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agosto 06, 2010

Sugestão de leitura para a companheira Dilma, no quesito substâncias psicoativas


Carta pró Cannabis Sativa - Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento
Um grupo de neurocientistas que estão entre os mais renomados do país escreveu uma carta pública para defender a liberalização da maconha não só para uso medicinal, mas para consumo próprio, informa Eduardo Geraque em reportagem publicada na edição desta quarta-feira da Folha (íntegra disponível para assinante do UOL e do jornal). A motivação do documento foi a prisão do músico Pedro Caetano, baixista da banda de reggae Ponto de Equilíbrio, que ganhou repercussão na internet. Ele está preso desde o dia 1º sob acusação de tráfico por cultivar dez pés de maconha e oito mudas da planta em casa, em Niterói (RJ). Segundo o advogado do músico, ele planta a erva para consumo próprio. Os cientistas falam em nome da SBNeC (Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento) , que representa 1.500 pesquisadores. De acordo com os membros da sociedade, existe conhecimento científico suficiente para, pelo menos, a liberalização do uso medicinal da maconha no Brasil. Veja a íntegra da carta:


A planta Cannabis sativa, popularmente conhecida como maconha, é utilizada de forma recreativa, religiosa e medicinal há séculos, mas só há poucos anos a ciência começou a explicar seus mecanismos de ação. Na década de 1990, pesquisadores identificaram receptores capazes de responder ao tetrahidrocanabinol (THC), princípio ativo da maconha, na superfície das células do cérebro. Essa descoberta revelou que substâncias muito semelhantes existem naturalmente em nosso organismo, permitiu avaliar em detalhes seus efeitos terapêuticos e abriu perspectivas para o tratamento da obesidade, esclerose múltipla, doença de Parkinson, ansiedade, depressão, dor crônica, alcoolismo, epilepsia, dependência de nicotina etc. A importância dos canabinóides para a sobrevivência de células-tronco foi descrita recentemente pela equipe de um dos signatários, sugerindo sua utilização também em terapia celular. Em virtude dos avanços da ciência que descrevem os efeitos da maconha no corpo humano e o entendimento de que a política proibicionista é mais deletéria que o consumo da substância, vários países alteraram, ou estão revendo, suas legislações no sentido de liberar o uso medicinal e recreativo da maconha. Em época de desfecho da Copa do Mundo, é oportuno mencionar que os dois países finalistas, Espanha e Holanda, permitem em seus territórios o consumo e cultivo da maconha para uso próprio. Ainda que sem realizar uma descriminalizaçã o franca do uso e do cultivo, como nestes países, o Brasil, através do artigo 28 da lei 11.343 de 2006, veta a prisão pelo cultivo de maconha para consumo pessoal, e impõe apenas sanções de caráter socializante e educativo. Infelizmente interpretações variadas sobre esta lei ainda existem. Um exemplo disto está no equívoco da prisão do músico Pedro Caetano, integrante da banda carioca Ponto de Equilíbrio. Pedro está há uma semana numa cela comum acusado de tráfico de drogas. O enquadramento incorreto como traficante impede a obtenção de um habeas corpus para que o músico possa responder ao processo em liberdade. A discussão ampla do tema é necessária e urgente para evitar a prisão daqueles usuários que, ao cultivarem a maconha para uso próprio, optam por não mais alimentar o poderio dos traficantes de drogas. A Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNeC) irá contribuir na discussão deste tema ainda desconhecido da população brasileira. Em seu congresso, em setembro próximo, um painel de discussões a respeito da influência da maconha sobre a aprendizagem e memória e também sobre as políticas públicas para os usuários será realizado sob o ponto de vista da neurociência. É preciso rapidamente encontrar um novo ponto de equilíbrio.

Cecília Hedin-Pereira (UFRJ, diretora da SBNeC)
João Menezes (UFRJ) Stevens Rehen (UFRJ, diretor da SBNeC)
Sidarta Ribeiro (UFRN), diretor da SBNeC)

 ***

 

Maconha, porta de saída?, por Marcos Rolim*

A epidemia de crack é um dos fenômenos mais sérios na interface entre saúde pública e segurança. O que a faz particularmente grave é a reconhecida dificuldade de superar a dependência química. Pois bem, a Universidade Federal de São Paulo realizou pesquisa com 50 dependentes químicos de crack que foram submetidos a um tratamento experimental de redução de danos. Sob a coordenação do psiquiatra Dartiu Xavier, o grupo foi tratado com maconha. Daquele total, 68% trocou o crack pela maconha. Ao final de três anos, todos os que fizeram a troca não usavam mais qualquer droga (nem o crack, nem a maconha). Anotem aí: todos.

Imaginei que, com a divulgação destes resultados por Gilberto Dimenstein, na Folha de S. Paulo em 24 de maio, haveria grande interesse sobre o estudo. Nada. A resposta ao mais impressionante resultado de superação da dependência de crack no Brasil foi o silêncio. O uso medicinal da maconha tem sido admitido em dezenas de países, inclusive nos EUA. Por aqui, o tema segue interditado pela irracionalidade. É evidente que o consumo de maconha pode produzir efeitos danosos. Sabe-se que o abuso pode conduzir o usuário a problemas de concentração e memória e que em determinadas pessoas o uso está correlacionado à precipitação de surtos esquizofrênicos. Daí a criminalizar seu consumo e impedir experiências destinadas ao uso medicinal vai uma distância que tende a ser percorrida pela intolerância e pelo obscurantismo.

O psicofarmacologista Eduardo Carlini sustenta que o princípio ativo da maconha pode ser útil no combate à depressão e ao estresse. O mesmo tem sido dito por cientistas quanto ao tratamento do glaucoma, da rigidez muscular causado pela esclerose múltipla, ou como apoio aos pacientes com Aids, aos que sofrem do mal de Parkinson e aos que se submetem à quimioterapia em casos de câncer. Estudo da USP com pacientes que ingeriram cápsulas de canabidiol, um dos compostos encontrados na erva, demonstrou resultados positivos no tratamento da fobia social e na redução da ansiedade.

As oportunidades abertas por estudos do tipo, entretanto, assim como a necessária pesquisa, estão impugnadas no Brasil por um discurso preconceituoso e por uma legislação ineficiente e estúpida. Seguimos repetindo que a maconha é “a porta de entrada” para o consumo de drogas mais pesadas, o que pode traduzir tão-somente uma “falácia ecológica” (quando se deduz erroneamente a partir de características agregadas de um grupo), vez que o universo de consumidores de maconha é muitas vezes superior ao grupo dos dependentes de drogas pesadas que se iniciaram pela cannabis. Em outras palavras: é possível que a maconha seja mais amplamente uma opção alternativa às drogas pesadas e não uma droga de passagem. Independentemente disto, é possível que a maconha seja uma porta de saída para a dependência química por drogas pesadas. O que, se confirmado, será uma ótima notícia.

*Jornalista
*
texto com a crítica

A nova polêmica da maconha

Especialistas criticam pesquisador paulista que defende uso da droga como terapia para derrotar crack



A pesquisa paulista que aponta a maconha como remédio para derrotar o vício em crack é considerada inválida e até mesmo irresponsável na comunidade científica brasileira. O assunto ganhou repercussão no fim de semana, quando o trabalho foi citado pelo jornalista Marcos Rolim em artigo da edição dominical de Zero Hora.

