maio 28, 2015

"O municipalismo do Barcelona em Comum: da transição a uma institucionalidade constituinte". Por Alexandre F Mendes (UniNômade)

PICICA: "A recente vitória eleitoral da plataforma cidadã “Barcelona em Comum”, conquistando 11 conselheiros e a indicação de Ada Colau como prefeita da capital da Catalunha, pode ser analisada de diversas formas e a partir de muitos pontos de vista. Preferimos, em primeiro lugar, considerá-la não um “resultado” de lutas constituintes como o 15M, as mareas, a Plataforma dos Atingidos pelas Hipotecas (PAH) etc., mas como uma expressão e um momento importante, repleto de riscos e desafios, do atual ciclo político espanhol, europeu e também global. Longe de qualquer lógica purista que estabeleça princípios rígidos e pré-estabelecidos para a ação política, a multidão decidiu experimentar a tática eleitoral como um instrumento disponível entre outros, ofertado pela móvel caixa de ferramentas de luta contra a gestão neoliberal da crise a partir de um falido bipartidarismo.

É evidente o paralelo com a conjuntura brasileira, também sufocada por uma crise política, econômica e ambiental, gerida por um “Chicago boy” indicado pelo governo eleito através de uma falsa retórica de esquerda. Mas na Espanha, diferentemente do Brasil, o desejo de transformação virou as costas para o PSOE (correspondente do PT), ultrapassou as tendências à repetição do ativismo, e buscou um rumo próprio. A aposta é imensa: como investir no terreno vertical das instituições existentes e das disputas eleitorais, sem abrir mão da dimensão transversal, cooperativa e horizontal dos movimentos constituintes? Como inundar a caduca institucionalidade das democracias representativas ocidentais com novas instituições do comum que possam corresponder às formas de vida e de interação que já são praticadas nas cidades e metrópoles?"

O municipalismo do Barcelona em Comum: da transição a uma institucionalidade constituinte

Platataforma-Afectados-PAH-Barcelona-Secanella_EDIIMA20130215_0031_5

Por Alexandre F Mendes, UniNômade
—
O municipalismo do Barcelona em Comum: da transição a uma institucionalidade constituinte

A recente vitória eleitoral da plataforma cidadã “Barcelona em Comum”, conquistando 11 conselheiros e a indicação de Ada Colau como prefeita da capital da Catalunha, pode ser analisada de diversas formas e a partir de muitos pontos de vista. Preferimos, em primeiro lugar, considerá-la não um “resultado” de lutas constituintes como o 15M, as mareas, a Plataforma dos Atingidos pelas Hipotecas (PAH) etc., mas como uma expressão e um momento importante, repleto de riscos e desafios, do atual ciclo político espanhol, europeu e também global. Longe de qualquer lógica purista que estabeleça princípios rígidos e pré-estabelecidos para a ação política, a multidão decidiu experimentar a tática eleitoral como um instrumento disponível entre outros, ofertado pela móvel caixa de ferramentas de luta contra a gestão neoliberal da crise a partir de um falido bipartidarismo.

É evidente o paralelo com a conjuntura brasileira, também sufocada por uma crise política, econômica e ambiental, gerida por um “Chicago boy” indicado pelo governo eleito através de uma falsa retórica de esquerda. Mas na Espanha, diferentemente do Brasil, o desejo de transformação virou as costas para o PSOE (correspondente do PT), ultrapassou as tendências à repetição do ativismo, e buscou um rumo próprio. A aposta é imensa: como investir no terreno vertical das instituições existentes e das disputas eleitorais, sem abrir mão da dimensão transversal, cooperativa e horizontal dos movimentos constituintes? Como inundar a caduca institucionalidade das democracias representativas ocidentais com novas instituições do comum que possam corresponder às formas de vida e de interação que já são praticadas nas cidades e metrópoles?

Nessa linha, outra aproximação com o contexto do Brasil por ser estabelecida. Ela diz respeito às propostas de transformação democrática da cidade e de produção do urbano que emergem como agenda central do BCN em Comum, afinada com a própria biografia da Ada Colau e seu ativismo na PAH, uma rede que obteve importantes vitórias na defesa da moradia e na afirmação de um “direito à insolvência” – o direito de não pagar pela crise provocada pelas oligarquias financeiras. Da luta contra os efeitos da crise, surge o desafio de construir de um “novo municipalismo”, concebido não pela formação de cidade-pátria ou a emergência isolada de um poder local democrático, mas através da possibilidade de constituição de uma plataforma transversal cidadã compartilhada entre várias iniciativas municipalistas: uma ampla teia de institucionalidades constituintes.

A leitura da trajetória das políticas urbanas e de gestão democrática realizada pelos ativistas do Guanyem e do BCN em Comum mostra que qualquer semelhança com a nossa realidade não é mera coincidência: com a derrota do franquismo e a transição de 78, floresce uma nova base social que é responsável por candidaturas inovadoras, por conquistas em termos de infraestrutura e direitos urbanos e pela formação de instâncias de participação social na cidade. O neoliberalismo, por sua vez, penetra no interior do trajeto e reorganiza a transição política na direção de novos arranjos públicos-privados que alimentam um ciclo de especulação imobiliária, projetos urbanísticos impostos “de cima para baixo” e esvaziamento da institucionalidade participativa.

O esforço, então, é para romper com o “municipalismo de transição”, que marca o regime de 78, e inventar um “municipalismo do comum”[i], conduzido pelas mareas de várias cores que saíram na rua por uma gestão comum da saúde, da educação, do conhecimento, da água, dos bancos, dos serviços sociais e urbanos. No que se refere à participação social, a proposta é não apenas reorganizar os confusos e ineficazes conselhos temáticos e territoriais, mas garantir que os bairros desenvolvam, de forma transversal, experiências de autogestão e coprodução do urbano que serão consideradas vinculantes para a administração municipal. As propostas de radicalização democrática também contam com a adoção de uma renda mínima garantida para todos, a eliminação da precarização, a valorização da “economia do cuidado”, além da auditoria da dívida e a formação de bancos geridos democraticamente.

Poderíamos elencar outras dezenas de boas pautas que foram levantadas pela candidatura do BCN em Comum (outras nem tanto, voltadas ainda para o saudosismo da grande indústria), mas nos interessa retornar ao contexto brasileiro. A análise do nosso “municipalismo de transição” é parecida: o regime de 88 fortaleceu o município no campo financeiro e administrativo; uma nova arquitetura de participação surge, multiplicando as instâncias participativas; os movimentos sociais garantem a construção de políticas setoriais e prefeituras são conquistadas por propostas políticas inovadoras. O neoliberalismo penetra e se difunde no mesmo ritmo, trazendo o já conhecido receituário de empreendedorismo urbano e autoritário que precede a crise. O esgotamento da transição é evidente e o diagnóstico é de um “impasse” nas políticas urbanas.

Aqui vale acrescentar que o urbanismo social, responsável pela formulação crítica à esquerda desde a década de 1960, mostra-se totalmente insuficiente para percorrer o terreno do neoliberalismo de forma criativa e antagonista. Ainda presos no ideário nacional-desenvolvimentista, buscando pactos redistributivos via planejamento centralizado, boa parte dos urbanistas da transição não conseguem olhar para as novas práticas de produção do comum e para as novas formas de organização política que surgem nas redes e nas ruas. Nem ao menos o conceito latino-americano de “bem viver” penetra nas análises para buscar formas radicalmente alternativas de desenvolvimento urbano. Ainda vivemos os tempos do encontro de arquitetura do Quitandinha e o economista mais festejado é Celso Furtado.

A nostalgia de uma regulação estatal-socialista para o “caos” capitalista nos coloca ainda mais profundamente no impasse. A ineficácia dos instrumentos apresentados como aptos a promover as transformações necessárias não é fruto apenas da “correlação de forças”, mas da própria análise de quais seriam as forças existentes voltadas para a mudança democrática. Reconhecer o terreno do comum, ou de qualquer outro nome que se dê ao fenômeno, não é aderir ao pensamento de um ideário ou um filósofo específico, é investigar o campo de mutação do próprio capitalismo contemporâneo, que direciona seus mecanismos de exploração buscando apreender a vida urbana como um todo.

O deslocamento do “municipalismo de transição” para novas formas de democracia urbana, pressupõe o reconhecimento desse terreno e uma inventividade capaz de realizar um conflito a ser operado por dentro dele. Na definição tradicional do direito à cidade (tomamos como exemplo o Fórum Nacional da Reforma Urbana), uma nova interpretação das “forças” indica ao menos três inflexões:

(a) pensar o comum para além da função social da propriedade, caminhando da regulação pública-estatal para a auto-organização do espaços, recursos e serviços sociais e urbanos;

(b) pensar a participação social como coprodução e ocupação do urbano, para além do ideário cívico/deliberativo e da delegação e representação nas instâncias participativas. Reconstruir a experiência da participação a partir das novas práticas de encontro, comunicação e organização da decisão;

(c) pensar as lutas da cidade/metrópole e as novas plataformas de mobilização, transversais e em rede, para além da forma-movimento e da forma-partido tradicionais.

Como no 15M espanhol, o desejo de realizar estas mudanças estavam presentes em junho de 2013 (do ponto de vista da conservação, talvez resida nesse desejo o grande “pecado” das jornadas). Como era possível antever, a participação do governo federal e de boa parte do PT na destruição do movimento de junho de 2013 conduziu o cenário para uma situação de aporia infinita e total estupor. Em plena crise e ajuste neoliberal, os movimentos não conseguem dar passos nem destituintes (“fora Dilma, fora todos”), nem constituintes (“sim, nós podemos”).

Se na Espanha, o 15M começa a derrotar o falacioso bipartidarismo do regime de 78 (PP vs PSOE, com o fundo monárquico), aqui, junho de 2013 continua derrotado pelo regime político pós-88 (PT vs PSDB, com o fundo pemedebista). E a pior perda é a subjetiva. O imaginário produzido permanece aquele da campanha eleitoral: “é preciso defender o menos pior” – como se onda conservadora não representasse o efeito imediato da própria derrota de junho.

A vitória do BCN em Comum é compartilhada por muitos ativistas brasileiros porque aponta concretamente para um deslocamento (mesmo que provisório) realizado do campo do medo para a esperança, da aporia para outros caminhos possíveis, do híbrido desenvolvimentismo/neoliberalismo para as políticas do comum, do “municipalismo de transição” para o renovação de um municipalismo baseado na capacidade de irradiação transversal, de cooperação em rede e de uma interdependência desde baixo que pode gerar efeitos massivos e potentes na luta contra a gestão neoliberal da crise.

As experiências de uma Barcelona-em-comum parecem, portanto, bem distintas daquelas repisadas lições de “renovação” alavancadas pela Barcelona-Olímpica. Enquanto a última é importada como modelo para uma modernização baseada num novo regime de acumulação, a primeira pode ser digerida antropofagicamente para alimentar a nossa imaginação política. Ela nos indica que é possível buscarmos institucionalidades constituintes de novo tipo, que permitam a abertura de novos espaços democráticos no interior da crise para além do engodo bipartidarista. Ao grande “não” restaurador que interdita as tentativas de ultrapassarmos o abismo da miséria política, ela contrapõe um sonoro “sim”.

Sim, em comum, todos nós podemos.
Alexandre Fabiano Mendes é professor de direito da UERJ, participa da rede Universidade Nômade e dos Círculos de cidadania – Rio de Janeiro.

—

Nota

i Cf. https://guanyembarcelona.cat/es/press/por-un-municipalismo-ciudadano-de-ruptura-y-constituyente-para-las-elecciones-de-mayo-de-2015/. Acesso em 26 de maio de 2015

Fonte: UniNômade

"Boaventura, de Atenas: Syriza e Podemos em xeque". Por Boaventura de Sousa Santos (OUTRAS PALAVRAS)

PICICA: "Como os “grandes poderes” europeus movem-se, em silêncio, para sufocar partidos que questionam aristocracia financeira. Por que solidariedade tornou-se indispensável"

Boaventura, de Atenas: Syriza e Podemos em xeque


Medieval Torture Painting; Medieval Torture Art Print for sale

Como os “grandes poderes” europeus movem-se, em silêncio, para sufocar partidos que questionam aristocracia financeira. Por que solidariedade tornou-se indispensável

Por Boaventura de Sousa Santos

Escrevo de Atenas, onde me encontro a convite do Instituto Nicos Poulantzas para discutir os problemas e desafios que enfrentam os países do sul da Europa e as possíveis aprendizagens que se podem recolher de experiências inovadoras tanto na Europa como noutras regiões do mundo. Convergimos em que o que se vai passar nos próximos dias ou semanas nas negociações da Grécia com as instituições europeias e o FMI serão decisivas, não só para o povo grego, como para os povos do sul da Europa e para a Europa no seu conjunto.

