janeiro 03, 2016

Podem os governos progressistas sobreviver ao próprio sucesso? Por Bruno Cava (QUADRADO DOS LOUCOS)

PICICA: "2015 foi o annus horribilis para o ciclo progressista da América do Sul. Foi o ano em que os governos foram derrotados em seus próprios termos, isto é, quanto ao apoio eleitoral da maioria, apoio dos pobres. O kirchnerismo apresentou um candidato a presidente oriundo do menemismo e foi derrotado[3]. A oposição venezuelana marcou 16% de vantagem nas eleições à assembleia nacional[4]. Jovem opositora a Evo, Soledad Chapetón arrebatou a prefeitura de El Alto, segunda cidade da Bolívia, cidade plebeia habitada por ameríndios que foi o coração da guerra do gás de 2003[5]. Depois dos levantes multifacetados de junho de 2015 e da intensificação da crise política[6], Rafael Correa anunciou que não vai se candidatar à reeleição, em 2017. E Dilma Rousseff, sucessora de Lula na presidência desde 2011, enfrentou protestos na casa do milhão de manifestantes e uma rejeição massiva em todos os segmentos sociais, com um índice de popularidade inferior à taxa anual de inflação, de 10,5%[7]. Dilma vencera a eleição presidencial de outubro de 2014 por uma pequena margem (3%), numa campanha em que asseverou duas coisas que, semanas depois da apuração, se mostraram falsas: 1) que o país não estava à beira de uma grave crise, 2) que não adotaria as políticas neoliberais de “ajuste fiscal” que, de fato, adotou integralmente em 2015[8]." 

Podem os governos progressistas sobreviver ao próprio sucesso?
Por Bruno Cava[1]