No texto intitulado Maconha, porta de saída?, Rolim afirma que a pesquisa representa o “mais impressionante resultado de superação de crack no Brasil”, critica a falta de repercussão que ela teve e utiliza o estudo para defender o uso medicinal da maconha. O artigo motivou forte reação de leitores. Vários enviaram e-mails de protesto ao jornal.

A pesquisa citada por Rolim foi realizada pelo psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, diretor do Programa de Orientação e Tratamento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A experiência consistiu em oferecer maconha a um grupo de 50 usuários de crack. Conforme os dados, 68% haviam trocado de droga depois de seis meses. Após um ano, quem fez a substituição deixou também a maconha. Em reportagem recente da Folha de S.Paulo, Silveira descreveu o experimento como “um sucesso”.

– A dependência de maconha é muito menos agressiva do que a do crack. Nesses casos, a maconha funcionou como porta de saída do vício – disse o pesquisador.

Não é o que pensam especialistas em dependência química. Ex-presidente e atual membro do conselho consultivo da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), o psiquiatra gaúcho Sérgio de Paula Ramos é enfático na hora de criticar o trabalho de Silveira. Ele cita um episódio ocorrido em um Congresso Brasileiro de Psiquiatria, alguns anos atrás, na época em que o experimento foi divulgado. Ramos e Silveira foram agendados para uma mesma mesa, durante a qual discutiriam. Segundo o gaúcho, Silveira, que estava presente no congresso, não apareceu e “escapou do debate científico sério”.

– Ele não teve peito de ir. O experimento não tem a menor credibilidade científica. Foi muito criticado quando veio a público, anos atrás. Foi feito com poucas pessoas, seguidas durante pouco tempo. Dizer que a maconha pode fazer algum bem beira a irresponsabilidade. É dar as costas para a ciência – diz Ramos.




Psiquiatra diz que estudo é contestado na metodologia



Conforme ele, chefe da unidade de dependência química do Hospital Mãe de Deus, há uma biblioteca inteira de trabalhos científicos brasileiros e internacionais demonstrando que a maconha é prejudicial à saúde e serve de porta para drogas mais pesadas.

– O brasileiro começa com álcool. Quem evolui para as drogas ilícitas passa primeiro pela maconha e depois para a cocaína. Em 40 anos, nunca tratei um usuário de cocaína e de crack que não tivesse começado pelo álcool e pela maconha – afirma.

O psiquiatra Félix Kessler, do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), também afirma que o estudo de Silveira é muito contestado em termos metodológicos. Uma das falhas seria o trabalho não levar em conta se outros fatores, como família e emprego, conduziram os dependentes observados à abstinência.

– Do jeito como o estudo foi feito, não é possível dizer que foi a maconha que fez os pacientes deixarem de usar crack, como dá a entender – disse Kessler.

Ontem, Zero Hora não conseguiu contato com Dartiu Xavier da Silveira.



Fonte:02/08/2010 - Zero Hora

***

 

EM DEFESA DA CIÊNCIA

Dartiu Xavier da Silveira
Doutor em Psiquiatria e Psicologia médica

A maconha tem sido utilizada há séculos por suas propriedades terapêuticas e seu uso medicinal vem crescendo progressivamente em diversos países (EUA, Canadá, entre outros) graças à possibilidade de  verdadeiros pesquisadores testarem suas hipóteses. É assim que caminha o avanço científico. Em inúmeras áreas, principalmente na medicina, observamos, felizmente, que barreiras moralistas e preconceituosas são derrubadas dando lugar a descobertas muito importantes para a humanidade. É o caso dos estudos com as células-tronco. No campo da dependência de drogas o cenário é o mesmo. Não haverá evolução no tratamento de dependentes e usuários pesados de drogas se permanecermos fechados a preconceitos. Este comportamento pautado em ideologias é na sua essência anti-científico! Têm sido muito animadores os resultados obtidos a partir de centenas de pesquisas científicas sérias comprovando a eficácia do uso de princípios ativos da maconha no tratamento de múltiplas doenças tais como glaucoma, dor crônica, ansiedade, câncer, AIDS e esclerose múltipla. Nos países verdadeiramente abertos à pesquisa e ao desenvolvimento da medicina os doentes que sofrem destes males já podem contar com os benefícios destes resultados incorporados ao seu tratamento. 

Enquanto pesquisador da Universidade Federal de São Paulo, há muitos anos oriento teses e publico artigos sobre o potencial terapêutico da cannabis. A investigação deste potencial terapêutico obviamente não implica em não reconhecermos os riscos e danos relacionados ao uso indevido desta droga. Desta forma, causou-me surpresa tomar conhecimento da polêmica que se instalou no jornal Zero Hora, no último final de semana, a partir de um trabalho de minha autoria publicado há mais de dez anos em uma conceituada revista científica americana sobre o uso terapêutico de cannabis em dependentes de crack (Journal of Psychoactive Drugs, 1999). Maior espanto foi constatar que fui atacado pelo médico Sergio de Paula Ramos ao dizer que eu teria “fugido” de uma discussão sobre o tema em um congresso científico “escapando do debate científico sério”, tendo ele ainda acrescentado “Ele não teve peito de ir. O experimento não tem a menor credibilidade científica. Foi muito criticado quando veio a público, anos atrás. Foi feito com poucas pessoas, seguidas durante pouco tempo. Dizer que a maconha pode fazer algum bem beira a irresponsabilidade. É dar as costas para a ciência”.

Inicialmente gostaria de esclarecer que, contrariamente ao que afirmou o médico, não havia nenhuma discussão agendada, mas tão somente uma mesa redonda onde alguns trabalhos seriam apresentados, entre os quais o meu e o dele. Por um problema de organização do evento, foram equivocadamente programadas duas atividades simultâneas nas quais eu participaria. Diante do ocorrido, optei por estar presente na outra atividade, de maior relevância científica que a mesa referida, e solicitei a um colega que fizesse a apresentação do trabalho em meu lugar. A propósito, recordo-me de que a participação de Sergio de Paula Ramos, ao apresentar seu trabalho nesta mesa redonda, foi muito comentada durante o evento (Congresso Brasileiro de Psiquiatria) pelo seu conteúdo ideologicamente tendencioso e uso de linguagem pejorativa, onde ele inclusive se referia aos dependentes de maconha como “maconheiros”, comportamento inaceitável em um evento cientifico sério.  

O artigo que publiquei em 1999 tem ocasionalmente sido objeto de ataques e críticas descabidas lançadas por indivíduos que, ao fazê-las  da forma como fazem, denotam sua total ignorância sobre o estudo realizado. Claramente, demonstram sequer terem lido o trabalho! 

Gostaria de esclarecer que, efetivamente, trata-se tão somente de um estudo observacional onde apenas constato um fenômeno espontâneo que ocorre entre dependentes de crack: o uso da maconha na tentativa de se manterem abstinentes desta droga. O acompanhamento destes dependentes mostrou, surpreendentemente, que a partir de sua iniciativa de utilizar esta estratégia (substituir crack por maconha) 68 % destes dependentes conseguiram abandonar o uso de crack. Posteriormente deixaram também de utilizar a maconha. 

