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julho 12, 2010

Contra a recauchutagem do manicômio


RaphaelVidal | 5 de agosto de 2009
O leitor se surpreenderá com as histórias reveladoras contadas por Edmar Oliveira, psiquiatra, diretor há uma década do Inst. Mun. Nise da Silveira (o famoso Hospício do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro).
Os personagens são médicos, pacientes, enfermeiros, políticos e pessoas comuns que passaram e/ou ainda passam para trás dos muros que separam a anormalidade do pacato bairro do subúrbio carioca. Ao ler, começaremos a sentir na pele as agruras de um serviço manicomial falido e as tentativas dos profissionais de saúde de tomarem para si a responsabilidade de cuidar de vidas esquecidas e maltratadas pela sociedade. Por mais que o autor quisesse fazer literatura com as histórias vividas e ouvidas, a realidade salta a cada palavra, como a denunciar a tentativa diária do dr. Edmar e sua equipe de transformar vidas.
Cabe a nós, que após a leitura nos tornaremos cúmplices desta causa, não deixar que este processo e o trabalho de todos que nele estiveram envolvidos seja esquecido.

Ouvindo vozes
Histórias do hospício e lendas do Encantado
[Inclui Anotações para o cemitério dos vivos, de Lima Barreto]
Edmar Oliveira
ISBN 978-85-88782-60-0 | 14 x 21 | 280p. | R$ 36,00

Flávio Mello | comercial@vieiralent.com.br
Vidal | imprensa | vidal@vieiralent.com.br
autor | ed.mar@uol.com.br

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Nota do blog: Edmar Oliveira tem autoridade moral para divergir do Conselho Federal de Medicina quando o assunto é Reforma Psiquiátrica. Depois de dirigir por uma década o Hospital Psiquiátrico de Engenho de Dentro no Rio de Janeiro, atualmente coordena o Programa Estadual de Saúde Mental do Piauí. Bem que ele tentou desativar aquele manicômio. Entretanto, trabalhadores de saúde mental, como ele, comprometidos com a abolição dos manicômios, ainda sofrem com a violência ortopédica dos que acham possível conciliar manicômios com serviços substitutivos ao manicômios. Leia as sábias palavras de Edmar Oliveira, a quem tive o prazer de rever na IV Conferência Nacional de Saúde Mental, realizada em Brasília, entre o final de junho e início de julho. Veja, acima, o vídeo sobre seu livro "Ouvindo Vozes".

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Caros,

Entendo que esta resolução abaixo, do Conselho Federal de Medicina, publicada no DOU em 07 de julho de 2010, antes da Conferencia Nacional de Saúde (talvez se antecipando a ela, por motivos políticos), é preocupante.

Há uma declaração de guerra à Reforma Psiquiátrica e aos resultados da IV Conferência Nacional de Saúde. O problema é que a resolução e a Conferência, ambas são respaldadas pelo MS. 

Na resolução se reafirma as Diretrizes da ABP para a Assistência Psiquiátrica de 2006 (não de 2008 como está no decreto). Nela os CAPS são chamados de CAMPS, ou seja Centro Médico, Psicológico e Social (o antiquissimo modelo bio-psico-social), o que é absolutamente inaceitável para a Reforma. O Hospital Especializado continua o centro da assistência, subordinando dispositivos (que deveriam ser substitutivos) da Reforma a ele. São os CAISM, Centro de Atenção Integral a Saúde Mental, alguns entregues às Universidades e transformados a partir de alguns Hospitais existentes. Recauchutagem do manicômio agora com tudo: promoção, prevenção, ambulatório, pronto socorro, CAMPES (os CAPS médicos), hospital parcial e hospital para internação em tempo integral, SRT 1 e 2, Leitos em Hospital Geral, ressuscita o Hospital Dia, fala de Hospital noite e de Centros de Atendimento integral, Ambulatórios Especializados, interconsulta (médica) entre PSF e UBS, CAMPS, tudo subordinado ao CAISM. Portanto uma proposta completamente avessa na apropriação de dispositivos da reforma. 

Se isso não bastasse, essa resolução do CFM vai mais longe. Revoga a portaria que considerava a assistência como proteção de direitos humanos, de acordo com a Resolução de Caracas e a que diz que o diretor técnico é responsável pelos direitos das pessoas internadas. Na mesma linha. Parece missão James Bond: licença para matar! E ainda revoga todas as recomendações para a internação involutária, deixando tudo como era antes.
Cliquem no decreto que abre um link, já com as correções.

