PICICA: "Muitos
dizem que contra os irracionais, os incultos, os bárbaros os
mal-intencionados não é desejável partilhar a palavra. Eles não se
conformarão a nenhuma ideia e violarão permanentemente o que “nós”
entendemos por debate público, por conversa ou por argumentação. “Eles”
nos posicionam em uma pequena categoria diagnóstica e, a partir disso,
repetem sempre a mesma ladainha de preconceitos sobre o tal inimigo
imaginário nos quais nos tornamos, como um espantalho. Deles nós devemos
nos afastar.
Tenho que admitir: “deixar secar”, não se envolver em
brigas com alguém que não seja de seu tamanho, manter a política da
“caravana passa enquanto os cães ladram” é uma atitude salubre. Contudo,
manter-se na zona de conforto seria um ideal simples e razoável, não
fosse o fato de que o equívoco, sendo a essência da comunicação, torna a
nossa zona de conforto uma zona de confronto. A palavra perdida, na comunicação com o outro, volta como uma bala perdida.
E dela temos que nos proteger, com novos muros, objetivos e subjetivos.
Quanto mais recusamos a reconhecer nossa palavra simbolicamente
perdida, mais ela tende a voltar como bala no Real."
Professor da USP responde a Rodrigo Constantino
“A palavra perdida
cria a bala perdida. É assim que funciona a lógica do condomínio, Sr.
Constantino. Menos do que em sua moradia norte-americana ela está em
suas próprias palavras”, aponta, em artigo, o psicanalista Christian
Dunker, atacado pelo blogueiro da Veja
Por Redação
No último dia 8, o psicanalista e professor da Universidade de São
Paulo Christian Dunker participou do programa Café Filosófico, promovido
pela TV Cultura e pela CPFL (para assistir, clique aqui), em que discutiu a existência de condomínios fechados no Brasil – e porque as pessoas recorrem a eles.
No dia seguinte (9), o blogueiro Rodrigo Constantino, da Veja, publicou texto
desqualificando o trabalho de Dunker e o chamando de “‘psis’ invejoso”,
que parece um “filósofo frustrado” ou um “escritor ressentido”. Como
não podia faltar, acusou o professor de integrar a ala intelectual da
“esquerda caviar” (termo cunhado pelo próprio colunista).
Leia também – Christian Dunker: O ódio, a exclusão e a lógica do condomínio
Na última segunda-feira (25), Dunker divulgou sua resposta, em forma de artigo. Confira a seguir:
A palavra perdida contra a bala perdida | Resposta de Dunker a Rodrigo Constantino
Lacan dizia que o equívoco é a essência da comunicação. É
no deslize, na palavra que escapa, naquele tom de voz descompassado, é
na incompreensão que o inconsciente trabalha gerando equívoco de
sentido, posicionando os sujeitos mais além do que eles “queriam dizer”
em seus devaneios e intenções mais ou menos conscientes. Recuperar a
essência perdida da palavra, em meio à série dos equívocos que ela
necessariamente acarreta talvez seja uma das tarefas mais importantes se
quisermos constituir uma política sobre a violência que não seja ela
mesma um exercício de violência, de guerra e de vandalização do outro.
Acredito que esse tipo de consequência com a palavra – seja ela uma
atitude ética ou rigorosa, seja ela uma atenção implicada ou cuidadosa –
poderia tratar nosso atual pressuposto de que não é possível conversar
e, portanto, reconhecer os que estão fora de nosso condomínio.
Trata-se, portanto, de uma espécie de experimento de casos
mais simples mas em que se encontra em jogo um princípio maior. Muitos
dizem que contra os irracionais, os incultos, os bárbaros os
mal-intencionados não é desejável partilhar a palavra. Eles não se
conformarão a nenhuma ideia e violarão permanentemente o que “nós”
entendemos por debate público, por conversa ou por argumentação. “Eles”
nos posicionam em uma pequena categoria diagnóstica e, a partir disso,
repetem sempre a mesma ladainha de preconceitos sobre o tal inimigo
imaginário nos quais nos tornamos, como um espantalho. Deles nós devemos
nos afastar.
