O ENEAMA é um chamamento à organização dos estudantes a tomar conhecimento das diferentes realidades e construir uma proposta coletiva de atuação em prol de um mundo antimanicomial!
PICICA - Blog do Rogelio Casado - "Uma palavra pode ter seu sentido e seu contrário, a língua não cessa de decidir de outra forma" (Charles Melman) PICICA - meninote, fedelho (Ceará). Coisa insignificante. Pessoa muito baixa; aquele que mete o bedelho onde não deve (Norte). Azar (dicionário do matuto). Alto lá! Para este blogueiro, na esteira de Melman, o piciqueiro é também aquele que usa o discurso como forma de resistência da vida.
julho 25, 2010
O ENEAMA defende uma sociedade sem manicômios
O ENEAMA é um chamamento à organização dos estudantes a tomar conhecimento das diferentes realidades e construir uma proposta coletiva de atuação em prol de um mundo antimanicomial!
junho 30, 2010
O fim do manicômio
junho 15, 2010
Carta denúncia sobre a situação da saúde mental em Itabuna-Ba
Festival da Loucura
maio 24, 2010
Moradia assistida: o outro nome do SRT
Moradia assistida: o outro nome do SRT
As moradias assistidas para egressos de internação de longa permanência em hospital psiquiátrico devem ser inseridas na comunidade. Alguns desses Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT) – como são designados pelas Portarias que as regulamentam – foram implantados, excepcionalmente, em hospitais situados em grandes propriedades, como o de Jacarepaguá (RJ) e de Souzas (Campinas-SP), por exemplo. Diferentemente do único hospital psiquiátrico de Manaus, que ainda abriga pouco mais de 40 moradores, aqueles possuíam uma população muito maior.
De certo modo, Manaus tem uma posição mais confortável. Basta bom senso para equacionar a questão do dispositivo SRT para que as pessoas com vínculos familiares precários ou inexistentes possam morar com dignidade, depois que o Estado brasileiro, auxiliado por uma psiquiatria conservadora, mudou drasticamente o rumo de suas vidas.
Regulamentado pelas Portarias Ministeriais nº 106/00 e nº 1.220/00, ficou estabelecido que a cada pessoa transferida do hospital psiquiátrico para o SRT, a AIH (Autorização de Internação Hospitalar) correspondente é fechada e realocada no teto orçamentário do município, a quem cabe a manutenção da rede substitutiva de cuidados em saúde mental. Como entre nós o hospital psiquiátrico pertence ao estado, a ele cabe o investimento na implantação do dispositivo SRT, tão somente. Já a implantação da rede de serviços substitutivos ao hospital psiquiátrico, conhecidos como Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), é responsabilidade do município.
Para o sucesso do empreendimento é primordial a criação de uma equipe de Cuidadores ou Acompanhantes Comunitários para pelo menos dois turnos. Estes devem estar aptos no cuidado domiciliar com pessoas vulneráveis. Seu trabalho consiste em acompanhar os moradores nas tarefas do cotidiano, nos cuidados pessoais, na promoção do retorno ao convívio social, na construção da autonomia e da cidadania. Os reformistas de araque não conseguem chegar neste patamar. Lástima!
Manaus, Março de 2008.
Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental
Pro-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UEA
www.rogeliocasado.blogspot.com
abril 20, 2010
Para ler com senso crítico

Nota do blog: Leia a matéria abaixo com senso crítico. Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode supor o senso comum a que foi reduzida a reforma psiquiátrica pela matéria do jornal mineiro. Considero um bom exercício para discussão supervisionada entre estudantes de psicologia, medicina, serviço social, enfermagem e terapia ocupacional. Em discussão o avanço da visão cínica de que hospícios podem ser humanizados. Não há má fé na reportagem. Ingenuidade, sim. Perigosa ingenuidade, estruturada nos dilemas de uma reforma psiquiátrica que precisa de uma nova bandeira de luta. A matéria em questão reforça o ponto de vista dos conservadores que alcançaram a mídia nos últimos cinco anos. Esse visão interessa a todos os que não participam da construção de uma Reforma Psiquiátrica Antimanicomial. Enquanto isso em São Paulo, o governo estadual boicota ostensivamente a IV Conferência Nacional de Saúde Mental, que pretende discutir os avanços, a intersetorialidade e a consolidação do movimento social por uma sociedade sem manicômios. Ao recusar a chamada da conferência, mesmo que o Conselho Estadual de Saúde venha a fazê-lo está armado o imbróglio: o estado se exime de bancar os custos de viagem a Brasília. Não é de espantar esse procedimento, coerente com a posição histórica do tucano-mor: José Serra era ministro da Saúde quando recusou participação na abertura do III Congresso Brasileiro de Psiquiatria em 2001. Faz sentido o quadro atual; ele não perdeu a coerência. Esse detalhe sórdido não será esquecido na eleição deste ano.