Portanto entendo essa portaria como absolutamente preocupante e o campo precisa se organizar para enfrenta-la.

De antemão acho perigoso qualquer reaproximação de propostas. O Hospital Psiquiátrico e o Manicômio são a mesma pessoa. Quer público ou privado. "Hospital bom é hospital fechado" diz um refrão do Sistema Nervoso Alterado. Aqui o posicionamento tem que ser firme para se organizar o campo da disputa aberta.

Sorte pra nós.

Edmar Oliveira
 

fevereiro 12, 2010

Quando o manicômio se impõe

Acervo Edmar Oliveira

Nota do blog: Recomendo a leitura desse texto para os aprendizes da militância antimanicomial. Você que trabalha em hospitais psiquiátricos, deseja uma sociedade sem manicômios, e não percebe que sua pura e simples existência acaba por se impor quando a luta perde em radicalidade. Definitivamente, precisamos de mais recursos para a implantação de uma rede de serviços substitutivos ao hospício e urgente reformulação de novos modelos de formação de recursos humanos.

HOJE O "LOUCURA" VAI SAIR, MAS EU NÃO VOU

Edmar Oliveira

O “Loucura Suburbana” é um bloco carnavalesco que foi engendrado dentro do Hospital de Engenho de Dentro como parte de uma utopia que ali acontecia na direção do inatingível lema “Por uma Sociedade sem Manicômio”. Melhor explico, a equipe dirigente do antigo hospício, por dez anos tentou substituir o manicômio por serviços comunitários e de mais serventia aos usuários de Saúde Mental. O bloco carnavalesco por bons sete anos saía na quinta-feira gorda, abrindo os portões do hospício para levar a loucura às ruas do Engenho de Dentro na utopia de um dia não retornar. O bloco era a ponta festiva da utopia que foi construída e que mudou o destino de muitos dos habitantes do hospício. O “Loucura Suburbana” era a comemoração de que se podia sonhar com um amanhã em que o hospício não mais existisse. O bloco queria ganhar as ruas e não ter que retornar na quarta feira de cinzas. Sonhava em ser feliz derramando sobre a cidade a sua loucura o ano inteiro. E na sua irreverência aplicou injeções num boneco que representava o prefeito louco da cidade, falou mal do Ministro da Saúde e seus programas, encarnou a briga da Coordenação Nacional de Saúde Mental com a poderosa e conservadora Associação Brasileira de Psiquiatria, sacaneou com a equipe que dirigia o hospital, dentro do clima carnavalesco que pode e deve falar mal de todo mundo. Primeiro assustou, mas depois ganhou aplauso da população do subúrbio.

Acontece, como sempre soe acontecer, o hospício se impôs ao sonho. A equipe dirigente teve que se afastar por não concordar com os rumos que a prosa vinha tomando. O hospício estava pronto para encerrar suas atividades, como documentei no livro “Ouvindo Vozes”, mas o dragão acordou, retirou as amarras e retomou seu rumo como que inexorável. O projeto foi interrompido e corre riscos: a falta de psiquiatras não pode justificar o retorno da emergência (hoje no hospital geral) para o hospício; a internação de crianças não pode ressuscitar o antigo hospital de neuro-psiquiatria infantil; os moradores não deveriam ser reconduzidos às enfermarias. Em suma, o risco é o renascimento do hospício para a glória do alienismo nacional.

O “Loucura Suburbana” podia sair denunciando essa situação ou não saindo para que a cidade sentisse que a loucura tinha sido novamente enclausurada. Mas o bloco ficou surdo ao acontecer e foi domesticado pelo hospício, que o deixa sair, desde que retorne sempre ao final da tarde, os tamborins cansados, o surdo calado, a cuíca gemendo, para que as dores sejam aprisionadas pelo hospício até o próximo carnaval. O “Loucura Suburbana” hoje sai, mas eu não vou porque me sinto em tristeza...

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e mais um triste: o meu amigo Alfredo morreu ontem ao som do ensaio do bloco...

Fonte: Piauínauta

fevereiro 03, 2010

Nilo Neto detona o manicômio mental nosso de cada dia


Rentao e Nilo em suas evoluções artísticas e de amizade. Filmado no IPAT, 2008. Floripa.

