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setembro 01, 2010

Ministério Público Federal move ação contra três policiais civis que torturaram e mataram presos políticos

Tortura Nunca Mais

30/08/10 – DITADURA – MPF move ação para que três policiais civis que torturaram e mataram percam cargo e aposentadorias


Reconhecidos em imagens de jornais, revistas e Tvs, delegados do Dops Calandra, Gravina e Araújo torturaram e mataram, a serviço do Exército, presos políticos no Doi-Codi


O Ministério Público Federal ingressou hoje com ação civil pública pedindo o afastamento imediato e a perda dos cargos e aposentadorias de três delegados da polícia civil paulista que participaram diretamente de atos de tortura, abuso sexual, desaparecimento forçados e homicídios, em serviço e nas dependências de órgãos da União, durante o regime militar (1964 – 1985).

A ação pede a responsabilização pessoal de Aparecido Laertes Calandra, David dos Santos Araujo e Dirceu Gravina, os dois primeiros aposentados e o terceiro ainda na ativa, além da condenação a reparação por danos morais coletivos e restituição das indenizações pagas pela União. Capitão Ubirajara, capitão Lisboa e JC, codinomes utilizados, respectivamente, pelos três policiais enquanto atuaram no Doi/Codi, foram reconhecidos por várias vítimas ou familiares em imagens de reportagens veiculadas em jornais, revistas e na televisão.

Os procuradores da República que propuseram a ação colheram relatos de ex-presos políticos e de seus familiares vitimados pelos atos dos três policiais, além de reunir depoimentos retirados de documentos como processos de auditorias militares, arquivos do Dops e livros, entre eles “Brasil: Nunca Mais” e “Direito à Memória e à Verdade”. Os relatos são chocantes e podem ser lidos na íntegra na inicial (clique aqui para ler o documento).

UBIRAJARA, LISBOA E JESUS CRISTO - Pela documentação e depoimentos colhidos pelo MPF, os procuradores relatam na ação que, sob a alcunha de capitão Ubirajara, o delegado Aparecido Laertes Calandra participou da tortura e desaparecimento de Hiroaki Torigoe, da tortura, morte e da falsa versão de que Carlos Nicolau Danielli fora morto em um tiroteio, da tortura do casal César e Maria Amélia Telles, além de participar da montagem da versão fantasiosa de que o jornalista Vladimir Herzog teria cometido suicídio na cadeia. Reportagens dão conta de que Calandra teria participado também de torturas contra Paulo Vannuchi e Nilmário Miranda.

O depoimento de Maria Amélia Telles ao MPF mostra métodos de tortura física e psicológica aplicados por Calandra e outros agentes a serviço do Doi-Codi, como o uso de seus filhos visando constranger os depoentes em busca de “confissões”. Maria Amélia relata que, numa oportunidade, após terem sido barbaramente torturados, ela e o marido foram expostos nus, marcados pelas agressões, aos filhos, então com cinco e quatro anos de idade, trazidos especialmente para o local como forma de pressioná-los. Ao ver os pais, a filha perguntou: “mãe por que você está roxa e o pai, verde?”.

O atual presidente do Conselho Estadual de Defesa da Pessoa, Ivan Seixas, preso aos 16 anos, junto com o pai, Joaquim Alencar de Seixas, torturado e morto pela equipe do Doi-Codi da qual participava David dos Santos Araújo, o “capitão Lisboa”, relata que este era o que mais lhe batia. Como forma de pressão sobre ele, os policiais o levaram para uma área próxima ao Parque do Estado, então deserta, e simularam seu fuzilamento. Depois, o colocaram em uma viatura e foi apresentada a ele a edição da Folha da Tarde em que a manchete anunciava que seu pai fora morto pelas forças repressivas. Ao chegar no Doi, seu pai ainda estava vivo.

Depois da prisão de Ivan Seixas e de seu pai, sua casa fora saqueada e sua mãe e irmãs testemunharam, com ele, as torturas a que seu pai foi submetido. Uma de suas irmãs relatou ao MPF ter sido abusada sexualmente por Araújo. O pai acabou morrendo naquele dia nas dependências da prisão.

O mais jovem dos três policiais e até hoje no cargo de delegado da Polícia Civil, em Presidente Prudente, Dirceu Gravina era chamado pelos colegas de JC – uma alusão à Jesus Cristo por, à época, com pouco mais de 20 anos, manter os cabelos compridos e lisos e usar crucifixo – e é lembrado nos relatos por sua violência e sadismo.

Avesso à imprensa, Gravina foi reconhecido em 2008 por Lenira Machado uma de suas vítimas após aparecer em reportagem sobre investigação que o delegado conduzia acerca de “um suposto vampiro que agia na cidade de Presidente Prudente e mordia o pescoço de adolescentes”. Presa por três dias no DOPS, Lenira teve toda a roupa rasgada por Gravina e outros dois policiais quando foi transferida ao Doi/Codi, ficando por 45 dias apenas com um casaco e lenço.

Em seu primeiro interrogatório no Doi/Codi, Lenira foi pendurada no pau de arara e submetida a choques elétricos. Nesta sessão de tortura, conseguiu soltar uma de suas mãos e, combalida, acabou por abraçar Gravina – que estava postado a sua frente, jogando água e sal na boca e nariz da presa. O contato fez com que o delegado sentisse o choque, caindo sobre Lenira e, em seguida, batendo o rosto, na altura do nariz, em um cavalete.

Após algumas horas, Gravina voltou do Hospital Militar, onde levou pontos no rosto, e retomou a tortura, a ponto de provocar uma grave lesão na coluna de Lenira, e, mesmo assim, não suspender a sevícia. A tortura contra ela era tão intensa que, em um determinado dia, teve que ser levada ao hospital, onde lhe foi aplicado morfina para poder voltar às dependências da prisão.

Gravina ainda é apontado como o último a torturar o preso político Aluízio Palhano Pedreira Ferreira, dizendo a outro preso, após Palhano parar de gritar de dor, que sua equipe tinha acabado de matar o colega, ameaçando-o na sequência. “Agora vai ser você!” Desde então, nunca mais se teve notícias de Aluízio, desaparecido até hoje. Também foram vítimas de Gravina os presos políticos Manoel Henrique Ferreira e Artur Scavone.

RECONHECIMENTO - Apesar do uso de apelidos (Calandra, por exemplo, não admite ter sido o capitão Ubirajara), os ex-policiais foram reconhecidos, em diversas oportunidades, em entrevistas à imprensa e em depoimentos ao MPF, pelos presos políticos. Ivan Seixas relata também que, durante as torturas, ao se referirem uns aos outros, os policiais se traiam, chamando os colegas pelo prenome.  

Algumas vezes, chegavam a se identificar. Em uma ocasião, ao transportar Seixas numa viatura, Araújo voltou-se para ele, mostrou a carteira funcional e disse: “sou o delegado David dos Santos Araújo e não tenho medo de você”.

MEMÓRIA E VERDADE – Esta nova ação é mais uma das iniciativas do Ministério Público Federal em relação às violações de direitos humanos ocorridas durante a ditadura militar no Brasil. Essa atuação teve início em 1999 por meio da tarefa humanitária de buscar e identificar restos mortais de desaparecidos políticos para entrega às respectivas famílias. Conheça as iniciativas do MPF com relação ao tema aqui.

Com o desenvolvimento das investigações, o MPF identificou que o processo de consolidação da democracia e reafirmação dos direitos e garantias fundamentais suprimidos pela ditadura requer do Estado brasileiro a implantação de medidas de Justiça Transicional: (a) esclarecimento da verdade; (b) realização da justiça, mediante a responsabilização dos violadores de direitos humanos; (c) reparação dos danos às vítimas; (d) reforma institucional dos serviços de segurança, para que respeitem direitos fundamentais; e (e) promoção da memória, para que as gerações futuras possam conhecer e compreender a gravidade dos fatos. O objetivo dessas medidas é evitar que atos tão desumanos se repitam.

Assinam a ação o procurador regional da República Marlon Alberto Weichert, os procuradores da República Eugênia Augusta Gonzaga, Luiz Costa, Sergio Gardenghi Suiama, Adriana da Silva Fernandes, e o Procurador Regional dos Diretos do Cidadão em São Paulo, Jefferson Aparecido Dias.


Fonte: MPF-SP
 

abril 15, 2010

O Iphan e a maldição de Ajuricaba

 Acervo SOS Encontro das Águas
Movimento SOS Encontro das Águas

No jornal A Crítica de ontem foi publicado matéria de página inteira sobre a visita do Presidente do Iphan ao Encontro das Águas. Estranhamente, Luiz Fernando de Almeida se fazia acompanhar por um defensor intransigente da construção do terminal portuário das Lajes, incapaz de dialogar com outros saberes que constestam a iniciativa que tem a frente uma subsidiária da VALE (leia postagem neste blog).

A matéria cita que o Iphan vai pedir prorrogação do prazo para o tombamento do Encontro das Águas.

Mais estranho ainda é o fato de que em entrevista do Diretor do Departamento do Patrimônio e Fiscalização do Iphan de Brasília, Dalmo Vieira Filho, à Critica, em 10/02/2010, antes da decisão da Justiça Federal estabelecendo prazo de seis meses para conclusão da avaliação do tombamento, declarou que “o estudo deve ser finalizado em maio e encaminhado ao Conselho Consultivo do Ministério da Cultura” (artigo abaixo).

É dele também a frase “Desenvolvimento não se faz a qualquer preço” - Dalmo Vieira Filho, Diretor do Departamento do Patrimônio e Fiscalização do IPHAN de Brasília. Seria bom se a teoria fosse aliada à prática.

Como o movimento SOS Encontro das Águas não foi consultado - o que confirma a unilateralidade de entidades públicas que deveriam se comportar de maneira transparente em questões de interesse coletivo -, fica aqui o nosso repúdio e um pedido de esclarecimento: "Por que as regras de avaliação do tombamento foram modificadas sem consulta ao movimento SOS Encontro das Águas e em franco desrespeito à decisão tomada pelo Ministério Público Federal?". Quem se arroga o direito de agir unilateralmente, pode até gozar dos benefícios concedidos pelas brechas da lei - não lhes resta outa opção do que recorrer da decisão do MPF -, mas, estejam certos, não escaparão da maldição de Ajuricaba.

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Centro Histórico de Manaus pode passar por tombamento

A Crítica - AM - Manaus/AM - CIDADES - 10/02/2010 - 08:03:16

Elaíze Farias
Da equipe de A CRÍTICA


A superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) vai propor o tombamento nacional do Centro Histórico de Manaus. Até o final deste mês, o estudo apresentado pelo Iphan será analisado por uma comissão de historiadores e pesquisadores. O passo seguinte é encaminhar o documento com a proposta ao Conselho Estadual de Cultura e Patrimônio. Caberá a este formular o pedido de tombamento. As informações foram dadas ontem, pelo superintendente do Iphan, Juliano Valente. O estudo está sendo analisado pelos historiadores Luiz Balkar e Otoni Mesquita; pelo arquiteto Bosco Chamma; pelo advogado e cientista social, Pontes Filho; pelo secretário estadual de cultura, Robério Braga, e pela diretora de operações da Manaus Cult, Grace Benayon.

O tombamento do Centro da cidade daria a Manaus o status de cidade histórica do País. No Brasil, 100 cidades são consideradas históricas pelo Governo Federal. Conforme Juliano Valente, o tombamento do Centro Histórico de Manaus, caso seja aprovado, vai regular o
ordenamento urbanístico da cidade de uma forma mais rigorosa. É que uma parte do Centro de Manaus já é tombada pela Lei Orgânica do Município de Manaus (Loman). "Um bem tombado pela União pressupõe outro tipo de rigor, que é mais impessoal, disse
Valente.

O resultado prático de um tombamento seria a criação de regulação da área para que obrasnão comprometam a preservação dos imóveis. Valente salientou, contudo, que tombamento não implica "congelamento"; nem transformação do Centro em uma área "proibitiva".

Segundo o diretor do Departamento do Patrimônio e Fiscalização do Iphan, Dalmo Vieira Filho, o processo de tombamento de Manaus como cidade histórico deve durar até dois anos.

Atualmente, o Iphan realiza estudos técnicos para propor o tombamento cultural e natural do fenômeno Encontro das Águas. O estudo deve ser finalizado em maio e encaminhado ao Conselho Consultivo do Ministério da Cultura.

O Amazonas possui cinco bens tombados pelo Iphan: Teatro Amazonas, Reservatório do Mocó, Mercado Adolpho Lisboa, Conjunto Arquitetônico e Paisagístico do Porto de Manaus e Parque Nacional do Jaú.

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Leia mais sobre a luta do movimento SOS Encontro das Águas contra a construção do terminal portuário das Lajes:

http://www.ncpam.com/2010/04/vergonha-para-cultura-nacional.html
http://rogeliocasado.blogspot.com/2010/04/ate-tu-luiz-fernando.html

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100414/not_imp537987,0.php

http://www.ohoje.com.br/cidades/14-04-2010-encontro-das-aguas-pode-virar-monumento/

http://www.cruzeirodosul.inf.br/materia.phl?editoria=20&id=283745

abril 14, 2010

Até tu, Luiz Fernando!?

 Audiência Pública sobre o Terminal Portuário das Lajes
 Rogelio Casado - Pro-Reitor de Extensão da UEA (colete)
 José Alberto Machado - economista (boné)
Acervo SOS Encontro das Águas - Comunidade S. Francisco-Amazonas, 2009
 Rogelio Casado: O terminal pode comprometer os jaraquis (peixe popular, saborosíssimo) que desova nas Lajes.
José Alberto Machado: Quem disse que os jaraquis desovam nas Lajes?
Rogelio Casado: O Ênio Candotti (diretor do MUSA, que montou um aquário reproduzindo
a vida aquática do Encontro das Águas no congresso da SBPC, em Manaus) e os pescadores...
José Alberto Machado: Ora, o Ênio é físico!...

(Pelo princípio de exclusão, segundo a lógica machadiana, o economista José Alberto Machado
está fora da discussão da construção do terminal portuário das Lajes)
 
Diário do Amazonas - 14.04.2010 
Nota do movimento SOS Encontro das Águas

Estranho posicionamento do IPHAN


Foi publicado na coluna Sim e Não de ontem, do jornal A Crítica, que o Presidente Nacional do IPHAN, Luiz Fernando de Almeida, estaria em Manaus e daria uma coletiva para a imprensa, às 8 h da manhã, no Aeroclube. O movimento SOS Encontro das Águas passou por lá para conhecer as boas novas do IPHAN Nacional quanto ao tombamento do Encontro das Águas e quanto ao cumprimento das decisões da Justiça Federal (Processo Nº 2010.32.00.001541-4).

A coletiva com o Presidente Nacional, o Superindente Regional e o Diretor do Departamento do Patrimônio e Fiscalização do IPHAN de Brasília, Dalmo Vieira Filho, foi concedida logo após o sobrevôo dos membros do IPHAN na região do Encontro das Águas. No entanto, ficamos surpreendidos. A única pessoa que a equipe do IPHAN convidou para sobrevoar de helicóptero (r$ 6.500,00) o Encontro das Águas foi o grande defensor do terminal portuário Porto das Lajes Sr. José Alberto Machado.


Para quem não sabe o economista José Alberto Machado esteve presente em todas as audiências públicas realizadas pelo IPAAM (nas legais e ilegais). Vestindo literalmente a camiseta do Porto das Lajes, sempre fez apologias ao terminal, atuando como uma espécie de "coordenador de convencimento dos populares". O Sr. Alberto Machado esteve presente em vários outros debates públicos, e matérias em rádio e televisão, defendendo a construção do porto das Lajes no canal de entrada do lago do Aleixo.

Durante a entrevista no aeroclube de Manaus, o Superintendente foi questionado pela correspondente da Folha de S. Paulo, Katia Brasil, quanto à coerência da participação do Sr. José Alberto Machado no vôo de reconhecimento no Encontro das Águas e da coletiva, já que era de conhecimento publico seu posicionamento favorável a construção do terminal portuário Porto das Lajes. O Presidente Nacional do IPHAN declarou que convidou o Sr. Alberto Machado para o vôo de reconhecimento do Encontro das Águas “porque quer ouvir todas as partes”.

Achamos muito estranho o fato do IPHAN ter convidado o Sr. Machado, que é economista. Afinal, nenhum cientista de ciências naturais, nenhum pescador, nenhum morador ribeirinho e nenhum membro do SOS Encontro das Águas, verdadeiros conhecedores do Encontro das Águas, foi convidado para se manifestar e nem para o sobrevôo. Ao contrário, o superintendente regional do IPHAN, Juliano Valente recebeu e aceitou quatro convites dos comunitários da Colônia Antônio Aleixo para conhecer a região, mas não compareceu em nenhuma das vezes.

O Presidente Nacional do IPHAN Luiz Fernando de Almeida durante a entrevista comunicou enfático que em sua opinião o Porto das Lajes não deve ser construído naquela região devido aos impactos paisagísticos, ambientais e sociais e que o Encontro das Águas será tombado. O movimento SOS Encontro das Águas maniifesta preocupação com a interferência da Lajes Logística, fazendo lobby no IPHAN em Brasília e em Manaus - a tal ponto de ter seu maior defensor no sobrevôo oficial do Encontro das Águas e na coletiva à imprensa. Este lamentável episódio revela que a transparência da delimitação da área a ser tombada, a imparcialidade e a qualidade da avaliação poderão ser comprometidas se não houver a intenção de ouvir o outro lado da história.

Vamos lá, Luiz Fernando, a cultura nacional só tem a ganhar com a presevação do Encontro das Águas, o que deveríamos ter feito há 40 anos. Pior será ter que recuperá-lo no futuro. Não haverá Prosamim que dê jeito!

Leia a crítica feita pelo Núcleo de Cultura Política do Amazonas em :http://www.ncpam.com/2010/04/vergonha-para-cultura-nacional.html
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abril 08, 2010

Movimento SOS Encontro das Águas de olho no Iphan



RogelioCasado 3 de abril de 2010Professor Francisco, da rede pública de ensino, critica a construção de um terminal portuário e defende a conservação do Encontro das Águas.

Nota do blog: Imagem e depoimento colhidas por Nivaldo de Lima, o fotógrafo dos esquecidos.

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Técnicos do MPF de Brasília vão acompanhar estudos

07/04/2010

NÁIS CAMPOS
Equipe do EM TEMPO
nais@emtempo.com.br


A pedido do Ministério Público Federal do Amazonas (MPF/AM), técnicos do MPF de Brasília/DF devem chegar em Manaus nos próximos dias para acompanhar os estudos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que podem vetar definitivamente a construção do Porto das Lajes. Como medida preventiva, o Ministério Público Federal do Amazonas determinou, na semana passada, o tombamento provisório do Encontro das Águas, o qual implicou na suspensão imediata de qualquer iniciativa visando a construção do porto, localizado na Colônia Antonio Aleixo, Zona Leste.

Ainda na decisão, o MPF/AM deu um prazo de 180 dias para que o Iphan conclua os estudos ambientais que tornem definitivo o tombamento do Encontro das Águas. “A medida é para impedir que o futuro tombamento, como patrimônio de relevância paisagística e cultural, se torne inócuo caso seja permitida a construção do Porto das Lajes”, declarou o procurador do MPF-AM, Edmilson Barreiro.

A Lajes Logística, por meio de assessores, informou que o departamento jurídico da empresa vai ingressar com recurso no MPF/AM contra a decisão liminar expedida pela juíza da 3ª Vara Federal, Maria Lúcia Gomes que determinou a suspensão da construção do porto.

Os empresários se defendem das acusações de poluição que o porto poderia ocasionar, justificando que um estudo encomendado pela empresa, um corpo de professores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) concluiu que serão mínimos os impactos ambientais provocados pelas obras do Porto das Lajes.

Até que o Iphan conclua os estudos, a Justiça também determinou que fosse impedido qualquer contato entre a empresa responsável pela construção do Porto com a comunidade diretamente afetada pelas obras. Ou seja, a empresa está proibida de patrocinar e promover eventos e doações de qualquer natureza. “O descumprimento de todas as determinações implicam em multa diária de R$ 10 mil”, reforçou Edmilson Barreiro.

Na concepção do MPF, a população estava sendo usada pelos empreiteiros com ações de intimidação e até mesmo violência. O poder público fundamentou a denúncia com base em investigações comandadas pela Polícia Federal.

Fonte: Amazonas em Tempo


abril 04, 2010

SOS Encontro das Águas: memória comentada

Imagem postada em Globo Amazônia
Mapa (acima) e imagem de satélite (abaixo) reproduzidos do estudo de impacto ambiental da
obra mostram a localização do futuro terminal portuário (polígono destacado em vermelho). Na imagem de satélite é possível ver as águas com duas cores separadas passando diante do local.

Nota do blog: O movimento SOS Encontro das Águas tem um dos maiores acervos sobre a luta contra a construção de um porto terminal nas imediações do nosso maior patrimônio paisagístico. Nada escapa ao seu olhar. Dos arquivos do movimento foi retirada a matéria abaixo publicada no Globo Amazônia, que é pra essa blogueiro ficar mais atento quando atacar a omissão da grande mídia no imbróglio criado por interesses privados alheios aos interesses populares. Esta aí, portanto, a única matéria publicada sobre a luta de uma comunidade contra o capital predatório. Pra não perder o hábito, convém comentar (em vermelho) o que escapou no conteúdo da matéria. (Dedico essa postagem ao meu amigo de infância João Bosco Chamma, arquiteto da pesada que melhor pensa e discute o urbanismo manauara, e pro meu filhote Juan e sua geração. que ainda vão ter um enorme trabalho para desmontar a máquina que vem destruindo os valores da nossa terra).

17/05/09

Construção de porto no Encontro das Águas é alvo de disputa em Manaus

Organizações locais veem ameaça ao principal ponto turístico da cidade. Empresa nega possíveis danos ambientais e ressalta criação de empregos.

Dennis Barbosa
Do Globo Amazônia, em São Paulo

A construção de um terminal portuário na altura do Encontro das Águas (confluência do Rio Negro, de água escura, com o Rio Solimões, de água barrenta) em Manaus, um dos pontos turísticos mais importantes da Amazônia, é motivo de polêmica na capital amazonense. De um lado, uma grande empresa de logística defende a obra. De outro, ambientalistas e moradores de um bairro da cidade querem o porto em outro lugar (esses dois segmentos, junto com vários segmentos da sociedade civil organizada, bem como professores, alunos, sindicalistas independentes e intelectuais, criaram o movimento SOS Encontro das Águas, numa histórica reunião na Universidade do Estado do Amazonas - UEA).

O movimento que se opõe à construção alerta para possíveis danos ambientais e sociais irreversíveis. A companhia que quer fazer a obra, a Lajes Logística (associação da Juma Participações, empresa sediada em Manaus, com a Log-In Logística Intermodal, um dos maiores operadores logísticos do Brasil, que surgiu como subsidiária da Vale e abriu capital em 2007) alega que os impactos não serão tão graves e acena com a criação de centenas de empregos e investimento de R$ 200 milhões (a empresa omite que a construção do porto está projetada para ocupar a boca do lago do Aleixo, numa área de igapó, onde desovam os peixes da região, a poucos metros do lajedo onde desovam os jaraquis - outro símbolo da região - que abastecem a mesa das famílias de baixa renda).

Se sair do papel, o Porto das Lajes ocupará um terreno de 600 mil metros quadrados (150 mil deles construídos). Segundo a Lajes Logística, o empreendimento gerará 600 empregos diretos e indiretos durante a instalação e 200 quando estiver em operação. O terminal terá capacidade de receber dois navios de grande porte simultaneamente (a empresa, pressionada pela opinião pública, fez saltar o número de empregos de 120 para fictícias 600 vagas, só para encher os olhos dos incautos; pior só a omissão de que, no sítio onde se pretende construir o referido porto, já foram encontrados achados arqueológicos indígenas, o que pressupõe a existência de outros ainda não conhecidos, sem que, desta vez, a empresa construtora propusesse a criação de um museu, pois era só que faltava!).

O risco de impacto sobre o potencial turístico da região é enorme, posto que o Encontro das Águas é um dos principais cartões-postais de Manaus, do Amazonas e do Brasil”, afirma o Ministério Público Federal no Amazonas, em nota ao Globo Amazônia. “A área de entorno do local proposto para o porto abriga sítios arqueológicos, unidades de conservação, populações indígenas, atividades de pesca artesanal”, acrescenta (taí o Ministério Público Federal que não me deixa cair em contradição, mas deixa em maus lençois o atual titular do Iphan local, que afirmou para o Diário do Amazonas, em entrevista recente, que não entende porque só agora surgiu a idéia de tombamento do Encontro das Águas, quando a idéia é de domínio público há algum tempo; pior, só quando a referida criatura sugere que outros empreendimentos que ali estão sendo executados não podem ser suspensos, numa outra demonstração da luta da comunidade contra a poluição trazida pela expansão do Distrito Industrial, como a empresa Sovel que há anos joga material pesado para dentro do lago do Aleixo, prejudicando a pesca e a cadeia alimentar - quando esses dirigentes terão mais intimidade com a história da nossa cidade?) .

Moradores da Colônia Antônio Aleixo, bairro onde o terminal portuário será construído, se opõem à construção. Organizações locais, o Conselho de Direitos Humanos da Arquidiocese e ambientalistas de Manaus se uniram no movimento SOS Encontro das Águas, e alegam que o porto vai causar dano à atividade turística pelo impacto paisagístico. Eles defendem ainda que a poluição e o trânsito de navios vão prejudicar a pesca e as atividades de lazer da comunidade local (o mais curioso é quem deveria demonstrar os riscos do impacto ambiental a ser provocado pela construção do terminal portuário se omite, e deixa para a comunidade a responsabilidade de fazê-lo, o que vem sendo feito com muita competência, primeiro porque nem todos os cientistas estão cooptados ou em silêncio obsequioso, segundo porque contamos com o mais legítimo dos conhecimentos tradicionais de pescadores e ribeirinhos, remanescentes de comunidades tradicionais da região).

Segundo o projeto, o terminal deve se situar próximo ao Lago do Aleixo, localizado na beira do rio, onde os moradores da Colônia Antônio Aleixo pescam e nadam. O bairro surgiu na década de 30 a partir de uma colônia para doentes de hanseníase (lepra) (a partir de 1979, quando a Colônia de Hansenianos foi desativada, em poucos anos instalou-se ali uma grande população de imigrantes, atualmente girando em torno de mais de 40 mil pessoas; região estigmatizada, ela é chamada pelos comunitários mais críticos de "cloaca" da cidade, tal a quantidade de projetos danosos ao meio ambiente e à população ali residente, como a de terminais de carga irregulares, sem que as autoridades ambientais tomem uma providência sequer).

Outro problema apontado pelo movimento contra o porto é que, próximo ao local previsto para sua instalação, deve ser construída uma adutora para captar água para o sistema de saneamento da cidade. “É incompatível a captação de água para consumo humano, em uma região como a Amazônia, ser realizada ao lado de um terminal portuário que trará tanta contaminação aquática”, afirma relatório da SOS Encontro das Águas (a montante e a jusante, a captação de água é problemática; basta lembrar que, a jusante, o sistema de esgoto da cidade de Manaus tem como endereço o rio Negro, o que deve encarecer o tratamento da água que irá beneficiar uma população de mais de 400 mil habitantes da zona Leste; e, a jusante, o porto fica coladinho à adutora).

Segundo o padre Orlando Barbosa, pároco da Colônia Antônio Aleixo e coautor desse relatório, o objetivo do movimento não é que a Lajes Logística deixe de construir seu terminal portuário, mas que o faça em outro local. “Todos sabem que portos não trouxeram desenvolvimento local para as comunidades em nenhum lugar do Brasil”, critica (uma nebulosa história, que precipitou a saída de Orlando Barbosa do Amazonas, envolvendo a cúpula local da Igreja Católica e a direita de um dos seus segmentos, ainda está por ser esclarecida).

Desemprego
Barbosa admite que, no início, a comunidade estava unida contra o terminal, mas atualmente há muitos moradores que apoiam a obra por causa da possibilidade de conseguirem trabalho. “Aqui temos cerca de 45 mil moradores e 98% é de desempregados que vivem de pesca e de fazer alguns bicos”, explica. Além de acenar com chances de emprego, a Lajes Logística afirma que, do total de cerca de 600 mil metros quadrados de terreno de que dispõe, 70% serão preservados com mata nativa. Na área conservada será implantado um parque botânico a que a comunidade local terá acesso, segundo o diretor da empresa, Sérgio Gabizo (certamente somos um povo contemplativo, seu Sérgio, mas raios! programas de geração de renda que é bom, neca de pitibiriba!; resumo da ópera: a população de baixa renda que vive próximo ao maior patrimônio paisagístico do estado do Amazonas, com sua vocação turística, não tem direito a um programa sócio-econômico decente - é de corar de vergonha).

"O terminal estará a 2.400 metros da Área de Proteção Ambiental (APA) do Encontro das Águas (onde os dois rios confluem)”, argumenta o diretor. Segundo ele, o local aonde vão mais turistas para olhar o fenômeno natural não terá inferferência da obra: “Do Mirante da Embratel, ponto de onde se tem a melhor visão do Encontro das Águas não se consegue avistar o Terminal Portuário das Lajes”. De acordo com Gabizo, o terminal também não vai interferir no Lago do Aleixo. “Durante o período de alta do rio, aparece um caminho fluvial por onde circulam pequenas embarcações nas proximidades do terminal”, admite. No entanto, o diretor argumenta que isso acontece somente de dois a três meses por ano. “Com a baixa do rio, essa passagem desaparece. A entrada efetiva do lago fica muito mais a leste”, diz. Em relação à captação de água para abastecer Manaus, o diretor argumenta que ela acontecerá rio acima e, portanto, não deve ser afetada pelo empreendimento. De qualquer forma, o movimento do terminal, afirma, será relativamente pequeno se comparado ao dos outros navios que passarão diante dele para chegar ao porto principal de Manaus. A Log-In, maior acionista do terminal, terá inicialmente duas embarcações por semana aportando no local. Gabizo afirma ainda que todas as alternativas de locação para o terminal foram examinadas, mas que este é o local mais adequado. “No plano diretor de Manaus, a área onde estamos localizados é a prevista para a expansão de terminais portuários” (aqui imperam inverdades; junto com a adutora de captação de águas - que atenderá a demanda de uma população de mais de 400 mil habitantes - o terminal portuário criará uma desastrada intervenção na paisagem; além disso, os proprietários do local onde pretende-se construir o porto cometem agressões ao ambiente, e não é de hoje, tanto que tentaram aterrar a boca do lago do Aleixo, para impedir a passagem dos pescadores; o que demonstra que juntaram-se no mesmo emprendimento o lixo e a vontade de sujar, de gente que nada entende de poluição visual - definitivamente, falta-se com a verdade, com o conhecimento, diante do silêncio dos cientistas locais, exceções de praxe; a propósito, a empresa omite o estudo da Ilha das Onças, local de grande calado, propício a instalação de um porto, a cerca de 40 km do Encontro das Águas).

Estudo de impacto
Como exigido em qualquer obra desse tipo, a Lajes Logística preparou um estudo de impacto ambiental para que o Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas (Ipaam) concedesse a licença para a construção. Após a entrega do relatório, o instituto realizou audiência pública em 19 de novembro do ano passado. Houve oposição dos presentes e pedidos dos Ministérios Público Estadual e Federal para que o relatório ambiental fosse aprofundado. O Ipaam solicitou que a Lajes Logística apresentasse complementação do estudo e, enquanto não entregá-lo, a companhia não pode iniciar a obra. A expectativa da empresa é de que os adendos sejam entregues nesta semana ao Ipaam. "Então aguardaremos que seja marcada nova audiência pública para que o estudo seja debatido pela sociedade”, diz o diretor da Lajes Logística. Segundo ele, o terminal estará operante em “22 meses a partir da concessão das licenças ambientais e federais” (de lá pra cá, muita água rolou: o padre Orlando Barbosa foi afastado de suas funções pela cúpula da igreja católica local, o presidente do Ipaam foi afastado, uma audiência pública foi suspensa, outra foi feita "pra inglês ver"; só não arrefeceu o ânimo da comunidade altiva do bairro Colônia Antônio Aleixo, que apoiada no movimento SOS Encontro das Águas continua sua luta pelo tombamento do Encontro das Águas e pelo fim dos impactos socio-ambientais degradantes do lago do Aleixo e adjacências, fonte de vida da comunidade, embalada por importantes adesões, como os artistas da cidade - oxalá não sobrevenham as costumeiras retaliações por agentes do Estado, ciosos em manter a ordem e o progresso, desencarnados dos compromissos com a manauaridade. Se tia Pátria tivesse viva, ela, que com seu pai - vovô Antonio Barbosa, lusitano de nascimento - ajudou a criar um dos recantos mais agradáveis de Manaus - Chapada Recrativa Clube, com sua enorme área verde e igarapé geladinho (atualmente destruído), certamente já teria vociferado: "Vamos acabar com essa patifaria, bando de 'filhos-duma-égua'". Grande tia Pátria!).


Nota do blog: E para o blogueiro pagar a língua de vez, leia matéria recente do Globo Amazônia sobre o tombamento do Encontro das Águas. Acesse: Justiça determina tombamento do encontro das águas do Rio Negro com o Solimões.

abril 01, 2010

Encontro das Águas: vitória (parcial) da força popular


Com o tombamento provisório, o Iphan tem 180 dias
para concluir o processo de tombamento definitivo
do fenômeno


Tombado em caráter provisório e liminar

Elaíze Farias
Da equipe de A CRÍTICA


A juíza federal da 3ª Vara Federal, Maria Lúcia Gomes de Souza, determinou anteontem, em caráter liminar, o tombamento provisório do Encontro das Águas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O órgão vinculado ao Ministério da Cultura tem 180 dias para concluir o processo de tombamento.

A decisão judicial acata uma ação civil pública do Ministério Público Federal (MPF). Maria Lúcia Gomes de Souza também determinou a suspensão do processo de licenciamento ambiental do empreendimento Porto das Lajes, previsto para ser construído nas imediações do Encontro das Águas, durante o processo do tombamento e até a decisão definitiva da Justiça sobre o assunto.

Pela decisão a empresa Lajes Logística, responsável pelo Porto das Lajes, também não poderá continuar realizando o procedimento ou a realização física de atos de construção, início ou prosseguimento de obras e qualquer ato material relativo ao empreendimento. A empresa também não poderá realizar contato, patrocínio, promoção de eventos, doações e outras medidas nas comunidades a serem afetadas pela obra até que seja proferida a decisão final do processo. O descumprimento por parte do Iphan, Ipaam e Lajes Logística da decisão da Justiça Federal resultará em multa diária no valor de R$ 10 mil.

Com base em texto apresentado pela bióloga Elisa Wandelli, a juíza afirma que o tombamento “é a solução que melhor alberga os ideais de preservação cênica do bem, o uso sustentável dos recursos naturais e promoção do turismo na região, além de melhor prevenir o impacto ambiental estético e paisagístico e favorecer a qualidade de vida das comunidades circunvizinhas”. De acordo com o despacho da juíza, “a depender da escolha do perímetro do Encontro das Águas que poderá ser tombado, a construção do Porto das Lajes no local proposto estará invibializada”.

O superintendente do Iphan, Juliano Valente, disse que pretende aguardar parecer jurídico e técnico para prosseguir no processo de tombamento do Encontro das Águas. Um desses pareceres será feito pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM). Valente afirmou que 180 dias para concluir o processo de tombamento provisório é curto e que vá pedir aconselhamento da procuradora do órgão. O superintendente disse que o processo de tombamento da área é “lento e complexo” porque precisa seguir estágios necessários. Valente, que até o final da tarde de ontem ainda não tinha sido notificado pelo oficial de Justiça, admite que, a partir de agora, o Iphan não seguirá apenas o prazo administrativo de tombamento, mas também o prazo judicial.

Fonte: A Crítica
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março 12, 2010

Pelo imediato tombamento do Encontro das Águas

Encontro das Águas (rio Negro e rio Solimões)
Manaus - Amazonas - Brasil

AÇÃO CAUTELAR COMO INSTRUMENTO DA JUSTIÇA

Eisenhower Pereira Campos (*)

A Justiça Federal no Amazonas acaba de intimar o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) bem como o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM) para se manifestarem no prazo de 72 (setenta e duas) horas sobre o processo de tombamento do Encontro das Águas na cidade de Manaus, como patrimônio natural e cultural, bem como para se manifestarem sobre o processo de licenciamento ambiental para construção de um porto, mais precisamente um mega-projeto para construção de um terminal portuário a ser construído em frente a uma das mais belas paisagens amazônicas, que é o encontro impar das águas do rios Negro com as águas do rio Solimões, fazendo um espetáculo paisagístico único que deve ser preservado para que todos os povos tanto no presente como do futuro possam desfrutar de tamanha riqueza natural.

As determinações da justiça a estes órgãos públicos se dão em decorrência de uma Ação Cautelar com pedido de Liminar impetrada pelo Ministério Público Federal, para que aquela localidade, o Encontro das Águas, seja tombada mesmo que provisoriamente como atrativo natural e que o processo de licenciamento para construção do Porto das Lajes, já iniciado seja imediatamente suspenso, uma vez que as irregularidades já foram verificadas no Estudo de Impactos Ambientais e no Relatório de Impacto do Meio Ambiente (EIA/RIMA) ainda não foram devidamente sanadas, desobedecendo assim, determinações da Justiça numa Ação Civil Pública que tramita no âmbito da Justiça Estadual, que seja a Vara Especializada no Meio Ambiente e Questões Agrárias-VEMAQA, desta vez sob a maestria e não menos fervorosa mão do Ministério Público do Estadual.

A Ação Cautelar, portanto, é um procedimento judicial que visa prevenir, conservar ou assegurar a eficácia de um direito. Cujo caráter imediato é o da prevenção para que a seguridade de um direito não venha a ser prejudicado. Ela é um processo acessório e instrumental que tem por finalidade impedir que no curso de um outro processo, denominado de principal, possam ocorrer situações de risco marginal que inviabilizem o resultado útil ou positivo que se poderia esperar.

Esse tipo de ação surgiu no Direito como meio eficaz e pronto para assegurar a permanência ou conservação dos estados das pessoas. Coisas ou provas, visto que sem processo cautelar, a prestação jurisdicional correria o risco de transformar-se em providência inócua, sem efeito, e como disse certa vez Rui Barbosa “justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta.”

As principais características dessa ação são: a autonomia (o processo cautelar não depende do principal); instrumentalidade (não tem um fim em si mesmo, somente serve ao processo principal); provisoriedade (tem tempo determinado), fungibilidade (juiz pode conceder medida liminar que lhe pareça mais adequada para proteger o direito da parte, e até mesmo sem ouvir o réu); urgência (a cautela só deve ser acionada se estiver presente uma situação de perigo, ameaçando o que se pretende), entre outras.

E os requisitos necessários para a interposição de uma ação do tipo Cautelar dizem respeito a:
- fumus bonis júri (fumaça do bom direito) que consiste na probabilidade de existência do direito pelo autor da ação cautelar. Direito a ser examinado profundamente em termos de certeza, apenas no processo principal já existente ou ser instaurado.
periculum in mora (perigo da demora), risco em potencial que processo principal corre de não ser útil ao interesse demonstrado pela parte caso a tutela jurisdicional demore a ser demandada.

Sem sombra de dúvida consiste no primeiro e mais importante dos requisitos indispensáveis para concessão de medidas liminares. Para efeito o dano deve ser aferido sempre pelo juízo da probabilidade e jamais pelo simples e genérico juízo da ampla possibilidade, como ensina Liebman. “Para tanto, necessário a existência dos requisitos fumus bonis júris e periculum in mora, ou seja, fumaça do bom direito e perigo na demora da decisão. Sendo que esta ultima nada mais é que a garantia de que será executada a medida que se diz arbitrária e passível de danos irreparáveis ou de difícil reparação (...).”

Finalmente é preciso dizer que os fiscais da aplicabilidade da legislação e de defesa do meio ambiente, estão atentos e são constantemente cobrados quanto a que posição que deve ser tomada e até mesmo impedir que essas tentativas de implantação de investimentos maquiados de “desenvolvimento” na Amazônia possam vingar, sobretudo pelos resultados que eles poderão apresentar não só para o meio ambiente mais para a vida e o futuro das próximas gerações.

Há de se pensar que está mais do que na hora de ser verificado um novo modelo desenvolvimento para a Amazônia, onde finalmente a gestão, o planejamento e a participação popular tão propagado pelos defensores do desenvolvimento sustentável sejam enfim utilizados como instrumentos para parcerias louváveis entre a iniciativa privada, programas de governo e a vontade da sociedade civil organizada para uma vida com qualidade e respeito à natureza.

Para quem ainda tem dúvidas, a luta da comunidade e dos moradores do bairro Colônia Antonio Aleixo, em buscar de seus direitos enquanto cidadãos, para preservar o ambiente ao seu redor, onde vivem e tiram seu sustento, cobrando das autoridades e da própria Justiça que eles, os maiores atingidos pelas prováveis alterações ambientais pretendida com a construção do mega-empreendimento portuário, sejam também ouvidos e sua vontade respeitada, é mais do que uma prova de que esse processo de recuperação histórica do HUMANO na historia da Amazônia já teve início. Arrebatou muitos adeptos. E ganhou o mundo.

*Eisenhower Pereira Campos, é advogado, professor e mestrando em Ciências Jurídicas pela Universidade Federal da Paraíba – UFPB.

Fonte: NCPAM