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julho 20, 2010

Rádio no manicômio?


justicaemquestao | 28 de maio de 2010
Vamos mostrar o município mineiro conhecido como "a cidade dos loucos" e o museu que guarda registros de um passado de sofrimento e exclusão.

* * * 

Nota do blog: O texto abaixo foi publicado na Carta Capital no período em que acontecia em Brasília a IV Conferência Nacional de Saúde Mental. Continua atual. Foi enviada pela baianíssima Rose Sobrinho.

Rádio no manicômio?
01/07/2010 16:18:08
Milton Nogueira País tem mais de cinco milhões de doentes mentais graves 
 
Manicômio, não! Casa de saúde mental, a que respeita os direitos humanos. Eis três idéias para melhorarem um pouquinho a vida de internos: enviar um locutor de rádio para transmitir de dentro de uma casa de saúde mental; ensinar os internos a trocar cartas com pessoas de fora; e organizar um festival na praça com a participação de doentes mentais e suas famílias.

Apesar do progresso recente no seu tratamento, os doentes mentais são ainda ignorados pelo povo, até mesmo pelos familiares. Vivem no limbo? Falam prá paredes? O que eles conversam? Ouvem música? A comida fede? Reclamam? Têm insônia? Fazem sexo? O povo, sem saber ao certo, viaja na imaginação, cria mitos e ri com a baixaria na TV que abusa de clichês sobre loucos.

Com 5,5 milhões de doentes mentais graves, o Brasil ainda mantém manicômios, porém pouquíssimas casas de saúde mental. Nos anos 1980, ao abrirem os manicômios de Barbacena, em Minas Gerais, descobriram-se horror, abandono, castigos, remédios ao acaso. Entrementes, a cidade mudou e faz anualmente o Festival da Loucura – De Perto Ninguém É Normal, e põe nas ruas músicas, passeios, palestras, loucuras cênicas (epa!), em meio a internos, cientistas, familiares, psiquiatras e povo. Único no país, o festival atrai boquiabertos turistas do Brasil e do mundo.

Que tal criar um programa de rádio, sem baixaria, transmitido ao vivo de dentro dessas casas? Nele, o povo ouviria os internos a cantarem, conversarem, reclamarem ou a contarem suas histórias. Haveria menos preconceitos e crendices populares sobre loucos. Seria mais fácil mobilizar cidadãos para apoiar essas casas, hoje vivendo à míngua.

Pode-se também ajudar o interno a escrever cartas a pessoas que voluntariamente aceitem ser correspondentes no papel, tipo pen-friend; uma carta manuscrita pode levar o paciente a entender que não está só no mundo e que alguém lá fora tem olhos para ele.

As três iniciativas poderiam ajudar a diminuir mitos, isolamento e discriminação contra pacientes, uma luz na escuridão. Quer saber mais? Veja as idéias que a IV Conferência Nacional de Saúde Mental sugere sobre direitos humanos, assistência social, educação, cultura, justiça, trabalho e esporte para doentes mentais.

Fonte: Carta Capital

julho 12, 2010

Direitos Humanos e Cidadania como Desafio Ético Intersetorial


Conferência do Deputado Paulo Delgado na IV Conferência Nacional de Saúde Mental Intersetorial, que ocorre entre os dias 27 e 30 de Junho de 2010 em Brasília

Direitos Humanos e Cidadania como Desafio Ético Intersetorial.

Bom dia a todos, Senhoras e Senhores. Permitam-me iniciar lembrando dúvida clássica sobre o sentido da vida: o mundo é digno de riso ou de lágrima? Padre Antonio Vieira interpretando lenda grega que envolvia dois filósofos, decidia:

Demócrito ria, porque todas as coisas humanas lhe pareciam ignorâncias; Heráclito chorava, porque todas lhe pareciam misérias; logo, maior razão tinha Heráclito de chorar, que Demócrito de rir; porque neste mundo há muitas misérias que não são ignorâncias, e não há ignorância que não seja miséria.

Uma lei fundadora. Não! Fundadora da lei é o Movimento Nacional da Luta Antimanicomial e seus fundamentos: humanismo, ciência, técnica, comunidade, afeto, história. Era preciso continuar o trabalho de todos aqueles, profissionais e leigos, que alertas e sensíveis, buscavam reorientar a medicina moderna na direção que aponta para a unidade corpo-espírito e querer, assim, encontrar a origem, a fabricação das doenças orgânicas, físicas e mentais.

Não sou médico, psiquiatra, psicólogo, terapeuta, psicanalista, enfermeiro, assistente social, auxiliar de enfermagem ou gestor. Sou candidato a paciente e enlouquecido quero ser tratado num serviço aberto, o melhor do Caps.

Da Lei nº 10.216 de 2001 posso dizer o seguinte nessa hora, a partir do que ouço, leio, vejo, escrevo, acompanho e defendo todos esses anos em solidariedade aos que sofrem, trabalham e lutam pela abolição completa da solidão e do isolamento do doente mental brasileiro.

Cuidado. Como substantivo, adjetivo ou interjeição é zelo dos preocupados, esmero, precaução, advertência para o perigo, vigilância, dedicação, encargo, lida, proteção. Atenção, tomar conta, acolher. Cuidado é o princípio que norteia essa lei. Evoluir a clínica, fazer do intratável o tratável. É essencial o apoio social e familiar que influencie comportamentos, mude hábitos, confronte preconceitos, classificações, nosologia, catálogos de interdições. Dedicada a cidadãos enfermos vistos como sem vontade, liberdade, autonomia porque foram colhidos pelo mal de viver. Não é a doença mental que a lei questiona, mas a maneira de tratá-la.
A sociedade cria e recria normas para definir o que rejeita e consagra. Faz-se progressista na área de saúde mais por atitudes de bons profissionais, do que por atos de rotina médica. Assim, inscrever o doente mental na história da saúde pública é aumentar sua aceitação social, diminuir o estigma da periculosidade e incapacidade civil absoluta e contribui para elevar o padrão de civilidade da vida quotidiana.

Já é hora do parlamento brasileiro se movimentar outra vez e avançar na elaboração de leis correlatas, essenciais e inadiáveis, sobre a inimputabilidade e as medidas de segurança para o louco infrator.

A doença mental não é contagiosa, dispensa isolamento. Não pode ser compreendida como estritamente orgânica apaziguada só pela quimioterapia e os remédios. Não há necessidade da psiquiatria bio-médica se agarrar àfarmacologia para se fazer científica.

Mas é claro que é o avanço da medicina e dos medicamentos que permite a reinserção social, convivência, restituindo o indivíduo, sua alma e desejos, ao mundo dos vivos. O que não significa esquecer que muitas vezes água com açúcar dada com amor faz mais efeito do que remédio dado com indiferença.

A medicina não deve ser carceral para não ampliar a solidão moral do paciente como se sua doença criasse para ele um mundo do não direito. Para o humanismo sanitário a técnica sópode ser um instrumento da medicina se usada com respeito e bondade. Pois a expectativa de cura ou melhora que pertence ao corpo é bem menor do que a esperança que pertence à alma.

Acolhimento, tratamento precoce melhoram a evolução e a direção da doença. Agir antes do surto para não ferir, ferir-se, quebrar. Sintomas físicos, queixas, mal-estar, sempre foram indícios de várias enfermidades. Melhorar a escuta geral dos sintomas aparentemente sem importância dores de cabeça, tremores, dores abdominais, cansaço extremo, falta de ar, agravado pelo embrulho e o ruído da adolescência: álcool, droga, conflito de gerações, esquisitices, vazio existencial, impaciência com o diferente.

E estar sempre aberto para os novos paradigmas que se impõem diante da urgência que é compreender o fracasso das estruturas simbólicas dos jovens no mundo do crack . Qual o código cultural no qual se assenta a regulação da existência de tantas pessoas em tão pouco tempo? Droga que quebra a mãe pobre e não se regula mais pela economia dos signos, mas pela economia pura do mercado. Não adianta, pois, querer medicalizar problemas sociais e manipular a política pública para enfrentamento tão complexo.

O Ministério da Saúde deve continuar resistindo aos que querem se apropriar do Plano Nacional de Combate ao Crack para ressuscitar o manicômio.

A tradição brasileira de tutela sobre pessoas doentes, agravada pela sedação e o isolamento, está culturalmente arraigada e é especialmente grave nas áreas da Saude Mental, toxicomanias e alcoolismo. Mas a internação e o isolamento só encontram aceitação social se a sociedade não encontra os serviços descentralizados, comunitários, abertos com a mesma facilidade que encontra o mal que a desampara. É inaceitável, assim, usar o terror e o pânico para buscar legitimidade para a internação prolongada própria da obsoleta cultura manicomial. A instituição nova que criamos com a lei da reforma psiquiátrica não tem retorno e tem o nome do acolhimento, o tratamento em liberdade. Aí está nossa cidadela de solidariedade e cidadania: ver a dor dos outros como se fosse nossa própria dor. Sustentado por ações múltiplas e intersetoriais, mais adequadas a cultura mais rica e complexa da medicina da mente e das doenças de longo percurso.