Finalmente, quanto à seriedade científica deste trabalho, ele não somente foi aceito para publicação em uma reconhecida revista científica americana como foi elogiado por pesquisadores nacionais e internacionais de grande prestigio na comunidade científica acadêmica. 

Não se trata de ser contra ou a favor do uso de maconha. Trata-se, sim, de ampliar o conhecimento que temos sobre as propriedades neuroquímicas das substâncias e seus efeitos no cérebro de forma a permitir o desenvolvimento de novos tratamentos com maior eficácia. A postura científica de pesquisa pressupõe isenção de crenças pessoais, preconceitos e ideologias, o que eventualmente nos coloca frente a constatações surpreendentes.

Não entendo porque este jornal publicou as críticas inusitadas destes “especialistas” sobre a minha pessoa e sobre a qualidade científica deste meu trabalho sem consultar minha opinião a respeito e sem paralelamente submetê-las ao julgamento de referências renomadas e verdadeiros especialistas no campo das dependências em nosso meio. O Brasil conta com grandes pesquisadores na área de drogas, com projeção internacional, que têm opiniões bastante diferentes das divulgadas neste jornal, além de se destacarem por uma postura eticamente  impecável.

 ***

Reflexões sobre a Carta pró Cannabis Sativa - Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento


A carta da Sociedade Brasileira de Neurociência traz uma argumentação bem feliz, e me parece que os diálogos entre os que desejam se apropriar dessa demanda em direitos humanos pra vender remedinho, com os jardineiros guerrilheiros deste Brasil, que têm condições de tocar as plantações, estão se aprimorando. Começam-se a escutar entre si as demais forças, movimentos sociais.. Isso é muito bom. É bom saber que mais pessoas acham um absurdo alguém ser preso por usar drogas ou plantar para consumo próprio. Ponto.

E, diante disso, entram pautas para o movimento das pessoas que são usuárias das políticas públicas de drogas. Para quem se interessa nisso, claro.

É provável que os EUA, país que sustenta tão apaixonadamente o genocídio em nome do combate às drogas em acordos internacionais, irão reformar sua política de proibição de algumas drogas - e da pior forma possível. Se somos críticos aos figurões que eles enviam às bancadas da UNODC e demais instâncias, temos que ver onde e como elas se reproduzem por aqui também.

Dito isto, temos que ter um cuidado muito especial com o modo em que construiremos estas políticas de regulamentação. O mundialmente relevante lobby estadunidense, como consta no modelo de "legalização" do Prop-19 que será votado em novembro desse ano na Califórnia, impele a um tipo de regulamentação do plantio que em nada muda a atual condição de desrespeito aos livres usos do corpo, contando com taxações e demais abusos de ingerência estatal (e privada também, já que o "estatal" aqui é atravessado pelo lobby). Dentre os estados (já são aproximadamente 15) que reconhecem a "Maconha Medicinal" há até o pagamento de anuidade de U$200 para a posse de um cartão/registro individual de acesso aos dispensários/

farmácias, abastecidas pelas empresas de jardinagem. Nada contra o comércio canábico, que é lindo - são muitas as variedades para deleitarem-se os especialistas, e nem todo mundo pode ou quer plantar, etc.

Ocorre que lá pelas tantas, quando o "apoio" de megainvestidores passou a ser mais visível dentro do movimento de legalização, um dos estados (Texas) regulamentou o plantio com alguns tópicos bem interessantes: por exemplo, proibia-se o cultivo caseiro para pessoas que viviam a até 25 milhas de distância de um "dispensário" (botica de maconha). Desde então algumas pessoas começaram a dividir as coisas e a questionar. Não acho que precisamos chegar a este ponto pra amadurecer nossa luta.

A militância por lá gerou divisões que até nomes ganharam: os "utópicos", que defendem legalização radical (radical significando o respeito aos direitos humanos, ok?), e os "incrementalistas"
, que falam no tal "processo, passo a passo", abraçando sem cerimônias as idéias de proibição do cultivo caseiro e a taxação e regulação pesada de compra e venda. E, a todas estas, entram os saberes técnico-científicos, na sua função de sempre, legitimando a lógica do capital sob os mantos da neutralidade. Um dos caras que fazem essa crítica é o Bruce Cain, que expõe tudo em detalhes no que acompanha em anos de luta... Ele, que é visto por alguns figurões como um "rebelde sem causa" e "sabotador" das "reformas", fez uma cagoetagem bem pertinente:

Incrementalistas: Chris Conrad (NORML), Kevin Stroup (NORML), Allen St. Pierre (NORML), Rob Kampia (MPP), Ethan Nadleman (DPA), Marc Emery (2010, Cannabis Culture).

Utópicos: Bruce Cain, Jack Herer, Eddy Lepp, John Sinclair, Ron Kasinsky, Dennis Peron

Ethan Nadelman é o mesmo sujeitinho que a Esclarecida ABRAMD fez a façanha de convidar pra falar sobre """novas""" políticas de drogas, na primeira vez em que, repentinamente, reconheceu a "relevância do tema". Sua Drug Policy Aliance apóia algumas ONGs pró-legalização na América Latina, dentre elas a Psicotropicus no RJ. Sempre lembro que George Soros, um dos megainvestidores ligados à DPA, ao mesmo tempo em que "milita", também apóia benevolentemente uma rede inteira de boticas, pra vender "maconha medicinal". Não sei avaliar as implicações dessa rede, mas os devires do mercado simplesmente se encontram, não necessariamente são interligados/
organizados... Sobretudo, não falo aqui nenhuma novidade.

Mas sabemos que aqui é Brasil e as políticas de saúde são outras; aqui saúde é direito constitucional e o buraco é mais embaixo. Só acho que, enquanto ativista canábico, é ótimo ver pessoas se revoltando com os abusos da proibição. Mas penso que, se os cientistas querem brincar de fazer "remédio de THC" e, para isso, estão dependentes do seu delírio apaixonado sobre a Segurança Universal da Verdade e coisa que o valha, tudo bem - desde que não façam da legalização uma maneira de regulamentar a mesma condição opressora que, hoje, opera na clandestinidade. Em outras palavras, se não estivermos atent@s, a opressão que hoje sofremos da polícia em forma de punição moral pode ser traduzida para a lei - tudo embasado cientificamente, de acordo com todas as perversidades possíveis em nome da preocupação com a "saúde pública".

E então entra um ponto interessante que o Bruce Cain coloca no ar, para reflexão: 70% dos lucros dos "cartéis mexicanos" nos EUA são ligados à marijuana vendida nas ruas. Acho que Jorge Atílio poderia enriquecer muito esse debate, pensando o lugar do Brasil enquanto grande país produtor deste cultivo ilícito e os tensionamentos disso com as eventuais apropriações industriais sobre o THC (laboratórios tb são indústrias).

Algum ponto positivo? Claro: estamos avançando. Mas que possamos aproveitar disso e tomar posições, sem conservadorismos, sem ver a banda passar. Que possamos estar juntos na causa da jardinagem (grower não é traficante!)
, e mantendo o respeito...

