junho 02, 2015

"Lina Bo Bardi e a liberdade de estar no mundo" (OUTRAS PALAVRAS / OCA TUPINIQUIM)

PICICA: "Em quatro grandes obras da arquiteta, a possibilidade de ressignificar os espaços públicos, subvertendo seu formalismo e convertendo-os em lugares de convívio e reflexão"

Lina Bo Bardi e a liberdade de estar no mundo

Em quatro grandes obras da arquiteta, a possibilidade de ressignificar os espaços públicos, subvertendo seu formalismo e convertendo-os em lugares de convívio e reflexão

Dentre as possibilidades que a arquitetura tem, uma delas é ser arte de criar liberdades. No sentido de que o/a arquiteto/a pode delimitar áreas, traçar linhas, escolher materiais que convidem as pessoas a ocupar espaços de maneira criativa e libertadora. E, a rigor, a liberdade só existe nos espaços públicos: é da porta de casa para fora que cada indivíduo, ao compartilhar o viver com outros, descobre o que é a liberdade com os outros.

A cidade de São Paulo tem alguns edifícios simbólicos do que seja a arquitetura que produz liberdade, e que passaram pela prancheta de Lina Bo Bardi. São construções que levam ao encontro, instigam a criatividade de quem usa o espaço para reinventá-lo permanentemente, provocam o olhar para a descoberta do entorno e geram situações em que, naturalmente, o convívio e o respeito ao outro é uma condição.

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Arquiteta italiana que adotou o Brasil como seu país, a modernista Lina Bo fez da liberdade um credo de sua produção arquitetônica. Isso pode ser observado mesmo em suas primeiras obras privadas, como a Casa de Vidro, inaugurada em 1951 no então praticamente rural bairro do Morumbi, em São Paulo, para ser a casa onde passou a viver com o marido, o crítico de arte Pietro Maria Bardi. A sala de estar é como uma grande janela suspensa, aberta para um bosque verde, provocando a continuidade do olhar para o exterior e trazendo o jardim para dentro de casa. A delimitação do espaço é usada para ampliar ao invés de restringir. O espaço interno é igualmente aberto, e é a posição dos poucos móveis que vai moldar a circulação do ambiente, de maneira sempre passível de ser modificada. Hoje, a Casa de Vidro é um museu aberto ao público.

Lina Bo instalou símbolos em São Paulo na sua fase histórica de mais intensa transformação. O marco mais potente é, sem dúvida, o Museu de Arte de São Paulo, inaugurado em 1958. A arquiteta projetou o museu – com salas de exposição, reserva técnica, auditórios, oficinas e outros espaços de usos múltiplos – para receber o maior e mais importante acervo de obras de arte da América Latina, formado após o fim da Segunda Guerra por iniciativa e senso de oportunidade de Assis Chateaubriand e Pietro Maria.

Entretanto, o que sintetiza o projeto do MASP não é seu conteúdo, mas o vazio que ele emoldura: o enorme vão livre – possivelmente o maior construído até aquele momento. Num só gesto, o projeto de Lina instituiu uma praça que integra o museu à avenida Paulista, que começava a se tornar o novo centro da cidade, e promovia o “tombamento” da vista para o vale da avenida Nove de Julho, sintomaticamente, para o centro histórico da cidade. Imensa “janela”, o MASP permite que o olhar se alongue, oportunidade rara numa metrópole de colinas e poucas áreas abertas.


MASP. Foto: Hélvio Romero
MASP. Foto: Hélvio Romero
Emoldurar o vazio e dar a ele um sentido, e ao mesmo tempo torná-lo plástico, moldável à criatividade de quem quer que venha a ocupá-lo, é também o conceito que fundamenta o desenho do SESC Fábrica Pompeia, inaugurado em 1977. Os galpões que antes encerravam grandes máquinas e pessoas trabalhando foram reformados para dar lugar a espaços amplos, com pouquíssimas interrupções fixas, totalmente flexíveis, que são reinventados a cada vez pela instituição e pelos seus usuários. A “casca” da fábrica se manteve, novamente permitindo a abertura à reinvenção permanente sem apagar a história.

As intervenções são pontuais e explícitas: estruturas de concreto criando uma biblioteca aberta, uma lareira circular com sua chaminé (posicionada não no canto, mas no meio do espaço), bancos de design simples e lúdico, e até um pequeno córrego estabelecendo uma divisão no saguão sem bloquear o olhar. Os canos e conduítes expostos e ludicamente pintados com cores primárias escancaram elementos funcionais do prédio.

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Outros espaços do SESC Pompeia são um teatro bastante flexível – que pode ser usado com arquibancadas dos dois lados –, oficinas artísticas, a choperia, salas de exposições e outras atividades. Além de dois edifícios modernos, construídos a partir do zero, ligados entre si por uma malha de passarelas que enfatizam visualmente a sua função de interconectar. Para a entrada de luz, janelas em formatos ameboides recortam o concreto das fachadas.

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O conjunto de edificações que constitui o SESC Pompeia é integrado por uma simples rua de paralelepípedos, que evoca o clima das ruas de bairro da cidade antes que o asfalto tomasse conta. Por si só, esta rua convida a estar ali e a circular, e também a ver e encontrar outras pessoas que ali circulam. São espaços que não se estabilizam nunca, há sempre um convite repensar sua ocupação. Por isso mesmo, o SESC Pompeia tornou-se uma referência para a arquitetura de espaços de uso público.

Em 1990, um novo projeto de Lina Bo celebra a arte, o encontro e a criação coletiva: o Teatro Oficina. A sede do grupo de Zé Celso Martinez Correia é totalmente diversa de um teatro convencional, com o dito “palco italiano”. Longa passarela em concreto, com estruturas ao modo de andaimes fazendo as vezes de arquibancadas, e ainda janelas em uma das laterais deixando entrar a luz natural quando é dia, o espaço parece criado para receber cortejos populares, como desfiles de carnaval ou outras manifestações. Tanto os andaimes como o formato realça a ligação com a arte popular, com o sentido de “oficina” de trabalho que este teatro deve ter. Novamente, o espaço não permite qualquer comodismo, ao contrário, ele praticamente obriga quem passa por ele a criar.

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A cidade é uma máquina de produzir espaços públicos. Mesmo quando a proliferação de muros, cercas e portões parece dizer o contrário, em sua essência a cidade permanece como um organismo vivo, desdobrável, plástico, que se faz da concentração e interconexão de pessoas, culturas, afetos, que circulam por suas ruas. Na cidade, o compartilhamento de um destino coletivo é uma evidência. Lina Bo Bardi soube colocar isso no centro de suas principais obras em uma das cidades mais dinâmicas do mundo, a desvairada metrópole paulistana.

Fonte: OUTRAS PALAVRAS / OCA TUPINIQUIM

"Suicídios de jovens indígenas motiva denúncia internacional". Reportagem de Cristina Fontenele (IHU)

PICICA: "A onda de suicídios e de automutilações entre indígenas foram levados à Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York [Estados Unidos]. A tendência atinge todas as regiões do mundo e, em especial, o Ártico, as Américas e o Pacífico. Entre as causas desses atos extremos estariam: a crise gerada pelo afastamento das raízes culturais, os conflitos de terra e a negação de direitos humanos aos indígenas. A ONU recomenda uma série de ações aos países para lidarem com a questão." 

Suicídios de jovens indígenas motiva denúncia internacional

A onda de suicídios e de automutilações entre indígenas foram levados à Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York [Estados Unidos]. A tendência atinge todas as regiões do mundo e, em especial, o Ártico, as Américas e o Pacífico. Entre as causas desses atos extremos estariam: a crise gerada pelo afastamento das raízes culturais, os conflitos de terra e a negação de direitos humanos aos indígenas. A ONU recomenda uma série de ações aos países para lidarem com a questão.

A reportagem é de Cristina Fontenele, publicada por Adital, 27-05-2015.

Segundo a ONU, existem 370 milhões de indígenas no mundo, sendo mais de 70 milhões de jovens. Este ano, os debates focaram nos esforços dos indígenas pelo reconhecimento dos seus direitos.

Na abertura do Fórum Permanente da ONU sobre Assuntos Indígenas, realizado recentemente, o vice-secretário-geral da organização, Jan Eliasson, afirmou que 2015 representa um ano fundamental para a segurança e a prosperidade dos povos indígenas no mundo. "Agora, é o momento dos povos indígenas estarem na vanguarda de uma agenda transformadora, que não deixa ninguém para trás”.