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Eu vi, senti, interagi
Nossa repórter passou alguns dias em hospitais psiquiátricos e na rede de serviços substitutivos e descreve os tratamentos propostos nos dias de hoje aos doentes mentais
Texto: Elisângela Orlando | Fotos: Daniel de Cerqueira
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Usuário mostra desenho feito por ele em oficina terapêutica
Desde o início, sabia que estava mexendo em um vespeiro, pois há uma verdadeira guerra ideológica quando se discute este assunto. E no meio de tanta polêmica, tive minha primeira certeza: quem sai perdendo é o portador de sofrimento mental. Na segunda matéria da série sobre a reforma psiquiátrica no Brasil, contarei o que vi e ouvi de profissionais, usuários e familiares nas instituições de saúde em que estive. Gente de cores diferentes, credos diversos, mas com problemas reais. A maioria, pobres que, além da doença, sofrem com o preconceito e a falta de recursos financeiros.
A primeira constatação que fiz (sei que serei alvo de críticas de ambas as correntes depois de afirmar isso) após minha pesquisa de campo – se é que assim posso chamá-la – é que, hoje, as diferenças entre o atendimento prestado pelos Centros de Referência de Saúde Mental (Cersams) e pelos hospitais psiquiátricos são pequenas. Tudo bem. Sei que não sou psicóloga, nem psiquiatra ou assistente social. Também nunca trabalhei em locais semelhantes nem tenho parentes que utilizam esses serviços. Mas fiz meu trabalho de observação, conversei com várias pessoas e estou aqui para reportar os fatos.
O que mais me chamou a atenção nesses locais é que a infraestrutura, os tratamentos oferecidos, a forma como o paciente é tratado, as oficinas terapêuticas e a participação dos familiares no processo parecem muito semelhantes. Por mais que, em Belo Horizonte, defensores de um e de outro lado se engalfinhem e neguem tal similaridade, há que se ressaltar que quem se beneficia é o paciente, pois isso significa um salto considerável no que diz respeito à humanização do atendimento e também à inserção social e familiar do portador de transtorno mental. E mais: os rastros daquilo que um dia foi chamado de manicômio estão cada vez mais apagados, para o bem de todos. Percebi que a luta hoje é antimanicomial em todos os sentidos, mesmo nos hospitais que, um dia, foram verdadeiras prisões para os chamados loucos. O que me intrigou foi perceber que, em Belo Horizonte, falta mais integração entre os serviços da rede municipal e estadual, muitas vezes, por questões de ideologia. Na próxima reportagem da série, vou contar como em Barbacena as duas esferas de governo conseguiram se unir em benefício desses pacientes. Mas para não ser apedrejada logo no início, vou tentar explicar o que me levou a estas conclusões. Lembro-me de que era manhã de uma sexta-feira quando fiz minha primeira visita. A ideia era passar o dia no hospital Galba Velloso, região Oeste da capital, administrado pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig). Estava um pouco ansiosa e confesso que, ao adentrar o pátio do hospital, senti um frio na barriga. Afinal, não é fácil lidar com o desconhecido e os transtornos da mente ainda são uma incógnita até mesmo para a medicina. Não nego, porém, que minha reação fosse, talvez, um resquício de como nossa sociedade ainda vê o doente mental: com medo. |
Logo na entrada, vi alguns pacientes que andavam livremente de um lado para o outro em um jardim. O lugar é amplo, arborizado e possui alguns prédios. Em um e outro ponto, porém, funcionários ficavam à espreita, prontos para agir caso houvesse necessidade. Alguns internos, ao me verem, cumprimentavam-me educadamente, outros faziam caretas e houve um que começou a me seguir. Sei que aqueles olhares vagos e semblantes por vezes amedrontados me causavam um turbilhão de pensamentos e emoções. Minutos depois, estava diante do diretor do Galba Velloso, Daniel Freitas. O hospital atende todos que chegam, independentemente do local de onde vêm. Crianças são direcionadas ao Centro Psíquico da Adolescência e Infância (Cepai). A equipe de enfermagem faz a triagem e depois encaminha a pessoa a um médico psiquiatra. Um grupo fica encarregado de entrar em contato com a família e com o serviço que costuma atender esse paciente. Na ausência de familiares, alguém da Secretaria de Estado de Saúde é designado para fazer esse acompanhamento. |
