Mostrando postagens com marcador bruno cava. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador bruno cava. Mostrar todas as postagens

novembro 27, 2010

Violência, mídia e repressão: reflexões sobre o Rio e o Brasil

PICICA: "Não se adjetiva o ser humano antes de dar-lhe direitos. Isso foi feito no nazismo e no Apartheid. (...). Quem adjetiva as pessoas antes de reconhecer-lhes a humanidade deveria sentir o peso da vergonha da História." Leia, também, "Três propostas para o "caos" do Rio de Janeiro", de Bruno Cava. E mais: "A posição do Observatório das Favelas".

Bandido bom é bandido morto? Reflexão sobre o Rio e o Brasil

Brasil - Repressom e direitos humanos
Sábado, 27 Novembro 2010 01:00
271110_favelas_rio_muro_copa Bule Voador - [Asa Heuser, Eli Vieira e Pedro Almeida] Conta a anedota que Philip Sheridan, o Little Phil, general do exército dos Estados Unidos durante a guerra civil, travava uma campanha militar contra os índios, quando o Chefe Tosawi, conhecido como Faca de Prata, teria dito: “Mim Tosawi. Mim índio bom”.

Little Phil teria replicado: “Os únicos índios bons que já vi estavam mortos”. A fofoca transformou a frase em “O único índio bom é um índio morto”, e na forma mais lacônica “índio bom: índio morto”. O general mais tarde negou que tinha feito essa afirmação, mas a frase entrou para a história.

A campanha expansionista estadunidense varreu do mapa a maior parte dos índios, e, como a história é escrita pelos vencedores, esses índios nem tiveram a chance de protestar contra algo simples: receberem o nome de “índios”, para começar. “Índio” não é um termo que expresse de forma justa a miríade de culturas e povos que perderam milhões com a ocupação das Américas.

São muitas as manchetes desta semana comentando como os “bandidos” estão morrendo nas mãos das forças armadas no Rio de Janeiro, na ocupação de pontos de tráfico de drogas em comunidades de menor poder aquisitivo. As centenas de histórias de vida que culminaram na “bandidagem” estão recebendo tratamento justo com o termo? “Bandido” é a causa ou o agente da violência?

As manchetes mostram diversos veículos incendiados, o Exército cercando o Complexo do Alemão e a Vila Cruzeiro, uma idosa baleada, uma criança de dois anos baleada, e dezenas de mortos que já se empilham em poucos dias.

“Bandido bom é bandido morto”, e quase ninguém quer se dar ao trabalho de pensar melhor o que significa ser bandido, por que alguém vira bandido, e se a única forma de se tratar esta patologia social seria o extermínio dos “bandidos”. Copiamos os americanos não só na forma preguiçosa como viam o conceito de “índio”, mas também na irracionalidade de uma política antidrogas que criou Al Capone.

Também copiamos as declarações pueris da direita americana contra os ativistas dos direitos humanos: são amantes de “bandido”, e, como disse Robinson Pereira num artigo publicado antes aqui no Bule Voador, os ativistas não entendem de “estresse de combate”. O que podemos concluir é que Robinson e outras pessoas não entenderam o filme Tropa de Elite 2. A amizade que nasce entre um ativista e um chefe do BOPE neste filme tem uma mensagem valiosa, que é a da cooperação entre pessoas que desejam o fim do horror de ver vidas ceifadas por fatores evitáveis.

Que o Exército e a Marinha precisem ser invocados é motivo de lamentação. Nossos soldados, treinados para a guerra (e mais ainda para a paz), altamente qualificados – vários deles com experiência no Haiti, não devem se sentir bem tendo de combater compatriotas – ainda mais quando a ideia da pátria sempre foi a flor da caserna. O que há com a polícia do Rio para que este tipo de intervenção seja necessária? Deveríamos começar a acreditar que os filmes de Padilha não são obras de ficção? Usar soldados do exército é usar pessoas altamente qualificadas para fazer o serviço errado – o serviço da polícia.

