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novembro 21, 2010

Preconceito e racismo contra os povos indígenas

PICICA: “Gostaria de pedir aos senhores que não continuem usando o termo INFANTICIDIO INDIGENA. Por favor, não aumentem o preconceito e o racismo contra nosso povo”. (Rosi Waikhon)
A ANTA QUE VIROU ELEFANTE NUM DOMINGO ESPETACULAR
José Ribamar Bessa Freire
21/11/2010 - Diário do Amazonas


A segunda-feira da índia Rosi Waikhon na periferia de Manaus foi um dia de cão. Escapou, por pouco, de ser apedrejada. Ao sair de casa, várias pessoas lhe atiraram na cara frases do tipo: “Ei, índia, você não é gente, índio mata o próprio filho, vocês deviam morrer”. Minha amiga há muito tempo, ela me confidenciou: “Meu dia virou um terror, em todos esses anos, nunca tinha ouvido palavras tão pesadas e racistas”.

Quem humilhou Rosi estava indignado, porque no dia anterior havia presenciado o ‘assassinato’ de crianças indígenas, cometido pelos próprios pais, que praticam o ‘infanticídio’, tudo isso exibido no programa Domingo Espetacular da TV Record. Felizmente, como nos filmes americanos, chega a cavalaria para salvar vidas ameaçadas por índios bárbaros. A missionária evangélica Márcia Suzuki, cavalgando a emissora do Edir Macedo – tololoc, tololoc – leva os bebês arrancados das garras dos ‘criminosos’ para a chácara da igreja neopentecostal. Enfim, salvos.

As pessoas viram trechos do vídeo ‘Hakani’ com o sepultamento de uma criança viva. A voz cavernosa de um narrador em off anuncia que se trata de prática generalizada: “A cada ano, centenas de crianças são enterradas vivas na Amazônia”. O xerife Henrique Afonso, deputado federal do Acre, quer prender os ‘bandidos’. Faz projeto de lei que criminaliza o ‘infanticídio indígena’, invoca a Declaração Universal dos Direitos Humanos e apela ao papa Bento XVI para que “intervenha contra o crime nefando”.

Como tem gente boa no mundo, meu Deus! Mas sobrou para Rosi que viveu uma ‘segunda-feira espetacular’. Quase foi linchada. Não foi a única. Rosi é índia Waikhon – etnia conhecida também como Piratapuia. Mora na Terra Indígena Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira (AM) e está de passagem por Manaus. É educadora e líder da Foirn – Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro. Escritora, participou de dois Encontros de Escritores Indígenas na UERJ. Ela faz um apelo:

- “Gostaria de pedir aos senhores que não continuem usando o termo INFANTICIDIO INDIGENA. Por favor, não aumentem o preconceito e o racismo contra nosso povo”.

Xamãs e bruxos

Afinal, os índios cometem infanticídio? Essa é mesmo uma prática generalizada na Amazônia? Francisco Orellana, o primeiro europeu que cruzou o rio Amazonas dos Andes ao Atlântico, em 1540, viu coisas muito estranhas. A crônica da viagem – repleta de ‘domingos espetaculares’ - conta que ele se deparou com elefantes em plena selva, comeu carne de peru, bebeu cerveja feita pelos índios e combateu as precursoras do infanticídio - mulheres guerreiras que matavam seus filhos homens. A Europa acreditou piamente em suas histórias. 

Orellana, coitado, sentiu o mesmo problema do xerife Henrique e da cavaleira Suzuki: como descrever aquilo para o qual não tenho palavras? Orellana viu antas bebendo água no rio. Não existia esse animal na Europa, nem muito menos a palavra anta nos dicionários. Como dar conta dessa realidade desconhecida, nova e estranha? O bicho era grande? Era. Tinha tromba? Tinha. Então, ele sapecou: “vi elefantes”. Afinal, elefantes são grandes e tem tromba. O mesmo com as mulheres que combateu. Na Europa, mulheres não iam pra guerra. Então, Orellana recuperou o mito grego, que a Europa conhecia muito bem. 

Esse processo de equivalência entre objetos conhecidos e objetos novos foi muito usado nos registros coloniais. Ele consiste em definir fatos representativos de uma cultura com símbolos de outra cultura. Mutum passa a ser peru, caxiri se transforma em cerveja, inambu vira perdiz e mulheres que trocam o fogão pelo arco-e-flecha são amazonas. Essa operação reduz e simplifica enormemente a diversidade e a riqueza cultural, porque o símbolo não consegue transmitir toda a sua carga de significado de uma cultura a outra.
Foi assim também com os pajés e xamãs, que não existiam na Europa e foram denominados de ‘feiticeiros’ pelos colonizadores, com conotações altamente negativas que o equivalente não tem. As consequências foram trágicas, porque se ninguém mata uma anta pra extrair marfim dela, feiticeiros e bruxos eram, no entanto, condenados à fogueira.

O infanticídio é crime punido por lei. Denominar de infanticídio uma prática cultural que desconhecemos e que nos choca não ajuda a entendê-la, oculta a anta e não revela o elefante, além de ser um convite para criminalizar os povos indígenas e condená-los à fogueira. Quando os antropólogos ou agentes de pastoral do CIMI chamaram a atenção para tal leviandade e para o erro em generalizar para todos os povos, a ONG Atini os acusou de defenderem o ‘infanticídio’ porque querem impedir a mudança cultural. 

Os antropologos

Todos os antropólogos – TODOS – sabem que a cultura é dinâmica, isso faz parte do bê-á-bá da antropologia. Nenhum antropólogo – NENHUM - se manifesta contrário a mudanças, até porque isso seria inútil. Ao contrário, o que os antropólogos estão dizendo, para horror do agronegócio interessado nas terras indígenas, é que índio não deixa de ser índio porque usa computador e celular. Mas a emissora do Edir Macedo grita espetacularmente contra os antropólogos, sem citar nomes:

“Há quem diga que a prática de matar crianças deficientes, gêmeas ou filhas de mães solteiras deve ser defendida para manter a cultura”. 

Não cita o nome de um só antropólogo, nem o livro ou artigo de onde foi pescada tal ‘informação’, porque ela é falsa. Na realidade, o que se pretende é quebrar a parceria com os principais aliados dos índios na luta pela saúde, educação e demarcação da terra. A ABA - Associação Brasileira de Antropologia, através da Comissão de Assuntos Indígenas, já havia publicado nota esclarecedora assinada por João Pacheco. 

“O vídeo Hakani – diz a nota – não é um registro documental proveniente de uma aldeia indígena, mas o resultado de uma absurda encenação realizada por uma entidade fundamentalista norte-americana. Utilizado como base para uma campanha contra o infanticídio supostamente praticado pelos indígenas, tem também a finalidade de angariar recursos para as iniciativas (certamente mais ‘pilantrópicas’ do que filantrópicas) daqueles missionários”.


Diz ainda que a prática daquilo que estão chamando inapropriadamente de infanticídio entre os indígenas “são virtualmente inexistentes no Brasil atual”. Ali onde eram localizadamente praticadas estão deixando de existir com a assistência médica e a demarcação de terras, por decisão dos próprios índios, conforme esclarece Rosi: 

“Sou indígena, meu povo também tinha essa prática, mas não precisou de ONG nenhuma intervir para mudarmos. Os gêmeos, trigêmeos e os deficientes indígenas da região em que vivo estão sobrevivendo sem intervenção de Ong. Por favor, não peçam dinheiro em nome do infanticídio indígena”.

A nota da ABA reforça: “Por que substituir a mãe, o pai, os avós, as autoridades locais por uma regulação externa e arbitrária? As crianças indígenas não são órfãs. Bem ao contrário, estão melhor protegidas e cuidadas no âmbito de suas coletividades e por suas famílias. Uma intervenção indiscriminada, baseada em dados superficiais e análises simplórias, equivocadas e preconceituosas, não poderá contribuir para políticas públicas adequadas a estas populações”.     

O abandono e morte de crianças indígenas com sofrimento, dor e tensão foi a resposta dada por algumas comunidades a um infortúnio ou desgraça que as acometia e que está sendo discutido e solucionado pelos próprios índios diante da nova situação em que vivem. Doía tanto quanto para Abrahão matar seu filho. 

Então, ficamos combinados assim: uma anta é uma anta, um elefante é um elefante, a resposta dada por algumas comunidades tem tromba e é grande, mas não é elefante, e o Edir Macedo é....bom todo mundo sabe o que é Edir Macedo. 