Em entrevista à Adital, Cleber Buzatto, secretário executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), faz uma avaliação positiva do Fórum. Segundo ele, que esteve presente no evento, as lideranças tiveram a oportunidade de exporem suas demandas, resultando numa série de articulações entre as organizações.

Buzatto cita que os suicídios indígenas estão acima das médias nacionais e são uma questão preocupante. "Estão associados a uma condição de vulnerabilidade social e cultural”, explica. Ele destaca que situações como a alta densidade populacional, os conflitos de terra e o isolamento de algumas comunidades, como é o caso da tribo Guarani-Kaiowá, no Estado do Mato Grosso do Sul, Brasil, potencializam o suicídio.

De acordo com o secretário, o Brasil vive uma situação emblemática nos últimos quatros anos quanto aos direitos territoriais indígenas. "Está havendo uma reinterpretação restritiva das terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas”, denuncia. Para ele, os três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) têm promovido "ataques” por meio de instrumentos administrativos, movidos por interesse econômicos pelas terras indígenas. A PEC [Proposta de Emenda Constitucional] 215 seria um exemplo. Esta Proposta tenta transferir do Executivo para o Legislativo a prerrogativa constitucional de autorizar a demarcação de terras indígenas.

Suicídio é multifatorial

As causas dos suicídios e da autoflagelação estão diretamente relacionadas a questões históricas enfrentadas pelos indígenas, como a desapropriação de suas terras e recursos e a negação dos direitos humanos. Sociólogos afirmam que há a perda do "vínculo sagrado com a terra”, gerando a falta de um "lugar de pertencimento”. Tudo isso, combinado à redução da autentificação e ao afastamento de suas raízes culturais e dos modos de vida, prova o isolamento sociocultural.

É como se o indígena estivesse em um "não lugar”, negociando entre culturas e com a sociedade de entorno. Os estudiosos apontam uma crise na escolha entre a tradição e a modernidade. Alguns índios acabam fugindo de suas tribos para as periferias das cidades. Enfrentam o alcoolismo, a pobreza, violência e a discriminação por serem indígenas.

A falta de oportunidades de trabalho e de representação na política, assim como de reconhecimento da importância dos povos indígenas, geram também altos níveis de pobreza e interferem na estrutura social indígena. Lutas por território e interesses econômicos de proprietários rurais são freqüentes. Há relatos de perseguição, torturas, incêndio de aldeias. Nesse contexto, a falta de esperança e de perspectiva têm levado jovens indígenas ao suicídio.

Entre os métodos mais utilizados para o suicídio estão o enforcamento e o envenenamento.

Em janeiro de 2015, a TV ONU produziu um documentário abordando o drama vivido pelos jovens indígenas brasileiros. Assista ao vídeo:
Recomendações

O Fórum Permanente da ONU exorta todos os Estados a elaborarem programas nacionais para estudarem, investigarem e prevenirem o comportamento suicida e a autoflagelação entre crianças e jovens indígenas. Pede à Organização Mundial de Saúde (OMS) que elabore uma estratégia de combate ao suicídio indígena em nível mundial.

Segundo o Fórum, os Estados devem melhorar a reunião de dados e recursos para desenvolverem programas de conscientização sobre a saúde mental indígena.

Recomenda ainda que a comunidade internacional trabalhe, ativamente, com os indígenas na formulação de indicadores chaves, relativos aos direitos sobre a terra e recursos naturais, ao empoderamento das mulheres indígenas, ao acesso à justiça e a medidas especiais relativas à saúde, educação e ao desenvolvimento socioeconômico indígena.

Entre as causas de suicídio indígena estão a perda de "vínculo com a terra” e o sentimento de não pertencimento, que provocam isolamento sociocultural.

Estudo

De acordo com o relatório "Suicídio adolescente entre povos indígenas”, do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), o suicídio de jovens indígenas lidera as taxas entre os diferentes grupos populacionais latino-americanos. Os maiores índices são registrados entre os jovens de 15 e 24 anos de idade. O estudo, publicado em 2014, analisou o suicídio entre os indígenas da Colômbia, Peru e Brasil, especialmente entre as tribos Embera, Awajún e Guarani, respectivamente.

A pesquisa revela que, no Brasil, calcula-se que 38% da população indígena vivam em extrema pobreza, em contraste com os 15,5% da população total; a taxa de mortalidade infantil, em 2000, era de 51,4 por 1 mil habiantes, enquanto a média nacional era de 30,1 por mil.

No Peru, os índios são afetados pela expansão da cultura da coca, pela política de concessões petroleiras e florestais e pelas atividades mineradoras. Segundo o relatório, existem concessões petroleiras de mais de 50 milhões de hectares, cobrindo 72% da Amazônia peruana e já loteadas em sua totalidade. As cifras para as concessões mineradoras e madeireiras superam 2 milhões e 15 milhões de hectares, respectivamente, e o montante das terras desmatadas já supera os 10 milhões.

Fonte: IHU

junho 01, 2015

"Dólares, areia, Geraldine e Abujamra". POR José Geraldo Couto (Blog do IMS)

PICICA: "Em Dólares de areia Geraldine tem uma das atuações mais corajosas que se pode esperar de uma estrela. Numa época em que até mulheres com metade da sua idade se protegem sob camadas de botox, silicone e photoshop, ela se expõe em toda a sua magreza, rugas, estrias e olheiras. Nadando, dançando, fazendo amor, caindo de bêbada, ela, que nunca foi propriamente “bonita”, adquire uma aura de beleza nascida diretamente de sua inteligência e de sua integridade.

Já Noeli/Yanet, bonita e sensual desde a primeira aparição, leva um tempo para humanizar-se, ganhando aos poucos consistência psicológica e moral diante dos nossos olhos."

Dólares, areia, Geraldine e Abujamra

POR José Geraldo Couto José Geraldo Couto: no cinema | 01.05.2015


Dólares de areia é um corpo estranho no aviltado circuito exibidor brasileiro, uma excrescência (como a pérola na ostra) que pode ser expelida a qualquer momento. É bom correr para ver antes que saia de cartaz.


Dirigido pelo mexicano Israel Cárdenas e pela dominicana Laura Amelia Guzmán, é uma coprodução entre os dois países e trata justamente de trocas e entrechoques culturais, sociais, geracionais. No fundo, é também um filme sobre corpos estranhos: estranhos uns aos outros e estranhos a um público habituado ao padrão biotípico hollywoodiano (ou televisivo).

Há no centro de tudo o contraste entre o corpo jovem e escuro de Noeli (Yanet Mojica) e o corpo velho e alvo de Anne (Geraldine Chaplin), em algum lugar do litoral paradisíaco da República Dominicana.

Noeli sai (ou “fica”) com turistas em troca de um punhado de dólares, com a anuência do namorado tocador de bongô (Ricardo Ariel Toribio). Anne é uma setentona, avó e solitária, que se apaixona por Noeli. Uma senhora viajada, cosmopolita, poliglota, e uma garota pobre e iletrada, mal saída da adolescência, ainda em busca de seu lugar no mundo. Romance improvável, melancólico, sem futuro visível.

Geraldine Chaplin

Anne aparentemente é francesa, mas não dá para ter certeza, uma vez que Geraldine Chaplin fala com a mesma fluência inglês, francês e espanhol. E aqui cabe um parêntese sobre a atriz. Filha de Charles Chaplin e neta de Eugene O’Neill, Geraldine tem o cinema e o teatro no sangue, e as marcas da vida no rosto e na pele. Foi casada com o cineasta espanhol Carlos Saura e há décadas é companheira do diretor de fotografia chileno Patricio Castilla, acusado (injustamente, ao que parece) de ligação com o grupo terrorista basco ETA.


Cena de Dólares de areia
Em Dólares de areia Geraldine tem uma das atuações mais corajosas que se pode esperar de uma estrela. Numa época em que até mulheres com metade da sua idade se protegem sob camadas de botox, silicone e photoshop, ela se expõe em toda a sua magreza, rugas, estrias e olheiras. Nadando, dançando, fazendo amor, caindo de bêbada, ela, que nunca foi propriamente “bonita”, adquire uma aura de beleza nascida diretamente de sua inteligência e de sua integridade.

Já Noeli/Yanet, bonita e sensual desde a primeira aparição, leva um tempo para humanizar-se, ganhando aos poucos consistência psicológica e moral diante dos nossos olhos.