Colocar a maior máquina de guerra da América Latina nas ruas do Rio é um atestado de falência da polícia e do governo. E não só desses. Muito se comenta como o tal do “bandido” quer ganhar dinheiro e poder. Mas quem está promovendo dinheiro e poder como metas máximas na vida não são os bandidos.

“Bandidagem” é também a falta de perspectiva, e bandidos são órfãos do governo. Como o governo não cumpre o seu papel, e não dá condições dignas de vida, como ensino de qualidade, atendimento de saúde, garantia de emprego e outros direitos constitucionais, as pessoas se sentem sem chão e sem nenhum compromisso com o resto da sociedade. Daí vem o vandalismo, e a criminalidade, e os ditos “bandidos” se sentem com razão ao cometer crimes.

Na base de uma sociedade doente estão coisas simples como a falta de acesso a métodos eficientes de limitação de filhos (e a influência de certas instituições sociais que desaprovam o planejamento familiar – precisamos dizer quais?), falta de acesso a um estudo realmente qualificante (elevar as profissões e não os diplomas!), professores bem preparados, bem pagos e motivados – não é segredo para ninguém a relação entre falta de recursos sociais e chance de recorrer à violência.

Sem a garantia de uma vida e um futuro seguros, as pessoas se comportam como em uma guerra, num carpe diem dos caídos: “aproveite hoje, porque não se sabe se vai estar vivo amanhã”.

Neste momento de crise é necessária uma intervenção, mas nunca dentro do espírito de que os bandidos não são gente e não merecem viver. Quem diz o contrário joga no lixo nossa Constituição e as declarações de direitos que nosso país soberano assinou. Crises servem para detectar onde erramos e que precauções devemos tomar para evitar a repetição do erro.

Direitos humanos apenas para humanos direitos? E por acaso podemos chamar de “humanos direitos” aqueles que permitem que seus iguais caiam no desespero do crime por estarem em condições piores que os horrores das obras de Albert Camus? Não se adjetiva o ser humano antes de dar-lhe direitos. Isso foi feito no nazismo e no Apartheid. Não é “direitos humanos para humanos direitos”, assim como não é “direitos humanos para humanos arianos” e muito menos “direitos humanos para humanos brancos”. Quem adjetiva as pessoas antes de reconhecer-lhes a humanidade deveria sentir o peso da vergonha da História.

Está TUDO errado, desde o sistema penitenciário, polícia mal paga, etc. Mais errado ainda é que pessoas estejam morrendo não porque aumentou a preocupação com a venda de drogas, mas porque grandes interesses econômicos estão de olho na Copa de 2014 e nas Olimpíadas de 2016, um rolo compressor que não se importa em esmagar seres humanos para pavimentar o Rio em direção ao deleite lucrativo de poucos.
Que a cidade maravilhosa um dia possa dizer que é maravilhosa porque garante a todos a maravilha de uma vida digna.

Foto: Hayez (1867) - A destruição do templo de Jerusalém

novembro 20, 2010

Dia da Consciência Negra é dia de luta contra o racismo

PICICA: No Dia da Consciência Negra elegemos o racismo como tema para breve reflexão. A justificativa tem no recente período eleitoral sua fonte de estímulo. O ressurgimento do racismo, como efeito da campanha do candidato tucano, em sua tentativa de desqualificar o voto popular, não teve como alvo o negro exatamente; seu alcance atingiu todas as etnias, sobretudo dos segmentos mais pobres. Mas, posto que, historicamente, negros são o símbolo do apartheid social a que foram submetidos na sociedade nacional – basta ver como ainda vivem em precárias condições de existência –, é preciso estar atento ao recrudescimento dos discursos marcados pelo ódio, que insiste em permear nossas relações. Mesmo o discurso religioso que objetiva capturar nas malhas de um evangelho caduco as ovelhas que não berram, discriminando intencionalmente as ovelhas negras do rebanho, esquece o que disse Paulo, o apóstolo, na construção da nova verdade do cristianismo: “Não há mais judeu nem grego, não há mais escravo nem livre, não mais homem nem mulher”(Gl. 3. 28). Alain Badoiu, o filósofo, vai mais além, para os que substituem Deus por novas verdades, e o Bem pelo serviço que essa verdade exige, ao nos remeter para outra máxima de Paulo: “Glória, honra e paz para qualquer um que faço o bem, para o judeu em primeiro lugar, em seguida, para o grego! Pois diante de Deus não há nenhuma distinção entre as pessoas”(Rm. 2. 10). O depoimento de Chico Buarque no vídeo abaixo é mais um desses exercícios do pensamento que desmonta o edifício narcísico dos que só acham feio o que não é espelho, e desmascara o insustentável discurso racista em sua pretensão de “estatuto especial”. Leia, também, o artigo de Bruno Cava, escrito para o Le Monde Diplomatique: "Porque sim às cotas raciais na universidade."
assisfig | 26 de abril de 2008 | 
Chico Buarque fala sobre racismo.

