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outubro 10, 2010

Conselho Federal de Psicologia repudia demissão de Maria Rita Kehl pelo Estadão


 

Nota do CFP em repúdio à demissão da psicóloga Maria Rita Kehl pelo jornal O Estado de S.Paulo

Diante da agressão à liberdade de expressão cometida pelo jornal O Estado de S. Paulo contra a psicóloga e psicanalista Maria Rita Kehl, o CFP emitiu a nota a seguir. Para o Conselho, o jornal deu exemplo de produção de alienação pois, ao mesmo tempo em que se diz ameaçado em sua liberdade de expressão, impede a emissão de opinião por articulista que ali escrevia há anos.

Nota:

CFP repudia demissão da psicóloga Maria Rita Kehl pelo jornal O Estado de S.Paulo
No dia 2 de outubro de 2010, a psicanalista e psicóloga Maria Rita Kehl, colunista do jornal O Estado de S. Paulo publicou artigo intitulado “Dois pesos” no qual questionou a desqualificação do voto da população pobre e fez comentários sobre o programa Bolsa Família, do governo Lula. O texto gerou grande repercussão na internet e mídias sociais nos últimos dias e culminou com a demissão da colunista no dia 6 de outubro. Segundo ela, a justificativa dada pelo jornal foi que Maria Rita cometeu um “delito” de opinião.
O Conselho Federal de Psicologia (CFP) repudia a demissão de Kehl, solidariza-se a ela e externa preocupação com a atitude do Estadão que, ao demitir uma articulista que se posiciona de maneira contrária ao discurso do jornal, fere o direito à liberdade de expressão e de pensamento. Ou não é para garantir a diversidade de opiniões que os jornais, além de editoriais, publicam artigos?
A grande mídia tem acusado o governo de cercear a liberdade de expressão e o Estadão há meses questiona um processo de censura. Entretanto, a demissão da colunista expõe a fissura entre o discurso da mídia que se diz ameaçada em sua liberdade de expressão e suas práticas cotidianas, restritivas à liberdade de opinião.

Se você não conseguir visualizar este boletim, clique aqui.
 
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outubro 08, 2010

Maria Rita Kehl está fora dos padrões de liberdade de expressão do Estadão

Kehl na velocidade 5

Foi rápido. O Estadão demitiu Maria Rita Kehl do seu quadro de colunistas ontem à noite, quatro dias após a psicanalista escrever um artigo elogiando o governo Lula. Era um tema delicado, já que o grupo Estado havia acabado de declarar apoio à candidatura Serra em editorial, por isso o artigo "Dois Pesos..." foi lido por toda a cúpula da redação antes de ser publicado. Os caciques do jornal concluíram que o texto não tinha nada de mais e liberaram a publicação. Dias depois, porém, quando os acionistas se irritaram e resolveram pedir a cabeça de Khel, nenhum dos chefes teve culhões para bancá-la.


Lendo o artigo, é difícil de entender qual foi a linha invisível que Khel cruzou. O texto não tem nada que Luís Fernando Verísssimo ja não tenha escrito. Mas Veríssimo está lá há décadas, é uma grife do grupo Estado, e o mais importante: o filho de Érico começou a escrever no Estadão numa outra época, quando havia muito mais espaço para opiniões diferentes nos jornais.

E nem foi há tanto tempo assim. Há quinze anos, colunistas como Marilene Felinto e o saudoso Aloysio Biondi viviam desancando a Folha de S. Paulo dentro da própria Folha. Hoje, dificilmente algum deles teria espaço no jornal. Vivemos uma época em que a Folha tira site de humor do ar e a Abril demite editor na National Geographic por ousar xingar muito a Veja no Twitter. Já fomos mais plurais — de todos os lados. Quando começou, a Caros Amigos publicava capa com jornalista da Folha e abrigava colunistas que defendiam o capitalismo. Isto também seria impossível de imaginar nos dias que correm. Cada vez mais, parece sobrar espaço apenas para o jornalismo de gueto, feito a reboque de alguma ideologia. Na real, há cada vez menos espaço para jornalismo.

E antes que o primeiro puxassaco de patrão venha dizer que é "normal" veículos demitirem jornalistas com visões diferentes das de seus chefes, como se ninguém tivesse compromisso com a própria opinião ou com a verdade, sugiro dar uma olhada no jornalismo americano. E uma olhada carinhosa neste perfil, bastante critico, feito pelo New York Times do magnata da mídia Carlos Slim: The Reticent Media Baron.

O que tem de mais? Slim, criticado na matéria do New York Times, já era um dos principais acionistas do próprio Times quando o texto foi escrito. A diferença é que lá os editores têm culhões.