Desmontagem de clichês

Um dos méritos centrais de Dólares de areia é acenar com certos clichês (turismo sexual, amor não correspondido, manipulação de sentimentos) para depois frustrá-los, problematizá-los ou esvaziá-los. Mais importante que a “curva dramática”, tão valorizada nos roteiros convencionais, é o aprofundamento nos desejos e fragilidades de cada personagem: Anne, Noeli, o namorado.

A concentração nesses seres tão ricos e tão desiguais se dá mediante uma narrativa lacunar, que não se perde em detalhes inúteis e que deixa espaço para o espectador montar a história. Há também um artifício visual interessante: boa parte das cenas é filmada com luz quase estourada (ou, inversamente, escassa) e pouca profundidade de campo, de tal maneira que em torno dos personagens em foco o que se vê é pouco mais que um borrão colorido.

Evita-se assim o pitoresco de uma região ao mesmo tempo muito bela e muito pobre e a dispersão narrativa que isso acarreta, por exemplo, em tantos filmes brasileiros ambientados no litoral do nordeste.

Abujamra no cinema

Da grandeza de Antonio Abujamra para o teatro e a televisão muita gente pode falar com mais propriedade do que eu, e tem falado. Mas no cinema brasileiro a sua presença, embora menos frequente, também foi importante. Em papeis quase sempre secundários, mas marcantes, trabalhou, entre outros, com Anna Muylaert (de quem foi sogro), Julio Bressane, Rogério Sganzerla e Alain Fresnot, mas sobretudo com seu amigo Ugo Giorgetti, com quem parecia ter uma sintonia artística e existencial muito grande.

Foi num filme de Giorgetti, Festa (1989), que Abujamra formou uma dupla memorável com Adriano Stuart, outro “giorgettiano” de primeira ordem. Nessa pequena obra-prima que remete às melhores comédias sociais italianas, Stuart é um célebre jogador de sinuca, já decadente, convidado para animar uma festa de grã-finos, e Abujamra é seu fiel escudeiro. Para quem quiser conferir, o filme está na íntegra aqui:


Foi também Giorgetti que deu a Abujamra seu único papel de protagonista no cinema (se excluirmos o sofrível Oceano Atlantis), no monólogo Solo (2011), em que o ator incorpora um velho paulistano de classe média amargurado com a decadência de seu bairro, da cidade e do mundo. Há muito do humor cáustico e melancólico do cineasta e do próprio Abujamra no personagem. Infelizmente poucos viram. Aqui um trecho, à maneira de despedida desse grande ator, diretor e figura humana:






José Geraldo Couto
José Geraldo Couto é crítico de cinema, jornalista e tradutor. Trabalhou durante mais de vinte anos na Folha de S. Paulo e três na revista Set. Publicou, entre outros livros, André Breton (Brasiliense), Brasil: Anos 60 (Ática) e Futebol brasileiro hoje (Publifolha). Participou com artigos e ensaios dos livros O cinema dos anos 80 (Brasiliense), Folha conta 100 anos de cinema (Imago) e Os filmes que sonhamos (Lume), entre outros. Escreve regularmente sobre cinema para a revista Carta Capital.

Fonte: Blog do IMS

"Literatura que nos desconcerta – livro-vespeiro (Jack Kerouac)", por Adriel Dutra (LETRA E FILOSOFIA)

PICICA: "Há literatura que não se presta a distrair, nem entreter, muito menos passar o tempo. Literaturas marginais capazes de nos desconcertar. Literaturas que são políticas e éticas.

Kafka diz que “Um livro deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós”. Ele está nos falando dessa literatura, capaz de nos envergonhar, desestruturar, literatura que nos obriga a re-construir outros mundos possíveis."

Literatura que nos desconcerta – livro-vespeiro (Jack Kerouac)

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Adriel Dutra
Escrito por Adriel Dutra
Há literatura que não se presta a distrair, nem entreter, muito menos passar o tempo. Literaturas marginais capazes de nos desconcertar. Literaturas que são políticas e éticas.

Kafka diz que “Um livro deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós”. Ele está nos falando dessa literatura, capaz de nos envergonhar, desestruturar, literatura que nos obriga a re-construir outros mundos possíveis.

Essa literatura nos incomoda, e pode nos fazer girar sobre uma questão foucaultiana: “O que estamos fazendo de nossas vidas?”.

Quem nunca foi desconcertado por um livro e ficou semanas, meses… e nunca mais foi o mesmo? Essa é a grandeza de uma literatura enquanto máquina-de-guerra frente a um mundo onde a besteira impera. Tem literatura que precisamos de coragem para ler, tem livros que são verdadeiros vespeiro, se cutucar saiba que…

A literatura não precisa pedir licença, e é para incomodar mesmo, afinal, para que serve um texto se ele não é capaz de nos afetar, de incomodar, de nos causar algum tipo de fissura?
Faculdades não passam de uma escola que dá lustro à falta de identidade da classe média que habitualmente encontra sua expressão perfeita às margens do campus em fileiras de casas abastadas com gramados e um aparelho de televisão na sala e todo mundo olhando para a mesma coisa e pensando a mesma coisa ao mesmo tempo enquanto Japhys do mundo saem no mato para ouvir a voz que grita na floresta, para achar o êxtase das estrelas, para descobrir o segredo obscuro e misterioso da origem da civilização sem rosto, que não se maravilha e vive de ressaca. “Toda essa gente”, disse Japhy, “todos eles têm banheiros com azulejos brancos e fazem uns cocozões bem sujos como os dos ursos na montanha, mas é tudo mandado embora por um sistema de esgoto convenientemente supervisionado e ninguém mais pensa no cocô nem percebe que a origem dele é a merda e o almíscar e a escória do mar. Passam o dia inteiro lavando as mãos no banheiro com aqueles sabonetes cremosos que, em segredo, têm vontade de comer”.


JACK KEROUAC, OS VAGABUNDOS ILUMINADOS

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Fonte: LETRA E FILOSOFIA

"Amor: o impossível e uma nova suavidade – Suely Rolnik" (Geledés)

PICICA: "Que a família implodiu, já sabemos. Isso não é de hoje. Dela restou uma determinada figura de homem, uma determinada figura de mulher. Figura de uma célula conjugal. Mas esta vem se “desterritorializando” a passos de gigante. O capital inflacionou nosso jeito de amar: estamos inteiramente desfocados. Muitos são os caminhos que se esboçam a partir daí: do apego obsessivo às formas que o capital esvaziou (territórios artificialmente restaurados) à criação de outros territórios de desejo, topamos com inúmeros perigos, por vezes fatais."

Amor: o impossível e uma nova suavidade – Suely Rolnik


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O amor anda impossível?

Que a família implodiu, já sabemos. Isso não é de hoje. Dela restou uma determinada figura de homem, uma determinada figura de mulher. Figura de uma célula conjugal. Mas esta vem se “desterritorializando” a passos de gigante. O capital inflacionou nosso jeito de amar: estamos inteiramente desfocados. Muitos são os caminhos que se esboçam a partir daí: do apego obsessivo às formas que o capital esvaziou (territórios artificialmente restaurados) à criação de outros territórios de desejo, topamos com inúmeros perigos, por vezes fatais.

Por Suely Rolnik.* no  TERRITÓRIOS DE FILOSOFIA

Em um dos extremos, é ao medo da desterritorialização que sucumbimos: nos enclausuramos na simbiose, nos intoxicamos de familialismo, nos anestesiamos a toda sensação de mundo, endurecemos. No outro extremo — quando já conseguimos não resistir à desterritorialização e, mergulhados em seu movimento, tornamo-nos pura intensidade, pura emoção de mundo —, um outro perigo nos espreita. Fatal agora pode ser o fascínio que a desterritorialização exerce sobre nós: ao invés de vivê-la como uma dimensão imprescindível da criação de territórios, nós a tomamos como uma finalidade em si mesma. E, inteiramente desprovidos de territórios, nos fragilizamos até desmanchar irremediavelmente.

Entre esses dois extremos, ou essas diferentes maneiras de morrer, ensaiam-se desajeitadamente outros jeitos de viver. E todos esses vetores da experimentação coexistem, muitas vezes na vida de uma mesma pessoa.