novembro 12, 2010

"Minha Terra, África", de Cleire Denis

PICICA: Um filme sobre o abismo entre duas civilizações, abismo que separa duas culturas, duas realidades irreconciliáveis, subproduto do colonialismo cruel dos europeus.
imovision | 20 de outubro de 2010

Em algum lugar da África, numa província devastada pela guerra civil, Maria, uma feroz e corajosa mulher branca, se recusa a abandonar suas plantações de café ou a reconhecer o perigo que coloca sua família. Para Maria, partir é se render, um sinal de fraqueza, de covardia. Nessa plantação, que foi passada por três gerações de brancos, André -- seu ex-marido, e pai do seu filho adolescente -- teme pelo orgulho cego e resistente de Maria. Sem ela saber, ele planeja sair do país. Enquanto isso, um oficial rebelde está escondido nas redondezas. Com a vida se desintegrando em torno deles, cada um faz suas escolhas, nenhuma delas, previsível.

* * *

[ Amálgama ]




-- Isabelle Huppert em "Minha Terra, África" (em cartaz) --

por Bruno Cava – A diretora francesa Claire Denis filma na África colonial, onde viveu quando criança. Reminiscências de uma terra avermelhada de ferro e sangue, cindida racial, social e culturalmente em duas realidades inconciliáveis. A realidade do negro, pobre, oprimido, nativo, “selvagem”, cru(el) e pagão, originária de tantos imigrantes na França, da maioria dos jogadores de sua seleção de futebol, do ator costa-marfinense Isaac de Bankolé, que neste longa interpreta Boxeador. E a realidade do branco, proprietário, bem-educado, estrangeiro, “civilizado” e humanista, de Sarkozy, do ex-técnico Raymond Domenech, da atriz Isabelle Huppert, que faz a protagonista Maria.

Maria é ruiva, sardenta, num tom de pele que se confunde com o alarajando terroso da paisagem. Administra um engenho de café, em que vive com a família de europeus colonizadores: o filho, o ex-marido, o sogro. Todos os empregados são negros. Esse microcosmo é fraturado por uma guerra civil genérica, anunciada logo no início pelo helicóptero-anjo. A barbárie iminente afugenta a população, esvazia a fazenda, mas Maria se obstina. Decide desafiar a ordem das coisas. Teima a ponto de acreditar que a África pode ser a sua terra, pode ter a sua cor. Mas não é e não tem.

Rapidamente, o mundo em extinção abole a estrutura social: crianças empunham fuzis, vilas são saqueadas, cadáveres perfilam-se na beira das estradas. Os negros não respeitam mais os patrões brancos. Desmontados os instrumentos de dominação de classe/raça, isto é, o estado, nada refreia os negros colonizados de ofender os europeus colonizadores, enganá-los, extorqui-los, roubá-los, torturá-los, matá-los a golpes de machete, arrancar-lhes os escalpos loiros.