Saúde não é ausência de doenças. É um estado geral de bem-estar físico, psíquico e social como bem define a Organização Mundial de Saúde. A doença não é um fracasso. É um evento na vida da pessoa que não cria para ela um estatuto de exilado em relação ao que é ou está normal. Se compareço a um serviço de saúde e não tenho amparo para minha dor doente é o serviço. A doença é um processo que exige observação tolerante, advertência, preservação de direitos. A internação é uma parte do tratamento, mas não seu sinônimo e o conceito de leito, nesse caso, não se harmoniza com a terapia adequada. A medicina da mente e suas galáxias tem que se abrir a uma certa imprecisão e passar a duvidar que cada comportamento corresponda a um medicamento. Há muita depressão e sociopatia na sociedade que é impaciente com os seus doentes, tanto quanto com crianças, mendigos, idosos, pobres, deficientes.
A sofisticação do diagnóstico é que relativiza a classificação da doença, eis o paradoxo atual. É preciso modéstia diante do sofrimento. Não é porque não sabe, mas porque sabe que a psiquiatria, psicanálise, psicologia e psicoterapia modernas, baseadas em valores humanos, psicopatologia da experiência, fundam a reforma psiquiátrica. A internação como privação da liberdade, monoterapia, só prevalece em serviços despreparados. Por isso devemos sempre estar atentos para evitar a ambulatorização dos CAPS, a genial e generosa instituição criada por Domingos Sávio do Nascimento.

Tudo isso porém estará incompleto se daí não brotar uma nova economia solidária capaz de incorporar, no rítmo e na sabedoria própria da saudável competição pela vida, o talento e o esforço dos egressos dos serviços e, assim, contribuir para aumentar a vantagem dos estão em desvantagem. Foi o que me fez apresentar a Lei das Cooperativas Sociais, Lei nº 9.867 de 1999, como forma de reinserção social pelo trabalho. E assim também devem ser vistas e usadas, o Beneficio da Prestação Continuada, Lei nº 10.708 de 2003, e o Programa de Volta para Casa, parte integrante do universo terapêutico que, ao criar instituições e serviços novos, contorna e conforma a Reforma Psiquiátrica.

O doente mental é também beneficiário do ambiente jurídico oriundo da Declaração Universal dos Diretos do Homem e do Cidadão, como qualquer outro paciente. Seu tratamento não é um ato cirúrgico desde que foi abolida a lobotomia. Só a avaliação permanente do tratamento livra a psiquiatria da ideologia. Não há sucesso médico-terapêutico sem afeto, cultura, história da doença, escuta do sofrimento, subjetividade. Como bem sabia e praticava Dra. Nise da Silveira, precursora da lei.

Como ainda não sabem – mas precisam ser conquistados para esse novo horizonte do saber e da justiça – muitos membros do Poder Judiciário e do Ministério Público que com desabrida ousadia invadem o saber médico e sanitário, violam a integridade do indivíduo, protegidos pelo preconceito inconstitucional que é a tradição de tutela ousadia para a qual não teriam coragem em outras áreas da medicina – e imaginando proteger direitos decidem, por verdadeiras cartas régias, mandar internar os incômodos e, na prática , vão reconstruindo hospícios contra a lei. Assim provocam mais mal, imaginando fazer o bem.

Enfim, para aqueles que ameaçam a evolução do tratamento e buscam legitimidade para suas críticas atravessando com desrespeito os fundamentos humanistas e técnicos da lei, quem sabe assim os tranquilizo:

Se eu soubesse de alguma coisa útil à minha nação que fosse danosa a uma a outra, eu não a proporia, porque sou homem antes de ser nacional ou ainda porque sou necessariamente homem, não sendo nacional senão por acaso. Se soubesse de alguma coisa que me fosse útil e prejudicial à minha família, meu espírito a rejeitaria. Se soubesse que alguma coisa que fosse útil à minha família e que não o fosse à minha pátria, buscaria esquecê-la. Se soubesse de alguma coisa que fosse útil à minha pátria e que fosse prejudicial ao meu continente ou que fosse útil ao meu continente e prejudicial ao gênero humano, eu a veria como um crime. (Montesquieu, O Espírito das Leis).

Uma coisa é viver, outra é durar, as duas coisas devem pretender a Medicina.

Esta é uma Lei da Sociedade e seus movimentos por liberdade, atenção, justiça e harmoniosa convivência entre pessoas iguais e ao mesmo tempo diferentes.

Que esta IV Conferência, com altivez e sabedoria, reafirme e consolide seus princípios.

Muito obrigado a vocês.

julho 07, 2010

PFDC participa da IV Conferência Nacional de Saúde Mental

Nº 172/ Brasília, 5 de julho de 2010.   

PFDC participa da IV Conferência Nacional de Saúde Mental

Mais de 1,5 mil pessoas - entre usuários, profissionais de saúde, agentes que atuam em direitos humanos, justiça, educação, cultura e esporte - de todo o Brasil estiveram reunidas em Brasília, entre os dias 27 de junho e 1 de julho, para a IV Conferência Nacional de Saúde Mental.
Intitulado Saúde Mental - Direito e Compromisso de Todos: Consolidar Avanços e Enfrentar Desafios, o evento teve como objetivo debater questões como a atual situação da reforma psiquiátrica antimanicomial brasileira, a ampliação da rede de Atenção em Saúde Mental e a situação das pessoas com transtorno mental em cumprimento de medida de segurança.
Três eixos temáticos compuseram os debates: Saúde Mental e Políticas de Estado; Consolidação da Rede de Atenção Psicossocial e fortalecimento dos movimentos sociais; e Direitos Humanos e Cidadania como desafio ético e intersetorial. O evento contou com 54 Grupos de Trabalho, 37 Painéis e 3 Mesas de Debate e teve como resultado final a votação de 1.235 propostas, a serem consolidadas e apresentadas pelo Ministério da Saúde.
Saúde Mental e a PFDC - A Procuradora Federal dos Direitos do Cidadão Gilda Carvalho coordenou o painel Direitos Humanos e Cidadania, que contou com a presença da representante da Secretaria Nacional de Direitos Humanos de Ana Paula Diniz, da psiquiatra Tânia Kolker e de Fernando Delgado, da ONG Justiça Global.
Nos demais debates, a PFDC esteve representada pelo Procurador da República Carlos Henrique Martins Lima, além de membros da Comissão instituída em 2009 para analisar a situação de hospitais de custódia e tratamento psiquiátrico e o cumprimento de medida de segurança e da assessoria técnica.
Durante todo o evento, a PFDC disponibilizou em stand materiais explicativos sobre a atuação do Ministério Público Federal, além de cartilhas sobre os direitos da pessoa com transtorno mental e sobre a atuação da PFDC na área. O tema foi eleito entre as prioridades de atuação da PFDC desde 2008 e o trabalho está focado nas seguintes questões:

  • Reforma psiquiátrica antimanicomial: acompanhamento de políticas públicas voltadas à pessoa com transtorno mental na perspectiva de recuperação pela reinserção na família, no trabalho e na sociedade.

  • Rede de Atenção à Saúde Mental: acompanhamento, em conjunto com a sociedade civil, da implementação da rede de atenção à saúde mental, que visa a desinstitucionalização dos pacientes, conforme preconiza a Lei 10.216/2001.

  • Pessoas em cumprimento de medida de segurança: alçar as pessoas em cumprimento de medida de segurança aos dispositivos da Lei 10.216/2001, garantindo-lhes o atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

  
                                              