Aproveito e coloco aqui o recado da filha da Maria Rita, Ana Kehl de Moraes, publicado ontem no Facebook:

Ana Kehl de MoraesAna Kehl de Moraes CONFIRMADO agora: depois de escrever DOIS PESOS, Maria Rita Kehl foi demitida. O edtior diz que como a noitícia vazou antes da real decisão, ele ficou obrigado a isto. Sabe-se lá. Pra quem quiser falar, sugerir, reclamar, xingar, esse é o email do Estadão: falecom.estado@grupoestado.com.br Eu to fazendo campanha. Bjs
Fonte: Boteco Sujo

Nota do blog: Leia também o comentário de Luciano Martins da Costa "A última coluna da psicanalista".

junho 04, 2010

Leitura crítica da visão da ABP sobre o crack


"Internação não é a solução para o crack", diz psiquiatra
TV Estadão | 11.11.2009
Em entrevista a Pedro Venceslau, a psiquiatra Valéria Lacks, especialista em álcool e drogas, fala sobre o crescimento no consumo de crack entre jovens brasileiros

***

Nota do blog: Repasso aos(às) leitores(as) do PICICA, texto da ABP sobre a questão do crack submetido ao olhar crítico de um médico da família e de uma militante antimanicomial. Os questionamentos estão ou sublinhados ou em vermelho, ao longo do texto. Lembrem-se: estamos às vésperas da IV Conferência Nacional de Saúde Mental, e é aí que a porca vai torcer o rabo. Advinhem quem estará presente para desestabilizar, contestar e desqualificar as experiências bem sucedidas que vem sendo feito? Adivinhem quem tentará centralizar a atenção deste grave problema médico-social na psiquiatria e no hospital psiquiátrico? Preparam-se, irmãos! Brasília quer ouvir a tua voz. Mantemos sob sete chaves o nome dos autores da crítica.Veja no vídeo acima, Valéria Lacks reduzindo a pó a internação como solução para o crack.


Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas

A iniciativa merece apoio e, dentro do espírito colaborativo que sempre marcou as ações da ABP (???), é fundamental o posicionamento dos psiquiatras em relação às políticas públicas de tratamento de dependentes químicos (políticas públicas não são feitas só por psiquiatras. Sua dimensão é bem mais ampla e abrangente). 




A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) está convencida de que o aumento do consumo de crack no país e as dificuldades do Estado para oferecer tratamento aos dependentes se transformaram em um grave problema de saúde pública. Ao lançar o Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas, o Governo sinaliza que tem a mesma percepção.
A iniciativa merece apoio e, dentro do espírito colaborativo que sempre marcou as ações da ABP, é fundamental o posicionamento dos psiquiatras em relação às políticas públicas de tratamento de dependentes químicos:

- Embora o crack seja, reconhecidamente, a droga mais danosa para a sociedade brasileira, seu combate e tratamento não podem estar dissociados das demais drogas, inclusive daquelas consideradas lícitas - o álcool e o tabaco. Trata-se de um problema único e a relação entre as substâncias, sobretudo na prevenção, deve ser considerada para a construção das políticas públicas.

- O tratamento para dependentes químicos é complexo e necessita prioritariamente de assistência médica (Penso que o tratamento é tão amplo e complexo que só ou prioritariamente a atenção médica não dará conta da questão. É arrogância e onipotência esta linha de pensamento. Infelizmente, a maioria dos médicos é insensível ao sofrimento de outra natureza que não o físico...) As iniciativas devem se orientar pelos conhecimentos técnicos e pelas evidências científicas que apontam para uma rede de atendimento integrada, balanceada e hierarquizada para atender aos pacientes (A atenção psicossocial que defendemos faz exatamente isso e não são apenas os médicos que desenvolvem a capacidade para conhecimentos técnicos). É necessário oferecer um sistema com unidades básicas de saúde e ambulatórios, hospitais-dia e especializados, CAPs, comunidades terapêuticas (internação de longa permanência também tem se mostrado incapaz de, sequer, minimizar o problema. Além disso, fere, frontalmente a Lei 10.216. No entanto, é necessário o debate ampliado sobre elas), entre outras estruturas (ferramentas???), que prestem atendimento de acordo com a gravidade do quadro clínico, monitore o paciente e faça a transferência para outros níveis de atendimento de acordo com as necessidades e a evolução do caso.

- As evidências já demonstraram que unidades psiquiátricas em hospitais gerais não são eficientes para o tratamento de dependência em crack. (Quais evidências?)
- A ABP se opõe a qualquer ação classificada como de “redução de danos”, no caso do crack. A experiência demonstra que os resultados são negativos. (Que experiências?)