Porém, Claire Denis não tem por foco a violência, e sim as bordas da violência: os seus interregnos, o antes e o seu depois, a sua tensa espera, o seu epílogo silencioso e estático. A narrativa descompassada vai e vem no tempo, a fim de cercar a brutalidade, sem penetrar no âmago. A câmera come pelas bordas. Daí Boxeador aparecer antes e depois do tiro que o mata, mas o momento fatal não aparece. Daí o pudor na chacina dos soldados mirins, que dormiam depois da orgia de drogas. Ou então a cena dos últimos funcionários da fazenda, no solo de bruços, após uma matança que tampouco é mostrada. Só o final do filme inverte essa lógica, numa intrigante seqüência que reservo à surpresa (estupefação) do espectador.

Minha Terra, África fala do abismo que cisalha a África, a França, a Europa hodierna. O europeu branco e rico, ainda que humanista e bem-intencionado, não consegue se comunicar com o outro lado. É incapaz de ativar um devir-negro. Nisso, falha Maria, na tentativa de liderar humanamente os funcionários. E fracassa o seu filho, Manuel, quando raspa a cabeça e junta-se à cruzada delirante de crianças negras. Ambos os personagens chegam perto do abismo e terminam por ele sugados.

Filme sem meias-verdades nem romantização, Minha Terra, África vai ao ponto da questão racial e social.

setembro 17, 2010

DILMABOY, uma extravagância paródica "dance-pop-kitsch" apaga fronteiras e torna-se obra de Pop Art

pauloenriquerc | 28 de junho de 2010
Criado por @dilmaboyoficial @jesusgalvao @tonnymanson
Meu twitter oficial: @dilmaboyoficial

Hello Serra a Dilma é favorita pra vencer.
Só você não sabe e quer disputar pra quê?
Ela sabe que o povo tem fome e quer comer.

Sorry, Serra mas essa você vai perder.
Você vai perder. Você vai perder.

Sorry Serra mais uma vez vai dar PT.
Tenta há séculos e a favorita é do PT.
Nunca desistiu mais uma vez vai perder.
Quer melhorar a saúde e o povo não quer crer
Não quis se aliar, agora você vai ver

Stop Burn Stop Burn. Ela é a nova Evita Perón
Olhe pra ela. Ela agora é sucesso!
Stop Burn Stop Burn. Ela é a nova Evita Perón...
Olhe pra ela. Ela agora é sucesso

Amiga do Homem, vai vencer!
Amiga do Homem...

Ela não é O Cara, mas é amiga do Homem!
Você não é o Cara, nem amigo do Homem
Venha para o Club, deixa de ser bobo
Venha logo também ser amigo do Homem

Ela não é O Cara, mas é amiga do Homem!
Você não é o Cara, nem amigo do Homem
Venha para o Club, deixa de ser bobo
Venha logo também ser amigo do Homem

Se mexer com ela dou bafão juro, confesso
Minha Diva...
Desbanquei Stephany, sou um mega sucesso

Só no Rebolation, sorry mas está tenso
Quando ela ganhar vai rolar Dilma's party
E sua secretária vai ligar pra você
E vamos comemorar com o Rebolation
Todos vão se esbaldar na festa do PT

Nós vamos vencer, nós vamos vencer!
Sorry, Serra mas essa você vai perder.
Você vai perder. Você vai perder.

Stop Burn Stop Burn. Ela é a nova Evita Perón
Olhe pra ela. Ela agora é sucesso!
Stop Burn Stop Burn. Ela é a nova Evita Perón...
Olhe pra ela. Ela agora é sucesso

Stop Burn Stop Burn. Ela é a nova Evita Perón
Olhe pra ela. Ela agora é sucesso!
Stop Burn Stop Burn. Ela é a nova Evita Perón...
Olhe pra ela. Ela agora é sucesso

Stop Burn Stop Burn. Ela é a nova Evita Perón
Olhe pra ela. Ela agora é sucesso!
Stop Burn Stop Burn. Ela é a nova Evita Perón...
Olhe pra ela. Ela agora é sucesso

Amiga do Homem, vai vencer!
Amiga do Homem...