julho 06, 2010

De volta pra casa

Rede Internúcleos da Luta Antimanicomial
Brasília - Julho/2010

De volta pra casa
Depois de alguns dias sem banda larga na minha casa (a TIM e a OI me deixaram na mão), com o Brasil fora da Copa do Mundo de Futebol e com gana de por a boca no trombone, cá estou de volta depois de ajudar a apagar as luzes da IV Conferência Nacional de Saúde Mental, na última quinta-feira. Mais de 1200 propostas foram submetidas à plenária. Quando as tradicionais moções de apoio e de repúdio foram lidas, o relógio marcava mais de duas horas da manhã. Poucas delegações continuavam resistindo Só o médico Antônio de Pádua (CRM do Amazonas) e eu (UEA – Universidade do Estado do Amazonas), pela nossa delegação, estávamos na plenária. A grande maioria já havia se retirado. Umas devido ao horário de vôo de retorno, outras por falta de condução no horário.
Quando cheguei, no domingo retrasado, encontrei no aeroporto de Brasília a delegação do Piauí, a quem mando um abraço. Durante o trajeto para o hotel e para o local da conferência, fizemos um diagnóstico que se repetiria na conversa com outras delegações. Estamos numa encruzilhada, ou garantimos mais investimentos na expansão da rede de serviços substitutivos ao manicômio e na formação de novos trabalhadores de saúde mental, ou vamos pro beleléu.
De todas as conferências que assisti (perdi a do companheiro Marcus Vinicius de Oliveira, ex-vice-presidente do CFP, militante antimanicomial de carteirinha, que deixou os ouvintes extasiados com o que ouviram), foi a do médico sanitarista Gastão Wagner, professor da Unicamp, que mais me impressionou. Ao introduzir uma inesperada dimensão da subjetividade, senti que ali se traduzia o sentimento coletivo de que estamos de fato entre a cruz e a caldeirinha. Sua fala emocionou a platéia, ao indagar como criticar aquilo que se ama (a saída traumática de Gastão do governo Lula ainda está na memória de quem acompanha a política nacional de saúde). A plenária respirou fundo, em silêncio respeitoso à emoção de um dos mais estimados pensadores da saúde pública brasileira.
Gastão Wagner recomenda o exercício radical da crítica, sob pena de permitirmos o avanço das forças conservadoras contrárias a uma reforma psiquiátrica de fato antimanicomial. Não é possível ficar indiferente à dubiedade da coordenação nacional de saúde mental, que retirou a referência antimanicomial de todos os textos da IV Conferência, quando ela aceita conviver perigosamente com os hospitais psiquiátricos como se fossem alternativos à rede de CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), colocando-se na contramão do histórico congresso de trabalhadores de saúde mental, que em Bauru levantou a bandeira “por uma sociedade sem manicômios”. Não é possível convivermos com a com os atuais níveis de investimentos financeiros, sempre insuficientes, para por fim aos 35 mil leitos psiquiátricos existentes, para o qual ainda temos um dispêndio de meio bilhão de reais/ano de recursos do SUS. Não é possível convivermos com o atual processo de formação dos trabalhadores de saúde mental, incapazes de responder, em muitos municípios e estados brasileiros, aos desafios éticos postos pela reforma psiquiátrica antimanicomial que queremos. Sem agenda radical, ficamos no meio do caminho. Ah, as pedras no meio do caminho!
A coordenação nacional de saúde de mental, incapaz de reconhecer o mal-estar que paira sobre o lento processo da reforma psiquiátrica no Brasil, demora que alimenta nossos adversários, já no primeiro dia de trabalho pôs-se a dirigir sua crítica aos que nomeiam os CAPS que falham no processo de acolhimento, responsabilidade e ação territorial como CAPSicômios, ou seja, CAPS que reproduz o modelo manicomial que tanto combatemos nos últimos vinte anos. Macacos me mordam se os tais CAPSicômios não forem problema de formação e ausência de supervisão. Pedro Gabriel Delgado ficou nos devendo uma análise à altura do seu potencial intelectual.
A propósito, o Amazonas tem dois péssimos exemplos no campo da supervisão/consultoria. Nada a ver com a qualidade dos supervisores, ambos reconhecidamente competentes na sua área de conhecimento. Em causa o total descaso para com a remuneração dos dois supervisores, engolidos pela burocracia. A primeira vítima foi Silvio Yasui, que das cinco consultorias programadas para Manaus só cumpriu duas delas. Tudo porque a burocracia exigia “três cópias do curriculum”, todas devidamente autenticadas, procedimento que foi recusado pelo eminente professor da Unesp. Onde já se viu exigência tão antiquada? Em Manaus, ora pois!
Miriam Soares foi outra vítima. Aqui houve requintes de perversidade, afinal o curriculum foi apresentado na forma do pedido, e ainda assim o pagamento pela supervisão não foi efetuado; pior, o resultado do trabalho, com suas respectivas propostas, sofreu uma grosseira falsificação. O caso foi parar no Ministério Público, em ação interposta pela supervisora, que até a presente data não viu a cor do dinheiro pelo trabalho realizado, único que rendeu bons frutos ao longo de seis meses de atividade continua.
Tive acesso ao conteúdo da referida ação. É escandaloso o que está escrito ali. Reputo como um retrato fiel do ambiente antiético produzido pela má fé, arrogância, despreparo político e vícios administrativos históricos conduzidos pelo que há de pior no serviço público amazonense. Este, na área de saúde, incapaz de renovar seus quadros, não é de hoje que nos submetem ao vexame nacional.
Aguardo autorização para publicação dessa peça histórica que retrata um atraso insolente incompatível com os desafios contemporâneos no campo da saúde mental, que destrói o caminho construído e presta um desserviço, inclusive, aos governos a que servem. Eis o retrato 3 x 4 de uma gestão incapaz de buscar informação, interpretá-las, compreender a relação e o jogo político que envolve os atores sociais em cena. O mais curioso é que sem ter havido alternância no poder, portanto sem que tenha havido alteração na correlação de forças, a construção de contratos e compromissos desprezou a produção de conhecimento construída ao longo de cinco anos para basear-se numa concepção estreita dos afetos, que aqui deve ser traduzida na sua vertente mais empobrecida: ouvir apenas os “amiguinhos”. É, no mínimo, uma agressão ao princípio da democratização das nossas instituições. Mas essa é outra conversa. Voltaremos a ela.
Uma palavrinha mais sobre esse cenário obsceno. Ameaçar as potencialidades do presente produz efeitos nefastos, como a redução do coeficiente de análise, mas produz também, sua contrapartida, a produção do sujeito autônomo, que de modo criativo se liberta da asfixia dos que estão ocupados com a conservação do próprio poder. Tencionar limites, explorar novos limites é o único caminho exigido pelo contexto histórico e social. É uma questão de tempo, são os novos trabalhadores da saúde mental, desejosos de mudança, quem tomarão iniciativas não previstas nos regulamentos. Aguardem, são eles quem porão fim a toda sorte de interdições hoje impostas aos trabalhadores de saúde mental, se forem capazes de conciliar experiência e desejo de mudança.
A Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial está de parabéns ao se antecipar à história convocando o movimento antimanicomial a tomar as rédeas do futuro da reforma psiquiátrica através da IV Conferência Nacional de Saúde Mental. Apoiada pelo Conselho Federal de Psicologia, somos todos provocados a agir – usuários, familiares e trabalhadores de saúde mental. Quem fica parado é poste. Se queremos ser sujeitos da história da reforma psiquiátrica antimanicomial, de modo que nossas necessidades sociais sejam acolhidas pelas nossas instituições é necessário alterar as relações de poder, do uso do conhecimento e dos modos de circulação dos afetos. Caso contrário, conviveremos com formas autocráticas de exercício do poder, em que os sujeitos são reduzidos à condição de objetos, e a circulação dos afetos vira instrumento para inibir a construção radical da cidadania. É preciso dar uma basta à lógica “seja feliz, seja amigo do rei”.

Nota do blog: Nas imagens menores, Silvio Yasui (ao fundo, os companheiros Nivaldo e Francinete, da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial - RENILA, nas comemorações dos 20 Anos de Luta Antimanicomial, em Bauru, em 2007) e Miriam Soares (no I Congresso Nacional de Centros de Atenção Psicossocial, em 2004, em São Paulo), ambas feitas pelo blogueiro.

junho 30, 2010

Ampliar os serviços substitutivos ao manicômio e investir em formação

Nota do blog: O presidente da Associação Chico Inácio - filiada à Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (RENILA) -, e a companheira Helinda, presentes à IV Conferência Nacional de Saúde Mental, assinam embaixo da declaração da Secretária Executiva da RENILA, e dizem mais: além de ampliação do recurso financeiro para a expansão da rede substitutiva aos manicômios (vixe!), é preciso investir maciçamente em formação, caso queiramos impedir a transformação dos CAPS em CAPSicômios.

Especialistas dizem que reforma psiquiátrica foi revolução, mas cobram ampliação de atendimento

Agência Brasil

Publicação: 28/06/2010 16:36

A Lei da Reforma Psiquiátrica (Lei nº 10.216), criada em 2001, promoveu uma revolução no tratamento de pessoas com transtornos mentais no país. Depois de nove anos de implantação, as mudanças começam a se consolidar com o fechamento de grandes hospitais psiquiátricos, mas a rede substitutiva está muito aquém da demanda gerada pela reforma, afirmam especialistas.

A lei regulamenta os direitos do portador de transtornos mentais, veta a internação em instituições psiquiátricas com característica de asilo e cria programas que propõem um tratamento humanizado. Nestes nove anos, foram fechados 17.536 leitos em hospitais psiquiátricos. Ainda restam, no entanto, mais de 35 mil.


Além do fechamento dos leitos, os hospitais psiquiátricos estão ficando menores. Em 2002, apenas 24,11% das vagas estavam em hospitais de pequeno porte (até 200 leitos), hoje são cerca de 50%. O programa consiste no incentivo, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), para que os hospitais de grande porte (acima de 400 leitos) e de médio porte (acima de 200 leitos) reduzam essas vagas progressivamente.

O Ministério da Saúde criou um tripé de desinstitucionalização psiquiátrica no Brasil: os centros de Assistência Psicossocial (Caps), as residências terapêuticas e o programa De Volta pra Casa.

Atualmente, há em todo o país 1.513 Caps. Existem ainda 564 residências terapêuticas (dado de maio deste ano) onde vivem pessoas que saíram dos manicômios e perderam seus vínculos familiares. Além disso, 3.445 pacientes que foram internados por mais de dois anos em hospitais psiquiátricos são atendidos pelo programa De Volta para Casa e recebem mensalmente um auxílio-reabilitação no valor de R$ 320.