TROCA DE CARTAS ENTRE ROSI WAIKHON E MÁRCIA SUZUKI
Houve uma troca de cartas, via e-mail, entre a índia Rosi Waikhon e a missionária Márcia Suzuki, da Ong Atini. Rosi revisou o texto para publicação e me autorizou a fazer circular alguns trechos, aqui publicados por se tratar de um documento útil a quem se interessa pelo tema.
1ª. CARTA DE ROSE (13/11/2010) - Na primeira delas, Rosi critica:
“Encontrei na internet comentários, com mensagem racista e preconceituosa postada por um cidadão que leu a matéria de vocês intitulada ‘Infanticídio Indígena’. Ele chamou a nós indígenas de desumanos, e isso graças à forma como vocês estão tratando o assunto. Gostaria de pedir aos senhores que não continuem usando o termo ‘infanticídio indígena’. Por favor, não aumentem o preconceito e o racismo contra nosso povo”.
“Na sociedade de vocês, estou cansada de ver: babás filmadas por câmeras ocultas espancando bebês em suas casas; torturas nas creches; recém-nascido jogado no lixo; crianças revirando lixo nas ruas, crianças estupradas, crianças com síndrome de Dow mortas pelos pais, outras jogadas do alto dos prédios, queimadas, espancadas, mortas, assassinadas. Isso no meu olhar indígena é infanticídio, mas nós, índios, não fazemos isso. Por favor, não peçam dinheiro em nome do infanticídio indígena”.
“A questão por mim colocada é para que vocês OLHEM o infanticídio em volta de vocês no lugar de só procurarem entre os índios. O estado brasileiro QUANDO encontra a mãe que faz isso, bota a mulher na cadeia, não quer saber se essa mãe tinha casa, se estava passando fome, se sofria alguns distúrbios, se pelo menos essa mãe conseguiu fazer o pré-natal no posto de saúde. Sou contra o racismo e a xenofobia contra o nosso Povo Indígena, ainda mais provocado sem pensar, por isso recomendo que tratem do INFANTICÍDIO e não apenas dos povos indígenas”.
RESPOSTA DE MÁRCIA (13/11/2010)– A dirigente da Ong Atini responde insistindo no uso da palavra infanticídio. Argumenta que a definição do termo vem do latim – infanticidium – que significa a morte de criança, especialmente recém-nascida. Reconhece que ele é amplamente cometido na sociedade brasileira, mas que existem outras ONGs para cuidar disso: “Conheça-nos melhor, sra. Rosi, assista nossos vídeos. Veja Rosi, são os próprios indígenas que falam. Depois de assistir a esses vídeos e ler nosso material entre em contato dizendo o que achou, por favor”.
2ª. CARTA DE ROSI (14/11/2010) -  Rosi assistiu o documentário ‘Quebrando o silêncio’ feito pela ONG Atini e dirigido por Sandra Terena, onde se afirma que “crianças indesejadas são condenadas à morte por nascerem com deficiência física ou mental, por serem gêmeas, filhas de mãe solteira ou ainda por serem vistas como portadoras de azar para a comunidade”. O documentário traz depoimentos de vários índios do Brasil central sobre o que a ONG classifica como infanticídio: “a tradição manda que as crianças sejam enterradas vivas, sufocadas com folhas, envenenadas ou abandonadas para morrer na floresta”.
Rosi leu o texto “A estranha teoria do homicídio sem morte”, de Marta Suzuki e deu, então, uma longa resposta, afirmando que sua interlocutora não compreendeu a profundidade do assunto, desconhece os estudos dos antropólogos, a quem ataca, e assume “as piores interpretações possíveis sobre os povos indígenas, sobretudo as questões das mulheres indígenas”.
Os principais trechos vão aqui selecionados:
“Sou indígena. Entendo perfeitamente o que meus parentes indígenas do centro do país estão dizendo. Respeito o modo de pensar deles. Meu povo também tinha essa prática, mas não precisou de ONG nenhuma intervir, achando que somos incapazes de resolver nossos problemas”.
“Quero dizer-lhe que os gêmeos, trigêmeos e os deficientes indígenas da região do Rio Negro, onde moro, estão todos vivos, sobrevivendo sem intervenção de ONGs. Apesar da ineficácia do sistema de saúde indígena, tivemos sim apoio da equipe de saúde nas reflexões e tomadas de decisões com relação ao assunto”.
“Mas a ineficácia crônica dos poderes públicos com relação à assistência aos povos indígenas é grande. Isso sim tem que ser documentado, mostrando a verdadeira face de como os povos indígenas são tratados no Brasil. Os profissionais que atuam em áreas indígenas têm que ser melhor qualificados, as escolas e as universidades devem ter aulas de história indígena para explicar a diversidade e a peculiaridade de nossos povos”.
“A falta de aprofundamento de estudos por parte da ONG deixa muito a desejar. Uma vez veiculada na mídia, a ideia do indígena ruim e mau já foi repassada, não tem como reverter. Vocês deveriam ter refletido que no nosso país tem muitos analfabetos de conhecimento indígena. Deveriam ter pensado que ao tratar dos povos indígenas, as interligações são diversas. Deveriam pensar uma melhor maneira de tratar o assunto, porque ele é mais profundo do que vocês imaginam”.
“Os internautas que são analfabetos em assunto indígena não vão querer saber o contexto de cada caso, e jamais irão compreender, pois esse assunto não se estuda em academias e muito menos nas escolas. Generalizar para eles é mais simples e fácil, provocando conceitos racistas e xenofóbicos, assim como está ocorrendo”.
“A questão não é julgar e condenar ninguém, mas esclarecer que o desejo de AJUDAR os povos indígenas não se resume em classificar cultura ruim e cultura boa, costume ruim e costume bom. Vai além disso, muito além. Quando os não-índios chegaram, também a intenção   deles era AJUDAR, ‘civilizando-nos’ para os costumes deles, alegando que nossa cultura era atrasada, isso no olhar deles. Inconscientemente, vocês estão seguindo o mesmo caminho”.
“Quando procurados para resolver o assunto, deveriam ter encaminhado aos órgãos competentes brasileiros e não tomar para vocês a responsabilidade que é do Estado. Aí sim, vocês estariam ajudando o país a revisar as políticas públicas relativas aos índios e a combater a omissão do Estado”.
“Isso evitaria que os analfabetos em questões indígenas tivessem a interpretação que estão tendo, após o início da campanha de vocês. Na atualidade, o infanticídio está ligado à saúde pública e não somente à cultura desses povos. Mas o sistema de Saúde Indígena é ineficiente, com a maioria dos profissionais despreparados para atuar em áreas indígenas e lidar com tais assuntos. Os poucos profissionais competentes não são valorizados”.
“Essas questões e outras relativas à saúde pública não são aprofundadas por vocês. É fácil falar superficialmente, o difícil é falar da raiz do problema e buscar solução. O despreparo da maioria dos órgãos públicos para lidar com certos assuntos indígenas sempre foi e é um grande problema. Alguns avanços foram feitos, mas falta ainda muito a caminhar. É preciso cobrar do Estado suas responsabilidades”.
“Muitos séculos atrás, alguns naturalistas ocuparam infinitas páginas em seus diários, falando do infanticídio entre os povos indígenas. Mas pouco escreviam sobre as relações sociais familiares e a importância da criança indígena. Naquela época, éramos autônomos e felizes. Não existia Estado brasileiro, nem dinheiro, TV ou internet”.
“Por que será que registravam o infanticídio entre os povos indígenas e nada escreviam sobre o infanticídio cometido pelos povos ao qual pertenciam? É fácil enxergar e julgar os outros, o difícil é olhar ao seu redor, entender cada contexto e sua realidade”.
“Faz algum tempo, os jornais noticiaram que uma mulher seria apedrejada até a morte, no Irã, por ter cometido adultério. Então vários países foram contra, pois era uma VIDA que estava em jogo. Passado pouco tempo, os jornais noticiaram que nos Estados Unidos um homem condenado à pena de morte foi executado, uma injeção retirou a VIDA dele. Um ser humano tira a VIDA de outro ser humano, isso com o consentimento de todos. Não vi nenhuma manifestação contra a execução”.
“A questão não é se o ser humano que foi condenado é bom ou ruim, mas a discussão é sobre a VIDA. De acordo com slogan de vocês: SALVE UMA VIDA. No exemplo citado, uma vida foi tirada aos olhos do mundo inteiro. Analisemos o caso. O homem estava há anos confinado em celas do presídio. Não tinha liberdade! Isso é vida? Ele estava sozinho na cela, igual a um passarinho engaiolado. Sem sua família. Ele é um ser humano, foi gerado pelo pai e mãe, nasceu de uma mulher. Isso é vida? Talvez ele tinha uma esposa e até um filho. Mas não podia compartilhar com seus familiares. Isso é vida?”
“Para mim, que sou uma mulher indígena Waikhon, a Vida vai além do corpo físico, além dos órgãos vitais, além do espiritual, além do mundo que nos rodeia. Tudo tem vida: o ar que eu respiro, o sol que me aquece, o alimento que eu como, o rio, a mata... Mas isso é difícil para os não índios entenderem, porque vejo que estão matando a vida, por exemplo, os rios em suas cidades, vocês despejam lixo nele, tentam recuperar, mas os esgotos são canalizados para os rios e igarapés”.
“Os rios e igarapés estão chorando, estão desidratados, estão quase morrendo. Eles não são seres humanos, mas têm vida. Nós, índios e não-índios, precisamos deles, porque sem água o ser humano não vive. Ele morre. Estão vendo como uma coisa está interligada à outra?”
“Com relação ao exemplo citado do homem condenado à morte, não tiraram só uma vida dele, tiraram várias, a vida final foi a dos órgãos vitais e a do corpo físico. Estão vendo como é complicado?”
“Muito tempo atrás, os ‘civilizados’ também começaram a tirar nossas vidas. Invadiram nossas aldeias. Queimaram nossas casas. Tomaram nossas terras. Estupraram nossas mulheres. Mataram nossas crianças. Travaram brigas de índio contra índio. Escravizaram nosso povo, nos chamando de atrasados, que impediam o progresso do Brasil. Hoje, muitos são executados por causa da posse da terra. Os não-índios ricos e poderosos colocam índio contra índio, nos dividem para poder tomar posse de nossas terras”.
“Quando se trata de questão indígena, não se pode cuidar só do pé ou da mão. Nossos membros estão interligados. É preciso aprofundar o estudo sobre nossas culturas para não causar, mesmo inconscientemente, o racismo e a xenofobia na sociedade que ainda não consegue compreender os povos indígenas e as diferentes formas de sobreviver num mundo tão complicado”.
“Quero dizer aos senhores que antigamente o povo a qual pertenço praticava o que vocês chamam de infanticídio e não era infanticídio, nem indígena, pois na época não tinham nos apelidado ainda de índio. Como seria intitulado nos dias atuais, se os exploradores de nossas terras, muitas delas tomadas pelos latifundiários, que nos chamam de preguiçosos, não tivessem nos apelidado? Seria infanticídio waikhon, kamaiurá, kayabi?”
“Atualmente nós não temos mais essa prática, pois os gêmeos, trigêmeos e deficientes continuam vivos, são acolhidos muito bem, também existem não-índios solidários que ajudam cuidando dessas crianças, mas elas NÃO SÃO RETIRADAS DE SUA FAMÍLIA NEM DE SUAS ALDEIAS. Na Terra Indigena onde habito somos mais de 20 povos indígenas, entre eles tem também os Yanomami. Recentemente, nasceram trigêmeos Yanomami, a equipe de saúde ficou temerosa, porque lá ainda existe essa prática”.
“Diante disso, houve um DIÁLOGO entre a equipe de saúde, as lideranças indígenas, a família e o povo Yanomami. Sabe o que aconteceu? Depois de logos dias de diálogo, os pais ficaram com dois, os avós maternos ficaram com o terceiro. As crianças não foram retiradas do seu seio familiar, de seu povo, de suas terras, como vocês fazem. Tudo é questão do diálogo, respeito, entendimento, pois os povos indígenas, apesar das diferenças, têm inteligência e capacidade de chegar a um acordo”.
“Já que a Ong Atini está tratando do público indígena, respeito o modo de pensar de vocês. Mas quero lhe dizer que uma vez um indígena afastado de seu povo, de seu habitat, de suas terras, essas famílias e crianças não deixarão de ser índios (as), mas nunca mais serão os mesmos. Pois terão que seguir as violentas regras da civilização e do capitalismo para sobreviverem, como mão de obra barata da sociedade integracionista”.
“O que me entristece é o termo “infanticídio indígena”, era melhor vocês estudarem outro termo, porque esse atual afeta todos nós. Na atualidade, estamos tratando do assunto de forma diferente da de vocês e não ficamos pedindo dinheiro para montar uma aldeia na cidade. A Ong de vocês tem um habitat que se assemelha a uma aldeia conforme o entendimento de cada povo indígena? Porque pelo que vi lá tem pessoas de povos diferentes, tem Kamaiurá, Kayabi, Sateré-Mawé... Ou é tudo feito ao molde de vocês?”
“Cada povo indígena tem sua estrutura social, econômica, política, cultural, seu idioma, sua religião, sua alimentação...Isso aqueles que não sofreram a desestruturação do Estado brasileiro integracionista e a lavagem cerebral dos missionários que cuidam apenas da alma dos índios. Cada povo indígena sofreu a integração e a intromissão do não-índio de forma diferenciada e na atualidade tentaram de alguma forma se reorganizar e sobreviver. Vocês levam isso em conta? De que maneira?”
“Senhores, sou uma índia em busca de resposta e tentando sobreviver no mundo não-indígena. Penso que o diálogo é importante. Após a matéria de sua Ong veiculada na rede Record, sofri momentos terríveis. Sabe como os civilizados falaram na minha cara? “Ei, índia, você não é gente, índio mata o próprio filho, vocês deviam morrer”. Foi mais de uma pessoa, foi por isso que resolvi escrever.Meu dia virou um terror, em todos esses anos, nunca tinha ouvido palavras tão pesadas e racistas”.
“Se vocês estivessem no meu lugar o que fariam? Registrar na delegacia? Mas como se num centro urbano desorganizado são tantas pessoas e não há polícias à disposição para tomar providências! Como pegar o nome dessas pessoas? Complicado pra quem não tem habilidade de cidade grande”.
“Fiquei muito triste por tudo. Não culpo essas pessoas, porque elas simplesmente são influenciadas pela ignorância, mal devem ter uma TV em casa, muitas vezes não têm nem o que comer, muito menos irão se aprofundar sobre o assunto. São filhas do sistema opressor da ganância, do egoísmo e do individualismo. Se aconteceu comigo, pode ter acontecido com outros”.
“Desculpem se estou ofendendo vocês, mas a cada dia que eu for ofendida por conta desse assunto, escreverei cartas, pois a escrita é a única ferramenta do não-índio que possuo. Só estou escrevendo, porque fui atingida como indígena. Não falo em nome dos povos indígenas do Brasil, porque compreendo as peculiaridades diversas e respeito a maneira de pensar dos outros parentes. Já temos problemas demais para ter que enfrentar no mundo atual. Todo cuidado é pouco para não travar brigas de índios contra índios. É isso que a Ong não consegue compreender”.