Ela não é O Cara, mas é amiga do Homem!
Você não é o Cara, nem amigo do Homem
Venha para o Club, deixa de ser bobo
Venha logo também ser amigo do Homem

Ela não é O Cara, mas é amiga do Homem!
Você não é o Cara, nem amigo do Homem
Venha para o Club, deixa de ser bobo
Venha logo também ser amigo do Homem

Aaaa amigo do Homem, aaaa, amigo do Homem
deixa de ser bobo, venha logo também
ser amigo do Homem

Aaaa amigo do Homem, aaaa, amigo do Homem

***

[ Amálgama ]



Posted: 16 Sep 2010 08:05 PM PDT
por Bruno Cava – No final de junho, o estudante goiano Paulo Reis postou no youtube a performance DILMABOY. É uma extravagância paródica “dance-pop-kitsch”, que remete a Lady Gaga, Lacraia e Ronaldo Ésper (só pra começar), em apologia à candidatura de Dilma Rousseff e deboche à de Serra (destaque ao verso “E sua secretária vai ligar pra você”). Com esse vídeo, Paulo obteve 250.000 acessos, tornou-se viral e foi contratado pela campanha da candidata. Há quem atribua o sucesso à vulgata “americanizada”, à alienação das massas, à futilidade das novas gerações, à despolitização da disputa eleitoral, hoje em dia esvaziada e reduzida a chavões, slogans, numerologias, frases de efeito e marqueteiros baratos.



Não penso assim. Se, de acordo com a teoria cultural, no pós-modernismo se generalizam a hibridização, o pastiche, a fluidificação, então DILMABOY expressa bem o clima existencial da época. Desde pelo menos os Beatles, Warhol e o tropicalismo, o Pop rejeita a profundidade metafísica e se entrega a uma espécie de superficialidade consciente — a uma arte de intensidades fugazes e prazeres epidérmicos, que transita sem preconceitos pela cultura de massa.

Tem quem rejeite a pós-modernidade como conceito, ou então a considere mera nota de rodapé da obra de Nietzsche. Até concedo, sabe. Porém nada elide o fato de que a aceitação generalizada dessa pseudo-pós-modernidade produza, independente de sua validade interna ou rigor histórico, uma certa atmosfera cultural, uma mobilização de autores e obras e movimentos. Isso se pode chamar, creio eu, pós-modernismo (aqui estou com o crítico Terry Eagleton).

Despreocupando-se com idéias grandiosas, o pós-modernismo assume um tom (auto)irônico, quiçá jocoso, ao mesmo tempo em que embute um ceticismo quanto às grandes narrativas, verdades e ideologias, tão atuantes nos séculos 19 e 20. Assim, fica feio adotar discursos grandiloqüentes, aspirar à natureza universal do homem, promover utopias políticas. Este o cinema de Tarantino, a música de Oasis e The Raconteurs, a literatura de José Agrippino de Paula. A força da obra pós-modernista reside menos em inovação formal ou em metafísica oculta ou em manifesto utópico (itens tão caros à arte moderna), do que na habilidade de combinar e sintetizar significados e afetos, disseminando-os de modo imanente à cultura de seu tempo. Nada se cria, tudo se movimenta.

Como efeito, abole-se a separação entre arte elevada e popular. Todo o tropicalismo brazuca e a arte conceitual lutaram contra essa dialética, ao revalorizar objetos do cotidiano, elementos da publicidade, bem como o kitsch, o mau-gosto, o cafona.

Daí a tarefa do crítico de arte mude de figura. Não é mais, por exemplo, praticar uma cinefilia de butique ou dedicar quarenta laudas sobre um quadro pós-impressionista. Agora, trata-se de dar à televisão, ao videoclipe, às técnicas de marketing, a mesma importância que sonetos de Camões, romances de Tolstoi e filmes de Jean Renoir. É mais relevante analisar como discursos e práticas circulam pelo corpo social, independente do formato atribuído: filme, peça de teatro ou comercial de televisão.