Joaquin 
imagem: Joaquín Torres-García



South of the border[2], de Oliver Stone, é a quintessência da narrativa do ciclo progressista na América do Sul. O documentário de 2009 narra a chegada ao poder de Chávez na Venezuela, primeiro de uma nova safra de governantes vermelhos (ou rosés) destoando do neoliberalismo monocromático do mundo pós-URSS. Embalados pelo apoio dos pobres e da esquerda nacionalista, Chávez, Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador), o casal Kirchner (Argentina) e Lula (Brasil) enfrentam as elites, a imprensa tendenciosa, o golpismo da direita e rompem com os governos neoliberais que haviam intensificado a exploração da pobreza na década de 90. A panorâmica do filme é o inverso de um road movie: em vez de imergir nos territórios e processos multitudinários, Stone passeia pelos palácios e adere às falas quase épicas dos chefes de estado. South of the border chega a citar a queda do muro de Berlim, assinalando que o novo ciclo sul-americano irrompeu na contracorrente do triunfalismo pós-histórico do Consenso de Washington. Essa narrativa made for export do ciclo progressista no Sul não poderia ser mais adequada para uma esquerda global nostálgica da Guerra Fria e ansiosa por identificar um “fora” ao capitalismo hegemônico.
2015 foi o annus horribilis para o ciclo progressista da América do Sul. Foi o ano em que os governos foram derrotados em seus próprios termos, isto é, quanto ao apoio eleitoral da maioria, apoio dos pobres. O kirchnerismo apresentou um candidato a presidente oriundo do menemismo e foi derrotado[3]. A oposição venezuelana marcou 16% de vantagem nas eleições à assembleia nacional[4]. Jovem opositora a Evo, Soledad Chapetón arrebatou a prefeitura de El Alto, segunda cidade da Bolívia, cidade plebeia habitada por ameríndios que foi o coração da guerra do gás de 2003[5]. Depois dos levantes multifacetados de junho de 2015 e da intensificação da crise política[6], Rafael Correa anunciou que não vai se candidatar à reeleição, em 2017. E Dilma Rousseff, sucessora de Lula na presidência desde 2011, enfrentou protestos na casa do milhão de manifestantes e uma rejeição massiva em todos os segmentos sociais, com um índice de popularidade inferior à taxa anual de inflação, de 10,5%[7]. Dilma vencera a eleição presidencial de outubro de 2014 por uma pequena margem (3%), numa campanha em que asseverou duas coisas que, semanas depois da apuração, se mostraram falsas: 1) que o país não estava à beira de uma grave crise, 2) que não adotaria as políticas neoliberais de “ajuste fiscal” que, de fato, adotou integralmente em 2015[8].
É nesse contexto que começa a sedimentar-se o discurso do esgotamento de ciclo[9]. Um diagnóstico por si mesmo insuficiente e repleto de armadilhas, na medida em que o fim do ciclo for entendido como uma derrota, como uma triste reviravolta em relação à era dourada da ascensão progressista. Seus governos teriam sido dobrados pelos mercados financeiros, a direita golpista, as elites mancomunadas com o imperialismo ianque, – em todo caso, algum “fora” mistificado, uma razão exógena, um Grande Outro que eventualmente determinou a derrota diante do que agora deveríamos verter jeremíadas. A autocrítica ora se resume a ressentir-se do fato que os maiores beneficiados das políticas sociais, alienados pela ideologia do consumo a que aderiram no processo de inclusão, passaram a votar na oposição (na melhor tradição populista onde o povo está sempre certo até que vote contra nós); ora a prescrever o atalho autoritário de que não teríamos sido socialistas o suficiente, cogitando de um “golpe de esquerda” na Venezuela; ou uma venezuelização, no Brasil.
Mas diante do prenúncio do fim do ciclo, cujo desfecho oscila entre um fim amargo (Argentina) e uma amargura sem fim (Brasil), é preciso de uma vez por todas afastar a narrativa épica que conta a nossa história recente opondo imperialismo e anti-imperialismo, progressismo e neoliberalismo, esquerda e direita, categorias que talvez fossem válidas neste subcontinente nos anos 70 ou, com demasiada licenciosidade analítica, nos 90. Chega de mistificar o debate com grandes narrativas em vez de enfrentá-lo, na problematicidade necessária para a abertura da ação e do pensamento. Como escrevi com Alexandre Mendes[10], os governos progressistas venceram. E venceram reprimindo sistematicamente as alternativas constituintes que se colocaram, sufocando toda a imaginação política, todos os movimentos que não se engrenaram nos motores ideológicos de seu projeto de governo, desenvolvimento e cidade. Que agora não fiquem tão lamurientos, ao perceber que abriram alas a sua própria destituição, depois de vencerem.
Nos últimos 10-15 anos, o projeto político-econômico se inspirou numa persistente matriz teórica sobre a produção nas condições do subdesenvolvimento, que ecoa antigos teoremas cepalinos[11] (Raúl Prebisch, Celso Furtado), ainda que aplicados com certo sincretismo. Trata-se, grosso modo, de uma aplicação de Keynes na longue durée: por um lado, admite-se que o investimento determina a demanda efetiva (não se produz para distribuir, mas o inverso); por outro, que nas condições periféricas é preciso também comandar o avanço industrial e tecnológico. Disso decorre um imperativo basilar: acumular capitais para ser invertidos na industrialização. Esses capitais invertidos no setor industrial, a seguir, ampliam a capacidade produtiva, alteram a composição das importações e diversificam a economia. Mas como a relação entre centro e periferia do capitalismo é estruturante, não resta aos governos do sul senão fazer uso dos excedentes acumulados em função de seu posicionamento inicial. Daí surge o tão falado “Consenso das Commodities”: suas exportações se tornam elemento estratégico de acumulação de capital, ponto de partida para a modernização do parque produtivo. Em tese, esse projeto desenvolvimentista deveria fortalecer o mercado nacional em relação às flutuações da procura externa, promover uma transformação profunda da economia pátria e, em consequência, romper o círculo vicioso da dependência estrutural. Noutras palavras, a industrialização é a via de superação da pobreza e o estado deve planejá-la.
Diante do fim do ciclo, as críticas à esquerda desse projeto efetivamente executado se concentram em dois grandes blocos. O primeiro bloco assinala que os governos não foram desenvolvimentistas o suficiente, que não foram capazes de romper com os entraves neoliberais, que foram cúmplices demais com o capital improdutivo e/ou financeiro, não se fizeram acompanhar por reformas estruturais e/ou um projeto efetivo de emancipação. Isto leva a criticar, por exemplo, a leniência do governo venezuelano em não forçar, mesmo que fosse manu militare, a diversificação de sua economia, rigidamente dependente da petro-indústria. Ou, no caso brasileiro, a crítica que se orienta contra o que seria uma “reprimarização” da economia, mesmo que o agrobusiness, por exemplo, seja ele próprio uma indústria de grande escala e mecanizada, totalmente emaranhada às cadeias terciárias da bioengenharia, arquitetura financeira, brand management e comercialização. O segundo bloco, a seu passo, se limita a criticar os excessos extrativistas, como se o projeto desenvolvimentista estivesse, em essência, bem norteado, faltando apenas retificar as profundas violações às populações atingidas e ao meio ambiente em geral[12], segundo uma ponderação racional de interesses. As críticas industrialistas (1º bloco) e sociais-liberais (2º bloco) perdem de vista uma limitação interna fundamental ao progressismo desenvolvimentista (tratarei mais adiante).
Os governos progressistas emergiram de mobilizações democráticas em todos os casos. A Revolução Bolivariana de Chávez das sublevações populares na esteira do Caracazo (1989); a Revolução Cidadã do Equador a partir das revoltas urbanas de 1997, 2000 e 2001, até a rebelión de los forajidos em 2005; a Revolução Democrática e Cultural da Bolívia, resultado do ciclo insurgente de 2000-2005, com destaque às guerras da água (2000) e do gás (2003)[13]. Nos casos de Brasil e Argentina, a crise asiática de 1997 precipitou o desmoronamento da relativa estabilidade construída pelos governos neoliberais, culminando na ingovernabilidade argentina de 2001-02, – quando explodiu o tumulto dos piqueteros e cacerolazos, ao que se seguiu o kirchnerismo, – e na ascensão eleitoral de Lula, que havia sido derrotado nos três pleitos anteriores (1989, 94 e 98). Vale apontar, ainda, a convergência dessas revoltas com as lutas do ciclo alterglobalização de Seattle e Gênova, reunidas no vetor antineoliberalismo e sob a referência de Chiapas, o que levou a uma miscigenação da geração autonomista dos anos 1990 com a esquerda sul-americana mais tradicional de extração setentista. Por exemplo, na realização dos Fóruns Sociais Mundiais (FSM) sediados no estado brasileiro do Rio Grande do Sul, com governo local do PT.
As mobilizações democráticas transmitiram o impulso multitudinário na composição dos governos, com um imediato reposicionamento do estado que, com a lógica desenvolvimentista, passou a investir diretamente no social. O redirecionamento do orçamento público determinou um inédito desbloqueio da produtividade do trabalho vivo, numa das regiões mais socialmente cindidas do mundo, reinventando a economia “desde baixo” e promovendo um período consistente de crescimento econômico e redução das desigualdades sociais e regionais. Todos os indicadores socioeconômicos demonstraram o sucesso das políticas sociais que, sem pesadas mediações do estado ou mercado, transferiram renda, elevaram o salário real e ampliaram o crédito popular. O efeito desta transformação se desdobrou em múltiplas escalas e dimensões, determinando uma mudança profunda e duradoura das sociedades sul-americanas.
Existe uma interpretação generalizada do sucesso do ciclo progressista que aponta para as exportações relacionadas à aceleração da economia chinesa e ao boom das commodities, – que gozavam de altas cotações, com o petróleo a mais de 100 dólares o barril, – como o principal fator da blindagem da região na crise de 2008-09, e da capacidade de distribuição de renda e inclusão social. Seria, no entanto, uma onda efêmera, conjuntural, que passaria assim que o superciclo das commodities findasse. Parece escapar inteiramente ao campo de análise a possibilidade de que o fortalecimento do mercado interno se deveu, sobretudo, à mudança qualitativa da composição produtiva social, à formação de circuitos econômicos virtuosos, independentes do sucesso ou não da industrialização, e em tendência de autonomização em relação às exportações.
As teses desenvolvimentistas adotadas pelos governos progressistas foram formuladas antes do deslocamento do fordismo-keynesianismo nos anos 1970, logo, antes da globalização financeirizada. Portanto, enxergavam na industrialização o caminho para a emancipação, seja pela formação de um operariado com consciência de classe, seja pela via das “reformas de base” (Celso Furtado), segundo uma análise diacrônica. Nesse propósito, o também sucesso desenvolvimentista da ditadura brasileira (1964-85), com o 2º Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), concluiu o ciclo do aço no mesmo instante em que o mundo produtivo já abria a revolução do silício, começando pela Califórnia. Hoje, três décadas depois, em pleno século 21, o setor produtivo não coincide com o setor industrial, de modo que os projetos desenvolvimentistas seguem indexados numa métrica do valor que não mais funciona do mesmo jeito, além de ser sobredeterminada pelo “comunismo do capital” operado pelas finanças[14]. A tentativa de induzir uma sociedade de pleno emprego por meio das inversões se tornou assim uma miragem, causando um paralelo acúmulo de capitais nas mãos dos mesmos grupos oligopolistas e proprietários que, pelo menos no discurso, deveriam ser combatidos em primeiro lugar.
De qualquer modo, é preciso destacar a singularidade dos processos constituintes boliviano e equatoriano, que emplacaram tendências de mobilização produtiva por fora dos topoi desenvolvimentistas, por exemplo, a construção evista da sociedade plurinacional baseada no bem viver[15], ou o tecnopopulismo correísta voltado à economia do conhecimento, – cujo modelo talvez não seja Cuba, mas a Coreia do Sul[16]. Apesar disso, num e outro caso, os episódios de TIPNIS e de Yasuní-ITT marcaram uma resolução de tensões e contradições no interior dos ricos processos andinos, determinando a primazia do projeto desenvolvimentista de país e dramatizando, daí por diante, o racha entre governos e movimentos. As complexas práticas biopolíticas de autonomia e comum [commune] sofrem assim uma reductio ao horizonte social-progressista, como sublinhado por autores como Salvador Schavelzon ou Alberto Acosta[17]. Ninguém exprime com tanta ênfase a necessidade dessa primazia do que o próprio Rafael Correa e o vice-presidente boliviano, Álvaro G. Linera, que repisam incessantemente que esse projeto é imprescindível para o Estado lutar contra a pobreza[18].
No discurso do marxista Linera[19], o mais eloquente representante intelectual do ciclo como um todo, aparece claramente o limite interno do projeto da esquerda desenvolvimentista (como também em Emir Sader[20]). Fala-se muito em desigualdade, mas não em exploração[21]. O capital não é entendido como uma relação social que, desde a sua trama molecular, organiza a própria sociedade e o estado. O Capital aparece, em vez disso, como um princípio organizador de fora e do alto, a escrever-se com maiúscula e contra o que se elevaria o Estado, numa tensão molar de luta pela divisão da riqueza social. Não à toa, recentes mobilizações de grande escala sejam imediatamente classificadas como uma tentativa de desestabilizar o Estado, a serviço da restauração neoliberal e do imperialismo. Isto aconteceu, por exemplo, no levante no Brasil de 2013 (em ressonância distante com o que se vayan todos! em 2001[22], e próxima com o ciclo global deflagrado com as revoluções árabes de 2010-11[23]), na Venezuela do começo de 2014, nas sublevações de junho de 2015 no Equador[24], entre outras. Todos são casos de uma mobilização por fora dos aparelhos progressistas que não somente foi desqualificada pelas esquerdas, como reprimida como vandalismo (Brasil), golpismo (Venezuela) ou terrorismo (Equador). O discurso do Estado, ademais, provocou a atrofia das instituições elaboradas visando à democratização radical da Venezuela numa matriz “nacional-estatista”[25], comprometendo seu dinamismo e capacidade de renovação, – tendência também já praticamente realizada com movimentos sociais ligados aos governismos de cada país.
Trata-se de uma esquerda que faz uma salada russa de marxismo e hegelianismo, onde o Estado aparece como momento sintético privilegiado de uma dialética que tende a tudo justificar pela “correlação de forças”, apenas outro nome para a equação hegeliana por excelência, real = racional. Isto também vale no plano internacional, segundo uma nova dialética da economia-mundo em que os BRICs exerceriam o papel de contrapoder à América imperialista. Uma versão mitigada desta dicotomia funciona ao modo de Montesquieu, apenas a título de checks and balances[26]. A simpatia pelo modelo chinês não consiste apenas numa nostalgia da Guerra Fria, como se vivêssemos uma macropolaridade recauchutada entre a doutrina Trumman e Deng Xiaoping, mas na elaboração de novas matrizes econômicas para o desenvolvimentismo. À restauração do Consenso de Washington, haveria uma alternativa, o Consenso de Beijing[27]. A contradição aparente esconde a cumplicidade de fluxos e refluxos e um mesmo princípio unificador, como o próprio Deng certa vez afirmou em 1976: “planificação e forças de mercado são duas formas de controlar a atividade econômica.”[28] Mas a dialética aceita tudo, a ponto de o governo brasileiro levantar bandeiras vermelhas e obter o apoio da oposição socialista, embora governe com as oligarquias e empresariados mais proprietários e conservadores. Como disse Idelber Avelar, you can’t have your cake and eat it too. Não se pode governar com Kátia Abreu, a rainha do agrobusiness, e defender-se como se fosse Rosa Luxemburgo – a menos que você seja um hegeliano.
A diferença entre falar desigualdade e falar exploração está em que, no último caso, ressalta-se a relação que constitui a exploração, o que significa também ressaltar o seu caráter antagonista, a existência intrínseca do polo oposto. Falar em desigualdade em vez de exploração leva a pensar, assim, em termos de castas sociais, – um primarismo sociológico, – e não no antagonismo implícito na relação do capital, i.e., em classe. Porque a mudança da composição social corresponde a uma disseminação dessa polarização doravante molecularizada. Não há nada que lamentar, portanto, com a não-formação de uma quimérica classe operária nos moldes europeus do fordismo de grande indústria. A proletarização nas condições do Sul já implica uma proletarização nas condições pós-fordistas. Como escreveu Giuseppe Cocco, uma proletarização sui generis em que os pobres são incluídos enquanto pobres[29]. Combater a pobreza, portanto, tem uma dimensão ambígua no discurso oficialista, passando a significar também pacificá-la, bloquear-lhe a capacidade de antagonizar e organizar o antagonismo. Se a inclusão social do ciclo progressista é a inclusão do pobre numa relação de exploração (e não apenas em termos quantitativos como redução de desigualdade), então existe uma dimensão resistente da pobreza, uma dimensão criativa e produtiva que não cabe na narrativa “Estado x Capital”.
Os críticos da proletarização no Sul concentrados no parâmetro moral do “modelo de consumo”[30], ou então na formação de um subproletariado amorfo e desorganizado[31], acabam apagando do quadro essa transformação da composição de classe. Esta vem se expressando não só num novo ciclo de lutas para além do progressismo, como também eleitoralmente contra seus governos, mesmo que isto signifique votar mais à direita. Foi nesse sentido, para captar a repolarização “desde baixo” subjacente à crise do sul e à explosão de um novo ciclo de protestos, que eu e Giuseppe falamos em lulismo selvagem[32], um caldeamento potente de singularidades, como a face da mobilização produtiva dos pobres[33], – como se viu, tanto indesejada (e reprimida) pelas esquerdas. Entretanto, em vez de produto de mobilizações, lutas e impulsos constituintes, as conquistas do ciclo são sistematicamente miraculadas como efeitos do Estado reposicionado e ocupado à esquerda, que na crise se converte no paranoico detentor de um patrimônio simbólico que não pode deixar escapar.
Portanto, não basta lamentar, nem apenas constatar o fim do ciclo progressista. E tampouco apontar a chegada das “novas direitas”, guarda-chuva ideologicamente enviesado para um momento complexo de reorientações, emergências e positividades. São insuficientes as críticas que reclamam que os governos não foram socialistas, desenvolvimentistas ou voluntaristas o suficiente, que não fizeram as reformas de base nem organizaram a massa, e que, portanto, entregaram o poder às oposições liberais (Macri, Capriles, Rodas, Aécio…). É preciso reconhecer, antes de qualquer coisa, que os governos progressistas venceram e, ao redor desse grau significativo de sucesso, se desdobraram consequências ambivalentes e antagonistas. As dinâmicas de mobilização mudaram e os projetos desenvolvimentistas e seus intelectuais de esquerda não explicam mais: eles é que agora têm de ser explicados. Libertar-se das narrativas dicotômicas, épicas e dialéticas é o primeiro passo para reabrir a imaginação à nova composição social, política e econômica do subcontinente, como certa vez o zapatismo fez. Que a esquerda mundial faça seu próprio luto da segunda queda do muro de Berlim – ainda que seja uma mureta. Que se liberte desse “pseudo-heroísmo retórico tramado de impotência”[34]. Que caiam todos os muros. Uma visão prospectiva, uma nova experiência de ação e pensamento. Não há alternativa. Viva a alternativa!