FONTE: TAQUIPRATI

novembro 15, 2010

Manaus está no centro de um escândalo científico, abafado à época dos acontecimentos

PICICA: Nos anos 1970, Louis Agassiz foi personagem da peça "Folias do Látex", de Márcio Souza. O perfil conservador do cientista há muito era conhecido. O que não se sabia ficou guardado, até recentemente, num armário sem uso no sótão do Museu Peabody de Arqueologia e Etnologia da Universidade de Harvard. É o que nos informa José Ribamar Bessa Freire na última crônica do TAQUIPRATI, ao se debruçar sobre o cientista que "defendia o criacionismo e condenava ferozmente a mestiçagem a quem atribuia a responsabilidade pela "degeneração da raça humana"". Pra quem não conhece Agassiz, Carlos Haag, num artigo para a Revista de Pesquisa da FAPESP, nos oferece uma passagem esclarecedora sobre esse Professor da Lawrence School, ramo da Universidade Harvard, e fundador do Museu de Zoologia Comparada da mesma universidade: "Aqueles que põem em dúvida os efeitos perniciosos da mistura de raça e são levados por falsa filantropia a romper todas as barreiras colocadas entre elas deveriam vir ao Brasil”, afirmou o zoó-logo suíço Louis Agassiz (1807-1873) em seu livro A journey to Brazil (1867), escrito a quatro mãos com a mulher, a americana Elizabeth Cary, resultado da visita ao país como líder da Expedição Thayer, entre 1865 e 1866, da qual fizeram parte, entre outros, o futuro filósofo William James (1842-1910) e o geólogo Charles Frederick Hartt, indo do Rio de Janeiro ao Amazonas." (...) "Agassiz aproveitou a sua estada para recolher provas materiais da “degeneração racial” provocada pelo “mulatismo”, comum na população brasileira, fortemente miscigenada. O resultado foi uma série de 200 imagens, conservadas no Museu Peabody de Harvard, em sua maioria inéditas devido ao seu conteúdo polêmico: retratos nus da população africana do Rio e dos tipos mestiços de Manaus." Leia mais em "As fotos secretas do professor Agassiz". As fotografias abaixo fazem parte da face "científica" da expedição de Agassiz. A face "erótica", deve continuar no museu de Harvard. Salvo se vazar na internet - vá tirando o cavalinho da chuva -, não verás as fotografias das beldades peladas da sociedade amazonense do século XIX. Aliás, o, fato não mereceu uma nota sequer da imprensa da época. Encrenca das boas, envolvendo mulheres da alta sociedade, ao que parece só teve uma vítima: o desligamento da expedição do futuro filósofo W. James. Seu diário íntimo caiu na boca do povo. 
Mestiços do Amazonas
O CAFOFO DA RUA DA INSTALAÇÃO
José Ribamar Bessa Freire
14/11/2010 - Diário do Amazonas