Nota do blog: Nilo Marques de Medeiros Neto é o nome dele. Advogado, militante antimanicomial. Conheci-o em São Paulo, em 2004, no Congresso Brasileiro de CAPS. Foi Nilo quem propôs a realização de uma Parada do Orgulho Louco. A idéia pegou. Trouxe a idéia para Manaus e fizemos a I Parada do Orgulho Louco (do Brasil): depois vieram as de Florianópolis, Salvador, São Paulo... A idéia do Nilo espalhou-se pelo Brasil. Agora às vésperas da IV Conferência Nacional de Saúde Mental, Nilo recuperou uma carta aos usuários por ele produzida em 2002, um ano depois da instituição da Lei de Saúde Mental (abril de 2001), que a psiquiatria conservadora anda detonando desde 2006. Vale a pena ler de novo. É hora de ir à luta. Aproveite e visite o blog do Nilo (no vídeo, ele aparece de barba): http://antimanicomial.blogspot.com/

Florianópolis, 5 de junho de 2002

Carta aos Usuários

Cada vez que não conseguirmos mais nos ouvir uns aos outros, e cairmos num desespero surdo, que só consegue machucar e humilhar os outros, aí está o manicômio.
Cada vez que acharmos que estamos sozinhos, e desistirmos da luta maior, aí está o manicômio.
Cada vez que sentirmos vergonha, por nós e pelos outros, de sermos usuários, assim como desânimo para freqüentar o serviço, ou medo de estarmos piorando nossa condição de saúde quando estamos lá, aí está o manicômio.
Cada vez que esquecermos quem somos, que nossa força só acontece quando estivermos conscientes de nossas possibilidades e limites, e que somente poderemos sair desse lugar que nos colocaram quando unidos, aí está o manicômio.
Cada vez que ficarmos embriagados com o poder, manipulando nossos companheiros para conseguirmos vantagens pessoais e, alimentando vaidades fúteis, perdermos de vista o verdadeiro objetivo, na Associação e onde quer que estejamos representando os usuários, aí está o manicômio.
Cada vez que erguermos a voz, querendo pedir socorro e só saírem misérias e ofensas, aí está o manicômio.
O Manicômio não é só um lugar, mas um inferno que põe muros enormes entre cada um nós.
Os nossos verdadeiros inimigos, aqueles que pretendem nos manter presos a esse lugar de “loucos de todos os gêneros”, seja entre os muros dos hospícios e clínicas, seja por nos convencerem que não temos valor, que não sabemos lutar, nem ter nossas próprias idéias, nosso autogoverno, que sempre dizem que nossa luta é apenas “parte da dinâmica” da nossa doença, devem estar dando risada da nossa cegueira.
Por um segundo vamos abandonar um pouco a raiva e o medo e perceber que já temos conquistas. Que ainda há muitas batalhas pela frente, mas a maior delas, a construção de uma identidade, é o primeiro passo para um destino maior.

“Sou louco sim, doutor, mas tenho meus direitos. Se o Senhor não me deixar ser cidadão, tenho em minhas mãos leis que me garantem esse direito. E o Paulo Delgado que me abençoe, eu vou fundo. Hoje o Senhor me olha aqui, tremendo, um pouco nervoso, mas não tem idéia o que eu já vivi. Do quanto eu já fui humilhado por ser diferente. Por não agüentar as regras sociais, por não aceitar uma família que me trata como um peso morto, por viver num lugar em que a gente só tem valor se ganhar muito dinheiro. O Senhor pode me receitar um remédio, pode me tirar o direito de fazer o que eu quiser com o meu dinheiro, minhas coisas, pode até me internar num desses hospícios medonhos que o Senhor diz que vai reformar para ficar mais humano. Mas hoje eu sei o nome da minha doença, sei o que esses remédios fazem comigo. Por isso exijo que ser tratado como um cliente, não somente um paciente. Hoje eu sei que tem um usuário como eu que está fiscalizando essas internações e os que viveram o que eu estou vivendo não vão me deixar na mão. Sei também da luta deles em todos os encontros e comissões que tratam de saúde mental em todo esse Brasil. Queria lhe dizer doutor, que eu faço parte de um movimento chamado luta antimanicomial. É isso mesmo Doutor, é um pessoal da pesada. Cada passo que eu dou em direção da minha cidadania, mais eu me afasto do surto. E não vou mais aceitar mais nenhum tipo de tratamento abusivo ou desumano. Hoje o seu poder tem limites Doutor. Hoje eu sei quem eu sou. ”

Nilo Marques de Medeiros Neto
Presidente da Associação dos Usuários do NAPS – Ponta do Coral

novembro 24, 2009

Modelos contraditórios

Abraço simbólico pelo fim dos manicômios
Foto: Rogelio Casado - Manaus - Amazonas - Brasil, 18.maio.2007

Modelos contraditórios

Entre 1980-1981 fui diretor clínico do Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro. As conquistas desse período da Reforma Psiquiátrica foram registradas nos livros “Cidadania e Loucura”, num artigo de Pedro Gabriel Delgado, e “Psicologia e Terapia Ocupacional”, de Gilberto Verardo Moulard.