NOTAS
[1] Bruno Cava é blogueiro e pesquisador associado à Universidade Nômade, autor de A multidão foi ao deserto (2013).
[2] https://www.youtube.com/watch?v=tvjIwVjJsXc
[3] “El agotamiento kirchnerista”, Salvador Schavelzon, http://www.la-razon.com/suplementos/animal_politico/agotamiento-kirchnerista_0_2389561076.html. Português: http://uninomade.net/tenda/o-esgotamento-kirchnerista/
[4] “Venezuela: el ocaso de los ídolos”, Pablo Stefanoni, http://lalineadefuego.info/2015/12/08/venezuela-el-ocaso-de-los-idolos-por-pablo-stefanoni/
[5] “La nueva derecha andina”, Pablo Stefanoni, http://www.revistaanfibia.com/cronica/la-nueva-derecha-andina/
[6] “Junho no Equador e o correísmo”, Bruno N. Dias, http://uninomade.net/tenda/junho-no-equador-e-o-correismo/
[7] Sobre a maior manifestação no Brasil, em 2015, entrevista de Giuseppe Cocco ao IHU: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/541110-as-manifestacoes-de-marco-de-2015-sao-o-avesso-de-junho-de-2013-entrevista-especial-com-giuseppe-cocco
[8] “The coup in Brazil has already happened”, Bruno Cava, https://www.opendemocracy.net/democraciaabierta/bruno-cava/coup-in-brazil-has-already-happened
[9] Por exemplo, Raúl Zibechi: http://www.aporrea.org/actualidad/a220180.html; Gerardo Muñoz: https://infrapolitica.wordpress.com/2015/10/29/notas-sobre-el-agotamiento-del-ciclo-progresista-latinoamericano-gerardo-munoz/; Salvador Schavelzon: https://www.diagonalperiodico.net/global/27148-fin-del-relato-progresista-america-latina.html
[10] “A esquerda venceu”, Bruno Cava e Alexandre F. Mendes, Revista Lugar Comum n.º 45, http://uninomade.net/lugarcomum/45/
[11] “Globa(AL), biopoder e lutas em uma América Latina globalizada”, Antonio Negri e Giuseppe Cocco, Record, 2005.
[12] A crítica liberal baseada no modelo jurídico, sobre os limites do que pode ou não, a ser ponderados, é apenas a primeira crítica “fraca” ao desenvolvimentismo. Uma segunda crítica “fraca” seria substituir o limite jurídico por um limite quantitativo extensivo, uma espécie de resgate do princípio antrópico da catástrofe malthusiana e seus modelos matemáticos de progressão geométrica e curvas exponenciais. Alguns teóricos do processo capitalista (ex.: D. Harvey, “O enigma do capital”) costumam dizer que o capital não tem limites, que ele se expande virtualmente ao infinito. Para Marx, no entanto, o limite do capital é a classe, o poder de classe. O “Fragmento sobre as máquinas, trecho incluído nos “Grundrisse”, o texto mais catastrofista de Marx, tem o mérito de deslocar o conceito de limite do extensivo ao intensivo, mediante a virada maquínica do social. Esta seria uma terceira crítica, “forte”, atrelada à produção de subjetividade. A catástrofe assim pode ser disputada como catástrofe do próprio capitalismo, no momento de máximo antagonismo qualitativo. Pensada desde o Sul, essa vertente de análise imanente do desenvolvimento se entrelaça com matrizes materiais de alterdesenvolvimento, como vem sendo sistematizado, por exemplo, por Alberto Acosta ou Salvador Schavelzon (ver nota 15, abaixo). Dessa maneira, em vez de imposto de fora, por uma geralmente mistificada vontade transcendente ao processo capitalista, numa espécie de concepção negativa do Poder, a resistência é transformação da subjetividade, devir. Nesse sentido, para virar de ponta-cabeça o desenvolvimentismo, um devir-índio do desenvolvimento (conforme o meu “Devir-índio, devir-pobre”, http://www.quadradodosloucos.com.br/3138/devir-pobre-devir-indio/). À sua maneira, Deleuze e Guattari, no “Anti-Édipo”, utilizaram o conceito de Corpo sem Órgãos (CsO) para figura da catástrofe.
[13] “O Podemos e os enigmas que vêm do sul”, Alexandre Mendes e Bruno Cava, http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1870
[14] “A crise da economia global”, Andrea Fumagalli e Sandro Mezzadra, Record, 2011. Ver também “KorpoBraz”, Giuseppe Cocco (2013) e sua entrevista seminal ao IHU online: “O capital que neutraliza e a necessidade de outra esquerda”, http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6019&secao=468
[15] Uma apreensão compreensiva do bem viver na Bolívia e Equador, trazendo sua problematicidade, por Salvador Schavelzon, “Plurinacionalidade e Vivir Bien/Buon Vivir; dos conceptos leídos desde Bolivia y Ecuador post-constituyentes”, CLACSO, 2015.
[16] “La utopia coreana en los Andes”, Pablo Stefanoni, http://www.rebelion.org/noticia.php?id=171279 e “El tecnopopulismo de Rafael Correa: ¿Es compatible el carisma con la tecnocracia?”. Carlos de la Torre, https://muse.jhu.edu/login?auth=0&type=summary&url=/journals/latin_american_research_review/v048/48.1.de-la-torre.html
[17] “O Buen Vivir, uma Oportunidade de Imaginar Outro Mundo”, Alberto Acosta, br.boell.org/sites/default/files/downloads/alberto_acosta.pdf
[18] “Empate catastrófico y punto de bifurcación”, Álvaro García Linera, http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/secret/CyE/cye2S1a.pdf
[19] “O socialismo é a radicalização da democracia”, entrevista com Álvaro García Linera, http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/alvaro-Garcia-Linera-O-socialismo-e-a-radicalizacao-da-democracia-/4/34666 (2015)
[20] “A desigualdade no Brasil e no mundo”, Emir Sader, http://www.cartamaior.com.br/?/Blog/Blog-do-Emir/A-desigualdade-no-Brasil-e-no-mundo/2/27098
[21] Sigo aqui o insight de Giuseppe Cocco na entrevista supracitada, ao IHU.
[22] “Imagens e anacronismos; a questão do demos entre o 2001 argentino e o 2013 brasileiro”, Ariel Pennisi, Revista Lugar Comum n.º 45, http://uninomade.net/lugarcomum/45/.
[23] Boa síntese em “Ocupações estudantis: novas assembleias constituintes diante da crise?”, Alexandre Mendes, http://uninomade.net/tenda/ocupacoes-estudantis-novas-assembleias-constituintes-diante-da-crise-2/
[24] “¿Por qué protestan en Ecuador? “, Pablo Ospinta Peralta, http://nuso.org/articulo/por-que-protestan-en-ecuador/
[25] “Chavismo, Guerra Fría y visiones ‘campistas’”, Pablo Stefanoni, http://www.rebelion.org/noticia.php?id=165376
[26] Poderíamos citar como exemplo em que as contradições são funcionais para a expansão do regime de acumulação de capitais e a sobrevivência do capitalismo, o estudo de caso da concatenação entre a territorialização da República de Veneza e a desterritorialização da burguesia genovesa, durante o renascimento, conforme Giovanni Arrighi, “Il lungo XX secolo; denaro, potere e le origini del nostro tempo”, 1996.
[27] Também sigo aqui a observação sobre China e BRICs de Giuseppe Cocco, na entrevista supra. A “nova matriz econômica” esposada pelo novo ministro da economia, Nelson Barbosa, é tributária do modelo chinês pós-76. Um caso anedótico da simpatia mandarim, ma non troppo, foi o comentário no Facebook do editor governista da Carta Maior, Breno Altman, que os manifestantes anticorrupção que encheram as ruas brasileiras em 2015 deveriam ser tratados como os opositores da Praça da Paz Celestial, em 1989.
[28] Deng Xiaoping apud “The Changing Face of China”, Oxford, 2005
[29] Este é o cerne da aplicação do ferramental operaísta da composição de classe na análise que Cocco faz da mobilização produtiva dos pobres nos últimos 15 anos no Brasil, em seus livros “MundoBraz” (2009) e “KorpoBraz” (2013).
[30] Por exemplo, Emir Sader, para quem o principal é a “batalha das ideias” contra a ideologia neoliberal: “Vencer a batalha das ideias”, http://cartamaior.com.br/?/Blog/Blog-do-Emir/Vencer-a-batalha-das-ideias/2/33405
[31] Vocalizando parte da esquerda do PT, André Singer, principal tese sobre o dito “subproletariado”, formado durante os anos Lula, em “Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador” (2012).
[32] “Vogliamo tutto! Le giornate di giugno in Brasile: la costituzione selvaggia della moltitudine del lavoro metropolitano”, Giuseppe Cocco e Bruno Cava, http://www.euronomade.info/?p=173
[33] Rosto que foi Amarildo no levante brasileiro de 2013, expressão da possibilidade dos pobres se organizarem e lutarem, apesar do biopoder racista que modula a violência de classe, atingindo principalmente negros e indígenas, e a serviço dos megaprojetos de “pacificação” da cidade e desenvolvimento nacional. Conforme “A luta pela paz”, Giuseppe Cocco, Eduardo Baker e Bruno Cava, http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1569

[34] “O país banal”, Lobo Suelto! (editorial), http://anarquiacoronada.blogspot.com.br/2015/11/o-pais-banal.html

Fonte: Quadrado dos Loucos

Floresta 
negra: A experiência e os impactos da escravidão africana na Região Amazônica. Por Patrícia Melo Sampaio (GELEDÉS)

PICICA: "Quando se fala sobre a presença negra na Amazônia é frequente ver o espanto das pessoas. Ainda hoje, especialmente fora da região, é comum ouvir a pergunta: “Mas, afinal, existiu escravidão na Amazônia?”" 



Floresta 
negra: A experiência e os impactos da escravidão africana na Região Amazônica


Publicado há 1 ano - em 1 de janeiro de 2015

  negro-menor

Quando se fala sobre a presença negra na Amazônia é frequente ver o espanto das pessoas. Ainda hoje, especialmente fora da região, é comum ouvir a pergunta: “Mas, afinal, existiu escravidão na Amazônia?”

Por Patrícia Melo Sampaio* no Carta Fundamental
Podemos começar respondendo que a experiência da escravidão africana também marcou a trajetória da parte norte da colônia portuguesa na América. Em decorrência disso, hoje a presença negra na Amazônia é inegável, com enorme impacto na vida da região, marcando sua história, suas formas de comer, vestir, amar, dançar, cantar, rezar, trabalhar, juntamente com todas aquelas heranças intangíveis que as pessoas levam na pele, nos olhos e na alma.

São inúmeros os sinais dessa presença. Existem hoje 406 comunidades quilombolas nos estados do Amapá, Amazonas, Maranhão e Pará. Os dados são da Fundação Cultural Palmares, entidade do governo federal responsável pela certificação dessas comunidades, etapa necessária para o reconhecimento de suas garantias constitucionais e, especialmente, o direito às terras em que vivem. Em todo o Brasil, são cerca de 2 mil comunidades já certificadas.

Agora, pergunta-se: se a presença negra na Amazônia é tão relevante, por que sabemos tão pouco sobre ela? Para começar, é preciso lembrar que, durante muito tempo, boa parte da historiografia partiu do princípio de que a escravidão não teve grande importância na região, já que ali se costumava usar o trabalho indígena em maior escala que o africano. Inclusive, havia certo consenso de que estudar a presença africana no Brasil era relevante apenas nos lugares onde existia grande número de escravos. Basicamente, isso significava falar das regiões Sudeste e Nordeste do País.