Paralelamente ao fechamento de leitos em hospitais psiquiátricos, a reforma propõe a abertura de vagas em unidades de saúde comuns. Nesses espaços, conhecidos como hospitais gerais, as pessoas com transtornos mentais são atendidas em momentos de crise e não ficam internadas por longos períodos, como ocorria nos antigos manicômios.

Para o vice-diretor do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB), Ileno Izídio da Costa, a reforma é um caminho sem volta. Ele defende a necessidade de mais investimento para a área e a qualificação de profissionais.

“É preciso aumentar os recursos para a saúde mental. Se pensarmos que deve haver um Caps para cada 100 mil habitantes e que o Brasil tem cerca de 200 milhões de habitantes, então, 1,5 mil Caps é muito pouco. Obviamente o país todo não está coberto”, afirma.

A secretária executiva da Rede de Internúcleos da Saúde Mental (Renila), Nelma Melo, também critica a demora na implantação da rede substitutiva. “A gente vê os avanços, mas não podemos continuar a conviver com esses modelos, completamente antagônicos, o manicomial e o que vem para substituí-lo”, disse.

O coordenador de Saúde Mental, Álcool e Drogas do Ministério da Saúde, Pedro Gabriel Delgado, reconhece que é preciso avançar na ampliação e qualificação dos mecanismos de substituição para consolidar da reforma.

“A cobertura em saúde mental é ainda insuficiente em vários estados. Alguns Caps precisam ser mais bem qualificados, precisamos melhorar a articulação da nossa rede com a de urgência e emergência e ampliar muito as ações de saúde mental no âmbito da atenção básica”, destaca.

A Lei de Reforma Psiquiátrica levou 12 anos para ser aprovada no Congresso Nacional. Ela alterou o modelo de tratamento de pessoas com transtorno mental no país, nos moldes do que foi feito, na década de 70, em países como a Itália – que inspirou a reforma brasileira –, a França, a Inglaterra e os Estados Unidos.

De acordo com vice-diretor do Instituto de Psicologia da UnB, a reforma brasileira é a mais avançada da América Latina. “Segundo a Organização Mundial da Saúde [OMS], o Brasil é protagonista de uma reforma diferenciada em relação à saúde mental”, destaca.

Fonte: Correio Brasiliense

junho 29, 2010

Gastão Wagner e Miriam Abou-Yd emocionam a plenária da IV CNSM

Nota do blog: Antes de Miriam Abou-Yd fazer sua intervenção, repudiando a falta de respeito daqueles que não reconhecem a extraordinária mudança no cenário da saúde mental do país, Gastão Wagner emociona a plenária da IV Conferência Nacional de Saúde Mental ao questionar "Como fazer críticas àquilo que se ama?". A plenária respira profundo. Superada a emoção, Gastão conclama à radicalização da agenda da reforma psiquiátrica brasileira, apontando suas falhas e equívocos - como a questão posta pela armadilha da intersetorialidade como solução para os problemas estruturais (recursos humanos e recursos financeiros), e, sobretudo estabelecendo propostas positivas, como é tradição do movimento social. 

junho 28, 2010

Santa Nelma do Recife!!!

IV Conferência Nacional de Saúde Mental
Foto: Rogelio Casado - Brasília, 27.06.2010
Nota do blog: Louvado seja a solidariedade. Graças a Nelma Mello, companheira da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (RENILA) voltei a acessar o net... e pela TIM banda larga. Me aguarde TIM, ao retornar a Manaus estarei acionando o PROCON pelo prejuízo como consumidor. Só não deixei de gerar texto, graças a um serviço de internet oferecido pelo Ministério da Saúde, pelo qual pude destilar veneno nas duas postagens anteriores. Acima, imagem da abertura da IV Conferência Nacional de Saúde Mental. Lula e o Ministro da Saúde José Temporão, que iriam participar da solenidade de abertura deixaram de fazê-lo por uma razão nobre, ambos estavam no nordeste do país atendendo os brasileiros atingidos pela enchente. O representante do ministro afirmou que ambos ainda virão à Conferência; certamente no encerramento.

junho 27, 2010

Nota fúnebre

Nota do blog: Cumpre-me o doloroso dever de informar que a TIM está morta, só esqueceu de deitar. Estou desde 06h15 em Brasília para participar como delegado da IV Conferência Nacional de Saúde Mental. E o sinal da TIM, necas de pitibiribas!!! É o fim da picada! Em contato com a assistência técnica, eles me sairam com a história de o sistema Windows 7 é incompatível com a configuração do modem da TIM. Conta outra, dona TIM! Se em Manaus não havia incompatibilidade, por que em Brasília haveria de haver? Espero resolver esse imbróglio na manhã de amanhã.

Há pouco encerrou a abertura oficial do evento. Se a canoa não virar de vez, dou notícias amanhã. Inté!

maio 24, 2010

IV Conferência Nacional de Saúde Mental: Aviso aos familiares, usuários e técnicos de saúde mental

Associação Chico Inácio na luta antimanicomial
Foto: Nivaldo de Lima, Manaus-Am, 2009

 
IV CONFERÊNCIA NACIONAL
Logística e Infra-Estrutura

Informações sobre logística e infra-estrutura para a IV Conferencia Nacional de Saúde Mental – Intersetorial –(IV CNSM I)
A IV CNSM - I ocorrerá no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, Brasília DF, no período de 27 de junho a 01 de julho de 2010.

O Ministério da Saúde arcará com os custos de hospedagem dos delegados representantes dos usuários dos serviços de saúde, dos delegados nacionais e dos convidados (palestrantes e conferencistas). Também será fornecida hospedagem para acompanhantes de delegados representantes de usuários com deficiência visual ou deficiência física.

O Ministério da Saúde não arcará com despesas de passagens aéreas e ou terrestres de delegados representantes dos usuários dos serviços de saúde, delegados representantes dos profissionais de saúde, delegados representantes de gestores e prestadores de serviços de saúde, bem como delegados intersetoriais e observadores. Estes delegados (profissionais, gestores/prestadores de serviços de saúde mental) terão suas despesas de passagens e hospedagem custeadas pela gestão estadual.

Será fornecido almoço, lanche e jantar durante os dias da conferência, para todos os participantes no local do evento.

Haverá traslado aeroporto/setor hoteleiro/Centro de Convenções e Centro de Convenções/Setor Hoteleiro/Aeroporto nos dias do evento, bem como no dia anterior ao início e no dia posterior ao término da IV CNSM-I.

No local do evento haverá um posto médico que contará com médico, enfermeiro e fornecimento de medicamentos para atendimento de intercorrências clínicas. Haverá também uma ambulância. A assistência em saúde mental será articulada com a Secretaria de Saúde do Distrito Federal

Cordialmente,
Pedro Gabriel Godinho Delgado
Coordenador Geral da IV Conferência Nacional de Saúde Mental - Intersetorial
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maio 20, 2010

Usuário de saúde mental não tem assento na abertura da Conferência de Saúde Mental do Amazonas



RogelioCasado 5 de maio de 2010 — Nivaldo de Lima, o fotógrafo dos esquecidos, capta com sua lente, no espaço urbano, a formação de novas paisagens psicossociais. Os habitantes desses espaços tiveram seus mundos desmanchados. Vivem a compor e decompor seus territórios. Através de diferentes estratégias criam novos modos de existência. Tudo para escapar dos hospícios-nossos-de-cada-dia.

Nota do blog: Com a substituição, de última hora, da Comissão Organizadora da II Conferência Estadual de Saúde Mental o evento não poderia ter começado pior. Na mesa de abertura não havia representantes da universidade, do conselho estadual de saúde e, pasmem, dos usuários de saúde mental, principal protagonista na conquista da IV Conferência Nacional de Saúde Mental. Foram eles que no dia 30 de setembro de 2009 realizaram a Marcha à Brasilia por uma Reforma Psiquiátrica Antimanicomial. Duas mil e quinhentas pessoas, entre usuários, familiares e técnicos de saúde mental conseguiram sensibilizar o presidente da república a convocar o evento. No Amazonas, eles não conseguem ter assento numa conferência da qual são os principais protagonistas, sendo tratados como co-adjuvantes. Pra piorar mais ainda, o Secretario Estadual de Saúde, na fala de abertura, reconhece a dívida do Estado para com o setor de saúde mental, afirma que "inclusive havia recursos para o setor", mas "contigências outras não permitiram a aplicação do recurso". Que curioso! Esse filme a gente já viu antes. Enquanto isso, Nivaldo de Lima vai fazendo a cartografia social dos abandonados pelas políticas públicas. Veja nos vídeos acima.

maio 15, 2010

Presidente da Abrasme pisa na jaca, não perde a pose, e envia nota de esclarecimento


olinoten 21 de abril de 2010 

***

Nota do blog: O surgimento da Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme) no cenário da luta antimanicomial brasileira ainda está por merecer análise mais aprofundada. Para alguns trata-se da terceira via surgida na divisão do movimento da luta por uma sociedade sem manicômios em duas correntes: Movimento Nacional de Luta Antimanicomial e Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial. Para outros, uma composição articulada por uma elite vinculada à academia. Quando a Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (Renila) liderou a Marcha dos Usuários à Brasília por uma Reforma Psiquiátrica Antimanicomial, resultando na conquista da IV Conferência Nacional de Saúde Mental (IV CNSM), mantiveram-se à distância. Depois reivindicariam participação na comissão de organização. Em Manaus, um integrante da Abrasme (que não se nomeia como tal) chegou a afirmar na comissão organizadora da conferência local que a IV CNSM nasceu de uma concessão do Ministério da Saúde, através da sua Coordenação Nacional de Saúde Mental. A tentativa de desqualificação dessa conquista surge aqui e ali onde representantes da Abrasme se manifestam. São sutis, mas não imperceptíveis. O texto que conclama o congresso dessa entidade numa página da internet era a prova insofismável do que estou a dizer. Digo era porque ele foi substituído por um outro mais light. O presidente da entidade, depois de flagrado numa dessas tentativas de puxar o tapete da IV CNSM (vídeo acima), envia pela net uma nota de esclarecimento e pede para não ser mal interpretado. Faça a sua interpretação.   