O primeiro registro é político-ideológico: a luta pela substituição do modelo asilar e sua tecnologia. O segundo é teórico-técnico: a transformação radical do campo da saúde mental pela terapia ocupacional. Ambas as esferas são indissociáveis.

Foi a firmeza do movimento dos trabalhadores de saúde mental, e das práticas que tentaram desmontar o modelo asilar, que pôs abaixo o cenário de horror do hospício amazonense.

O desmonte ficou no meio do caminho, devido uma assustadora inércia institucional. Só no governo Eduardo Braga resgatamos parte das pulsações da história da reforma psiquiátrica, abrindo espaço para a implantação do primeiro Centro de Atenção Psicossocial de Manaus, apesar da torcida contrária.

Hoje temos dois modelos contraditórios de saúde mental: um no qual o sujeito é refém da especialidade e da expectativa de eficácia da medicação psiquiátrica, no qual vigora saberes e práticas cristalizadas. Nesse contexto, articular novos meios visando fins terapêuticos concorre para uma perigosa produção subjetiva: a de que é possível humanizar o hospital psiquiátrico. Com a ressignificação do imaginário social sobre o papel dessa instituição de controle, teríamos um desserviço à reforma psiquiátrica antimanicomial que queremos.

O segundo pode operar como fator de avanço das práticas antimanicomiais, em que sujeitos em tratamento são mobilizados a considerar que a loucura não é um fenômeno individual, mas social. Daí porque familiares são parte integrante dos projetos terapêuticos. Conflitos são constitutivos do humano, designam a posição do sujeito. O lugar sociocultural da loucura ganha nova dimensão.

É neste segundo modelo, chamado psicossocial, que os ambientes assumem importância. São nos ambientes socioculturais que a palavra e a ação do homem assumem novas possibilidades de administrar conflitos. Neles o sujeito com transtorno psíquico em vez de sofrer os efeitos do conflito reconhece que é um dos implicados na produção do sofrimento. Neste modelo, o sujeito pode ser o agente da mudança, negado no outro modelo.

Reposicionar o sujeito em sua subjetividade e promover a desinstitucionalização da loucura não se faz sem a construção de uma consciência crítica do modelo manicomial. Caso contrário, é obra pra inglês ver.

Manaus, Novembro de 2009.
Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental
Pro-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UEA
www.rogeliocasado.blogspot.com

Nota do blog: Artigo publicado no Caderno Saúde & Bem Estar do jornal Amazonas em Tempo.
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novembro 23, 2009

“El manicomio liberado”

Franco Basaglia
Nota do blog: A imprensa argentina por pouco deixa passar desapercebida a aprovação pela Câmara dos Deputados de uma lei anti-manicomial, a exemplo da que já existe no Brasil. O texto garante os direitos humanos dos usuários dos serviços de saúde mental, proíbe a criação de novos manicômios, estabelece novas regras para os existentes e restringe a internação involuntária. Se lei passar no Senado, e se for totalmente aprovada, irá por fim às práticas de internação indiscriminada. Leia o texto de autoria de Franco Basaglia publicado no jornal Pagina 12. Basaglia é uma das principais referências da luta manicomial na Itália e no mundo. O presente texto faz parte das conferências feitas por ele no Brasil em 1979 em São Paulo. Vale a pena reler suas reflexões sobre a loucura, a sociedade e a emancipação.

* * * * *

“El manicomio liberado”

Fundador de la desmanicomialización en Italia y en el mundo, pronunció en 1979 en San Pablo, Brasil, una serie de conferencias –hoy recogidas en libro– en las que reflexiona sobre la locura, la sociedad y la emancipación.

Por Franco Basaglia *

Es difícil decir si la psiquiatría es por sí misma instrumento de liberación o de opresión. Tendencialmente la psiquiatría es siempre opresiva, es una manera de manifestarse el control social. Si partimos del origen de la psiquiatría, debemos recordar a Philippe Pinel, que a fines del siglo XVIII liberó a los locos de las prisiones; pero desgraciadamente, luego de haberlos liberado, los encerró en otra prisión que se llama manicomio. Empieza así el calvario del loco y el gran destino del psiquiatra. Luego de Pinel, en la historia de la psiquiatría aparecen nombres de grandes psiquiatras; pero del enfermo mental sólo existen denominaciones, etiquetas: histeria, esquizofrenia, manía, astenia. La historia de la psiquiatría es la historia de los psiquiatras y no la historia de los enfermos.

