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maio 24, 2010

Sobre marchas, conferências e planos de combate às drogas

Descriminalização da maconha
Foto: Nivaldo de Lima - Manaus-AM, 2009
Marchas, Conferências e o Plano Integrado (de combate) às pessoas que usam drogas

Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
(Manuel Bandeira)

A situação pode até ser triste (para algumas pessoas), mas não deveria estar surpreendendo ninguém. No meio do tal problema das drogas, e das nuances difíceis, as pessoas que se preocupam com o descaso na Saúde Pública em relação às drogas têm de encarar dois pontos que surgem facilmente como problemas: 1) saber quais desafios estamos escolhendo como prioritários, e 2) avaliar as estratégias protagonizadas até o momento.

O primeiro ponto, em tese, seria o menos problemático. É sabida a existência do velho e conhecido mercado da Saúde, em seu velho e conhecido agenciamento: sempre em nome de alguma demanda que mobilize redes orgânicas de interesses. Dentro deste mercado, existem os nichos, sendo um deles o AntiDrogas. A noção de "combater o crack", como já estamos carecas de saber, opera como dispositivo que potencializa interesses distintos. Podemos arriscar aqui uma breve lista: o controle de pessoas em situações de rua; a prescrição indiscriminada de fármacos com dinheiro público; os corporativismos técnicos (problema interdisciplinar); os dogmas sobre modelos ideais de acolhimento; poderes pastorais e capitais simbólicos diversos - dentre outras coisas que literalmente "só vendo", afinal, farão parte do contexto micropolítico. De saída, deve-se refletir que tratam-se de interesses que estão aí, juntos, desde o início do projeto moderno de vida em grandes centros urbanos (há mais de 300 anos). Nem por isso, devemos pensar que sejam forças organizadas. Trata-se mais de uma corrente de forças orgânicas (reivindicadas ao natural, reproduzidas) e que, por isso mesmo, surgem onde menos esperamos.

Analisar o orgânico mercado da Saúde poderia ser importante para pensar nos limites das vias de resistência que escolhemos diante dele, enquanto pessoas preocupadas com o descaso na Saúde Pública em relação às drogas. Uma das vias está sendo, como no caso das Conferências Intersetoriais de Saúde Mental, comunicarmos nossas vivências, disputando conceitos e ideias, nas difíceis arenas institucionais que a democracia ainda nos oferece - ora dificultando, ora ignorando, mas oferecendo. Ao mesmo tempo, várias reflexões nos atravessam, e também às conferências. Outras estratégias são reivindicadas: diante do paradigma da exclusão e criminalização, podemos disputar subjetividades sobre drogas nas ruas (vida x doença); diante das campanhas midiáticas que promovem o não-acolhimento, podemos lutar por campanhas de educação sobre drogas em veículos de massa (autonomia x especialismos)... Talvez falte, ainda, algum modo de denunciarmos o entreguismo que muitas pessoas disfarçam ou toleram enquanto uma "luta estratégica". Precisarão chegar os think-tanks do mercado AntiDrogas em Brasília para reavaliarmos nossas estratégias? Para os representantes técnicos do mercado AntiDrogas não fará diferença alguma. Não importam as leis - desde que o desdobramento delas acabe se reportando, de alguma forma, aos procedimentos do mercado. Ocorre que o engessamento da pouca luta cotidiana nos serviços, por um acolhimento efetivo da realidade das drogas, não é algo que parte somente de Brasília, tampouco somente do eixo da Gestão, e nem deve ser identificada hoje em sujeitos políticos isolados.

Neste sentido, eis um belo motivo para que as pessoas que lutam contra o SUS comemorem as arenas democráticas. Desde a própria conferência que evidenciou a reforma nas políticas de saúde e engendrou no SUS, os interesses do mercado aprenderam a se retirar das cadeiras, lutando pelo Inamps até hoje nos bastidores. A estratégia é cada vez mais sofisticada. Em Porto Alegre, por exemplo, comemora-se aparentemente o tranquilo desfecho do desvio de 10 milhões de reais do SUS, em nome da precarização das relações de trabalho. Ao mesmo tempo, pelas ruas da cidade, uma pixação parece implorar: "protesto não é crime". Cartazes denunciando a gestão corrupta/conivente foram apreendidos. Sempre haverá um crime em favor do controle. Vivemos numa democracia.