NOTA DE ESCLARECIMENTO

Walter Ferreira de Oliveira

Publiquei recentemente um texto sobre o II Congresso Brasileiro de Saúde Mental (II CBSM) e expondo algumas opiniões frente à organização da IV Conferência Nacional de Saúde Mental (IV CNSM). Algumas colocações neste texto, junto à postagem no Youtube de um recorte de uma fala minha na conferência municipal de Florianópolis geraram polêmica e foram interpretadas de maneiras diversas, trazendo comentários, críticas e sugestões. Gostaria de esclarecer alguns pontos relativos àquele texto e ao video.

Em primeiro lugar, não concebo o II CBSM como sobrepondo-se ou substituindo a IV CNSM. Ao contrário, vejo o Congresso como um preparatório, ou como descreveu uma colega, um “esquenta” para a Conferência. Neste sentido, através da Abrasme, entidade a qual presido, temos publicado, na sua página, quase que diariamente, textos de apoio à Conferência Nacional, noticias de conferencias estaduais e municipais e criamos internamente um foro de discussão que vem acompanhando a participação dos núcleos e dos associados, técnicos, usuários e familiares. Encorajei pessoalmente participantes deste foro interno, que estão hoje ocupando lugares de destaque nas conferencias estaduais, regionais e municipais. Sou membro da Comissão Organizadora da Conferência estadual de Santa Catarina, participei ativamente da Conferência Municipal de Florianópolis e como palestrante convidado da de Itajaí. Fui ainda convidado como palestrante para as de Lages, Criciúma, entre outras, mas por minhas atribuições profissionais não pude comparecer a estas, tendo entretanto indicado substitutos.

Me sinto militante da Reforma Psiquiátrica desde seu início, em 1978 (fui um dos 30 demitidos da Dinsam, evento fundante do MTSM) e como tal não posso me furtar a emitir minhas opiniões e reflexões, mesmo sob o risco de levantar polêmicas. Desta forma lutei, junto aos usuários e outras entidades, para que a IV Conferência fosse convocada. É sempre importante lembrar que o 1º Congresso Brasileiro de Saúde Mental, ao qual tive a honra de coordenar, engajou-se, motivou e apoiou o processo da Conferência Nacional e na Abrasme apoiei ampla e incondicionalmente a Marcha dos Usuários em Brasília. Não pode haver, portanto, a menor dúvida quanto a importância que dedico à realização da Conferência, instância construtora da Reforma Psiquiátrica e Sanitária no âmbito da redemocratização do país.

Entretanto não posso deixar de me pronunciar criticamente à maneira como está sendo organizada esta quarta Conferência, entendendo estas críticas como positivas e construtivas para a Reforma Psiquiátrica. A meu ver, a instância organizativa da Conferência não está se construindo satisfatoriamente de acordo com os preceitos de um evento amplamente participativo, intersetorial e democrático e entendo que se fosse planejada de outra forma teria mais possibilidades de atingir em maior grau estes preceitos. Lembremos que a Conferência só foi convocada pela pressão enorme exercida pelos usuários, através da Marcha de Brasilia em outubro de 2009. Ela não foi desejada e planejada adequadamente pelos que tinham o poder de buscar e efetivar sua convocação, ela foi uma conquista, arrancada contra o desejo de pelo menos uma parte poderosa de seus convocadores. Por ser assim, ela tem sofrido de certas deficiências, incluindo-se a falta de uma posição estratégica para superar seu maior problema, na minha opinião, que é o açodamento, o atropelamento de sua efetivação, além de certos aspectos relativos ao exercício do controle em seus mecanismos de organização.

O açodamento tem sido prejudicial à organização ao nível municipal, que é o coração da Conferência. Senão vejamos: a convocação tardia da conferência, com 27 subtemas de discussão, levou a um apressamento nos municípios, com pouca chance, em todos os estados, para um bom planejamento, para uma discussão de qualidade. A capital de Santa Catarina, para tomarmos um exemplo, não ia ter conferência porque um comitê exclusivo de gestores, oportunizados pela situação decidiu, antecipadamente, por uma conferência regional. Houve embate, luta acirrada entre gestores, usuários, técnicos e familiares, até que o Conselho Municipal de São José, que seria sede da regional, cancelou, unilateralmente, a conferência regional, a dias de sua realização, forçando a capital a organizar em poucos dias sua conferência municipal. Os outros 22 municípios envolvidos sofreram pela mesma confusão. Vamos refletir sobre isso? Uma capital prepara-se em sete dias para discutir seus inúmeros problemas de saúde mental e em uma forma a qual não lhe é familiar, a ação intersetorial. Certamente há quem vá dizer que isso não é problema da organização central, o que discordo. A organização central, em seu papel histórico de condução do processo, e com uma visão estratégica, poderia prever esta situação e ter propostas de apoio aos níveis municipais, regionais e estaduais, para isso ela é formada pelas pessoas e entidades escolhidas (mais que nunca nesta conferência) a dedo – parte do outro problema que abordo mais abaixo. Podemos discordar sobre isso, acho democrático e fundamental, mas entendo, pois tem sido por isso que a própria Reforma Psiquiátrica tem lutado, que minha opinião deva ser respeitada e me proponho, a qualquer momento, a discuti-la respeitando a dos outros.

Voltando à conferencia de Florianópolis, para fechar o raciocínio. Ela limitou-se a um palestrante pela manhã e duas horas de discussão de todos os problemas de saúde mental à tarde com uma plenária na última hora após as eleições dos delegados. Como pode haver discussão de qualidade e aprofundamento dos problermas neste formato? Como posso ficar satisfeito com a maneira como os temas foram tratados, como posso acreditar no bom desenvolvimento destas temáticas, na perspectiva de uma participação ampla, intersetorial? Perguntaria ainda: Como acham que foram planejados, nesta confusão e neste açodamento, a divulgação da conferencia para a cidadania, o acesso para usuários, entre outras coisas? Os usuários fizeram uma moção de repúdio ao processo organizativo da Conferência, mas esta moção não foi registrada porque não conseguiram, a tempo, o número de assinaturas que lhes foi indicado como necessário. O único lugar de que temos noticia de uma conferencia um pouco melhor organizada em Santa Catarina foi em Lages, onde a Abrasme foi uma das principais articuladoras. Houve ali várias pré-conferencias, participação anterior dos Conselhos Locais de Saúde e uma série de providencias estratégicas para garantir qualidade democrática de participação.

E como tem sido a preparação, o apoio, o acesso, a divulgação, a articulação intersetorial? Em Florianópolis, para continuar com o exemplo, tivemos uma reunião final de eleição de delegados intersetoriais com nove pessoas, das quais uma era o presidente da Abrasme, uma gestora estadual de saúde mental, dois membros de conselhos profissionais (que acabaram sendo eleitas como delegadas e posteriormente uma foi impugnada), dois psicólogos, uma representante de hospital e uma de associação ligada a pessoas com necessidades especiais. Quantos acham, seriamente, que este grupo representa de forma significante a intersetorialidade necessária a poder-se chamar esta Conferência de Conferência de Saúde Mental Intersetorial?

E em outros estados, o que vem acontecendo? Há alguns relatos de conferencias que ocorreram bem, como a de Salvador, e a de Brasília, mas na grande maioria das que estamos acompanhando, em meio ao atropelamento, não há chance para se fazer aquilo que a Conferencia deveria ser, uma festa da cidadania, onde se aproveite a oportunidade para avançar a discussão pública, ampla e plena da Reforma Psiquiátrica. Com raras exceções a participação dos usuários é dificultada pela falta de apoio ao acesso, a participação dos técnicos é muitas vezes sob constrangimento (há denúncias de serviços que não liberaram seus técnicos para participar em reuniões de planejamento e articulações, e há denuncias de municípios que convocaram seus técnicos, mesmo de outras áreas, em cargos de confiança, para garantir quorums de votação). Há, portanto, uma série de questões que podem ser melhor refletidas quando contextualizamos o açodamento em que foram realizados todos os procedimentos para a convocação desta Conferência, que poderia ter sido convocada em 2005, 2006, 2007, 2008 ou em 2009, com tempo hábil para garantir participação ampla, plena e interessada da cidadania, dos usuários, dos familiares, dos técnicos e das entidades atuantes no campo.

