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abril 13, 2010

Frases de que é feito o jornalismo

Serra e Marina
 
Jornalismo de frases de efeito

Por Luciano Martins Costa em 13/4/2010

Comentário para o programa radiofônico do OI, 13/4/2010

A ex-ministra do Meio Ambiente e pré-candidata à Presidência da República, senadora Marina Silva, foi a convidada principal do seminário sobre economia de baixo carbono, organizado pela revista CartaCapital em São Paulo, na segunda-feira (12/4). Os jornais de terça-feira registram o evento apenas para destacar opiniões da senadora sobre a disputa eleitoral.

Marina Silva disse entre outras coisas que, sem Lula na disputa, a campanha será um confronto de candidatos carrancudos – e a imprensa gostou da frase. A senadora disse muito mais do que isso, e os outros participantes também ofereceram farto material sobre a questão do desenvolvimento sustentável, que deveria estar no centro dos debates eleitorais. Mas os jornais parecem estar interessados apenas em frases de efeito.

Uma das informações oferecidas aos presentes dá conta do crescente interesse da imprensa brasileira pelo tema da preservação ambiental. A ex-ministra informou, por exemplo, que em 2003, quando ela assumiu o cargo, sua assessoria coletava nos jornais uma média de catorze notícias sobre a questão ambiental por dia. Hoje, a imprensa brasileira publica diariamente pelo menos uma centena de notas e reportagens sobre o assunto.

O detalhe, que nenhum dos participantes se animou a comentar, continua sendo a qualidade desse noticiário. Pela baixa repercussão que o evento produziu nos jornais do dia seguinte, pode-se concluir que a imprensa ainda não entendeu que o desafio ambiental é a grande notícia neste início do século 21.

Como um filme

Os jornais noticiam na terça-feira (13), por exemplo, que o diretor de cinema James Cameron se juntou aos protestos em Brasília contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu. Mas apenas dão espaço para a manifestação de uma celebridade, sem avançar uma linha no debate a respeito do projeto, que já tem mais de vinte anos.

A própria senadora Marina Silva, sobre cujas preocupações ambientais e conhecimento do tema não pairam dúvidas, afirmou que não tem opinião formada contra a construção de Belo Monte. Mas os jornais não publicaram sua declaração. Preferiram divulgar a opinião amadora de James Cameron, cujo interesse é basicamente divulgar os subprodutos do seu filme Avatar, como o videogame ambientado no planeta imaginário de Pandora.

Vista pelas páginas dos jornais, a realidade brasileira parece cada vez mais um filme de Hollywood.

***

Como alimentar preconceitos

As edições de terça-feira dos jornais dão destaque à manifestação do secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcísio Bertone, que se declarou publicamente a favor de levar à justiça comum os casos consistentes de pedofilia que tenham como acusados sacerdotes católicos .
Mas uma declaração da autoridade religiosa, pela maneira como foi reproduzida pela imprensa brasileira, pode provocar alguma confusão entre pedofilia e homossexualidade, com risco de alimentar os preconceitos contra homossexuais.

O cardeal Bertone afirmou que "muitos psicólogos e psiquiatras demonstraram que não há relação entre celibato e pedofilia, mas outros demonstraram que há entre homossexualidade e pedofilia". Essa declaração, mal digerida na leitura ligeira dos diários, pode alimentar o preconceito segundo o qual homossexuais são propensos a abusar de crianças.

Nos mesmos jornais, há citação de opiniões contrárias às do secretário de Estado do Vaticano, como a de teólogos que relacionam o celibato como uma das causas do problema da pedofilia envolvendo sacerdotes católicos.

Ao reproduzir frases opinativas, sem esclarecer essas declarações com interpretações mais densas de especialistas, os jornais podem estar contribuindo para reforçar tendências preconceituosas de seus leitores.