Os críticos do pós-modernismo tendem a imputar-lhe um relativismo moderninho, uma ausência de crítica real, uma rendição precoce à sociedade de espetáculo, consumo, pós-fordista e quejandos. Sucumbe-se à banalidade e se exime do distanciamento que permite a crítica, na sua (supostamente) imprescindível dialética negativa. Embora, dizem esses detratores, o pós-modernismo possa servir para interpretar a realidade, padece da impotência para transformar o mundo e politizar os debates hodiernos. Vivem-se em conseqüência os tempos de pensamento mole, da dissolução do sujeito político, de romantismo indie. E o materialismo? La nave va.

Repito: não penso assim.

Em primeiro lugar, por não não acreditar nos tais males da sociedade de consumo. A vida também é a tentativa mais ou menos desenfreada de consumir os desejos. Se somos realmente movidos por uma usina inconsciente deles, e nos movemos na vida tecendo afetos para mobilizar e concretizar tais desejos, então qual o problema do consumismo? O próprio ismo aplicado ao consumo me parece tolo. O marxismo é pra dividir a riqueza e não a pobreza. É comida, diversão e arte — tudo junto.

Não me esqueço de um debate no movimento estudantil, quando esquerdistas (jamais esquerda) diziam que o pobre não precisava de TV de plasma ou celular de último tipo, mas de comida e educação. Por acaso, a debatedora, branca e classe-média, portava um ipod bodoso, ostentava um cabelo e$covado e hidratado, e exibia em seu vestuário diversas grifes.

E não me esqueço do artigo “Consumo, Logo Existo“, de Frei Betto, que se sustentava, essencialmente, no argumento de que “quem trouxe a fome foi a geladeira”. Síntese do problema: antes o pobre tinha dinheiro para farinha e feijão, mas aí manipularam-no para querer também o refrigerante e o sorvete… É inacreditável, mas o militante pastoral defende que, quanto mais bens geramos e consumimos, mais pobres ficamos. Não à toa, cite o filósofo Jean Baudrillard, o mesmo que, no livro Sociedade de Consumo, denuncia o tal consumismo contemporâneo. Bom mesmo deve ser viver de sandálias e sobreviver dos frutos da terra, como bom franciscano.

Boa a resposta sutil do presidente Lula, logo em seguida, ao discursar que o pobre não quer só pão e circo, mas também geladeira e cultura. O pobre também deseja! Melhor ainda a réplica mais direta do filósofo Rodrigo Guéron na Revista Global Brasil. O artigo se chama “Da fome à vontade de comer: A mais-valia da vida”, e pode ser encontrado online no número 8 da publicação (pág. 40).

Em segundo lugar, porque não subscrevo a separação que fazem entre arte genuína e discurso da publicidade e da “mídia”. Qual nada! tudo é mídia, tudo é publicidade, tudo é produção de discurso e ato performativo, simultaneamente. Essas separações sempre e sempre partem de concepções fechadas, normativas, sobre arte e política. Quer atacando o seu suposto tom banalizador, quer panfletário. Tais purismos confinam com hierarquias e sistemas de validação, diletantes ou ideológicos. Em ambos os casos neutralizando a arte de sua penetração na vida, elevando-a à esfera intocável, quase sagrada, fora e protegida das agitações dos meios de comunicação, do fuzuê das turbas ignaras.

Penso que a crítica pode operar por dentro do pós-modernismo. Mas precisa reciclar-se dentro desse contexto. Vários dos operadores e parâmetros “modernos”, como totalidade, progresso ou racionalidade, tornaram-se impraticáveis. Não dá mais pra crer em instâncias transcendentes capazes de julgar de cima pra baixo, de fora pra dentro, como num tribunal da boa estética ou do bom gosto. Faz-se necessário encontrar a reinvenção por dentro da textura descentrada e multicolorida, para aflorar sentidos éticos, estéticos e políticos, libertá-los dos fluxos autoreplicantes da cultura midiática. Isto não significa imergir no Pop, mas dele roubar, com sagacidade e agressão, para fazer arte. Pop Art.

Doravante, o estranhamento inerente à crítica acontece de modo imanente, na recombinação e ressignificação da matéria viva de nosso tempo.