O que está em causa? Defender a dignidade e o mínimo bem-estar de um povo vítima de uma enorme injustiça histórica e de políticas de austeridade (para além do mais, mal calibradas) que espalharam morte e devastação social (bem visíveis nas ruas e nas casas) sem sequer atingir nenhum dos objetivos com que se procuraram legitimar. Não admira que o primeiro ponto do programa de Salónica do Syriza seja o alívio imediato da grave crise humanitária. Com um envolvimento militante que há muito desapareceu dos cinzentos políticos europeus, a vice-ministra para a solidariedade social, Theano Fotiou, fala-me do modo como está a ser organizado o resgate dos que caíram em pobreza extrema (programas de alimentação, eletricidade e tratamento médico gratuitos), não deixando de salientar a cooperação, de algum modo surpreendente, que tem tido dos bancos gregos para gerir o sistema de pagamentos. Para além das políticas de emergência, o programa do Syriza, tal como o de Podemos na Espanha, é um programa social-democrático moderado. Esta é a grande ironia da Europa: os sociais-democratas de ontem são os liberais de hoje; os revolucionários de ontem são os sociais-democratas de hoje. As principais linhas vermelhas que Syriza não pode deixar cruzar referem-se à redução das pensões e ao fim da contratação coletiva. Trata-se dos dois pilares principais da social-democracia europeia. Ao defendê-los, o Syriza está a defender o que há de mais luminoso no patrimônio político, social e cultural da Europa do último meio século. É uma defesa corajosa no processo de negociação mais assimétrico e desigual da história europeia (e talvez mundial) recente. Uma defesa que só não será solitária se puder contar com a solidariedade ativa dos cidadãos europeus para quem o pântano da resignação não é opção.


O que vem aí? Costumo dizer que os sociólogos são bons em prever o passado. Mas não é difícil ver nos sinais disponíveis mais razões para pessimismo do que para otimismo. Surpreendentemente, um desses sinais mais perturbadores para os gregos é o programa econômico recentemente apresentado pelo PS português. A radicalidade conservadora de algumas propostas, sobretudo no domínio das relações laborais e das pensões (mais conservadoras do que as do partido socialista espanhol e muito semelhantes às do novo partido conservador espanhol, Ciudadanos), leva a considerar que ele foi elaborado com inside knowledge, isto é, com conhecimento prévio e privilegiado das decisões, por enquanto secretas, que os “grandes decisores” europeus já tomaram em relação à Grécia e aos países do sul da Europa. Tanto no domínio das pensões (erosão das condições de sustentabilidade para justificar futuras reduções) como no das relações laborais (erosão fatal da contratação coletiva), o PS propõe-se uma política que viola as duas linhas vermelhas principais do Syriza e, que, aplicada entre nós, porá fim à mitigada social-democracia que conquistamos nos últimos quarenta anos. Pré-anúncio de que o Syriza vai ser trucidado para servir da vacina contra o que pode ocorrer na Espanha, na Irlanda, em Portugal e mesmo na Itália? Não sabemos, mas é legítimo ter uma suspeita e uma certeza. A suspeita é que os “grandes decisores” visam atingir o coração do Syriza, fazendo com que parte dos seus apoiantes (sobretudo os que não dependem de ajuda humanitária) o abandonem, eventualmente com a promessa ardilosa de que sem o Syriza poderão obter mais benesses europeias do que com ele. A certeza é que, com a derrota do Syriza, os partidos socialistas que em tempos optaram pela terceira via saberão em breve que esta via é em verdade um beco sem saída.

Boaventura de Sousa Santos


Boaventura de Sousa Santos é doutor em sociologia do direito pela Universidade de Yale, professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, diretor dos Centro de Estudos Sociais e do Centro de Documentação 25 de Abril, e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa - todos da Universidade de Coimbra. Sua trajetória recente é marcada pela proximidade com os movimentos organizadores e participantes do Fórum Social Mundial e pela participação na coordenação de uma obra coletiva de pesquisa denominada Reinventar a Emancipação Social: Para Novos Manifestos.

"Uma empresa, dois jornais. Um abismo". Por Sylvia Debossan Moretzsohn (OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA)

PICICA: "Quem pensa que os jornais produzidos por uma mesma empresa falam sempre a mesma língua, diferindo apenas na linguagem adotada de acordo com o seu “público-alvo”, teve uma surpresa diante do abismo entre O Globo e o Extra na cobertura do assassinato do médico Jaime Gold, que pedalava pela Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos cartões postais do Rio, no início da noite de terça-feira (19/5). Sobretudo porque, no mesmo dia, dois jovens – um adolescente de 13 e um rapaz de 24 – foram assassinados durante uma operação da Polícia Civil no morro do Dendê, na Ilha do Governador. O médico morreria na madrugada seguinte, depois de horas na mesa de cirurgia.

Na quinta-feira (21/5), O Globo destacava na primeira página o “crime na Lagoa” e a “tragédia anunciada”, dedicando-lhe nada menos do que cinco páginas internas. A suíte das mortes no Dendê mereceram apenas duas colunas espremidas no meio de outra página interna, ainda assim assinadas – como na véspera – por um repórter do Extra.

No mesmo dia, o Extra fez bem diferente: expôs no alto da primeira página o “crime bárbaro na Lagoa”, mas destacou o apelo: “Só não se esqueçam de Gilson e Wanderson”, os dois rapazes mortos. Logo abaixo, justificou: “Como em qualquer lugar do mundo, crimes em pontos turísticos têm maior repercussão. Mas, no Dendê, mães choram mortes de seus filhos em ação da polícia e esperam que caso não caia no esquecimento”. A justificativa servia também para descartar, de maneira sucinta e didática, a eterna discussão sobre o valor da vida – e, consequentemente, da morte – conforme a região geográfica e o status social."


IMPRENSA EM QUESTãO > ‘O GLOBO’ & ‘EXTRA’

Uma empresa, dois jornais. Um abismo

Por Sylvia Debossan Moretzsohn em 26/05/2015 na edição 852
Quem pensa que os jornais produzidos por uma mesma empresa falam sempre a mesma língua, diferindo apenas na linguagem adotada de acordo com o seu “público-alvo”, teve uma surpresa diante do abismo entre O Globo e o Extra na cobertura do assassinato do médico Jaime Gold, que pedalava pela Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos cartões postais do Rio, no início da noite de terça-feira (19/5). Sobretudo porque, no mesmo dia, dois jovens – um adolescente de 13 e um rapaz de 24 – foram assassinados durante uma operação da Polícia Civil no morro do Dendê, na Ilha do Governador. O médico morreria na madrugada seguinte, depois de horas na mesa de cirurgia.

Na quinta-feira (21/5), O Globo destacava na primeira página o “crime na Lagoa” e a “tragédia anunciada”, dedicando-lhe nada menos do que cinco páginas internas. A suíte das mortes no Dendê mereceram apenas duas colunas espremidas no meio de outra página interna, ainda assim assinadas – como na véspera – por um repórter do Extra.

No mesmo dia, o Extra fez bem diferente: expôs no alto da primeira página o “crime bárbaro na Lagoa”, mas destacou o apelo: “Só não se esqueçam de Gilson e Wanderson”, os dois rapazes mortos. Logo abaixo, justificou: “Como em qualquer lugar do mundo, crimes em pontos turísticos têm maior repercussão. Mas, no Dendê, mães choram mortes de seus filhos em ação da polícia e esperam que caso não caia no esquecimento”. A justificativa servia também para descartar, de maneira sucinta e didática, a eterna discussão sobre o valor da vida – e, consequentemente, da morte – conforme a região geográfica e o status social.

capas_jornais

No dia seguinte, o abismo continuou: enquanto O Globo anunciava a prisão de um adolescente suspeito de matar o médico, enfatizava a sua ficha corrida (“16 anos e 15 crimes”), retomava, em editorial, a carga a favor da redução da maioridade penal e publicava uma charge que chegava ao cúmulo de comparar os ciclistas na Lagoa aos prisioneiros do Estado Islâmico, o Extra escancarava a manchete: “Sem família, sem escola”, apontando as “duas tragédias antes da tragédia”. O texto-legenda abaixo da foto, que ocupa metade da página e mostra o garoto conduzido por policiais, fala das 15 passagens pela polícia, da ausência do pai, da mãe, catadora de latas, indiciada por deixar o filho com fome na rua, e do abandono da escola.

Curiosamente, a reportagem do Globo ia no mesmo sentido de apontar a trajetória de transformação “da criança pobre em suspeito de um brutal assassinato”, mas a edição sugeria o contrário: parecia que a “escalada da crueldade” destacada na manchete da página interna dizia respeito à escolha do rapaz pelo mundo do crime.

capas_jornais1
No sábado (23/5), o Extra voltava a destacar na primeira página o caso da “tragédia antes da tragédia”, para tratar da situação da escola onde o rapaz estudava. Logo abaixo, noticiava o corte de verbas para a educação. No dia seguinte, sem o mesmo destaque, mostrava que 95% dos jovens infratores não haviam completado o ensino fundamental e citava o crescimento do número de apreendidos: 8.380 durante o ano passado, segundo o Instituto de Segurança Pública, “uma média de 23 por dia”. Um índice que tende a crescer: se “nos quatro primeiros meses do ano passado, 2.445 menores foram detidos, neste ano o número chega a 3.141 – um aumento de 28%”.

capas_jornais2
Enquanto isso, no mesmo dia, O Globo recorria a “especialistas” para tentar traçar o perfil psicológico desse tipo de criminoso e destacava a fala de uma psicóloga sobre a “impunidade”, ignorando os números divulgados pelo Extra. No dia seguinte (segunda, 25/5), destacava mais um ataque com faca – uma tentativa de assalto num ônibus –, o oitavo em oito dias, como se vivêssemos uma onda desse tipo de crime, e voltava a incentivar a aprovação do projeto de lei que criminaliza o uso de armas brancas, como se fosse uma medida simples: bastaria pensar em quantas pessoas utilizam facas em situações banais do cotidiano – o vendedor de coco verde, o sujeito que promove um churrasco numa praça –, a não ser que a ideia seja também criminalizar essas atividades.

Já o Extra voltava a investir no selo “A tragédia antes da tragédia” e recuperava a história do menino franzino detido com um colega após roubar um cordão de ouro, em março, e fotografado de costas por um policial, numa delegacia. Dois meses depois, continua fora da escola, cometendo pequenos delitos pelas ruas.

Desagradar o público

Mantive neste artigo o título de minha primeira publicação no Facebook a respeito desse tema por causa do debate que se seguiu: muitos elogiavam a atitude do Extra mas muitos também faziam pouco caso dela, seja porque enxergavam ali algum objetivo oculto – afinal, trata-se de um jornal “da Globo” –, seja porque entendiam que cada publicação se dirigia a seu público, e por isso seria perfeitamente natural a diferença de enfoque.

Sobre a teoria conspiratória, não vale a pena argumentar, inclusive porque é inútil enfrentar convicções, embora sempre valha a pena dizer que as intenções importam muito menos do que o resultado. Mas é necessário desfazer a lógica do outro raciocínio, por dois motivos fundamentais: primeiro, porque um jornal precisa fazer jornalismo, e isso significa frequentemente desagradar o seu público. Se um jornal diz apenas o que seu público quer ouvir, ele o aliena: é preciso apresentar-lhe as contradições da sociedade e não alimentar a ilusão de que é possível viver numa bolha, de que os malfeitores são uma espécie alienígena que vem atacar os cidadãos “de bem” e que basta trancafiá-los – ou exterminá-los – para passarmos a desfrutar de um mundo harmonioso como o de um anúncio de margarina.

Segundo, porque uma olhada nos comentários no site e, principalmente – dado o volume incomensuravelmente maior –, na página do jornal no Facebook seria suficiente para verificar que, se um jornal deve responder às expectativas de seu público, o Extra fez exatamente o contrário. É o que dá o nó nesse raciocínio canônico. Mercadologicamente, seria uma insensatez. Mas, jornalisticamente, era o que precisava ser feito.

A propósito, a entrevista com o diretor de redação do jornal, Octavio Guedes, publicada neste Observatório (ver “‘Jornalismo não é concurso de Miss Simpatia’”), ajuda a esclarecer vários pontos dessa polêmica. Afinal, não é de hoje que o Extra se comporta assim. A perseverar nessa linha, dará uma excelente contribuição para o jornalismo, mas terá embates diários tanto com uma parcela significativa de seu público quanto com a crítica externa, que também recusa a hipótese de discutir questões sociais diante de crimes bárbaros. (Esses, a propósito, devem ter ficado satisfeitos com a reação das nossas autoridades: o prefeito a dizer que “criança, menor, praticando crime é problema de polícia”, num brilhante retorno aos tempos da República Velha, e o secretário de Segurança a afirmar que é inadmissível uma situação dessas num lugar como a Lagoa Rodrigo de Freitas, o que, de tão simplório, dispensa comentários).