Desde el siglo XVIII, este tipo de relación ligó indisolublemente al enfermo con su médico, creando una condición de dependencia de la cual el enfermo no ha logrado liberarse. Diría que la psiquiatría nunca fue otra cosa que una mala copia de la medicina, una copia en la cual el enfermo aparece siempre totalmente dependiente del médico que lo atiende: lo importante es que el enfermo no se coloque nunca en una posición crítica en relación con el médico.

Cuando el pueblo, en el siglo XIX, comenzó a rebelarse en contra de la autoridad del Estado, se advirtió que quería participar en la gestión del poder y, sobre todo, que el pueblo no era un animal que podía ser dominado fácilmente. Así se pudo distinguir la existencia de dos clases: la de los trabajadores, que no quiere más ser dominada y quiere participar del poder, y la clase dominante, que no quiere ceder espacios. Fueron más de cien años de luchas, de sangre, de guerras civiles: la clase trabajadora conquistó un espacio relevante en nuestros países. Pienso que es fundamental que los médicos y los psiquiatras sepan estas cosas.

El médico que presta asistencia en una comunidad debe saber que en ella están presentes por lo menos dos clases, una que quiere dominar y la otra que no quiere dejarse dominar. Cuando un psiquiatra entra en un manicomio encuentra una sociedad bien definida: por un lado, los “locos pobres” (el sistema de los manicomios públicos en los países industrializados nació para el tratamiento a cargo del Estado de los “locos pobres”; así lo decían las disposiciones legales) y, por otro lado, los ricos, la clase dominante, que dispone los medios para el tratamiento de los pobres locos. Desde esta perspectiva, ¿cómo podemos pensar que la psiquiatría pueda ser liberadora? El psiquiatra estará siempre en una situación de privilegio, de dominio con respecto al enfermo. Desde este punto de vista, la psiquiatría es, desde su nacimiento, una técnica altamente represiva, que el Estado siempre usó para oprimir a los enfermos pobres, es decir: la clase trabajadora que no produce.

Sin embargo, desde la segunda mitad del siglo XX sucedió algo nuevo, que puso al alcance de la psiquiatría instrumentos de liberación. Luego de la Segunda Guerra Mundial el pueblo y algunos técnicos comenzaron a poner en discusión las instituciones del Estado. En los años ’60 hemos visto rebelarse, como en una gran llamarada, a la juventud del mundo entero. En ese levantamiento, nosotros, los técnicos de la represión psiquiátrica, estábamos presentes; dimos nuestro apoyo a esa rebelión. Más tarde, mientras la revuelta de 1968 se perdía en varias direcciones y era reformulada en una suerte de nueva opresión y restauración, hubo una serie de situaciones que unieron las luchas en las instituciones con las luchas de los trabajadores. Hubo ilusiones, pero también certezas. Hemos visto que cuando el movimiento obrero toma en sus manos luchas reivindicativas, de liberación, antiinstitucionales, esta ilusión se vuelve realidad. En Italia, luego de 1968 hubo grandes huelgas en las que los obreros reivindicaron el derecho a la salud, es decir que llevaron su lucha al nivel de las instituciones públicas. Paralelamente algunos técnicos demostraron que el manicomio era un lugar de opresión y de dolor, no de cuidado. Finalmente, en aquellos años y en los siguientes, las mujeres demostraron que la opresión del hombre y de la familia trataba de impedirles tener una subjetividad propia.

Todos estos movimientos han puesto en evidencia la voluntad de afirmación, no sólo como objetividad, sino como subjetividad. Esta es la fase que estamos viviendo, y es un desafío a aquello que somos, a la relación entre nuestra vida privada y nuestra vida como hombres políticos.

Cuando el enfermo pide al médico explicaciones sobre su tratamiento y el médico no sabe o no quiere responder, o cuando el médico pretende que el enfermo se quede en la cama, es evidente el carácter opresivo de la medicina. Cuando el médico, en cambio, acepta el reclamo, entonces la medicina y la psiquiatría se transforman en instrumentos de liberación.

Es en esta cuestión que tenemos que elegir nuestro camino: si preferimos quedarnos en la oscuridad o queremos estar presentes en nuestro tiempo y cambiar, en la práctica, nuestra vida.

