Nota do blog: Para além das paixões, após a vitória da Dilma é bom sentarmos pra conversar. Afinal o demo-tucanato sofrerá baixas antes nunca sofridas. E como o DEM é um verdadeiro camaleão - lembre-se que ele já foi PFL, PDS, Arena -, não estranhe se o que sobrar desse entulho migrar para o PMDB. O fenômeno já aconteceu no Amazonas. Em São Paulo estão querendo entregar a liderança do PMDB pro Kassab. Só falta essa "nova aliança" pra encher o PT de vergonha. Já bastam os Collors e Sarneys da vida! Política de conciliação entre classes tem limites, quequihá?
PICICA - Blog do Rogelio Casado - "Uma palavra pode ter seu sentido e seu contrário, a língua não cessa de decidir de outra forma" (Charles Melman) PICICA - meninote, fedelho (Ceará). Coisa insignificante. Pessoa muito baixa; aquele que mete o bedelho onde não deve (Norte). Azar (dicionário do matuto). Alto lá! Para este blogueiro, na esteira de Melman, o piciqueiro é também aquele que usa o discurso como forma de resistência da vida.
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setembro 16, 2010
agosto 28, 2010
Serra, aliado ao PPS e ao DEM, faz pregação golpista e evita comparar dois projetos de país apoiando-se em quartelada midiática
Os noves fora de José Serra
Os noves fora de José Serra
Nos tempos ministeriais de Serra, a saúde que interessava era a da indústria farmacêutica internacional. Não lhe peçam, portanto, para apresentar propostas programáticas para o setor. Além das platitudes, o vazio é total.
Por Gilson Caroni Filho (*)
O que estamos assistindo agora, com as tentativas tucanas de plantar escândalos e judicializar a campanha, é a uma gigantesca operação de engodo de candidatura sem perspectiva. Secundado pela mídia que sempre o apoiou, e hoje se declara "independente", Serra não tem escrúpulos em conspurcar a credibilidade do jogo político às vésperas de uma eleição presidencial. O que ele e seus sócios do PPS e do DEM estão querendo fazer é um autêntico golpe de mão, uma quartelada midiática para evitar que a sociedade possa comparar dois projetos de país.
Estado por estado as notícias são parecidas. Há um rápido processo de cristianização do candidato tucano. No Nordeste é um arraso: quem fez oposição a Lula nos últimos quatro anos, desembarca da nau serrista para cuidar da própria sobrevivência política. Nem mais em São Paulo, estado que o elegeu senador, prefeito e governador, Serra voa em céu de brigadeiro. O repúdio não se dirige apenas contra sua melancólica figura, mas ao estilo de governo posto em prática nos oito anos em que o neoliberalismo vigorou no país. Há algo de covarde na recusa de uma comparação retrospectiva, mas também há algo de didático no exame das decisões de um ator político.
Quando se nega a comparar o governo a que pertenceu com a gestão petista, Serra afirma “que não faz política olhando para o retrovisor". Certamente preferia que tudo fosse diferente, mas, no beco sem saída em que se encontra, não é possível acertar o caminho com manobras abruptas. Seu trem em marcha ré colidiria com os desastres da política econômica de FHC, o padrinho a ser ocultado.
Vamos aos fatos: a abertura comercial, promovida pelo consórcio demo-tucano, não trouxe ganhos de competitividade à indústria nacional. Pelo contrário, causou um efeito devastador em setores, como o têxtil, transformando segmentos que produziam localmente em meros importadores de insumos. De acordo com estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), depois de oito anos de economia submetida à concorrência internacional, sem instituição de políticas públicas adequadas, as conseqüências apareceram nos resultados negativos da balança comercial, em menos geração de emprego e renda no Brasil.
Os pesquisadores concluíram que a importação de matérias-primas provocou o esgarçamento dos setores intermediários de produção, aqueles encarregados de produzir os insumos para os fabricantes de produtos finais. A análise dos resultados na década de 1990 demonstrou maior competitividade na produção de commodities e vulnerabilidade das atividades de maior conteúdo tecnológico, aquelas com maior valor agregado e responsáveis pela geração de mais postos de trabalho. Nesse contexto, cabe a pergunta: como Serra teria condições de apresentar sua política industrial, sem renegar totalmente o pensamento do PSDB?
