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outubro 01, 2010

A participação das mulheres brasileiras na democratização dos poderes


dilmanaweb | 30 de setembro de 2010

A participação das mulheres brasileiras na democratização dos poderes.
Marilza De Melo Foucher (*)


As mulheres têm tido um papel importante nas transformações socioculturais e políticas no Brasil. Mesmo que estas conquistas se inscrevam dentro de um lento processo, com certos zigszags, recuos e avanços.

Desde 1932 a mulher brasileira conquistou o direito de votar, entretanto, o fato de votar não sacudiu em quase nada o alicerce da estrutura conservadora da sociedade brasileira. Todavia vale reafirmar que a mulher brasileira sempre integrou o cenário político de conquistas sociais e, sobretudo no processo de democratização do Brasil.

Como estamos em vésperas de eleições, depois de escrever 3 artigos visando estimular o debate político em outras áreas, não poderia deixar de escrever algo sobre evolução do papel político das mulheres no Brasil. Percebi que nessas eleições a participação das mulheres na política eletiva bate todos os recordes. Esse fato é um orgulho para qualquer brasileira, independente de sua opção política. Contar com a presença das mulheres, na disputa pelo mais alto posto do poder eletivo é motivo de grande emoção.

Apesar da existência da sub-representação política da mulher no poder legislativo, entretanto, isto não significa que a mulher brasileira tenha pouca participação política, não podemos esquecer que elas foram às principais protagonistas que permitiram a emergência de uma nova sociedade civil e vem participando ativamente na luta pela inclusão social dos das camadas pobres e excluídos do progresso econômico brasileiro. Chamo atenção sobre o uso da palavra política às vezes pode criar uma confusão semântica. As mulheres, através da participação popular estão no âmago da vida política brasileira.

As mulheres de minha geração, que lutaram contra a ditadura no Brasil não podem ser apresentadas como terroristas, tais como a mídia conservadora tentou passar junto à opinião publica. A caricatura que eles fizeram da candidata Dilma é demonstrativo da falta de reconhecimento por milhares de mulheres lutaram por conquistas sociais e pela democracia no Brasil.

Mulheres guerreiras protagonistas da democratização dos poderes.

Para não alongar a historia vamos relembrar os anos 70. Em plena ditadura, um grupo de mulheres de São Paulo e Rio, diga-se de passagem, de origem burguesa, vão conseguir se aproveitar do evento do ano internacional da mulher decretada pela ONU em 1975, para organizar o primeiro encontro sobre o comportamento da mulher na realidade brasileira. Apesar de terem sido criticadas por algumas feministas que consideraram este encontro de mulheres, meio morno e, apolítico, este encontro vai oferecer pela primeira vez a oportunidade de politizar o feminismo brasileiro. Com a criação do movimento da anistia internacional as mulheres exiladas na Europa, Estados Unidos regressam ao Brasil e será o marco mais relevante para a evolução da causa feminista brasileira.

Sem duvida nenhuma, podemos afirmar que o retorno das mulheres intelectuais exiladas nos anos 80, irá contribuir para enriquecer o debate sobre questões femininas e dinamizar a luta das mulheres na conquista de direitos. Elas conseguiram fazer emergir um feminismo acadêmico comprometido com a ação. A teoria se juntou a pratica e a questão feminina se politiza no combate pela democratização dos poderes.

Vamos tomar a historia do poder como testemunho dessa evolução. O poder foi sempre detido pelos homens que seja na família (esfera domestica), na sociedade (esfera social) ou no Estado (esfera política). Toda análise de desigualdade entre mulheres e homens deve levar em conta, essas 3 esferas: domestica, social e política. Daí pode-se dizer que o poder sempre foi conjugado no masculino. O poder, este obscuro objeto do desejo masculino foi sempre percebido ao longo da historia societal como um território masculino proibido de ser exercido pelas mulheres! Porém as mulheres simplesmente almejam um equilíbrio de poder, com os mesmos direitos e mesmos deveres.

As mulheres exiladas brasileiras entenderam que o poder deveria ser conjugado no masculino e feminino, e tinham consciência que as conquistas femininas em qualquer lugar do mundo, se deram dentro de uma enorme resistência às mudanças estruturais...
Essas mulheres guerreiras que enfrentaram sem medo a ditadura, arriscando às vezes à própria vida passaram então a socializar experiências e aprendizados com outras mulheres.
Deferentes centros de pesquisas sobre questões femininas, sobre o papel da mulher nas diferentes esferas do poder foram criados praticamente em todas as universidades brasileiras. Também surgiram varias associações feministas, movimentos de mulheres, centros de mulheres contra a violência.