Desarmar o ódio de classe

O que o Extra fez foi tentar demonstrar que nada é “simples assim”, como tantos gostam de pensar para se livrar rapidamente de qualquer ameaça de questionamento às suas próprias certezas. Foi tentar lançar luz para além do imediatamente visível e chamar a atenção para a necessidade de compreender como se cultiva a exclusão que, muito previsivelmente, explode em violência. Nem sempre, é claro, porque não há relação automática de causa e efeito: mas justamente por isso é preciso entender que as reações humanas são variadas e, muitas vezes, surpreendentes. Sobretudo na adolescência, sabidamente uma fase extremamente turbulenta para qualquer um.

Daí, aliás, o equívoco do raciocínio no qual a pessoa se toma como referência para o comportamento alheio, no melhor estilo do líder que não pede a seus comandados nada que ele mesmo não seja capaz de fazer, como se todos estivessem em pé de igualdade: “Se eu passei por dificuldades e não roubei nem matei, por que alguém faria isso?”

Seria possível indagar, como fez há muito tempo a juíza Maria Lúcia Karam, “por que os indivíduos despojados de seus direitos básicos, como ocorre com a maioria da população de nosso país, estariam obrigados a respeitar as leis”. Ou lembrar da observação da socióloga Vera Malaguti Batista, também há muito tempo, a respeito da surpresa diante da crueldade de casos como o do ataque na Lagoa: “Por que achar que ‘eles’ se importam conosco? ‘Nós’ não nos importamos com ‘eles’”.

Entender as raízes do ódio de classe – o ódio, não a luta, necessária e incontornável em qualquer sociedade de classes, e que se expressa nas mais variadas formas – é o primeiro passo para desarmá-lo. Por que, então, a rejeição ao debate? Por que confundir a atitude do jornal com uma tentativa de defender, justificar ou vitimizar o agressor?

O outro lado, e mais outro

Entretanto, ao falar nas “duas tragédias antes da tragédia”, o Extra acaba assumindo, implicitamente, que o adolescente detido é de fato culpado: afinal, teria sido ele a provocar a tragédia da morte do médico. Pode ser, mas não há nada mais comum, na rotina policial, do que pegar o primeiro suspeito, ainda mais se tem uma ficha recheada, para exibi-lo e dar uma satisfação rápida ao público, em crimes de grande repercussão. Também as informações sobre a mãe do rapaz, que o teria negligenciado, aparentemente não procedem. O que não retira a força da denúncia sobre a ausência de apoio familiar – afinal uma mulher que sustenta sozinha quatro filhos como catadora de recicláveis enfrenta dificuldades inimagináveis para quem jamais viveu essa situação –, mas altera o julgamento que se pode fazer dessa mãe.

Reportagem da Agência Brasil (24/5, ver aqui) dá essa outra versão, ao finalmente entrevistar Jane Maria da Silva e apresentá-la como uma ativista do Fórum Social de Manguinhos, no dia de lançamento da cartilha “Manguinhos tem fome de direitos”. Um vídeo compartilhado no Facebook, realizado em setembro do ano passado, mostra a participação dela num encontro promovido regularmente pelo pessoal da Fiocruz – no caso específico, para tratar do impacto das obras do PAC na saúde dos moradores, e o que se diz ali, em menos de 20 minutos, sintetiza a enormidade dos problemas a se enfrentar: como tantas carências se conectam, num manancial de pautas que poderia e deveria alimentar a imprensa sensível às questões sociais.

A intervenção de Jane está na altura do décimo minuto do vídeo. É evidentemente a pessoa mais cansada, mais abatida, com mais dificuldade de se expressar, em comparação com a fluência das demais moradoras. Vista hoje, a intervenção dela ganha outro sentido: só agora, diante da prisão de um dos seus filhos, é que podemos entender o peso de sua preocupação com a falta de oportunidade de estudo, trabalho e lazer para os jovens infratores. Porque sofria isso na pele, seu filho era um deles.

De quem é a culpa?

Mas ainda que não fosse assim. Ainda que essa mulher fosse como a mãe do menino Y., de 12 anos, que o Extra levou agora novamente para a primeira página (ver aqui), o menino apreendido há dois meses, que conseguiu se safar de ser encaminhado para um abrigo porque enganou as autoridades dizendo que tinha 6 anos, e convenceu, de tão franzino que era.

Vejamos este trecho da reportagem:

“No dia em que foi detido – e, segundo ele, agredido pelos PMs –, foi liberado após sua mãe ir buscá-lo na delegacia. Dependente química, a mulher, de 26 anos, tem outros dois filhos e acabou de voltar à favela depois da quarta internação em clínicas de reabilitação. O pai de Y. morreu, vítima de tuberculose, há dez anos. Encontrar o menino na casa onde moram seus irmãos, sua mãe e seu avô, um pedreiro de 55 anos, é improvável: às vezes dorme numa quadra de futebol no alto do morro ou nas ruas, outras – como ontem – só chega em casa às 6h, depois de voltar “chapado” do baile funk da favela”.

Pensemos então em como as coisas se reproduzem. Recordemos o quase-monólogo de Anna Magani em Mamma Roma, de Pier Paolo Pasolini:

Sabe por que meu marido, o pai de Ettore, era um canalha? Porque a mãe era agiota e o pai, ladrão.
E por que a mãe era agiota e o pai, ladrão?
Porque o pai da mãe era um carrasco e a mãe da mãe uma mendiga. A mãe do pai, uma cafetina e o pai do pai, um dedo-duro.
Todos miseráveis, eis por quê! Se fossem ricos, seriam pessoas de bem.
E então, de quem é a culpa?

Pasolini tocava como poucos o cerne das questões, com imagens despojadas e eloquentes: Roma, a cidade brilhante lá no fundo, e em primeiro plano a aridez da periferia, os prédios degradados, os campos de terra em que a adolescência desgarrada do pós-guerra jogava bola, fumava, se drogava e se perdia. Também como no iraniano Filhos do paraíso: a tentativa de manter a dignidade na mais absoluta carência, as casas pobres e o pequeno comércio, como se aquela fosse a imagem de Teerã, e de repente o pai resolve buscar trabalho como jardineiro e leva o filho na garupa da bicicleta e começa a pedalar pelo centro de edifícios luminosos de vidro e pelas zonas residenciais de ruas arborizadas e mansões exuberantes. Uma beleza que se torna opressiva pelo contraste com a vida em que tudo é falta.

“Até quando?”, perguntamos, chocados com a morte estúpida na Lagoa. Sim: até quando esse abismo?

***

Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)

Fonte: Observatório da Imprensa

maio 27, 2015

"Mad Max, na estrada entre o épico e o pop". POR José Geraldo Couto (Blog do IMS)

PICICA: "Mad Max – a saga toda, iniciada em 1979 – é o lugar onde se encontram o épico e o pop. Inúmeros outros filmes das últimas décadas têm buscado esse encontro, mas talvez nenhum tenha conseguido uma síntese tão potente. Ao figurar seu mundo árido, pós-apocalíptico, George Miller tocou num nervo central de nossa época. Esse nervo segue exposto, vivo, como comprova Mad Max: Estrada da fúria, o quarto e extemporâneo exemplar da série."
(...)
"Mudando radicalmente de assunto, cabe chamar a atenção para Permanência, do pernambucano Leonardo Lacca, que entra em cartaz nesta quinta (28 de maio). Tomara que o título seja um prenúncio de sua presença no circuito, pois é um belíssimo filme, não por acaso vencedor do recente Cine PE"

Mad Max, na estrada entre o épico e o pop

POR José Geraldo Couto José Geraldo Couto: no cinema | 26.05.2015


Mad Max – a saga toda, iniciada em 1979 – é o lugar onde se encontram o épico e o pop. Inúmeros outros filmes das últimas décadas têm buscado esse encontro, mas talvez nenhum tenha conseguido uma síntese tão potente. Ao figurar seu mundo árido, pós-apocalíptico, George Miller tocou num nervo central de nossa época. Esse nervo segue exposto, vivo, como comprova Mad Max: Estrada da fúria, o quarto e extemporâneo exemplar da série.


Nesta retomada, não se trata, como alguns afoitos disseram, de requentar uma boa história, muito menos de diluí-la, mas de afirmar sua atualidade. Na verdade, em face dos rumos que o planeta tem tomado, o pesadelo compartilhado por Miller parece cada vez mais próximo, real, ameaçador – especialmente no que diz respeito à escassez de água, mas também no fracionamento da humanidade em tribos hostis e irreconciliáveis.

Mas vamos ao filme. Falou-se muito do papel protagonista conferido à mulher – no caso, a imperatriz guerreira Furiosa (Charlize Theron) – neste novo filme, em que ela divide o comando das ações com o próprio Max (Tom Hardy). Mas heroínas virilizadas, “machas”, não são propriamente uma novidade no cinema contemporâneo. Não é preciso fazer aqui uma lista. Da cosmonauta Ripley, de Alien, às ninjas de Kill Bill, passando por Sonja e Lara Croft, as telas estão repletas delas.

Matriarcado redentor

A novidade, aqui, seria então a preponderância das mulheres, seu duplo papel de reprodutoras (as “parideiras” do tirano Immortan Joe) e de guerreiras que podem salvar o mundo. O esboço de um matriarcado como redenção de uma humanidade devastada.


Charlize Theron e o grupo de mulheres que protagonizam Max Max
Algumas feministas exultaram ao ver as mulheres conquistarem um poder antes reservado aos homens, outras incomodaram-se por essa conquista ter sido feita ao preço de um embrutecimento extremo. De fato é um tanto chocante, ao menos para um homem de formação antiquada como eu, ver moças angelicais e velhinhas encantadoras saírem disparando bazucas e cortando cabeças. Mas, de algum modo, as mulheres de Mad Max conseguem endurecer sem perder a ternura.

Houve quem relativizasse o protagonismo feminino no filme lembrando que, na hora H, é o herói que salva a mocinha, mas o que é belo, a meu ver, é justamente essa troca constante de papéis entre quem salva e quem é salvo, essa transfusão (literal, como sabe quem assistiu) de energia e afeto.

Tecnologia sob controle

No aspecto da construção visual, destacou-se a circunstância de que Estrada da fúria tem mais de 90% de filmagens reais (ou seja, com recursos estritamente fotográficos, de encenação e montagem) e o restante de CGI (imagens geradas por computador), invertendo a proporção mais frequente nos filmes de ação e fantasia atuais. Não domino esse assunto, mas de fato me incomodam a paisagem natural sintetizada digitalmente e os efeitos de videogame de tantas produções recentes.

No novo Mad Max, esses prodígios tecnológicos estão presentes, claro (afinal, Charlize Theron não amputou meio braço para fazer o filme), mas sob controle. O que impera é um sentido apurado do ritmo e da composição do quadro, em que a grandiosidade e a diversão equilibram-se no mais das vezes de forma admirável, numa orquestração de supercloses e planos extremamente abertos que tem a ver com a tradição do western, dos épicos bíblicos e das histórias em quadrinhos.

É cinema robusto e vigoroso, enfim, que só superficialmente tem a ver com a avalanche de produções ruidosas, descerebradas e descartáveis que infestam as telas do mundo. Para o meu gosto pessoal, poderiam ser abreviadas as sequências de perseguição e combate no deserto, com seu crescendo de explosões, labaredas e decibéis. A partir de um certo momento, essas coisas, em vez de empolgar e emocionar, têm um efeito entorpecente, para não dizer entediante.

Sucata e reciclagem

Mas talvez esse seja um tributo que George Miller tem de pagar à sensibilidade juvenil de nossa época. Nada que anule o vigor do todo e alguns méritos especiais, como a utilização dramática da geografia física (a imensidão plana do deserto, o penhasco que jorra água, os desfiladeiros que se fecham, as tempestades de areia e raios), o aperfeiçoamento da ideia de seres e objetos híbridos (homens-próteses, répteis mutantes, caminhões feitos de partes de automóveis, caminhonetes que lembram bigas romanas, carros que parecem ouriços), além de achados pontuais: a imensa engrenagem oculta na rocha para bombear água, a guitarra que lança chamas etc.

Um conceito-chave parece guiar o conjunto, o de um mundo pós-tudo, feito de sucata e reciclagem – não só de materiais, mas também de técnicas, culturas, crenças e fantasias humanas. O próprio filme é isso, para o bem e para o mal, incorporando sua proposta estética e política em sua própria forma e em seu modo de produção. Tudo isso sem se levar a sério demais, isto é, sem perder a ligeireza e o humor de uma obra de entretenimento.