Mulheres da alta sociedade amazonense – mães, esposas e filhas, inclusive menores de idade – posaram completamente nuas ou seminuas para o jovem ‘fotógrafo’ americano Walter Hunnewell, num estúdio improvisado situado em prédio antigo da Rua da Instalação, no centro da cidade de Manaus. Uma dessas sessões foi presenciada por seu colega, William James, garotão de porte atlético, de 23 anos, que confessou: 
- “Aparentemente refinadas, de qualquer modo não libertinas, as mulheres consentiram que se tomassem com elas as maiores liberdades e duas delas, sem muito problema, foram induzidas a se despir e posar nuas”. 
No momento em que terminava a sessão, o estúdio recebeu a visita de um conhecido deputado - não foi o Lupércio - que viu as roupas das meninas ainda espalhadas pelo chão. Também um engenheiro militar, o major João da Silva Coutinho, tomou conhecimento da existência de mais de 100 fotos com mulheres despidas de frente, de costa e de perfil, mas preferiu se calar. A Polícia registrou o fato, conforme ofício n˚ 787 expedido em 24 de outubro. O escândalo foi abafado. A imprensa não deu um pio. 
Depois de todo esse tempo, o Diário do Amazonas rompe o silêncio aqui nessa coluna para não ser acusado de cumplicidade e omissão. É o primeiro jornal amazonense a tocar no assunto. Não gosto de fofoca não, mas - como diz o outro - não sou baú nem cofre para guardar segredo. Por isso, me sinto na obrigação de passar adiante essa história apimentada. Vi as fotos e me pergunto como é que senhoras de boa família aceitaram exibir suas intimidades para um desconhecido que nem sequer é fotógrafo? 
Fotógrafo de araque
Walter Hunneweel não é fotógrafo nem aqui nem na China. Antes de vir ao Brasil, nunca havia tirado uma foto. Não passa de um playboyzinho, filho de um milionário, que por causa disso foi aceito como voluntário em uma expedição científica chefiada pelo seu professor na Universidade de Harvard, Louis Agassiz, um suíço naturalizado americano, especializado em ictiologia, cujo objetivo declarado era coletar, nos rios e igarapés de Manaus, pacu, bodó, piranha e outras espécies novas. 
Mas quem caiu na rede foi outro tipo de peixe. Em vez de pescar, “o Sr. Agassiz passa metade do dia trabalhando com seu amigo Sr. Hunnewell, tirando fotografias de habitantes locais” – registra o diário da expedição. Professor e discípulo armaram seu cacuri num velho prédio da Rua da Instalação, onde antes funcionava uma repartição pública. “O salão fotográfico era um ambiente carregado de aura erótica e, de modo significativo, destituído de qualquer conteúdo científico” – diz o pesquisador John Monteiro, nascido em Minnesota e atualmente professor da UNICAMP. 
Na viagem de barco a Manaus, a máquina fotográfica quebrou e foi consertada em Santarém por um lambe-lambe mocorongo. “Hunneweel possuía um conhecimento técnico deficiente e um equipamento precário” e, em consequência, “as imagens são de baixa qualidade e de gosto duvidoso” e se situam “numa região incomoda entre a fotografia científica e erótica”, conforme avaliação de John Monteiro e de sua colega da USP, Maria Helena Machado, que analisaram as fotos. 
Que Deus perdoe minha maledicência - trata-se apenas de uma coincidência - mas o fotógrafo de araque nasceu em Boston, a pátria da padrofilia, cujo arcebispo, Bernard Law, foi afastado e responde a mais de 450 processos judiciais, sob a acusação de ter encoberto abusos sexuais cometidos por padres católicos contra crianças. Qual foi o papo que esse gringo de Boston engrenou pra convencer nossas mulheres, inclusive menores de idade, a ficarem peladas? A Ciência. Tudo em nome da ciência.
Papo cabeça
A expedição percorreu o Brasil durante os anos 1865 e 1866, com o objetivo maior de provar que a teoria da evolução de Darwin era furada. Agassiz defendia o criacionismo e condenava ferozmente a mestiçagem a quem atribuía a responsabilidade pela “degeneração da raça humana”. Queria produzir documentos visuais sobre as origens étnicas e as variedades dos tipos mestiços. Para isso, fotografou no Rio e em Manaus tipos étnicos nus com o objetivo – segundo ele – de fazer comparações somáticas.  
Havia ingenuidade nas mulheres que posaram nuas? Elas ficaram impressionadas com o prestígio dos ‘pesquisadores’ que pertenciam à Universidade de Harvard? O estudante William James, que fez parte da expedição, dá interessante depoimento em seu diário íntimo:
“Eu fui, então, para o estabelecimento fotográfico e lá fui cautelosamente admitido por Hunneweel com suas mãos negras (manchadas no processo químico). Ao entrar na sala, encontrei o prof. (Agassiz) ocupado em persuadir 3 moças, às quais ele se referia como sendo índias puras, mas as quais eu percebi, como mais tarde se confirmou, terem sangue branco. Elas estavam muito bem vestidas em musselina branca, tinham joias e flores nos cabelos e exalavam um excelente perfume de priprioca”.
John Monteiro escreve que essa “operação estava sendo conduzida em segredo, o que destoava das afirmações do professor Agassiz a respeito da compilação de uma valiosa série de imagens científicas que serviriam de base para um estudo sério”. Foi no final da sessão que chegou o deputado Tavares Bastos, estudioso da região e autor do livro “O Vale do Amazonas”. Sujeito decente, o parlamentar se escandalizou com o que viu: “Ele me perguntou ironicamente se eu estava vinculado ao Bureau D’Anthropologie” – comenta William James.
John Monteiro acha – e nós concordamos – que é difícil acreditar que o fato não tenha causado algum tipo de mal-estar na sociedade manauara. Ele cita um ofício da Polícia de 24/10/1865, dando conta da chegada da expedição em Manaus. Um escândalo, logo abafado, pode ter brotado, o que talvez tenha contribuído para o desligamento de W. James da expedição. Escreve John Monteiro:
- “A imprensa local manteve o silêncio em torno das atividades do ‘sábio Agassiz’, enquanto os outros participantes da expedição - inclusive o major João Martins da Silva Coutinho - não deixaram nada escrito sobre o estúdio fotográfico”.
Dessa forma, foram apagadas as aventuras fotográficas desse desacreditado cientista, defensor de teorias racistas e pioneiro do apartheid.  As fotos, conservadas em chapas de vidro, ficaram um século e meio perdidas num armário sem uso no sótão do Museu Peabody de Arqueologia e Etnologia da Universidade de Harvard. Muitas delas continuam inéditas. Outras foram publicadas agora em 2010, durante a 29ª. Bienal de São Paulo, num livro organizado por Maria Helena Machado e Sasha Huber, uma suíça de origem haitiana engajada na luta antiracista. Trata-se, agora, de uma luta pela memória. 
Lugar de memória
Desacreditado como cientista por causa de suas equivocadas teorias, nem por isso Agassiz deixou de ser cultuado. Monumentos, montanhas, ruas, avenidas e praças em várias cidades do mundo levam hoje o seu nome. No Alpes suíços tem um pico chamado Agassiz; no Rio de Janeiro, na Floresta da Tijuca, tem a Pedra de Agassiz e as Furnas de Agassiz, além de uma praça Agassiz e uma rua Agassiz no subúrbio carioca. Em Belo Horizonte, no bairro Floresta, existe uma rua com esse nome. E por ai vai.
O historiador suíço Hans Fassler, autor de um livro sobre o envolvimento do seu país com a escravidão, achou intolerável a homenagem e criou a campanha “Desconstruindo Agassiz”, que briga para renomear o pico Agassiz com o nome de uma de suas vítimas, um escravo afroamericano chamado Renty. Hans e Sasha conheceram Helena Machado e John Monteiro num seminário internacional organizado na UNIRIO em agosto de 2009.  Daí nasceu a idéia do livro que além dos quatro autores recebeu a contribuição dos pesquisadores Flávio Gomes, Suzana Milevska e Petri Saarikko.
Maria Helena percorreu os arquivos e museus da universidade, localizou e analisou o conjunto da documentação relativa à expedição de Agassiz que permite discutir uma série de questões estratégicas para a compreensão do Brasil na segunda metade do século XIX, tais como os interesses norte-americanos na Amazônia, a livre navegação pelo rio Amazonas, os projetos dos Estados Unidos de enviar a população afro-americana para povoar a região, a proibição do tráfico internacional de escravos e o debate sobre raça e ciência. 
P.S. – Quem quiser saber mais, leia o livro de Maria Helena Machado e Sasha Huber (orgs) “Rastros e raças de Louis Agassiz: fotografia, corpo e ciência, ontem e hoje” São Paulo. Capacete. 2010. (Edição bilingue da 29ª. Bienal de São Paulo).Outro livro de Maria Helena Machado com cartas, diários e desenhos de William James (publicado nos EUA em 2006) terá uma edição brasileira pela Edusp e deverá sair nas próximas semanas, com o título “O Brasil no Olhar de William James”. A estadia dele no Brasil durou oito meses.  

