contra a construção desta hidrelétrica — apelidada de “Belo Monstro” pelos moradores e moradores da região? A resposta parece ser clara para quem conhece a floresta e o rio, mas aparentemente “incompreensível” para quem mora a milhares de quilômetros de distância, no centro-sul do Brasil.

O EIA/RIMA de Belo Monte foi elaborado pela Leme Engenharia, afiliada ao Grupo Tractebel Engineering, por sua vez vinculado ao grupo GDF Suez, um dos possíveis participantes do leilão para construção da UHE Belo Monte. Em outubro de 2009, cinco meses após a versão final do documento ter sido entregue ao Ibama, chegou ao mesmo órgão, e ao Ministério Público Federal (MPF), um relatório alternativo, de 230 páginas, intinulado “Analise Crítica do Estudo de Impacto Ambiental do Aproveitamento Hidrelétrico de Belo Monte”. Foi elaborado por mais de quarenta pesquisadores. Antropólogos, sociólogos, zoólogos, biólogos, etimólogos, doutores em energia e planejamento de sistemas energéticos, historiadores, cientistas políticos, economistas, engenheiros, hidrólogos, ictiólogos, entre outros, compõem um grupo denominado Painel de Especialistas. Ligados a universidades e centros de pesquisas nacionais e internacionais, eles fizeram uma análise detalhada dos estudos de Belo Monte.

Geração média será muito menor que a anunciada.
Lago desalojará 20 mil famílias e custo
da obra, financiado pelo BNDES, pode chegar a R$ 30 bi


Seu relatório levanta várias interrogações ainda sem respostas, além de diversas outras questões que foram abordadas de forma incorreta ou inconsistente no EIA elaborado pela empresa contratada pela Eletrobrás. Reúne uma grande quantidade de informações instigantes.

1. O primeiro fator a chamar atenção – e um dos menos destacados pelo governo federal – é a destinação da energia a ser gerada UHE Belo Monte. Aproximadamente 80% da eletricidade atenderá as empresas do Centro-Sul do país. Até 20%, caso a negociação realizada entre a União e o governo do Pará se concretize, ficarão para atender empresas eletro-intensivas deste estado, principalmente as Vale e Alcoa. Gerarão vantagens competitivas para estes grupos no cenário internacional, mas não proverão nem 1 quilowatt (KW) para as comunidades amazônicas que até hoje não possuem energia elétrica.

2. Também não é divulgado que a energia prometida (aproximadamente 11 mil megawatt (MW), só será entregue durante quatro meses no ano. Em outros quatro meses a usina funcionará apenas com 30% a 40% de sua capacidade máxima; nos quatro meses restantes, não gerará praticamente nenhuma energia. A média anual ficará em torno de 4,5 mil MW, segundo os dados da própria Eletrobrás – uma média muito baixa quando se faz a relação custo-benefício, podendo inclusive inviabilizar financeiramente o projeto.

3. O estudo entregue pela Eletrobrás ao IBAMA não informa que mais de 20 mil pessoas serão obrigatoriamente deslocadas das áreas onde vivem, deixando para trás suas relações sociais e econômicas, além de elementos materiais de suas memórias. Chama atenção que o EIA utiliza como parâmetro a média brasileira de componentes por grupo familiar, entre três e quatro pessoas. Na região amazônica, porém, a média é outra. A bibliografia disponível indica que o grupo familiar é composto, em média, por 5,5 a 7 pessoas. As conseqüências deste equivoco são graves, pois ao subestimar a população remanejada não é possível pensar corretamente as estruturas e equipamentos sociais necessários para atender quem precisará de moradia, escola, posto de saúde, estradas e outros equipamentos públicos. Problemas semelhantes já se manifestaram nas construções das hidrelétricas de Tucuruí (PA), Balbina (AM) e Samuel (RO).