Além destas considerações, não posso deixar de registrar também minha indignação sobre como foi conduzida a constituição da Comissão Organizadora da Conferência. Foi formada uma comissão provisória, sem que se tenha discutido os critérios de sua formação. Pode-se até aceitar que seja assim mesmo, estavam lá presentes o Conselho Nacional de Saúde, a Coordenação de Saúde Mental, a CISM e movimentos sociais, além de outras entidades que foram consideradas, de alguma forma, por algum critério que não conheço, mais importantes que outras. Mas minha experiência com esta comissão foi péssima, constrangedora, fria, antidemocrática. Pleiteei, de forma absolutamente respeitosa, que a Abrasme, entidade que represento, tomasse parte na Comissão Organizadora da Conferência e justifiquei plenamente nosso pleito, afinal, trata-se de uma novidade positiva no campo, uma entidade interdisciplinar, intersetorial, que admite usuários, familiares, cidadãos, comprometida com a causa da Reforma, que tem uma produção cidadã, científica e acadêmica, um papel social já demonstrado e publicizado. Enviamos, entregamos pessoalmente e ou protocolamos ofícios ao Conselho Nacional de Saúde, à Coordenação de Saúde Mental, à CISM e à Secretaria de Gestão Participativa do Ministério da Saúde. Fui pessoalmente a Brasília entregar alguns destes ofícios e defender a participação da Abrasme na Comissão. A comissão não me fez uma pergunta sequer e não se dignou a responder, até hoje, aos ofícios enviados e ou protocolados, desrespeitando qualquer princípio organizativo democrático. Não sabemos se fomos aceitos ou não (acredito que não, já que não fomos mais convidados a participar), não sabemos se o assunto foi discutido, porque não teríamos sido aceitos, não foi demonstrada por esta comissão da conferência qualquer preocupação em sequer dar resposta a uma entidade cuja intenção, desde o primeiro momento, e antes mesmo que esta comissão existisse, tem sido contribuir com a conferência. Não houve respeito pelas pessoas que seu presidente ali representava, pelo direito que elas têem, minimamente, a uma resposta qualquer. Telefonamos para a Coordenação de Saúde Mental, para acompanhar a discussão, pormo-nos à disposição para esclarecimentos, deixamos recado, inclusive para a coordenação da conferência, solicitamos contato, sem qualquer resposta. A comissão não se dignou responder, não discutiu critérios, não parece entender que deve qualquer explicação ou mesmo qualquer ato de gentileza, educação ou boa vontade para com as pessoas ou as organizações da sociedade civil que a procuram, mesmo as dedicadas ao avanço da Reforma Psiquiátrica.

Vejo-me como um ator social, político e crítico que quer continuar contribuindo para que as forças no campo se unam ao invés de se romperem. Penso que ser omisso me afastaria dos objetivos da Reforma e de ajudar às pessoas que posso, através de meus papéis de profissional e de militante. Apóio a realização da IV Conferência Nacional de Saúde Mental, mas não posso deixar de fazer críticas e sugestões, esperando não ser mal interpretado.

(a) Walter Ferreira de Oliveira

maio 14, 2010

Moção de repúdio contra o boicote do governo estadual de São Paulo à IV CNSM

II Conferência Estadual de ECOSOL aprova Moção de Repúdio ao Governo do Estado pela não Convocação da IV Conferência Estadual de Saúde Mental

13/05/2010


A II Conferência Estadual de ECOSOL com a presença de 400 delegados de todas as regiões do Estado, reunida nos dias 23, 24 e 25 de abril na cidade de Campinas aprovou uma Moção de Repúdio ao Governo do Estado de São Paulo, José Serra, e uma Moção de Apoio e solidariedade a todas as Conferências Municipais e Regionais e a Plenária Estadual de Saúde Mental de São Paulo, dia 22 de maio.

MOÇÃO DE REPÚDIO


A II Conferência Estadual da Economia Solidária de São Paulo repudia a posição autoritária, de pouco apreço à democracia, do Governo do Estado de São Paulo, José Serra, que não convocou a IV Conferência de Saúde Mental/Intersetorial.

MOÇÃO DE APOIO

Os delegados da II Conferência Estadual da Economia Solidária do Estado de São Paulo declaram apoio a todas as Conferências Municipais e Regionais da IV Conferência de Saúde Mental/Intersetorial, como também, a Plenária Estadual de Saúde Mental que se realizará, no dia 22 de Maio.

Leonardo Pinho

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skype: leo_pinho1
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Movimentos dão a volta por cima do boicote do governo estadual paulista

Movimentos Sociais garantem a etapa paulista da IV Conferência Nacional de Saúde Mental, apesar de Serra...

Abaixo matéria que retrata mais uma ação do Governo Serra contra as conferências e a participação social.

Movimentos garantem etapa paulista de Conferência de Saúde Mental

publicado: Rede Brasil Atual


Fundamental para a formulação de políticas para o setor, a etapa estadual da conferência foi convocada em todo o país, menos em SP. Mesmo assim, o Conselho Estadual de Saúde paulista e entidades se encontrarão em São Bernardo para definir os delegados

Por: Cida de Oliveira, especial para a Rede Brasil Atual
Publicado em 11/05/2010, 16:08
Última atualização em 12/05/2010, 17:34

São Paulo - Apesar do boicote do governo estadual paulista, entidades ligadas à saúde pública promovem, no próximo dia 22, um sábado, em São Bernardo (SP)uma plenária para eleger os 188 delegados paulistas que terão voz nos debates da 4ª Conferência Nacional de Saúde Mental Intersetorial.

A gestão estadual foi a única unidade da federação a não convocar a etapa estadual da conferência preparatória para a Nacional. Todas as outras 26 unidades da federação têm eventos marcados nesta ou na próxima semana (confira o calendário aqui).

Além de indicar os delegados, o encontro deverá analisar a situação da saúde mental no estado de São Paulo e elaborar propostas. Os representantes serão escolhidos entre os usuários dos serviços de saúde mental, profissionais e gestores.

A reunião foi convocada pelo Pleno do Conselho Estadual de Saúde de São Paulo, Conselhos Federal e Regional de Psicologia, Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo, Frente Parlamentar de Apoio à Luta Antimanicomial e Sindicato dos Psicólogos no Estado de São Paulo. Outras 25 entidades, que compõem o movimento Pró IV Conferência, apoiam a chamada.

"Pelo estatuto, a Conferência Nacional não será prejudicada nem adiada caso alguma das unidades da federação deixe de realizar sua etapa", diz a psicóloga Fernanda Magano, secretária geral do Sindicato dos Psicólogos no Estado de São Paulo e integrante da Comissão Intersetorial de Saúde Mental do Conselho Nacional de Saúde. "No entanto, não podemos ficar de fora da construção da saúde mental que defendemos", alerta.

Segundo ela, o governo paulista já vinha dando sinais de falta de vontade política para a convocação da etapa estadual. "O secretário chegou a agendar reunião para discutir a questão, mas desmarcou em cima da hora, quando o interlocutor já esperava para ser recebido. Fora outras desculpas que deu, como falta de tempo hábil para a realização", lamenta.

Para o psicólogo Ricardo Barreto, que trabalha no Hospital Psiquiátrico do Juqueri, em Franco da Rocha, o boicote tem outras razões além das político-partidárias. "O governo paulista quer impedir também o debate sobre o atual desmonte e privatização da saúde pública no Estado. E essa discussão não interessa ao candidato (José) Serra", opina. O ex-governador é o nome do PSDB para a sucessão presidencial.
Em Franco da Rocha, o Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental (Caism), que funciona em uma área de 2,3 mil metros quadrados que já abrigou o antigo Pavilhão de Tuberculosos do Complexo Psiquiátrico do Juquery, é gerido pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Em setembro passado, o governador José Serra conseguiu aprovar a Lei Complementar 1.095, que permite a adoção do contrato de gestão por Organizações Sociais (OS) em hospitais já existentes e estende o modelo para as áreas de cultura e esporte.

Esse tipo de contrato firmado entre o governo e OS permite contratações e compras de equipamentos sem licitação. As organizações recebem 10% do total do orçamento enviado à unidade hospitalar como pagamento pelo gerenciamento, além de todo o valor referente ao custo de manutenção, incluindo funcionários e estrutura física do local. Tudo isso sem o controle social dos conselhos de saúde.

A 4ª Conferência Nacional de Saúde Mental, programada para Brasília, de 27 e 30 junho, é um fórum onde diversos setores da sociedade debatem o tema, além de questões como álcool e outras drogas. As discussões terão ênfase nos direitos humanos, assistência social, educação, cultura, justiça, trabalho e esportes, entre outros.