Permanência: Recife em São Paulo

Mudando radicalmente de assunto, cabe chamar a atenção para Permanência, do pernambucano Leonardo Lacca, que entra em cartaz nesta quinta (28 de maio). Tomara que o título seja um prenúncio de sua presença no circuito, pois é um belíssimo filme, não por acaso vencedor do recente Cine PE.


Conta-se ali, na superfície, uma história simples: Ivo (Irandhir Santos, excelente como sempre), um fotógrafo de Recife, passa alguns dias em São Paulo para acompanhar a exposição de suas obras numa galeria. Hospeda-se no apartamento da ex-namorada (Rita Carelli, também premiada no Cine PE), hoje casada com um arquiteto (Silvio Restiffe).

Acompanhamos o tempo todo esse pernambucano tímido e deslocado, que dorme num home theatre improvisado em quarto, perambula pelas ruas, compra um casaco para enfrentar o frio paulistano, namorica uma moça que trabalha na galeria (Laila Paes, outra premiada em Recife), vai a festas em que não conhece ninguém – e toma cafés, muitos cafés. Um bom modo de ver o filme é atentar para os cafés: o modo como são feitos, os locais, os circunstantes, as conversas ao redor da xícara.

Nesses diálogos balbuciados e aparentemente banais, nas hesitações e silêncios dos personagens, esboça-se todo um mundo de relações afetivas, sociais, culturais. O eixo dramático, como o título sugere, é o que fica dos sentimentos e o que desaparece ou muda de natureza. Mas em torno dessa linha central há uma observação arguta dos descompassos geográficos e culturais. A todo momento Ivo é confrontado com a imagem que os paulistanos têm de sua cidade. Recife está presente pela ausência. Há até uma piada discreta e significativa. Quando alguém pergunta a Ivo “como vai aquela cidade maravilhosa”, ele responde com ironia: “O Rio de Janeiro?”

Mais que os diálogos, porém, importa a construção sutil do relato. Já começa bem: Ivo toca o interfone no prédio da ex-namorada, esta o manda subir e pergunta se ele não tem mais problemas com elevadores. Ele diz que não, mas manda a bagagem pelo elevador e sobe correndo pelas escadas, na esperança de chegar à casa da amiga sem que esta perceba sua pequena covardia. Não dá certo, claro, o que equivale a já começar o filme pegando o protagonista no contrapé, humanizando-o de forma indelével. O melhor é que tudo isso é mostrado de dentro do elevador vazio, onde ficou a câmera. Isso é cinema.


José Geraldo Couto
José Geraldo Couto é crítico de cinema, jornalista e tradutor. Trabalhou durante mais de vinte anos na Folha de S. Paulo e três na revista Set. Publicou, entre outros livros, André Breton (Brasiliense), Brasil: Anos 60 (Ática) e Futebol brasileiro hoje (Publifolha). Participou com artigos e ensaios dos livros O cinema dos anos 80 (Brasiliense), Folha conta 100 anos de cinema (Imago) e Os filmes que sonhamos (Lume), entre outros. Escreve regularmente sobre cinema para a revista Carta Capital.

Fonte: Blog do IMS

‘Jornalismo não é concurso de Miss Simpatia’. Por Sylvia Debossan Moretzsohn (OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA)

PICICA: "A orientação editorial do jornal carioca Extra na cobertura do assassinato do médico Jaime Gold, na Lagoa Rodrigo de Freitas, provocou muita polêmica na internet. Ao abrir espaço para relatar a história de pobreza e carência do adolescente suspeito do crime, o jornal foi acusado de defender um bandido e de tentar justificar aquele ato de brutalidade extrema. Outros exaltaram a escolha e mesmo se admiraram de ver um veículo do Grupo Globo agir daquela forma. Outros, ainda, a consideraram uma estratégia de marketing pensada para um público segmentado, o que aparentemente não faria qualquer sentido, já que a maioria dos leitores manifestou pesadas críticas ao jornal nesse episódio.

Nesta entrevista, o diretor de Redação Octavio Guedes, que exerce o cargo há seis anos e está no Extra desde a sua fundação, em abril de 1998, fala sobre a decisão de enfrentar o senso comum em nome da linha considerada mais justa e sobre o propósito de fazer um jornalismo popular “sem apelação, sem idiotizar a audiência”."


IMPRENSA EM QUESTãO > ENTREVISTA / OCTAVIO GUEDES

‘Jornalismo não é concurso de Miss Simpatia’

Por Sylvia Debossan Moretzsohn em 26/05/2015 na edição 852

A orientação editorial do jornal carioca Extra na cobertura do assassinato do médico Jaime Gold, na Lagoa Rodrigo de Freitas, provocou muita polêmica na internet. Ao abrir espaço para relatar a história de pobreza e carência do adolescente suspeito do crime, o jornal foi acusado de defender um bandido e de tentar justificar aquele ato de brutalidade extrema. Outros exaltaram a escolha e mesmo se admiraram de ver um veículo do Grupo Globo agir daquela forma. Outros, ainda, a consideraram uma estratégia de marketing pensada para um público segmentado, o que aparentemente não faria qualquer sentido, já que a maioria dos leitores manifestou pesadas críticas ao jornal nesse episódio.

Nesta entrevista, o diretor de Redação Octavio Guedes, que exerce o cargo há seis anos e está no Extra desde a sua fundação, em abril de 1998, fala sobre a decisão de enfrentar o senso comum em nome da linha considerada mais justa e sobre o propósito de fazer um jornalismo popular “sem apelação, sem idiotizar a audiência”.

No caso do assassinato do médico na Lagoa, a cobertura do Extra foi absolutamente distinta da do Globo. Como é possível investir nesse enfoque, se os dois jornais são da mesma empresa?

Octavio Guedes – Nossos “Princípios Editoriais” deixam claro: “As redações do Grupo Globo são absolutamente independentes entre si”. Cabe a mim, portanto, garantir essa liberdade à redação. Ao apurar, escrever ou editar uma reportagem para o Extra nossos jornalistas não se preocupam com o enfoque que o Globo dará ao assunto. Isso evita a pasteurização do noticiário e garante a diversidade de visões. O Extra se preocupa com o Extra. Apostamos num jornalismo popular sem apelação, sem idiotizar a audiência e com enfoque em dois temas: educação pública de qualidade e garantia dos direitos humanos. Não há liberdade de imprensa sem liberdade na empresa, sem liberdade para repórteres e editores.

Como é a relação com os leitores, em casos assim? Li os comentários no Facebook sobre a primeira página da edição que trata da trajetória do suspeito do assassinato do médico. As críticas foram pesadíssimas, como era previsível, e repetem os chavões de sempre sobre a criminalidade. Costuma-se dizer que os jornais tendem a atender/agradar o seu público, e no caso vocês contrariaram. Imagino que em outras vezes tenha ocorrido o mesmo. Como é possível realizar esse enfrentamento? 

O.G. – Jornalismo não é concurso de Miss Simpatia. O dever de informar é mais importante do que o de agradar a audiência. Vou citar um caso histórico que nem de perto tem paralelo com as circunstâncias que estamos discutindo. É um exagero que serve apenas para ilustrar. Há um livro muito interessante sobre o Münchener Post [A cozinha venenosa: um jornal contra Hitler, de Silvia Bittencourt, Editora. Três Estrelas], o primeiro jornal do mundo a noticiar a existência de Hitler. Na década de 1920, o diário já alertava sobre as ideias antissemitas pregadas nas cervejarias de Munique por um “rapaz de bigode curto e fala inflamada”. Fiquei imaginando como seria o Facebook do Münchener Post durante a ascensão do nazismo na Alemanha. O diretor de redação ia ser linchado diariamente nos comentários. E qual a posição correta do ponto de vista jornalístico? Recuar e mudar a linha editorial para ganhar “curtidas” e aumentar as vendas ou insistir nas denúncias contra o nazismo?

Isso não significa ignorar as críticas do público. É preciso ouvir sempre. Em algumas mancadas editoriais pelas quais fui responsável à frente do Extra o alarme tocou inicialmente nas redes sociais. Então, não se trata de demonizá-las. Muito menos de canonizá-las. Para reconhecer erros e acertos é preciso discutir com a redação, envolvendo o maior número possível de jornalistas, principalmente os repórteres, que estão mais perto do fato do que a chefia.

Quando entendemos que estamos no caminho correto – caso desta cobertura – bastam coragem e sangue frio para contrariar o senso comum e questionar soluções simples para problemas complexos. Só assim o bom jornalismo vai sobreviver. E ele sobreviverá!

Você deu esse exemplo do Münchener Post. Eles denunciaram o que estava por vir. Tinham razão, mas fracassaram. Guardadas as proporções, é o mesmo horizonte para quem faz o que vocês estão fazendo, contrariando as expectativas diante da cobertura de um crime como esse na Lagoa? Ou você acredita que, aos poucos, é possível levar as pessoas a refletir?

O.G. – Sou otimista. Nossa geração é caloura em democracia, mas há avanços. A vontade de refletir é a principal razão para alguém comprar um jornal. E a única fórmula que conheço para ajudar a reflexão é o velho e bom jornalismo. Não conheço outra.

O público que comenta as notícias na página do Extra no Facebook é diferente do que lê o jornal em papel? Se é, há diferença de comportamento entre um público e outro? 

O.G. – O Extra papel é regional, circula basicamente no estado do Rio de Janeiro. No site e nas redes sociais falamos com leitores de todo o país e com brasileiros residentes no exterior. Nosso site, segundo o Google Analytics, tem média de 17 milhões de visitantes únicos, sendo que 68% dos 100 milhões de page views vêm de fora do Rio. Nosso Facebook conta com 642 mil fãs, dos quais 192 mil moram na cidade do Rio. São públicos diferentes. Muitos internautas, ao deixar comentários, fazem questão de se identificar como leitor de banca, mas seria leviano falar em diferenças de comportamento baseado apenas em impressões. É um tema interessante para uma apuração mais aprofundada.

Você fala na disposição de enfrentar o senso comum quando entende estar no caminho correto. Mas isso pode significar, e em geral significa, a perda de leitores. Como enfrentar isso, ainda mais no cenário que a imprensa vive hoje?

O.G. – Para os jornais vendidos principalmente em banca, caso do Extra, o desafio é ainda maior. É como se ligássemos todos os dias para as cerca de 200 mil pessoas que vão às ruas comprar o jornal: “Bom dia. O senhor gostaria de renovar por mais 24 horas sua assinatura? Obrigado, amanhã voltaremos a ligar”.

Este leitor que busca informação no papel, e paga por isso, tem que ser muito valorizado. E não é seguindo bovinamente o senso comum que as redações vão conseguir isso. Ninguém compra jornal por preguiça mental. Ao contrário, o leitor quer enriquecer seu repertório. Este é o pacto entre jornal e leitor. Então, mesmo quando discorda de um enfoque numa determinada cobertura, o leitor vê honestidade de propósitos do jornal, pois o pacto não foi quebrado. Ele está estimulando a reflexão, mesmo que ele discorde. Por isso não temo perda de leitores com esta linha de cobertura. O caso da Lagoa não foi um espasmo editorial. Agimos desta forma em outras ocasiões. A cumplicidade com o leitor foi estabelecida.

O Extra costuma fazer denúncias contra o governo do Estado e, especialmente, contra a atuação da Polícia. Vocês já sofreram represálias ou ameaças? 

O.G. – Felizmente não é a regra, mas há alguns casos. Recentemente um fotógrafo nosso recebeu ameaças por fazer o registro de um policial usando touca ninja numa operação no Complexo do Alemão. A foto foi para a primeira página [edição de 7/4/2015]. A PM não se pronunciou porque havia ordens de não falar com o Extra. Naquele dia a informação chegou incompleta aos leitores, que não tiveram acesso à versão da polícia. Mais tarde, a PM alegou que o policial morava em favela e tinha permissão do comandante para usar a touca.

Esse caso mostra que sempre que há represálias contra um jornal ou um jornalista, quem perde é o leitor, a sociedade. Para registro: protestei com o governador do estado, o secretário de Segurança e o comandante da PM. A Secretaria de Segurança, ao tomar ciência do fato, deu apoio imediato ao jornalista e iniciou a investigação. Seguimos o protocolo de segurança do Grupo Globo e nada mais grave aconteceu.

***

Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)

Fonte: OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

"Psicanalista Christian Dunker analisa a vida entre muros". Por Marsílea Gombata (Carta na Escola)

PICICA: "Psicanalista explica como a privatização do Estado e da vida nos leva a um tipo de controle no qual o sofrimento é combatido antes de ser escutado"

Entrevista


Psicanalista Christian Dunker analisa a vida entre muros
O psicanalista Christian Dunker

Psicanalista Christian Dunker analisa a vida entre muros

Psicanalista explica como a privatização do Estado e da vida nos leva a um tipo de controle no qual o sofrimento é combatido antes de ser escutado

Por Marsílea Gombata
Pode parecer paradoxal para os dias de hoje, mas o sofrimento – que há tempos vem sendo combatido por meio de novos diagnósticos, medicações e pela liberdade de consumo – é um importante elemento de mobilização. Os moldes e regras da vida contemporânea, no entanto, mascaram-no dentro de uma espécie de vida planejada, com operações regradas.
 