4. O EIA de Belo Monte afirma que o reservatório, com 516 Km², atingirá diretamente três municípios: Altamira, Vitória do Xingu e Brasil Novo. Porém, especialistas afirmam que Anapu e Senador José Porfírio também serão afetados pelo lago. O estudo oficial diz que onze municípios sofrerão impactos sócio-econômicos e ambientais da hidrelétrica: Altamira, Senador José Porfírio, Anapu, Vitória do Xingu, Pacajá, Placas, Porto de Moz, Uruará, Brasil Novo, Gurupá e Medicilândia, perfazendo mais de 300 mil habitantes. Pautado nesta informação, o MPF tem apresentado uma das contestações ao processo de licenciamento. Se o próprio EIA informa que onze municípios sofrerão impactos, sustentam os procuradores do Ministério Público, então não são suficientes as quatro audiências públicas realizadas – em Belém, Altamira, Brasil Novo e Vitória do Xingu. Faltaram a participação, o amplo debate e os esclarecimentos à população afetada, razões de ser das audiências.

5. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), afirmou, em outubro de 2009, que o custo de Belo Monte seria 16 bilhões de reais. Cinco meses depois, e um mês após a emissão da LP, a EPE reavaliou este custo, estimando-o em aproximadamente R$ 20 bilhões. As empreiteiras, principais interessadas na construção da usina, avaliam que o valor final não será menor que R$ 30 bilhões. Esta indefinição sobre o custo total da obra impossibilita uma segura avaliação em relação ao custo-benefício e à viabilidade econômica. É importante frisar que não estão sendo consideradas a rede de transmissão de energia, subestações, e outras estruturas necessárias ao completo funcionamento do complexo hidrelétrico. Em março de 2010, a EPE também elevou, em mais de 20% (de R$ 68 para R$ 83), o preço-teto da energia vendida nos leilões da Usina de Belo Monte.

6. Os empreendedores estimam que aproximadamente 100 mil pessoas migrarão para a região, principalmente rumo à cidade de Altamira. Alguns especialistas falam que este número, como outros informados pelo governo, também está subestimado. Calculam, amparados no que ocorreu em obras semelhantes, um mínimo de 150 mil pessoas. A Eletrobrás observa no EIA/RIMA que 18 mil empregos diretos serão gerados no pico da obra, no terceiro e o quarto anos de construção. Somados os 23 mil empregos indiretos previstos, seriam 41 mil postos de trabalho. Nas contas do próprio governo, portanto, aproximadamente 60 mil pessoas que migrarão não terão emprego em nenhum momento. A obra deve durar dez anos. No final da construção, a quantidade de empregos estimados é de apenas 700 diretos e 2.700 indiretos. O EIA/RIMA avalia que 32 mil migrantes deverão ficar na região após o termino da obra, a maioria em Altamira.
Índios não foram ouvidos adequadamente. Emissõesde gases-estufa podem estar subestimadas. Certas condições doIbama só serão conferidas anos após conclusão da usina

7. De acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) o metano (CH4) é um gás de efeito-estufa que causa um impacto 25 vezes maior no aquecimento global que o gás carbônico, por tonelada emitida. As hidrelétricas são responsáveis pela liberação de metano, pois a vegetação que fica submersa com a formação do lago (no caso de Belo Monte, com mais de 500 Km²), libera, ao se decompor, grandes quantidades do gás. A produção de CH4 também ocorre com o processo de passagem da água pelas turbinas e vertedouros da hidrelétrica, algo ignorado pelo EIA/RIMA. As grandes hidrelétricas agravam em especial esta situação, pois quanto maiores a área alagada, e a água movimentada, maior a emissão de metano.

8. O EIA/RIMA afirma que serão afetadas diretamente pela usina de Belo Monte as Terras Indígenas Paquiçamba (do povo Juruna), e Arara da Volta Grande do Xingu (do povo Arara), além da Área Indígena Juruna do Quilômetro 17 (também do povo Juruna). O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) afirma que também será afetada diretamente a Terra Indígena Trincheira Bacajá (dos povos Kayapó e Xicrin). Porém, mesmo reconhecendo este impacto direto, o governo recusa-se a realizar as oitivas indígenas, conforme determinam o artigo 231 da Constituição e a convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário. Este também é um dos principais questionamentos levantados pelo Ministério Público Federal.