No primeiro caso, Penélopes e Ulisses — sobreviventes do naufrágio da família — encarnam em todos nós, nos arrastando para essa maldita simbiose que nos persegue, homens e mulheres, só variando seu estilo. Essa maldita vontade de espelho. Essa sede insaciável de absoluto, de eterno. Sede que não nos dá trégua e que nos afasta de todos os fios do mundo — humanos ou não — com que poderíamos estar tecendo territórios, nos tecendo. Na imobilidade ranheta de Penélope (que tece, mas eternamente os mesmos fios) ou no movimento compulsivo de Ulisses (que nada tece) é sempre a mesma chatice, a mesma impotência, o mesmo sufoco.

Penélopes tecem, mas sempre o mesmo: amor por Ulisses. Fios, humanos ou não, são nada para Penélope: ela os rejeita a todos, ou nem sequer os enxerga. Seu argumento é a eterna atualidade do tecido que tece para (e com) Ulisses, obra que lhe toma todo o tempo e espaço. Tecido a cada noite desmanchado, reinventado a cada dia. Não é por gosto do tecer que ela tece, mas por gosto do reproduzir do tecido — imagem desse amor. O mundo torna-se assim absoluto: ela e o outro (Ulisses) dentro dela. Penélopes eternamente condenadas à vontade de ficar.

Ulisses viajam, não tecem. Andam por toda parte sem estar em parte alguma. Fios, humanos ou não, não ocasionam um tecer, mas são pedaços-imagem de mundo de que Ulisses tenta se apossar a cada aventura. O mundo torna-se assim absoluto: Ulisses e o outro (todas as outras) que ele penetra. Pedaços cuja montagem forma uma imagem de mundo. Ulisses eternamente condenados à vontade de partir.

Penélope nega-se à aventura, porque é na aventura que se evidencia para ela a desterritorialização, objeto de seu pânico. Fervorosas adeptas e propagadoras, a seu modo, da fé no absoluto, as Penélopes não se reconhecem na descontinuidade dos contornos e não a reconhecem como inelutável. E a cada vez que sentem o descontínuo, consideram-no mero acidente — e, enquanto tal, passageiro — acidente atribuído à falta do outro dentro delas. A desterritorialização é traduzida como sensação de estar se desagregando de tanto que Ulisses lhes falta. E, melancolicamente, Penélope o acusa: “você me destrói com a sua vontade de ausência”.

Mas essa sensação de destruição (na ausência) é indissociável de uma esperança: a da sensação aliviadora de reconstrução (na presença) — condição de existência das Penélopes. A lamúria da falta de Ulisses alimenta a esperança de que cada retorno dele lhe devolva a certeza de ser mulher. A tão chorada ameaça de perda de Ulisses é ameaça de perda de si; ameaça apaziguada a cada volta de Ulisses, que lhe devolve esse si. É como se para existir, ela estivesse condenada a repetir infinitamente essa seqüência ritual que culmina com o ato de sua fundação como mulher. “Mas cada volta tua há de apagar o que essa tua ausência me causou…”1: a cada volta tua, saberei de novo… e de novo… e de novo… que sou mulher. É nos gemidos que pontuam a angustiada espera de Ulisses — cultivo da simbiose — que Penélope garante seu espelho.

Já para Ulisses a evidência da desterritorialização — objeto de seu pânico — está no tecer. Então, é ao tecer que Ulisses se nega. Fervorosos adeptos e propagadores, mas de outro modo, da fé no absoluto, os Ulisses também não se reconhecem na descontinuidade dos contornos, nem a reconhecem como inelutável. E a cada vez que sentem o descontínuo, consideram-no mero acidente e, enquanto tal, passageiro. O acidente, aqui, é atribuído ao excesso de presença do outro, que lhes impede o acesso a todos os outros. A desterritorialização é traduzida como sensação de estar sendo devorado por Penélope. E, fobicamente, Ulisses a acusa: “você me destrói com essa sua carência, vontade de presença”.

Neste caso, inversamente ao de Penélope, a sensação de destruição (na presença) é indissociável de uma esperança: a de uma sensação aliviadora de reconstrução (na ausência) — condição de existência dos Ulisses. Ele precisa ir-se para manter Penélope sob a ameaça de perdê-lo, e nessa ameaça manter vivo seu desejo por ele, desejo no qual ele se espelha. Ameaçada, Penélope grita seu nome aos quatro ventos e do fundo de seu desespero lhe diz: “eu não existo sem você…”, “sem você meu amor eu não sou ninguém…”, “eu adormeço pensando em ti… eu amanheço pensando em ti…”, “eu sei que vou te amar por toda a minha vida…”2 Ao ouvir isso, Ulisses se alivia: no desconsolo dela, ele se consola. Reassegurado ele agora sabe: “a cada ausência minha, eu existo na espera chorosa dela, que constato e reconstato a cada volta”. É nesse reiterado ritual, feito de uma eterna fuga e de um eterno retorno — configuração da simbiose — que Ulisses garante seu espelho.

As agressivas escapadas dele (viagens de Ulisses) são condição de existência dela. Penélope precisa, em sua espera, queixar-se da “outra” — todas as mulheres (reais ou imaginárias, tanto faz). Nessa queixa, ela se indaga: “espelho, espelho meu, existe alguém mais mulher do que eu?” E o eterno retorno de Ulisses, resposta do espelho, faz dela A Mulher.

A espera melancólica (o tecer e retecer de Penélope) é condição de existência dele. Na irritação com a carência de Penélope, Ulisses se funda como Homem. Ele precisa queixar-se do desespero inconsolável dela, pois nessa queixa ele se certifica da permanência de seu chão, chão de sua perpétua reterritorialização. Na verdade, em suas viagens, Ulisses nunca se desterritorializa: é sempre e somente na secreta terra firme feita do incessante lamento de Penélope que ele caminha.

O pânico de Ulisses diante da carência de Penélope gera o pânico de Penélope diante da fuga de Ulisses, que gera o pânico de Ulisses. Mas Ulisses nasce do pânico de Penélope, que nasce do pânico de Ulisses…

Ele aparece como o vilão da história, ela como a chata: para todos os efeitos, quem abandona é ele e quem gruda é ela. Mas, na verdade, são os dois que precisam tanto do abandono, quanto do grude — pacto simbiótico. Ambos precisam desta intermitência: na calada da noite, silenciosamente, o tecido se desfaz, instaurando a ameaça de desmanchamento do junto — e, conseqüentemente, de cada um deles, indissociáveis nesse junto. À luz da manhã, os fios, visivelmente, se tecem. Nessa alternância, o que se busca é estar certo de que a trama desse drama perdura. É preciso ver para crer infinitas vezes. Repetir sem parar o perigo de se desfiar, para certificar-se do eterno e absoluto dessa trama. Penélope controla o tempo: tece a trama da eternidade, Ulisses controla o espaço: monta a imagem da totalidade. Dois estilos complementares da vontade de absoluto: imobilidade morna e melosa, mobilidade fria e seca. É a mesma esterilidade. Uma só neurose: equilíbrio homeostático. Medo de viver. Vontade de morrer.

Penélope e Ulisses somos todos — em diferentes matizes, a cada momento. Além disso, não é sempre o mesmo Ulisses que Penélope espera voltar; não é sempre a mesma Penélope que Ulisses abandona ao partir — eles variam, e cada vez mais. No entanto, a cena é sempre a mesma: há sempre uma mulher que desempenha a Penélope para ele, sempre um homem que desempenha o Ulisses para ela (ou vice-versa). Remanescentes ativos de uma família desaparecida, que reproduzimos artificialmente sob as mais variadas formas. Reterritorialização, eterna condenação a “fazer cenas” em família, maneiras e maneiras de teimar que um dia “isto” ainda fica inteiro.

Mas um dia, o Ulisses — presente em cada um de nós, homens e mulheres — sai de cena: desgarra-se definitivamente de Penélope. Ele não voltará nunca mais. Supera o medo, já não precisa de espelho na espera dela, nem na de ninguém: entrega-se de corpo e alma à desterritorialização. E uma outra cena se instaura: a das máquinas celibatárias.3

Sem território fixo, as máquinas celibatárias erram pelo mundo. Com cada fio que se apresenta — humano ou não — elas tecem, se tecem. E a cada novo fio, elas esquecem, se esquecem. Sem identidade, são pura paixão: nascem de cada estado fugaz de intensidade que consomem. Seu vôo, já longe do sufocante mundo dos Ulisses e Penélopes, atinge universos insuspeitados. A vida se expande. Há uma alegria nessa expansão. Grandeza celibatária.