Durante anos, esses argumentos foram usados para justificar a falta de aprofundamento da pesquisa sobre a presença negra na Amazônia. O resultado disso repercutiu fundo na produção historiográfica sobre o tema e alcançou os livros didáticos. Afinal, quanto menos se pesquisava sobre o assunto, mais difícil era falar sobre ele.

Desde o fim da década de 1980, esse cenário vem sendo revertido em razão da notável expansão dos estudos sobre a escravidão africana e as experiências de trabalhadores cativos e libertos, ancorados em sólida pesquisa documental, novas temáticas e métodos.

O mergulho nesse universo vem revelando outras histórias sobre a vida dos africanos Brasil afora. Tais resultados ajudam a fortalecer as lutas contemporâneas dos movimentos sociais de negritude porque iluminam trajetórias de indivíduos e comunidades, colaboram nos processos de reconhecimento de terras quilombolas e fundamentam reivindicações de políticas de ação afirmativa e combate ao racismo.

Hoje, as pesquisas revelam um Brasil muito mais diverso do ponto de vista étnico-racial do que se pensava no passado. Os estudos fazem isso trazendo outros personagens para a cena, entre eles, homens e mulheres de origem africana, escravizados ou não, que viveram na Amazônia.

Enegrecendo a floresta

Estudos recentes indicam que a Amazônia foi conectada às redes do tráfico atlântico ainda no fim do século XVII e, até meados de 1750, estima-se a entrada de cerca de mil indivíduos na região, provenientes, em especial, da Costa da Mina, área tradicional de comércio negreiro na África.

O tráfico era feito com forte comprometimento da coroa portuguesa e, considerando que o Grão-Pará e o Maranhão não eram uma de suas rotas mais rentáveis, havia certa irregularidade nos desembarques até a segunda metade do século XVIII, quando foi criada a Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão.

A partir daí, coube à nova empresa a tarefa de ampliar a oferta de escravos para os proprietários da região, em especial porque a coroa portuguesa resolveu, no mesmo período, abolir a escravidão dos índios (1755) que eram trazidos dos altos cursos dos rios amazônicos para servir nas propriedades no Pará e no Maranhão. Os índios eram trabalhadores indispensáveis e o fim de sua escravidão, somado à presença dos escravos, não representou uma redução dessa importância. Eles continuaram a ser empregados em diversas formas de trabalho compulsório e, inclusive, compartilharam muitas dessas experiências com os escravos negros.

Enquanto a Companhia esteve em funcionamento (1755-1778), estima-se que tenha comercializado perto de 25 mil escravos na imensa área que hoje conhecemos como Maranhão, Pará, Amazonas e Mato Grosso. Até meados do século XIX, seguindo os novos fluxos do tráfico internacional, as populações desembarcadas na Amazônia serão procedentes, em sua maioria, da África Central Atlântica.

Assim, no século XIX já era bastante evidente a presença da população escrava africana nas vastidões amazônicas, trabalhando com os índios nas lavouras de café, tabaco, cana-de-açúcar, na coleta de produtos da floresta, nas canoas do comércio e também nos diversos núcleos urbanos existentes floresta adentro. Como disse o historiador Flávio dos Santos Gomes, há muito tempo a floresta já estava enegrecida.

Que tipo de atividades realizavam os escravos? Circulando pelas ruas de Belém e Manaus estavam carregadores africanos, vendedoras de açaí, mucamas e criados, forros negociando suas produções de tabaco, artigos de latão e cobre, oferecendo seus serviços de sapateiro, carpinteiro e ourives, divertindo-se nas festas do Espírito Santo, de Nossa Senhora de Nazaré ou, ainda, como membros da Irmandade do Rosário.

Escravos foram empregados na construção de fortalezas, condução de embarcações para Mato Grosso, nas fazendas de cana, arroz, tabaco, mandioca, milho, na criação de gado e de cavalos na Ilha de Marajó. Também eram artesãos, tecelões de chapéus e redes de algodão, apanhadores de açaí, pescadores, trabalhadores do porto, dos arsenais de guerra e da Marinha, das obras públicas, calafates, carpinteiros, pedreiros, ferreiros, vendedores de tabaco, garapa e frutas. Também estavam nas casas senhoriais servindo, ninando, zelando, cozinhando, lavando e costurando. Estavam em todos os lugares dividindo espaços com os trabalhadores índios, o que tornava essas cidades diferentes das outras.

No século XIX, Manaus e Belém surpreendiam os viajantes estrangeiros que por ali passavam. Suas belezas naturais eram atrativos inquestionáveis, mas a diversidade étnico-racial de suas populações era o tema recorrente nos relatos. Os dados mostram que existia, ao lado de uma grande maioria de índios vivendo nas cidades, dos escravos africanos e dos chamados brancos, uma grande variedade de tipos mestiços que tornava a Amazônia um laboratório extraordinário para estudo dos efeitos das “misturas raciais”.

Mas outros laços ligavam as histórias de índios e africanos relacionados com suas experiências de solidariedade construídas a partir do duro cotidiano que muitas vezes compartilharam. As tentativas de constituir novos espaços fora da escravidão levaram à formação de muitos quilombos/mocambos que, eventualmente, reuniram índios e africanos no mesmo espaço. As fugas também foram frequentes e, em vários casos, épicas, porque atravessavam amplos espaços do território amazônico.

Escravos lançaram mão de muitas estratégias para sobreviver em um mundo adverso e se esforçaram para manter, no limite de suas possibilidades, o controle de suas vidas. Buscaram juntar dinheiro para alcançar alforria, formaram comunidades independentes, guardaram segredos no fundo da alma e transmitiram a seus descendentes.

Mas a presença negra não se reduziu à escravidão. Outros homens e mulheres viveram na região sendo professores de música, chefes de polícia, capoeiras, gráficos, lavadeiras, oleiros, carpinteiros – uma lista sem fim. Apesar de o silêncio sobre essas histórias notáveis ainda ser persistente, não há como negar que está sendo revertido pela força inquebrantável de todas essas experiências históricas. •

*Professora do Departamento de História da Ufam e pesquisadora do CNPq.
 

Saiba mais
Livros
O Negro no Pará, Vicente Salles. Brasília: MEC; Belém: Secult, 1988. Disponível em http://bit.ly/1CKXPRy
A Hidra e os Pântanos: Quilombos e mocambos no Brasil (séculos XVIII – XIX), Flávio dos Santos Gomes. São Paulo: Unesp, 2005
A Escravidão Negra no Grão-Pará (séculos XVII-XIX), José Maia Bezerra Neto. Belém: Paka-Tatu, 2012
O Fim do Silêncio: Presença negra na Amazônia, Patrícia Maria Melo Sampaio (org.), Belém: Açaí/CNPq, 2011
Site
Comunidades Quilombolas 
no Pará 
http://bit.ly/1vVnUOT
Nova Cartografia Social da Amazônia 
http://bit.ly/10dItsY


Leia Também:

Fonte: Geledés

Mundurukânia, Na Beira da História

PICICA: A dica é de Antonio Almeida.





Arqueologia, é assim que os brancos chamam o estudo do passado remoto.
Do que eles chamam pré-história.
Como se a História só começasse quando aparece a escrita.
Como se a tradição oral não tivesse história.
Quem não tem história, tem futuro?
Qual será o futuro dos munduruku, depois das hidrelétricas?
O que serão as hidrelétricas daqui a mil anos?

janeiro 02, 2016

A escritora que podia ter sido. POR Alvaro Costa e Silva (BLOG DO IMS)

PICICA: "“Considero-me além de qualquer expectativa”, costumava dizer Maura Lopes Cançado. A reedição de seus dois únicos livros – os diários de Hospício é Deus (1965) e a coletânea de contos O sofredor do ver (1968), que estavam fora de catálogo há décadas – abre a discussão sobre até que ponto a escritora e seus admiradores tinham razão em existir (e insistir) na ausência de realidade."


A escritora que podia ter sido


POR Alvaro Costa e Silva Literatura | 03.12.2015

 


“Considero-me além de qualquer expectativa”, costumava dizer Maura Lopes Cançado. A reedição de seus dois únicos livros – os diários de Hospício é Deus (1965) e a coletânea de contos O sofredor do ver (1968), que estavam fora de catálogo há décadas – abre a discussão sobre até que ponto a escritora e seus admiradores tinham razão em existir (e insistir) na ausência de realidade.

A autora e sua primeira obra
As duas obras foram bem recebidas na época do lançamento. Maura Lopes Cançado, que se dizia “a maior escritora da língua portuguesa” e desfrutava o prestígio de seus pares no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, viveu seu grande momento de exposição. O auge de uma promessa. No entanto, quando ela morreu, em dezembro de 1993, pouco mais de uma dúzia de pessoas compareceu ao enterro. Os livros passaram anos esquecidos, até que o culto ao redor da escritora recomeçou a se erguer, sobretudo nas universidades, que fizeram de Maura uma ponte de estudos sobre “as escritas de si”. Algumas de suas frases, as mais poéticas e selvagens – “Chego à conclusão de que o mal é uma dimensão da minha natureza”, “Sou um anjo com vocação para demônio”, “Existo desmesuradamente, como janela aberta para o sol” –, pipocaram em sites literários e redes sociais. Os dois volumes que assinara podiam ser comercializados a preços astronômicos nos sebos virtuais: R$ 450,00 um exemplar da primeira edição de Hospício é Deus pela José Alvaro Editor (mas o frete é grátis). Além de acabar com essa farra, a recente e bela caixa da editora Autêntica (ao preço de R$ 74,00) é ótima oportunidade para se pôr alguns pingos nos is.

Hospício é Deus e O sofredor do ver estão fortemente marcados pela experiência da escritora como paciente de hospícios de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Mais: é quase impossível dissociar a obra da vida da autora.

Era uma mulher muito bonita. Nasceu em 27 de janeiro de 1929, na cidade mineira de São Gonçalo do Abaeté. De saúde frágil, a mãe, Dona Santa, fez a promessa de, até os sete anos, só vestir a menina de azul e branco, cores de Nossa Senhora. Maura morria de inveja do chapéu vermelho da irmã mais nova, Selva. Dizia às amiguinhas que era filha de russos e que um seu tio nascera na China. Aos 14 anos quis estudar alemão para ser espiã nazista. O pai, um rico fazendeiro dos tempos da lei do revólver e dos jagunços roseanos, não permitia que se lhe cortassem os cabelo. Era a filha predileta e mimada.

A escritora descreveu a infância como “superangustiada”: tinha pesadelos, medo pânico de morrer, ataques de epilepsia, e, segundo relatou no Hospício é Deus, foi abusada sexualmente três vezes por empregados da família. Casou jovem e virgem, logo engravidou e deu ao bebê o nome de Cesarion, o mesmo do filho de Cleópatra e Júlio César.  Mais tarde Maura admitiu que, durante o curto tempo de matrimônio, pensava sexualmente em outro homem, o coronel Praxedes, seu sogro, “maravilhoso, alto, imponente e importante”.