Tenho que admitir: “deixar secar”, não se envolver em
brigas com alguém que não seja de seu tamanho, manter a política da
“caravana passa enquanto os cães ladram” é uma atitude salubre. Contudo,
manter-se na zona de conforto seria um ideal simples e razoável, não
fosse o fato de que o equívoco, sendo a essência da comunicação, torna a
nossa zona de conforto uma zona de confronto. A palavra perdida, na comunicação com o outro, volta como uma bala perdida.
E dela temos que nos proteger, com novos muros, objetivos e subjetivos.
Quanto mais recusamos a reconhecer nossa palavra simbolicamente
perdida, mais ela tende a voltar como bala no Real.
São duas tarefas: nos proteger da palavra e da bala
perdida. Nisso nosso mundo vai ficando menor. Mal tratado, isso caminha
até tornar-se impossível habitar o lugar onde estamos. É neste ponto que
nos mudamos para Miami ou para a Austrália (o Brasil que deu certo).
Por isso a conversa com os “impossíveis” é uma tentativa de explorar os
limites da palavra perdida. Espero que aqui o equívoco ressoe conforme a
escolha do leitor: perda de tempo, extravio da palavra, suspensão do diálogo, derrota na batalha verbal, inconsequência no uso do sentido, palavra mal-dita, palavra maledicente.
O caso que trago à consideração do leitor baseia-se em uma
trivial sequencia de equívocos, semelhante à que vemos em filmes como Faça a coisa certa (1989, dir. Spike Lee), Babel (2006, dir. Alejandro Iñarritu) ou Cronicamente inviável(2000,
dir. Sergio Bianchi). Neles os acontecimentos acumulam desencontros,
desacertos e equívocos que terminam em bala perdida, que depois ninguém
consegue entender como aconteceu.
A primeira reproduz expectativas de segurança e de solução
para o medo. Defendo-me do mundo perigoso lá fora, erguendo muros e
criando uma lei interna para consumo próprio com meus síndicos e
regulamentos. A segunda determinação afetiva da vida em forma de
condomínio baseia-se na inveja. Uma vez guarnecido e protegido imagino
que o meu sonho é também o dos outros. Mas só alguns conseguem realizar
esta ambição de consumo. Há uma graça adicional em pensar que os outros
desejam ter o que eu tenho, portanto, que os outros me invejam. Isso faz
parte da mais banal lógica do consumo conspícuo. Minhas determinações
de consumo não são dadas pela satisfação para minhas necessidades, ainda
que sejam as mais básicas necessidades de proteção e segurança.
Uma consequência trivial da psicanálise para a teoria do
consumo é pensar que este seja sobre-determinado pelo desejo do Outro.
Isso torna o consumo um ato de palavra. Ao usar um tênis, pilotar um
carro importado ou comprar uma casa em um condomínio não estou apenas
satisfazendo necessidades, estou dizendo algo para os outros.
Este ponto é crucial, pois se não levo isso em conta, se minha palavra é
perdida neste ponto, posso não perceber que estou dizendo coisas
agressivas, provocativas ou violentas. Posso não entender que para
outras pessoas a minha opulência e ostentação possam causar desagradável
inveja. E ao não reconhecer isso, a inveja, que é um dos nomes do
desejo, pode virar ódio. Desta maneira, ao perder a dimensão a palavra,
envolvida em meus gestos, inclusive os gestos de consumo,
particularmente os que têm expressão pública, posso reforçar a mensagem
de perigo e violência da qual tento fugir. Pois bem, o leitor pode
verificar a pertinência deste resumo do que eu disse na gravação do
Programa por si mesmo, afinal a tese é de que a palavra vem com o
equívoco.
“Nem me dei ao trabalho de quem é a pérola. Há fortes
indícios de ser mais uma análise de um desses ‘psicólogos sakamotianos’
tomados pelo espírito de justiça social tentando realizar uma anatomia
da alma dos opressores.”