No entanto, há também uma miséria nisso tudo: é que nunca articulam-se os fios, nunca territórios se organizam. E assim o potencial de expansão contido na recém-conquistada intimidade com o mundo se desperdiça. Dispersa.

Nessa fúria de tecer com tantos fios, tão rapidamente substituídos, não mais conseguimos nos deter. O outro, descartável, é a mera paisagem que quando muito mimetizamos. E, almas penadas,viajamos por entre essas paisagens que se sucedem, assim como nós mesmos. Nunca pousamos em paisagem alguma de modo a constituir território e, reorganizados, prosseguirmos viagem. Miséria celibatária. Há uma certa amargura nisso tudo.

Sem tempo nem espaço para tecer o que quer que seja, corpo e alma vão perdendo a capacidade de urdir. Invalidam-se nossas defesas imunológicas: nos tornamos tão vulneráveis que, ao mais leve toque, nos desmanchamos. E morremos de AIDS.

É verdade que nem sempre é assim que funcionam as máquinas celibatárias. Às vezes a especial paixão que algum fio nos desperta ainda nos leva a investir um tecer. Mas, aí, o que freqüentemente acontece é que assistimos impotentes à nossa recaída na simbiose — aquela mesma. É de novo nesse solo que aterrissamos: nos reterritorializamos.

Duas cenas, dois perigos, um só dano: entre a simbiose e a desterritorialização vivida como finalidade em si mesma, quem sai perdendo é o amor.

Então o amor anda impossível? Nem tanto.

Exauridos de tanta repetição, constatamos que ficar enaltecendo (como Penélope) a volta ao aconchego do lar — o confinamento conjugal —, ou (como Ulisses) a liberdade da aventura — que só existe em função de seu eterno retorno àquele ninho — apenas mascara o medo da desterritorialização, por vontade de absoluto.

E não é só isso. Constatamos também que ficar enaltecendo essa liberdade de circular desencarnadamente, sem Penélope alguma a nos espelhar em sua espera (máquinas celibatárias), acaba nos desencarnando é da própria vida. Consternados, descobrimos que por ter pretendido nos livrar do espelho, o que acabamos perdendo é a possibilidade de envolvimento — como se a única ligação possível fosse a especular. Por ter pretendido nos livrar da simbiose, o que acabamos perdendo é a possibilidade de montagem de territórios — como se a única montagem possível fosse a simbiótica.

Saturados de ter a sensibilidade limitada a essas faixas de freqüência — o medo da desterritorialização e/ou seu fascínio — sintonizamos (por uma questão de sobrevivência… e de humor) outras faixas, até há pouco ignoradas.

Entramos no cinema e, numa cidade do futuro — não tão distante —, descobrimos que para além desses dois vetores delineia-se toda uma experimentação de montagem de outros territórios de desejo. É Ridley Scott que nos introduz a esse mundo, em seu filme Blade Runner.4 Nele somos apresentados aos “replicantes”: clones de gente, programados para colonizar o espaço. Perfeitas réplicas do humano, eles só não estão equipados para produzir réplicas emocionais (isso só atrapalharia sua livre circulação pelos planetas, indispensável ao cumprimento de sua tarefa). São réplicas sim — mas das máquinas celibatárias, em seu máximo aperfeiçoamento.

Mas isso não é assim tão tranqüilo para eles: quando está por expirar seu prazo de existência, rebelam-se. Replicam. No começo do filme, eles acabam de voltar à Terra justamente para subverter esse seu destino. Querem desertar sua condição de desalmados: já pressentem essas faixas de freqüência para as quais o homem, seu criador, negou-se deliberadamente a equipá-los. Atacam a empresa de seu criador: querem viver. Mas a vida já não pode ser para eles — seu destino é fatal. Sua revolta só vingará se contaminar os humanos.

Deckard, um quase não-homem — ser homem, dizem no filme, é ser perseguido (man) ou perseguidor (policeman) e Deckard não é nem um nem outro —, será o escolhido. Pelos homens, para eliminar os replicantes. Pelos replicantes, para ser contaminado com o recém-descoberto potencial de envolvimento e generosidade, com a coragem que esse potencial requer para se expandir.
Roy, chefe do bando dos replicantes, em meio a uma luta de vida ou morte com Deckard, o salva, o contamina e morre.

Deckard, primeiro homem quase replicante e Rachael, última replicante quase humana, salvam-se. Apaixonados e amorosos, partem juntos e o filme termina.

Ficamos com a esperança — talvez ingênua — de que eles inventarão outra espécie de amor. Ficamos sonhando com a possibilidade de outras cenas. Um outro mito?

Um além dos Ulisses e das Penélopes: um amor não tão demasiadamente humano. Montagens desintoxicadas do vício de redução do desejo de mundo a um objeto-pessoa ou uma pessoa-objeto.

Mas também um além das máquinas celibatárias, esse avesso do homem: um amor não tãodemasiadamente desumano. Montagens desintoxicadas do vício de proliferação de mundos, objetos do desejo — proliferação tão desenfreada que não há mais nem mundo, nem desejo.

Ficamos imaginando um além do homem (humano e/ou desumano), onde campos de intimidade se instaurem. Territórios-pousada. Uma certa inocência.

Um além do espelho, onde o outro não seja mais aquilo que delineia nosso contorno (Ulisses/Penélope), nem uma paisagem fugaz com a qual, máquinas celibatárias, não criamos coisa alguma.

Um além do espelho onde nossa viagem não seja nem mais aquela (agarrada) de um Ulisses, nem aquela outra (desgarrada) das máquinas celibatárias. Viagem solitária: uma solidão povoada pelos encontros com o irredutivelmente outro.

Mas como seria essa viagem? Dela sabemos apenas duas ou três coisas. A primeira é que ela só se faz se preservarmos o conquistado pelas máquinas celibatárias — ter autonomia de vôo, um vôo onde o encontro com o irredutivelmente outro nos desterritorializa; ser pura intensidade desse encontro. A segunda é que, se isso é necessário, não é suficiente: ao mesmo tempo que se dá a desterritorialização, é preciso que, ao longo dos encontros, territórios se construam. (Máquinas celibatárias, o que não sabíamos é que sem território algum, a vida, desarticulada, míngua). E nos empenhamos na criação desta nova cena (novas cenas?)

Quase replicantes que somos, já sabemos também de que é feito esse empenho: ele é feito de amor. Mas, por enquanto, pouco ou nada sabemos acerca dessa espécie de amor.

As faixas de freqüência dessa inusitada viagem ainda não estão bem sintonizadas. Há ruídos, sons inarticulados, e muitas vezes não suportamos esperar que uma composição se faça: na pressa de já ouvi-la, corremos o risco de compor esses sons com velhos clichês. É difícil não cair na pieguice de um final feliz. De novo a cilada do Espelho. Afinal, esse é apenas o primeiro encontro entre um homem-quase-replicante e uma replicante-quase-humana; e, além do mais, faz muito pouco tempo que fomos contaminados pelo segredo de Roy, replicante chefe.

Na verdade, o que não suportamos é a estridência desses sons inarticulados. É o “nada mais daquilo tudo”. O que não suportamos é que somos um pouco Penélopes, um pouco Ulisses, um pouco máquinas celibatárias, um pouco replicantes… e um pouco nada mais daquilo tudo.

E, no entanto, nos momentos em que, desavisados, conseguimos suportá-lo, descobrimos com certo alívio que, do convívio desencontrado dessas figuras, destila-se já uma nova suavidade.

Notas:

1 Verso de “Eu sei que vou te amar”, canção de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, muito conhecida no Brasil.

2 Versos de diferentes canções de amor de compositores populares brasileiros, muito conhecidas no Brasil.

3 “Máquinas celibatárias” é um conceito proposto por Michel Carrouges, em seu livro Les Machines célibataires (Arcanes, 1954), para designar uma espécie de máquina fantástica que ele encontra nas obras de Kafka, Jarry, Edgar Poë, Roussel, Duchamp e outros. O conceito é retomado por Deleuze e Guattari em 1972, em L’Anti-Oedipe. Capitalisme et Schizophrénie. (Paris: Minuit). Edição em português: Anti-Édipo. Capitalismo e Esquizofrenia. Rio de Janeiro: Imago de Janeiro, 1976; p. 33. Edição em inglês: Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1985,para designar o que os autores chamam de “terceira síntese do inconsciente”, que sucede à “máquina paranóica” e à “máquina miraculante”. Na década de 1970, as máquinas celibatárias foram objeto e título de uma exposição no então recém-criado Centre Georges Pompidou – Musée national d’art moderne.