Fonte: TAQUIPRATI

novembro 08, 2010

Ribamar Bessa depõe no Laboratório de História da Imprensa

PICICA: De todos os depoimentos ao Laboratório de História da Imprensa, da Universidade Federal do Amazonas, o do jornalista Deocleciano Bentes teria tudo para ser um dos mais explosivos sobre as relações das empresas jornalísticas com o Poder. Talvez ainda não seja desta vez. Neste caso, o leitor terá de aguardar o livro de memórias que ele está escrevendo. São coisas do arco da velha. Algumas delas só podem ser publicadas depois que alguns personagens virarem pó no campo santo. É de abalar os alicerces da província.
 O CIRCO SEM TETO DA AMAZÔNIA
José Ribamar Bessa Freire
07/11/2010 - Diário do Amazonas


Esse amazonense se tornou, anos depois, sogro do cantor Lulu Santos. Seu nome: Walmiki Ramayana e Sousa de Chevalier, pai da jornalista Scarlet Moon. Formou-se em medicina na Bahia, mas nunca receitou uma aspirina. O que gostava mesmo era de escrever. Publicou livros, entre os quais Circo Sem Teto da Amazônia. Conquistou vaga de ‘imortal local’ na Academia Amazonense de Letras. Viveu muitos anos em Manaus até se mudar de mala e cuia para o Rio, onde assessorou o ministro do Interior, no final da década de 1960. Foi aí que o conheci. 
Na época, eu era repórter da ASAPRESS, agência de notícias que distribuía matérias a jornais de todas as regiões e que havia sido arrendada pela CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Decidi entrevistar o escritor sobre um tema que ainda hoje desperta o interesse da mídia e povoa o imaginário dos leitores: a cobiça internacional da Amazônia. 
Havia uma onda nacionalistóide se espalhando pelo país. A ditadura militar, por um lado, entregava a economia do Brasil ao capital estrangeiro, sob a batuta do ministro Roberto Campos, apelidado de Bob Fields pelo humorista Stanislaw Ponte Preta. Por outro, jogava para a plateia, fazendo discursos do tipo “A Amazônia é nossa e ninguém tasca”. O ministro do interior, general Albuquerque Lima, chefe de Ramayana, era líder dessa corrente nacionalista. 
- A União Soviética e os Estados Unidos planejam anexar a Amazônia – declarou o futuro sogro de Lulu Santos, nacionalista roxo. Espalhafatoso e retórico, ele chamou o rio Amazonas de “impatriótico”, porque suas águas cavam e engolem terras que são carregadas pelo Gulf Stream para a Flórida. Denunciou os padres estrangeiros que estariam montando uma extensa rede de espionagem em Manaus e no Solimões onde atuavam.  E sentenciou numa frase de efeito:
- O rio Amazonas e os padres americanos vão levar Manaus de bubuia para Miami.
A honra de bubuia
MANAUS VAI DE BUBUIA PARA MIAMI, berrou a manchete de O Jornal, da empresa Archer Pinto. A matéria publicada em diversos jornais do Brasil foi distribuída, no Amazonas, pelo agente local da Asapress, Domingos Sávio Ramos de Lima. Ele e eu, ex-alunos redentoristas, fomos espinafrados pelo arcebispo de Manaus, D. João de Souza Lima, no programa radiofônico A Voz do Pastor, que nos acusou de ferir a honra dos padres, como se nós fôssemos os autores da frase e não Ramayana.
Contei essa e outras histórias na última sexta feira ao Laboratório de História da Imprensa no Amazonas (LHIA) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). De passagem por Manaus, dei um depoimento tentando avaliar as relações das empresas jornalísticas com as diferentes instâncias do Poder, com os leitores, as fontes e os fatos, com a verdade e com a honra de quem se sente ferido pela mídia.
Lembrei, então, a pergunta formulada no dia anterior por meu amigo Paulo Figueiredo, advogado e jornalista, que viveu esses anos conturbados da política. Ele queria saber se fui processado por ferir a honra de alguém. Nunca ataquei a honra de quem quer que seja durante mais de 40 anos de exercício do jornalismo. Critiquei Deus e o mundo – mais o mundo do que Deus, embora de raspão tenha atingido alguns de seus representantes na terra – mas sempre a conduta pública, nunca a privada.
A honra de alguém só pode ser definida dentro do âmbito da vida privada, naquela esfera da intimidade dos relacionamentos familiares, maritais, pessoais, não profissionais. Algumas vezes, os jornais invadem esse território, mas essa nunca foi a minha praia. Um exemplo escabroso foi a polêmica entre o vereador Fábio Lucena e Andrade Neto, dono de A Notícia, que deixou a sociedade amazonense estarrecida. Baixaria pura!
No depoimento dado ao Laboratório de História da Imprensa, fui indagado sobre a coluna Taquiprati. As críticas contundentes, com humor, às vezes com deboche, às vezes ácidas, aqui feitas, se referem à conduta PÚBLICA de quem exerce um cargo PÚBLICO. Nunca ao comportamento privado, particular. Esse, não me interessa.
Quem exerce cargo público, num sistema democrático, está sujeito à avaliação, porque é remunerado com o dinheiro do contribuinte. Isso faz parte do exercício da cidadania. Um jornalista, que pretende ser uma espécie de autofalante para quem não é ouvido e se sente injustiçado, não pode calar. Se cada vez que a crítica à conduta pública de um agente público for considerada, espertamente, como atentado à honra, o Judiciário ficará entulhado de milhões de processos e não existirá imprensa livre. Quem assim obstrui a liberdade de imprensa deve ser penalizado. 
A pesquisa histórica
Muitas histórias foram contadas ao Laboratório de História da Imprensa por vários jornalistas que já deram seu depoimento: Arlindo Porto, Almir Diniz, Benedito Azedo, Flaviano Limongi e Carlos Zamith. Outros estão sendo contatados: Phelipe Daou, Almino Afonso, Paulo Figueiredo, Leal da Cunha, Abrahim Aleme, Messias Sampaio, Deco Souza, Alfredo Lopes, Beth Azize, Baby Rizato e Ana Maria Blablablá. Não fica de fora nem Paulo Girardi, empresário que criou a bela experiência do Jornal do Norte.
A iniciativa do Laboratório, coordenado pelos doutores Luis Balkar Pinheiro e Luiza Ugarte Pinheiro, tem o objetivo de criar acervos documentais, visuais e bibliográficos destinados a fomentar a pesquisa histórica nesse campo. “A constituição de uma História da Imprensa no Brasil e, principalmente no Amazonas, está ainda em estágio embrionário, exigindo esforços coletivos e estudos sistemáticos” – escreveram os dois pesquisadores.
Luiza lembra que a UFAM já produziu um catálogo “Cem anos de Imprensa no Amazonas”, publicado em 1986 por Cassiano Anunciação, o Batará (1ª edição) e pela Editora Calderaro, em 1990 (2ª edição). O Laboratório prepara terceira edição ampliada, Os vice-presidentes da Editora Ana Cássia, Cirilo Anunciação e Cyro Batará, já manifestaram interesse pela publicação. 
Se a imprensa é esse imenso circo sem teto da Amazônia, nós que a construímos – jornalistas e leitores - somos os palhaços, os equilibristas, os domadores, os trapezistas, os malabaristas, os pernas-de-pau e as mulheres barbadas. Cada um escolhe o que quer ser.

FONTE: TAQUIPRATI

novembro 03, 2010

Uma lição sobre cisco e trave no olho, avec José Ribamar Bessa Freire

PICICA: Quelque chose a changé avec José Ribamar Bessa Freire. Il est le père spirituel de PICICA. Il a les pieds sur terre. Il n'a pas peur de dire ce qu'il pense. Malheurement, j'ai écouté ce qu'il a dit mais je ne l'ai pas pris au sérieux. Mon Dieu! Serrá e Marriná, ils sont "farrinha de memê sac". Sacanagens à parte não escreveria estas mal traçadas, não fosse o enorme carinho que todos temos pelo considerado Bessa. Além do mais ele é o tio da Clélia, e uma das pessoas mais bem humoradas que já conheci. Mas, meu compadre, ser entrevistado pela nossa estimada Marilza de Melo Foucher, falar das alianças de Dilma e esquecer das de Marina, é olhar o cisco no olho do irmão, e não perceber a trave que está no próprio olho. Com o carinho deste seu piciqueiro de sempre, je vous embrasse. Rogelio Casado.
Analyse du resultat des elections par Jose Ribamar Bessa, professeur a l universite de Rio de Janeiro

outubro 17, 2010

Enquanto Marina Silva lava as mãos, Ribamar Bessa condena o voto no obscurantismo e no retrocesso

Serra: a fé de um ambientalista

Serra, que repentinamente se diz tão preocupado com o verde e com a vida, não sabe o be-a-bá ambientalista, não tem qualquer intimidade com os conceitos de uso corrente. Precisa de cola para falar sobre bioma, biota, biosfera, ambiente oligotrófico.  Seu recente ambientalismo é de um oportunismo assaz atroz, soa tão falso quanto FHC lambendo os beiços depois de comer uma buchada de bode em Juazeiro (BA) na campanha eleitoral de 1994. O coração verde de Serra é porque ele torce pelo Palmeiras. Nada mais.