Desmanicomio

Después de la Segunda Guerra Mundial, Italia era todavía, en lo económico y cultural, un país campesino. En la década de 1950 comenzó un proceso de cambio determinado por el desarrollo de la sociedad industrial y, consecuentemente, de una clase obrera cada vez más fuerte. En aquellos años iniciamos el trabajo en Gorizia, una pequeña ciudad en la frontera con Yugoslavia. Allí había un hospital con 500 camas dirigido de manera totalmente tradicional; era usual la práctica del electroshock y el shock insulínico; antes que nada, era un hospital dominado por la miseria, la misma que encontramos en todos los manicomios. En cuanto entramos, dijimos: no. Un no a la psiquiatría, pero sobre todo un no a la miseria.

Vimos que, desde el momento en que dábamos respuesta a la pobreza del internado, su posición cambiaba totalmente: dejaba de ser un loco para transformarse en un hombre con el cual podíamos entrar en relación.

Habíamos comprendido que un individuo enfermo no sólo necesita la cura de la enfermedad: necesita una relación humana con quien lo atiende, necesita respuestas reales para su ser, necesita dinero, una familia; necesita todo aquello que también nosotros, los que lo atendemos, necesitamos. Este fue nuestro descubrimiento. El enfermo no es solamente un enfermo, sino un hombre con todas sus necesidades. Por ejemplo, yo recuerdo que después de que abrimos los pabellones en Gorizia, en 1963-1964, todos esperábamos ver cosas terribles. No sucedió nada. Vimos que las personas se comportaban correctamente, pedían cosas muy justas: querían comida mejor, posibilidad de relaciones hombre-mujer, tiempo libre, libertad para salir. Son cosas que un psiquiatra ni siquiera imagina que el enfermo pueda pedir. Sería como si, en una sociedad fundada sobre el puritanismo, una hija le pidiera al padre salir de noche. Eso sería terrible para el padre, ¿no iba a poder saber cuándo su hija volvería a casa? Ocurre lo mismo con el enfermo mental, porque el psiquiatra siempre confundió la internación del enfermo con la propia libertad. Cuando el enfermo está internado, el médico está en libertad; cuando el interno está en libertad, el internado es el médico.

Entonces, cuando empezamos a organizar algo tendencialmente igualitario, vimos, por ejemplo, que un hombre se encontraba con una mujer y no sucedía nada violento. Se enamoraban. Naturalmente, luego podían tener una relación sexual, como sucede en las mejores familias y ¿por qué no habría de suceder en el manicomio liberado? Empezamos a divulgar la experiencia para demostrar que era posible dirigir el manicomio de otra manera. Y todo esto nos llevó también a una reflexión política: los internados pertenecían a las clases oprimidas y el hospital era un medio de control social.

En Gorizia organizamos una comunidad con el objetivo de curar y de mostrar que era posible una vida distinta. Lo sorprendente fue que mucha gente que venía a vernos percibía que la vida dentro de la comunidad era mejor que la vida afuera. Era que dentro de esa comunidad, el egoísmo que domina nuestras vidas era afrontado de otra manera: mi sufrimiento era el sufrimiento del otro. Con este tipo de lógica empezamos.

Después, muchos de los que habían trabajado en Gorizia fueron a dirigir otras instituciones psiquiátricas y así se generaron cuatro, cinco, seis experiencias diferentes. De todos modos, nosotros sabíamos que el manicomio, aun el dirigido de modo alternativo, era siempre una forma de control social, porque la gestión no podía sino estar en manos del médico, y la mano del médico es la mano del poder. Entonces, cuando, en 1971, empezamos a trabajar en Trieste, continuamos la experiencia de Gorizia, pero con el proyecto de eliminar el manicomio y sustituirlo por una organización mucho más ágil, para poder afrontar la enfermedad allí donde tenía origen. Empezamos con un manicomio que tenía 1200 personas y hoy, luego de ocho años de trabajo, no quedó casi nadie en esa estructura. Esas personas procuraron reinsertarse socialmente, con nosotros, con la sociedad, con la comunidad.