As mulheres intelectuais na maioria de classe média, algumas de famílias ricas irão descobrir os bairros populares, as favelas, vão conhecer diversas iniciativas desenvolvidas em “clubes de mães”, organizações sociais, comunidades eclesiais de base, apoiadas pela ala da igreja católica progressista. A teologia da liberação estava na época muito presente nesses lugares. Elas vão estabelecer contatos com mulheres simples, confrontadas a outra realidade, além do combate feminista elas tinham que assegurar o dia a dia.
O baixo nível de educação e a falta de capacitação não permitiam a essas mulheres entenderem certas “divagações” teóricas originarias dos Estados Unidos e Europa abraçada por uma intelectualidade feminista. O encontro entre esses dois universos, um oriundo da pequena e da grande burguesia, outro de mulheres humildes, que levam uma batalha dura para sobreviverem, vai ser extremamente profícuo a evolução da causa feminista brasileira.

Temas até então considerados tabus, vão surgir nas discussões, tais como: as diferentes formas de violências feitas às mulheres, o controle da natalidade, o uso de preservativos, da contracepção, a apropriação do corpo, dentre outros. A militância feminina vai então sair da capela intelectual para contextualizar a realidade para depois conceptualiza-la. Uma nova perspectiva de lutas se abre agregando novas temáticas às pesquisas universitárias. Do qual seus resultados vão dividir certas correntes do feminismo brasileiro. Por exemplo, a noção de gênero passará a ser uma temática transversal dentro de todos os movimentos sociais que lutam para transformar a realidade brasileira. A questão do exercício da cidadania passa a ser uma questão sine qua non para as mulheres, passarão a ocupar todos os espaços para democratizar os poderes, seja ele na esfera doméstica, social ou na esfera do Estado.
Esta reafirmação de igualdade, não é em nenhum momento reivindicada em detrimento das diferenças. Os homens serão também associados à questão do gênero. O movimento das mulheres e o movimento feminista terminarão por ser entenderem e sairão dos centros urbanos para a periferia e zona rural.

O feminismo pragmático que contextualiza a realidade para poder agir em conseqüência, sem negar a necessidade teórica, ganha terreno e legitimidade. A teoria feminista brasileira se enriquece e o feminismo muda também de pele e de classe social. Ele passa a ser mestiço, preto, branco, colorido e popular. As mulheres excluídas passam a ser sujeitos políticos. Pouco a pouco elas deixam de serem invisíveis e irão participar em todas as frentes de combates, principalmente na democratização do Brasil.

Assim vai a mulher brasileira conquistando o espaço político e se impõe como interlocutora visível nas transformações sócio-politica-cultural-ambiental e econômica do Brasil. Sem nenhuma pretensão podemos dizer que as mulheres brasileiras não esperaram pelos homens políticos para validarem seus direitos, elas participaram ativamente na nova constituição e formam um grupo de pressão fundamental para o fortalecimento e inovação da vida política brasileira. A paridade não se decreta a paridade se conquista.

Estou convicta que as mulheres brasileiras votarão em Dilma. Votarão em Dilma não pelo fato de ser mulher, votarão em Dilma porque ela foi também protagonista de nossa historia de lutas por um Brasil democrático e sem exclusão social, nem política.
As mulheres brasileiras, mesmo sabendo que Dilma é uma aliada, continuarão como grupo de pressão político, a fim de ajudar o Governo de Dilma a continuar com a missão do governo Lula. Contamos contigo mulher guerreira, para que possas mudar a concepção e pratica do desenvolvimento, que não seja pautado somente no econômico, um desenvolvimento ainda mais humano, mais solidário, mais articulado setorialmente, onde o econômico não massacre a natureza, onde a cultura, a educação seja privilegiada e que nenhum serviço público, seja transformado em valor mercantil, submetidos a resultados econômicos. Um verdadeiro desenvolvimento que possa reduzir ainda mais as desigualdades sociais, as discriminações de toda ordem. Com a participação ativa da cidadania política, seremos capazes de construir uma sociedade mais fraterna em que mulheres e homens se apropriem e cuidem bem desse imenso território chamado Brasil.