Seguindo os preceitos do Consenso de Washington, a possibilidade de o Brasil tornar-se exportador de produtos básicos, que seriam processados em outros países, e importados posteriormente, era o que se afigurava como horizonte à época. Na indústria química, o crescimento das importações levou à desativação de centros de produção de insumos. Princípios ativos para a produção de medicamentos que, nos anos 80, começaram a ser produzidos aqui, com a abertura desregulada, passaram a ser fornecidos pelos Estados Unidos e por países europeus. Nos tempos ministeriais de Serra, a saúde que interessava era o da indústria farmacêutica internacional. Não lhe peçam, portanto, para apresentar propostas programáticas para o setor. Além das platitudes, o vazio é total.
No campo energético, o desastre não foi menor. A decisão de vender usinas prontas, em plena operação, sem ao menos abrir aos investidores a oportunidade, e o consequente risco, do empreendimento novo, gerou uma situação de insegurança energética, com 70% do mercado de distribuição e boa parte da geração privatizados. Sem agregar energia nova, o governo de FHC pensou em esquartejar Furnas quando o movimento mundial ditava fusões. Não faltavam, ainda, os defensores da venda da Chesf, detentora de grandes reservatórios - alguns de alta importância ecológica e social - antes de se regulamentar o uso múltiplo das águas. O que Serra teria a dizer sobre o descalabro? Por que a doce e ética Marina silencia sobre o tema?
Por que não discutir sobre as consequencias desastrosas da Alca, a Área de Livre Comércio das Américas, programada para se instalar em 2005 e que, fatalmente, nos levaria a novo pacto colonial?
Serra, o “Zé que joga pesado" não pode defender o passado sem deixar de fazer um elogio à rasteira da soberania nacional. Por isso, dele só se pode esperar a pregação golpista, o denuncismo como método. E um genérico de Elba Ramalho em seu programa eleitoral. O ex-presidente da UNE jogou sua biografia no ralo das circunstâncias. Da soma dos fatores a que se submeteu, deixando de fora os nove, sobra rigorosamente nada.
Estado por estado as notícias são parecidas. Há um rápido processo de cristianização do candidato tucano. No Nordeste é um arraso: quem fez oposição a Lula nos últimos quatro anos, desembarca da nau serrista para cuidar da própria sobrevivência política. Nem mais em São Paulo, estado que o elegeu senador, prefeito e governador, Serra voa em céu de brigadeiro. O repúdio não se dirige apenas contra sua melancólica figura, mas ao estilo de governo posto em prática nos oito anos em que o neoliberalismo vigorou no país. Há algo de covarde na recusa de uma comparação retrospectiva, mas também há algo de didático no exame das decisões de um ator político.
Quando se nega a comparar o governo a que pertenceu com a gestão petista, Serra afirma “que não faz política olhando para o retrovisor". Certamente preferia que tudo fosse diferente, mas, no beco sem saída em que se encontra, não é possível acertar o caminho com manobras abruptas. Seu trem em marcha ré colidiria com os desastres da política econômica de FHC, o padrinho a ser ocultado.
Vamos aos fatos: a abertura comercial, promovida pelo consórcio demo-tucano, não trouxe ganhos de competitividade à indústria nacional. Pelo contrário, causou um efeito devastador em setores, como o têxtil, transformando segmentos que produziam localmente em meros importadores de insumos. De acordo com estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), depois de oito anos de economia submetida à concorrência internacional, sem instituição de políticas públicas adequadas, as conseqüências apareceram nos resultados negativos da balança comercial, em menos geração de emprego e renda no Brasil.
Os pesquisadores concluíram que a importação de matérias-primas provocou o esgarçamento dos setores intermediários de produção, aqueles encarregados de produzir os insumos para os fabricantes de produtos finais. A análise dos resultados na década de 1990 demonstrou maior competitividade na produção de commodities e vulnerabilidade das atividades de maior conteúdo tecnológico, aquelas com maior valor agregado e responsáveis pela geração de mais postos de trabalho. Nesse contexto, cabe a pergunta: como Serra teria condições de apresentar sua política industrial, sem renegar totalmente o pensamento do PSDB?