Para Daniel Freitas, a discussão quanto à extinção ou não do hospital psiquiátrico deve ser feita em termos de assistência ao usuário. “O Ministério da Saúde calcula que Minas tem apenas 50% dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) necessários. Em Belo Horizonte, a estrutura é bem maior. Nesse momento, porém, não há como prescindir desse modelo.” As instalações do Galba também sofreram melhorias, mas não há como negar que, ainda assim, o ambiente é um pouco sombrio – talvez ainda seja reflexo do que já foi um dia. Andando pelos pavilhões, me deparei com uma jovem sentada em uma cama. Ao lado dela, uma senhora. Puxei assunto e logo descobri que a morena de 22 anos estava internada. A acompanhante era tia dela. As duas estavam se preparando para voltar para Curvelo, onde moram. Vítima de depressão pós-parto, depois de três dias de internação, preferiu voltar e ser atendida no Caps de sua cidade. “O atendimento aqui é bom, mas quero continuar com a médica que estava cuidando de mim”, disse ao se despedir. |
Mais adiante, em um banco disposto em um dos corredores do Galba, encontrei Agda ao lado de sua mãe, Zélia, de 72 anos. A filha me contou que, há 30 anos, a mãe já havia passado por ali após uma crise. Melhorou e ficou bem durante muito tempo. Recentemente, Zélia teve um surto de agressividade e teve de retornar ao hospital. Ao se lembrar da primeira vez que a mãe esteve internada ali, Agda disse que muita coisa mudou. “Hoje o atendimento é bom, humanizado e há mais segurança”, afirmou, informando que ela e os cinco irmãos estavam se revezando para ficar ao lado de Zélia. Depois dessa conversa, achei que há certo exagero quando se diz que o hospital psiquiátrico segrega o paciente – fique claro que não estou defendendo a instituição, mas apenas fazendo considerações a partir do que ouvi. |
O segundo lugar que conheci foi o Cersam Noroeste, situado no bairro Padre Eustáquio. Fui recebida pela gerente da unidade, a psicóloga Rosa Maria Vasconcelos. O Cersam, na verdade, é um dispositivo da rede, coordenado pela Prefeitura de Belo Horizonte, que segue as normas estabelecidas pelo Ministério da Saúde para funcionar como um serviço substitutivo à lógica manicomial. O foco é atender casos de urgências e pacientes em crise. Muitos usuários, de acordo com Rosa, são egressos de hospitais psiquiátricos e vários sofrem de alguma doença ligada ao grupo das psicoses graves. Em 99% dos casos, há necessidade de prescrição de medicamentos e de avaliação. A equipe é formada por terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, enfermeiros, psicólogos e psiquiatras. |
“O Ministério da Saúde calcula que Minas tem apenas 50% dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) necessários. Em razão disso, não há como prescindir dos hospitais psiquiátricos ainda” Daniel Freitas Ao chegar ao Cersam, o paciente passa por avaliação e, dependendo do caso, pode ficar na permanência-dia e a equipe verifica se há necessidade de acompanhante. Não há limite de dias em caso de internação. Rosa afirma que a grande diferença entre o Cersam e o hospital é que lá o doente tem participação mais ativa no tratamento, mais mobilidade, possuindo acesso a todas as áreas. Segundo ela, o contexto é diferente também porque o paciente lava suas próprias roupas e, em alguns casos, pode ser atendido em casa. Pude constatar que o que ela estava me contando era verdade. |
“A doença mental é um recorte do horror, por isso há tanto preconceito. Se não tivermos postura constante de inquietação, também poderemos nos transformar em manicômios” Rosa Maria Vasconcelos Realmente, não faz muito tempo, os hospitais psiquiátricos segregavam os internos. Hoje, entretanto, tendo em vista o que vi, parece não ser mais assim, pelo menos no Galba e no Raul Soares. Ainda há alguns traços de isolamento, mas é muito diferente do que acontecia nos hospícios antes do início da reforma. Por outro lado, o Cersam possui algumas características desses hospitais. Por isso, minha percepção é de que há semelhanças entre os dois serviços. Será que se houvesse uma integração maior, não seria possível melhorar toda a rede de atendimento à saúde mental da cidade? |