Em abril de 1949 entrou por vontade própria na Casa de Saúde Santa Maria, em Belo Horizonte – a primeira de uma série de internações ao longo da vida. Separada do marido, levava vida boêmia (“era bacana ter amante”), frequentava a noite e bebia bastante, torrando o dinheiro que ganhara de herança. Resolveu morar no Rio, e, antes do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, parou nas páginas de polícia, devido a brigas com um empresário que a sustentava. Tentou o suicídio em 1955. Três anos depois já fazia parte do time do “SDJB”, o caderno cultural de maior influência na época, trabalhando ao lado de Reynaldo Jardim, Mário Faustino, Ferreira Gullar, Assis Brasil, Carlos Heitor Cony, José Carlos Oliveira. Seu conto “No Quadrado de Joana”, sobre uma paciente catatônica, saiu na capa do suplemento – e fez furor.

Hospício é Deus (um título espetacular, convenhamos) é o relato sobre uma de suas internações no Hospital Gustavo Riedel, no Engenho de Dentro, entre o fim de 1959 e o começo de 1960. Exercício terapêutico, a primeira seção é um rápido apanhado biográfico, da infância em Minas até a chegada ao Rio. Em seguida, assume a forma de diários, com entradas marcadas por datas, nas quais a autora mostra habilidade para narrar, costurando as maluquices do sanatório e as denúncias de abuso, com um poderoso “acervo existencial”, para usar a expressão do crítico Assis Brasil.

Gênero da intimidade literária – pouco praticado no Brasil, com raras exceções – escreve-se um diário para dar testemunho de uma época, para confessar o inconfessável, para calibrar a vocação de escritor, para experimentar ousadias, para recobrar a saúde ou para conjurar fantasmas (as duas últimas práticas são as de Maura). Por mais que pareça ficção – e muitos forçam a barra para que seja –, o que lemos em Hospício é Deus se insere na tradição de tratar transtornos mentais com a escrita. Um relato clínico de grande força, mas relato clínico. Nesse aspecto, o livro se assemelha aos de Rodrigo de Souza Leão, morto em 2009, autor de Me roubaram uns dias contados.

Também se escreve um diário íntimo – pense em Kafka, Musil, Pavese, Barthes e no contemporâneo Ricardo Piglia – para ensaiar esquemas e problemas literários, reflexões, teses críticas ou filosóficas, diagramas, citações, fofocas, todo o laboratório de um escritor. Maura apenas epigrafa Sartre, Nietzsche, Faulkner e cita algumas leituras, entre as quais Joyce e Proust (confessa que não consegue lê-lo). De passagem, refere-se a Clarice Lispector, com quem volta e meia é comparada pelo caráter introspectivo da prosa.   

Por fim, a autora nega o gênero a que se dedica: “Não é, absolutamente, um diário íntimo. Mas tão apenas o diário de uma hospiciada, sem sentir-se com direito a escrever as enormidades que pensa, suas belezas, suas verdades. Seria verdadeiramente escandaloso meu diário íntimo”.

A coletânea de contos O sofredor do ver evidencia a Maura escritora ainda em formação. (Não à toa, ela procurou Carlos Heitor Cony para que ele lhe ensinasse a escrever um romance. Cony fugiu da raia mas, ao menos, lhe deu de presente uma Olivetti 22 portátil.)  A segunda parte do livro, sobretudo os contos “São Gonçalo do Abaeté”, “Pavana”, “A menina que via o vento” e aquele que dá título à coletânea, evita a experiência nos hospícios e se aproxima da verdadeira ficção. “O sofredor do ver” é a escritora que podia ter sido e não foi.

O romance que pretendia fazer não saiu. Ligou-se em zen-budismo, cabala, alquimia, doutrinas secretas e paranormais. Foi morar no Solar da Fossa e namorou o compositor Luís Reis, o Cabeleira, parceiro de Haroldo Barbosa no samba “Devagar com a louça”. Enquanto isso, os surtos psicóticos prosseguiam de maneira cada vez mais perigosa. As internações, com direito a eletrochoques e reclusão em quartos-fortes, caminhavam na mesma batida. Sua definição de hospício era “uma cidade triste de uniformes azuis e jalecos brancos”, por coincidência as cores com que a vestiam na infância.

Em 1972 Maura matou por estrangulamento uma paciente da Clínica de Saúde Doutor Eiras, em Botafogo. Diante do exame de sanidade, a Justiça a considerou inimputável. Numa matéria de O Globo, de 1978, a repórter Margarida Autran a encontrou irregularmente detida no Hospital Penal da Penitenciária Lemos de Brito, vivendo num cubículo imundo e infestado de percevejos. Estava quase cega, desnutrida, os dentes exigindo cuidados: “Estou tensa como as cordas de um violino. Se relaxar, eu morro”.

Maura Lopes Cançado foi vítima – talvez uma das primeiras – do estranho ambiente cultural em que a literatura em si vale menos do que atraentes e intensos acontecimentos literários. É onde estamos hoje: não importam os livros de Karl Ove Knausgard e sim a vida de Karl Ove Knausgard minuciosamente contada.

Fonte: BLOG DO IMS

ELENA (2012) - Filme Completo

Star Wars e os Clássicos do Terror. Por Gabriel Oro (OBVIOUS)

PICICA: "As referências aos grandes clássicos do cinema de terror na maior saga da ficção científica. Como George Lucas homenageou um outro gênero em seus filmes, e contou uma fantástica história nova usando várias histórias velhas." 


Star Wars e os Clássicos do Terror


As referências aos grandes clássicos do cinema de terror na maior saga da ficção científica. Como George Lucas homenageou um outro gênero em seus filmes, e contou uma fantástica história nova usando várias histórias velhas.

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Star Wars é um fenômeno cultural tão conhecido e tão icônico que os filmes, jogos, quadrinhos, e tudo mais que leva o selo "Disney aprova", acaba sendo visto como pequenas partes de uma única grande história, e não tanto como obras que existem por si só. As pessoas conseguem discutir qualquer mínimo aspecto da franquia em grande detalhe, as roupas, as armas, a genealogia, o caráter dos personagens, e deve até haver algum fórum online sobre os calçados dos jedi. É fácil esquecer que quando os primeiros filmes foram lançados entre os anos 70 e 80, toda essa saga eram só eles mesmo, os filmes. E bons filmes, diga-se de passagem. O valor técnico e artístico dos primeiros Star Wars é muito frequentemente esquecido em detrimento da história contada e do que ela se tornou. Ainda assim, há vários aspectos muito interessantes sobre a saga de um ponto de vista cinematográfico, desde o uso de luz, a construção dos cenários e, meu preferido, as referências.

Eu tenho duas coisas em comum com George Lucas: uma forte propensão a engordar após os 40, e uma grande paixão pelos clássicos de terror. No meu caso, expresso isso vendo filmes de monstro mesmo depois de adulto, um hábito não tão construtivo, verdade. No caso de Lucas, ele deixou esse sentimento claro em cada um dos episódios da sua principal obra, e vou mostrar isso para aqueles que tiveram o bom senso de não gastar anos de suas vidas assistindo coisas em preto e branco sobre vampiros, lobisomens e mãos assassinas. Sim, eu disse mãos assassinas. Existe isso.

Pra quem não está muito familiarizado com a história do cinema de terror americano, no início a Universal foi o estúdio que mais se destacou no segmento. Há dois períodos muito importantes para filmes desse tipo, e o primeiro é informalmente chamado de Era de Ouro, nas décadas de 30 e 40. Foi ali que saíram as primeiras versões do Drácula, A Múmia, Frankenstein, o Fantasma da Ópera e etc. A Era de Prata, nos anos 70, foi uma revitalização do gênero principalmente através de refilmagens e versões européias dos filmes clássicos.

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Hoje, o terror é visto como uma categoria secundária, tem um público um pouco nichado e há até um estigma sobre atores ruins, mas na Era de Ouro a coisa era bem diferente. Filmes de terror estavam entre os maiores sucessos de bilheteria, então o gênero formou alguns dos principais atores da época, como Lon Channey, Vincent Pryce, Bela Lugosi, Peter Lorre e Boris Karloff. Os astros da Era de Prata não costumam receber o mesmo destaque, mas havia também vários grandes atores entre eles, um dos quais foi Peter Cushing. Ele interpretou várias vezes os Drs Van Helsing e Frankenstein, que tinham algo em comum: eram os únicos capazes de exercer algum controle sobre os monstros de seus respectivos filmes, Dracula e o monstro de Frankenstein. Eis que, em Uma Nova Esperança, é Cushing o personagem “Grand Moff Tarkin”, único além do Imperador a exercer algum comando sobre um novo monstro: Darth Vader. Essa é a primeira grande referência aos clássicos de terror que George Lucas colocou em Star Wars, um dr. Van Helsing para um ser de capa preta em uma galáxia distante. Aliás, Vader foi interpretado na trilogia original por David Prowse, que também atuou como o monstro de Frankenstein ao lado de Peter Cushing.

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Mas só essa referenciazinha não é suficiente. Podemos mais. O grande ator do gênero durante a Era de Prata foi Christopher Lee, que foi o conde Drácula em quase dez filmes entre 58 e 76. Em A Guerra dos Clones, Lee vestiu novamente uma capa preta para interpretar um mestre jedi que se juntou ao lado negro da força. Seu nome era Dooku. Aliás, conde Dooku, a única pessoa com tal título em todo o universo de Star Wars. Ele também foi o primeiro personagem na cronologia dos filmes a usar efetivamente uma capa, em vez de algo como um robe ou uma túnica.

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Uma das cenas mais criticadas da nova trilogia é o grito de Darth Vader em A Vingança dos Sith, que realmente pareceu um pouco inadequado na hora. Quando analisamos a cena inteira, no entanto, vemos quase uma janela para um filme antigo de terror. Vader está com os braços e pernas presos a uma mesa, que gira pra colocá-lo de pé, enquanto o seu mestre observa. Com a notícia que ele recebe de Palpatine, o monstro nasce, se desprendendo das suas amarras e gritando para os céus. É praticamente uma refilmagem do nascimento do monstro de Frankenstein, e torna o fato de que o primeiro ator por trás da máscara de Vader foi também o monstro em várias versões de Frankenstein ainda mais representativo. Essa é a referência óbvia, mas a cena pode remeter a dezenas daqueles (magníficos) filmes B que passavam tarde da noite na TV aberta, com baixa produção, raios mal feitos e uma película que transpira anos 80. Nada de novo, mas de algum jeito, novo.

Falando em monstros, muitos fãs destacam as semelhanças entre a primeira trilogia e O Mágico de Oz, de 1939. Ok, eu admito que O Mágico de Oz não é um filme de terror, a não ser que você seja uma pessoa bastante sensível, mas a referência ainda é válida. Obi-Wan e Yoda desaparecem quando morrem, de forma muito parecida com a bruxa má de Oz. Aliás, há quem acredite que essa referência se estende à maneira como Luke Skywalker vai encontrando os outros personagens, C3PO é como o homem de lata e Chewbacca o leão sem coragem.