O retrato social e filosófico dos dias atuais é debatido pelo psicanalista Christian Dunker em seu livro Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma: Uma psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, 416 págs., R$ 66). Ao traçar um histórico para mostrar como a teoria social é capaz de explicar o mal-estar individual que não é exclusivo de cada um, o autor explica que o fenômeno da “vida em condomínio” pode ser visto também nas políticas públicas atuais, elaboradas com base em diagnósticos, como no setor do Ensino Superior. “Os verdadeiros gestores do sistema passaram a publicar apenas para marcar pontos no Lattes, reduzindo a qualidade ao preço da quantidade, poluindo as revistas científicas com um lixo industrial acadêmico que prejudica a todos”, lembra em entrevista a Carta na Escola.
 
No cenário em que o espaço público passa a ser invadido pelo privado, ele alerta, não escapam nem mesmo as escolas infantis, cada vez mais parecidas com clubes. “Nelas tudo se passa como se estivéssemos em um parque de diversões ampliado. Os pais transferem para a escola o mandato de educar seus filhos, por um lado, e por outro demandam que esses sejam tratados segundo leis de exceção e particularidade. Exatamente a forma de relação entre o público e o privado que encontramos na vida em forma de condomínio”, denuncia. 
As escolas – e o Estado – passam, portanto, a agir como “terapeutas” interessados não apenas no bem-estar social, mas no conforto psíquico de seus cidadãos. Um estilo de vida que aplaca o sofrimento a um alto custo. Afinal, sem o sofrimento elaborado para ser força motriz de transformações acabamos por acatar até mesmo aquilo que não nos satisfaz. “É pela via das novas formas de sofrer que aspirações de liberdade são inventadas”, alerta. “Nossos sintomas são tão sociais quanto individuais, e tento mostrar isso pela análise de um que é obviamente social: a vida em forma de condomínio.” Confira os principais trechos da entrevista:
 
Carta na Escola: O livro nos traz à memória o filme Alphaville, de Jean-Luc Godard, para nos questionarmos sobre a transformação da vida em forma de condomínio. De que maneira esse fenômeno ocorre e que tipos de monstros produz?
Christian Dunker: Durante os anos 1980, teóricos como Anthony Giddens, Richard Sennett e Frank Furedy argumentavam que o espaço público estava sendo invadido pelo privado. Surgia assim a figura do Estado “terapeuta” interessado não apenas no bem-estar social, mas no conforto psíquico de seus cidadãos. Até certo ponto essa tendência se confirmou, o que não ficava muito evidente é que a vida privada também sofreu um impacto semelhante. A vida privada “exteriorizada” dos políticos, das celebridades ou da hipersociabilidade digital é uma esfera privada “administrada”. Uma combinação nova entre exibicionismo, narcisismo e identificação. Essa nova forma de privacidade, na qual surge a figura do gestor, controlado por regras estritas e murado por sólidas estruturas de exclusão, produz monstros de vários tipos: os “funcionários invisíveis” (usando entradas e saídas especiais), as “mulheres Frankenstein” (que trocaram sua elasticidade pelo desejo infinito de adequação), “as crianças zumbis” (administradas à base de Ritalina), os “trabalhadores monossintomáticos” (que operam 24 horas por dia), as “maternidades vampiras” (que se apossam dos destinos de seus filhos) e, é claro, os “Caution Shreks”, que somos todos nós excluídos do lado de cá dos muros (lembrando que Caution é o detetive que investiga a desaparição dos sentimentos dentro do condomínio de Alphaville).
 
CE: Esse fenômeno difere de país para país? A chamada ascensão da classe C no Brasil pode ser enquadrada nele?
CD: A ascensão da classe C, a saída de muitas pessoas do estado de miséria e fome para o estado de consumidores em potencial, a expansão de certas formas de consumo de luxo, associada à classe média alta, intensificam um problema que dá origem ao sintoma do condomínio, ou seja: a legitimidade e pertinência do reconhecimento social. Essa satisfação suplementar está baseada em dois fatores: o sentimento de exclusividade e, portanto, de exclusão de outras pessoas, em relação à experiência de consumo. Quando há muita mobilidade social, como é o caso do Brasil dos últimos tempos, os signos e padrões de consumo perdem sua função de diferenciação para o desejo, acentuando sua função de demanda e de gozo. Quando todos começam a andar de avião, a possuir carros e a se vestir de forma mimeticamente luxuosa, as classes que antes se asseguravam de sua condição por meio de tais signos sentem que sua identificação foi parasitada, sentem que há uma degradação de seus signos de gozo. Surge o ressentimento e o ódio, surge o apelo a formas ainda mais exclusivas de viver a vida, sendo o condomínio o símbolo maior dessa exclusividade.
 
CE: No Brasil, o senhor lembra, as “políticas públicas baseiam-se cada vez mais em diagnósticos”. Quais exemplos poderíamos dar disso?
CD: Durante os anos 1990, por exemplo, o Brasil acolheu o diagnóstico de que sua população universitária era muito pequena. O mesmo diagnóstico apontava uma necessidade de ampliar cursos universitários e a pesquisa no País, o que não poderia ser feito apenas com recursos públicos. Tendo por modelo as universidades públicas, que tinham bom desempenho, mas atendiam a uma parcela pequena da população, começou então um esforço para a ampliação e qualificação do sistema de pós-graduação e o aumento de doutores. O sistema gerava mais e mais diagnósticos, o que levou à implantação de sistemas de avaliação de alunos, de instituições, com números mínimos de doutores por universidade, de pós-graduações bem como a valorização da produção científica, aferida pelo então nascente Currículo Lattes. Ora, depois de formados os condomínios universitários o que aconteceu? Os verdadeiros gestores do sistema passaram a publicar apenas para marcar pontos no Lattes, reduzindo a qualidade ao preço da quantidade, poluindo as revistas científicas com um lixo industrial acadêmico que prejudica a todos. Os síndicos geraram regras tão complexas que ninguém consegue mais levar em conta o que acontece nas salas de aula. O pior dos mundos com o melhor dos diagnósticos.
 
CE: De que maneira “a vida em condomínio” impacta a Educação Infantil?
CD: Na Educação Infantil o impacto da autossegregação é ainda maior. Isso ocorre porque a ambiguidade que constitui esse espaço pedagógico, entre cuidar e educar, convida à aplicação massiva do princípio securitário e da moral da segurança. Tem-se, por exemplo, a proliferação de pré-escolas bilíngues, que atraem pais que não falam outra língua e famílias culturalmente estranhas à língua; ou a adoção de câmeras de vigilância dentro de salas de aula, exatamente como em elevadores e áreas comuns de condomínios. Esse estado de exceção dentro da exceção tem produzido uma rápida judicialização e uma grande psicopatologização da primeira infância. Sabemos que a relação de extensão narcísica que existe entre a mãe e seus filhos, ou entre a família e suas crianças, deve passar por uma espécie de mutação da lei simbólica, importante para o processo de socialização do sujeito. Ele deve entender que a lei que se encontra em uma escola é pública e impessoal, condição para que cada qual lute por sua autonomia e para reduzir sua dependência. A lei da família, é, ao contrário, pessoal e caprichosa. As novas pré-escolas, criadas ao gosto do consumidor, não conseguem favorecer esta mutação. Nelas, tudo se passa como se estivéssemos em um parque de diversões ampliado, com a sucessiva transferência de expectativas. Ou seja, os pais transferem para a escola o mandato de educar seus filhos, por um lado, e por outro demandam que esses sejam tratados segundo leis de exceção e particularidade. Exatamente a forma de relação entre o público e o privado que encontramos na vida em forma de condomínio.
 
CE: Como a condominização se expressa no Ensino Fundamental?
CD: Quando o assunto é o Ensino Primário ou o Fundamental I, a condominização caminha por dois sentidos opostos. Pelo primeiro suspendemos os critérios de formação de professores, vetamos o acesso de gente qualificada à docência e impedimos que salários diferenciados sejam pagos a professores com formações diferenciadas. Essa isonomia artificial cria uma espécie de reserva de mercado, que será então instrumentalizada pela escola pública para produzir números à base de “aparências” (como na aprovação compulsória) e pela escola privada para produzir crianças “felizes e funcionais” (e seu óbvio efeito de bullying para com as diferenças).
 
CE: O que seria o “novo espírito do capitalismo”, segundo o livro, que nos impede de reconhecer a aspiração de liberdade?
CD: É antes de tudo um espírito: um sistema de crenças que nos provê do sentimento de mundo como uma unidade. No momento em que esse nos faz acreditar que todo o sucesso depende de nós, de nossas habilidades, de nossas potencialidades, de nosso poder de superação, de nossa combatividade, ele nos diz que quando fracassamos tudo depende de nós.
 
CE: O crescente uso de substâncias por estudantes, em especial os universitários, em épocas de provas é consequência desse espírito? Afinal, por que “não podemos falhar”?
CD: Não podemos falhar porque não podemos mais aprender com erros, não há tempo para isso. O espírito neoliberal se caracteriza pela redução metódica do peso dado aos meios e aos processos e um incremento da importância conferida aos fins e ao produto. Se o que importa, desde os pais até o Ministério da Educação e os organismos internacionais, são resultados, o uso de meios como a dopagem, o professor particular crônico, o apostilamento, os cursinhos preparatórios, a compra de vagas, tudo isso começa a se tornar apenas uma questão de grau onde vamos colocar um limite artificial. É por isso que nossos sistemas estatais de controle de qualidade de cursos, de evolução oferecida pelo curso, de ranqueamento são um óbvio estímulo à corrupção. Uma escola que, dentro da lei, escolhe, seleciona ou segrega os melhores alunos para o Enem, obtendo assim resultados que podem ser usados como propaganda, está obviamente realizando o que eu chamo de “corrupção dentro da lei”. Ao final não podemos falhar porque isso será interpretado como índice de que você não entendeu como o sistema funciona, que ele não funciona sem falhas, mas pela moral do encobrimento máximo delas.
 
CE: Como as escolas e universidades poderiam relativizar essa ideia de meritocracia e de sucesso, que parece depender exclusivamente de nós?
CD: O mérito e a construção de diferenças não é um mau critério, mas ele deve estar baseado na premissa de que todos deveríamos possuir oportunidades iguais, de saída. Ora, como essa condição ainda está muito longe de ser alcançada no Brasil, é importante relativizar o sucesso e o mérito obtidos em meio a terríveis desigualdades de início. Importa modificar as condições iniciais. Isso só pode ser feito com uma redistribuição dos recursos que temos.
 
CE: O senhor lembra que para Georg Wilhelm Friedrich Hegel e Philippe Pinel a “alienação da razão era condição necessária (...) para a experiência da liberdade”. O  sofrimento é, então, importante para a mobilização?
CD: Sim, as grandes transformações políticas sempre foram uma redefinição da linha que separa o sofrimento que deve ser aceito e tolerado, do sofrimento que deve ser alterado, quer pela transformação de si, quer pela transformação do mundo. Não é uma coincidência que as populações resignadas diante do sofrimento sejam também as menos engajadas politicamente. Tanto o movimento feminista, como o movimento em favor da valorização da negritude ou anticolonização, começam por despertar as pessoas para essa verdade invisível: “você está sofrendo, você está sendo oprimido, e nem se dá conta disso”. Por outro lado, neutralizações e bloqueios de mudanças sociais se fazem acompanhar de narrativas que dizem: “o sofrimento é incontornável, aceite o mundo como ele é, o sofrimento é uma predestinação”. O sofrimento por si só não muda nem melhora ninguém. O mais provável é que sua acumulação nos torne piores. Contudo, é pela via das novas formas de sofrer que aspirações de liberdade são inventadas. Nossos sintomas são tão sociais quanto individuais, e tento mostrar isso pela análise de um que é obviamente social: a vida em forma de condomínio.
 