O fato de aparecer na mesma edição o noticiário sobre a prisão do pedreiro Admar de Jesus, suspeito de haver estuprado e assassinado seis jovens numa cidade de Goiás, pode ser um agravante na confusão que normalmente se forma em torno do tema.

Longe do debate

A questão da pedofilia, muito presente na imprensa nos últimos meses, ainda não foi devidamente discutida pelos jornais.

Tramita no Congresso um projeto de lei de autoria do senador Gérson Camata, do Espírito Santo, propondo a adoção da castração química nos casos de pedofilia e outros crimes sexuais. No entanto, há muita controvérsia entre juristas sobre a questão.

O fato de alguém ter praticado pedofilia uma vez, e sido condenado por isso, não assegura que voltaria a cometer o mesmo crime, alegam especialistas.

A hipótese de dar ao Estado o direito de punir preventivamente alguém pela suposição de que pode vir a cometer um crime assombra muitos especialistas. Mas a imprensa ainda nem chegou perto desse debate.

Fonte: Observatório da Imprensa

abril 09, 2010

"Se liga, velho!"

Nota do blog: Em três anos serei considerado oficialmente idoso, mas podem me chamar de velho. Como tal quero ser chamado. Nada de melhor idade ou coisa que o valha. Como o quadro pintado pelo Luciano Martins Costa no campo das políticas públicas, em seu artigo para o Observatório da Imprensa, é pra lá de preocupante, declaro que estou em busca de parceiros(as) para articular um movimento por políticas públicas e luta pela boa velhice, senão a gente vira arquivo morto, tá ligado, velho?

POLÍTICA PÚBLICAS

Retrato ignorado do Brasil

Por Luciano Martins Costa em 6/4/2010

A edição da CartaCapital desta semana traz uma interessante reportagem sobre a encruzilhada demográfica do Brasil. A população brasileira está envelhecendo rapidamente, e em duas décadas deixaremos de ser um país predominantemente jovem para nos tornarmos uma nação "supervelha", como o Japão e a maioria da Europa.

A questão, bem amparada em pesquisas e entrevistas, oferece uma perspectiva para análises sobre o futuro imediato do país muito diversa daquilo que vem sendo oferecido aos leitores pela imprensa em geral.

Em primeiro lugar, a projeção de envelhecimento se soma a previsões de que, já em 2030, a população brasileira deverá estagnar nos 207 milhões de habitantes, apenas 17 milhões acima da população atual. E a partir daí deverá entrar em processo de encolhimento, o que pode ser um problema num território continental e com grandes áreas de fronteira.

Outra questão é a adequação dos sistemas de saúde público e privado, além do problema previdenciário, representado principalmente pela persistência de sistemas de aposentadorias desiguais, nos quais a maioria paga pelos privilégios de alguns poucos.

Arquivo morto

Esses temas tocam tudo que se pode imaginar em termos de políticas públicas. A reportagem de CartaCapital pode inspirar reflexões interessantes e enriquecedoras sobre os assuntos que a imprensa tem destacado na agenda pública, nesses dias em que as principais candidaturas à Presidência da República e aos governos dos estados estão na rampa de lançamento.

Desde os projetos de obras de infraestrutura até os debates sobre jornadas de trabalho, direitos humanos e educação, tudo poderia estar sendo analisado sob outro olhar se os participantes – o público inclusive – levassem em consideração o futuro do Brasil daqui a duas décadas.

Mas, infelizmente, parece que a ampla reportagem vai circular em âmbito restrito. Ao contrário do que acontece com as outras revistas semanais de informação, que sempre produzem repercussões nos diários, principalmente quando suscitam escândalo, parece que CartaCapital não é levada em boa conta pelos jornais brasileiros.

Assim como a recente reportagem do Estado de S.Paulo sobre o "Mapa da Violência nos Municípios" (ver aqui), a questão da encruzilhada demográfica vai repousar nos arquivos.

Por isso se diz que o Brasil não conhece o Brasil.

Fonte: Observatório da Imprensa
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