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Claro que seria possível levar essa coisa de referências pra um nível muito maior, a série tem inúmeras homenagens aos filmes de Kurosawa e a outros clássicos do cinema japonês, de forma semelhante ao que Tarantino faz em suas obras até hoje. A própria cena da cantina, com Han Solo atirando em um alienígina por debaixo da mesa, é uma referência a Três Homens em Conflito, de Sergio Leone, o western mais famoso da história. São gêneros tidos como secundários agora, mas que sobrevivem através dos filmes que influenciaram, e Star Wars talvez seja o maior exemplo de todos.

No contexto dos blockbusters atuais, esse tipo de ode ao cinema de outra época é normalmente deixado de lado. Filmes de heróis, por exemplo, que alcançam grandes bilheterias, em geral ainda são produções com um trabalho de direção e roteiro relativamente fracos, mais focados na ação e em efeitos especiais caros do que na maneira de se contar uma história. São bons filmes para o gênero, mas pobres como obras cinematográficas, salvo algumas honrosas excessões. E eles prestam homenagem apenas a si mesmos, ou melhor, às suas versões originais em quadrinhos.

Essa é, para mim, a coisa mais fantástica de Star Wars, mesmo com todos os problemas que a segunda trilogia possa ter tido. A capacidade que os filmes têm de contar uma história nova, contando um monte de histórias velhas. A maneira como um diretor coloca um pedaço de si na obra pelas referências que o tornaram quem ele é. Torcemos para que os novos filmes e JJ Abrams não esqueçam uma das coisas que a saga tem de melhor: é muito mais que um filme, mas também é um filme, e precisa saber de história para entrar pra história.

Pra quem se interessar por filmes de terror clássicos e quiser se aventurar por esse mundo, há um ótimo documentário inglês em três partes chamado A History of Horror, narrado por Mark Gatiss, que é um bom lugar para começar e vai agradar até aos fãs mais hardcore do gênero.



Gabriel Oro

As pessoas costumam dizer que, se vale a pena fazer, vale a pena fazer bem feito. Eu já acho que se vale a pena fazer bem feito, vale a pena exagerar também. Acompanhe aqui outros exageros literários como este, todas as semanas.

Fonte: Obvious

janeiro 01, 2016

A tragédia de Elias e o corpo de Olivia. POR José Geraldo Couto (BLOG DO IMS)

PICICA: "Na definição luminosa de Italo Calvino, “um clássico é um livro que não terminou de dizer o que tinha a dizer”. O cineasta brasileiro Vinicius Coimbra parece empenhado em comprovar a asserção do escritor italiano. Depois de filmar uma nova versão de A hora e a vez de Augusto Matraga (2011), agora ele traz Macbeth ao nosso tempo e circunstância em A floresta que se move.


Não se trata de uma empreitada fácil e sem riscos. Como mostrar a atualidade e pertinência da poderosa tragédia shakespeariana num mundo reificado e prosaico, aparentemente desprovido de densidade, de grandeza, de páthos?" 


A tragédia de Elias e o corpo de Olivia

POR José Geraldo Couto José Geraldo Couto: no cinema | 06.11.2015




Na definição luminosa de Italo Calvino, “um clássico é um livro que não terminou de dizer o que tinha a dizer”. O cineasta brasileiro Vinicius Coimbra parece empenhado em comprovar a asserção do escritor italiano. Depois de filmar uma nova versão de A hora e a vez de Augusto Matraga (2011), agora ele traz Macbeth ao nosso tempo e circunstância em A floresta que se move.


Não se trata de uma empreitada fácil e sem riscos. Como mostrar a atualidade e pertinência da poderosa tragédia shakespeariana num mundo reificado e prosaico, aparentemente desprovido de densidade, de grandeza, de páthos?

Coimbra optou por uma espécie de solução de compromisso: manter os dilemas humanos centrais da peça – ambição, lealdade, traição, culpa –, envolvendo-os porém numa roupagem contemporânea, não apenas no que diz respeito à ambientação espacial e temporal, mas também à linguagem narrativa, à forma do relato.

Para isso, situou a trama nas altas esferas do mundo das finanças – a direção de um grande banco – e estruturou-a como um suspense policial. A primeira opção é criativa e pertinente: em nosso tempo, as lutas encarniçadas pelo poder dão-se nas cúpulas corporativas; grosso modo, a cadeira de presidente de um grande banco ou conglomerado financeiro corresponde ao que representava em outras eras um trono de monarca.

Da tragédia ao suspense policial

O personagem que corresponde ao Macbeth original, Elias (Gabriel Braga Nunes), é um alto executivo do fictício “maior banco privado nacional”. Atiçado por sua bela e ambiciosa esposa, Clara (Ana Paula Arósio), ele se dividirá entre os escrúpulos morais e o desejo de ascender ao posto de seu amigo e mentor Heitor (Nelson Xavier), presidente da instituição. Seu velho amigo César (Ângelo Antônio), também diretor do banco, fará as vezes do incômodo Banquo da peça de Shakespeare.

Nessa transposição quase integral do enredo original, algumas soluções narrativas são, a meu ver bastante felizes, como por exemplo a transmutação das bruxas da peça numa aluada rendeira meio new age. A própria cena prometida no título do filme – que faz o espectador perguntar-se como se realizará o prodígio encenado na tragédia – tem uma resolução engenhosa e cheia de significados possíveis.

Mais problemática é a adoção de uma cenografia ostensivamente clean, de uma dramaturgia convencionalmente realista e dos códigos narrativos do gênero policial. Com isso, frequentemente a tragédia se rebaixa a drama burguês, com sua exibição um tanto supérflua de signos de riqueza: iates, piscinas, mansões modernosas, carrões, carpetes silenciosos, serviçais discretos. De quando em quando, porém, debaixo da elegância fria desses vidros e mármores todos, vibra a grandeza humana shakespeariana. A presença do sangue, anunciada sutilmente já na primeira cena, será essencial para isso.

Olmo e a gaivota

Se em A floresta que se move o trânsito essencial é entre literatura e cinema, em Olmo e a gaivota a fronteira que se rompe é entre ficção e documentário, entre registro e encenação. O filme, dirigido a quatro mãos pela brasileira Petra Costa e pela dinamarquesa Lea Glob, documenta, em princípio, o dia a dia de um casal de atores do Théâtre du Soleil, Olivia Corsini e Serge Nicolaï, desde o momento em que eles descobrem que ela está grávida.


A gravidez surge quando os dois se preparam para atuar numa montagem itinerante de A gaivota, de Tchekhov. O filme acompanha então os dilemas do casal, sobretudo de Olivia, enquanto a gravidez avança e os ensaios para a peça se intensificam. O aspecto “bruto” da filmagem com câmera na mão, sempre muito próxima dos personagens, quase como num home movie, reforça o substrato de realidade, mas a todo momento somos lembrados de que se trata de personagens/atores e que pode haver muito de representação, de atuação, no modo como se mostram diante da “objetiva” (nunca a palavra foi tão irônica).

Há, porém, um limite intransponível para essa eventual representação ficcional: o corpo de Olivia. Acompanhamos o crescimento de sua barriga, as transformações de seu organismo, as alterações na sua pele. Embaralham-se então flashes do cotidiano, registros de ensaios, fragmentos de filmes domésticos do passado, discussões calorosas do casal (que podem ou não ser encenadas), num contínuo e estimulante entrechoque entre ficção e realidade, entre teatro e cotidiano, com o cinema surgindo como o lugar em que essas coisas se fundem. Pode-se não gostar de Olmo e a gaivota, mas não há como negar que se trata de um filme singular e, no sentido preciso do termo, extraordinário.


José Geraldo Couto

José Geraldo Couto é crítico de cinema, jornalista e tradutor. Trabalhou durante mais de vinte anos na Folha de S. Paulo e três na revista Set. Publicou, entre outros livros, André Breton (Brasiliense), Brasil: Anos 60 (Ática) e Futebol brasileiro hoje (Publifolha). Participou com artigos e ensaios dos livros O cinema dos anos 80 (Brasiliense), Folha conta 100 anos de cinema (Imago) e Os filmes que sonhamos (Lume), entre outros. Escreve regularmente sobre cinema para a revista Carta Capital.

Fonte: BLOG DO IMS

A Tese de 1932 (Da Psicose Paranoica em suas Relações com a Personalidade) I Christian Dunker

PICICA: "Publicado em 29 de dez de 2015
Série de aulas sobre os "Conceitos Fundamentais de Jacques Lacan", ministrada por Christian Ingo Lenz Dunker, psicanalista e professor titular em Psicanálise (Lacan) e Psicopatologia do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP)." 
EM TEMPO: A dica é de Rosimeire Silva.

1. A Tese de 1932 (Da Psicose Paranoica em suas Relações com a Personalidade) I Christian Dunker

Christian Dunker

Forças Alucinatórias de D.H. Lawrence. Por Roberto Mortágua (OBVIOUS)

PICICA: "Não terá sido obra do acaso a escolha de um personagem feminino como representante central e caracterizador do seu pensamento mais profundo e contingente. Há, podemos afirmar, uma certa feminidade no carácter de Lawrence, que aliás parece estar bem implícito na totalidade da sua obra literária." 


Forças Alucinatórias de D.H. Lawrence


Não terá sido obra do acaso a escolha de um personagem feminino como representante central e caracterizador do seu pensamento mais profundo e contingente. Há, podemos afirmar, uma certa feminidade no carácter de Lawrence, que aliás parece estar bem implícito na totalidade da sua obra literária.

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A Serpente Emplumada - Da Etnografia ao Surrealismo/Da Desconstrução ao Binário

A partir da obra de D.H. Lawrence A Serpente Emplumada, uma exploração dos espaços e das fronteiras ambíguas que caracterizam as representações ocidentais do nativo do Novo Mundo americano (com ênfase no nativo Mexicano), no contexto plástico e altamente volátil do primeiro quarto do século XX. As interligações e manifestações etnográficas dos discursos artísticos da vanguarda surrealista francesa; a fuga voraz da velha, mecânica e desalmada Europa moderna, a das trincheiras e da profunda descrença no ideal vazio do progresso perdido em terras gaseificadas imersas em sangue; na procura do exótico selvagem e primitivo, tornado familiar na intenção desmedida de uma elite intelectual onde artista e etnógrafo se confundem, se interligam e se condicionam, na representação e apropriação colectiva de um novo mundo 'genuíno' e 'autêntico' em aparente processo de extinção. Lawrence como personagem axiomática do emaranhado complexo da representação do outro, num mundo antropológico onde a metodologia etnográfica é ainda embrião, vaga e dispersa na sua norma.