Voltando à minha incursão ao Cersam Noroeste, também vi pacientes andando pelos corredores com liberdade. Um, inclusive, chegou a cismar que eu havia roubado seu estômago e disse que iria me matar. Não tive medo e, inclusive, comecei a falar sobre outros assuntos. Logo, eu e Geraldo estávamos numa conversa animada sobre chocolates e compras em supermercados. O impacto que eu havia tido no Galba Velloso havia passado e comecei a ver aquelas pessoas que estavam ali de outra maneira: elas eram como eu, apenas um pouco diferentes. Rosa esteve ao meu lado durante todo o tempo da visita e pude perceber o quanto ela se preocupa com o bem-estar daquelas pessoas. Entre lágrimas, me disse que é preciso um exercício diário para sustentar a lógica antimanicomial, mesmo nos serviços substitutivos. “A doença mental é um recorte do horror, por isso há tanto preconceito. Temos que nos perguntar a todo tempo o que queremos para nossos usuários. Se não tivermos postura constante de inquietação, também poderemos nos transformar em manicômios.” |
Além dos Cersams, a rede municipal conta com centros de convivência, que oferecem cursos de música, teatro, pintura, marcenaria, costura, além de passeios, idas ao cinema e festas. Nesses locais, os frequentadores também têm a oportunidade de gerar renda. Parte das produções é comercializada e o artista recebe porcentagem da venda. Criada e coordenada por usuários dos centros de convivência, a cooperativa Suricato – Associação de Trabalho e Produção Solidária – mantém quatro grupos de trabalho: mosaico, marcenaria, costura e culinária. Todas essas ações visam um único objetivo: permitir que essas pessoas tenham uma vida mais digna e integrada à sociedade e à família. Dois dias após conhecer o Cersam Noroeste, fiz minha terceira visita: Instituto Raul Soares, no bairro Santa Efigênia. A estrutura, com vários prédios, impressiona. Há duas décadas, o lugar internava cinco mil pessoas por ano. Hoje, esse número baixou para 1,5 mil. Na oportunidade, o diretor geral do hospital, o psiquiatra Maurício Leão, ressaltou, porém, que a humanização do atendimento começou há 30 anos. “Hoje, o paciente sai daqui e é encaminhado aos serviços substitutivos”, assinalou, ao destacar que o tempo médio de internação na atualidade é de 19 dias. Entretanto, foi incisivo ao dizer que “não há sociedade no mundo hoje que possa prescindir do hospital psiquiátrico”. E asseverou que o movimento de desospitalização na medicina psiquiátrica está progredindo e que em Minas Gerais não é diferente. |
Assim como o Galba Velloso e os Cersams, o Raul Soares também tem investido em atividades de recreação, oficinas terapêuticas e outras ações que buscam reintegrar o paciente à sociedade. Há, inclusive, curso de informática que atende não apenas os usuários do hospital, mas também seus familiares, além de funcionários da instituição. Durante o período que passei no Raul Soares, percebi que os pacientes têm horários mais regulados. Eles circulam pelos corredores, pelos pátios, mas homens de um lado e mulheres do outro. As instalações são boas e alguns setores ainda estão sendo reformados. Fui a um grande jardim onde algumas mulheres estavam sentadas. Quando me viram, me chamaram. Queriam saber quem eu era e o que fazia ali. Sentei-me junto a elas e comecei a bater papo, como se faz numa roda de amigos. Não passou muito tempo e elas começaram a me contar suas histórias. A mais falante – e torcedora fanática do Atlético – Sulamita, disse que estava ali para se curar da dependência química. “Tenho quatro filhos e eles precisam de mim”, falou. Pouco depois, uma jovem loira, de cabelos lisos e compridos se aproximou. Tamanha era sua beleza, que qualquer um poderia dizer que se tratava de alguma modelo. Não era. A garota de 28 anos, mãe de três filhos, enfrentava sua segunda internação por depressão pós-parto. Rimos, falamos de coisas triviais e, em nenhum momento, parecia haver qualquer diferença entre mim e elas. Éramos