Seguindo os preceitos do Consenso de Washington, a possibilidade de o Brasil tornar-se exportador de produtos básicos, que seriam processados em outros países, e importados posteriormente, era o que se afigurava como horizonte à época. Na indústria química, o crescimento das importações levou à desativação de centros de produção de insumos. Princípios ativos para a produção de medicamentos que, nos anos 80, começaram a ser produzidos aqui, com a abertura desregulada, passaram a ser fornecidos pelos Estados Unidos e por países europeus. Nos tempos ministeriais de Serra, a saúde que interessava era o da indústria farmacêutica internacional. Não lhe peçam, portanto, para apresentar propostas programáticas para o setor. Além das platitudes, o vazio é total.
No campo energético, o desastre não foi menor. A decisão de vender usinas prontas, em plena operação, sem ao menos abrir aos investidores a oportunidade, e o consequente risco, do empreendimento novo, gerou uma situação de insegurança energética, com 70% do mercado de distribuição e boa parte da geração privatizados. Sem agregar energia nova, o governo de FHC pensou em esquartejar Furnas quando o movimento mundial ditava fusões. Não faltavam, ainda, os defensores da venda da Chesf, detentora de grandes reservatórios - alguns de alta importância ecológica e social - antes de se regulamentar o uso múltiplo das águas. O que Serra teria a dizer sobre o descalabro? Por que a doce e ética Marina silencia sobre o tema?
Por que não discutir sobre as consequencias desastrosas da Alca, a Área de Livre Comércio das Américas, programada para se instalar em 2005 e que, fatalmente, nos levaria a novo pacto colonial?
Serra, o “Zé que joga pesado" não pode defender o passado sem deixar de fazer um elogio à rasteira da soberania nacional. Por isso, dele só se pode esperar a pregação golpista, o denuncismo como método. E um genérico de Elba Ramalho em seu programa eleitoral. O ex-presidente da UNE jogou sua biografia no ralo das circunstâncias. Da soma dos fatores a que se submeteu, deixando de fora os nove, sobra rigorosamente nada.
*Gilson Caroni Filho é sociólogo e mestre em ciências políticas. Mora no Rio de Janeiro, onde é professor titular de sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha). É colunista da Carta Maior, colaborador do Jornal do Brasil e do blog "Quem tem medo do Lula?".
A charge é uma cortesia do cartunista Bira Dantas, também colaborador do blog "Quem tem medo do Lula?".
Fonte: Quem tem medo do Lula?
Fonte: Quem tem medo do Lula?
abril 17, 2010
Jornalismo ou propaganda política?
Nota do blog: No dia que o DEM do Amazonas escolhe quem apoiará como candidato ao governo do estado do Amazonas, escolhi essa singela charge, do imortal Angeli, para expressar minha sincera homenagem.
ELEIÇÕES 2010
Jornalismo ou propaganda política?
Por Rogério Faria Tavares em 13/4/2010
Se você quiser informar-se corretamente sobre as eleições, acompanhe com olhar bastante atento e crítico a cobertura política providenciada pelos meios de comunicação social sobre o tema. Quase sempre influenciada pela paixão ideológica ou, em diversas circunstâncias, irremediavelmente comprometida por ela, a atuação da mídia deve ser vista com prudente distância e uma dose razoável de ceticismo. Refém da preferência (ou da repulsa) por partidos e até mesmo por pessoas, boa parte da imprensa terá grandes dificuldades para desempenhar o ofício de reportar, com sobriedade e lucidez, os eventos relacionados ao pleito de outubro.
Defensores aguerridos de uma visão de mundo, de um determinado projeto para o país ou simplesmente sócios eventuais de grupos de interesses, expressivos segmentos da imprensa certamente acolherão recomendações tácitas (em alguns casos, até expressas) dos estrategistas de marketing de certos candidatos ou de seus formuladores políticos, e acabarão por transformar-se em agentes encarregados de definir o ângulo de abordagem dos acontecimentos, criar escândalos, fomentar falsas polêmicas, definir os protagonistas e os coadjuvantes, estigmatizar personagens, disseminar versões e boatos e, sobretudo, de omitir fatos e números que prejudiquem seus amigos ou que beneficiem seus adversários.