Por José Ribamar Bessa Freire (*)

Eleições 2010. Dilma afirmou mesmo que nem Jesus Cristo impede que ela vença essas eleições? Quando? Onde? Para quem? Quem foi que ouviu? Não importa, a “notícia” está circulando velozmente no cyber espaço, onde se trava a guerrilha da informação, na qual alguém ataca e logo se esconde, subindo a serra do anonimato para evitar confrontos.  
A mulher do José Serra, dona Mônica disse, de fato, que “Dilma é a favor de matar criancinhas”? E o aborto feito por dona Mônica Serra, denunciado por uma de suas ex-alunas de dança, ocorreu mesmo? Em quais circunstâncias? Quem entrevistou a ex-aluna? Para que serve essa informação? Por que vasculhar a privacidade alheia?   
Vale tudo em busca do voto dos incautos, dos indecisos, dos desinformados. Histórias escabrosas de fontes duvidosas com informações inúteis e repetitivas, muitas delas falsas, bombardeiam diariamente os usuários da internet e entopem as caixas de correspondência. Nem sempre conseguimos distinguir o que é relato de um fato daquilo que é invencionice beirando a calúnia. 
Se informação é tudo aquilo que reduz a incerteza, então esse entulho de dados falsos ou desnecessários constitui pura manipulação, gerando o que os estudiosos estão denominando de ‘obesidade informacional’. O obeso informacional perde um tempo precioso consumindo, em forma nada criteriosa, um excesso de ‘gordura’, que não é processada e digerida pela mente, nem é metabolizada de forma equilibrada, o que adoece o organismo. 
Sugiro que as escolas reformulem o currículo e introduzam uma nova disciplina – Leitura na internet ou Nutrição Informacional – para ensinar os alunos a separarem o joio do trigo nas mensagens que circulam no ciberespaço.
Em nome da verdade, é preciso dizer que os dois candidatos pouco fizeram para evitar essa guerrilha. Depois de quase 20 milhões de votos dados a Marina Silva no primeiro turno, a gente esperava ouvir propostas sobre o meio ambiente no segundo turno. Afinal, um dos dois candidatos vai presidir o Brasil, que é a maior potência ambiental, com a mais rica biodiversidade do planeta. Mas no debate de domingo passado, eles não deram um pio sobre o tema. Piarão no próximo debate? 
Até agora, ambos fizeram um silêncio ensurdecedor sobre o modelo de desenvolvimento que propõem e sobre seus projetos ambientais, o que pretendem fazer com os recursos naturais, a floresta amazônica, as terras indígenas, a poluição dos rios, o agrotóxico, o Código florestal, as mudanças climáticas, o lixo nas cidades, o trânsito, o excesso de carros, enfim, a qualidade de vida dos eleitores. Nem um pio.
O pio do Serra 

Minto. O Serra deu um pio. Não no debate televisivo, frente a Dilma, que poderia replicar, mas sozinho, numa entrevista a uma rádio local de Chapecó (SC). O pio do Serra foi registrado pelo enviado especial da Folha de São Paulo, Ricardo Westin, que publicou uma matéria deliciosa assinada no domingo passado intitulada “Por votos de Marina, Serra afirma que é ambientalista”.
- Eu sou ambientalista, eu defendo muito o patrimônio florestal – disse Serra, jurando sobre a Bíblia que desde criancinha está preocupado com o tema, com o qual não revela a menor intimidade segundo narra o enviado da Folha, órgão insuspeito nesse caso:
 - O tucano falou sobre a necessidade de respeitar as diferenças ambientais de cada região, mas se atrapalhou. “Tem que levar em conta as biodiversidades regionais. Como é que eles chamam? Bio...?”, questionou. E foi ajudado por um assessor. “Hein?”. E o assessor soprou novamente. “O bioma de cada local” – disse o tucano.
Ou seja, Serra, que repentinamente se diz tão preocupado com o verde e com a vida, não sabe o be-a-bá ambientalista, não tem qualquer intimidade com os conceitos de uso corrente. Precisa de cola para falar sobre bioma, biota, biosfera, ambiente oligotrófico.  Seu recente ambientalismo é de um oportunismo assaz atroz, soa tão falso quanto FHC lambendo os beiços depois de comer uma buchada de bode em Juazeiro (BA) na campanha eleitoral de 1994. O coração verde de Serra será porque ele torce pelo Palmeiras. Nada mais.
Serra e Dilma acreditam que Marina ganhou votos também de um importante segmento religioso e não apenas dos eleitores preocupados com a questão ambiental. Saíram, portanto, à caça desses votos. No dia de Nossa Senhora Aparecida, a Folha publicou na primeira página foto do Serra, no palanque, em frente à multidão, beijando o terço, com uma cara de fé de mais, levando o Macaco Simão a questionar esse tipo de catolicismo: “católico mesmo é o Roriz, que em tudo que faz leva um terço”.
Só existe uma forma de avaliar a fé e a devoção dos dois candidatos: aplicando o teste das irmãs Feitosa, que andam sempre com a fé, que não costuma falhar. 
O teste das Feitosa

As irmãs Feitosa – essas sim, mulheres de fé – puxam os hinos nas novenas de terça-feira na paróquia de Aparecida, em Manaus. Elas seriam convidadas a abrir o debate de hoje, na televisão, entoando o hino “Viva a Mãe de Deus e noooossa, sem pecado concebiiiida...”. Ganharia o candidato que completasse: “Salve oh Virgem Imaculaaaada, oh Senhora Apareciiiiida”. Ou então elas atacariam com o outro hino: “Virgem Mãe Apareciiiiiiida...”. Quem continuasse: “Estendeeei o vosso olhaaar” provaria que conhece mais o babado e tem mais capacidade para governar o Brasil.
Dou o meu pescoço francês em praça pública se um dos dois candidatos passar no teste. Essa espetacularização da fé – a Dilma pelo menos foi mais discreta - é algo assustador e ofensivo para quem vive a religião cotidianamente. De qualquer forma, declaro o meu voto no segundo turno para que os poucos leitores saibam com quem estão falando e se defendam do texto que estão lendo: agora é Dilma. E isso porque estou reginaduartemente morrendo de medo, pensando no exemplo da Alemanha nazista.
Lembro que Hitler foi eleito com o voto popular, derrotando a Social Democracia nas eleições de 1932, quando os nazistas elegeram 230 representantes para o Parlamento. Hitler conseguiu isso por causa da omissão do Partido Comunista, que se justificou, alegando que “não votava em traidores”, que eram os sociais-democratas. Leon Trotsky que lutava contra a Social Democracia, considerou, no entanto, um erro do Partido Comunista, declarando – cito de memória – algo assim como: “É preciso saber diferenciar, de um lado o amigo que está traindo os princípios, e de outro o inimigo que te golpeia e apunhala”.
Dilma, certamente, não é o inimigo que nos apunhala. É preferível elegê-la e no dia seguinte berrar na oposição, cobrando uma postura coerente com o programa original do PT, do que permitir, com o voto nulo, a vitória do obscurantismo e do retrocesso.
P.S. – Pereira deu pera. O meu melhor amigo amazonense, o cara que eu mais admiro, se tornou avô pela primeira vez no dia 13 de outubro. Sua filha teve um parto natural, de cócoras. Meu voto “no Serra não” é um compromisso com a neta desse amigo, a Ana de Natal, a Ana da Vila Feliz, a Ana Pereira que não pode ver o Brasil regredir, que merece ter a felicidade de viver num Brasil melhor.

*José Ribamar Bessa Freire é antropólogo, natural de Manaus e assina no “Diário do Amazonas” coluna semanal tida como uma das mais lidas da região norte. Reside no Rio de Janeiro há mais de 20 anos e é professor da UERJ, onde coordena o programa “Pró-Índio”. Mantém o blog “Taqui pra ti” e é colaborador do blog “Quem tem medo do Lula?”.


Charge: Carlos Latuff 

setembro 19, 2010

Ele, Ely, é o cara, por José Ribamar Bessa Freire

ELE, ELY, É O CARA
José Ribamar Bessa Freire
19/09/2010 - Diário do Amazonas


Prezado leitor (a), me responde rapidinho: 

- Do you know mister Ely? 

Hein? Essa não é a língua usada no Brasil? Estou falando língua de gringo? Oh, my god, why do you sempre me phode? Tudo bem! Então vou facilitar, traduzindo para um idioma nosso, do tronco tupi, falado, cantado e rezado há mais de dois mil anos aqui nesse chão que nós pisamos. Ai vai a mesma frase em língua guarani: 

- Reikuaa pa Ely?
 