apenas garotas conversando sobre homens, maquiagem, novelas – enfim, coisas de mulher. Talvez, a única diferença eram os uniformes com a logomarca da Fhemig que elas vestiam e os embornais que algumas carregavam com seus poucos pertences. Despedimo-nos como se fôssemos conhecidas de longa data. Qual o melhor modelo de atendimento? Talvez esta não seja a pergunta correta, mas o que todos nós – sociedade, governo (todas as esferas), ONGs, familiares e amigos – podemos fazer para que essas pessoas, seres humanos como quaisquer outros, que sofrem de uma doença mental, tenham vida digna, tratamento adequado, laços sociais consolidados, oportunidades de trabalho e o direito a ser o que são: cidadãos. Nos casos mais graves, sabemos que nem tudo é possível, mas há sempre algo que pode ser feito para melhorar a qualidade de vida dessas pessoas. Na próxima matéria, direi como funcionam as residências terapêuticas de BH, onde moram portadores de sofrimento mental que tinham sido abandonados em hospitais psiquiátricos. E, principalmente, tentarei narrar um pouco sobre aquela que já foi conhecida como a cidade dos loucos, Barbacena. Contarei depoimentos emocionantes de quem viveu o período mais macabro da antiga Colônia e que, hoje, tenta superar os horrores sofridos com doses de amor e dignidade. |
abril 16, 2010
Pelo fim do hospício de Manaus
Foto: Rogelio Casado - Manaus-Amazonas, 2008
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Usuários criticam sistema de saúde mental do Estado
A escassez de psiquiatras, a falta de medicamentos e os problemas na marcação de consultas são as principais reclamações dos usuários do sistema de saúde mental do Estado. A informação partiu dos próprios pacientes e funcionários do Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro, que, na manhã desta quarta-feira, se reuniram com o vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Amazonas, deputado estadual Luiz Castro (PPS), no auditório do hospital.
“Já faz um tempo que nós estamos envolvidos com a questão da saúde mental do Estado. Esta reunião tem o objetivo de ouvir os pacientes e seus familiares, além, é claro, dos funcionários e pessoas ligadas diretamente ao sistema”, revelou Castro, que defende a implementação da Lei Federal da Saúde Mental, aprovada em 2001, mas nunca implementada no Estado. “Essa Lei é muito importante porque regulamenta o processo de Reforma Psiquiátrica no Brasil”, observou o deputado.
Para a diretora do Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro, Ivone de Oliveira, uma das maiores dificuldades enfrentadas é a falta de compromisso da SUSAM no repasse dos medicamentos. “Outro problema é a ausência de um serviço alternativo nos sistemas de saúde do estado e do município para o tratamento desses doentes, o que ocasiona a superlotação do pronto-atendimento do hospital”, fez questão de enfatizar.
Trabalhando no Eduardo Ribeiro há mais de dez anos, a terapeuta ocupacional Sabrina Bastos revela que, mesmo com pouca capacidade de atendimento, o hospital psiquiátrico é a única referência para os municípios do interior. “O hospital não possui nenhuma rede de atendimento. Infelizmente, falta respeito aos pacientes e aos próprios profissionais. Para se ter uma idéia do problema, nós somos apenas duas terapeutas ocupacionais para atender mais de 50 mil pacientes cadastrados”, revelou a profissional.
A aposentada Therezinha Gomes, cujo filho, Manoel Gomes, se trata a mais de 25 anos no Hospital Psiquiátrico, ressaltou a dificuldade na hora de marcar a consulta ou receber o remédio controlado. “Quase sempre nós temos que dormir no hospital ou chegar de madrugada, em busca de uma senha para a entrega de medicamentos ou para o atendimento com o psiquiatra. Isso deixa o tratamento ainda mais difícil”, desabafou.
O deputado lembrou que, no final do ano passado, durante reunião com profissionais da área de saúde mental do estado e do município, realizada na sede da SUSAM, o Secretário de Estado de Saúde, Agnaldo Costa, se comprometeu em dar prioridade à questão já a partir do início deste ano. “Mas pelos relatos de hoje, podemos concluir que a saúde mental não está sendo nem um pouco priorizada”, disse.