Por isso tudo, DILMABOY não só é uma obra de Pop Art no século 21, mas também exemplar para se compreender a contemporaneidade. E fazê-lo de uma perspectiva pós-modernista e ainda por cima brandindo a espada crítica, sem a qual não passaríamos de reprodutores do status quo.

– Versão Buddy Poke do DILMABOY (“DILMATOY”): Prossegue o processo de recombinação –

Twitter Facebook Tumblr Rec6 LinkedIn Technorati Google Bookmarks
Dê sua opinião

Leia também:

agosto 01, 2010

O ateísmo radical de Bruno Cava


Mallaceline | 16 de dezembro de 2009
Da Bunuel - Viridiana

***

"Viridiana"

É de Buñuel a célebre frase:
“Sou ateu graças a Deus.”

Imagem da Santa Ceia de "Viridiana".

Em 1960 , exilado no México, o grande diretor de cinema Luis Buñel recebeu um convite oficial do ministro da Cultura da Espanha, ainda sob o jugo da ditadura de Franco. A esta altura, o mestre já era considerado um dos maiores diretores do mundo e Franco não via com bons olhos o exílio daquele que era um dos mais talentosos filhos da terra. O convite era mais do que generoso: Buñel podia regressar para realizar qualquer filme que desejasse , reencontrando suas raízes e o olhar do povo. O convite foi aceito (acreditando que não, sem antes, profundas reflexões) e Buñel filmou "Viridiana" , uma de suas obras-primas*

O filme , é claro, já tinha sido pensando e era peça importante no processo de busca do artista , que lutava para libertar-se da rígida formação católica que ele abominava. Um violento libelo contra a igreja católica que apoiava a ditadura franquista, "Viridiana" ainda é hoje um filme impactante.


Buñel , sabedor de que aquela história não teria um final feliz, escapou para Paris!!


Assim que a última cena foi filmada,e levando com ele os últimos negativos e deixando para trás um irado ditador,que demitiu o ministro e tentou impedir a exibição do filme no Festival de Cannes, com a Palma de Ouro. O filme foi proibido na Espanha e o Vaticano o condenou violentamente.


Há muito que não assisto esse filme, pois eu era uma guria , não sei se continua tão impactante quanto na época foi, creio que sim. "Viridiana" é o sagrado coração exposta em sua crueza.

Quis postar algo assim , porque essa recordação durante muito tempo em anos é "Viridiana" que ainda caminha comigo.

E pensar que eu esse filme é mais antigo que eu , e que mesmo assim se faz impactante em reflexões … 


Arquivado em: A minha visão
Fonte: Deusilusão

***
15–07–2010

Meu ateísmo radical: Sagan, Dawkins, Woody

por Bruno Cava – Nunca acreditei em entidade sobrenatural. Desde as lembranças mais remotas, com cinco ou seis anos, recordo-me de um menino absolutamente cético diante do sobrenatural. O sobrenatural não existe. O menino jamais teve medo de espíritos, demônios, assombrações, monstros, mulas-sem-cabeça. Nunca anteviu um pós-vida: quando o homem morre, é como antes de nascer, um nada. Já intuía que o temor embutido nessas crenças fundamentava a submissão a arautos da verdade, e a renúncia a pensar e experimentar por si mesmo. Criança, tinha orgulho de proclamar-se ateu, menos por autoafirmação do que por uma incompreensão do que levava as pessoas a prostrar-se, humilhadas, diante dos deuses da tribo. Um Deus pessoal, imagem e semelhança do homem, não me convenceu em qualquer instante da vida. Passei incólume por catequismos e proselitismos. Nem a leitura dos livros sagrados nem ninguém conseguiu tirar lasca que fosse do firme ateísmo. Nenhuma situação vivida pôs em dúvida a ausência de fé no transcendente, ausência que traduzo como crença conseqüente na realidade concreta.