* Doutora em Economia
Participou do movimento feminista na França e como responsável de projetos numa agência Francesa de desenvolvimento apoiou varias organizações feministas no Brasil e América do Sul.

agosto 09, 2010

Maitê Proença volta a perder o senso


mlourenco1971 | 14 de outubro de 2009

Nota do blog: Em 2009, a atriz Maitê Proença envergonhou os brasileiros ao ofender 10 milhões de portugueses. Um caso de lusofobia explícita. Neste ano de 2010, a doidivanas resolveu desrespeitar as mulheres brasileiras ao fazer uma declaração de voto. Um caso de flagrante leviandade. A dica da informação é do jornalista Miguel do Rosário. Abaixo o comentário insultuoso proferido durante entrevista a uma "blogueira" do Estadão:

Já decidiu seu voto? O que acha das atuais opções para a Presidência da República?
Gosto da Marina e do Serra.

O feminismo já era ou a mulher ainda precisa lutar contra as discriminações da sociedade?
A mulher ainda é tratada como escrava na África, Ásia, países árabes, na maior parte do planeta. Só no ocidente houve progressos, muitos, mas ainda há discriminação. Quem sabe a própria venha a calhar nesse momento de eleições, atiçando os machos selvagens e nos salvando da Dilma?

novembro 08, 2009

Unibandalheira


Aluna que sofreu humilhação na Uniban foi expulsa. Com a palavra o prof. Sérgio Freire da UFAM.

Muito autoritarismo e pouca autoridade

Por Sérgio Freire

Discursos...A Universidade Bandeirante informou em anúncio publicado em jornais paulistas que decidiu expulsar a aluna Geisy Arruda de seu quadro discente. A estudante do curso de Turismo sofreu assédio coletivo no último dia 22 de outubro por ir ao campus de São Bernardo do Campo da faculdade com um vestido curto. O episódio ganhou repercussão na internet após vídeos do tumulto serem postados no ‘You Tube’.

Fiquei pensando sobre o caso desde quando aconteceu. Li opiniões e comentários, tanto os que criticavam a ação dos alunos assediadores quanto os que parafraseavam em suas críticas o ato dos alunos agressores e, com isso, justificavam tal ato como resultado da provocação da moça. Dá para tentar compreender o fato de vários ângulos. Entro nele pela linguagem.

Parece que as opiniões se filiam, grosso modo, a dois discursos. O primeiro seria o discurso da “moralidade sexual” e dos “bons costumes”. Geisy foi “imoral” ao usar um vestido curto, provocando os assediadores que a perseguiram, “desrespeitando os princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade”, como diz a nota da Uniban que comunica sua expulsão.

O que seria o segundo discurso se caracterizaria, em tese, pelo respeito à “liberdade de se vestir e de se portar”, do “reconhecimento ao direito das mulheres”, da revolta contra o “preconceito”, do direito à “democracia”. Segundo ele, todos têm o direito de, não vivendo na ditadura da burca, circular com bem entender. É a ideia de base.

Retirei palavras e sintagmas entre aspas dos comentários em blogs e no Twitter. Há variações, mas sempre são variações sobre esses dois temas: o da condenação da licensiosidade (a vadia mereceu!) e o da condenação do autoritarismo (alunos bárbaros!). Mudam-se as palavras, frases, comentários, piadas, mas ou se está em uma enunciação ou na outra. Qual é a sua?

Condenar a aluna pela saia curta ou condenar o ato dos alunos e agora a posição da universidade, filia o sujeito que condena a um discurso. Em sua nota, A Uniban diz que “a educação se faz com atitude e não com complacência”. Com isso, ela própria, como instituição, assina embaixo que concordou com o ato dos alunos, parafraseando de novo seu ato (dos alunos) com sua atitude (da universidade).

O que a primeira enunciação conceitua como abuso, a segunda chama de direito. O que a primeira chama de exagero, a segunda conceitua como liberalismo. O que a primeira conceitua como provocação, a segunda chama de preconceito. E vão-se infinitamente as falas diametralmente opostas porque vêm de discursos pretensamente diferentes e excludentes. Mas seriam mesmo dois discursos? Um da moralidade e um da democracia?

Todo discurso é funcionamento, prática. Discurso não é o quê se diz, mas como se diz e de onde se fala. Assim, na condenação moral à moça – leia-se moral cristã fundamentalista –, a imoralidade também se faz presente na total ignorância das regras de convivência social. E estou falando agora do comportamento instintivo dos alunos. Pensa-se assim: quando alguém passa dos limites que julgo razoável, tenho que suprimir esse alguém para resolver a desfeita. Superar a diferença é uma opção impensável. Para ficar na mesma linha de raciocínio, a título de exemplo: e se Jesus estivesse na Uniban naquela hora? Gritaria ele, como fizeram os alunos, “Pega a vadia! Liberta essa puta do cativeiro!” ou a cobriria com seu manto? Sentiu o drama?