Castro destacou a importância dos governantes assumirem a responsabilidade pela reestruturação do sistema de saúde mental do Estado e garantiu que, antes do dia 18 de maio, data em que é comemorado o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, será marcada uma reunião com a Comissão de Saúde da Assembléia para discutir a questão. “O objetivo é favorecer o debate e a melhoria no atendimento dos pacientes”, frisou.
Fonte: Assessoria de Imprensa
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Por um novo tempo: reforma psiquiátrica antimanicomial
denispetuco — 14 de abril de 2010 — Leitura da moção pedindo o fechamento do Sanatório Nossa Senhora de Fátima (Juazeiro, BA), durante a 1ª Conferência Interestadual de Saúde Mental do Submédio São Francisco, realizada em Juazeiro, nos dias 9 e 10 de abril. Esta conferência fez parte dos preparativos para a IV Conferência Nacional de Saúde Mental - Intersetorial.
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Nota do blog: Enquanto o governo do estado de São Paulo boicota a IV Conferência Nacional de Saúde Mental, os estados de Pernambuco e da Bahia se uniram para fazer uma conferência interestadual do Submédio São Francisco, ocasião em que pediram o fechamento do Sanatório Nossa Senhora de Fátima. A coisa parece que tá tão feia por ali que nem a ABP ousa levantar a esfarrapada bandeira da humanização, solução tida como uma boa saída para o momento atual, que alguns precipitadamente tentam periodizar como o tempo da pós-reforma. Quanto a este blogueiro tudo bem, desde que seja para instaurarmos um novo e fecundo tempo: o da reforma psiquiátrica antimanicomial que queremos.
abril 07, 2010
Por uma ética do respeito
Nota do blog: Usuários dos serviços de saúde mental de todo o país, acompanhados por familiares e técnicos de saúde mental, foram a Brasília e no dia 30 de setembro de 2009 realizaram a Marcha dos Usuários por uma Reforma Psiquiátrica Antimanicomial. Foi a maior resposta já dada aos conservadores e inimigos da reforma, que desde 2006 vinham detonando as conquistas do movimento por uma sociedade sem manicômios, ocupando importantes espaços da mídia. Diga-se, de passagem, que o setor conservador só ocupou o espaço da crítica (que lhes interessa) porque deixou-se de ouvir os segmentos (sobretudo os usuários) que, historicamente, ocuparam os espaços públicos para exigir o fim dos manicômios e a implantação de uma rede substitutiva ao modelo manicomial. E não foi por falta de pedido de audiência. Mudamos de estratégia, e graças à força da presença dos usuários em Brasília conquistamos a IV Conferência Nacional de Saúde Mental. Tudo o que queremos é mais respeito com nossas demandas e nossa visão crítica. (Dedico essa postagem para as professoras e alunas das Faculdades Salesianas Dom Bosco, que se dispuseram a abrir espaço para ouvir a história dos caminhos e descaminhos da reforma psiquiátrica no Amazonas, sem se assustar com a radicalidade do discurso desse velho militante das causas im-possíveis, afinal não se pode dar mensagens dúbias quanto ao fim do manicômio).
Está em jogo o saber acumulado pelo movimento social por uma sociedade sem manicômios. Não se pode submeter à disciplina o que não tem governo, sob pena de levar água para outros moinhos. Há muito perdemos a virgindade política.
Na tarefa de edificação de uma sociedade sem manicômios, as contradições não precisam ser apagadas. Tampouco mascará-las. É preciso aprofundá-las, sem medo de ser feliz.
Acaso teme-se com o aprofundamento das contradições o surgimento da divisão? Ora, ora! A divisão é um fato. Ao criarmos uma nova ideologia – a de uma sociedade sem manicômios –, quem assegura o restabelecimento da unidade? A ruptura com o manicômio não é fruto de mera retórica, mas da reversão da escala de prioridades. Assim como não estamos autorizados a fazer o que quisermos, também não podemos nos deixar levar pela idéia de que aos inimigos da Reforma interessam novas formas de gestão da Saúde Mental. Ora, pois!
Manaus, Abril de 2010.
Rogelio
Pro-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UEA
www.rogeliocasado.blogspot.com