Rafael Gil Medeiros

maio 12, 2010

Como os pobres deste país ajudaram os ricos a enfrentar a crise: consumindo

Foto postada em Carta Maior

"Consumo dos pobres ajudou país a enfrentar crise dos ricos"

Em discurso proferido na abertura do Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar, Combate à Fome e Desenvolvimento Rural, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou a contribuição das políticas sociais do governo brasileiro no enfrentamento da crise econômica internacional. "O dado concreto é que passados alguns anos veio a crise econômica mundial e ficou provada uma coisa, para que os pesquisadores publiquem por muito tempo: foi a capacidade de consumo dos pobres que fez a economia brasileira resistir à crise dos países ricos", disse Lula.
Redação

No dia 10 de maio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou a realização da reunião Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar, em Brasília, para fazer um balanço das políticas sociais implementadas pelo governo brasileiro nos últimos anos. Lula falou sobre as dificuldades, resistências e preconceitos enfrentados no início e sobre como os resultados de hoje mostram o acerto do caminho adotado. Após receber o prêmio da ONU “Campeão do Mundo na Batalha Contra a Fome”, o presidente lembrou que foi o consumo das classes menos favorecidas um dos responsáveis pelo fortalecimento da economia nacional, que se descolou do cenário internacional e sofreu menos com os efeitos da crise econômica mundial.

“A classes D e E do Norte e do Nordeste consumiram mais que as classes A e B do Sul e Sudeste, ou seja, os pobres foram à luta para comprar. (…) O que nós fizemos foi garantir um pouquinho para muita gente. E os pobres, que antes ficavam à margem, viraram gente de classe média e compraram coisas que só parte da classe media podia comprar”, destacou Lula. O presidente resumiu assim as dificuldades enfrentadas no início da implementação de programas como o Bolsa Família:

"Tinha gente que falava assim para mim: “Por que o presidente Lula vai criar o programa Fome Zero, gastar R$ 12 bilhões se isso daria para fazer pontes, fazer estradas?” Na verdade, daria para fazer pontes e fazer estradas. Mas naquele momento, o mais importante do que uma ponte era colocar comida na barriga de uma criança, era colocar comida na barrida de uma mulher ou de um homem que estava fragilizado. E a gente não poderia vacilar entre os discursos daqueles que são contra e a realidade. O dado concreto é que passados alguns anos veio a crise econômica mundial e ficou provada uma coisa, para que os pesquisadores publiquem por muito tempo: foi a capacidade de consumo dos pobres que fez a economia brasileira resistir à crise dos países ricos..."

Publicamos a seguir o discurso proferido pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de abertura do Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar, Combate à Fome e Desenvolvimento Rural (Palácio Itamaraty, 10 de maio de 2010).

Quero dizer para vocês da alegria imensa de vocês terem aceito o convite nosso para participar deste debate sobre a relação África-Brasil e a questão da segurança alimentar.

Eu queria começar contando um caso para vocês. Hoje, graças a Deus, eu não tenho discurso. Tenho apenas aqui alguns pontos de conversação, e eu penso que vai ser mais rápido, não vou tomar muito o tempo de vocês. De vez em quando o improviso faz com que a gente utilize muito mais tempo do que se tivesse o discurso por escrito. Mas, de qualquer forma, eu vou compreender que vocês viajaram muito para chegar aqui, atravessaram o Atlântico e, portanto, o fuso horário deve estar mexendo com a cabeça de vocês.

Então, eu vou começar contando uma história, das dificuldades das relações entre os estados. Eu não vi aqui o meu ministro Eloi, companheiro ministro da Igualdade Racial. Eu tinha aproximadamente três meses de mandato na Presidência da República do Brasil, quando o presidente Wade, do Senegal, me liga pedindo ajuda do Brasil para que lhe enviasse um avião, chamado Ipanema, para enfrentar uma praga de gafanhotos que se aproximava do Senegal. Eu fiquei muito entusiasmado porque era o meu primeiro gesto de solidariedade com um país africano, e decidimos, então, mandar o avião. Entre decidir mandar o avião e o avião chegar lá, levou seis meses. A praga de gafanhotos já tinha comido todo o milharal, e o avião... Foi para lá, está lá. Eu espero que tenha combatido outras pragas de gafanhotos, mas aquela não deu porque eu não sabia que, para dar um avião, tinha que passar pelo Congresso Nacional, tinha que debater não sei das quantas, e demorou muito.

Eu estou dizendo isso apenas para mostrar para vocês que, muitas vezes, a gente toma as decisões – vocês, do lado de vocês; nós, do nosso lado; os americanos, do lado deles; os europeus, do lado deles – e até a gente concretizar as coisas, leva um tempo muito grande. Para quem está com fome, para quem está sofrendo muito e para quem precisa comer as calorias e as proteínas necessárias, são tempos intermináveis que, muitas vezes, não chegam a tempo de as pessoas sobreviverem. Esse é um assunto que eu quero discutir com vocês.

"A gente pensa de acordo com o chão que os nossos pés pisam".
Eu queria, antes, agradecer o prêmio que eu recebi. Eu penso que cada dirigente, no mundo, ou melhor, cada um de nós, a gente pensa de acordo com o chão que os nossos pés pisam. Se os dirigentes políticos do mundo não estiverem, cotidianamente, comprometidos com as pessoas que estão em pior situação no seu estado e no seu país, fica mais difícil a gente tomar decisão em benefício dos mais pobres. A verdade é que, normalmente, nós somos eleitos pelos mais pobres, mas quando a gente ganha as eleições, quem tem acesso ao gabinete dos dirigentes não são os mais pobres, são os mais ricos. E, muitas vezes, o orçamento da União é feito para aquelas pessoas na sociedade que já estão organizadas e que, portanto, fazem uma pressão sobre o governo, e o orçamento é dividido normalmente para a parte organizada da sociedade e, quando a gente vai ver, não sobra nada para a gente fazer política para aqueles que não têm sindicato, para aqueles que não vão à capital, para aqueles que não fazem passeata, para aqueles que não têm sequer o direito de protestar porque não têm como protestar.

Esse é um desafio que está colocado para as gerações de dirigentes do século XXI: é ter claro que o combate à pobreza só será vencido se houver determinação, se houver uma determinação de prioridade na política orçamentária de cada país, de tratar a questão da fome como coisa prioritária. Se a gente esperar sobrar dinheiro no orçamento para cuidar da fome, nunca vai sobrar, porque os que têm acesso ao orçamento são gananciosos e querem todo o dinheiro para eles, e não fica nada para os pobres. Essa é uma experiência muito rica que eu vivi aqui no Brasil.

A segunda coisa importante, meu caro Diouf, é que os dirigentes políticos do mundo precisam definir que não tem nada mais importante para cada país, não tem nada mais importante para cada povo do que a segurança alimentar, como a forma mais extraordinária de garantir a soberania e a autodeterminação dos povos. Se um país tiver a arma mais poderosa que tiver, mas ele não tiver a comida de cada dia, do seu povo, plantada no seu território ou comprada fora, esse país não tem soberania.