Convocada em 29 de abril por decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a realização da conferência veio a público antes, em 14 de janeiro, quando o ministro da Saúde José Gomes Temporão homologou a Resolução 433 do Conselho Nacional de Saúde.

Outro lado

Desde o dia 29 de abril a reportagem da Rede Brasil Atual tenta ouvir da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo o motivo pelo qual não convocou a conferência estadual de saúde mental, a exemplo de todos os demais Estados. No primeiro contato, a assessoria de imprensa informou desconhecer o assunto e que, por isso, "tinha dificuldades para localizar alguém na secretaria que pudesse responder”.Nos contatos seguintes, feitos diariamente, sucessivas recusas foram repetidas, sempre solicitando prazo maior. Até às 16h desta terça-feira, nenhuma informação foi prestada.

Fonte: Economia dos Trabalhadores(as)

maio 02, 2010

Os limites da Reforma

Jornal Amazonas em Tempo
Os limites da Reforma

Mais de trinta grupos, gente de todo o país, discutiam propostas para fazer avançar a reforma psiquiátrica, no III Congresso Brasileiro de Saúde Mental, realizado em Brasília, em 2001. Num deles um homem caminhava de um lado para outro, no meio do salão. Falando alto, aqui e ali, interrompia os oradores, e invocava a figura do saudoso médico sanitarista David Capistrano Filho: “Se estivesse vivo, David diria: ‘chega de Reforma, o que precisamos é de uma Revolução’”.

O personagem era Antonio Lancetti, coordenador da coleção Saúde em Debate, da série Saúde & Loucura, cujo número 7 tem num dos artigos uma citação do autor destas mal traçadas.

A julgar pelo tratamento dispensado pelo Ministério da Saúde aos movimentos sociais, não precisava ser profeta para predizer o futuro. Há tempos vínhamos chamando atenção para os gargalos da reforma, o descompromisso dos gestores, a falta de formação adequada ao novo paradigma de atenção em saúde mental e o investimento desproporcional às necessidades de expansão dos serviços substitutivos ao manicômio.

Paga-se caro essa indiferença. O fato vem sendo explorado, à farta, pelos setores conservadores, interessados em esvaziar da Reforma Psiquiátrica brasileira a sua proposta mais revolucionária: o fim dos manicômios.

No Rio Grande do Sul parlamentares do DEM e do PSDB botaram as mangas de fora. Partiram para a modificação da primeira lei de saúde mental sancionada no país. Até agora não lograram êxito.

Em nenhum momento o Ministério da Saúde abriu diálogo com os movimentos sociais. Em se tratando do governo Lula, um pecado capital. O mesmo pecado que ao considerar a propriedade como algo sagrado, em detrimento da terra, atrasa a reforma agrária, omissão que contribuiu para as tragédias socioambientais que invadiram os noticiários do primeiro trimestre deste ano.

Houve um tempo em que as restrições políticas faziam dos líderes dos movimentos sociais hábeis agentes em combinar ação coletiva com participação institucional. Atualmente prevalece um pragmatismo conciliador, que ousou decretar o fim de ações politicamente conectadas aos movimentos sociais.

Nesse ciclo não revolucionário prevalece uma visão reformista voltada para a estratégia de cooptação para claques presumidas, que acaba comprometendo os quadros interpretativos da ação coletiva.

Desse modo a vaca caminha perigosamente para o brejo. Sem entendimentos e identidade compartilhada, estava na cara que o empresariado do setor, reprovado no teste de aptidão ao novo modelo de atenção em saúde mental surgido com a Reforma Psiquiátrica, auxiliado por um aparelho formador, que está mais por fora do que umbigo de vedete, iria deitar e rolar nesse mar de ambigüidades. O que não se esperava era a resposta dos usuários que marcharam a Brasília com o objetivo de retomar o eixo da Reforma Antimanicomial que queremos.

Vem aí a IV Conferência Nacional de Saúde Mental, uma conquista dos portadores de sofrimento psíquicos organizados, tendo à frente a Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial, e como parceiro o Conselho Federal de Psicologia. É hora de avançar mais.

Manaus, Abril de 2010.
Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental
Pro-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UEA
www.rogeliocasado.blogspot.com

Nota do blog: Publicado, hoje, no caderno Sáude & Bem Estar, Jornal Amazonas em Tempo.

abril 30, 2010

Tucanos jogam a toalha: a IV Conferência Nacional de Saúde Mental foi decretada pelo Presidente da República

Nota do blog: Agora não tem escapatória. Os tucanos alegavam que a IV Conferência Nacional de Saúde Mental era uma peça de ficção, que ela não havia sido chamada oficialmente. O decreto foi publicado hoje no Diário Oficial. Pra comemorar, Zefofinho de Ogum colobarador deste PICICA, mestre em gastronomia sugere para o prato do dia: "Pegue três tucanos sábios, pele bem pelado e jogue na panela; cozinhe e coma com fatias de abacaxi e pepino".

RECADO DO NEDER[1]

PSDB SE OPÕE À PARTICIPAÇÃO SOCIAL

Para muitos pode parecer incompreensível a resistência do governo do PSDB de realizar em São Paulo a Conferência Estadual de Saúde Mental. Por decisão do Conselho Nacional de Saúde, será realizada a IV Conferência Nacional de Saúde Mental, precedida de etapas municipais e estaduais. Em nosso estado, os municípios vêm realizando suas conferências e elegendo delegados em um quadro de incerteza, uma vez que a Secretaria de Estado da Saúde resiste e ainda não confirmou a realização da etapa estadual. Tal atitude está em desacordo com deliberação do Conselho Estadual de Saúde e gera crise político-administrativa dentro da própria instituição com dirigentes e trabalhadores que atuam na área e que defendem sua realização. O que estará por trás disso?

A primeira tentativa oficial de explicação é que o processo estaria sendo imposto de cima para baixo, a partir do plano federal, e que tal evento não estaria de acordo com o cronograma e prioridades da Secretaria de Estado da Saúde em São Paulo. Explicação que não convence, pois a iniciativa foi aprovada em colegiado plural e referendada em órgãos interinstitucionais do SUS, como a tripartite e a bipartite. Outra, é que o momento seria inoportuno, por se tratar de um ano em que teremos eleições praticamente gerais no país. Ocorre que ela será realizada no primeiro semestre e eleições nunca foram fator impeditivo de realização das conferências. Ao contrário, a sistematização de ideias e propostas decorrentes de uma análise das experiências em curso deve levar à elaboração de documento a ser oferecido às candidatas e aos candidatos majoritários como contribuição ao debate e aos respectivos programas de governo.

A Conferência de Saúde Mental abre novas perspectivas ao assumir-se com caráter intersetorial e estabelece um novo marco de exigências para futuras conferências gerais e temáticas, sendo necessário que os critérios de participação de áreas afins à saúde sejam melhor estudados para não ferir a paridade desejada. Enquanto o governo Lula realiza dezenas de conferências para estimular a participação social, visando à democratização do Estado e das políticas públicas, o governo do PSDB em São Paulo cria dificuldades para a concretização desse direito constitucional. Uma diretriz do SUS, expressa na Lei 8.142/90, que não deveria estar em discussão. Da mesma forma que a existência de conselhos gestores em unidades de saúde. Também neste caso, Alckmin e Serra andaram na contramão da Reforma Sanitária ao, respectivamente, vetar e ingressar com Ação de Declaração de Inconstitucionalidade, diante da promulgação pelo parlamento paulista da Lei n.º 12.516/07, que Roberto Gouveia e eu apro vamos na Assembleia Legislativa para instituir esses colegiados nas unidades sob gestão estadual. Conselhos gestores que já são realidade em muitos municípios brasileiros, inclusive na cidade de São Paulo.


[1] Carlos Neder – Médico Sanitarista, foi Secretário Municipal da Saúde (gestão Luiza Erundina), Vereador e Deputado Estadual de São Paulo.   

Lula convoca a IV Conferência Nacional de Saúde Mental

Abraço simbólico pelo fim dos manicômios
Foto publicada no jornal Amazonas em Tempo, 2003

Decreto de 29 de Abril de 2010, do Presidente da República, convoca a IV Conferência Nacional de Saúde Mental - Intersetorial. A pbublicação está no Diário Oficial da União.

Viva a Marcha dos Usuários à Brasília por uma Reforma Psiquiátrica Antimanicomial. Os usuários dos serviços públicos de saúde mental do Brasil conseguiram sensibilizar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Pelo Amazonas, esteve presente nessa conquista a Associação Chico Inácio, filiada à Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial.

Na fotografia acima, a Associação Chico Inácio em parceria com a Coordenação Estadual de Saúde Mental (período 2003-2007) promoveu o segundo abraço simbólico pelo fim dos manicômios; o primeiro foi no Palácio Rio Branco, onde funcionava a Assembléia Legislativa do Estado do Amazonas; o terceiro foi no Palácio Rio Negro, onde funcionava a sede do governo estadual; e o quarto foi no Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro, em 18 de maio de 2007.

