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abril 25, 2010

Coriolanou de vez

jangadeiroonline — 23 de abril de 2010 — Ciro reafirma a vontade em disputar as eleições de outubro para a Presidência da República.

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Oleo do Diabo


Meu artigo sobre Ciro, modéstia à parte, acertou na mosca. O nobre parlamentar continua flertando com o personagem de Shakespeare, o general romano Caio Márcio, também conhecido pelo nome Coriolano. A figura existiu historicamente, e foi biografada por Plutarco.

Deixem-me, portanto, terminar de contar a história da peça. Coriolano, um patrício reacionário que odiava a plebe, é banido da cidade. Cheio de ressentimento, ele se dirige à Ancio, cidade dos Volscos, os piores inimigos de Roma, apresenta-se a Tulo Aufídio, até pouco seu adversário número 1, e se oferece para ajudar a destruir sua antiga pátria.

Esperemos, naturalmente, que Ciro Gomes seja mais esperto que isso. A mídia vem atiçando, sutilmente, o lado mais inflamável do ex-candidato. Hoje a Dora Kramer nos conta que Ciro, de fato, evitou deliberadamente criticar Serra, para ganhar o eleitorado antilulista. O cálculo é válido, inteligente até se considerarmos que Ciro quase se lançou candidato ao governo de São Paulo, o estado mais conservador do país.  Mas é perigoso também. Cativando o cidadão conservador, o próprio Ciro se tornou um.

O comportamento de Ciro mostrou-se errático, esquizofrênico. Ele iniciou seu périplo eleitoral fazendo críticas extremamente duras à Serra e à big press, que se popularizaram muito através da internet. Depois disso, no entanto, o parlamentar mudou de estratégia. Passou a criticar o PT, o que lhe abriu as portas da mesma mídia que ele havia criticado tão acerbamente.

Tudo bem, política é assim mesmo. Um jogo de morder e assoprar o tempo todo. Não se pode ser ingênuo, todavia. A mídia é vingativa e só não é mais brutal com Ciro justamente porque anseia que ele ao menos não auxilie Dilma Rousseff. E está conseguindo. Por meio de elogios, chantagens, ofensas, a mídia conseguiu manipular a vaidade de Ciro e intrigá-lo com a campanha da ministra.

Alguém deve lembrar a Ciro que o final de Coriolano é triste. Movido por seu rancor vingativo, ele se junta aos volscos para atacar Roma, mas quando, já no acampamento militar diante de sua cidade natal, recebe a visita de sua mãe instando-o a não cometer um ato de traição tão vil, ele se comove e desiste. De volta à Ancio, é linchado pelos populares, furiosos com sua indecisão.

As atitudes de Ciro, intempestivas, coléricas, solitárias, não repercutem bem em nenhuma parte. O roçado de escândalos, frase que o parlamentar proferiu num dia de Roberto Jefferson, atravessou a cerca e chegou à sua própria horta. Afinal, depois de tantos rasgados elogios ao presidente Lula, a omissão de Ciro Gomes na luta eleitoral deste ano, não é nada menos do que escandalosa.

abril 23, 2010

Ciro, o nosso Coriolano (com todo respeito)

Coriolano - Perre Joseph François
Image from Art Renewal Center
Oleo do Diabo

Ciro, o patrício moral da política

Estou lendo um livro do Shakespeare que, acho eu, pouca gente conhece. É uma peça política intitulada Coriolano, contando as vicissitudes de um aristocrata da Roma Antiga, um "patrício" que odiava profundamente a plebe, ainda mais porque a plebe havia obtido grandes vitórias políticas e constitucionais, como o direito de destituir os cônsules e de eleger seus próprios tribunos, que gozavam de enormes e importantes prerrogativas.

Coriolano - é o nome desse personagem - era, por outro lado, um guerreiro de extraordinário valor. Sua coragem e destreza nas difíceis guerras que Roma enfrentava a todo momento, e que fizeram a cidade viver sob o fio da navalha por séculos, sempre à beira de ser destruída por tantos inimigos, era reconhecida por todos.

Como de praxe, o livro me remete ao presente. Essa é uma característica deliciosa das grandes obras de arte. Seu universalismo as tornam sempre contemporâneas. Quem é o Coriolano de hoje?