'O seu desejo seria invocar também os deuses desconhecidos para que lhe repusessem um pouco de encanto na sua vida e a salvassem da esterilidade desse mundo corrompido.'D.H. Lawrence, A Serpente Emplumada
 
I. Surrealismo e Etnografia

No decurso das próximas palavras explorar-se-à o percurso de D.H. Lawrence desde o momento em que abandona a sua velha Europa até ao momento, em 1926, em que edita a obra literária A Serpente Emplumada. É importante acentuar o seu caminho, as suas deslocações - quer físicas, quer intelectuais - e não só os momentos de partida e de chegada, quer isto dizer, a sua estadia no México e a publicação da obra referente, na medida em que é na viajem que encontramos os momentos fractais da sua construção e representação do Novo Mundo; é na viajem que se tornam evidentes os processos de desassimilação do discurso Europeu; que se torna evidente o desprezo e a revolta do progresso e industrialização ocidental; é na viagem que o Novo Mundo é imaginado e preconcebido como única e derradeira alternativa ao caótico e desumano Ocidente em queda pós ascensão. Esta sensação dolorosa, quase penosa, presente em muitas das cartas escritas por Lawrence a amigos espalhados um pouco por todo o mundo ocidental, é em grande medida partilhada não só por um enorme número de artistas da sua geração - das mais diversas áreas (do teatro às artes plásticas, da literatura ao cinema) - mas também por um grupo de intelectuais franceses, altamente vanguardista e constituinte da base central do movimento surrealista encabeçado por André Breton. 

Todos eles unos por uma personalidade sem igual no século XX e digno pai da mais experimental, inventiva e rica geração de intelectuais franceses, Marcel Mauss. E muito embora o mundo da etnografia e o mundo do surrealismo possam parecer antíteses inconcebíveis no seu desenrolar histórico, académico e artístico respectivamente, vários elementos indicam que na sua génese, estas duas formas de exploração e representação de realidades não estariam assim tão distantes uma da outra. A força matriz invisível que conduz o etnógrafo ao Novo Mundo é partilhada pelo seio vanguardista francês dos anos 20, e vice versa. Ainda que o objecto procurado por uns e por outros se tenha manifestado de formas e práticas distintas no desenrolar do século, a grande questão pilar que os leva ao êxodo é comum: a queda da ideologia do progresso; a desumanização do Homem perante a máquina; a frustração e o descredito de um ideal derramado em trincheiras, tingido a vermelho púrpura e inconcebível ao mais hábil discurso de heroísmo. A realidade tornou-se surreal no pós guerra e tanto etnógrafos como artistas partem, desalmados, numa incessante busca de 'verdade' e significado. Numa busca de opções e alternativas claramente não encontradas no Orientalismo já decorrente do romantismo do século XIX, - "which departed from a more-or-less confident cultural order in search of a temporary frisson, a circumscribed experience of the bizarre" (Clifford, 1988, pg. 120) - muito menos na África 'negra'. Lawrence, não estando só neste caminho profético, parte para a América em busca de mais do que um preenchimento do vazio ideológico deixado pela guerra, como deixa bem patente numa carta que escreveu ao seu editor em Nova Iorque, Thomas Seltzer, em 1922 "What I want in America is a sense of the future... I believe in America one can catch up some kind of emotional impetus from the aboriginal Indians and from the aboriginal air and land, that will carry one over this crisis... into a new epoch." (Ruderman, 2010, pg. 40). É verdade que podemos traçar um paralelo plástico entre um surrealista francês, como Bataille, um etnógrafo Americano, como Ruth Benedict, e um escritor britânico, como D.H. Lawrence, no acordar sombrio dos anos 20 do século XX. Mas há, ainda assim, algo em Lawrence que o destaca dos demais contemporâneos, em especial, dos mais próximos do universo artístico fluído e instável das vanguardas. Esse destaque passa pela noção que Lawrence sugeriu ter do universo metodológico do trabalho antropológico. Ao contrário de surrealistas como Bataille ou Picasso - antes da sua empreitada cubista - que manifestamente e convenientemente se apropriaram do Novo Mundo para a regeneração das ruínas do seu velho mundo, colectivo e individual, Lawrence foi mais longe e deu um passo que suplanta a necessidade frívola e vampírica do ocidental de estômago vazio, esfomeado insaciável. Lawrence, rejeitando sempre o cunho de etnógrafo - em parte pela restrição científica que a etnografia constitui e não pelas práticas que a modelam - deu-se à liberdade de usar uma metodologia que, longe de estar trancada a sete chaves numa universidade de arquitectura vitoriana, lhe pareceu pertinente e capaz de uma mais completa compreensão e apreensão do Novo Mundo que almejava abraçar. Lawrence não pisou o novo continente cego de vista, nem de história. Lawrence não era um etnógrafo, era um retratista de palavras, um inventor, um escritor. E isso, obviamente, não o impedia de dar uso à metodologia antropológica vigente à época, com o simples senão de não lhe interessar a prisão conceptual e inventiva de uma ciência legitimada para fins concretos, políticos, sociais, económicos, etc. Alegoricamente, Lawrence não colocou as algemas, mas cometeu o crime na mesma.

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'Mais do que qualquer coisa assustava-a a sensação repulsiva da terra. Visitara muitas cidades do mundo, mas o México possuía uma espécie de fealdade oculta, algo de depravado que, em compensação, fazia Nápoles parecer a própria Inocência. Kate tinha medo, medo de se ver tocada pelo que quer que fosse naquela cidade e de ficar contaminada pela sua depravação.'D.H. Lawrence, A Serpente Emplumada
 
II. Overturning Phase

Contextualizado o universo metódico singular de D.H. Lawrence na construção da sua arte literária, partimos para uma reflexão mais profunda, imersa e embrenhada da sua obra em análise, A Serpente Emplumada. Uma reflexão sobre como, através da ficção e das personagens imaginadas, Lawrence foi capaz de antever e utilizar, mas também de se aprisionar, em processos desconstrutivos, em sistemas de oposição binária e em jogos de inversão de género e de reorganização mitológica, na formulação de um romance em muitos aspectos paradoxal, mas que lido e atentado à margem dos hoje muito comuns desvios presentistas, se revela obra crassa, manifestante subtil de algumas redes de pensamento precursoras dos adventos intelectuais pós coloniais. Na figura de Kate Leslie, personagem que podemos considerar central e personificadora dos aspectos mais conspícuos da posição intelectual de Lawrence, encontramos o foco de ambiguidade no qual o autor deposita as suas crenças. É na figura de Kate que constatamos as impressões ocidentais do México; é na figura de Kate que vestimos e despimos o imaginário do exótico Novo Mundo; é na figura de Kate que o próprio Lawrence, invertido em sexualidade, flutua entre humores e desamores, entre fascínios e aberrações, entre a esperança e a descrença. A partir de Kate e da sua construção ocidental (irlandesa católica), Lawrence encarna a serpente emplumada que na sua ficção constitui a representação divina de um novo mundo prestes a convergir na ruína deixada pelo branco monoteísta ocidental.

'A política e toda essa religião social com que Montes se preocupa equivale a lavar a casca de um ovo para lhe dar um aspecto limpo. A mim, porém, só interessa lavar o interior ... Ah, Cipriano! O México é tal um ovo que o Tempo choca desde séculos neste ninho do mundo e que parece ser goro. Parece, mas não é. O que precisa é de calor que ajude a formação da ave. Montes quer limpar o ninho e lavar o ovo ... Que aconteceria se tirassem um ovo de baixo duma águia para o lavar? Arrefeceria de vez. Pois quanto mais se empenharem em arrancar este ovo da pobreza e da ignorância mais depressa ele morrerá. Pobre Montes! Todas as suas ideias são americanas ou europeias. E a velha pomba da europa jamais poderá chocar com êxito o ovo escuro da América. Os Estado Unidos não morrem porque não estão vivos. É um ninho de ovos de loiça e por isso se conservam limpos. Mas aqui, Cipriano, aqui é necessário incubá-los antes da limpeza do ninho.'(Lawrence, 1926, pg. 186)
 
O excerto acima citado de A Serpente Emplumada (conversa entre Don Ramón e Don Cipriano), manifesta a natureza do culto que Don Ramón pretende instigar no âmago cognitivo dos seus conterrâneos nativos mexicanos. Ainda que europeizados, quer Don Ramón, quer Don Cipriano, representam na ficção de Lawrence a pequena fação da elite mexicana constituída por nativos americanos, instruídos ou educados a dada instância das suas vidas no ocidente, mas regressados plenos na sua revolta e vontade instigadora de mudança. Estas duas personagens encarnam o espelho negativo de Lawrence, isto é, o nativo que partiu rumo ao ocidente. Os processos por que passam na travessia de mundos e ideologias, na travessia de fronteiras e de crenças, são em muitos aspectos paralelos opostos aos que o ocidental Lawrence atravessa na sua fuga ao desalmado e estéril progresso industrial moderno. Quer um, quer outros, partem numa busca preconcebida e consciente de formas alternativas e de redefinição, enunciando neste aspecto James Clifford e a ideia de tornar familiar o estranho e estranho o familiar. Redefinição essa criada precisamente pelo choque, pelo confronto e pelo conflito assente no contacto com o exótico, que em si é factor determinante na percepção identitária de cada um. A reinvenção da sua ancestral religião, encetada por Ramón e Cipriano, é a primeira de várias reversões que Lawrence desenvolve ao longo do romance. Um outro aspecto da desconstrução pioneira e criativa de Lawrence em A Serpente Emplumada, ainda no contexto da crença e do divino, prende-se com a homologação inversa da célebre práctica dos autos-da-fé. Na sua obra, Lawrence atribui a Don Ramón e a Don Cipriano o poder outrora atribuído aos conquistadores cristãos, de remover e queimar os símbolos e as imagens sagradas nativas, substituídos na consequência pelos ícones cristãos.

'Não se lhe encontrava harmonia, não se lhe reconhecia emoção. Apenas música, apenas um grito na noite, perfeito e longínquo. Mas ia direito à alma, à alma eterna e antiga, aí onde só pode a família humana encontrar-se em imediato contacto. Kate logo o sentiu, e de forma fatídica. Seria inútil resistir, inútil fazer qualquer esforço. O som ia até ao âmago do ser, em que não existe esperança nem dor, mas só a paixão, que semelha uma ave no seu caminho, de asas dobradas, e a fé uma árvore de sombra.' (Lawrence, 1926, pg. 125)
 
O imaginário e as prácticas discursivas através das quais o conquistador/colonizador ocidental construiu o mundo conquistado/colonizado, aludiram em grande medida à alegorização do corpo terrestre 'conquistado' como sendo um corpo feminino. Um discurso imerso em delicadezas sem fim e fragilidades puritanas que hoje aterrorizariam a menos ávida feminista, alegorizava os novos mundos como belas mulheres, nuas e delicadas. Virgens de beleza exótica, imprópria a qualquer bom católico, dotadas de inimagináveis poderes de persuasão e sedução, que terminavam não obstante num romance exótico tipo, com o colonizador Europeu a ceder perante a diabolização sexual da exótica indígena. Em A Serpente Emplumada o mesmo não encontramos. Não fosse um cliché literário da época, Lawrence acabaria de qualquer maneira por lhe fugir, ou mais acentuadamente, em o negar. Isto porque, ao longo da sua obra, há uma manifesta compreensão e abordagem à questão do feminino na era moderna e sua respectiva emancipação, longe do mundo ocidental dos homens. Não terá sido obra do acaso a escolha de um personagem feminino como representante central e caracterizador do seu pensamento mais profundo e contingente. Há, podemos afirmar, uma certa feminidade no carácter de Lawrence, que aliás parece estar bem implícito na totalidade da sua obra literária, de alguma forma explicito nalguns dos elementos basilares do carácter de Kate. Numa ficção sem herói, é em Kate que recai a mais pesada e fracturante conversão. 