- É necessário avaliar que grande parte dos dependentes em crack são menores de idade e as iniciativas devem estar de acordo com o Estatuto do Menor (Criança) e do Adolescente. Especialmente para esse público, também é fundamental a oferta de educação em período integral, alternativas de lazer, esporte, cultura e empregos.

- As ações preventivas devem atingir pessoas que ainda não são dependentes. Por isso a necessidade de médicos, especialmente psiquiatras (existe uma gama gigantesca de profissionais altamente qualificados que devem compor estas "duplas" numa ação que chamamos de interdisciplinaridade e que a ABP insiste em negar), e de um serviço social que atuem nas escolas e serviços de saúde para a realização de diagnósticos precoces.

- É preciso criar uma estrutura de apoio para as famílias, que são afetadas pelo problema na mesma proporção que os pacientes.

- Os CAPs são instrumentos úteis dentro de uma rede de atendimento, mas as políticas para a intervenção não devem ser apoiadas exclusivamente nesta ferramenta?. Os CAPs não têm recursos técnicos para atender às diversas formas de manifestação dos transtornos mentais e da dependência química (Informação sem fundamentação denota desconhecimento profundo sobre os avanços da atenção psicossocial a partir dos CAPS. Não podemos aceitar que a realidade de São Paulo seja a referência para todo o país. Além do que, os CAPS como dispositivos da rede não agem isoladamente.) . Além disso, está claro que grande parte das unidades em atividade não funciona adequadamente, inclusive, em alguns casos, sem a presença de médicos.

Em março de 2010, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) apresentou uma “Avaliação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) do Estado de São Paulo”. Coordenado pelo Dr. Mauro Gomes Aranha de Lima, o Departamento de Fiscalização do Cremesp avaliou as condições de funcionamento de 85 dos 230 centros em atividade no estado. Abaixo alguns dos principais resultados:

• 42% dos CAPS não contavam com retaguarda para internação psiquiátrica e 31,3% não tinham retaguarda para emergências psiquiátricas;

• 66,7% não disponibilizam atendimento médico clínico na unidade e 25,3% não tinham retaguarda para emergências médicas clínicas;

• 30% dos CAPS III (de maior complexidade) não acataram a legislação no que se refere à “atenção contínua durante 24 horas diariamente, incluindo feriados e finais de semana”;

• 20% dos prontuários médicos apresentaram pelo menos uma falha no registro de dados;

• 27,4% dos CAPS não mantinham articulação com recursos comunitários para a reintegração profissional dos pacientes.

- Por fim, é fundamental investir em formação. Infelizmente o Brasil não conta com um número suficiente de psiquiatras  e outros profissionais especializados em saúde mental para enfrentar a situação. Essa iniciativa deve prever também um plano de carreira para médicos (corporativismo egoísta e egocêntrico e não reflete a realidade) da rede pública que ofereça melhores condições de trabalho e de remuneração, além de melhor distribuição dos profissionais no território nacional.

A Associação Brasileira de Psiquiatria coloca-se à disposição para colaborar com os esforços do Governo nessa enorme batalha, que é permanente e deve ser de toda a sociedade.

Autor: Associação Brasileira de Psiquiatria
Fonte: Assessoria de imprensa ABP

fevereiro 09, 2010

Caros generais, almirantes e brigadeiros


O Estado de S. Paulo, 30 de janeiro de 2010.

Caros generais, almirantes e brigadeiros

Marcelo Rubens Paiva

Eu ia dizer "caros milicos". Não sei se é um termo ofensivo. Estigmatizado é. Preciso enumerar as razões?

Parte da sociedade civil quer rever a Lei da Anistia. Sugeriram a Comissão da Verdade, no desastroso Programa Nacional de Direitos Humanos, que Lula assinou sem ler. Vocês ameaçaram abandonar o governo, caso fosse aprovado.

Na Argentina, Espanha, Portugal, Chile, a anistia a militares envolvidos em crimes contra a humanidade foi revista. Há interesse para uma democracia em purificar o passado.

Aqui, teimam em não abrir mão do perdão. E têm aliados fortes, como o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que apesar de civil apareceu num patético uniforme de combate na volta do Haiti. Parecia um clown.

Vocês pertencem a uma nova geração de generais, almirantes, tenentes-brigadeiros. Eram jovens durante a ditadura. Devem ter navegado na contracultura, dançado Raul Seixas, tropicalistas. Usaram cabelos compridos, jeans desbotados? Namoraram ouvindo bossa nova? Assistiram aos filmes do cinema novo?

Sabemos que quem mais sofreu repressão depois do Golpe de 64 foram justamente os militares. Muitos foram presos e cassados. Havia até uma organização guerrilheira, a VPR, composta só por militares contra o regime.