Podríamos decir que somos personas que transforman en oro lo que tocan, aunque en realidad nuestro trabajo fue muy simple. Como ya dije, en Gorizia descubrimos que la clase trabajadora, en caso de enfermedad, era destinada al manicomio. Entonces, pensamos que esta clase debía tener responsabilidades y poder en la gestión del problema de la salud y que esto podría cambiar las cosas. Por ejemplo, la discusión sobre cuándo se podía dar de alta a un paciente no era sólo entre nosotros, los médicos, sino también con las personas del barrio donde el enfermo iba a ir a vivir. De esta forma, el vecino del barrio se daba cuenta de que las necesidades del paciente no eran distintas a las suyas. Ante el problema de dar de alta a una persona pobre, que no tenía dinero ni casa, ni familia, muchos percibían que estaban o que podían llegar a estar en las mismas condiciones. Comenzaba así la identificación entre el sano y el enfermo, y el inicio de la integración del enfermo.

Entonces, día a día, año a año, paso a paso, desesperadamente, encontrábamos la manera de llevar al que estaba adentro, afuera, y al que estaba afuera, adentro. En la medida en que el número de los internados disminuía, íbamos creando en la ciudad los centros de salud mental. Teníamos una estructura externa muy ágil, en la cual la enfermedad se enfrentaba fuera del manicomio. Y veíamos que los problemas referidos a la peligrosidad de los enfermos comenzaba a disminuir: empezábamos a afrontar, no ya una “enfermedad”, sino una “crisis”.

Hoy nos es evidente que cada situación que nos llega es una crisis vital y no “una esquizofrenia”. En aquel momento, ya veíamos que aquella “esquizofrenia” era la expresión de una crisis, existencial, social, familiar, no importa cuál. Una cosa es considerar el problema como una crisis y otra cosa es considerarlo como un diagnóstico: el diagnóstico apunta a un objeto, y la crisis a una subjetividad; subjetividad que a su vez pone en crisis al médico.

He hablado de manera muy general del camino que hicimos para tratar de eliminar el hospital psiquiátrico y crear una situación tendencialmente terapéutica. No puedo decir más que “tendencialmente”, porque no puede ser plenamente terapéutica: yo trato de curar a una persona, pero no puedo tener la certeza de si la curo o no. Es lo mismo que cuando digo que amo a una mujer: es muy fácil decir esto, pero en algún sentido es falso, porque el hombre tiende a un tipo de relación y la mujer a otro; la relación que se crea entre los dos no es más que una crisis, es una crisis en la que hay vida, siempre que no haya dominación del hombre sobre la mujer o de la mujer sobre el hombre. En una situación que es tendencialmente de amor, se puede crear una relación muy libre.

* Extractado de La condena de ser loco y pobre. Alternativas al manicomio, de reciente aparición, que reúne conferencias pronunciadas en San Pablo, Brasil, en 1979.

Fonte: Página/12
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novembro 12, 2009

Ambiente manicomial

Oswaldo di Loreto e compas da Comunidade Terapêutica Enfance
Foto: Rogelio Casado - Diadema-São Paulo, 1979


Da esq. para a dir.: Oswaldo di Loreto, Tânia, Lelé, Michael Schwartzchild, ..., Joinho, Baixinha, Oséas Duarte, ..., Marisa, ..., Fernando Casadei.
Nota do blog: Dedico essa postagem à memória do inesquecível Oswaldo di Loreto. Basaglia, em visita à Comunidade Terapêutica Enfance, em 1978, perguntou-lhe, no meio da sala de reuniões, qual o propósito da formação ali vigente. Homem de espírito amável, di Loreto respondeu candidamente: "Deixar as pessoas menos sedutoras". Ao que Basaglia respondeu: "Mas como... tu és um homem sedutor!". È vero. Di, como era conhecido, "seduziu" dezenas de profissionais de saúde a embarcar no sonho de construção da sua comunidade terapêutica. Em verdade, um sonho coletivo, cujo modelo Basaglia fazia restrições, na medida em que o poder contratual dos loucos continuava contido por uma sociedade que discrimina os comportamentos desviantes da norma. Atualmente, a antiga comunidade terapêutica cedeu lugar a um centro de atenção psicossocial, não mais em Diadema, mas em Sorocaba. CAPS para infância; infância - registre-se -, especialidade do grande di Loreto. Na fotografia acima, estávamos em Sorocaba procurando uma área para mudança de endereço.

Ambiente manicomial

Aos poucos tornei-me especialista em meio ambiente. Depois de estagiar no hospício de Manaus, fui estudar, no final dos anos 1990, na Comunidade Terapêutica Enfance, em Diadema-SP, do saudoso Oswaldo di Loreto.

Ali retomei meus estudos sobre o ambiente antimanicomial, após conhecer Franco Basaglia em sua visita ao Brasil, principal articulador das práticas de desinstitucionalização da loucura.