Falar no desafio a ser enfrentado, portanto, é olhar mais cuidadosamente para o contexto de reivindicações políticas no Brasil. Em nosso caso, vale lembrar da existência de um dispositivo AntiDrogas legitimando e ressignificando todos os conceitos que tão demoradamente conquistamos, incluindo as próprias arenas "democráticas". Vale lembrar, também, que os sujeitos desta conquista fomos "nós" enquanto sujeitos históricos - não foram as leis, não foi a "Constituição Cidadã", não foram as entidades, muito menos as partidárias; que o diga o Partido dos Trabalhadores, que quando não usa do mesmo dispositivo AntiDrogas hoje para ganhar votos (como na campanha de sua atual presidenciável), acaba protagonizando omissões "estratégicas" por questões partidárias (exemplos previsíveis à vista). Lucrar votos é preciso, lutar de fato, não. Lutar por mudanças nas ruas, para estas pessoas, já pode ser quase visto como uma atitude conservadora. A questão é que essas ferramentas "democráticas" já nasceram velhas, pois a vida não está aí pra elas.

Então analisamos macropoliticamente, e constatamos que os CAPS-AntiDrogas já foram ressignificados pelo manicômio há muito tempo. Está sendo curioso analisarmos esse desejo pelos CAPS-AntiDrogas, bem como a sua abertura repentina, mesmo dentro das capitais, seja em parcerias público-privadas ou não. Há um voto, nestas conferências contemporâneas, contra a abertura de CAPS-AntiDrogas em municipios pequenos. No limite já entendemos que, caso cumpram com o esperado, os CAPS-AntiDrogas poderão ser muito mais interessantes do que os feios e anti-éticos manicômios clássicos. É que o mercado manicomial não deseja manicômios, deseja dinheiro; e numa lógica de varejo, lucra-se mais na quantidade. Por sua vez, os CAPS-AntiDrogas que já abriram e que ousam promover saúde no território são raros. Devemos lutar novamente por diretrizes de cuidado? Devemos lutar pela prática clínica de promoção, no território? Pois há um pressentimento de que, em breve, serão também cooptadas as noções de território, de "busca ativa"; de RD, de AT, educação popular, tod@s cumprindo os procedimentos mercadológicos. O futuro é agora, e o novo Plano Integrado (de combate) ao Crack e Outras Drogas, contando com consultórios de rua e CAPS-AntiDrogas, não nos deixa omitir esta realidade. A ideologia do "combate" está refutada nas leis sobre drogas. E em Porto Alegre, o Plano será estudado pela medieval equipe de pesquisas do CPAD (Centro de Pesquisas em Álcool e Drogas), notável centro de propagação da desinformação sobre drogas, onde os objetos de estudo ainda giram em torno da doença, e não da vida. Nada é por acaso, no orgânico mercado AntiDrogas.

Diante das estratégias limitadas, talvez tivéssemos de reconhecer que estamos diante de uma Gestão pouco empoderada, e de um movimento institucionalizado e envelhecido. Gestão pouco empoderada, porém, certamente não tem a ver somente com trajetórias políticas individuais. É uma questão que também nos diz respeito, enquanto movimento de pessoas preocupadas com a questão das drogas.

Dito isso, entraríamos em nosso 2º ponto. Algumas poucas resistências apontam para ele, embora não seja nenhuma novidade: é que estamos diante de uma questão moral, a moral AntiDrogas, que reifica o manicômio como paradigma, inclusive e principalmente entre pessoas que se dizem militantes do SUS. Isso é o mais preocupante: o inimigo mais poderoso somos nós mesmos.

Enquanto escrevo isto, avalia-se ainda um curioso momento da Conferência de Saúde Mental Intersetorial do RS. Muit@s delegad@s aplaudiram a justa supressão de propostas que legitimavam a idealização oportunista das Comunidades Terapêuticas diante do descaso na Saúde. E então, poucos minutos depois, muitas delas, incluindo-se militantes "do SUS", "antimanicomiais" e "emdefesadareforma", votaram contra uma proposta que reconhecia a relevância de marchas de usuários de drogas, como exemplo de instância onde a luta se potencializa, por uma clínica que compreenda a noção de autonomia. Talvez esquecessem que a Conferência na qual estavam também surgira como reivindicação de uma marcha de usuários - mas, em verdade, talvez ocorra que a "clínica da autonomia" pareça ser a grande alucinação (da saúde?) coletiva no momento. Podemos pensar que, se uma clínica da autonomia existisse como muitos a idealizam, certamente seria estranhada de tal maneira que não iria sobrar muita gente por aí a defendendo. Pessoas nas ruas reivindicam sua libertação. Seriam, então, por acaso, as pessoas preocupadas com as drogas, dependentes de pessoas que usam drogas? Se é este o caso, demandaria-se uma campanha educativa. O lema: "Manicomiais ou não - com alguma coisa em comum".