E agora? Se você não entendeu bulhufas, então tem alguma coisa errada. Afinal, o guarani é uma língua enraizada no Brasil profundo. Hoje, essa pergunta seria entendida em mais de cem municípios de dez estados do nosso país, onde vivem milhares de falantes dessa língua, mas também dentro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que na última quarta-feira iniciou um curso de língua guarani ministrado pelo professor indígena Alberto Tupara’y e pela linguista Ruth Monserrat. Lá falamos e cantamos em guarani.
O que acontece se eu formular a mesma questão em macuxi: 

- Ely epuinen amîrî?
 
Deu pra compreender? Essa frase, que para nós é grego, pode ser facilmente entendida por milhares de pessoas que vivem em Roraima e que falam macuxi, uma língua do tronco Karib. Parece estranho encontrar no Brasil gente que entende inglês – uma planta estranha ao país – e que não reconhece frases em pelo menos uma ou duas das atuais 188 línguas indígenas - plantas nativas do nosso solo.

No entanto, todo mundo entende o português que, embora seja uma língua neolatina transplantada da Europa, criou raízes históricas aqui, nos últimos cinco séculos, incorporando marcas indeléveis das línguas indígenas com as quais manteve contato. Que o diga o carioca de Ipanema ou de Irajá – três palavras de origem tupi. Sendo assim, reformulo a pergunta na língua nacional que é, em certa medida, a língua de Camões, do Lula, da Marina Silva, do Saramago, do Joel Santana e do caspento Cristiano Ronaldo.

- Você conhece o Ely?

Um guarani responderia: Ha’e xeirŨ porã ete. Um Macuxi não hesitaria em confirmar a mesma coisa em sua língua: Morî pu'kuru mîîkîrî pemonkon. O que eles querem dizer? Mistério que só revelo depois de apresentar o Ely.

Não sabia voar

Ele é o Ely. Ely Macuxi. Ely Ribeiro de Souza, índio macuxi., professor concursado de História da rede pública de ensino em Manaus, ex-gerente de Educação Escolar Indígena na Secretaria Municipal de Educação, docente de antropologia na UNINTER e assessor de diversas organizações indígenas no Amazonas: Coiab, Copiam, CEEEI, Amarn, Wotchimaucu.

Estive em vários encontros de escritores indígenas com Daniel Munduruku, Eliane Potiguara, Álvaro Tukano, Cristino Wapixana, Rosi Waikhon e tantos outros, onde Ely mostrou os contos que escreveu: Ypaty, o curumim da selva; o passarinho que não sabia voar; a menina e o purupuru. Ele, Ely, escreve muito bem. Concluiu seu curso de graduação em Filosofia e partiu para a pós-graduação. Fez o Mestrado em Sociedade e Cultura na Amazônia e especialização em Gestão e Etnodesenvolvimento, ambos na UFAM – Universidade Federal do Amazonas. O cara é bem preparado. 

Ele, Ely, é o cara, porque sua experiência profissional, seus estudos e seus escritos vêm acompanhados de um compromisso inarredável com as lutas sociais. Ele, Ely, é líder comunitário no bairro de Santa Luzia, onde coordenou atividades de pastoral. Atuou ainda como dirigente sindical no Sindicato dos Trabalhadores de Ensino no Amazonas e como lutador incansável no movimento indígena organizado.

Por isso, recebeu apoio político de lideranças, caciques e tuxauas, vereadores e prefeitos indígenas em pelo menos 15 municípios do Amazonas. As comunidades indígenas urbanas de Manaus também o apoiam: os Ticuna da Cidade de Deus e do Mauazinho, os Sateré Mawé do bairro Santos Dumont, os Apuriná do Alvorada e Lírio do Vale, os Tukano do Aleixo. 

Da mesma forma, tem gente boa que o apoia nas comunidades indígenas da zona rural: os Kambeba da Comunidade Brasileirinho; os Baré e os Tukano de Terra Preta; os Karapanã de Canaã; o pessoal da comunidade do Tupé – Baré, Tukano e Piratapuia. Além de alguns intelectuais amazonenses renomados como Thiago de Mello, Tenório Teles, Raimundo Nonato Correia e outros.

Zagallo e Belão

Na história do Amazonas nunca elegemos um deputado indígena capaz de defender os interesses de diferentes povos de línguas diversas, mas capaz também de representar – é o caso do Ely - os interesses de quem, não sendo índio, sofre com os problemas ambientais, de educação, saúde, saneamento básico. Ele, Ely, está comprometido com todas essas causas. Sua eleição é uma questão de honra para todos nós. 

Lembro aqui – e morro de vergonha – daquela infame sessão da Assembleia Legislativa do Amazonas, em 2006, quando o presidente da Casa, Belarmino Lins – o Belão – discutiu com Francisco Balieiro. Os dois se xingaram com os mais escabrosos palavrões: biltre, canalha, patife, escroque, pulha, filho duma égua, sacripanta, efedepê. Estava empate, até que Belão ganhou quando fulminou o colega cuspindo-lhe na cara o que ele considerou como o insulto mais desqualificador: - “Índio”. A palavra soou como uma bofetada – “É a mãe” – respondeu Balieiro, ofendido. 

O índio, até agora, só entrou na Assembleia Legislativa como ofensa., pela porta dos fundos Agora tem que entrar como proposta, como luz, como resistência. A melhor resposta que o eleitor amazonense pode dar ao Belão, ao Balieiro e à cambada dos que têm vergonha de sua ascendência baré é eleger um deputado indígena, para que ele entre naquele mesmo recinto onde todos nós amazonenses fomos  xingados e humilhados. E inicie seu discurso de posse com um “bom dia, senhores deputados”, em língua Macuxi ou em Nheengatu.

O número do Ely é fácil de guardar: basta lembrar o Zagallo, amante do 13, e o Belão. Primeiro você lembra o Zagallo e escreve 13. Depois, lembra o Belão e coloca um zero à esquerda – 013. Depois volta a se lembrar do Zagallo: 13013. 

Agora, leitor (a) se um gringo te perguntar: - Do you know mister Ely? Responde: Yes, now I know. E tasca em guarani: Ha’e xeirŨ porã ete. Ou em macuxi:  Morî pu'kuru mîîkîrî pemonkon. O que quer dizer, em ambas as línguas: ele é muito bom, ele é o cara! (tradução do guarani por Alberto Tupara’y e do macuxi por Celino Raposo, Coordenador da Licenciatura Intercultural de Roraima).

O leitor amazonense, generoso, vai perceber que esse é o momento histórico importante para eleger Ely, o Cara: 13013 (Lembra: Zagallo Belão Zagallo). Se estou fazendo propaganda eleitoral gratuita? É. É isso mesmo. Trata-se de declaração de voto gratuita, entusiasmada, escancarada e consciente em prol de uma representação indígena na Assembleia Legislativa do Amazonas.

 - Ely epuinen amîrî?
 
Responde, eleitor (a), com teu voto: 

- Morî pu'kuru mîîkîrî pemonkon.  

P.S. – Minhas muitas irmãs, meus inumeráveis sobrinhos, meus poucos amigos, meus inteligentes ex-alunos, meus escassos leitores, votem por mim, já que meu título de eleitor não é do Amazonas. Lembre, ele, Ely Macuxi, o Cara, número 13013 (Zagallo Belão Zagallo).  

Fonte: TAQUIPRATI

agosto 29, 2010

José Ribamar Bessa Freire, do TAQUIPRATI, é alvo de censura no Amazonas

Nota do blog: O meu considerado José Ribamar Bessa Freire foi censurado no Amazonas. Quem tiver cópia dos dois textos censurados (TEJE PRESO, SEU JABUTI e O BRASIL QUE ADAIL NÃO VIU), favor enviar para a blogosfera em sinal de solidariedade ao precursor dos blogues no Amazonas, pai do TAQUIPRATI, o terror dos políticos rastaqueras, com o pedido de imediata publicação dos textos censurados. Esse e o código de ética que esta em vigência entre os blogueiros progressistas. Multiplicado na net, vai ser difícil mover uma ação judicial contra cada um.  Leia o comunicado do Bessa e a coluna de hoje, publicada no jornal Diário do Amazonas. Em tempo: ao que parece a ação decorre da crítica bem humorada do meu "cumpadre" à nebulosa conduta de um político amazonense que responde a ações por improbidade administrativa e prática de pedofilia, largamente noticiada pela imprensa nacional. O gajo resolveu, inclusive, enfrentar a Lei da Ficha Limpa, ao sair candidato mais uma vez. Com a palavra o senador Malta, que ainda não conseguiu engaiolar o meliante. 