No desenrolar de A Serpente Emplumada, Kate atravessa os estágios próprios de uma reeducação, em primeira instância degenerativa (a fase do confronto com o México, em que tudo é horrorífico, desprezível e susceptível a negras e obscuras formulações), e em segunda instância regenerativa (a fase em que se apropria de uma nova rede de conhecimentos, se torna a representação viva de uma deusa Azteca na reconstrução ritual de Don Ramón, e se casa com Don Cipriano). Ao contrário da representação histórica e mitológica de La Malinche, que é a personificação da nativa Azteca que se rende aos encantos do conquistador espanhol Hernán Cortés (líder da expedição militar responsável pela queda do Império Azteca) e que acaba traindo o seu povo, num golpe de marionete encetado por Cortés (que a descartou mãe, findo o interesse), Kate represente na obra de Lawrence o inverso polar do colonialismo. 

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'As mulheres de Navajo, quando tecem as mantas, deixam na ponta um buraquinho para a alma sair; não tecem a sua alma juntamente com a manta. Sempre me pareceu que a Inglaterra tecia a almas nas suas fábricas, e em tudo o que fazia, sem deixar buraco para a alma sair... Por isso toda a sua alma está agora nas mercadorias e em mais nenhuma parte.'D.H. Lawrence, A Serpente Emplumada
 
III. Desconstrução

Em A Serpente Emplumada, D.H. Lawrence enceta um pioneiro esforço de desconstrução do establishment colonial, simultaneamente que embarca numa maré reconstrutiva ilusoriamente inovadora. Através da polarização de elementos coloniais em elementos de advento nativo-americano, desenvolve um romance capaz de genuinamente nos afectar, quer pelo jogo alternativo que manipula através do uso de vocabulário, gramática e discurso diferenciador, quer pela aparência regeneradora da sua ficção. Apesar de tudo, e glorificando o esforço e a intenção de uma obra editada em 1926, Lawrence não consegue fugir ao paradigma ocidental, eurocêntrico. Metaforicamente, se alguém desconstruísse e reduzisse a Pirâmide de Gizé aos blocos que à milénios a construíram e se desses blocos se construísse uma nova estrutura, por menos piramidal que fosse, seria sempre uma estrutura feita a partir dos mesmos blocos que constituíram a Pirâmide de Gizé. Mas se por outro lado, alguém introduzisse nessa reconstrução um, ou mais, novos elementos (como o ferro, o alumínio, o plástico, etc.), aí sim, estaríamos perante um novo objecto na sua plenitude. Com toda uma nova embarcação de significados, livres do terreno sinuoso e paradigmático da reconstrução em si mesma, feita a partir dos destroços do que já esteve 'em pé'. A obra de Lawrence é uma extraordinária ficção, mas para que pudesse existir uma nova rede de significados e um abandono completo do peso histórico do sistema desconstruído, seria necessária uma voz independente desse mesmo sistema, nesta caso, uma voz nativa mexicana a falar por si própria. A regenerar o seu próprio mundo. A Serpente Emplumada é um objecto literário pioneiro e revelador, mas nunca foi nem nunca será capaz de escapar a si mesma, como prática eurocêntrica de um discurso eurocêntrico.

Fonte: OBVIOUS

A Vontade e a crítica às utopias – Emil Cioran. Por Victória Monteiro (COLUNAS TORTAS)

PICICA: "Ironizando a pretensão das utopias, o pensador chega inclusive a sugerir que a sociedade ideal, aquela em que os homens não prejudicassem uns aos outros, seria uma sociedade de abúlicos (pessoas desprovidas de vontade). Trata-se de uma expressa e proposital contradição, uma vez que, como já foi dito, a vontade é constituinte de tudo o que vive, inclusive do homem, não sendo possível aboli-la. Sobretudo o homem não suportaria o tédio de uma sociedade perfeita, supondo esta ter sido alcançada: é o próprio medo deste tédio que o faz agitar-se, inventar e reinventar a História." 


A Vontade e a crítica às utopias – Emil Cioran



Antes de iniciar este texto, gostaria de fazer uma ressalva sobre a infelicidade que é ver o pensamento de Cioran ser usado para legitimar outros pensamentos por sua vez infelizes, embora saiba que não é apenas com ele que isto acontece. Pessoalmente, penso que a autodestrutiva “consciência de nossa temporalidade” que percorre a obra de Cioran deixa em aberto, apesar do sugerido fatalismo, o que disso se deve seguir. O principal é que Cioran não propõe uma fórmula redentora para o mundo, e sua crítica aos que o fazem, a como e porque o fazem, é uma contribuição a partir da qual muito temos o que aprender.

A vontade e a crítica às utopias

“Em seu desígnio geral, a utopia é um sonho cosmogônico ao nível da história” [Emil Cioran, História e Utopia]
Schopenhauer, assim como, Nietzsche, admitiu que a vontade é a constituição essencial do homem. Para o primeiro, a vontade é fonte de sofrimento, uma vez que consiste em uma aspiração perpétua que nunca encontra sua satisfação final. Quando o homem não deseja, é invadido pelo tédio, e a existência é igualmente dolorosa. A única forma de livrar-se desta dor que resulta da vontade é extinguir esta última. Já o segundo, tendo admitido o conceito de Schopenhauer, acredita, no entanto, que é apenas por meio da afirmação da vontade que o homem pode efetivar-se no mundo, criar seus próprios valores e sentidos autênticos para a existência. Para ele, a vontade é potência.

Emil Cioran (1911-1995)

Para Emil Cioran, contudo, a angústia surge da consciência do que significa “querer” e da dupla impossibilidade tanto de afirmar como de negar a vontade. Todos os males do mundo são causados por suas pretensões universais, diz o pensador, e embora o mais sensato seja negá-la, isto não é possível. Em sua obra História e Utopia, temos uma descrição da História como algo sintomático: um desenvolvimento que se dá, segundo o autor, sem nenhum motivo; um movimento em direção a nada. As utopias, por sua vez, são a expressão por excelência do caráter da vontade, sendo elas uma instância última da história que se pretende, sem perspectiva de êxito, alcançar.
Querer, no sentido pleno da palavra, é ignorar que se quer, é se recusar a deter-se no fenômeno da vontade [Emil Cioran, História e Utopia]
A sociedade que se ambiciona por meio das utopias deriva, de certa forma, da nostalgia de um estado semelhante ao descrito pela “idade de ouro” da mitologia grega ou pelo Éden do cristianismo; estado este que sequer conhecemos de fato e que representa uma época em que o homem ignorava sua temporalidade e, por isso, não sofria: vivia em um estado de eterno presente.

Assim como acontece nos atos individuais, as ambições da sociedade, expressas de forma mais notória nas utopias, dirigem-se a um estado inalcançável de felicidade que existe, sobretudo, como ideia. Desta forma, a inexistência deste objetivo último em uma sociedade condenaria sua própria existência enquanto tal, assim como um indivíduo sem vontade condena-se a si mesmo à estagnação, a uma existência cadavérica.

“Tudo o que vive se aprecia”, disse Cioran em Breviário de Decomposição. Tudo o que vive, por reafirmar sua existência diariamente, expressa, em cada ação, uma grande dose de amor próprio. Do mesmo modo, toda ação exige uma grande fé em suas proporções. ”Arriscaríamos o menor projeto sem a convicção íntima de que o absoluto depende de nós, de nossas ideias e de nossos atos, e de que podemos assegurar seu triunfo em um prazo bastante breve?”[1] Pois esta é a ambição dos revolucionários: alcançar essa etapa histórica última. O que acontece na esfera de nossas atividades diárias dá-se também na esfera da História. Neste sentido, uma revolução é uma expressão da vontade tanto quanto um gole de café.
O elixir da vida e a cidade ideal procedem de um mesmo vício do espírito, ou de uma mesma esperança [Emil Cioran, História e Utopia]
O vício da reforma é, na verdade, o vício da expansão do indivíduo sobre a realidade, seu momento de legislador ou de tirano. Além disso, o que almejam as utopias acaba por ser uma “sociedade de marionetes”. Em sua leitura dos autores utópicos (menciona Thomas Morus, Cabet, Owen, Fourier e Morris), Cioran percebe neles certa ingenuidade e o que ele chama de “ausência de instinto psicológico”, pois os homens nelas descritos desviam-se drasticamente dos homens verdadeiros: desinteressados, prontos para o sacrifício e para esquecer-se de si.

Capa de uma edição da obra “Utopia” (1516), escrita por Thomas Morus.

Ironizando a pretensão das utopias, o pensador chega inclusive a sugerir que a sociedade ideal, aquela em que os homens não prejudicassem uns aos outros, seria uma sociedade de abúlicos (pessoas desprovidas de vontade). Trata-se de uma expressa e proposital contradição, uma vez que, como já foi dito, a vontade é constituinte de tudo o que vive, inclusive do homem, não sendo possível aboli-la. Sobretudo o homem não suportaria o tédio de uma sociedade perfeita, supondo esta ter sido alcançada: é o próprio medo deste tédio que o faz agitar-se, inventar e reinventar a História.
A história não seria, em última instância, o resultado de nosso medo do tédio, desse medo que sempre nos fará amar o sabor e a novidade do desastre, e preferir qualquer desgraça à estagnação? A obsessão pelo inédito é o princípio destruidor de nossa salvação [Emil Cioran, História e Utopia]
Qual, então, é a nossa alternativa, fadados a um paraíso que nunca existiu e nunca existirá? Em um vislumbre de esperança raro em sua obra, Cioran, no desfecho de História e Utopia, nos faz entrever que é na própria impossibilidade de nos livrarmos do desejo deste paraíso, responsável por todas as nossas ações e sofrimentos, que podemos descobri-la. Tentarmos, “no princípio intemporal de nossa natureza”, escapar ao tempo. Desta forma, sobrepomo-nos mesmo à história: esta negação da identidade que, por meio dela, procuramos.

Referências

[1] CIORAN, E. História e Utopia.Tradução: José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. Voltar ao texto.

Fonte: COLUNAS TORTAS