Clínica e política não devem jamais andar juntas, dizem os especialistas. É perigoso e antiético "nos deixar" afetar. Acontece que, seguindo à risca estes entendimentos, o "mundo da droga" ainda está sendo visto como o mundo dos outros, e não como o nosso; e acontece que diante das poucas coisas que conseguimos enxergar, no vasto universo das práticas culturais de usos de drogas (muitas delas infelizmente clandestinas), ainda teimamos em encarar o descaso na Saúde Pública com as drogas como uma mera questão de disputas entre diferentes paradigmas de cuidado. O que está em questão, em verdade, é a disputa entre paradigmas em relação à vida, numa sociedade complexa que demanda a nós (e não às pessoas que julgamos "dependentes") trabalhar nossas próprias dependências e vícios pré-conceituosos. Enquanto isso, resta atentarmos à velha clínica e à velha militância que seguirão resultando destes devires fascistas. Com ou sem RD, CAPS, consultórios de rua, acolhimentos, agenciamentos - e outros conceitos e "estratégias" que, sozinh@s, continuarão legitimando o lucrativo mercado AntiDrogas.

Rafael Gil Medeiros

abril 05, 2010

Aviso aos navegantes: mobilização pelas conferências de saúde mental

Pelo fim dos manicômios
Foto: Rogelio Casado - Manaus-Amazonas-Brasil, 200
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A Marcha dos Usuários e a Conquista da IV Conferência Nacional de Saúde Mental

Após um período de nove anos, e através de várias lutas e reinvindicações de usuários, familiares, trabalhadores e movimentos sociais – em especial, a Marcha dos Usuários á Brasília em 2009, realizada pela Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial e vários parceiros, foi deliberada a realização da IV Conferência Nacional de Saúde Mental Intersetorial. O Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, já homologou a Resolução CNS nº 433, que solicita a convocação da referida conferência que terá como tema central : “Saúde Mental Direito e Compromisso de Todos: consolidar avanços e enfrentar desafios e terá como eixos temáticos : a) Saúde Mental e Políticas de Estado: pactuar caminhos intersetoriais; b) Consolidando a rede de atenção psicossocial e fortalecendo os movimentos sociais; c) Direitos Humanos e cidadania como desafio ético e intersetorial.

Serão incluídos também temas para os sub-eixos: assistência farmacêutica, saúde mental do trabalhador, interdisciplinariedade, saúde mental da pessoa com deficiência mental, saúde mental indígena e reforma psiquiátrica no SUS. Os demais sub-eixos serão discutidos pela Comissão Organizadora da IV Conferência Nacional de Saúde Mental Intersetorial.

O momento exige uma necessária mobilização de todos para que possamos garantir uma construção de políticas de saúde mental que promovam a Reforma Psiquiátrica que acreditamos, contemplado questões fundamentais como a assistência pautada pelo respeito aos direitos dos usuários, pelo cuidado integral e em liberdade, pela assistência em rede complexa de base territorial.

Para a realização da IV da Conferência é necessário um amplo engajamento dos diversos setores da sociedade e a realização de eventos nas diversas esferas. Dessa forma, a Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial – RENILA definiu que cada um de seus núcleos deverá buscar aliados da Reforma Psiquiátrica Antimanicomial (Sindicatos, Conselhos profissionais, etc.) para compor as Comissões Organizadoras das Conferências nas etapas Municipais e Estadual. Além disso, realizar Seminários preparatórios para as conferências que serão realizadas da seguinte forma:

Etapas municipais e/ou Regionais – 08 de março a 15 de abril de 2010;
Etapas estaduais – 26 de abril a 23 de maio de 2010;
Conferência Nacional – 27 a 30 de junho de 2010.

A composição da IV Conferência Nacional de Saúde Mental Intersetorial será de mil e duzentos delegados, sendo 70% formado por representantes da saúde (seguindo critério de paridade estabelecido pelo Decreto 33/2003 do CNS, ou seja, 50% das vagas para usuários, 25% para prestadores de serviço de saúde e gestores e 25% para trabalhadores da saúde) e 30% para representação dos campos intersetoriais.