Esperem. Deixem-me contar um pouco mais da história para vocês entenderem melhor.

Ao final da guerra, Coriolano, no auge de seu prestígio, é indicado para cônsul, função máxima na Roma republicana. Para ser confirmado no cargo, no entanto, ele deveria cumprir uma tradição: pedir humildemente os votos e o apoio da plebe. Isso é uma humilhação terrível para Coriolano. Instado por amigos e familiares, ele cede e pede os votos, mas o faz com tanta má vontade que, apesar de conseguir os votos, a plebe logo depois muda de idéia e decide retirar seu apoio. Coriolano então deve voltar à praça e se humilhar perante o povo. Deve pedir desculpas e suportar ofensas e admoestações que os tribunos populares lhe fizerem. Depois de ouvir um longo sermão de sua mãe, que insiste na importância de engolir seu orgulho e fazer o que deve ser feito, Coriolano vai ao encontro da plebe.

Não resiste, porém, às primeiras provocações. Chamado de traidor da pátria por um dos tribunos, Coriolano tem um acesso de fúria e joga tudo para o alto. A partir daí destila abertamente sua ira antipopular. Os tribunos e o povo, furiosos, o condenam ao exílio - por muito pouco ele não é executado de maneira cruel, lançado do alto de uma rocha.

A história segue, mais tramas virão. Em futuros posts, eu conto mais e continuo as comparações, mas essa sinopse é suficiente para vocês entenderem o paralelo que vou fazer. Ciro Gomes é nosso Coriolano. É um homem corajoso, de valor inegável, com disposição para a luta, mas possuidor de um orgulho que beira a soberba. Sua verve ácida contra a política de alianças do governo Lula me lembrou muito as condenações de Coriolano à plebe sem caráter. Ciro Gomes é um aristocrata moral. Um patrício. Não tem estômago forte o suficiente para sentar-se à mesa com a plebe política que constitui o esteio do poder em Brasília. Mas é preciso. O gênio de Shakespeare deixa isso bem claro. Este é o preço da democracia, esse é o custo da liberdade. Um político com ambições de estadista não pode ser um intolerante moral. Em primeiro lugar, essa intolerância embute preconceito social e muita hipocrisia. Ciro Gomes não se insurge contra a corrupção ao redor de seu amigo, o tucano Tasso Jereissati. O "roçado de escândalos" a que Ciro se refere estará sempre na horta dos outros, nunca na sua.

Ciro Gomes cometeu graves erros políticos. Ele deveria, para começar, ter se lançado ao governo de São Paulo. O PT paulista havia se rendido. Um leque amplo de partidos estava disposto a se unir com muito entusiasmo em torno de sua candidatura. A UNE, que é sediada em São Paulo, preparava-se para se engajar encarniçadamente na campanha de Ciro para governador. Era um cálculo político perfeito. Um combate acirrado no ninho tucano obrigaria mídia e PSDB a gastarem suas energias ali mesmo, enfraquecendo-os na disputa nacional.

O deputado, todavia, pareceu se deslumbrar com as luzes que se acendiam sobre seu rosto sempre que fazia críticas ao PT. O astuto Ciro Gomes teve seus dias de inocente útil. A mídia usou-o e agora tenta apresentá-lo como carta fora do baralho.

Eu não entendo tanto de política para saber se é possível ainda lançá-lo ao governo de São Paulo. Acredito que Ciro perdeu o "time". Mas ele é ainda uma peça importantíssima no tabuleiro eleitoral. Os quase 10% de votos que ele tem representam aproximadamente 13 milhões de eleitores, e o fato de uma parte destes eleitores estarem migrando para José Serra quando Ciro não consta na pesquisa, revela quão importante será que o deputado, desde já, se posicione com mais transparência e objetividade em relação à Dilma ou Serra.

A plebe, cuja ira se acende tão facilmente, perdoa com a mesma presteza aqueles que a respeitam e se portam com humildade. A única alternativa para Ciro, nesse momento, na minha também humilde opinião, é pedir desculpas aos tribunos e ao povo por sua soberba dos últimos meses e, com a mesma coragem que ele demonstra na guerra contra os grupos reacionários que dominam a mídia nacional, ele se curve aos interesses maiores da nação e entregue-se de corpo e alma à missão de derrotar a direita e eleger Dilma Rousseff.

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