Publicado na edição 96, de maio de 2015

"No Brasil, o melhor branco só consegue ser um bom sinhozinho", por Eliane Brum (El País - Brasil)

PICICA: "O cancelamento da peça 'A Mulher do Trem' por racismo mostra que a tensão racial no Brasil chegou a um ponto inédito, cujos rumos passaram a ser ditados pela nova geração de negros que alcançaram a universidade"

No Brasil, o melhor branco só consegue ser um bom sinhozinho

O cancelamento da peça 'A Mulher do Trem' por racismo mostra que a tensão racial no Brasil chegou a um ponto inédito, cujos rumos passaram a ser ditados pela nova geração de negros que alcançaram a universidade


    Algo se rasgou em 12 de maio de 2015. Naquela noite, em vez de uma peça de teatro, A Mulher do Trem, oito atores sociais subiram ao palco do auditório do Itaú Cultural, em São Paulo, para discutir a representação do negro na arte e na sociedade. A decisão foi tomada depois que Stephanie Ribeiro, blogueira negra e estudante de arquitetura, protestou contra o uso de “blackface” na peça e o considerou racismo, iniciando uma série de manifestações nas redes sociais da internet. “O que me impressiona é que o debate sobre racismo e blackface é antigo, pessoas do teatro se dizem tão cultas e não pararam para pensar sobre isso? Reproduzir isso em 2015 é tão nojento quanto ignorante. Mas, né, esqueci que, quando o assunto é negro, não existe esforço nenhum em haver respeito”, escreveu no Facebook. E acrescentou: “Só lamento, não passarão”.

    Não passaram. Diante de uma acusação tão perigosa para a imagem pública de um e de outro, a companhia de teatro Os Fofos Encenam e o Itaú Cultural decidiram suspender a peça e, no mesmo local e horário, acolher o debate. O espetáculo que se desenrolou no palco tem a potência de um corte.

    O que aconteceu ali?
     
    Temos vivido de espasmo em espasmo, como já escrevi aqui. Os dias têm sido tão acelerados que os anos já não começam nem terminam, mas se emendam. Enormidades se sucedem às vezes no espaço de minutos entre uma e outra. Torna-se cada vez mais difícil perceber o que é (ou será) histórico, no sentido daquilo que faz uma marca no tempo. Minha interpretação é que aquele debate, aquelas três horas numa noite da Avenida Paulista, pode virar uma citação no futuro. Pelo menos um sinalizador de um momento muito particular da sociedade brasileira, em que a tensão racial não pôde mais ser contida no Brasil e atravessou uma fronteira inédita. Como interpretação também é desejo, faço aqui a minha minúscula parte para que o debate tenha o lugar que lhe é devido. Como o historiador Nicolau Sevcenko afirmou uma vez, num outro contexto, há coisas que não devemos nos perguntar o que farão por nós, elas já fizeram. Acredito que este seja o caso aqui.

    A atriz Roberta Estrela D’Alva, uma das debatedoras convidadas, iniciou sua apresentação falando sobre a percepção, ao entrar em contato com os protestos na internet, de que algo acontecia, algo que não teria acontecido mais de dez anos atrás, quando a peça foi montada pelo grupo Os Fofos Encenam. “Tem alguma coisa diferente nisso, porque tem manifestações sempre, mas que ganham essa projeção, e que foram ouvidas nesse sentido, de alguém que falou ‘não’ pra uma coisa e tomou essa dimensão que nós estamos vendo aqui agora... Eu acho que fazia tempo que a gente tava esperando, aguardando ou pedindo por isso. E não acho realmente que a peça é o foco. Eu acho que o que acontece na peça é sintoma de uma doença culturalmente transmissível, que é o racismo. E de uma relação muito espinhosa, que são os 400 anos de escravatura no Brasil”.

    O racismo é o debate sempre adiado pela sociedade brasileira

    Só agora, depois das manifestações de 2013 e da reação virulenta de setores da sociedade à política das cotas raciais nas universidades e em outros espaços historicamente ocupados por brancos, parece ter se tornado possível um “não” que finalmente foi ouvido na Avenida Paulista. O ponto é que o racismo no Brasil é o debate sempre adiado e, desta vez, ele aconteceu, como muito bem colocou o mediador do evento, Eugênio Lima, DJ e ator: “A gente tem uma tarefa muito interessante nesse momento, que é conseguir dar forma a um debate que nunca se consegue dar forma por completo na história da sociedade brasileira. Toda vez que vai se tocar nesse assunto, se fala: não, não é exatamente o tempo bom. Não, vamos fazer um pouquinho mais pra frente. Não, agora não vai dar. Não, a gente tá muito próximo da escravidão. Não, a gente tá muito próximo dos anos 30, a gente precisa formar (primeiro) a nação. Não, a gente tá muito próximo do projeto da ditadura, a gente tá muito próximo da redemocratização, a gente tá muito próximo dos radicalismos. Então, o nosso desafio é proporcionar um debate que seja de fato um debate”.

    Nada do que aconteceu naquele palco é simples. Ou fácil. É racismo? É censura? Estas eram as duas questões espinhosas que pairavam sobre o auditório enquanto as pessoas iam ocupando as cadeiras. Eram, talvez, mais um exemplo das falsas polarizações que têm assinalado o Brasil atual. Por seu potencial explosivo, muitos apostavam e até se preparavam para “um barraco” —e não um debate. Tanto que o mediador foi muito habilidoso ao reposicionar essas questões logo na abertura. Eugênio Lima colocou a necessidade de não escolher o caminho mais fácil, aquele que também poderia ser o caminho da oportunidade perdida, caso o debate se polarizasse entre censura, como o argumento dos brancos, e racismo, como o argumento dos negros: “A gente deve procurar não criar uma invisibilização da voz legítima do outro. Então, quando você chega num determinado momento e fala: é censura, ponto. É falta de liberdade de expressão, ponto. É racismo, ponto... Aí não tem como o outro conseguir dialogar. E a gente precisa dialogar. A gente precisa fazer um exercício de escuta”.
    Eugênio Lima também apresentou-se de uma forma bastante interessante, deixando explícito o lugar de onde falava: “Eu não sou um mediador no sentido de que eu vou tentar atingir a média. Eu não estou equidistante entre as duas posições. Eu tenho uma história, uma história política, artística, que fala pelo meu posicionamento”.

    Pego emprestada a explicação para este artigo —e para qualquer artigo, acredito eu. Não estou (ou sou) equidistante. Escrevo a partir da minha história e de como me descobri branca, e me redescubro a cada dia, nesse Brasil em que é “natural” pretos, pobres e periféricos morrerem. A própria escolha dos trechos que escolhi transcrever e reproduzir aqui, porque acho que ler é diferente de ouvir —e às vezes se escuta melhor lendo— fala de mim. O debate na íntegra pode – e deve – ser assistido aqui. O meu é um recorte próprio, com grifos próprios, no qual posso inclusive inverter a ordem e priorizar falas da plateia em detrimento da fala dos convidados. Até porque, de certo modo, não houve plateia. Os limites do palco foram ultrapassados e as manifestações do público foram tão ricas quanto a dos debatedores convidados. Apenas no final vou dizer o que o debate me provocou, as reflexões que me trouxe, para não atrapalhar o percurso de nenhum leitor atento, disposto a de fato escutar e, talvez, fazer o mais difícil: mover-se.

    Um pequeno aviso, antes que as luzes do palco se acendam. Não se trata aqui de um jogo de “a favor” ou “contra”. Acho que vivemos numa época em que isso foi – ou deve ser – superado. Não são dois lados, são vários. É muito mais complicado. E o momento não está para simplificações. Precisamos avançar para o confronto real, complexo, que abarque as contradições de cada um. São contradições dialogando com contradições. A coerência de cada ator emerge da capacidade de acolher esse desafio.

    320 mil negros foram assassinados por armas de fogo entre 2003 e 2012, uma cidade de porte médio de cadáveres da mesma cor

    Por fim, antes de pedir para desligar os celulares, devo dizer que várias pessoas me alertaram para não escrever sobre esse debate. Conto isso apenas para dar uma informação a mais sobre o quanto o protesto, a suspensão da peça e por fim o evento moveram placas tectônicas. Com variações, o aviso era: “O tema é espinhoso demais, os ânimos estão acirrados, você vai se queimar com todos os lados. Melhor ficar fora dessa”. Concluí que o risco de me “queimar” faz parte do privilégio e da responsabilidade de ter esse espaço.

    Um pequeno contexto, antes que o espetáculo se inicie.

    O evento ocorreu na véspera da comemoração da abolição da escravatura no Brasil, a lei Áurea assinada pela Princesa Isabel em 13 de maio de 1888. Uma abolição jamais completada, 127 anos depois. Neste momento, um jovem negro no Brasil tem um risco 2,5 vezes maior do que um jovem branco de morrer assassinado. De 2003 a 2012, a sociedade brasileira testemunhou – sem escândalo – o assassinato por armas de fogo de 320 mil negros. Imagine, para ter noção do significado, uma cidade de porte médio povoada por cadáveres com furos de bala – e que todos esses corpos têm a mesma cor. E imagine que, neste mesmo país, isso é tão naturalizado – e naturalizar é tornar natural o que não é – que apenas os mesmos se espantam. Esta é a trama que se desenrola nas periferias de São Paulo, nas delegacias e nas prisões, enquanto na Avenida Paulista, no auditório do braço cultural de um dos dois maiores bancos privados do país, o foco e as luzes estão sobre oito pessoas, brancas e negras, que falam a partir de lugares e de posições diversas.

    O drama é maior porque os episódios de racismo no Brasil são abundantes e atravessam o cotidiano de um e de todos, de forma explícita ou inconsciente. Mas justamente Os Fofos Encenam, a companhia teatral que montou A Mulher do Trem em 2003, peça que lhe rendeu o prêmio Shell de melhor figurino, além de outras oito premiações, nunca teve qualquer identificação com o racismo. A peça é descrita como “comédia de circo” e a tradição circense no Brasil foi invisível por décadas, até ser resgatada e reconhecida também pela academia. Ainda hoje essa vertente teatral é marginalizada e enfrenta problemas para conseguir recursos. Assim, se sofrer uma acusação de racismo é difícil para a maioria, esse lugar é especialmente penoso para “Os Fofos”, como se verá mais adiante.

    Se para o Itaú Cultural era crucial que o debate se realizasse em seu território, para alguns convidados e para parte do público soou arriscado aceitar subir ao palco ou ocupar a plateia do instituto. O Itaú Cultural tem uma atuação reconhecida por dar visibilidade a grupos e questões que sempre estiveram à margem, colaborando com a democratização da cultura, mas também é um fato que os bancos, no geral, têm tido sua imagem cada vez mais associada à desigualdade brasileira. Tanto é que, nos protestos, são os primeiros a serem apedrejados ou terem suas portas derrubadas ou os vidros quebrados por Black Blocs e outros grupos. A última eleição e a recessão em curso tornou essa relação ainda mais sensível. Assim, para muitos, foi difícil fazer justamente esse debate no espaço de um “representante do sistema financeiro”. Todas essas tensões estavam presentes e apareceram nas três horas de duração do evento.

    Quem diz o que é blackface: quem o faz ou quem o reconhece?

    Com tanto em jogo, o debate de fato aconteceu. Havia uma chance considerável de que virasse um bate-boca do tipo rede social, onde os ódios mútuos e as posições fechadas impedem a escuta e inviabilizam o diálogo e qualquer movimento de fato. Nos dias seguintes isso até aconteceu em alguns espaços da internet que repercutiram o evento, num triste rebaixamento. Mas não ali. E começo o debate pela bela aula dada por Mario Bolognesi, professor universitário e pesquisador do circo brasileiro, mostrando que a peça não usa blackface.

    —Vou tentar falar um pouco do teatro praticado debaixo da lona, que tem neste país uma longuíssima história, que foi também escondida e não revelada. Só ultimamente, nos últimos 30 anos, é que pesquisadores têm se debruçado para desvendar a história deste teatro riquíssimo. (...) O circo brasileiro, na sua versão teatral, desde o início, acoplou a causa dos abolicionistas. (...) Também acolheu muitos escravos fugitivos, que foram encontrar no circo e no espetáculo uma possibilidade de realização. O circo brasileiro não sabe o que é esse negócio de blackface. Não sabe. Ele nunca trabalhou com esse referencial, nascido em meados do século 19 nos Estados Unidos. O circo brasileiro tem a sua vertente, a sua matriz europeia, que vem de uma tradição da comicidade popular que trabalha com personagens-tipos, o que é diferente de estereótipos. Personagens-tipos são condensações essenciais de características psíquicas, fundamentalmente psíquicas, mas também sociais. (...) E no circo brasileiro estes personagens-tipos se carregam como máscaras. (...) Essa máscara pode ser tanto algo que se acopla ao rosto como pode ser uma maquiagem. (....) E chega a nós por contrastes. Nós temos uma linhagem dos chamados "enfarinhados". E temos uma outra linhagem de personagens que são os negros pintados de negro. Qual é o sentido disso para o teatro? O sentido é criar uma polaridade, inclusive visual, ou preferencialmente visual, porque, não nos esqueçamos, se praticava teatro ao ar livre pra muita gente. Portanto, o critério de visibilidade deve estar muito bem exposto, e as cores vermelha, preta e branca são as preferenciais deste universo, porque são visíveis à longa distância. No circo, essa polaridade (branca e negra) veio para realçar, trazer o cômico.