Da mesma forma, na condenação ao ato dos alunos e da Universidade, podemos ver palavras cheias da intolerância e desrespeito à diferença. Alguns, se pudessem, pegariam os alunos e o reitor e os queimariam ou os empalariam em praça pública. Lei de talião pura. Olho por olho, dente por dente. Ou seja, fazem na prática discursiva o mesmo que condenam na retórica linguística. Não, não adianta dizer que eu sou um reacionário defendo quem quer que seja. Se você está pensando assim, lembro que é de novo seu discurso dando os sentidos para os fatos. Só estou explicitando como os sentidos se fazem pela linguagem que, como disse, é minha praia e aonde vou de sunga, gostem ou não.

O que estou dizendo é que o que parecem dois discursos, por suas expressões linguísticas e enunciações diferenciadas, são de fato o mesmo discurso: o da intolerância, da irracionalidade motivada pela condenação do pensamento diverso, o discurso do pega pra capar. Há, no entanto, um outro discurso: esse sim é diferente porque condena a intolerância em todos os níveis e preza pela superação das diferenças dentro das regras jurídicas e sociais coletivas. Ainda bem que vi isso rolando também nas opiniões. O pensamento de base é: “Se há algo nas regras da Uniban proibindo saia curta, a moça errou e deve receber a punição prevista para a regra que quebrou. Se não há, morreu a história para ela. Se os alunos agressores igualmente quebraram alguma regra social, e devem tê-lo feito pela coisa cabeluda que foi, devem ser punidos também por quem de dever, no caso a Universidade”. Tolerância com o diferente, sem esquecer o respeito às regras. Ponto.

Agora sim, minha opinião. E, claro, ela se filia a esse último discurso. Acredito na democracia, no direito de ir e vir. Acredito também que isso só se conquista no exercício da tolerância e do regramento social. Sem isso, a sociedade vira anomia, vira barbárie. O fato da agressão à moça é lamentável sob todos os aspectos, só servindo para nós pensarmos em que raio de sociedade estamos vivendo. A posição da Universidade foi infeliz. Ficou numa saia mais justa do que a da aluna, legitimando o desrespeito à diferença e sendo injusta porque justiça é tratar desigualmente os desiguais.

Se Geysi feriu alguma norma da Uniban com seus trajes, que os incomodados fossem buscar no regramento suas razões e suas consequências. Se ela fosse minha aluna, como alguém me perguntou no Twitter, daria a ela minha opinião de que assim como ninguém controla os efeitos das palavras ditas, ninguém controla reações exageradas. Há a lei da física da ação e reação, que não pode ser ignorada. Mas diria também que há a lei da sociedade democrática que diz que ações e reações devem respeitar o estado de direito.

Não limitar o comportamento antissocial da turba com a autoridade institucional é criar no juridismo (as leis práticas não escritas, mas exercitadas) um jurisprudência para que outras intolerâncias se repitam. Errou a Universidade. E feio, em minha opinião. O papel de quem regula é regular. Para lá e para cá. E deixar as regras claras, punindo quem as extrapola. Sem isso, cairemos facilmente no reino da impunidade, do moralismo fácil, da hipocrisia e da democracia retórica.

Está na hora do MEC, que é quem regula a Uniban, que não regulou direito a questão, perdendo as rédeas da situação, se posicionar. Porque autoridade não pode ser confundida com autoritarismo, que é exatamente querer mostrar autoridade sem legitimidade. E liberdade não pode ser confundida com licenciosidade, com um laissez-fair, com um tudo-pode. Ou voltaremos todos a usar tacapes e pintar gravuras rupestres nas paredes.

E sabe o que mais? Eu acho muito bonita uma mulher de saia. Por mim, está liberado.

Fonte: Sérgio Freire Weblog

novembro 07, 2009

A turba da Uniban

Lilith e o desejo
Postada em sa
grado-feminino.blogspot.com

CONTARDO CALLIGARIS

A turba da Uniban

As turbas têm um ponto em
comum: detestam a ideia de que
a mulher tenha desejo próprio

NA SEMANA passada, em São Bernardo, uma estudante de primeiro ano do curso noturno de turismo da Uniban (Universidade Bandeirante de São Paulo) foi para a faculdade pronta para encontrar seu namorado depois das aulas: estava de minivestido rosa, saltos altos, maquiagem -uniforme de balada.