"Quem tem fome não pensa, a dor do estômago é maior do que muita gente imagina".
Então, a segurança alimentar precisa ser vista como uma questão de soberania de cada país. Nós temos que garantir a cada cidadão do nosso país que ele possa ter o café da manhã, o almoço e a janta todos os dias, porque isso é o que permite às pessoas terem tempo de pensar no que fazer no dia seguinte. Quem tem fome não pensa, a dor do estômago é maior do que muita gente imagina. E as pessoas que têm fome não viram revolucionárias, elas viram submissas, elas viram pedintes, elas viram dependentes. Portanto, a fome não faz o guerreiro que nós gostaríamos que fizesse. A fome faz um ser humano subserviente, humilhado e sem forças para brigar contra os seus algozes, que são responsáveis pela fome.

Em terceiro lugar, é importante que a gente tenha clareza... eu estava ouvindo o discurso do companheiro Diouf e estava prestando muita atenção. Nenhum ser humano do mundo é contra os pobres, nem nos nossos países. Vocês nunca viram, numa campanha política eleitoral em cada país africano, em cada país latino-americano, em cada país do mundo, um candidato fazer campanha defendendo os ricos contra os pobres.

Normalmente, a campanha é feita, todo mundo defendendo os pobres, até o rico que é candidato. O problema é que na hora de governar, o pobre sai da agenda e o rico permanece na agenda. São eles que indicam ministros, são eles que indicam assessores, ou seja, são, na maioria das vezes, eles que determinam a política que você tem que fazer.



Como mudar isso para que a gente possa garantir um mundo de paz, um mundo sem fome, um mundo com mais educação, um mundo com mais desenvolvimento? Qual é a lógica que explica a África, que é o berço da Humanidade, chegar ao século XXI ainda como o continente mais atrasado na questão do combate à miséria e à fome? Qual é a explicação sociológica, qual é a explicação econômica, mesmo quando o continente africano foi ocupado por nações extremamente ricas? Ao conquistar a independência, muitos países africanos continuaram pobres depois da independência, como foi o caso do nosso querido país, como é o caso de todos na América do Sul, em que os colonizadores foram embora, depois de levar grande parte da riqueza existente no país, e nós continuamos pobres.

"Nós temos apenas um mar de obstáculosentre nós"
Bem, essa lição eu aprendi aqui no Brasil. Nós precisamos aprender a nos conhecer melhor para que a gente possa tomar decisões a partir da nossa realidade, a partir da nossa similaridade, a partir daquilo que a gente pode produzir e construir juntos, e, na maioria das vezes, nós não fizemos isso. No século XX, possivelmente o Brasil tenha se preocupado mais com a sua relação com os europeus e com os americanos, e vocês também, com os europeus e com os americanos. A nossa relação era um pouco estranha, mesmo nós sendo tão parecidos, mesmo nós tendo tanta coisa em comum, a verdade é que nós tínhamos outros parceiros, tínhamos outras expectativas e outra esperança.

Bem, nós já fizemos um primeiro encontro Brasil, América do Sul e África, que a ideia era tentar fazer os dois continentes se enxergarem. Nós temos apenas um mar de obstáculo entre nós, e o mar termina sendo um ponto que facilita a nossa relação e não um ponto que dificulta a nossa relação. Já fizemos dois encontros. Certamente, ainda não colhemos aquilo que era necessário colher mas, certamente, países que nunca tinham ido à África já foram à África, já participaram de encontros com a África e já não acham o continente africano tão estranho a eles. Da mesma forma, os africanos que jamais imaginaram ter ido à Venezuela participar de um encontro, certamente passaram a conhecer outros povos e outros países. E começar a discutir outras possibilidades, aprofundar, de forma meticulosa, o que nós poderemos fazer uns pelos outros.

Bem, nós acabamos de perder um guerreiro, o presidente Yar’Adua, da Nigéria, que visitou o Brasil em julho do ano passado, já não está mais entre nós. Ele era um homem que veio conversar comigo e veio dizer, categoricamente, que ele estava disposto a fazer com que a Nigéria olhasse mais para a relação Sul-Sul, para ver se nós poderíamos construir o que não foi construído no século XX. Eu espero que quem vier para o governo continue pensando nessa mesma trajetória, pensando nesse [com esse] mesmo olhar para o Sul-Sul, porque nós nos olhamos muito pouco no século passado.

Eu já disse a vocês que a África é prioridade na minha relação. Eu já visitei... eu devo terminar o meu mandato visitando 25 países africanos. Isso é mais do que tudo o que já foi visitado por todos aqueles que governaram o Brasil desde que Cabral chegou ao Brasil, em 1500, para descobrir o Brasil. Eu espero que outros presidentes que venham a governar o Brasil viajem mais, viajem mais do que eu e viajem mais países do que eu, para que a gente possa descobrir o potencial que existe nas nossas relações, e trabalhar com a ideia firme e a convicção de que o século XXI tem que ser o século do renascimento africano. Isso só será possível se nós acreditarmos e se nós trabalharmos para isso. Não é possível acontecer alguma coisa se nós não quisermos que aconteça.

Eu lembro perfeitamente bem, e vou dar esse testemunho para vocês, que quando nós começamos a pensar o projeto Fome Zero e depois pensar o programa Bolsa Família – o Graziano está aqui –, nós tivemos muita adversidade. Adversidade numa parte da elite política brasileira, que dizia que dar dinheiro na mão de pobre era proselitismo, era compra de voto, era favor, era... tem todos os adjetivos que vocês possam imaginar. Depois, a incompreensão de alguns que diziam: “Se você vai dar R$ 100 para um pobre, ele não vai querer mais trabalhar, ele não vai querer mais trabalhar, vai virar um vagabundo”. Era isso que diziam. “Ele vai tomar cachaça, ele não vai querer mais trabalhar”. E nós tivemos que enfrentar esse preconceito. O Graziano, que foi o primeiro ministro, Diouf, tinha hora que eu tinha ficar paparicando ele aí, para ninguém desistir, porque a pressão era para desistir, a pressão era que cuidar de pobre não podia. Tinha gente que falava assim para mim: “Por que o presidente Lula vai criar o programa Fome Zero, gastar R$ 12 bilhões se isso daria para fazer pontes, fazer estradas?” Na verdade, daria para fazer pontes e fazer estradas. Mas naquele momento, o mais importante do que uma ponte era colocar comida na barriga de uma criança, era colocar comida na barrida de uma mulher ou de um homem que estava fragilizado. E a gente não poderia vacilar entre os discursos daqueles que são contra e a realidade.

"Foi a capacidade de consumo dos pobres que fez a economia brasileira resistir à chamada crise dos países ricos".
O dado concreto é que passados alguns anos veio a crise econômica mundial e ficou provada uma coisa, para que os pesquisadores publiquem por muito tempo: foi a capacidade de consumo dos pobres que fez a economia brasileira resistir à chamada crise dos países ricos. Os pobres do Norte brasileiro e do Nordeste consumiram mais. As Classes D e E do Norte e do Nordeste consumiram mais do que as classes A e D da região Sul e Sudeste. E os pobres foram à luta comprar coisas que, até então, eles não estavam habituados a comprar. Porque quem tem muito dinheiro, quem tem muito dinheiro dá US$ 30, US$ 40 de gorjeta, depois de tomar dez uísques no restaurante. Mas quem não tem nada e pega US$ 40, é capaz de levar comida para seus filhos comerem durante 20 dias ou 30 dias, é capaz de fazer a multiplicação dos pães, é capaz de garantir o sustento de uma família. Esse é um dos milagres que aconteceram neste país.

