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outubro 07, 2010

Vitória de Dilma representa avanço das forças populares

Vitória de Serra é derrota para trabalhadores, diz Consulta

(6'38'' / 1.5 Mb) - Em entrevista à Radioagência NP, o integrante da coordenação nacional da Organização Consulta Popular, Ricardo Gebrim, discute o cenário do segundo turno para a presidência. De acordo com ele, a campanha entra em uma fase crítica: as forças populares devem buscar unidade pela vitória de Dilma (PT) contra a vitória de José Serra (PSDB) e o retorno da direita ao poder. Gebrim também analisa a votação expressiva de Marina Silva (PV), que conquistou quase 20% dos votos válidos, e diz que houve avanço, ainda insuficiente, na configuração do Congresso Nacional.

Radioagência NP: O que representa o resultado do 1º turno para as forças populares do Brasil?
Ricardo Gebrim: Em relação às eleições dos presidenciáveis, nós podemos afirmar que não interessou às forças populares a existência de um segundo turno. O melhor desfecho era que Dilma Rousseff fosse eleita no primeiro turno. O segundo turno abre condições e risco para que a direita avance na sua ação ofensiva, com as forças mais reacionárias do último período. Isso coloca [ao PT e aos movimentos sociais] uma campanha difícil como também irá possibilitar que muitas pressões conservadoras recaiam até mesmo sobre a candidatura Dilma. Então, nesse momento é fundamental que a gente consiga unificar o conjunto dos setores populares, que votaram em outros candidatos, como na Marina, para derrotar o Serra e garantir a vitória na Dilma.

RNP: Por que a vitória Dilma é considerada mais promissora para o avanço das forças populares que a vitória do Serra?
RG: Por vários motivos. O primeiro deles é que dá continuidade a um posicionamento geopolítico do Brasil, que não só vem apoiando iniciativas importantes no nosso continente, como possibilitou o apoio em várias situações fundamentais, como no episódio do golpe em Honduras, no apoio das iniciativas continentais que fortaleceram países como a Bolívia, a Venezuela e Equador. Mas não só no âmbito mundial. A candidatura da Dilma também representa esse leque de força, [que] nesse último período – ainda que não tenha sustentado o programa histórico das transformações – possibilitou que fosse barrado um conjunto de iniciativas ofensiva neoliberal que ficou marcada pelo governo de Fernando Henrique. [Ou seja] as ofensivas das privatizações, a ofensiva contra os direitos trabalhistas. Portanto, nós temos que fazer uma fortíssima campanha para impedir que a direita retome essa condição de força e consiga derrotar esse acúmulo que foi obtido nesses últimos anos.

RNP: Como a Consulta avalia a votação obtida pela Marina?
RG: A votação expressiva da Marina é algo que precisa ser melhor compreendida porque a candidatura dela tem vários temas contraditórios e antipopulares como no papel geopolítico do Brasil, a questão agrária e os direitos trabalhistas. É uma candidatura que se manteve bastante ambígua, para não dizer que em alguns momentos chegou a esboçar várias propostas conservadoras. Portanto, o voto acumulado pela Marina, embora tenha arrebanhado um conjunto de setores sensíveis ao discurso ambiental e a um processo de desenvolvimento que seja sustentável, também foi um voto que sinalizou um protesto e um descontentamento de uma parcela que se sente frustrada pelo governo Lula não ter avançado e implementado aquelas medidas históricas do programa democrático e popular do PT. O voto da Marina canaliza esse conjunto de eleitores, embora com um discurso bastante ambíguo e incerto.

RNP: E qual é a avaliação sobre a composição do Congresso? Nas eleições para o Senado, por exemplo, o PT passou de oito para 14 cadeiras. O DEM tinha 13 e agora tem seis e o PSDB, tinha 14 e agora 11.
RG: Isso sem dúvida é um avanço importante, ainda mais porque o Senado sempre foi o bastião do pólo conservador. Obter um avanço no Senado é um passo importante, mas ainda é um avanço insuficiente, pois ainda existe uma forte presença conservadora na Casa. No quadro geral é uma perspectiva promissora. Também me parece que na Câmara houve certo avanço dos partidos que tem um compromisso histórico das lutas populares.