4 Filme que no Brasil foi intitulado “O Caçador de Andróides”.

*Originalmente publicado em: http://www.pucsp.br/nucleodesubjetividade/suely%20rolnik.htm

Fonte: Geledés

"Professor da USP responde a Rodrigo Constantino" (Portal Fórum)

PICICA: "Muitos dizem que contra os irracionais, os incultos, os bárbaros os mal-intencionados não é desejável partilhar a palavra. Eles não se conformarão a nenhuma ideia e violarão permanentemente o que “nós” entendemos por debate público, por conversa ou por argumentação. “Eles” nos posicionam em uma pequena categoria diagnóstica e, a partir disso, repetem sempre a mesma ladainha de preconceitos sobre o tal inimigo imaginário nos quais nos tornamos, como um espantalho. Deles nós devemos nos afastar.

Tenho que admitir: “deixar secar”, não se envolver em brigas com alguém que não seja de seu tamanho, manter a política da “caravana passa enquanto os cães ladram” é uma atitude salubre. Contudo, manter-se na zona de conforto seria um ideal simples e razoável, não fosse o fato de que o equívoco, sendo a essência da comunicação, torna a nossa zona de conforto uma zona de confronto. A palavra perdida, na comunicação com o outro, volta como uma bala perdida. E dela temos que nos proteger, com novos muros, objetivos e subjetivos. Quanto mais recusamos a reconhecer nossa palavra simbolicamente perdida, mais ela tende a voltar como bala no Real."

Professor da USP responde a Rodrigo Constantino


maio 26, 2015 
Professor da USP responde a Rodrigo Constantino

“A palavra perdida cria a bala perdida. É assim que funciona a lógica do condomínio, Sr. Constantino. Menos do que em sua moradia norte-americana ela está em suas próprias palavras”, aponta, em artigo, o psicanalista Christian Dunker, atacado pelo blogueiro da Veja

Por Redação

No último dia 8, o psicanalista e professor da Universidade de São Paulo Christian Dunker participou do programa Café Filosófico, promovido pela TV Cultura e pela CPFL (para assistir, clique aqui), em que discutiu a existência de condomínios fechados no Brasil – e porque as pessoas recorrem a eles.

No dia seguinte (9), o blogueiro Rodrigo Constantino, da Veja, publicou texto desqualificando o trabalho de Dunker e o chamando de “‘psis’ invejoso”, que parece um “filósofo frustrado” ou um “escritor ressentido”. Como não podia faltar, acusou o professor de integrar a ala intelectual da “esquerda caviar” (termo cunhado pelo próprio colunista).

Leia também – Christian Dunker: O ódio, a exclusão e a lógica do condomínio

Na última segunda-feira (25), Dunker divulgou sua resposta, em forma de artigo. Confira a seguir:

A palavra perdida contra a bala perdida | Resposta de Dunker a Rodrigo Constantino

Lacan dizia que o equívoco é a essência da comunicação. É no deslize, na palavra que escapa, naquele tom de voz descompassado, é na incompreensão que o inconsciente trabalha gerando equívoco de sentido, posicionando os sujeitos mais além do que eles “queriam dizer” em seus devaneios e intenções mais ou menos conscientes. Recuperar a essência perdida da palavra, em meio à série dos equívocos que ela necessariamente acarreta talvez seja uma das tarefas mais importantes se quisermos constituir uma política sobre a violência que não seja ela mesma um exercício de violência, de guerra e de vandalização do outro. Acredito que esse tipo de consequência com a palavra – seja ela uma atitude ética ou rigorosa, seja ela uma atenção implicada ou cuidadosa – poderia tratar nosso atual pressuposto de que não é possível conversar e, portanto, reconhecer os que estão fora de nosso condomínio.

Trata-se, portanto, de uma espécie de experimento de casos mais simples mas em que se encontra em jogo um princípio maior. Muitos dizem que contra os irracionais, os incultos, os bárbaros os mal-intencionados não é desejável partilhar a palavra. Eles não se conformarão a nenhuma ideia e violarão permanentemente o que “nós” entendemos por debate público, por conversa ou por argumentação. “Eles” nos posicionam em uma pequena categoria diagnóstica e, a partir disso, repetem sempre a mesma ladainha de preconceitos sobre o tal inimigo imaginário nos quais nos tornamos, como um espantalho. Deles nós devemos nos afastar.

Tenho que admitir: “deixar secar”, não se envolver em brigas com alguém que não seja de seu tamanho, manter a política da “caravana passa enquanto os cães ladram” é uma atitude salubre. Contudo, manter-se na zona de conforto seria um ideal simples e razoável, não fosse o fato de que o equívoco, sendo a essência da comunicação, torna a nossa zona de conforto uma zona de confronto. A palavra perdida, na comunicação com o outro, volta como uma bala perdida. E dela temos que nos proteger, com novos muros, objetivos e subjetivos. Quanto mais recusamos a reconhecer nossa palavra simbolicamente perdida, mais ela tende a voltar como bala no Real.

São duas tarefas: nos proteger da palavra e da bala perdida. Nisso nosso mundo vai ficando menor. Mal tratado, isso caminha até tornar-se impossível habitar o lugar onde estamos. É neste ponto que nos mudamos para Miami ou para a Austrália (o Brasil que deu certo). Por isso a conversa com os “impossíveis” é uma tentativa de explorar os limites da palavra perdida. Espero que aqui o equívoco ressoe conforme a escolha do leitor: perda de tempo, extravio da palavra, suspensão do diálogo, derrota na batalha verbal, inconsequência no uso do sentido, palavra mal-dita, palavra maledicente.

O caso que trago à consideração do leitor baseia-se em uma trivial sequencia de equívocos, semelhante à que vemos em filmes como Faça a coisa certa (1989, dir. Spike Lee), Babel (2006, dir. Alejandro Iñarritu) ou Cronicamente inviável(2000, dir. Sergio Bianchi). Neles os acontecimentos acumulam desencontros, desacertos e equívocos que terminam em bala perdida, que depois ninguém consegue entender como aconteceu.
Pois bem, na gravação do Café Filosófico da TV Cultura, que tem por tema meu livro Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros, afirmei que há duas linhas de afeto concorrendo para a experiência simbólica do condomínio no Brasil.


A primeira reproduz expectativas de segurança e de solução para o medo. Defendo-me do mundo perigoso lá fora, erguendo muros e criando uma lei interna para consumo próprio com meus síndicos e regulamentos. A segunda determinação afetiva da vida em forma de condomínio baseia-se na inveja. Uma vez guarnecido e protegido imagino que o meu sonho é também o dos outros. Mas só alguns conseguem realizar esta ambição de consumo. Há uma graça adicional em pensar que os outros desejam ter o que eu tenho, portanto, que os outros me invejam. Isso faz parte da mais banal lógica do consumo conspícuo. Minhas determinações de consumo não são dadas pela satisfação para minhas necessidades, ainda que sejam as mais básicas necessidades de proteção e segurança.

Uma consequência trivial da psicanálise para a teoria do consumo é pensar que este seja sobre-determinado pelo desejo do Outro. Isso torna o consumo um ato de palavra. Ao usar um tênis, pilotar um carro importado ou comprar uma casa em um condomínio não estou apenas satisfazendo necessidades, estou dizendo algo para os outros. Este ponto é crucial, pois se não levo isso em conta, se minha palavra é perdida neste ponto, posso não perceber que estou dizendo coisas agressivas, provocativas ou violentas. Posso não entender que para outras pessoas a minha opulência e ostentação possam causar desagradável inveja. E ao não reconhecer isso, a inveja, que é um dos nomes do desejo, pode virar ódio. Desta maneira, ao perder a dimensão a palavra, envolvida em meus gestos, inclusive os gestos de consumo, particularmente os que têm expressão pública, posso reforçar a mensagem de perigo e violência da qual tento fugir. Pois bem, o leitor pode verificar a pertinência deste resumo do que eu disse na gravação do Programa por si mesmo, afinal a tese é de que a palavra vem com o equívoco.

Mas qual não foi minha surpresa quando vejo a coluna de meu interlocutor Rodrigo Constantino comentando minha apresentação, redescrita por Francisco Razzo, da seguinte maneira:

“Nem me dei ao trabalho de quem é a pérola. Há fortes indícios de ser mais uma análise de um desses ‘psicólogos sakamotianos’ tomados pelo espírito de justiça social tentando realizar uma anatomia da alma dos opressores.”