O resultado foi que 700 alunos da Uniban saíram das salas de aula e se aglomeraram numa turba: xingaram, tocaram, fotografaram e filmaram a moça. Com seus celulares ligados na mão, como tochas levantadas, eles pareciam uma ralé do século 16 querendo tocar fogo numa perigosa bruxa.

A história acabou com a jovem estudante trancada na sala de sua turma, com a multidão pressionando, por porta e janelas, pedindo explicitamente que ela fosse entregue para ser estuprada. Alguns colegas, funcionários e professores conseguiram proteger a moça até a chegada da PM, que a tirou da escola sob escolta, mas não pôde evitar que sua saída fosse acompanhada pelo coro dos boçais escandindo: "Pu-ta, pu-ta, pu-ta".

Entre esses boçais, houve aqueles que explicaram o acontecido como um "justo" protesto contra a "inadequação" da roupa da colega. Difícil levá-los a sério, visto que uma boa metade deles saiu das salas de aula com seu chapéu cravado na cabeça.

Então, o que aconteceu? Para responder, demos uma volta pelos estádios de futebol ou pelas salas de estar das famílias na hora da transmissão de um jogo. Pois bem, nos estádios ou nas salas, todos (maiores ou menores) vocalizam sua opinião dos jogadores e da torcida do time adversário (assim como do árbitro, claro, sempre "vendido") de duas maneiras fundamentais: "veados" e "filhos da puta".

Esses insultos são invariavelmente escolhidos por serem, na opinião de ambas as torcidas, os que mais podem ferir os adversários. E o método da escolha é simples: a gente sempre acha que o pior insulto é o que mais nos ofenderia. Ou seja, "veados" e "filhos da puta" são os insultos que todos lançam porque são os que ninguém quer ouvir.

Cuidado: "veado", nesse caso, não significa genericamente homossexual. Tanto assim que os ditos "veados", por exemplo, são encorajados vivamente a pegar no sexo de quem os insulta ou a ficar de quatro para que possam ser "usados" por seus ofensores. "Veado", nesse insulto, está mais para "bichinha", "mulherzinha" ou, simplesmente, "mulher".

Quanto a "filho da puta", é óbvio que ninguém acredita que todas as mães da torcida adversa sejam profissionais do sexo. "Puta", nesse caso (assim como no coro da Uniban), significa mulher licenciosa, mulher que poderia (pasme!) gostar de sexo.

Os membros das torcidas e os 700 da Uniban descobrem assim um terreno comum: é o ódio do feminino -não das mulheres como gênero, mas do feminino, ou seja, da ideia de que as mulheres tenham ou possam ter um desejo próprio.

O estupro é, para essas turbas, o grande remédio: punitivo e corretivo. Como assim? Simples: uma mulher se aventura a desejar? Ela tem a impudência de "querer"? Pois vamos lhe lembrar que sexo, para ela, deve permanecer um sofrimento imposto, uma violência sofrida -nunca uma iniciativa ou um prazer.

A violência e o desprezo aplicados coletivamente pelo grupo só servem para esconder a insuficiência de cada um, se ele tivesse que responder ao desejo e às expectativas de uma parceira, em vez de lhe impor uma transa forçada.

Espero que o Ministério Público persiga os membros da turba da Uniban que incitaram ao estupro. Espero que a jovem estudante encontre um advogado que a ajude a exigir da própria Uniban (incapaz de garantir a segurança de seus alunos) todos os danos morais aos quais ela tem direito. E espero que, com isso, a Uniban se interrogue com urgência sobre como agir contra a ignorância e a vulnerabilidade aos piores efeitos grupais de 700 de seus estudantes. Uma sugestão, só para começar: que tal uma sessão de "Zorba, o Grego", com redação obrigatória no fim?

Agora, devo umas desculpas a todas as mulheres que militam ou militaram no feminismo. Ainda recentemente, pensei (e disse, numa entrevista) que, ao meu ver, o feminismo tinha chegado ao fim de sua tarefa histórica. Em particular, eu acreditava que, depois de 40 anos de luta feminista, ao menos um objetivo tivesse sido atingido: o reconhecimento pelos homens de que as mulheres (também) desejam. Pois é, os fatos provam que eu estava errado.

Fonte: F.S. Paulo
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