RNP: E qual a expectativa para a campanha presidencial do 2º turno?
RG: Nós estamos ouvindo o conjunto da coordenação nacional e até o momento há uma forte unanimidade de que a gente tenha uma orientação clara e firme de todo esforço militante. Agora é hora de voltarmos à rua, voltarmos com a militância, retomarmos as atividades de campanha e, principalmente, de conseguirmos articular com aqueles setores e aqueles companheiros e companheiras que acabaram votando na Marina ou em outros partidos e propostas não vinculadas à candidatura Serra. Então é hora de tentar aglutinar esses setores, somar o máximo de energia, porque nós não podemos permitir a vitória do Serra. A vitória para o Serra é uma derrota para classe trabalhadora. Por isso que nesse momento temos que procurar esse eleitorado, conversar com ele e demonstrar o perigo de uma vitória da direita. E esse perigo real tem que ser enfrentado de uma forma bastante militante. A campanha nessa fase entra numa fase militante.

De São Paulo, da Radioagência NP, Aline Scarso.

05/10/10

Fonte: Radioagência NP

maio 30, 2010

O fim do manicômio

Pelo fim dos manicômios
Foto: Rogelio Casado - Manaus-AM, 2010
Nota do blog: Leia artigo publicado no blog da Associação Chico Inácio. Ao que parece, ainda não superamos os dilemas do velho modelo de tratamento em saúde mental.


O fim do manicômio

Mesmo fora do manicômio, a assistência aos portadores de sofrimento psíquico ainda sofre a influência dos dispositivos manicomiais. A clínica, que campeia nos serviços, públicos e privados, baseia-se em fortes efeitos apassivadores. Não é nenhuma novidade que os conflitos vividos em sociedade estão sendo medicalizados. Há um público refém do monopólio de técnicas estandarizadas, na medida em que foram desprezadas as questões culturais, cognitivas e subjetivas que tornam o funcionamento dos serviços de saúde alvo do monopólio de um modelo obsoleto.

Quando, então, serão enfrentadas as diversas demandas da “população psiquiátrica”? Qual o papel das instituições de ensino? Qual o perfil desejável dos profissionais “psi”, diante da emergência de novos paradigmas de atenção em saúde mental?

Na academia não há quem desconheça a importância de combater o estigma social provocado pelos transtornos subjetivos. Porém, como sustentar os direitos dos portadores de sofrimento psíquico se o modelo manicomial insiste em pairar sobre nossas cabeças? Ao modelo clássico de segregação da diferença, baseado numa falsa moral, a nova discriminação aos transtornos psiquiátricos ganha suporte na suposição de que a “dor de existir” é produto de complexas interações neuro-químicas, daí o uso abusivo de psicofármacos.

Porém, há academia e academia. Na primeira há mera reprodução do saber. Mas é da última, onde há constante produção do saber, que chovem advertências: “Tratar os efeitos da "doença mental” e impedir o estigma e a discriminação implica muito mais do que o domínio de uma técnica. Faz-se necessário a criação de dispositivos grupais e institucionais que estimulem a análise e a quebra de defesas corporativas. Faz-se necessário o confronto diário com nossas próprias dimensões subjetivas e pessoais. Faz-se necessário romper com a colonização mental a que fomos submetidos. Faz-se necessário a análise dos processos de poder e conflitos políticos, ideológicos e institucionais vividos no cotidiano dos serviços”.

Desinstitucionalização em saúde mental é um processo que requer a recuperação da complexidade e do desenvolvimento das diversas aptidões de nossas vidas e de nossas clientelas. Que cada um indague se está amadurecido para o desafio de criar um projeto teórico, político e assistencial que contemple as novas perspectivas definidas na Lei Paulo Delgado - esta, sim, fruto de experiências concretas baseadas numa clínica de efeitos desapassivadores.

Se os dispositivos institucionais ainda tardam entre nós é porque o desmonte do modelo manicomial ficou no meio do caminho da história da Reforma Psiquiátrica no Amazonas, resultante da cumplicidade conformista entre a sociedade civil e a sociedade política. Cumplicidade que perderia sua força no início deste século. Recuperar o elo perdido dessa história não é reivindicar por uma Reforma já acontecida, cujos ideais caducaram, mas apostar na sua vertente mais radical: o fim dos manicômios. A clínica antimanicomial é o seu principal instrumento.

Manaus, junho de 2005.

Rogelio Casado, psiquiatra e psicoterapeuta
Coordenador do Programa Estadual de Saúde Mental
E-mail: rogeliocasado@uol.com.br

Nota do blog: Artigo publicado no jornal Amazonas em Tempo, em 2005.
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