Ou seja, basta saber quem você é para que imediatamente possamos julgar a pertinência ou veracidade do que está sendo dito. A palavra está perdida para a pessoa. E assim, por ouvir dizer de outro, auto-declaradamente preguiçoso, Rodrigo Constantino comenta, não a tese, mas a pessoa que a enuncia:

“Esses psicanalistas parecem filósofos frustrados ou escritores ressentidos, e no fundo fazem de tudo para atacar os mais bem-sucedidos. […] Vivendo numa redoma, essas pessoas se blindam contra o ‘real’ e não querem se deparar com o Outro.”

Atualmente vivendo em Miami, ele defende-se da crítica de que teria fugido do Brasil por covardia, dizendo que essa é uma atitude racional (para os que podem). “Eles” psicanalistas frustrados, ressentidos atacam a “nós” pessoas “mais bem sucedidas”. Ou seja, se Constantino está certo eu (junto com toda minha classe) o invejo. Mas era exatamente isso que eu estava dizendo sobre a inveja e, portanto, ele me dá razão ao dizer que eu a perdi. Também quando diz que estou em uma “redoma blindada contra o real” reencontro meu argumento sobre a vida em forma de condomínio sendo empregado, desta vez contra mim. Ou seja, minhas palavras estão certas, minha pessoa é que está errada.

Este ponto é decisivo para entendermos como este discurso gera violência. O que vemos aqui é a transformação das diferenças sociais, da existência de pobres e ricos, da distribuição não equitativa de bens materiais e simbólicos, em um ressentimento de classe. Por isso os que estão na esquerda caviar são traidores, hipócritas e impostores. Eles não jogam no time dos ricos contra o time dos pobres. Pela regra do jogo os que perderam direito à palavra só podem se vingar por meio da bala. Por isso a coisa mais “lógica” a fazer é retirar-se para o condomínio, de preferência em Miami, e viver uma vida de refugiado sobrevivente.

Aqui encontramos o tradicional argumento da ameaça. Se você critica a vida em condomínio, e diz que ela envolve um tanto de inveja que pode causar nos que estão fora, você está apoiando o crime, o tráfico, os bandidos… enfim, os pobres que não podem ter condomínio. Mais uma vez os intelectuais (ou “pseudo-intelectuais”) são traidores. Se eles defendem os pobres eles deveriam… ser pobres. Quem come caviar não pode querer que os de outros condomínios comam também. Isso é um contra senso, uma ameaça ao mais geral princípio da identidade.

(Aliás, por esta lógica de equívocos é bom lembrar que o melhor caviar é feito de ovas do esturjão, peixe que abunda o mar Cáspio, que circunda a Rússia, que por sua vez é parte da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas… tá vendo? Caviar é da esquerda, você é que só sabe comer “x-burguêis”!)

Mas em outro sentido Constantino tem razão e suas palavras se ligam com sua pessoa. Somos traidores porque não aceitamos que a regra do jogo seja a da guerra de ricos contra pobres. Somos traidores porque acreditamos que as palavras recuperadas podem ser o meio para a suspensão das balas perdidas. Somos traidores porque acreditamos na regra da palavra, como meio de reconhecimento, entre ricos e pobres. E temos tanto medo quanto todos nós, pobres e ricos. Portanto estamos de acordo na medida em que:

“Não querem[os] encontrar o ‘outro’ mascarado e prestes a estuprar sua filha. Não querem[os], enfim, encontrar uma bala ‘real’.

Mas estamos em desacordo que este medo:

“É só fuga.”

(Rodrigo Constantino, “O gozo da inveja e o rancor dos pseudointelectuais“, Blog da Veja)

O que o colunista da revista Veja, que acredita que estou parasitando sua audiência ao discutir com ele, não consegue perceber é que o condomínio é uma estrutura. Semelhante à prisão, ao Shopping Center ou à favela. Por não ter assistido ao programa, nem lido o livro, nem qualquer de suas resenhas e críticas (o que torna bastante prática esta lógica do ‘basta saber quem você é’), Constantino simplesmente não entendeu o conceito de vida em forma de condomínio e acha que estou recriminando as pessoas que optam por este tipo de moradia, por bons e maus motivos.

Ele não entendeu que esta lógica toca a todos nós no Brasil de hoje. Não entendeu que ela concorre para a produção da violência da qual ele e todos nós nos queixamos. Um equívoco, gerado por outro equívoco, o do Sr. Razzo (e isso não é uma piada lacaniana!), que por sua vez engendra outros equívocos, que são soberbamente reproduzidos pelos leitores de Constantino. Esses sim são objeto de minha extrema preocupação (e ‘inveja’, dirá meu interlocutor). Como já havia verificado em outras ocasiões, nestes comentários encontramos uma mutação de tom, um aumento de virulência, uma acréscimo de gozo, que culminará na violência. Como se para agradar o mestre fosse preciso exagerar e amplificar seus métodos. Reproduzo as pérolas:

“Nosso suado dinheiro que banca as micaretas acadêmicas dessa corja.”

“São simplesmente idiotas, imbuídos de má-vontade, tentando parecer importantes.”

“O que um psicopata quer mesmo, principalmente se ele for de esquerda, não é ajudar os que ainda querem se arrumar na vida. Ele quer mesmo é atacar os que lutaram e conseguiram através do trabalho uma vida razoavelmente boa.”

“Gozo através da inveja têm esses merdinhas que podem olhar debochadamente da nossa cara.”

“Se Dunker mora em um prédio assim, é um hipócrita, como é a maioria dos intelectuais da Unicamp, USP., UERJ, UFF, PUC…”

“Na verdade, o que sustenta a suposta postura magnânima desta ‘psicanalhada’, é um profundo desrespeito pelo tal desejo do Outro, desejo de escolha, Liberdade para cada um decidir o seu próprio caminho, aspectos que ficam esquecidos no meio desta maldita Patrulha do Pensamento, que se instalou no campo da psicologia e da psicanálise neste país.”

“Psicanalistas, psicólogos e semelhantes, na esmagadora maioria, sempre tiveram graves distúrbios mentais que os inclinaram a essas atividades em busca de aliviar seus próprios males!”

Ora, depoimentos como estes já são em si a prática da violência da qual se gostaria de fugir. Preconceitos contra professores, intelectuais, psicanalistas, psicólogos, uso de expressões ofensivas, declarações de ódio, como se o problema do país fossem seus… professores! O leitor deve ter percebido uma espécie de escalada discursiva, primeiro um comentário levemente depreciativo e desinformado do Sr. Razzo, depois uma incitação generalizada do Sr. Constantino, e ao final a força covarde de um grupo cantando o jogral do ódio contra outros grupos. Qual seria o próximo passo?

Acredito que uma parte substancial da violência não decorre das diferenças reais com as quais temos que lidar, mas como desprezo por seu reconhecimento enquanto diferenças de palavra. Uma série como a que apresentei acima é o retrato banal de como diferenças evoluem rapidamente numa somatória de equívocos para convergirem em uma violência, inicialmente verbal mas cujo passo seguinte todos sabemos bem qual é. Uma vez que as palavras do outro não importam, pois já sabemos o que ele vai dizer, basta classificar pessoas. Depois da classificação vem a segregação e finalmente a violência. A palavra perdida cria a bala perdida. É assim que funciona a lógica do condomínio, Sr. Constantino. Menos do que em sua moradia norte-americana ela está em suas próprias palavras.

Fonte: Portal Fórum

"Pesquisa sobre conservação na Amazônia 9: “proteção integral” versus “uso sustentável”", por Philip M. Fearnside (Amazônia Real)

PICICA: "O futuro das terras indígenas é fundamental para a manutenção da biodiversidade na Amazônia. Terras indígenas não são “unidades de conservação”, incluídas no SNUC, mas são um tipo de “área protegida”. Terras indígenas estão sob a jurisdição do Ministério da Justiça, enquanto as unidades de conservação federais estão sob o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) ou, no caso das florestas nacionais, sob o Serviço Florestal Brasileiro (SFB), os quais fazem parte do Ministério do Meio Ambiente. Unidades de conservação estaduais estão sob os orgãos correspondentes dos governos estaduais.