Neste país, eles diziam: “Nós não podemos aumentar o salário mínimo, porque o salário mínimo vai causar inflação”. Quando nós chegamos aqui, o salário mínimo – se eu não estiver enganado – comprava 1,4 cesta básica. Hoje está comprando 2,4 cestas básicas, ou seja, praticamente, o dobro, e a inflação está totalmente controlada.

O problema é simples: pouco dinheiro na mão de muitos é distribuição de riqueza; muito dinheiro na mão de poucos é concentração de riqueza. Então, o que nós fizemos foi garantir um pouquinho para muita gente, e os pobres, que antes ficavam à margem, viraram gente de classe média, começaram a frequentar shopping centers, começaram a comprar coisas que antes só uma parte da sociedade podia comprar.

Esse é um dos milagres das coisas que aconteceram aqui no Brasil, mediante também muitas outras políticas. Eu, hoje, sou um homem convencido de que o problema nosso não é apenas a questão de dinheiro. Dinheiro é sempre muito importante, dinheiro é sempre muito importante, mas o problema maior nosso é a falta de definição de prioridades. O problema nosso, às vezes, é a falta de projeto, e o problema nosso, às vezes, é a falta de focar aquilo que é prioridade.

O Brasil, na década de 70, tinha uma extraordinária assistência técnica na agricultura brasileira e, no final dos anos 90, toda a assistência técnica estadual tinha, praticamente, com raríssimas exceções, sido dizimada. Nós precisamos reconstruir, porque senão a agricultura familiar não sobrevive. E eu tenho verdadeira ojeriza ao discurso da agricultura de subsistência, tenho verdadeira ojeriza. Dizer para um agricultor: “Você tem que plantar a sua mandioquinha, você tem que plantar o seu milhozinho, você tem que plantar o seu arrozinho”, só para comer? Não! Nós precisamos mostrar que ele tem direito ao acesso à tecnologia, que ele tem que ter direito ao acesso a crédito para ele produzir com mais escala, para, além de comer, ele poder ter um dinheiro e ter acesso a outros bens, senão o homem não fica no campo. O velho fica, mas a juventude não fica no campo, porque as luzes da cidade são uma paixão para a juventude. Entre ficar ouvindo um grilo cantar ou a luz de um vagalume a nos clarear, na porta de um cinema no centro da cidade, com tanta coisa bonita acontecendo lá, é uma paixão a que nenhum jovem resistirá. E ele só vai ficar no campo na hora em que a gente criar as condições para que ele possa ficar no campo.

Aqui, eu penso que o Brasil acumulou uma experiência. Eu não vou entrar em detalhes, porque muita gente nossa vai falar com vocês. Depois das 15h, nós vamos visitar a Embrapa, vocês vão ver de perto uma apresentação na Embrapa. Então, eu não vou me ater a coisas técnicas porque vocês vão ouvir, até enjoar, nesses dias que vocês vão estar aqui.

"Teve um tempo em que o culpados eram “os chineses, os chineses estão comendo demais”.
Mas vou contar uma coisa para vocês. Em julho de 2008 nós fomos pegos de surpresa pelo aumento dos alimentos. Feijão, no Brasil, não é uma coisa de exportação e, de repente, o saco de feijão saiu de R$ 60 para R$ 200; a soja subiu de forma extraordinária; o arroz tinha desaparecido, e todo mundo querendo saber o que era, todo mundo querendo saber o que era.

Então, a coisa mais fácil era dizer: “São os chineses”. Teve um tempo em que o culpados eram “os chineses, os chineses estão comendo demais”.

Bom, e eu fui constatar que não tinha havido nenhum grão de feijão importado pela China, do Brasil. Então, não poderia ser a China. Eu fui detectar que a soja tinha tido a mesma quantidade do ano anterior. Também não tinha sido. E também o preço do petróleo: de US$ 30 para US$ 150. Eu me reunia com as empresas, inclusive com a minha, e com as outras multinacionais, para alguém me explicar por que o petróleo tinha chegado a US$ 150. Eles diziam: “É a China, é o consumo da China”. Aí, quando sai a crise do subprime, quando sai a crise da especulação imobiliária nos Estados Unidos é que a gente descobriu que já tinha, no mercado futuro, a mesma quantidade de petróleo comprada no mercado futuro, que a China consumia. Os espertalhões, que estavam ganhando dinheiro especulando com papel, resolveram tirar o dinheiro do fracassado subprime e ir para a soja, para os alimentos e para o petróleo, e muita gente sofreu com isso.

Nós estávamos prontos para fazer o acordo da Rodada de Doha. Tinha só uma divergência entre a China, entre a Índia e os Estados Unidos, e o problema eleitoral, porque isso era mais ou menos no mês de julho, e tinha eleições em novembro nos Estados Unidos, e tinha eleições em maio do ano seguinte, no estado do negociador indiano, que é na Índia, mas, sobretudo no estado do negociador, que era candidato. Por conta disso, nós não avançamos na Rodada de Doha e, lamentavelmente, já faz dois anos e a gente ainda não retomou as negociações. A Rodada de Doha, no entendimento do Brasil, e certamente no de vocês, era a possibilidade de a gente abrir um pouco mais do mercado para que vocês pudessem exportar os produtos de vocês para os mercados mais ricos. Bem, mas não andou, vamos ver se andamos. Parece que a teoria do livre mercado era extraordinária quando nós só éramos compradores. Na hora em que a gente quer ser vendedor, o livre mercado não era tão livre como parecia ser. E as pessoas não levam...

Eu acho isso, Diouf, uma barbaridade, uma barbaridade da visão capitalista, porque cabe a um homem que tem uma visão capitalista compreender que quanto mais os africanos comerem, quanto mais os latino-americanos comerem, quanto mais nós ganharmos um dinheirinho, mais nós seremos consumidores dos produtos de alto valor agregado que eles produzem. Isso, (incompreensível), você deve ter aprendido na escola de Economia, não precisava ser nenhum dirigente sindical para vir dizer isto aqui. Henry Ford dizia, no começo do século XX: “Eu preciso pagar aos meus trabalhadores para que eles possam comprar o carro que eu produzo, senão eu não vendo”. A mesma coisa é o mundo desenvolvido.

Eles têm que contribuir para a melhoria de vida na África, o Brasil tem que contribuir, os americanos têm que contribuir, os chineses têm que contribuir, porque vocês passarão a ser consumidores no planeta Terra e, portanto, um mercado extraordinário para quem tem sofisticada tecnologia.

Nós estamos há quanto tempo pedindo para os países mais ricos construírem parceria conosco? Fizemos uma com o Japão, em Moçambique, e queremos fazer com outros países para produzir as coisas que interessam a vocês com a nossa tecnologia, mas com incentivo financeiro nosso, para que eles comprem.

Me diga uma coisa: a Europa vai precisar colocar, nos próximos [anos], até 2020, 10% de etanol na sua gasolina, não é isso? A Europa não pode ficar produzindo etanol de beterraba, fica muito caro, ou de milho, não é prudente. É prudente, então, que a gente, olhando o mapa-mundi, [veja] onde é que tem terra para produzir. Onde é que tem terra para produzir?