Por que abrigar torturadores? Por que não colocá-los num banco de réus, um Tribunal de Nuremberg? Por que não limpar a fama da corporação? Não se comparem a eles. Não devem nada a eles, que sujaram o nome das Forças Armadas. Vocês devem seguir uma tradição que nos honra, garantiu a República, o fim da ditadura de Getúlio, depois de
combater os nazistas, e que hoje lidera a campanha no Haiti.

Sei que nossa relação, que começou quando eu tinha cinco anos, foi contaminada por abusos e absurdos. Culpa da polarização ideológica da época.

Seus antecessores cassaram o meu pai, deputado federal de 34 anos, no Golpe de 64, logo no primeiro Ato Institucional. Pois ele era relator de uma CPI que investigava o dinheiro da CIA para a preparação do golpe, interrogou militares, mostrou cheques depositados em contas para financiar a campanha anticomunista. Sabiam que meu pai nem era comunista?

Ele tentou fugir de Brasília, quando cercaram a cidade. Entrou num teco-teco, decolou, mas ameaçaram derrubar o avião. Ele pousou, saltou do avião ainda em movimento e correu pelo cerrado, sob balas.

Pulou o muro da embaixada da Iugoslávia e lá ficou, meses, até receber o salvo-conduto e se exilar. Passei meu aniversário de cinco anos nessa embaixada. Festão. Achávamos que a ditadura não ia durar. Que ironia...

Da Europa, meu pai enviou uma emocionante carta aos filhos, explicando o que tinha acontecido. Chamava alguns de vocês de "gorilas". Ri muito quando a recebi.

Ainda era 1964, a família imaginava que fosse preciso partir para o exílio e se juntar na França, quando ele entrou clandestinamente no Brasil.

Num voo para o Uruguai, que fazia escala no Rio, pediu para comprar cigarros e cruzou portas, até cair na rua, pegar um táxi e aparecer de surpresa em casa. Naquela época, o controle de passageiros era amador. Mas veio a luta armada, os primeiros sequestros, e atuavam justamente os filhos dos amigos e seus eleitores – ele foi eleito deputado em 1962 pelos estudantes.

A barra pesou com o AI-5, a repressão caiu matando, e muitos vinham pedir abrigo, grana para fugir. Ele conhecia rotas de fuga. Tinha um aviãozinho. Fernando Gasparian, o melhor amigo dele, sabia que ambos estavam sendo seguidos e fugiu para a Inglaterra. Alertou o meu pai, que continuou no País.

Em 20 de janeiro de 1971, feriado, deu praia. Alguns de vocês invadiram a nossa casa de manhã, apontaram metralhadoras. Depois, se acalmaram.

Ficamos com eles 24 horas. Até jogamos baralho. Não pareciam assustadores. Não tive medo. Eram tensos, mas brasileiros normais. Levaram o meu pai, minha mãe e minha irmã Eliana, de 14 anos. Ele foi torturado e morto na dependência de vocês. A minha mãe ficou presa por 13 dias, e minha irmã, um dia.

Sumiram com o corpo dele, inventaram uma farsa (a de que ele tinha fugido) e não se falou mais no assunto.

Quando, aos 17 anos, fui me alistar na sede do Segundo Exército, vivi a humilhação de todos os moleques: nos obrigaram a ficar nus e a correr pelo campo. Era inverno.

Na ficha, eu deveria preencher se o pai era vivo ou morto. Na época, varão de família era dispensado. Não havia espaço para "desaparecido". Deixei em branco.

Levei uma dura do oficial. Não resisti: "Vocês devem saber melhor do que eu se está vivo." Silêncio na sala. Foram consultar um superior. Voltaram sem graça, carimbaram a minha ficha, "dispensado", e saí de lá com a alma lavada.

Então, só em 1996, depois de um decreto-lei do Fernando Henrique, amigo de pôquer do meu pai, o Governo Brasileiro assumiu a responsabilidade sobre os desaparecidos e nos entregou um atestado de óbito.

Até hoje não sabemos o que aconteceu, onde o enterraram e por quê? Meu pai era contra a luta armada. Sabemos que antes de começarem a sessão de tortura, o Brigadeiro Burnier lhe disse: "Enfim, deputadozinho, vamos tirar nossas diferenças."

Isso tudo já faz quase 40 anos. A Lei da Anistia, aprovada ainda durante a ditadura, com um Congresso engessado pelo Pacote de Abril, senadores biônicos, não eleitos pelo povo, garante o perdão aos colegas de vocês que participaram da tortura.

Qual o sentido de ter torturadores entre seus pares? Livrem-se deles. Coragem.