No meu tempo de estudante, aprendi em ciência política que a prática era o critério da verdade. Mas não uma prática qualquer.

Práticas que não reconheçam a existência do conflito, que anulam o reconhecimento da distância entre o discurso que afirma a igualdade e a materialização dos direitos de cidadania negados aos loucos ainda são comuns entre nós.

Essa prática alienada é típica dos que trabalham com a idéia de naturalidade embutida nos acontecimentos, verdadeiros inimigos das ideologias transformadoras, sempre dispostos a contemporizar com a ideologia da prática possível, mesmo que isso sacrifique toda a história de luta de familiares, usuários e trabalhadores de saúde.

Ora, não há nada natural nessa história quando se olha criticamente a luta contra a instituição totalitária e a implantação de serviços substitutivos ao manicômio.

Ao negar a história da luta antimanicomial, os que se esforçam em adornar manicômios para romper com a monotonia das suas práticas douram pílulas e passam ao largo da história da construção de novos espaços coletivos de cuidados em saúde mental. Suas práticas nada lembram as características propiciadoras da diversidade de vínculos e experiências que fazem do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) um local de vida, diferente do que o manicômio evoca no imaginário popular.

Manaus não é o melhor exemplo para demonstrarmos a distância que separa o modelo manicomial do psicossocial. Ainda assim, as diferenças saltam aos olhos. Entre o CAPS e o hospício (ainda que ele não lembre os horrores do passado recente), num é possível ver a alegria e a criatividade na base do tratamento. Noutro a tristeza, a feiúra e o mau atendimento fazem parte do cotidiano da instituição, como se estivesse a nos lembrar que há algo de errado com esse tipo de ambiente.

Só se contribui com a cultura, deixando um belo legado para as futuras gerações, se formos capazes de promover uma radical inserção no mundo do portador de sofrimento psíquico. Não temos necessidade de adaptação submissa a uma realidade criada pela psiquiatria conservadora. A menos que a intenção, como dizem os jovens, seja “ficar bem na foto”.

Manaus, Novembro de 2009.
Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental
Pro-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UEA
www.rogeliocasado.blogspot.com

Nota do blog: Artigo publicado no caderno Bem Estar & Saúde do jornal Amazonas em Tempo.
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novembro 02, 2009

2º Encontro do Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental do Rio de Janeiro

Rio de Janeiro - RJ - Brasil
Postada em quase30.wordpress.com
2º Encontro do Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental do Rio de Janeiro

Convocamos :

Todos os trabalhadores de Saúde Mental do Rio de Janeiro, para realização da nossa segunda reunião que acontecerá no dia 07/11 às 15 horas no Centro do Teatro do Oprimido, na Lapa – Av. Mem de Sá, 31 (ao lado dos arcos da Lapa).

Na nossa ultima reunião estiveram presentes 85 trabalhadores de 47 serviços, o que foi um grande público para um dia conturbado como foi o dia 17/10, com o deslocamento pela cidade prejudicado por conta da violência urbana. Foram convidados, a princípio, os trabalhadores da cidade do Rio de Janeiro, mas profissionais de outros municípios também compareceram, enriquecendo a discussão.

Muitos pontos foram discutidos e a necessidade de organização dos trabalhadores se torna cada vez mais presente.
No primeiro encontro uma comissão formada por diferentes trabalhadores ficou responsável para a convocação dessa reunião. Analisando os relatos de nosso primeiro encontro, pudemos condensar as propostas da plenária em torno de três eixos, que propomos como pauta para nossa reunião do dia 7/11:

1 – Organização do Movimento – qual o caráter deste, chegar a uma definição do mesmo, com objetivos claros, e como irá se articular com as iniciativas já existentes no campo da saúde mental;

2 – Levantamento da situação dos serviços para discutir as propostas de forma mais concreta e abrangente.

3 – Discussão sobre o sistema de financiamento da rede de saúde mental, e seus desdobramentos na situação concreta do profissional que representa a ponta do cuidado.

Outros pontos importantes e de interesse dos trabalhadores como qualidade dos serviços, remuneração salarial e formação dos profissionais que foram destacados poderão ser aprofundados nessa reunião.

Como metodologia para este encontro, propomos um debate mediado pela comissão organizadora, que terá direito a fala mediante inscrição e voto, assim como os demais.

Consideramos importante sempre lembrar que, acima de tudo, o Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental é pautado em Defesa da Reforma Psiquiátrica no nosso país e a favor de um debate democrático.

Esperamos todos lá!!!!

Comissão Organizadora
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