A luta continua!
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abril 27, 2010

Reforma Psiquiátrica e Medidas de Segurança

Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico
Foto: Rogelio Casado - Manaus-Amazonas-Breasil, 1998
Nota do blog: Em Manaus, no final dos anos 1980 foi criado o HCTP
numa velha delegacia, situada no interior da Penitenciária 
Desembargador Vidal Pessoa. Nossas entidades de classe 
ignoram essa sinistra instituição, onde 5 cinco 
presidiários perderam a vida num incêndio 
nos primeiros anos deste século.

Documento elaborado pelo GT
Prisional do CRP SP foca a IV
Conferência Nacional de Saúde
Mental


publicada dia 19/4/2010

O Grupo de Trabalho Prisional do CRP SP elaborou um documento a respeito da Reforma Psiquiátrica nas Medidas de Segurança para contribuir na mobilização sobre esta temática nas discussões da IV Conferência Nacional de Saúde Mental, de 27 a 30 de junho, em Brasília. A carta aponta para diretrizes e ações relacionadas à justiça e às políticas de saúde mental.
Confira:

Para além dos manicômios judiciários
A reforma psiquiátrica antimanicomial e sua implementação na execução das medidas de segurança


A IV Conferência Nacional de Saúde Mental, a ser realizada entre os dias 27 e 30 de junho, em Brasília, precedida pelas etapas municipais e/ou regionais, tem como tema principal “Saúde Mental direito e compromisso de todos: consolidar avanços e enfrentar desafios”.

Considerando o caráter intersetorial da IV Conferência, principalmente o foco do Eixo I: “Saúde Mental e Políticas de Estado: pactuar caminhos intersetoriais”, abre-se caminho para um debate profícuo, bem como a pactuação de diretrizes e ações no que diz respeito à relação da Justiça com as políticas de Saúde Mental.

É fundamental que a IV Conferência Nacional de Saúde Mental aponte para avanços no tocante à execução de medidas de segurança, inclusive discutindo em profundidade as instituições manicomiais, que em cada Estado recebe denominações diferentes (hospitais de custódia e tratamento psiquiátrico, manicômios judiciários, casas de custódia, etc) que são destinadas para confinarem vidas a partir da determinação de um “tratamento compulsório”. É urgente a incorporação dessas questões na construção coletiva e intersetorial de políticas públicas da Saúde Mental.

De acordo com os dados de 2009 do Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN), são aproximadamente 3.900 pessoas em cumprimento de medida de segurança no Brasil, a esmagadora maioria confinada em instituições manicomiais, sendo que os índices apontam para a tendência de crescimento dessa população: em 4 anos houve um aumento de 40,93% (Dez. 2003 a Dez. 2007).

Defendemos que os dispositivos do Código Penal devem ser analisados sob a luz da Lei Federal mais atual e que versa sobre a mesma matéria, ou seja, analisado a partir da Lei 10.216/01 (Lei da Reforma Psiquiátrica) , no que diz respeito ao tratamento que será oferecido aos indivíduos submetidos à medida de segurança.

O Código Penal, no que se refere à aplicação das medidas de segurança, dispõe que se o agente que infringiu a lei for considerado inimputável, o juiz determinará sua internação (Artigo 26 do Código Penal). Contudo, de acordo com a Lei 10.216/01 (Lei da Reforma Psiquiátrica) , em seu Artigo 4º.: “a internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes”, dispondo, inclusive, que o tratamento deverá ter como finalidade permanente a reinserção social do paciente (no § 1º deste Artigo). Além disso, temos no § 3º do mesmo Artigo que: “é vedada a internação de pacientes portadores de transtornos mentais em instituições com características asilares, ou seja, aquelas desprovidas dos recursos mencionados no § 2º e que não assegurem aos pacientes os direitos enumerados no parágrafo único do art. 2º”.

Se a medida de segurança não tem caráter punitivo – e de direito não tem – a sua feição terapêutica deve preponderar. Eis o argumento elementar levado à mesa de discussões. Muda-se o paradigma. A questão deixa de ser focada unicamente sob o prisma da segurança pública e é acolhida definitivamente pelos serviços de saúde pública. Não será a cadeia, tampouco o manicômio, o destino desses homens e dessas mulheres submetidos à internação psiquiátrica compulsória. (SILVA, Haroldo Caetano, “Implementação da reforma psiquiátrica na execução de medidas de segurança”, p. 11) É fundamental que retomemos o disposto na 1ª. Conferência Nacional de Saúde Mental, buscando efetivar avanços no que se refere à reforma psiquiátrica na execução de medidas de segurança: “Que se aprofunde a discussão sobre os manicômios judiciários, visando sua extinção ou profunda transformação”; bem como as diretrizes da 2ª. Conferência Nacional de Saúde Mental, que apontava para a extinção de “todos os dispositivos legais que atribuem periculosidade ao doente mental” e colocava como proposta uma articulação junto ao Ministério da Justiça,visando: “a extinção dos manicômios judiciários (‘hospitais de custódia e tratamento psiquiátrico’), de maneira lenta e gradual, semelhante aquela proposta para os hospitais psiquiátricos, devendo ser substituídos por modelos alternativos que possibilitem o cumprimento das medidas de segurança impostas e o recebimento de um tratamento humano e reabilitador”; e da 3ª. Conferência Nacional de Saúde Mental: “as condições de funcionamento dos manicômios judiciários (chamados hospitais de custódia e tratamento psiquiátrico) , para onde são encaminhados os pacientes que cometem delitos, constituem atentados aos direitos humanos, e precisam ser profundamente reestruturadas”….. “No horizonte da reforma, deve estar colocada a superação total desse tipo de estabelecimento.””

Vamos avançar na Reforma Psiquiátrica Antimanicomial ao abarcar a execução de medidas de segurança, espaço em que viceja com maior força o ideário da periculosidade das pessoas com transtornos psiquiátricos e a lógica de “tratamento” pelo confinamento e punição! Precisamos, juntos, enfrentar também este desafio que se coloca no horizonte de nossa luta coletiva!

Juntos, rumo à IV Conferência Nacional de Saúde Mental! Reforma Psiquiátrica Antimanicomial para todos!

CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA 6ª. REGIÃO (CRP SP)
Subscrevem esta Carta-Aberta:

1) Sindicato dos Psicólogos no Estado de São Paulo (SINPsi);
2) Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO – coord. Nacional), com a adesão das Regionais: Paraná, São Paulo, Espírito Santo, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Minas Gerais; e dos Núcleos: Sobral, Chapecó, Alto do São Francisco (MG), Triângulo Mineiro, São Paulo, Bauru, Pernambuco, Grão de Areia – Torres (RS), Vale do São Francisco;
3) Defensoria Pública do Estado de São Paulo – Setor Carcerário;
4) Pastoral Carcerária;
5) Fala Preta Org. Mulheres Negras;
6) Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Campinas (CDDH Campinas);
7) Centro dos Direitos Humanos Maria da Graça Bráz (Joinville);
8) Conselho Carcerário de Joinville;
9) Ministério Público do Estado de Goiás – Promotoria da Execução Penal de Goiânia;
10) Movimento Nacional da População de Rua – Coord. SP;
11) Ação dos Cristãos para Abolição da Tortura – ACAT Brasil;
12) Sindicato dos Psicólogos de Minas Gerais;
13) Federação Nacional dos Psicólogos (FENAPSI);
14) Centro Santo Dias Direitos Humanos (CSDDH);
15) Centro de Educação Popular do Instituto Sedes Sapientiae - São Paulo - SP (CEPIS).
16) Instituto Sedes Sapientiae;
17) Comissão Teotônio Vilela;
18) Plenário do VII Congresso Regional de Psicologia de São Paulo;
19) Conselho Regional de Psicologia 07ª. Região (Rio Grande do Sul)
20) Associação Chico Inácio (Amazonas);
21) Instituto AMMA Psique e Negritude - Sao Paulo – SP;
22) Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (RENILA);
23) NESM Bahia;
24) Núcleo Libertando Subjetividades;
25) Fórum Cearense da luta Antimanicomial;
26) Fórum Gaúcho de Saúde Mental;
27) Grupo Tortura Nunca Mais/RJ;
28) Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psicologia e Processos Sociais - NEPPSO PUC Minas / Betim;
29) Centro de Estudos da Infância e Adolescência – CEIA;
30) Observatório do Controle Social no SUS Betim;
31) Coletivo Princípio Ativo (Porto Alegre);
32) PARALAXE: Grupo Interdisciplinar de Estudos, Pesquisas e Intervenções em Psicologia Social Crítica da UFC;
33) ONG da Inclusão/ Sã Consciência;
34) DEFNET - Centro de Informática e Informações Sobre Paralisias Cerebrais;
35) Núcleo de Estudos e Pesquisa Violências: sujeito e política - PUC-SP.

Caso sua entidade apóia esta carta, clique aqui para subscrevê-la.
Participe!


Fonte: CRP SP