As terras indígenas têm uma história melhor do que as unidades de conservação em inibir o desmatamento, e em muitas partes do arco do desmatamento, as únicas áreas significativas de florestas naturais remanescentes estão nas terras indígenas [10-12]. No entanto, as terras indígenas não estão imunes ao desmatamento, e não se pode presumir que os povos indígenas continuem realizando seu valioso papel na manutenção de serviços ambientais para ser “embolsada de graça” pelo resto da sociedade [13, 14]."


Pesquisa sobre conservação na Amazônia 9: “proteção integral” versus “uso sustentável”

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PHILIP M. FEARNSIDE

O sistema brasileiro de áreas protegidas evoluiu significativamente nas últimas três décadas. As áreas protegidas eram classificadas entre as categorias de uso “direto” e uso “indireto”, a primeira sendo para parques e reservas sem uma população residente vivendo nelas.

Em 2000, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) foi promulgado (Lei nº 9985/2000), mas o processo de “regulamentação” para estabelecer o sistema na prática durou até 2002.

O SNUC mudou a classificação das unidades de conservação para áreas de “proteção integral” e de “uso sustentável”. A categoria de “uso sustentável” inclui Florestas Nacionais (FLONAs) para manejo florestal madeireiro, reservas extrativistas (RESEX) para seringueiros, coletores de castanha e outros grupos tradicionais de colheita de produtos florestais não-madeireiros, e Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) que é uma categoria de reserva estadual que inclui as populações locais de pescadores e pequenos agricultores ribeirinhos. Um aspecto controverso é a inclusão de “Áreas de Proteção Ambiental” (APAs), uma categoria que permite muitas atividades prejudiciais e pode até mesmo incluir áreas urbanas. Esta categoria permite que grandes áreas sejam “pintadas de cor verde” no mapa sem muita proteção real.

Áreas de Proteção Integral incluem Parques Nacionais (PARNAs), estações ecológicas e reservas biológicas. As diferentes categorias de áreas protegidas têm diferentes níveis de sucesso em impedir o desmatamento, com áreas federais tendo um desempenho melhor do que as áreas estaduais, e as áreas de proteção integral tendo melhor desempenho do que as áreas de uso sustentável [1, 2].

Note-se que a eficácia em impedir o desmatamento não é o mesmo que eficácia em impedir a degradação das florestas por processos, tais como, a exploração madeireira e os incêndios florestais. Áreas indígenas, por exemplo, geralmente têm alta eficácia na resistência contra o desmatamento, mas sua eficácia contra a degradação é muito menor. Degradação florestal está rapidamente se tornando um grande destruidor de serviços ambientais na Amazônia [3-6].

A criação de novas unidades de conservação mudou consideravelmente, da proteção integral para a categoria de uso sustentável. A facilidade política de criar áreas de uso sustentável é muito maior, porque a criação de áreas de proteção integral geralmente requer reinstalação de uma população residente. Reassentamento historicamente tem sido marcado por injustiça social e promessas quebradas sobre compensação e programas para apoiar a população deslocada (e.g., [7]), embora os programas para áreas protegidas pretendam fazer melhor (e.g., [8]).

Na categoria de uso sustentável, as pessoas nas reservas, muitas vezes, ganham maior segurança contra expulsão por atores mais poderosos e contra a perda de recursos naturais para atores externos, tais como empresas madeireiras e barcos de pesca comercial. Várias outras formas de benefícios, tais como o programa Bolsa Floresta no Estado do Amazonas, também faz com que seja mais atraente estar vivendo dentro de uma área de uso sustentável [9]. Isso gera o apoio político para a criação de mais dessas áreas.

A criação de áreas protegidas rapidamente se torna inviável quando a ocupação humana avança na floresta. A relativa facilidade de criação de áreas de uso sustentável torna isso o caminho mais lógico para alcançar uma parte da proteção necessária à frente do avanço da fronteira. Planos e maciços do Governo brasileiro para a infraestrutura, como rodovias e barragens, podem ser esperados em aumentar a migração para muitas áreas potenciais para a criação de reservas, inviabilizando quaisquer planos para proteção.

Terra Indígena dos Yawanawa no Acre. (Foto: Odair Leal)

Terra Indígena dos Yawanawa no Acre. (Foto: Odair Leal)

O futuro das terras indígenas é fundamental para a manutenção da biodiversidade na Amazônia. Terras indígenas não são “unidades de conservação”, incluídas no SNUC, mas são um tipo de “área protegida”. Terras indígenas estão sob a jurisdição do Ministério da Justiça, enquanto as unidades de conservação federais estão sob o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) ou, no caso das florestas nacionais, sob o Serviço Florestal Brasileiro (SFB), os quais fazem parte do Ministério do Meio Ambiente. Unidades de conservação estaduais estão sob os orgãos correspondentes dos governos estaduais.

As terras indígenas têm uma história melhor do que as unidades de conservação em inibir o desmatamento, e em muitas partes do arco do desmatamento, as únicas áreas significativas de florestas naturais remanescentes estão nas terras indígenas [10-12]. No entanto, as terras indígenas não estão imunes ao desmatamento, e não se pode presumir que os povos indígenas continuem realizando seu valioso papel na manutenção de serviços ambientais para ser “embolsada de graça” pelo resto da sociedade [13, 14].

NOTAS

[1] Vitel, C.S.M.N.; Fearnside, P.M. & Graça, P.M.L.A. 2009. Análise da inibição do desmatamento pelas áreas protegidas na parte Sudoeste do Arco de desmatamento. p. 6377-6384. In: Epiphanio, J.C.N. & Galvão, L.S. (Eds.). Anais XIV Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto, Natal, Brasil 2009. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), São José dos Campos, SP. Disponível em: http://sbsr.dpi.inpe.br/col/dpi.inpe.br/sbsr@80/2008/11.13.14.42/doc/6377-6384.pdf
[2] Ferreira, L.V., Venticinque, E. & de Almeida, S.S. 2005. O desmatamento na Amazônia e a importância das áreas protegidas. Estudos Avançados 19(53): 1-10.
[3] Asner, G.; Knapp, D.; Broadbent, E.; Oliveira, P.; Keller, M. & Silva, J. 2005. Selective logging in the Brazilian Amazon. Science 310: 480-482.
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[8] World Bank. 2002. Populations and protected areas in the ARPA project. World Bank, Washington, DC, E.U.A. 7 p. http://www-wds.worldbank.org/external/default/WDSContentServer/WDSP/IB/2002/08/16/000094946_02070604285123/Rendered/PDF/multi0page.pdf
[9] Viana,V.; Tezza, J.; Solidade, V.; Marostica, S.; Salviati, V. & Soares, A. 2013. Impactos do Programa Bolsa Floresta: Uma Avaliação Preliminar. 2ª Edição. Fundação Amazonas Sustentável (FAS), Manaus, AM,. 30 p. Disponível em: http://fas-amazonas.org/versao/2012/wordpress/wp-content/uploads/2013/06/Cadernos-de-Sustentabilidade-1.V2.0-web1.pdf
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[12] Schwartzman, S.; Moreira, A. & Nepstad, D. 2000. Arguing tropical forest conservation: People versus parks. Conservation Biology 14: 1370-l374.
[13] Fearnside, P.M. 2005. Indigenous peoples as providers of environmental services in Amazonia: Warning signs from Mato Grosso. p. 187-198. In: A. Hall (Ed.) Global Impact, Local Action: New Environmental Policy in Latin America, University of London, School of Advanced Studies, Institute for the Study of the Americas, London, Reino Unido. 321 p.
[14] Isto é uma tradução parcial atualizado de Fearnside, P.M. 2014. Conservation research in Brazilian Amazonia and its contribution to biodiversity maintenance and sustainable use of tropical forests. p. 12-27. In: 1st Conference on Biodiversity in the Congo Basin, 6-10 June 2014, Kisangani, Democratic Republic of Congo. Consortium Congo 2010, Université de Kisangani, Kisangani, República Democrática do Congo. 221 p. http://congobiodiversityconference2014.africamuseum.be/themes/bartik/files/abstracts_resumes.pdf. As pesquisas do autor são financiadas pelo Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (proc. 304020/2010-9; 573810/2008-7), pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) (proc. 708565) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) (PRJ1).

Leia também:

Philip M. Fearnside fez doutorado no Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e é pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM) desde 1978. Membro da Academia Brasileira de Ciências, também coordena o INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia) dos Serviços Ambientais da Amazônia. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 500 publicações científicas e mais de 200 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis através de http://philip.inpa.gov.br.


Fonte: Amazônia Real