Ainda que não surpreenda, essa constatação é dolorosa e produz um grande desalento, já que a presença independente e equilibrada da imprensa na vida social é decisiva para o sucesso do sistema democrático e não deveria ser considerada algo utópico ou romântico. O fato é que, no Brasil, numerosas práticas que se apresentam como jornalismo, são, na verdade, propaganda política. O seu caráter pernicioso é indiscutível. Os danos que provocam são graves. Sendo assim, o que fazer para prevenir-se em relação a elas? Seguem algumas sugestões...
1. Nunca deixe de conferir o expediente do jornal e das revistas ou a seção "quem somos" dos sites e blogs que você freqüenta. Preste atenção na ficha técnica do telejornal ou do noticiário radiofônico de sua preferência. Veja quem está no comando. Procure saber os antecedentes dos responsáveis pelos órgãos de comunicação. Pergunte sobre eles para alguém em quem você confia e que pode ter referências seguras a respeito dos profissionais em questão. Tente, em prospecção cuidadosa, conhecer melhor o pensamento e o comportamento de tais pessoas.
2. Despreze as matérias anônimas. Combata as denúncias sem assinatura e as notícias que circulam sem autoria conhecida e confirmada. Certamente são peças fabricadas por candidatos e partidos ou por militantes de má-fé. Atualmente, existem até empresas especializadas nas técnicas da calúnia, da injúria e da difamação, sobretudo pela internet (algumas delas, contratadas para fazer a campanha eleitoral que se aproxima, já estão em plena atividade).
Reúna energia! Vale a pena
3. Investigue as posições adotadas pelo jornal, pela revista, pelo site ou blog, ou pela emissora de televisão ou rádio em relação aos candidatos e a seus partidos nos últimos anos. Qual tem sido a postura padrão empregada para tratá-los? Que tipo de avaliação merecem em seus editoriais? Construa uma pequena série histórica a respeito. Não dá tanto trabalho e pode ser de uma utilidade incrível, revelando animosidades ou preferências que resultam, antes de tudo, de alianças históricas ou de oposição consolidada ao longo do tempo.
4. Para entender melhor o que dizem os veículos de comunicação, procure descobrir se os seus proprietários ou diretores foram prejudicados ou beneficiados pelos candidatos ou partidos participantes das eleições. Contratos, empréstimos, favores... tudo isso é vital para compreender o sentido do conteúdo jornalístico que editam.
5. Consulte regularmente vários veículos de comunicação. Não se restrinja a um ou dois, ainda que você não disponha de tanto tempo nem de muito ânimo para tal tarefa. Não recorra apenas a publicações editadas por duas ou três empresas. Diversifique. Inclua em seu cardápio veículos regionais, especializados, comunitários, religiosos, estudantis ou sindicais. Reúna energia! Vale a pena. Afinal, as eleições só ocorrem de vez em quando.
Uma conquista da democracia
6. Compare os veículos: levante as semelhanças e as diferenças entre eles. Comece a perceber a escolha das pautas, as omissões, as contradições, as inconsistências, as ênfases. No caso de jornais, revistas, sites e blogs, observe também os aspectos gráficos e a diagramação com que se apresentam. Como estão dispostas as notícias, em que ordem, de que tamanho?... Quem ganha a capa? E as manchetes? Quem aparece bem nas fotos? Fique atento: não acredite facilmente no que mostra a mídia sem que você a submeta ao seu controle rigoroso de qualidade. Lembre-se de que ela tem objetivos que não são necessariamente os de atuar com equilíbrio e serenidade ou de deixar você bem informado.