    Fernando Neves, ator e diretor de Os Fofos Encenam, trouxe uma fala testemunhal nessa direção. Comédia francesa do século 19, A Mulher do Trem teria sido montada pela primeira vez no Brasil, em 1920, no Circo Colombo, mantido pelo seu avô:

    —Eu demorei muito tempo pra entender o que era, o que minha família, como outras famílias de artistas, tinham feito aqui nesse país em relação à arte, ou seja, Teatro de Revista, o Circo-Teatro e o Teatro de Comédia. Eu venho de um ventre negro que já teve uma questão forte de entrar numa família de portugueses que chegaram aqui em 1890. Vindos com um circo. (...) Eu proibia a minha mãe, quando fosse alguém em casa, de falar que ela tinha sido vedete. (...) Foi aos 53 anos, em 2003, que eu falei: não, eu preciso falar sobre isso. Foi uma coisa impressionante essa questão de A Mulher do Trem, porque era a peça que levantava a praça, que meu tio escondeu de mim, que também foi duro arrumar material pra fazer pesquisa. E daí a gente fez, e quando a gente tentou dinheiro a gente não conseguiu nada. Então foi tudo na dificuldade eterna. (...) Eu comecei a entender o que era, pro ator brasileiro, a questão da composição e das máscaras. E que é uma questão muito difícil. (...) Porque envolve tipo psicológico, envolve temperamento. Então, é uma questão que infelizmente deveria ser matéria nas escolas. Pra, quando chegasse nessa discussão, eu não tivesse, ou ele não tivesse que falar: não tem nada com o blackface.

    Mario Bolognesi é um pesquisador sério e levou ao debate, com toda a honestidade, a complexidade de quem estuda o tema em profundidade. Fernando Neves trouxe a dor de ter dado duro para encenar algo da tradição circense que estava oculto, algo que restava envergonhado tanto nas margens da sociedade como nas margens de si mesmo. Do ponto de vista estritamente conceitual, a peça da discórdia não usa blackface. O sentido é outro, neste ponto de vista. E é importante que isso seja dito e seja entendido. Mas, avançando um pouco mais, é obrigatório fazer a pergunta: quem dá os sentidos? E o que torna o blackface de fato blackface, o que só se completa ao ser assistido (ou, neste caso, não assistido)? Colocado de outro modo: quem diz o que é blackface? Quem o faz ou quem o reconhece?

    Aqui, destaco um trecho da fala de Stephanie Ribeiro, a blogueira negra que iniciou o protesto com um post no Facebook. Sua fala interrompe conclusões fáceis. Ela dá conta de uma pergunta subjacente: deveriam, portanto, aqueles que se sentem violados, entender que não é este o sentido, que a rigor isto não é blackface, e seguir em frente?
    Hoje a gente tem voz e não vai mais aceitar essa visão dos brancos sobre os negros. Eu não vou me calar” – Stephanie Ribeiro
    —A gente começa desconstruindo a ideia de a pele natural ser a branca. Porque eu sou negra, eu sou natural, eu sou normal. Eu não sou exótica. Eu passo a minha vida inteira escutando que eu sou exótica, que eu sou diferente, que o meu cabelo é diferente. Essa é a minha vivência. É isso o que eu levo quando eu vejo aquela foto e vejo que aquela é a representação da pessoa branca para comigo, para com a minha avó, para com a minha bisavó, que eram negras, que foram escravizadas, que foram estupradas, que foram marginalizadas. Essa é a minha história e essa é a história que eu levo sempre e vou levar pra toda a minha vida porque não tem como eu ser negra um dia e não ser no outro. E aí entra a questão da peça e de toda manifestação feita pelo Facebook de várias pessoas negras, e da forma como isso foi recebido por algumas pessoas, de um jeito até racista, de achar que o negro não entende de arte, o negro não entende de cultura, o negro não sabe isso, o negro não sabe aquilo. Sabe quantas vezes na minha vida eu não vejo uma pessoa perguntando: "Ah, mas você faz arquitetura?". E por quê? Eu não posso fazer arquitetura? Tem curso pra branco e tem curso pra negro? Ah, parece viagem, mas não! É a nossa capacidade, sempre sendo ignorada pela elite cultural paulista na arte. (...) Qual a visão de um homem branco sobre a minha vivência? Sabe? A gente já parou pra pensar isso? Eu não sei o que é ser branco, eu nunca vou saber. Eu sei o que é ser negro. E pautado no que eu sei, é difícil. E eu ainda sou uma mulher negra privilegiada, sabe? Eu tenho sorte de estar numa universidade. Eu sou uma mulher negra ainda de pele clara. Imagina as outras mulheres negras que não podem estar aqui! Que estão limpando o chão, que estão lá, sei lá, cuidando de vários filhos. E isso me ofende porque, quando a gente coloca a imagem do branco para com nós, é uma imagem tão ofensiva, tão estereotipada, que não tem essa de ser máscara, de ser tipo. É a minha imagem toda vez que eu vejo na TV, toda vez que eu vou numa peça. É sempre a mesma coisa. É ou a mulher negra para sexo, ou a mulher negra Globeleza, ou a mulher negra é empregada. Ah, mas por que a mulher negra é empregada? Porque a gente vive num país que, pós-abolição, a mão de obra negra era abundante. Então o que que a gente faz com essa mão de obra abundante? Vai dar chances? Vai dar estudo? Não! Vamos colocar eles pra limpar, lavar e passar. É aí que entra o estereótipo. Não é só pintar a cara de preto. O estereótipo que a peça reforçava é esse estereótipo da mulher negra em vários sentidos: no cabelo, na forma de se portar. Porque estava escrito no próprio site dos Fofos, quando eu fui ler, que ela era intrometida. Então, o problema não é essa peça, mas o problema é a visão das pessoas brancas sobre nós. Essa visão a gente não vai aceitar mais, porque hoje a gente tem voz, hoje a gente pode falar. Que seja no Facebook, que seja com pichação, que seja da forma que for. Eu não aceito. Eu não vou me calar.
    Democracia não é paz, mas o debate cotidiano entre os diferentes. É preciso aprender a se confrontar” – Aimar Labaki
    Mas, sendo ou não blackface, a arte não é o território da liberdade? A peça em questão não teve um papel crucial ao levar esse debate até esse ponto e, assim, realizar um corte na sociedade? O corte se deu pelo fato de a peça não ser encenada. Mas não seria mais correto que ela fosse encenada e o debate ocorresse logo depois, com o potencial de ser ainda mais rico? A questão então torna-se não mais o “racismo”, mas a “censura”?

    Aimar Labaki, dramaturgo, diretor e ensaísta, apresentou um ponto de vista interessante sobre isso. E trouxe ao debate algo fundamental: a necessidade do confronto como parte do processo de construção da democracia.

    —A questão do negro no Brasil é igual a duas outras questões pra mim: primeiro, a questão dos desaparecidos e dos torturadores, isto é, a nossa verdade histórica que ainda está, de alguma forma, enterrada, e a ideia de que uma justiça possa vir a realmente servir pra todo mundo. É igual à questão da liberdade sexual, isto é, que a questão do gênero, a questão das opções sexuais sejam normalizadas, pelo menos do ponto de vista legal, e a vida vai fazer com que o óbvio se estabeleça, que cada um viva como quer. Por que estas três questões são importantes? Porque são as três questões que nos impedem de, de verdade, nos sentirmos parte de uma nação e de nos sentirmos parte de um Estado que nos representa em alguma medida. E eu não estou falando só da questão da representação política, que é uma crise pela qual passa o mundo inteiro e que não é uma crise só brasileira. Aqui foi piorado pelo fato de a ditadura ter acabado com uma ou duas gerações de pessoas que poderiam ter o conhecimento de como se mover publicamente e fez com que a nossa educação, nesse sentido, fosse atrasada tanto. Faz 30 anos que acabou a ditadura, mas o (José) Sarney só se aposentou no ano passado e ainda está indicando gente. Ainda tem militar que não obedece ao chefe do comando que é o presidente da República, quando o presidente da República manda entregar documentos que são do Estado, não são do Exército. Então, nós estamos há 30 anos construindo pela primeira vez uma democracia formal, mas nós não temos um espírito democrático, nós não temos um espírito de República. Nós ainda estamos tentando construir isso, e construir um aprendizado de como discutir em público. Porque democracia não é paz. Democracia é luta cotidiana, é debate cotidiano entre os diferentes. E nós temos medo do debate, nós temos medo do confronto. E é preciso aprender a se confrontar. Nesse sentido, essas três questões – a questão do negro, a questão dos torturados e da punição aos torturadores, e a questão da liberdade sexual – é que nos impedem, como diz o poeta, de conseguirmos transformar essa vergonha numa nação. Isso posto, eu acho que pra todas as três questões vale a preocupação permanente de compreender que essa democracia está em construção. E, nesse sentido, não me parece o caminho mais adequado você pedir ou você lutar pela supressão de qualquer representação que te incomode (...) Nesse caso, a representação também é uma forma de manutenção de uma visão de mundo que perpetua o racismo. E eu concordo com isso. Eu acho que essa visão tem que ser apagada, mas ela não pode ser apagada pela força, ela não pode ser apagada pelo silêncio.
    Pessoas brancas não dizem como pessoas negras devem lutar” – Stephanie Ribeiro
    Stephanie Ribeiro dá uma resposta:

    —Eu queria começar falando que talvez eu seja muito radical, porque, na minha concepção de mundo, pessoas brancas não dizem como pessoas negras devem lutar. Então, se eu quero fazer um boicote, eu vou fazer. Se a gente quer se unir contra uma peça, a gente vai se unir. Porque é isso o que a gente tá debatendo aqui. São anos e anos de pessoas negras não tendo voz. São anos e anos de pessoas negras sendo silenciadas, invisibilizadas. São anos e anos que a representatividade não vem. A representatividade, num país onde 54% da população é negra, não deveria nem ser discutida. Quando a gente se manifesta, a gente não tá censurando, a gente só tá pautando o que ninguém tinha pautado até então porque não tem a nossa vivência. (...) Tem que ter um esforço das pessoas pra entender o que é ser negro no país. Você nunca vai saber o que é viver na minha pele, mas pelo menos pode não reforçar ideias como essa de... "natural é a pele branca", entendeu? Isso é desconstrução, isso é leitura de gente negra. Gente negra fala, gente negra escreve, e não é de hoje, entendeu? (...) Quando é que eu vou ter o privilégio de não saber o que eu sou? Agora, vocês têm o privilégio de não saber o que eu sou, me marginalizar, me oprimir, e ainda me chamar de censuradora. É ótimo esse privilégio! Essa ação foi muito importante, porque ela foi feita no Facebook, com várias pessoas, principalmente militantes jovens. E é essa força que vem vindo que não vai se calar, gente. Eu acho que é importante as pessoas se abrirem pra escutar essas vozes. Mas essa abertura tem que vir com o diálogo, principalmente, de que pessoas brancas não pautam a luta dos negros. Ninguém vai dizer como a gente deve agir, porque ninguém sabe o que é ser a gente e ninguém sabe tudo o que a gente já passou.

    Ao final, Aimar Labaki faz uma espécie de tréplica:
    Meu ponto de vista é de classe média, branco. E, desculpe, eu sou interlocutor também. Vocês vão ter que falar comigo” – Aimar Labaki
    —Eu realmente fiquei emocionado com o que a Stephanie falou, no sentido de que eu nunca vou saber o que é ser negro. Eu sou branco. E, apesar de ter nascido na extrema pobreza – não parece, mas é verdade –, eu tive uma série de sortes que, se eu fosse negro, eu não teria. Então, o meu ponto de vista é de classe média, branco, olhando para a minha realidade. E, desculpa, eu sou interlocutor também. Vocês vão ter que falar comigo também. Eu tenho que falar com vocês, vocês têm que falar comigo. Não acho que a gente seja tão diferente quanto parece. Do meu ponto de vista, a questão do racismo eu vejo de uma forma intelectual, eu não vejo de uma forma emocional. (...) Por isso é que eu entendo e concordo quando você diz: “Não importa se é blackface ou não, é racismo”. Da mesma forma, eu digo: não me importa se é racismo ou não, é censura. (...) Se você tira uma peça de cartaz, seja lá qual for, porque uma parte da população, por mais que seja a maior parte da população, não quer que ela aconteça, nós abrimos um precedente num país que é autoritário, num país onde não há tradição de liberdade de expressão. Você abre a Caixa de Pandora. Em seguida você vai ter os reacionários, você vai ter os militares, você vai ter o diabo a quatro querendo que as coisas não sejam apresentadas porque eles acham que não estão representados nela. Isso não significa que se deva calar a boca de ninguém, muito menos do Movimento Negro.