No continente africano, no Brasil e na América Latina. Os outros países já produziram muito, já utilizaram grande parte da sua terra agricultável, nós é que estamos... Ora, uma parte dessa terra tem que garantir a segurança alimentar da humanidade; na outra parte, onde puder, as pessoas têm que plantar aquilo que vai render dinheiro para as pessoas poderem fazer a economia crescer. E tudo isso é muito visível e perceptível por todos os dirigentes. Mas entre a gente compreender e a gente executar um projeto, é difícil.

Depois vocês conversem com o companheiro de Angola que tem um grande projeto lá, de etanol, do governo de Angola com uma empresa brasileira, que vai suprir, na Angola, metade do etanol que a Angola usa e também metade do açúcar, ou seja, isso é um salto extraordinário – em pouco tempo, em pouco tempo. Essa tecnologia o Brasil domina e é essa tecnologia que o Brasil quer repartir com vocês.

A Embrapa... Eu vou assinar a lei hoje, aqui, vou mandar a medida provisória. É na Embrapa que eu vou assinar, Pedro? Porque a Embrapa está em Gana, ela já estudou projetos em 16 países, e nós já temos a convicção de que parte da savana africana tem as mesmas características produtivas do cerrado brasileiro. O cerrado brasileiro, há 40 anos, era tido como terra imprestável. Na minha ignorância, Pedro, quando eu vinha de carro de São Paulo para Brasília, que passava no Cerrado, a gente dizia: “Essa terra não presta para nada, olha como as árvores estão tortas, nem crescer não crescem”. Bastou um pouco de carinho com a terra, ela virou a área de maior produção de grãos do nosso país. E isso pode acontecer com a savana africana e com muitos países.

Uma outra coisa que eu fico vendo o mapa e fico imaginando, é que tem problema de água na África, em alguns países, mas tem excesso de água na África, em outros países. E nós, os países que têm um pouco mais de recursos, mais os países ricos, nós temos que começar a imaginar como é que a gente socializa essa água. Eu estou fazendo um canal aqui, no Brasil, de 640 quilômetros para levar água para 12 milhões de pessoas da área mais seca do Brasil. Esse projeto está sendo pensado desde 1847 – o Brasil ainda tinha um imperador –, e esse projeto não saía do papel. Pois bem, ele agora saiu do papel e eu inauguro a primeira parte dele. Eu fico vendo ali, na África, alguns rios, a imensidão de água que vai para o mar sem a gente aproveitar. E eu sei que não tem dinheiro nos países, mas é essa contribuição que os países ricos podem dar, financiar um projeto. É esse o financiamento que a gente tem que fazer.

"Quando eu cheguei ao governo, no Brasil inteiro, em todo o território brasileiro, nós tínhamos apenas R$ 380 bilhões de crédito".
No G-20, se pensou em US$ 22 bilhões para ajudar. Agora, esses US$ 22 bilhões precisam ter uma coordenação eficaz, projetos bastante definidos, porque senão o dinheiro desaparece. E quando a gente vai ver não ficou nada no lugar, porque dinheiro, de vez em quando, voa. Então é preciso... e eu acho que as organizações que vocês construíram na África são muito representativas. Acho que eu poderia citar como exemplo aqui, por exemplo, a União Africana, que está mais organizada do que a nossa Unasul; eu poderia citar o Banco Africano, que é um banco que tem um potencial de crescimento, e é lá que os bancos de fomento tipo o FMI, tipo o Banco Mundial, deveriam colocar um pouco de dinheiro para que vocês pudessem administrar do jeito que quisessem, para fazer funcionar o crédito. Uma coisa, Diouf, eu vou dizer a você: quando eu cheguei ao governo, no Brasil inteiro, em todo o território brasileiro, nós tínhamos apenas R$ 380 bilhões de crédito. Eu fiquei pensando: como é que este país quer ser um país capitalista se não tem nem crédito? Pois bem, hoje o nosso país tem mais de 1 trilhão e 500 bilhões de crédito, por isso a economia funciona. Nós criamos aqui um crédito para os pequenos, crédito para o trabalhador aposentado, para o trabalhador que não tem nem conta bancária. Esse crédito já disponibilizou, nesses quatro anos, R$ 115 bilhões de financiamento para as pessoas físicas, aposentados, catadores de papel. Essa é uma parte da explicação do sucesso da agricultura familiar brasileira e do sucesso do agronegócio no Brasil. Aqui no Brasil, o governo tem que financiar o agronegócio e a agricultura familiar, e fazemos isso com prazer porque sabemos da importância que tem os dois setores na economia brasileira.

Bem, nós... uma notícia boa que eu quero dar para os companheiros. Antes, dizer para vocês o seguinte a África já tem um instrumento como o Nepad, a África já tem o Banco de Desenvolvimento, portanto, nós temos instituições mais sólidas na África com quem o restante dos outros países e o Brasil podem fazer negócio. Nós temos condições de criar, para a África, as mesmas políticas de crédito que nós oferecemos aos agricultores brasileiros, mas isso, vai ter gente que vai conversar com vocês, porque muitas vezes as pessoas querem se modernizar, muitas vezes as pessoas até recebem máquinas de graça, mas não tem a formação para a pessoa manusear a máquina, ou às vezes não tem tecnologia para fazer funcionar, às vezes tem a máquina, precisa do combustível, não é?

Eu lembro que quando nós lançamos o Programa Mais Alimentos, no auge da crise do alimento, nós, em 18 meses, criamos uma linha de crédito para o pequeno produtor, nós vendemos aqui, internamente, 25 mil tratores para pessoas que jamais tinham imaginado ter um trator. E esse programa terminava agora, nós vamos ter que continuar com ele, porque... E eu quero ver se estendo essa mesma linha de crédito para o Brasil, para a América Latina e para os países africanos que precisarem modernizar a sua agricultura.

Nós gostaríamos de partilhar com vocês, companheiros, as nossas experiências, e vocês vão ter o prazer de conhecer a Embrapa. A Embrapa é a empresa responsável pela revolução tecnológica no Brasil na questão da agricultura, e nós queremos que ela faça com a África o mesmo que está fazendo no Brasil, por isso nós estamos com os técnicos lá fora. Mas hoje nós vamos mandar um projeto de lei oficializando a implantação da Embrapa em território estrangeiro, coisa que a lei atual não permite.

Nós estamos querendo, temos intenção de implantar 10 projetos-piloto nos moldes do programa de aquisição de alimentos na África. O programa de aquisição de alimentos, certamente o Ministro vai falar, na parte da tarde, mas uma coisa extraordinária aqui, no Brasil, é o programa da compra de alimentos feito pelo governo. E a outra coisa extraordinária é que nós determinamos que 30% do alimento vendido para a merenda escolar seja da agricultura familiar, mas que seja da agricultura local, regional, ou seja, para um cidadão comprar do produtor na sua cidade, para fomentar a produção da sua cidade. Senão, o cidadão planta a 2 mil quilômetros de distância, esse produto sai de lá, vai para, aqui no Brasil, vai para o Ceasa, que é um setor de comercialização e depois volta para lá, ou seja, anda 4 mil quilômetros para ganhar preço, para depois chegar ao produtor [consumidor]. Então, nós decidimos que 30% é comprado ali, na cidade do pequeno produtor rural dali: é a batatinha, é o feijão, é a mandioca, ou seja, tem que ser comprada lá, para a gente fomentar a produção.