9. Com a construção da barragem principal da usina de Belo Monte, uma área de aproximadamente 100 quilômetros, na chamada Volta Grande do Xingu, terá a sua vazão de água reduzida a algo em torno de 30% do fluxo atual. Sobre isso, o parecer técnico nº114/2009, assinado por seis analistas ambientais do Ibama, e um dos documentos básicos para a emissão da LP, é claro. Diz o parecer: “o estudo sobre o hidrograma de consenso não apresenta informações que concluam acerca da manutenção da biodiversidade, a navegabilidade e as condições de vida das populações do TVR [Trecho de Vazão Reduzida]”.

10. Para que as águas do rio Xingu possam fluir da barragem principal até as vinte turbinas que estão previstas para Belo Monte, serão abertos dois gigantescos canais no meio da floresta, o que movimentará aproximadamente 150 milhões de metros cúbicos de terra, e 60 milhões de metros cúbicos de rocha, equivalentes à movimentação de material realizada na abertura do Canal do Panamá. Os impactos não foram totalmente contabilizados no EIA/RIMA de Belo Monte, além de não ter sido fornecida informação clara sobre o local onde o material retirado será depositado, caso a obra avance.

11. O parecer técnico nº114/2009 também afirma que “tendo em vista o prazo estipulado pela Presidência [do IBAMA], esta equipe não concluiu sua analise a contento. Algumas questões não puderam ser analisadas na profundidade apropriada, dentre elas as questões indígenas e as contribuições das audiências públicas”. Porém, em relação ao que puderam identificar, os analistas ambientais destacam, além das questões referentes ao TVR, o não-dimensionamento a contento dos impactos decorrentes do afluxo populacional para a região. Em consequência, podem ser insuficientes as medidas que tentarão preparar a região para receber tal afluxo, além de estar indefinida a responsabilidade de cada agente públicos nas ações necessárias. Um terceiro elemento apresentado no parecer 114/2009 é um elevado grau de incerteza em relação ao prognóstico da qualidade da água, em especial no reservatório dos canais da hidrelétrica.

12. A Licença Prévia nº342/2010, emitida pelo Ibama em 1º de fevereiro de 2010, apresentou quarenta condições para a execução da obra. O cumprimento de várias delas, porém, só poderá ser atestado após a conslusão e pleno funcionamento da obra. É o caso da garantia de qualidade da água, navegação e modos de vida da população da Volta Grande do rio Xingu. A licença também posterga a apresentação das estratégias para garantir a infra-estrutura que antecede as obras. Ela só será definida depois da escolha da empresa que gerará a energia. Estas indefinições estão sendo questionadas por diversos movimentos sociais, ONGs e Ministério Público. Entende-se que não é possível adiar o atendimento destas condicionantes. Após realizado o leilão, a pressão política e econômica do consórcio vencedor para o rápido início dos trabalhos será muito mais forte. Haverá enorme risco de que fiquem à margem do debate fatores importantes para a preservação da vida, e do próprio rio Xingu.

Alternativas: recorrer a fontes limpas, debaternovo paradigma de produção e consumo, reverrelações entre ser humano e natureza
Estes doze pontos, levantados a partir do exame do EIA/RIMA e do relatório do Painel de Especialistas, não esgotam as questões existentes. Uma destas é o perigo iminente de se retomar o projeto original para a construção de hidreléticas no rio Xingu. Ele previa sete represas, número tarde reduzido cinco. As indefinições existentes sobre Belo Monte torna incerta a viabilidade econômica, o que pode despertar a tentação de “completá-la”. O volume de energia entregue pela usina equivalerá a cerca 39% de sua capacidade máxima de geração – enquanto a recomendação técnica é de pelo menos 55%. Nada impede que o governo, no futuro, proponha “otimizar” o empreendimento construindo novas barragens no Xingu.
É interessante também verificar o envolvimento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Para financiar até 80% de Belo Monte, a instituição precisará se capitalizar, principalmente depois que a EPE reavaliou o custo da obra para R$ 20 bilhões. O banco também financiar o projeto em até trinta anos, dos quais cinco de carência e 25 de amortização. Atualmente, a diretoria do BNDES permite apenas o financiamento em 25 anos, dos quais vinte de amortização. As taxa de juros para o empréstimo ao consorcio ganhador serão as menores do mercado. Vale lembrar que uma das principais fontes de recursos do BNDES é o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), um fundo especial destinado ao custeio do seguro-desemprego, abono salarial e financiamento do desenvolvimento econômico dos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil.