Ou seja, basta saber quem você é para que imediatamente possamos julgar a pertinência ou veracidade do que está sendo dito.
A palavra está perdida para a pessoa. E assim, por ouvir dizer de
outro, auto-declaradamente preguiçoso, Rodrigo Constantino comenta, não a
tese, mas a pessoa que a enuncia:
“Esses psicanalistas parecem filósofos frustrados ou
escritores ressentidos, e no fundo fazem de tudo para atacar os mais
bem-sucedidos. […] Vivendo numa redoma, essas pessoas se blindam contra o
‘real’ e não querem se deparar com o Outro.”
Atualmente vivendo em Miami, ele defende-se da crítica de
que teria fugido do Brasil por covardia, dizendo que essa é uma atitude
racional (para os que podem). “Eles” psicanalistas frustrados,
ressentidos atacam a “nós” pessoas “mais bem sucedidas”. Ou seja,
se Constantino está certo eu (junto com toda minha classe) o invejo.
Mas era exatamente isso que eu estava dizendo sobre a inveja e,
portanto, ele me dá razão ao dizer que eu a perdi. Também quando diz que
estou em uma “redoma blindada contra o real” reencontro meu
argumento sobre a vida em forma de condomínio sendo empregado, desta vez
contra mim. Ou seja, minhas palavras estão certas, minha pessoa é que
está errada.
Este ponto é decisivo para entendermos como este discurso
gera violência. O que vemos aqui é a transformação das diferenças
sociais, da existência de pobres e ricos, da distribuição não equitativa
de bens materiais e simbólicos, em um ressentimento de classe. Por isso os que estão na esquerda caviar são
traidores, hipócritas e impostores. Eles não jogam no time dos ricos
contra o time dos pobres. Pela regra do jogo os que perderam direito à
palavra só podem se vingar por meio da bala. Por isso a coisa mais
“lógica” a fazer é retirar-se para o condomínio, de preferência em
Miami, e viver uma vida de refugiado sobrevivente.
Aqui encontramos o tradicional argumento da ameaça. Se
você critica a vida em condomínio, e diz que ela envolve um tanto de
inveja que pode causar nos que estão fora, você está apoiando o crime, o
tráfico, os bandidos… enfim, os pobres que não podem ter condomínio.
Mais uma vez os intelectuais (ou “pseudo-intelectuais”) são traidores.
Se eles defendem os pobres eles deveriam… ser pobres. Quem come caviar
não pode querer que os de outros condomínios comam também. Isso é um
contra senso, uma ameaça ao mais geral princípio da identidade.
(Aliás, por esta lógica de equívocos é bom lembrar que o
melhor caviar é feito de ovas do esturjão, peixe que abunda o mar
Cáspio, que circunda a Rússia, que por sua vez é parte da antiga União
das Repúblicas Socialistas Soviéticas… tá vendo? Caviar é da esquerda,
você é que só sabe comer “x-burguêis”!)
Mas em outro sentido Constantino tem razão e suas palavras
se ligam com sua pessoa. Somos traidores porque não aceitamos que a
regra do jogo seja a da guerra de ricos contra pobres. Somos
traidores porque acreditamos que as palavras recuperadas podem ser o
meio para a suspensão das balas perdidas. Somos traidores porque
acreditamos na regra da palavra, como meio de reconhecimento, entre
ricos e pobres. E temos tanto medo quanto todos nós, pobres e ricos.
Portanto estamos de acordo na medida em que:
“Não querem[os] encontrar o ‘outro’ mascarado e prestes a estuprar sua filha. Não querem[os], enfim, encontrar uma bala ‘real’.
Mas estamos em desacordo que este medo:
“É só fuga.”