Bem, uma coisa importante que eu queria dizer para vocês: finalmente, a Câmara dos Deputados, no Brasil, aprovou – e eu queria que o Eduardo prestasse atenção, porque vai para o Senado –, a Câmara dos Deputados finalmente aprovou, na semana passada, a Universidade Afro-Brasileira. É uma universidade que nós estamos pensando em 10 mil alunos, metade africanos, metade brasileiros. Ela vai ser no estado do Ceará, portanto, estarão todos os estudantes olhando para o continente africano, para que ninguém esqueça de onde veio, porque se a gente não tomar cuidado, esses meninos vêm, se formam, arrumam uma namorada e já ficam por aqui mesmo; e nós queremos que eles fiquem de olho para o continente africano, olhando ali... Quem é de Cabo Verde, vai estar ali, olhando Cabo Verde. Se ele não quiser ir, a gente empurra ele e ele vai nadando, e volta para o seu local. O que nós queremos é dar uma contribuição... Se for aprovada no Senado, Eduardo, nós ainda lançaremos a pedra fundamental e começaremos a construí-la ainda este ano. Será na cidade de Redenção, no Ceará, que é a cidade onde começou a luta pelo fim da escravidão no nosso país.

Por último, companheiros e companheiras, nós também queremos oferecer treinamento técnico em extensão rural, num trabalho com o nosso Ministério, com a Embrapa, com o Sebrae. O que nós precisamos habituar é fazer com que as nossas pessoas viajem mais e se encontrem mais. Por isso é que nós vamos inaugurar, à tarde, um centro da Embrapa, que é uma coisa chique, que tem... é um centro de tecnologia, de formação, de treinamento, em que a gente quer receber muitos engenheiros agrônomos, técnicos agrícolas da África, para poderem fazer treinamento na Embrapa, aprender a tecnologia que nós temos aqui, de ponta, levar para a África e produzir o mesmo que nós produzimos aqui.

Eu quero ressaltar o papel das Nações Unidas e, particularmente, do Fida, do PMA e da FAO, porque o papel de vocês é decisivo para construir este mundo sem fome que todos nós queremos construir. Acho que nós precisamos implementar a reforma do Comitê de Segurança Alimentar, e é preciso torná-lo um fórum representativo de todos os acordos relevantes para a construção de uma parceria global para a agricultura e a segurança alimentar. Acho que o Programa Mundial de Alimentos deve ampliar suas atividades, por meio de compras locais de alimentos que assegurem o fornecimento às populações vulneráveis e estimulem o pequeno produtor. O Fida pode ajudar muito no apoio aos programas nacionais de regularização fundiária e de ampliação de crédito e seguro agrícola.

"Temos que fazer um esforço e não ficar competindo com países mais pobres do que nós".
Aqui, eu queria dizer uma coisa, tanto ao Diouf, quanto ao Programa (incompreensível): o Brasil, o Brasil, graças a Deus, o Brasil não precisa de ajuda financeira para fazer as suas coisas. O Brasil tem tamanho, tem tecnologia, dinheiro e tem vergonha. Portanto, nós temos que fazer um esforço e não ficar competindo com países mais pobres do que nós. Nós temos que colocar dinheiro no orçamento e aprovar as coisas que nós precisamos, porque o Brasil, Diouf, o Brasil ainda não aprendeu que entrou no rol dos países doadores. O Brasil não é mais um país receptor. E isso está acontecendo, e é importante, Celso, as ONGs...

As ONGs importantes que atuavam no Brasil, elas estão comunicando à gente que estão indo embora, muitas delas, para cuidar de outros países mais pobres. Qual é o sentido de o Brasil ficar competindo com a Tanzânia, com Botsuana? Não, o Brasil tem que entrar no rol dos países doadores e contribuir. Ora, se nós tivemos coragem de aprovar US$ 14 bilhões para emprestar para o FMI, por que é que a gente não pode ter, através do nosso BNDES, uma política de financiamento para os países africanos? É só decisão política, que já está tomada. Por isso, isso vai ser discutido à tarde com os companheiros aí.

Por último, eu queria dizer para vocês que no G-20 nós vamos continuar brigando para que a gente possa fortalecer as instituições multilaterais, para que a gente faça o Banco Mundial cumprir com as suas funções de ajudar os países em desenvolvimento, para que o FMI empreste dinheiro sem precisar das exigências que fazia antigamente, e vamos continuar brigando para que a gente possa concluir a Rodada de Doha da forma mais justa possível.

Uma coisa que eu queria pedir para vocês... Nós vamos estar juntos ainda, na Embrapa, hoje à noite; depois nós vamos estar juntos na visita de uma feira de agricultura familiar, é isso? Hoje ainda, ou amanhã? Amanhã. Eu quero estar junto com vocês nessa visita à feira. Eu quero que a gente, ao terminar isto aqui, eu não sei qual é a ideia central, Celso, mas que a gente crie uma espécie de grupo dirigente disso aqui, para que a gente possa acompanhar e dar sequência a cada coisa que a gente vai fazer. Cada projeto tem que ter um acompanhante, para que a coisa possa vencer as barreiras com mais facilidade do que nós temos hoje.

Eu acho que o Brasil tem um problema para resolver, o Celso tem me cobrado, que é a questão de vôos para o continente africano. As empresas brasileiras adoram ir para Paris, adoram ir para Londres, adoram... mas não querem parar no território africano. Agora, com esse vulcão soltando fumaça preta para tudo quanto é lado, eles estão parando em qualquer lugar, com medo. Mas nós estamos trabalhando, o ministro Jobim já tem pronta uma proposta que ele quer me apresentar, para ver se a gente começa a fazer com que nossas empresas possam parar em alguns países africanos, porque se não tiver possibilidade de trabalhar, se a gente não tiver voo para garantir o direito de ir e vir dos ministros, dos empresários, dos cientistas, a gente não vai conseguir o desenvolvimento que nós queremos.

Então, eu queria dizer para vocês, do fundo do coração: muito obrigado por vocês terem aceito o nosso convite, muito obrigado. E eu espero que desta reunião aqui a gente tire uma nova e mais aperfeiçoada política com os nossos irmãos africanos. E, certamente, certamente, eu me encontrarei com vocês, porque eu ainda tenho que visitar cinco países africanos. Mas, no dia 11 estarei na África do Sul, para a final da Copa do Mundo. Não é que eu seja tão otimista que o Brasil vá para a final, não é que eu seja tão otimista que vai para a final. É que eu tenho que estar lá porque, como o Brasil vai sediar a Copa do Mundo de 2014, eu tenho que estar na festa de encerramento, para trazer o espírito da Copa do Mundo para o Brasil. E, certamente, eu posso trazer junto a Taça do Mundo, pela sexta vez.

Um abraço e muito obrigado, companheiros.

Fonte: Carta Maior