Belo Monte é um dos maiores investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal. Como tal, tem recebido atenção especial. Isto ficou particularmente claro em fevereiro de 2010. A Advocacia-Geral da União (AGU) ameaçou processar membros do MPF que se contrapõem ao licenciamento e construção da usina, alegando que as ações judiciais propostas por eles são “sem fundamento, destinadas exclusivamente a tumultuar a consecução de políticas públicas relevantes para o país”.

Diversas comunidades indígenas já deixaram clara sua oposição à construção de Belo Monte. Uma das mensagens foi expressa em carta enviada em 1º de novembro de 2009, ao presidente Lula, pelos povos indígenas Mebengôkre (Kayapó), Xavante, Yudjá (Juruna), Kawaiwet (Kaiabi), Kisêdjê (Suiá), Kamaiurá, Kuikuro, Ikpeng, Panará, Nafukua, Tapayuna, Yawalapiti, Waurá, Mehinaku e Trumai, habitantes da bacia do Rio Xingu e das regiões circunvizinhas. Reunidos na aldeia Piaraçu (Terra Indígena Capoto/Jarina), afirmaram textualmente: “Caso o governo decida iniciar as obras de construção de Belo Monte, alertamos que haverá uma ação guerreira por parte dos povos indígenas do Xingu. A vida dos operários e indígenas estará em risco e o governo brasileiro será responsabilizado”.
O modelo de desenvolvimento implementado na região amazônica tem sido historicamente pautado nos grandes projetos de exploração vegetal, mineral, e hídrica. Isto pode ser verificado nas hidrelétricas de Tucuruí (PA); Curuá-Una (PA); Balbina (AM); Samuel (RO); nos projetos de exploração de ouro em Serra Pelada, no município de Curionópolis, realizado por uma cooperativa de garimpeiros; na exploração de ferro em Parauapebas, realizado pela Vale; na exploração de bauxita em Juruti, realizado pela Alcoa; exploração de níquel em Ourilândia do Norte, pela Vale; exploração de bauxita em Oriximiná, pela Mineração Rio do Norte/Vale; exploração de Cobre em Canaã dos Carajás (Vale); e exploração de bauxita em Paragominas (mais uma vez, Vale). Todos os projetos citados estão localizados no Pará.
Data do final do século 16 o início da exploração dos recursos naturais da Amazônia. Foi sempre um processo autoritário, que se estendeu na fase “moderna”, a partir do final dos anos 1930. O processo tem demonstrado a insustentabilidade do atual modelo de desenvolvimento e, em especial, a urgência alternativas. Elas incluem um cardápio de transformações. A energia pode ser gerada a partir de fontes limpas: solar, eólica, resíduos da biomassa não-oriundos de monoculturas. Relações humanas sustentáveis não podem sobrepor os elementos econômicos ambientais, sociais ou culturais. O paradigma de desenvolvimento pode perfeitamente estabelecer harmonia entre a natureza e os seres humanos, garantindo a existência primeira do planeta. A insistência no atual padrão ampliará os desastres climáticos e ambientais, já em estágio avançado.

Dion Márcio C. Monteiro é economista do Instituto Amazônia Solidária e Sustentável (IAMAS), doutorando em Sociologia na Université Paris-Nord (França), e componente do Comitê Metropolitano do Movimento Xingu Vivo para Sempre.
MAIS:

Bibliografia de referência:

> EIA-RIMA da Usina de Belo Monte (em versão “pdf”).

> Relatório do Painel de Especialistas (em versão “pdf”)

> Parecer Técnico Nº 114/2009 / Ibama.

> Licença Prévia Nº 342/2010 / Ibama.

Fonte: OUTRAS PALAVRAS