(Rodrigo Constantino, “O gozo da inveja e o rancor dos pseudointelectuais“, Blog da Veja)
O que o colunista da revista Veja, que acredita que
estou parasitando sua audiência ao discutir com ele, não consegue
perceber é que o condomínio é uma estrutura. Semelhante à prisão, ao
Shopping Center ou à favela. Por não ter assistido ao programa, nem lido
o livro, nem qualquer de suas resenhas e críticas (o que torna bastante
prática esta lógica do ‘basta saber quem você é’), Constantino
simplesmente não entendeu o conceito de vida em forma de condomínio e
acha que estou recriminando as pessoas que optam por este tipo de
moradia, por bons e maus motivos.
Ele não entendeu que esta lógica toca a todos nós no
Brasil de hoje. Não entendeu que ela concorre para a produção da
violência da qual ele e todos nós nos queixamos. Um equívoco, gerado por
outro equívoco, o do Sr. Razzo (e isso não é uma piada lacaniana!), que
por sua vez engendra outros equívocos, que são soberbamente
reproduzidos pelos leitores de Constantino. Esses sim são objeto de
minha extrema preocupação (e ‘inveja’, dirá meu interlocutor). Como já havia verificado em outras ocasiões,
nestes comentários encontramos uma mutação de tom, um aumento de
virulência, uma acréscimo de gozo, que culminará na violência. Como se
para agradar o mestre fosse preciso exagerar e amplificar seus métodos.
Reproduzo as pérolas:
“Nosso suado dinheiro que banca as micaretas acadêmicas dessa corja.”
“São simplesmente idiotas, imbuídos de má-vontade, tentando parecer importantes.”
“O que um psicopata quer mesmo, principalmente se ele for
de esquerda, não é ajudar os que ainda querem se arrumar na vida. Ele
quer mesmo é atacar os que lutaram e conseguiram através do trabalho uma
vida razoavelmente boa.”
“Gozo através da inveja têm esses merdinhas que podem olhar debochadamente da nossa cara.”
“Se Dunker mora em um prédio assim, é um hipócrita, como é a maioria dos intelectuais da Unicamp, USP., UERJ, UFF, PUC…”
“Na verdade, o que sustenta a suposta postura magnânima
desta ‘psicanalhada’, é um profundo desrespeito pelo tal desejo do
Outro, desejo de escolha, Liberdade para cada um decidir o seu próprio
caminho, aspectos que ficam esquecidos no meio desta maldita Patrulha do
Pensamento, que se instalou no campo da psicologia e da psicanálise
neste país.”
“Psicanalistas, psicólogos e semelhantes, na esmagadora
maioria, sempre tiveram graves distúrbios mentais que os inclinaram a
essas atividades em busca de aliviar seus próprios males!”
Ora, depoimentos como estes já são em si a prática da
violência da qual se gostaria de fugir. Preconceitos contra professores,
intelectuais, psicanalistas, psicólogos, uso de expressões ofensivas,
declarações de ódio, como se o problema do país fossem seus…
professores! O leitor deve ter percebido uma espécie de escalada
discursiva, primeiro um comentário levemente depreciativo e desinformado
do Sr. Razzo, depois uma incitação generalizada do Sr. Constantino, e
ao final a força covarde de um grupo cantando o jogral do ódio contra
outros grupos. Qual seria o próximo passo?
Acredito que uma parte substancial da violência não
decorre das diferenças reais com as quais temos que lidar, mas como
desprezo por seu reconhecimento enquanto diferenças de palavra. Uma
série como a que apresentei acima é o retrato banal de como diferenças
evoluem rapidamente numa somatória de equívocos para convergirem em uma
violência, inicialmente verbal mas cujo passo seguinte todos sabemos bem
qual é. Uma vez que as palavras do outro não importam, pois já sabemos o
que ele vai dizer, basta classificar pessoas. Depois da classificação
vem a segregação e finalmente a violência. A palavra perdida cria a bala
perdida. É assim que funciona a lógica do condomínio, Sr. Constantino.
Menos do que em sua moradia norte-americana ela está em suas próprias
palavras.
Fonte: Portal Fórum