7. Vá às fontes mencionadas na notícia. Hoje em dia, praticamente todos os partidos e candidatos têm seus próprios espaços na internet e se comunicam diretamente com o cidadão. Ouça o que eles têm a dizer, sem a mediação da imprensa. O recurso a esse expediente se torna ainda mais importante se a notícia veiculada nos meios tradicionais embute algum ataque à honra ou à dignidade de alguém. Infelizmente, será muito difícil saber o que a "vítima" tem a dizer sem que você recorra aos canais de comunicação que ela mesma organizou (ela pode ter sites ou blogs em que fatalmente exporá suas razões). No Brasil, o instituto do direito de resposta, ainda que previsto pelo artigo 5º da Constituição Federal, é de concretização lenta e trabalhosa e depende da celeridade, da coragem e do rigor de uma Justiça com que não se pode contar.
8. Sempre que possível, assista ao horário eleitoral gratuito na televisão ou acompanhe o programa pelo rádio. Não o rejeite. Ele é conquista da democracia e dá a todos chance justa de divulgar seu ideário político.
Preço pela negligência é muito alto
9. Acompanhe, sobretudo, os debates entre os candidatos. Comente com seus amigos, familiares e colegas de trabalho o que você achou de cada um deles.
10. Vá a comícios, reuniões, conferências. Pergunte diretamente aos candidatos o que você considera importante. Converse muito sobre as eleições com as pessoas do seu círculo de relacionamento. Troque idéias. Proponha questões. Crie oportunidades de reflexão coletiva. Aja com a mente aberta, sem preconceitos, com predisposição para surpreender-se e aprender.
Finalmente, mantenha sempre muito clara a noção de que a política é parte importantíssima da vida em sociedade e, por isso, jamais deve ser deixada de lado. O preço que se paga por uma atitude negligente é muito alto.
Fonte: Observatório da Imprensa
ELEIÇÕES 2010
Jornalismo ou propaganda política?
Por Rogério Faria Tavares em 13/4/2010
Se você quiser informar-se corretamente sobre as eleições, acompanhe com olhar bastante atento e crítico a cobertura política providenciada pelos meios de comunicação social sobre o tema. Quase sempre influenciada pela paixão ideológica ou, em diversas circunstâncias, irremediavelmente comprometida por ela, a atuação da mídia deve ser vista com prudente distância e uma dose razoável de ceticismo. Refém da preferência (ou da repulsa) por partidos e até mesmo por pessoas, boa parte da imprensa terá grandes dificuldades para desempenhar o ofício de reportar, com sobriedade e lucidez, os eventos relacionados ao pleito de outubro.
Defensores aguerridos de uma visão de mundo, de um determinado projeto para o país ou simplesmente sócios eventuais de grupos de interesses, expressivos segmentos da imprensa certamente acolherão recomendações tácitas (em alguns casos, até expressas) dos estrategistas de marketing de certos candidatos ou de seus formuladores políticos, e acabarão por transformar-se em agentes encarregados de definir o ângulo de abordagem dos acontecimentos, criar escândalos, fomentar falsas polêmicas, definir os protagonistas e os coadjuvantes, estigmatizar personagens, disseminar versões e boatos e, sobretudo, de omitir fatos e números que prejudiquem seus amigos ou que beneficiem seus adversários.
Ainda que não surpreenda, essa constatação é dolorosa e produz um grande desalento, já que a presença independente e equilibrada da imprensa na vida social é decisiva para o sucesso do sistema democrático e não deveria ser considerada algo utópico ou romântico. O fato é que, no Brasil, numerosas práticas que se apresentam como jornalismo, são, na verdade, propaganda política. O seu caráter pernicioso é indiscutível. Os danos que provocam são graves. Sendo assim, o que fazer para prevenir-se em relação a elas? Seguem algumas sugestões...
1. Nunca deixe de conferir o expediente do jornal e das revistas ou a seção "quem somos" dos sites e blogs que você freqüenta. Preste atenção na ficha técnica do telejornal ou do noticiário radiofônico de sua preferência. Veja quem está no comando. Procure saber os antecedentes dos responsáveis pelos órgãos de comunicação. Pergunte sobre eles para alguém em quem você confia e que pode ter referências seguras a respeito dos profissionais em questão. Tente, em prospecção cuidadosa, conhecer melhor o pensamento e o comportamento de tais pessoas.