    Um homem na plateia fará, muito mais tarde, um recorte aqui:

    —Sou preto, pobre, pederasta e professor. Eu sou, nesta ordem, esses quatro "Ps". E entendi que o preto vem antes de tudo isso no Brasil, e não só no Brasil. Acho que essa dimensão da cor, sempre que ela vem à tona, a gente recua. E esse recuo já não é mais possível. Eu acho que o que tá acontecendo aqui hoje é sinal de uma mudança estrutural no país que a gente não pode negligenciar e que diz respeito à sociedade, mas também ao teatro que nós fazemos, ao teatro de grupo. Isso é sinal de que alguma coisa muito complexa está acontecendo neste país. (...) Não é uma questão de representação. A cor não se representa. É isto que, de certo modo, o blackface denuncia. Porque o negro é uma outra coisa, além da sua cor. São relações que estão em jogo e que talvez o teatro tenha tido dificuldade de elaborar. Tá na hora de a gente se perguntar o que é que nós estamos conseguindo elaborar neste momento em que de fato uma mudança está acontecendo. Ela não aconteceu. Ela está acontecendo. E ela é perigosa. Ela é perigosa porque o outro existe. E eu também me defino pelo outro. E eu não posso, na minha lógica, reproduzir a lógica da supressão. Eu não estou com isso dizendo que nós vamos ouvir os brancos e eles vão nos pautar. Eu só tô querendo dizer que talvez a gente tenha, como negro, de ser capaz de elaborar uma imagem do branco. E nesse momento é que a sociedade muda.
    Essa máscara tá fora! Como tá fora qualquer tipo de racismo. O teatro é vivo!” – Fernando Neves
    Fernando Neves, de Os Fofos Encenam, faz um desabafo. E uma conclusão.

    —A gente fez apresentações, em 2003, e a peça foi pro baú. Quando ela retoma, a gente leva um susto. O Eugênio fala assim: "Fernando, pensa o que é isso. É uma coisificação de uma ideia que traz muito sofrimento pra muita gente só de olhar. Não precisa ver a peça". Eu falei: é um totem. É um totem. Então tá errado, a máscara de circo não foi feita pra isso. A minha família, todo o trabalho, tudo, quem fazia essa máscara era a minha mãe. Ela não foi feita pra isso. Ela foi feita pra divertir. No circo, drama é pra chorar e comédia é pra rir. Ela não foi feita pra ridicularizar ninguém. Tanto é que, se vocês olham os tipos de A Mulher do Trem, a mulher que faz a dona da casa, ela tem o nariz torto, a boca torta. Não é assim, que o negro tá pintado e todo mundo tá com cara e pele boa. Não é. Tá todo mundo ridicularizado. Porque era isso que o circo fazia. Então, quando o Eugênio me explicou o que era isso, eu falei: então essa máscara tem que sair de cena. Ela não pode ficar, ela não foi feita pra isso. Como várias vezes, durante a História, várias máscaras e vários tipos tiveram que sair de cena. Eles se ressignificam e voltam. O teatro é vivo. (...) Para tudo! (...) Essa máscara tá fora de cena. Ela tem que sair de cena. Porque ela não foi criada pra causar dor em ninguém. Porque é tudo o que a gente não quer na vida. E nossa arte, tudo o que a gente tá fazendo, não se baseia nisso. Eu não quero, e nenhum dos Fofos quer. (...) Então, o que eu queria dizer é que apoio essas falas que ouvi até agora, tão sábias. Eu apoio plenamente. E... estas máscaras estão fora. (...) A gente tem que trabalhar na alegoria que existe na arte popular pra trazer reflexão. Antes, ela era forma. Agora ela tem que ter um engajamento. Ela é posta pra gente discutir. Eu quero agradecer muito e pedir desculpa a todos que eu tenha ofendido (...) Foi uma coisa que me machucou demais. E me trucida, porque isso é tudo o que eu não queria na minha vida. Então, essa máscara tá fora de cena, como tá fora qualquer tipo de preconceito, qualquer tipo de racismo e qualquer tipo de violência.

    Fernando Neves chora.

    O espetáculo tornou-se o debate (ou o debate tornou-se um espetáculo?), que abarcou não apenas o palco, mas a plateia, e as reações nas redes sociais provocadas por ele. Parte do público apropriou-se de A Mulher do Trem e subverteu-a. Sem ser encenada, a peça teatral provocou uma outra cena, que também a contém. Arte e política como categorias indissociáveis, imunes a delírios de pureza e de significados em si e para si. Profanadas, sempre, pelo mundo e pelas circunstâncias. Teatro.
    Você (branco) tem o privilégio do privilégio de nem pensar nos seus privilégios” – Max, plateia
    Aqui, talvez, seja o momento de eu dizer como me senti neste debate, de forma totalmente honesta e até difícil pra mim. Como Aimar Labaki, a ideia de um espetáculo não ser apresentado, ser censurado, seja por quais motivos forem, ainda que se diga que não é censura, mas decisão do grupo, o que seria autocensura, me arrepia. A ditadura, a censura e a repressão são bem vivas na minha memória, e eu temo exceções, porque elas botam o pé na porta e abrem espaço para que o pior vire regra. Afinal, quem vai dizer quais são os bons motivos para suspender um espetáculo? Quem será mais igual do que os outros, parodiando A Revolução dos Bichos, de George Orwell? Um boicote da peça teria me parecido mais democrático, mas não a suspensão da peça. Protestos na porta do Itaú Cultural, o que possivelmente aconteceria se ela fosse encenada – perspectiva, aliás, que deve ter assustado os envolvidos –, causariam comoção e discussão. E a peça lá, no palco, provocando e sendo provocada, para possivelmente nunca mais voltar do mesmo jeito.

    Porém, uma outra percepção foi se tornando mais forte na medida em que eu escutava os negros. Talvez tenha sido preciso fazer esse corte dentro do corte. Porque talvez o fato de eu pensar sobre isso como uma censura, num momento de construção de uma democracia cheia de buracos, seja um privilégio meu, como branca, que não sei o que é ser negra neste país. Posso escrever sobre isso, como escrevo, posso tentar vestir a pele negra, como tento, mas ser é de outra ordem. E esta ordem eu preciso admitir que não alcanço. E talvez a ruptura seja a única forma para aqueles que não têm privilégios serem escutados pelos que têm privilégios. Talvez seja este o momento do Brasil. E talvez seja importante que assim seja, porque já se passou tempo demais para uma abolição não ter sido completada. Talvez a escravatura só acabe, de fato, a partir de rupturas como esta.

    Para mim, a síntese veio por esta fala de um homem jovem e negro na plateia, que tinha grandes chances de estar morto, mas está vivo:

    —Meu nome é Max. Eu sou ator... Eu era ator, mas eu me tornei produtor cultural por ausência, por necessidade de produções culturais em que eu me sentisse um pouco mais digno. Digno. Acho que é a palavra perfeita pra ocasião. Eu vou falar a partir da minha pele preta natural e do meu cabelo normal, embora alguém em 1930 tenha dito que existiam cabelos normais e outros sei lá o quê. Né? Decidiram o que era normal e o que era natural. (...) É interessante como o branco treme quando vai perder o privilégio. Então, de repente, quando você toca no privilégio daquele que sempre pôde falar como quiser, de quem quiser, na altura que quiser, alguém fala: "Eu não gostei", e chamam essa pessoa de Estado. Né? (...) Os negros, que nunca tiveram sequer grandes papéis no Estado, são censuradores. Não houve Ministério Público, não houve DOPS, não houve Conselho da Comunidade Negra, não houve SEPIR (Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial) mandando, enviando. E ninguém nem foi perguntar aos Fofos se era censura ou não. (...) As pessoas assim... com um treme-treme de perder esse espaço. Eu acho que é aí que o copo tem que esvaziar. A gente, enquanto homem, vai ter que perder privilégios para dar espaço às mulheres, aos homossexuais. A gente, enquanto sudestinos, vai ter que abrir espaço nos editais pra que o Norte seja contemplado também. E talvez os brancos ainda não conseguiram dar um milímetro de passo pra perder seus privilégios. Ou pra compartilhar os privilégios nas universidades. Compartilhar o privilégio desse diálogo. Eu fiquei com medo de ter que fazer barraco aqui, (...) achando que ia ter uma palestra de pessoas justificando o blackface. Eu tava preparado pro barraco. Sério mesmo. Nunca vi o mercado financeiro abrir espaço pra um debate desse. Nem o Estado, nem o mercado financeiro. (...) Eu quero colocar essa questão pras pessoas pensarem o que é esse privilégio. Uns amigos falam: "Mas eu não tenho privilégio de ser branco!". Eu falo: você tem avô, avó? "Tenho". Então você já é branco, porque a maioria dos negros não conhece os avós. Você pode andar na rua sem o carro da polícia pelo menos parar um pouquinho pra dar uma olhada em você? Ele nem sabe o que é isso. Você para um táxi e ele para? Ele nem sabe o que é isso. Então, você tem um monte de privilégio de ser branco. Só que você tem o privilégio do privilégio de nem pensar nos seus privilégios.

    Não há chance de um branco ser digno no Brasil enquanto a realidade dos negros não mudar
    Fiquei pensando sobre a enormidade desse privilégio, que é o de não ter que pensar nos meus privilégios. E fiquei pensando a partir de um grupo no qual tenho a pretensão de me incluir: o dos brancos não racistas, o dos brancos que denunciam o racismo e lutam contra ele. Percebo que, por mais profundo que seja o discurso do branco, por mais articulado, ele fala a partir de um lugar do qual teme ser deslocado, consciente ou inconscientemente. E, assim, sempre que possível, adere, aliviado, ao discurso mais intelectualizado, aparentemente limpinho, que no caso das cotas era o de que raça é algo que não existe ou que o problema do Brasil é social e não racial etc etc. E aqui, talvez, o discurso de adesão capaz de manter as boas aparências seja o da censura ou da liberdade de expressão. De certo modo, o discurso do melhor branco é sempre contemporizador.

    Esses brancos bacanas, cool, esperam que os negros fiquem satisfeitos com a “abertura lenta, gradual e segura”. O ponto de vista é sempre o da concessão. E concessão é a palavra escolhida por aquele que tem o privilégio de conceder. Talvez o problema no Brasil, com relação à questão racial, seja semelhante ao da redistribuição da renda. Mesmo os brancos bacanas querem avançar na igualdade sem perder nada. Os negros ascendem sem que os brancos percam um centímetro do seu privilégio, o que começa pelas empregadas domésticas. Porque privilégio de branco é cláusula pétrea na sociedade brasileira. E aqui aproveito para sugerir que assistam à Casa Grande, filme no qual a Senzala é a presença – ou onipresença – não nomeada.

    Os negros não podem se impacientar, ao contrário, precisam agradecer a benevolência. E, quando questionam, e em especial quando questionam gente bacana, aqueles que têm certeza de fazer o certo, a conversa muda de tom. É fácil se unir contra os trogloditas, e no Brasil há sobra deles. E contra os bacanas, os cool, como é que fica? E escrevo sem ironia, porque me incluo nesta conta. Escrevo com dor, porque a incompletude da abolição colocou gente de fato digna, brancos dignos, numa situação com poucas saídas a não ser um confronto que começa dentro, com a dureza dessa realidade que, enquanto não mudar, impede qualquer branco de ser de fato digno. É essa a tragédia que precisamos encarar: a impossibilidade de um branco ser digno neste país enquanto a realidade dos negros não mudar. A verdade brutal é que, no Brasil, o melhor branco só consegue ser um bom sinhozinho.
    Não quero ter a última palavra. Quero acrescentar duas falas que representam minhas melhores esperanças, ainda que eu saiba que esperança também é um privilégio de poucos.

    A primeira é do mesmo homem da plateia que se apresentou como “4 Ps”:

    — A pergunta talvez seja: neste contexto, que é novo, como é que nós inventamos uma outra sociedade? Porque, como professor de História do Teatro Brasileiro, eu não estou interessado em revisar a história do teatro brasileiro, eu estou interessado em inventar uma outra História. Acho que este é o ponto.

    E termino com Roberta Estrela D’Alva, juntando duas falas que ela fez em momentos diferentes do debate. Na primeira, ela se referia a uma questão colocada pelo professor Achille Mbembe, com quem viajou pela África:

    — O que nós vamos ter que deixar morrer em nós, brancos e negros, para que haja a transcendência, para que haja o encontro? Porque os copos estão cheios. O que a gente vai ter que derramar para que comece a penetrar? (...) Para a gente transcender vai ter que ser junto. Não tem nós e eles. O racismo não é um problema do negro, é um problema da sociedade. E nós todos somos a sociedade.
    No meu teatro, Estrela D’Alva tem a última palavra:

    — Se a paz não for para todos, ela não será para ninguém.

    Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum