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outubro 14, 2010

No Brasil, a direita da igreja católica põe o aborto na pauta, e tira a pedofilia de cena

Imagem postada em observatoriodeopinioes.blogspot.com

Por que a igreja católica ficou à direita nessas eleições

Após novas panfletagens contra Dilma Rousseff no feriado de 12 de outubro, setor progressista católico tenta reagir contra onda conservadora que fala em nome da CNBB.

Por Glauco Faria

O feriado religioso de 12 de outubro rendeu novos episódios de exploração eleitoral sobre o aborto. Diversos panfletos timbrados como se fossem da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) contra Dilma Rousseff (PT) foram distribuídos perto das entradas da Basílica de Aparecida, no interior paulista. A panfletagem teria ocorrido também em outras lugares, como em Contagem (MG) e já se consolida como um dado dessa campanha.

Curiosamente, a “onda” conservadora católica (que conta com o apoio também de algumas igrejas evangélicas) é bem maior agora do que foi no pleito de 2006, quando Geraldo Alckmin, supostamente membro do Opus Dei, foi candidato. Dom Demetrio Valentim, bispo de Jales e presidente da Cáritas brasileira, criticou a atitude da Presidência da Regional Sul 1 da CNBB (que abrange as dioceses de São Paulo) em assinar o material contra a candidata petista. “Nunca relacionam o aborto com as políticas sociais que precisam ser empreendidas em favor da vida. Votam, sem constrangimento, no sistema que produz a morte, e se declaram em favor da vida”, disse em carta, criticando os autores da propaganda.

Mas a pergunta que fica para muitos é: onde está a igreja progressista, o setor católico que já foi voz ativa em momentos importantes da história brasileira como a ditadura militar, a redemocratização e mesmo em debate políticos mais recentes? Segundo sociólogo Rudá Ricci, um dos fatores que proporcionou essa guinada à direita foi um racha entre os adeptos da Teologia da Libertação dentro da igreja católica. “Nos últimos anos, as assembleias nacionais da CNBB estabeleceram um acordo interno. A presidência ficava com forças que eram consideradas de centro e as pastorais sociais, que é quem de fato faz as políticas, ficavam com os setores identificados com a Teologia da Libertação, mais progressistas”, explica. “O que ocorreu? Houve um afastamento muito grande dos quadros intermediários das pastorais sociais, que chamamos de agentes pastorais, em relação ao governo Lula. E também ocorreram alguns casos mais emblemáticos como a transposição do rio São Francisco, que colocou a Pastoral da Terra quase toda contra o governo.”
Ou seja, houve uma pauta extensa que a igreja ligada à Teologia da Libertação elaborou nas últimas décadas e que teve muitas dificuldades para negociar com o governo. Assim, suas opções no processo eleitoral se pulverizaram. “Esse grupo, majoritário na CNBB rachou em três correntes. Uma, que acredito ser a maior, resolveu se afastar do mundo partidário-eleitoral e achou que estava muito difícil apoiar qualquer um dos candidatos a presidente. Um outro grupo, importantíssimo, apoiou Marina, que é o caso de nomes como Frei Betto e Leonardo Boff. E um terceiro se aproximou do Plínio mais por uma questão de afinidade histórica.”
O racha abriu caminho para a emergência dos setores mais conservadores. “Com essa divisão, principalmente das pastorais, os padres fundamentalistas ligados ao movimento carismático e de direita passaram a ter uma força que não tinha e se aliaram com o centro”, conta Ricci. “Na última assembleia, todos os porta-vozes que falavam com a imprensa eram de direita. Houve uma mudança no equilíbrio interno de forças da CNBB. Quem fez campanha declarada no final da campanha do primeiro turno foi justamente essa direita.”
Ainda que, agora, membros da igreja progressista como Dom Demetrio Valentim se manifestem, o setor pode ter perdido um precioso tempo no debate dentro e fora do catolicismo. “A hegemonia conservadora ganhou. A gente perdeu a disputa cultural no país, os valores mais conservadores, anti-pluralistas, anti-republicanos e fundamentalistas ganharam espaço nessas eleições”, analisa Ricci.

outubro 12, 2010

Assim como a esperança venceu o medo, a verdade vencerá a mentira (Lula): aborto, politica e hipocrisia

lmvp | 6 de outubro de 2010
Entrevista clara e sóbria. Percebe-se que ela não defende o aborto, no máximo defende sua descriminalização (o que não é a mesma coisa).
Paulo Moreira Leite, no blog da Época

A discussão sobre a discriminalização do aborto foi um tema da reta final do primeiro turno e deve permanecer na segunda fase da campanha presidencial.

Há um lado peculiar nessa discussão. Ninguém falou de aborto nos últimos anos. Os vários projetos sobre o assunto, no Congresso jamais mereceram atenção da imprensa nem dos partidos políticos. Ficaram adormecidos e eram lembrados, como bandeira feminista, nos festejos de 8 de março ou outras datas semelhantes.

Na última semana da campanha, o debate surgiu.

Por que? Honestamente, só há uma explicação política: era uma forma de prejudicar a candidatura de Dilma Rouseff e tentar impedir sua vitória no primeiro turno.

Não é uma conspiração. É uma intervenção política, nos subterrâneos da campanha. É dificil imaginar que o aborto tenha surgido de forma espontânea. Foi um assunto provocado, de fora para dentro. Todos os grandes candidatos têm suas conexões religiosas e seus aliados neste universo.

Da mesma forma que um partido pode mobilizar sindicatos para defender uma candidatura ou um grupo de empresários para conseguir apoio, outra legenda pode mobilizar uma liderança religiosa para prejudicar um adversário.

Os adversários de Dilma descobriram um ponto sensível, onde seria possível atingir a candidata e colocaram o assunto na internet, produzindo o estrago que se conhece. Não é um ataque sem base.

A posição de Dilma e do PT modificou-se ao longo do tempo. O PT decidiu não colocar o assunto em discussão na campanha eleitoral, ainda que ele tivesse surgido na primeira versão do Plano Nacional de Direitos Humanos, sendo extirpado por decisão do presidente Lula, que não teve receio de desautorizar seus próprios auxiliares. O eleitor tem o direito de saber que a liderança religiosa que condena um concorrente em função dessa questão tem vínculos com determinada candidatura e trabalha para ela.

Quem acha necessário levantar a discusssão deve fazer isso de modo transparente, e não na forma de insinuações e acusações pela internet. O esforço para criar um debate sem origem é revelador de uma operação eleitoral, de quem quer cativar o eleitor religioso sem perder apoio junto a setores da classe média urbana que tem outra visão sobre o assunto e pode achar esse comportamento reacionário e inaceitável.

A falta de interesse que o aborto costuma provocar na vida cotidiana do país só ressalta o caráter artificial dessa discussão agora.

Por exemplo: lendo a Folha de hoje descobri que o PV é a favor da legalização do aborto desde 2005. É espantoso, quando se recorda que é justamente o partido de Marina Silva.

(O PV também é a favor da legalização da maconha, diz o jornal. Não duvido que uma pesquisa aprofundada descubra uma resolução de algum encontro verde a favor de casamentos de homossexuais...)

Não acho essa revelação sobre a posição do PV sobre a legalização do aborto escandalosa. É sintomática.

A sociedade brasileira convive há muitos anos com o aborto, que é tolerado em todas as famílias com uma única diferença. Quando a pessoa tem posses, pode submeter-se a uma cirurgia como tantas outras. Caso contrário, é submetida a intervenções de risco. O debate é uma questão de saúde pública, acima de tudo.

Não conheço ninguém que seja a favor do aborto. Mas conheço muitas mulheres que realizaram um aborto porque não se sentiam capazes de criar um filho sob determinadas condições — o que me parece uma atitude tão respeitável como a daquela que não realiza o aborto por uma postura ética de não atentar contra a aquela forma de vida humana.

Acredito nos políticos que dizem que são contrários ao aborto. Não conheço nenhuma pessoa que, em pleno gozo de sua saúde mental, seja a favor de interromper o desenvolvimento de um feto, de modo gratuito, em vez de utilizar métodos anticoncepcionais.

Na vida pública, nossos políticos se comportam da mesma forma, independente de cor, filiação partidária ou origem religiosa: toleram o aborto. Por essa razão as clínicas que realizam esse tipo de cirurgia funcionam de forma discreta e jamais são incomodadas pelas autoridades. A partir de uma certa idade, toda mulher brasileira sabe onde pode encontrar o nome de um médico que pode interromper sua gravidez. Marie Claire, uma das grandes revistas do país, tem posição editorial firmada a favor da discriminalização do aborto.

Periodicamente, os jornais e revistas entrevistam celebridades que já fizeram aborto — e nada lhes acontece, ao contrário do que ocorreu com o galã Dado Dolabella, que será processado porque recentemente foi apanhado com algumas gramas de maconha.

* * *

Nota do blog: Leia também o artigo de Leonardo Boff, Para Dilma Rousseff: lo femenino y la política actual.

outubro 09, 2010

"TUDO EM CIMA" desmascara a hipocrisia do leitor de VEJA quando o assunto é aborto. Muda de revista, meu!

sábado, 9 de outubro de 2010

Batemos o recorde! Nova capa da Veja é destruída 1 minuto após divulgação!

Que a revista Veja não passa de um panfleto da extrema direita tupiniquim, atualmente a serviço da campanha de José Serra, ninguém tem mais dúvida. Por isso não vou chover no molhado. Com o advento da internet e o surgimento da blogosfera progressista, as mentiras, os factóides e a hipocrisia de Veja passaram a ser desmascaradas em questão de dias, depois horas e agora... minutos!

A galera do twitter estava de olho esperando o que o pasquim dos Civita ia aprontar contra Dilma e... bingo: aborto! O objetivo é claro, mostrar que Dilma é "do mal", a favor de "matar criancinhas", além de mentirosa e incoerente.



Mas é mais um tiro no pé. Bastou Veja divulgar a capa "bombástica" que alguém pesquisou e achou outra capa da mesma revista, de setembro de 1997, que trazia uma matéria séria sobre o tema, amplamente favorável à liberação do aborto, com confissões abertas inclusive feitas por celebridades! Confira:



"NÓS FIZEMOS ABORTO"

Mulheres de três gerações enfrentam a lei, o medo
e o preconceito e revelam suas experiências

- Andréa Barros, Angélica Santa Cruz e Neuza Sanches

ELAS RESOLVERAM FALAR. Quebrando o muro de silêncio que sempre cercou o aborto, oito dezenas de mulheres procuradas por VEJA decidiram contar como aconteceu, quando, por quê. Falaram atrizes, cantoras, intelectuais mas também operárias, domésticas, donas de casa. Falaram de angústia, de culpa, de dor e de solidão. Também falaram de clínicas mal equipadas, de médicos sem escrúpulos, de enfermeiras sem preparo, de maridos e namorados ausentes. A apresentadora Hebe Camargo contou que, quando era uma jovem de 18 anos, ficou grávida do primeiro namorado e foi parar nas mãos de uma curiosa que fez a cirurgia sem anestesia nem cuidado. A atriz Aracy Balabanian, a Cassandra do Sai de Baixo, ficou grávida quando estava chegando aos 40 anos e dando fim a um longo relacionamento. Resolveu fazer o aborto, convencida de que a criança não teria um bom pai nem ela seria capaz de criá-la sozinha. Metalúrgica da Força Sindical, a mineira Nair Goulart, 45 anos, fez dois abortos nos anos 70 por motivos econômicos. Ela e o marido, também operário, ganhavam pouco, viviam num quarto de despejo e não teriam meios de educar nenhum filho.

Quando o Congresso brasileiro debate a regulamentação de uma legislação que autoriza a realização de aborto apenas em caso de estupro e de risco de vida para a mãe como está previsto no Código Penal desde 1940 , a disposição das mulheres que falaram a VEJA não é apenas oportuna, mas também corajosa. Embora o 1º Tribunal do Júri de São Paulo, o maior do país, já tenha completado mais de uma década sem condenar nenhuma mulher em função do aborto, a legislação estabelece para esses casos penas que vão de um a três anos de prisão. E a maioria delas não fez aborto pelos motivos previstos em lei, mas porque, cada uma em seu momento, cada uma com sua história pessoal, considerou as circunstâncias e concluiu que interromper a gravidez era uma saída menos dolorosa do que ter um filho que não poderia criar. (a reportagem continua neste link).



Ah, outra coisa importante: a blogosfera também desencavou uma reportagem da revista TRIP de nº 41, na qual Soninha Francine declarou que já tinha feito aborto e que era favorável à descriminalização. (link aqui).



Detalhe: Soninha, ex-esquerdista e atual neocon renascida, é uma das coordenadoras de campanha de José Serra (PSDB). Ela é cotada para ser Ministra de Serra, se ele vencesse, e atua na campanha sobretudo na internet. E é pela internet, através de emails em massa, que partidários de Serra espalham a campanha de ódio e difamação contra Dilma.

Se não me engano, a denúncia foi feita pelo blog Os Amigos do Presidente Lula, que fez questão de comentar: "Nós não somos como eles, e não vamos apedrejar Soninha. O próprio cristianismo ensina que, quem não tiver pecados, que atire a primeira pedra. Vamos só denunciar essa hipocrisia, essa má-fé, o falso testemunho, e esse uso do nome do Senhor em vão, com fins eleitoreiros, pelos partidários de José Serra."
E agora, José Serra? Será que sua esposinha vai sair por aí gritando aos quatro ventos que a Hebe Camargo e Soninha gostam de "matar criancinhas"? Quem viver, verá...

outubro 07, 2010

“Ela (Dilma) é a favor de matar criancinhas” (Mônica Serra)

dilmanaweb | 6 de outubro de 2010 
* * * 

O voto do pecado e o poder satânico

Reproduzo excelente artigo de Maria Inês Nassif, publicado no jornal Valor:

A campanha religiosa contra a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, estava em andamento e foi subestimada pelo comitê petista. O staff serrista prestou mais atenção nisso. No dia 14 de setembro, a mulher de José Serra, Mônica Serra, em campanha para o marido no município de Nova Iguaçu, no Rio, falou a um eleitor evangélico, para convencê-lo a não votar em Dilma: “Ela é a favor de matar criancinhas”, disse, segundo relato do jornal “O Estado de S. Paulo”.

Mônica quis dizer, usando cores muito, muito fortes, que Dilma era a favor do aborto, e portanto não merecia o voto de um evangélico. Não deve ter sido da cabeça dela – falou porque as pesquisas qualitativas do PSDB já deviam mostrar que a onda “antiabortista” estava pegando, embalada por bispos e padres da Igreja Católica e pastores evangélicos.

Da parte da ala conservadora da Igreja Católica, a articulação foi feita com alarde, de forma a induzir os fiéis de que a recomendação de não votar em Dilma, ou em qualquer outro candidato do PT, veio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A CNBB reagiu timidamente a essa ofensiva, com uma carta que foi também instrumentalizada pelos conservadores, que hoje não são poucos. “Falam em nome da CNBB somente a Assembleia Geral, o Conselho Permanente e a Presidência”, diz a nota, para em seguida lembrar que o documento oficial sobre as eleições, tirado na 48ª Assembleia Geral, foi a “Declaração sobre o Momento Político Nacional”, que não faz referência direta a candidatos ou partidos.

Um trecho da carta oficial, todavia, foi apresentado aos fiéis paulistanos como prova de que a Igreja, como instituição, vetava o voto aos petistas. “(…) incentivamos a todos que participem (…), procurando eleger pessoas comprometidas com o respeito incondicional à vida, à família, à liberdade religiosa e à dignidade humana”.

A campanha da Igreja conservadora contra Dilma está usando um sofisma: o “respeito incondicional à vida” torna a igreja antiabortista; o PT defendeu o aborto; logo, o voto em Dilma é pecado. É esse sofisma que foi colocado aos padres de São Paulo pela Regional Sul 1 da CNBB como uma ordem. A secção da CNBB no Estado está impondo a campanha política nas igrejas como obrigação de hierarquia: há uma determinação para que os padres falem na homilia que o voto ao PT é pecado. Os padres estão obrigados também a distribuir jornais de suas dioceses na porta das igrejas, que não raro colocam o veto ao voto no PT como uma determinação da “CNBB”, sem especificar que é da CNBB da Regional Sul 1.

Com ajuda da Igreja, Serra chega aos pobres via medo

Guarulhos é o grande foco, mas não o único. O bispo Luiz Gonzaga Bergonzini declara publicamente “ódio ao PT”. Sua diocese foi uma das formuladoras, na Comissão da Vida da Região Sul, do documento que deu “subsídios” para o manifesto anti-PT que está sendo distribuído nas paróquias como posição oficial da Igreja Católica. Um padre de Guarulhos conta que Dom Luiz Gonzaga vai se aposentar em sete meses, e tem aproveitado seus últimos momentos como bispo para militar ativamente contra o partido de Lula. Para isso, tem usado seu poder de “mordaça” – a autoridade máxima da paróquia é a diocese, e o bispo pode impor suspensões a padres que não seguirem as suas ordens, ou criticarem publicamente suas posições.

Segundo uma senhora que é católica militante, bem longe de Guarulhos, no bairro de Campo Limpo, os bispos levaram ao pé da letra a orientação da regional da CNBB. A senhora ouviu do padre da sua paróquia, durante a pregação do sermão, que os católicos que votassem em Dilma Rousseff deveriam se confessar depois, porque teriam cometido um pecado. Preferiu o discurso da corrupção ao discurso so aborto. E garantiu que recomendava o voto contra o PT por ordem do bispo.

O vereador Chico Macena (PT), da capital paulista, que é ligadíssimo à Igreja, conta que várias paróquias da região de São Lucas falaram contra o PT na homilia. Ele acredita que esse movimento da igreja conservadora paulista influenciou o voto contra Dilma em algumas regiões.

Na campanha de Dilma, soou o alarme apenas na semana anterior às eleições. Foi quando a candidata se reuniu com líderes religiosos e garantiu a eles que não havia defendido o aborto.

A guerra religiosa não se limitou a sermões de padres ou pregações de pastores evangélicos. Espalhou-se como um rastilho pela internet uma “denúncia” de envolvimento do candidato a vice de Dilma, o deputado Michel Temer (SP), com o “satanismo”. O site Hospital da Alma, ligado à Associação dos Blogueiros Evangélicos, diz que Dilma, se vencer a disputa, morrerá por obra de Satã, para que o sacerdote Temer assuma a Presidência.

As versões religiosas sobre a candidatura governista são inventivas e, no conjunto, ajudam a formar um clima de pânico que, em algum momento, pode resultar numa explosão em que a racionalidade da escolha do candidato ao segundo turno escorra pelo ralo.

Não deixa de ser irônico. A Igreja progressista esteve na base da formação do PT, embora limitada a regras da não militância política dentro das paróquias. Teve um papel fundamental em São Paulo. É aqui no Estado, que deu uma guinada conservadora durante e após os governos de Fernando Henrique Cardoso, que a Igreja Católica tem imposto os maiores prejuízos à candidata petista. Dois papados conservadores reduziram os progressistas católicos de São Paulo a um rebanho desorganizado e destituído de poder na hierarquia da Igreja.

A outra ironia da história é que, no momento em que perdem significativamente a força os chefes de política locais, em função dos programas de transferência de renda do governo, e o PT passa a ser o interlocutor preferencial junto aos pobres, os seus adversários tenham arrumado um “atalho” para chegar a esse eleitor humilde, via o temor religioso. O voto colocado como “pecado”, e a eleição como obra de um “poder satânico”, recolocam o eleitorado mais pobre e menos escolarizado nas mãos de líderes conservadores, mas pela força do medo.


Fonte: Blog do Miro 

Nota do blog: É de causar indignação o que as forças obscurantistas pactuaram como tema principal da sua campanha neste segundo turno das eleições de 2010. É uma das maiores violências contra as mulheres brasileiras, especialmente as mais pobres, praticadas em período eleitoral. No país da hipocrisia, enquanto mulheres das classes altas e médias fazem aborto em condições clínicas seguras, mulheres pobres não têm acesso a serviços que lhes garantam minimamente a vida. Um crime para o qual auxiliam as igrejas conservadoras. Vergonhosamente, na contra mão da história, o aborto ainda é crime no Brasil, contrariando a tendência universal de equidade para com a saúde da mulher. Silenciar sobre essa manobra medieval é ir de encontro à construção da cidadania, quando a cada três crianças nascidas vivas existe um aborto induzido, segundo o estudo Magnitude do Aborto no Brasil, da organização não governamental Ipas Brasil. Este dado foi calculado através do número de internações por abortos registrados pelo Ministério da Saúde e no número de nascimentos estimado pela Taxa Bruta de Natalidade, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por essa razão, a candidata Dilma Roussef declarou que a questão do aborto é uma questão de saúde pública, coisa que até a revista Veja já foi mais tolerante com o tema (leia aqui). A constituição brasileira reafirma a condição laica do Estado. Não podemos ficar reféns do conservadorismo e moralismo cristãos. Por negar o direito à vida das mulheres, as igrejas deveriam responder, num tribunal internacional, por esse crime contra a humanidade.

agosto 20, 2010

Internautas questionam candidatos: aborto, alianças e doações

Internautas pressionam candidatos sobre aborto, alianças e doações, (18/8/2010)
BBC Brasil

Ao final de debate online, jornalistas também tiveram chance de questionar presidenciáveis.


No primeiro debate entre presidenciáveis transmitido somente pela internet, coube aos internautas trazer à tona as perguntas mais delicadas a três dos principais candidatos à Presidência. 


Dilma Rousseff (PT), José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV) foram confrontados com questões diretas em temas como aborto, alianças políticas e doações de campanha por empresas privadas. 


Uma internauta da capital paulista, por exemplo, perguntou a Dilma se ela era a favor do aborto, afirmando que a primeira versão de seu programa de governo, entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), era favorável à prática. 
Eu particularmente sou contra o aborto, disse a candidata. Não acredito que tenha uma mulher que seja favorável, acrescentou. 
Dilma disse, no entanto, que o assunto é de saúde pública e que é preciso haver um equilíbrio entre as legislações que estão em vigor sobre o aborto e sobre direitos da mulher. 

Um outro internauta perguntou a José Serra se ele era um candidato das elites por estar aliado ao Democratas, um partido vinculado ao coronelismo. 

O tucano rejeitou o rótulo, dizendo ter origem humilde e chamando atenção para políticas voltadas ao trabalhador defendidas por ele durante seus mandatos eletivos. 


O piso salarial do Estado de São Paulo é maior do que o salário mínimo. Minha vida foi voltada aos menos beneficiados, disse. 


Na vez de Marina Silva, um dos internautas quis saber da candidata do PV se, em sua avaliação, as empresas privadas doavam dinheiro a políticos por amor ao Brasil. 


A candidata, que como os outros recebe doações de pessoas jurídicas, disse que responderia com tranquilidade. 


Se as doações não são feitas com amor, que sejam com pudor, pudor pela legislação, disse Marina, acrescentando que não faria caixa dois. 


Jornalistas
Na última parte do debate, jornalistas convidados pelo jornal Folha de S. Paulo e pelo portal UOL também puderam fazer perguntas diretamente aos três candidatos. 


Em uma delas, Serra foi confrontado com o fato de criticar os aliados do presidente Lula, entre eles o PMDB, quando o tucano também já foi aliado a esse partido, no passado. 


Segundo Serra, os erros acontecem com todos, acrescentando, no entanto, que existe uma diferença: a maneira com que os erros são tratados. 


Não passo a mão na cabeça de quem faz atrocidades, como o dossiê dos aloprados contra mim, disse o tucano. 


Questionada sobre sua posição no segundo turno das eleições, caso não chegue à próxima etapa, Marina Silva disse não ver muita diferença entre Serra e Dilma e acabou não respondendo à questão. 


Ambos são bons gerentes. Ambos são muito bons na esgrima. Mas não foram capazes de atualizar seus pensamentos, disse. 


Já Dilma Rousseff foi questionada por um problema pessoal. Um dos jornalistas quis saber como anda a saúde da candidata, que enfrentou um câncer no ano passado. 


Eu me considero totalmente reestabelecida. Ao enfrentar uma campanha presidencial, de fato, a gente escala todo dia o Everest. Essa é uma doença que a gente não pode ter preconceito. É uma doença curável, disse. BBC Brasil - Todos os direitos reservados.


julho 05, 2010

Aborto e união homoafetiva na visão dos candidatos à presidência da república

FIM DO SILÊNCIO - um filme sobre o aborto inseguro from Universidade Livre Feminista on Vimeo.
Este é um documentário de Thereza Jessouroum (roteiro, produção e direção) produzido pela Fundação Oswaldo Cruz - FIOCRUZ ( fiocruz.br/fiocruzvideo ).

O aborto inseguro é, nos tempos atuais, um dos graves problemas para a saúde pública em nosso país, levando milhares de mulheres a vivenciarem situações de risco, ao sofrimento de sequelas físicas e psicológicas e à morte.

O documentário FIM DO SILÊNCIO traz, pela primeira vez, o depoimento dramático de algumas dessas mulheres, que falam abertamente, sem esconder rosto nem identidade, como e porque fizeram aborto.

Este filme é de 2008 e tem 52 minutos de duração.

Recomendamos que seja utilizado em cursos e em programas de informações e formação. Para estímulo ao debate e aprofundamento do tema.

O FIOCRUZ Vídeo, mantido pela Fundação Oswaldo Cruz/Ministério da Saúde, visa estimular a difusão da produção audiovisual sobre saúde.

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Cebes - Eleições 2010

Aborto e união homoafetiva: o que pensam os candidatos à Presidência da República 

Ana Costa, diretora do Cebes, comenta ideias de Dilma, Serra e Marina.

Aborto e união civil entre pessoas do mesmo sexo. Os dois temas parecem deixar os candidatos à presidência da República constrangidos quando interrogados sobre o que pensam a respeito dos assuntos. Já confirmados como pretendentes a ocupar o cargo de maior autoridade do país, José Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV) já se viram obrigados a dizer como se posicionam sobre tais assuntos. Religiosa, a candidata do partido verde é quem sustenta as posições mais conservadoras. Abaixo, algumas das recentes declarações dos presidenciáveis com comentários de Ana Costa, diretora do Cebes.

Há cerca de um mês, em plena semana do Orgulho Gay (com direito a 3,2 milhões de pessoas na Parada Gay de São Paulo), Marina Silva (PV) disse, em entrevista ao UOL, não ser “favorável ao casamento entre pessoas o mesmo sexo”. A declaração irritou os integrantes dos movimentos LGTB de todo o país a ponto de a candidata verde, mais tarde, em entrevista ao Portal Terra, amenizar a situação informando que vê o casamento como um “sacramento”, mas se disse favorável à união civil “de bens” entre pessoas do mesmo sexo. Frequentadora da igreja Assembléia de Deus, se eleita, garantiu, não usará o governo “para fazer proselitismo religioso”. Ela disse ainda não ter opinião formada sobre a adoção de crianças por casais homossexuais.  “Eu não tenho competência técnica para ter um olhar em relação a essa questão, afirmou ela que também se disse contrária à descriminalização do aborto. Mas, nessa questão, assegurou, irá realizar plebiscito.

Quando perguntado sobre a união homoafetiva, em sabatina da Folha de São Paulo, no dia 21 de junho, o candidato José Serra se aproximou das posições defendidas por Dilma Rosseff.  O ex- governador de São Paulo se mostrou não só a favor da união civil, mas também da adoção de crianças por casais homossexuais. "Tem tanto problema grave de crianças abandonadas no Brasil. Isso vale para qualquer tipo de casal, qualquer tipo de pessoa. Não vejo por que não aprovar isso". Sobre o abordo, no entanto, o tucano pula para o lado da candidata verde. Serra Afirmou que não mexeria na atual legislação. "Liberar o aborto criaria uma verdadeira carnificina no país".

No mesmo caminho, a candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, disse em entrevista ao programa Roda Viva, que é favorável à união civil de pessoas do mesmo sexo e que é contra alterações na atual legislação que regula o aborto. "Sou a favor da união civil. Acho que a questão do casamento é religiosa (...). Direitos civis básicos, direito à herança e a receber a aposentadoria do parceiro, são direitos civis e devem ser reconhecidos de forma civil", afirmou.  Quanto ao abordo, ela defende que nos casos previstos em lei (estupro e risco de morte para a mãe), a mulher deve ser atendida pelo serviço publico. "Sempre digo uma coisa: não acredito que tenha uma mulher que seja a favor do aborto. “É uma coisa esquisitíssima, absurda supor que uma mulher seja a favor do aborto, disse, e completou:  "Temos uma legislação no Brasil sobre essa questão e sou a favor de mantê-la. O que acho é que mulheres enquadradas naquela situação têm direito de fazer na rede pública, e se tem de tornar isso acessível. Senão fica a seguinte situação: mulheres ricas têm acesso a clínicas, mulheres pobres usam a agulha de tricô”. A participação da candidata governista no programa irá ao ar na próxima segunda-feira (5).

Opinião: Avanços para um lado; conservadorismo mantido em outro
Por Ana Costa

Para a médica sanitarista doutora em ciências da saúde, autora do Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM), Ana Costa, há o que se comemorar nas opiniões a favor da união civil dos homossexuais. É um sinal, segundo a especialista, de que a voz conservadora, há muito dominante na sociedade, sobretudo da igreja católica e de setores do Congresso Nacional, está arrefecendo.
“A aceitação legal da união de homossexuais representa um avanço no  reconhecimento de sua existência como cidadãos de direitos na sociedade brasileira e tem um significado importante na laicidade do Estado e na consolidação da Democracia nacional. Por isso, a opinião, por exemplo, da candidata  a Presidência da Republica Dilma Roussef, emitida por ocasião de sua presença no Programa Roda Viva, deve ser celebrada por nós e todos aqueles que querem um Brasil inclusivo, laico como um estado capaz de respeitar a diversidade e os direitos humanos”, disse.

A diretora do Cebes acrescenta ainda que Dilma e Serra, ao contrário de Marina Silva, não querem perder o bonde da história. Os dois candidatos que, atualmente disputam voto a voto, assumem posição favorável aos direitos dos gays, seguindo orientação de grande parte dos brasileiros, segundo recente pesquisa da datafolha.  Ana lembra que, de acordo com o estudo, o  Projeto de Lei de união civil de pessoas do mesmo sexo (hoje parado no Congresso Nacional) tem a oposição de apenas 45% dos brasileiros. Dos que aceitam a medida, 39% apoiam plenamente a proposta de união civil e 14% são indiferentes.
“A Igreja Católica vem marcando fortemente sua posição contraria à legalização da união civil entre homossexuais e o Vaticano desenvolve  uma campanha mundial contra a legalização da  medida que daria aos casais gays direitos semelhantes aos dos héteros, pedindo aos políticos católicos de todo o mundo que se pronunciem. Mas a sociedade brasileira demonstra autonomia nas suas opiniões sobre o tema e, a cada dia ampliam opiniões favoráveis de intelectuais , lideranças politicas, e jurídicas favoráveis à união civil entre pessoas do mesmo sexo”.

Aborto
Na opinião de Ana Costa, se no que diz respeito os direitos dos homossexuais na sociedade brasileira avançaram no debate eleitoral, o  mesmo não se pode dizer sobre a questão do aborto, tema em que candidatos que lideram as pesquisas, se resumem a dizer acreditar que a mulheres são contra o aborto e não pretendem mexer na atual legislação. “Para as mulheres a questão do aborto não se resume em ser contra ou a favor. O aborto faz parte da vida de todas as mulheres, já que todas estão expostas a uma gravidez indesejada. E quando isso acontece, as mulheres pobres, muitas vezes, pagam com a vida as consequências de sua ilegalidade”. Para ela,  a clandestinidade é algo que não pode ser negligenciada por nenhum candidato que pretenda ser presidente do país.  “A clandestinidade atinge a ambas, pobres e ricas, mas o risco de adoecer ou morrer fica na conta das pobres. E são milhares que passam por essa situação caracterizando mesmo um problema para a saúde publica. Por isso a necessidade de legalizar para garantir o direito das mulheres sobreviverem ao aborto, adotado como uma solução terminal para uma gravidez indesejada”, finalizou.

Fonte: CEBES

fevereiro 05, 2010

Católicas criticam Lula por ceder às pressões contra PNDH

Aborto: um tema em Debate from Universidade Livre Feminista on Vimeo.

O aborto é um tema concreto da sociedade brasileira, anualmente são realizados cerca de 1 milhão de abortos em condições inseguras no país. CATÓLICAS PELO DIREITO DE DECIDIR, integrante das Jornadas Brasileiras pelo Direito ao Aborto Legal e Seguro, fórum que congrega mais de 40 entidades brasileiras, pretende, com este vídeo, que as pessoas se apropriem de argumentos que lhes permitam refletir, elaborar e, principalmente, promover o debate na sociedade sobre as implicações do aborto no Brasil e sobre o direito das mulheres ao seu próprio corpo e à vida.

Vídeo produzido pela organização Católicas pelo Direito a Decidir.
http://www.catolicasonline.org.br/


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Católicas criticam Lula por ceder às pressões contra PNDH

ONG Católicas pelo Direito de Decidir acusa governo de recuar em polêmicas do Plano de Direitos Humanos

Roldão Arruda, de O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO - A organização não-governamental Católicas pelo Direito de Decidir divulgou nesta quarta-feira, 3, uma nota oficial na qual critica duramente o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva pelas mudanças que vem fazendo em relação aos temas mais polêmicos do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos. Segundo o texto, trata-se de um recuo, ligado a interesses eleitorais e que não leva em conta o fato de o programa ter sido redigido após uma longa discussão com amplos setores da sociedade brasileira.

A nota é uma reação às manifestações da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), contrária à posição original do governo de apoiar projetos de lei favoráveis à não criminalização do aborto e à união civil entre homossexuais. "Um governo que é respeitado no cenário internacional como democrático e defensor dos direitos humanos, dobra-se à pressão política da hierarquia católica, sobrepondo interesses eleitorais à vida das mulheres e à dignidade de pessoas homossexuais", diz o texto divulgado ontem pela organização.

Entre os grupos de direitos humanos que já se manifestaram em defesa do programa aprovado no final do ano passado por meio de decreto presidencial, nenhum outro havia sido tão duro quanto o do grupo católico. O texto defende a laicização do Estado, ataca as interferências da CNBB e acusa o governo de subserviente.

"Católicas pelo Direito de Decidir repudia tanto o intervencionismo autoritário da hierarquia da Igreja, quanto a subserviência do Governo Federal, que visando às eleições, joga no lixo o processo de debate público realizado amplamente com a sociedade brasileira para chegar ao texto do Programa Nacional de Direitos Humanos lançado em dezembro de 2009", afirma a nota.


Polêmicas


O grupo Católicas pelo Direitos de Decidir é originário dos Estados Unidos e defende os direitos das mulheres em comunidades católicas. Não é aceito oficialmente pela cúpula da Igreja Católica, mas atua e é respeitado no plano internacional, participando de debates sobre questões polêmicas, como a ordenação sacerdotal de mulheres, a maior presença feminina na cúpula da igreja, aborto, união entre pessoas do mesmo sexo, Teologia da Libertação.

A decisão do grupo de divulgar uma nota surgiu após as manifestações de bispos contra o programa, preparado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, sob a tutela do ministro Paulo Vannuchi. Segundo o texto, trata-se de uma interferência indevida: "O Estado, numa sociedade realmente democrática, deve ser laico e não pode se pautar pelas exigências e pressões políticas de nenhuma religião, nem mesmo da religião majoritária."

Em mais de uma passagem, o texto afirma que o governo sucumbiu às pressões. Em apenas um momento o presidente Lula é defendido pelas católicas : quando repudiam a comparação dele com Herodes, feita pelos bispos. Para elas, é "desrespeitosa e inadequada a identificação do Presidente da República à figura de um homicida".


Aborto


A principal crítica da nota é contra a decisão governamental de retirar do texto as referências ao aborto como direito das mulheres. Para a organização, esse direito, não poderia ter sido usado "como moeda de troca num contexto de jogo político de forças em que toda a sociedade brasileira perde".


Leia a íntegra da nota


"Declaração de apoio de Católicas pelo Direito de Decidir ao III PNDH

"Com quem o governo dialoga? A quem o governo respeita?

"Católicas pelo Direito de Decidir vem a público manifestar sua surpresa e indignação frente ao recuo do Governo Federal em relação a posições tomadas anteriormente no III PNDH, resultado de ampla discussão realizada por instâncias governamentais com a sociedade brasileira. Um governo que é respeitado no cenário internacional como democrático e defensor dos DH, dobra-se à pressão política da hierarquia católica, sobrepondo interesses eleitorais à vida das mulheres e à dignidade de pessoas homossexuais.

"O III PNDH corajosamente abordou questões complexas que há muito tempo deveriam ser enfrentadas, tais como a autonomia das mulheres para tomar decisões sobre a sua vida reprodutiva, o casamento homossexual e a adoção por casais homoafetivos, bem como as graves questões relativas à distribuição da terra e ao direito de estabelecer a memória e a verdade sobre o período da ditadura militar. O Programa, fiel à separação Igreja-Estado, também evidenciou a inadequação de que símbolos religiosos sejam ostentados em estabelecimentos públicos da União. Não é de menor importância que tais questões ganhem o reconhecimento do Governo depois de ouvir a sociedade brasileira organizada.

"Católicas pelo Direito de Decidir que, como parte do povo de Deus, integra a Igreja e está em sintonia com a maioria das mulheres católicas brasileiras, não se identifica com as críticas da CNBB ao III PNDH, além de considerar desrespeitosa e inadequada a identificação do Presidente da República à figura bíblica de um homicida (Herodes).

"O Estado, numa sociedade realmente democrática, deve ser laico e não pode se pautar pelas exigências e pressões políticas de nenhuma religião, nem mesmo da religião majoritária. O governo brasileiro, que tem o dever de cumprir acordos internacionais dos quais é signatário (Conferências ONU, OEA e CEDAW), sucumbiu de forma vergonhosa à pressão da CNBB e vai, segundo declarações do Ministro dos Direitos Humanos, retirar do texto final as referências ao aborto como um direito das mulheres.

"Católicas pelo Direito de Decidir repudia tanto o intervencionismo autoritário da hierarquia da Igreja, quanto a subserviência do Governo Federal, que visando às eleições, joga no lixo o processo de debate público realizado amplamente com a sociedade brasileira para chegar ao texto do PNDH lançado em dezembro de 2009.

"Denunciamos que, mais uma vez, são os direitos das mulheres e de pessoas homossexuais que entram como moeda de troca num contexto de jogo político de forças em que toda a sociedade brasileira perde. Em consonância com inúmeros outros setores da sociedade civil, vimos a público cobrar coerência e consistência do Presidente Lula, do Ministro Paulo Vanucchi e demais setores do governo envolvidos nesse retrocesso frustrante e indigno. Chega de defender o princípio abstrato da vida ao preço da morte de milhares de mulheres."

dezembro 13, 2009

Pelo fim da criminalização das mulheres e pela legalização do aborto

Aborto seguro
DECLARAÇÃO FINAL DA ASSEMBLEIA DA FRENTE NACIONAL PELO FIM DA CRIMINALIZAÇÃO DAS MULHERES E PELA LEGALIZAÇAO DO ABORTO

Recrudesce no Brasil um processo de criminalização dos movimentos sociais, organizações e militantes. Isto para bloquear o avanço das lutas por direitos e transformação social. No caso da luta das mulheres não é diferente.
Forças patriarcais tradicionais, constituídas pelas oligarquias, a ultra direita fascista e setores fundamentalistas das igrejas cristãs, nos últimos anos deslancharam um processo de perseguição e criminalização da luta das mulheres por autonomia e autodeterminação reprodutiva atingindo em primeiro lugar as mulheres que recorreram a prática do aborto e aqueles/as que as apóiam.

Numa perversa aliança entre neoliberais e conservadores, vivemos uma conjuntura de cerceamento do direito ao debate democrático sobre a problemática do aborto, ao mesmo tempo em que cresce no Estado o poder e influência destas forças. Ocupam o parlamento, os espaços de controle social e avançam no controle da gestão da rede pública de educação e de saúde, e nesse caso, ameaçando os princípios do SUS com impacto negativo na qualidade do atendimento às mulheres. Dados de estudos e pesquisas sobre a mortalidade de mulheres comprovam que, pela magnitude da proporção de mulheres negras mortas nos serviços de saúde, configura-se num verdadeiro genocídio perpetrado pelo Estado brasileiro contra esta população. As forças patriarcais, religiosas ou não, atuam também na base dos partidos políticos e movimentos sociais, disputando ideologicamente o debate de projeto de sociedade junto à juventude e à ampla parcela cristã dos/as militantes e dirigentes. Por este estratagema tentam impor sua doutrina religiosa, visão de mundo e visão sobre as mulheres, a sexualidade e a reprodução humana.

A adesão ao ideário conservador no campo da sexualidade e reprodução construiu as contradições que hoje enfrentamos nos partidos de esquerda e nos movimentos do campo democrático popular, que, construindo um projeto libertador, recuam em propostas libertárias quanto à autonomia das mulheres.

Hoje no Brasil, parte dos algozes da inquisição com suas vestes e capuzes tem uma nova face: o paletó, o jaleco branco, a toga, que no legislativo, nos tribunais, serviços de saúde, delegacias se arvoram a prender, julgar, punir e condenar as mulheres que, em situação limites de sua vida, optaram pela prática do aborto como ultimo recurso diante de uma gravidez indesejada.

Temos hoje uma das piores e mais reacionária legislatura no Congresso Nacional desde a ditadura, que ataca os movimentos sociais pela via das CPIs, entre elas a CPI do Aborto, ao mesmo tempo em que aprova a concordata entre o Brasil e o Vaticano, uma ameaça ao princípio da laicidade do Estado brasileiro.

Nesta conjuntura, nós integrantes da Frente Nacional pelo Fim da Criminalização das Mulheres e pela Legalização do Aborto reafirmamos:

- nosso compromisso com a construção da Frente formada por movimentos sociais e setores democráticos brasileiros;

- nosso compromisso com a defesa radical das mulheres e movimentos sociais engajados nas lutas sociais;

- nosso compromisso de não abandonar e prestar solidariedade a todas as mulheres que precisaram recorrer ao aborto,

- nosso compromisso com a construção de um Brasil justo e democrático.

Convocamos todas as mulheres a mobilizarem sua inquietude, rebeldia e indignação na luta feminista em defesa das mulheres;

Convocamos os setores democráticos a somarem-se em aliança contra a criminalização das mulheres e dos movimentos sociais;

Não aceitamos qualquer proposta de plebiscito sobre o tema do aborto. Esta prática não pode ser transformada em questão plebiscitária. Esta é uma questão de foro íntimo de cada uma de nós mulheres. As mulheres devem ter garantida a sua capacidade moral e soberana de tomar decisões sobre suas vidas.

Exigimos dos poderes da República a observância dos Tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário e observância das resoluções das Conferências de Políticas para Mulheres, cumprindo a revisão, coordenada pela SPM em 2005, da legislação que pune o aborto e avançando na sua legalização nos termos da proposta consensuada no âmbito da Comissão Tripartite formada pela sociedade civil, executivo e legislativo.

Nenhuma mulher deve ser presa, punida, maltratada ou morrer pela prática do aborto.

Pela autonomia e cidadania de todas as mulheres!

Pelo fim da criminalização das mulheres!

Pela legalização do aborto!

São Paulo, 07 de Dezembro de 2009
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