TEJE PRESO, SEU JABUTI!
José Ribamar Bessa Freire
04/03/2007 - Diário do Amazonas

Uma decisão judicial do juiz Rosselberto Himenes, da 7ª Vara Cível de Acidentes de Trabalho, com prazo de 48 horas, determinou a retirada dos sites do DIÁRIO e do TAQUI PRA TI, dos testos TEJE PRESO, SEU JABUTI e UM BRASIL QUE ADAIL NÃO VIU, publicados nos dias 04 e 25 de março de 2007.

O Diario tomou as providências  no seu site. Fiz o mesmo. Embora considere essa decisão uma censura às liberdade de expressão, obedeci a ordem judicial, até porque a  pena de multa diária é de R$ 500, e eu confesso que não tenho onde cair morto. Os advogados da empresa estão recorrendo. Tenho certeza que reverteremos a decisão. Quando isso acontecer, voltaremos a postar a crônica para que os leitores interessados tenham acesso a ela.

Bessa.

***

AÇÃO REDIBITÓRIA NELES !!!
José Ribamar Bessa Freire
29/08/2010 - Diário do Amazonas


- "O debate entre as sogras dos candidatos deu o maior ibope. E, agora, doutor, como é que fica depois da liminar do Supremo Tribunal Federal (STF)? Será que os promotores do debate, que foram censurados, podem reclamar seus direitos entrando com algum tipo de ação legal?"
A pergunta, feita pelo acadêmico de direito ao seu professor, especialista em legislação eleitoral, recebeu resposta imediata:
- "Cerrrrrtamente, meu jovem. A liminar concedida na quinta-feira, 26 de agosto, pelo ministro Ayres Britto, permite impetrar uma ação redibitória. Digo mais: o impetrante pode ficar podre de rico, porque não se trata de uma açãozinha redibitoriazinha vagabundinha qualquer. Não! Aqui cabe, claramente, uma ação redibitória quanti minoris com pleno efeito repristinatório".
O diálogo acima só pode ser entendido se informamos como transcorreu o debate entre as sogras e o que é que ele tem a ver com a liminar do STF, esclarecendo ainda que diabo é uma ação redibitória.
Debate de sogras
O evento ficou conhecido no meio jurídico – eles metem o latim em tudo - como Discursio Jararacorum ou, em bom tucanês, Discursio Mater Matris Conjungium Candidatorum. “Esse sim vai pegar fogo, porque é um debate boca” – explicou José Simão, cuja coluna na Folha de São Paulo serviu de palco para o confronto.
Simão, que é o Esculhambador Geral da República, além de presidente de honra do PGN – Partido da Genitália Nacional – serviu de mediador. Quem começou a falar, escolhida por sorteio, foi a sogra do José Serra (PSDB), que é chilena. Ela fez revelação bombástica ‘al tirito nomás’, contando intimidades do genro:
 - Sierra tiene explosiones intestinales, se tira cuescos fétidos en la hora del almuerzo. Es un pedorrero. Además, es un perdulario, cada vez que va al toilette gasta varios rollos de papel higiénico.
A sogra da Marina Silva (PV) também fez uma confissão que pode mudar o voto de muitos eleitores:
- Marina fazia fogueira na Amazônia quando criança, nas festas juninas.
Dilma (PT) levou vantagem. Casada duas vezes, ela já bateu de frente com duas sogras e, por isso, teve o dobro do tempo. “Sogra da Dilma é pleonasmo! A Dilma é a sogra do Brasil, no sentido atribuído por Dicró ao termo ” – comentou Simão. Já a mãe da mãe da mulher do candidato do PSOL fofocou sobre o Velhinho Traquinas:
“Quando o Plínio bebe mais de um copo de cerveja, fala se cuspindo todo, diz que seu sonho é ser fazendeiro no Mato Grosso pra plantar soja”.
A sogra do Eymael (PSDC) não hesitou em condená-lo por cultivar o hábito execrável de tirar cera do ouvido com tampinha de caneta bic: “Além disso, ele é caspento e tem chulé”.
A idéia de sogras na campanha eleitoral se alastrou pelo Brasil inteiro, convocando sogras federais, estaduais e municipais. A democracia ganha com uma interatividade maior com os eleitores. Enquanto no confronto só de candidatos, cada debatedor diz, hipocritamente, apenas aquilo que acha que o eleitor quer ouvir, no debate entre sogras é o eleitor que escolhe o que ele próprio quer ouvir, inventando o discurso das sogras. É, portanto, mais autêntico e altamente revelador.
Dessa forma, cada Estado pode organizar debates imaginários entre as sogras locais e, especialmente, ouvir a voz das ex-sogras. Em Minas Gerais, por exemplo, um deles já tem até nome de sogra: Anastasia. A sogra do outro, Hélio Costa (vixe vixe!), pode nos contar o que ele fazia com o Dan Mitrione na época da ditadura militar.  Imagine a riqueza do discurso das sogras e ex-sogras de Collor (AL), de Alkmin (SP), da Mammy Murad, sogra e ex-sogra da Roseana Sarney!
No RS, o Tasso já é mesmo genro de todas, e no Ceará, o governador Ciro Gomes impetrou um habeas-sogra preventivo, quando levou a mãe de sua mulher para a Europa, com despesas pagas pelo contribuinte. No Amazonas, meu Deus do céu, o que diriam as sogras do Omar Aziz e do Alfredo Nascimento sobre seus respectivos genros? (Cartas para a redação).
Efeito Repristinatório
Acontece que a Lei das Eleições, em vigência desde 1º de outubro de 1997, em seu artigo 45, proíbe o humor em período eleitoral – atenção, só em período eleitoral - vetando qualquer gozação, sátira, ironia ou deboche com os candidatos. Portanto, sogras não podem debater, a regra é clara, como diz Arnaldo Cézar Coelho. A multa pra quem não respeitar a lei é de R$ 200 mil, levando um recuo de programas humorísticos como Casseta & Planeta, CQC e Pânico na TV. A eleição ficou triste, como denunciaram os manifestantes na passeata de protesto na orla de Copacabana, no Rio, domingo passado.
Mas desde a última quinta-feira, à noite, a situação mudou. O ministro Ayres Britto, do STF, aquele mesmo que deu razão aos índios no caso Raposa/Serra do Sol, atendeu em menos de 24 horas uma ação de inconstitucionalidade e concedeu liminar suspendendo a censura ao humor na campanha eleitoral. A ação vai ao pleno do STF na próxima quarta-feira para definir se o medo que o Poder tem do riso justifica a censura. Afinal, em que distúrbios gástricos e chulés de candidatos atentam contra a democracia? Por enquanto, vale a liminar de Ayres Britto, que argumentou:
- “O humor concorre, e muito, para o fortalecimento da democracia. Isso é sinal de maturidade democrática. Em todo o mundo, o humor é reconhecido como expressão de liberdade de imprensa. Criticar e ironizar são atividades inerentes ao humor. Programas humorísticos, charges e modo caricatural de pôr em circulação idéias, opiniões, frases e quadros espirituosos compõem as atividades de imprensa, sinônimo perfeito de informação jornalística A liberdade de imprensa livre não é de sofrer constrições em período eleitoral. Ela é plena em todo tempo, lugar e circunstâncias”.
Se o STF confirmar a liminar, os humoristas que foram prejudicados poderão entrar com uma ação redibitória. Quem diz isso?  Não, não foi um especialista em legislação eleitoral, personagem inventado aqui tanto quanto o discurso das sogras. Trata-se apenas de uma lembrança dos meus tempos da Faculdade Nacional de Direito, onde estudei durante três anos num curso que não concluí. Lá, fui aluno relapso de Direito Civil de Clóvis Paulo da Rocha, que EM TODAS AS AULAS, só falava disso. Fui reprovado na prova em que ele perguntava o que é ação redibitória com efeito repristinatório.
Fiquei com traumas, mas encantado com a sonoridade das palavras "redibitória" e "repristinatório", que nunca esqueci. Até hoje não sei muito bem o que é isso. Redibir é anular judicialmente um contrato em que a coisa negociada foi entregue com vícios ou defeitos ocultos. Se for provado que uma das partes interessadas conhecia o vício, a outra pode entrar com uma ação redibitória de perdas e danos. É o caso do debate das sogras dentro da Lei Eleitoral. O macaco Simão vai ficar podre de rico, processando o Marco Maciel que assinou a lei, como presidente interino da República.
E o efeito repristinatório? Boa pergunta. Quando uma lei que revoga uma lei anterior é declarada inconstitucional, a primeira lei volta a ter a validade restaurada. É isso que se chama efeito repristinatório. A partir de agora, portanto, vale a lei anterior, ou seja, o deboche e a gozação. Atenção, sogras, ex-sogras, quase-sogras e futuras sogras de todos os candidatos do Brasil, entrem em ação: ação redibitória neles!
P.S. – Estou sendo processado por uma juíza do Amazonas. Ela também, a seu momento, terá a ação redibitória que merece. Para maiores informações, clicar em http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=148
Fonte: TAQUIPRATI