Com o objetivo de subsidiar as discussões durante nas etapas das conferências, o Fórum Goiano de Saúde Mental, em parceria com a Associação dos Usuários de Saúde Mental do Estado De Goiás – AUSSM e o Conselho Regional de Psicologia, realizará no período de 23 de fevereiro a 06 de abril o curso Empoderamento em Saúde Mental para o Controle Social. Realizará ainda, no dia 11 de março a Mesa: Reforma Psiquiátrica: Avançar para Garantir Direitos.

Contamos com seu envolvimento no processo da IV Conferência Nacional de Saúde Mental Intersetorial. Informe-se e participe!

***

Municípios mineiros - data das Conferências:

•Varginha 16/mar

•Santa Rita do Sapucaí 31/mar

•Itajubá mar

•Campo Belo 25/mar

•Congonhas 26/mar

•Pre-conferência Ribeirão das Neves 27/mar

•São Joaquim de Bicas 27/mar

•Santos Dumont 15/abr

•Ubá 6/abr

•Alfenas 6/abr

•Três Corações 7/abril

•Três Pontas 7/abril

•Sabinópolis 6/abr

•Itabira 8/abr

•Boa Esperança 8/abr

•Cataguases 9/abr

•Juiz de Fora 9/abr

•Gov. Valadares 9/abr

•Uberlândia 9/abr

•Barbacena 9/abr

•Betim 9/abr

•Ibirité 9/abr

•Ipatinga 10/abr•

Igarapé 10/abr

•Teófilo Otoni 12/abr

•Ribeirão das Neves 16/abr

•Belo Horizonte 22/abr

•Contagem 22/abr

•Diamantina 15/abr

•Ouro Branco 15/abril

•Sabará 16/abril

•Patos de Minas 7/mai

•Esmeraldas a confirmar

•Ouro Preto 13/abril

•Juiz de Fora 8/abril

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Municípios gaúchos - data das Conferências:

*Pelotas/RS 9 pré-conferências descentralizadas e 1 conferência municipal em 8/abril.

*S. Lourenço dia 10/abril

*Canguçu 13/abril

*Santa Vitória do Palmar e Chuí 14/abril

*Jaguarão 15

*Rio Grande 14/abril

*Piratiní, Pinheiro Machado e Pedras Altas 14/abril

*São José do Norte 12/abril

*Turuçú, Morro Redondo e Arroio do Padre 13/abril

*Capão do Leão 14/abril

*Santa Maria 09/abril

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Municípios paulistas - data das Conferências:

*Jandira 24/março

*Santo André 26/março

*Capivari 27/março

*São Sebastião 30/março Conferência Regional do Litoral Norte, com participação dos Municípios de Caraguatatuba, Ilha Bela, São Sebastião e Ubatuba

*Itupeva 30/março

*Botucatu 30/março

*Santos 31/março

*Santo Antonio da Posse 06/abril

*Guarulhos 06/abril

*Araras 08/abril

*São Paulo 08/abril

*São Vicente 08/abril

*Carapicuíba 09/abril

*Diadema 09/abril

*São Bernardo do Campo 09/abril

*Mauá 10/abril

*Americana 10/abril

*Igaratá 13/abril Conferência Cegional do Alto do Vale (Vale do Paraíba), com a participação dos Municípios de Caçapava, Igaratá, Jacareí,Monteiro Lobato, Jambeiro, Santa Branca, Paraíbuna e São José dos Campos

*Embu das Artes 13/abril

*Rio Grande da Serra 17/abril

Municípios paraibanos - data das Conferências:

*Cabedelo 25/março

*Conferência Macro-Regional Metropolitana 30/março

*Barra de Santa Rosa 07/abril

*Guarabina 08/abril

*Campina Grande 12/abril

*Itaporanga 14/abril

*Queimadas 14/abril

*Conferência Estadual de Saúde Mental Intersetorial da Paraíba 12/maio

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Municípios catarinenses - data das Conferências:

*Joinville 09/abril (com participação dos municípios de Jaraquari, Balneário Barra do Sul, Barra Velha, Guaruva, Itapoá, São Francisco do Sul e São João do Itaperiú

*Conferência Regional da Grande Florianópolis 22/abril

*Conferência Estadual de Saúde Mental Intersetorial de Santa Catarina 19/maio

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Municípios pernambucanos - data das Conferências:

*Camaragibe 15/abril

*Petrolina 9/abril (Bahia+Pernambuco) Conferência Interestadual do Submédio do Vale do São Francisco