2. Despreze as matérias anônimas. Combata as denúncias sem assinatura e as notícias que circulam sem autoria conhecida e confirmada. Certamente são peças fabricadas por candidatos e partidos ou por militantes de má-fé. Atualmente, existem até empresas especializadas nas técnicas da calúnia, da injúria e da difamação, sobretudo pela internet (algumas delas, contratadas para fazer a campanha eleitoral que se aproxima, já estão em plena atividade).
Reúna energia! Vale a pena
3. Investigue as posições adotadas pelo jornal, pela revista, pelo site ou blog, ou pela emissora de televisão ou rádio em relação aos candidatos e a seus partidos nos últimos anos. Qual tem sido a postura padrão empregada para tratá-los? Que tipo de avaliação merecem em seus editoriais? Construa uma pequena série histórica a respeito. Não dá tanto trabalho e pode ser de uma utilidade incrível, revelando animosidades ou preferências que resultam, antes de tudo, de alianças históricas ou de oposição consolidada ao longo do tempo.
4. Para entender melhor o que dizem os veículos de comunicação, procure descobrir se os seus proprietários ou diretores foram prejudicados ou beneficiados pelos candidatos ou partidos participantes das eleições. Contratos, empréstimos, favores... tudo isso é vital para compreender o sentido do conteúdo jornalístico que editam.
5. Consulte regularmente vários veículos de comunicação. Não se restrinja a um ou dois, ainda que você não disponha de tanto tempo nem de muito ânimo para tal tarefa. Não recorra apenas a publicações editadas por duas ou três empresas. Diversifique. Inclua em seu cardápio veículos regionais, especializados, comunitários, religiosos, estudantis ou sindicais. Reúna energia! Vale a pena. Afinal, as eleições só ocorrem de vez em quando.
Uma conquista da democracia
6. Compare os veículos: levante as semelhanças e as diferenças entre eles. Comece a perceber a escolha das pautas, as omissões, as contradições, as inconsistências, as ênfases. No caso de jornais, revistas, sites e blogs, observe também os aspectos gráficos e a diagramação com que se apresentam. Como estão dispostas as notícias, em que ordem, de que tamanho?... Quem ganha a capa? E as manchetes? Quem aparece bem nas fotos? Fique atento: não acredite facilmente no que mostra a mídia sem que você a submeta ao seu controle rigoroso de qualidade. Lembre-se de que ela tem objetivos que não são necessariamente os de atuar com equilíbrio e serenidade ou de deixar você bem informado.
7. Vá às fontes mencionadas na notícia. Hoje em dia, praticamente todos os partidos e candidatos têm seus próprios espaços na internet e se comunicam diretamente com o cidadão. Ouça o que eles têm a dizer, sem a mediação da imprensa. O recurso a esse expediente se torna ainda mais importante se a notícia veiculada nos meios tradicionais embute algum ataque à honra ou à dignidade de alguém. Infelizmente, será muito difícil saber o que a "vítima" tem a dizer sem que você recorra aos canais de comunicação que ela mesma organizou (ela pode ter sites ou blogs em que fatalmente exporá suas razões). No Brasil, o instituto do direito de resposta, ainda que previsto pelo artigo 5º da Constituição Federal, é de concretização lenta e trabalhosa e depende da celeridade, da coragem e do rigor de uma Justiça com que não se pode contar.
8. Sempre que possível, assista ao horário eleitoral gratuito na televisão ou acompanhe o programa pelo rádio. Não o rejeite. Ele é conquista da democracia e dá a todos chance justa de divulgar seu ideário político.
Preço pela negligência é muito alto
9. Acompanhe, sobretudo, os debates entre os candidatos. Comente com seus amigos, familiares e colegas de trabalho o que você achou de cada um deles.
10. Vá a comícios, reuniões, conferências. Pergunte diretamente aos candidatos o que você considera importante. Converse muito sobre as eleições com as pessoas do seu círculo de relacionamento. Troque idéias. Proponha questões. Crie oportunidades de reflexão coletiva. Aja com a mente aberta, sem preconceitos, com predisposição para surpreender-se e aprender.
Finalmente, mantenha sempre muito clara a noção de que a política é parte importantíssima da vida em sociedade e, por isso, jamais deve ser deixada de lado. O preço que se paga por uma atitude negligente é muito alto.
Fonte: Observatório da Imprensa
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