Guardo viva a lembrança da vez em que, no recreio da pré-escola, um coleguinha falou em “papai-do-céu”. Agarrei-o pela gola: quem é esse tal “papai-do-céu”? apontou para cima e disse-me que era um pai bondoso e misericordioso, habitante do céu, que tudo vê e tudo pode, a quem se pode pedir proteção e favorecimento, se a pessoa for merecedora. Foi também a primeira vez em que o escárnio ateu me assaltou, e conclui como aquilo era ridículo, como era inacreditável que tantas pessoas mais ou menos inteligentes levassem a sério, e como era necessário insurgir-se contra aquela farsa coletiva, estruturada por sacerdotes e igrejas.

Aos doze anos, inquirido certa ocasião por uma crente sobre a minha escolha religiosa, trocei, mas como se estivesse falando sério, que era o “anticristo”. A atitude do pequeno ateu alternava entre a ironia , quando estava de bom humor, e o escárnio, direto e seco, quando sem paciência. Ria na cara dos crentes e ridicularizava sem freios as igrejas. De zoação, chutava macumbas, cuspia na cruz, rasgava a Bíblia. É que, desde cedo, descobrira que não havia sentido em argumentar, em gastar o latim com fanáticos e iludidos, e que mais eficiente era tentar, pela via do sarcasmo e da paródia, demonstrar o ridículo implicado na fé e na crença num Deus-juiz onisciente e onipotente. Afinal, a provocação deixa mais marcas que a retórica. Podia em ocasião alegre reconhecer um ateu, mas sabia ser inglório tentar “ateizar” um crente. E se podia, num esforço ciclópico, desencaminhar uma ovelha das religiões, não conseguia demovê-la da crença num ser pessoal supremo.

O fato é que o menino era irrequieto com explicações e porquês e, por causa disso, um cético. Mas um cético curioso, preparado para aumentar o seu conhecimento do real, quando defrontado com evidência, lógica e sistema. Na realidade, o ateísmo não foi ponto de partida, mas linha de chegada de certo clima existencial presente desde a infância. O ateísmo resultou do ceticismo, este sim, uma ética completa, um modus vivendi, uma atmosfera existencial. Bom ceticismo não é aquele que cerra a percepção e encastela o mundo conhecido. O bom ceticismo é o prospectivo que, insaciável, faz da dúvida a técnica para investigar e interrogar. A boa dúvida amplia os horizontes da mente e perscruta a vida atrás do desconhecido. Pautado pelo ceticismo, não há risco de o ateísmo enjaular-se em disfarçado dogmatismo, numa descrença igualmente fanática. O ateísmo do cético não se fecha sobre si, não se submete à heteronomia de pastores ou igrejas “atéias”, como sói ocorrer com o religioso nas instituições de fé, verdade e moral.

Naturalmente, ao amadurecer, a civilização foi domando a fera irascível. Ao vestir calças compridas, o pequeno ateu passou a apresentar-se pudicamente como agnóstico. Evitou indispor-se com os asilados na ignorância, por estratégia, já que assumia outras agendas como mais prioritárias do que a militância atéia. Assim, tive em Carl Sagan a maior referência da adolescência, na sua promoção de um saudável, moderado e humanista ceticismo. O Mundo Assombrado pelos Demônios deveria ser leitura recomendada de todas as escolas. Instigado por Sagan, substituí o escárnio anti-social pela construção de um edifício de métodos e explicações, capazes de sustentar o ateísmo em debates mais civilizados. Foi nessa altura que prestei o vestibular, quando minhas redações, bem mais dóceis, incorporavam a sábia tolerância diante da infinita credulidade (ignorância) humana.

Richard Dawkins quase destruiu essa capa cultural. Em seus livros, o autor de Deus, um Delírio (“The God Delusion”, 2006) tem o poder de despertar o menino luciferiano em mim. Com ele, concluo que, ao me vestir agnóstico, não passo de ateu sem personalidade. Dawkins escreve tão bem e com tanta cólera, e eu concordo tanto, mas tanto com ele, que me dá vontade de sair pelas ruas berrando contra a sociedade teísta, de me assumir a criança que nunca deixamos de ser. Ressurge mil vezes vingativo o enfant terrible. Dawkins me faz lembrar como é importante não perder a faculdade de odiar assim como a de amar — faculdades irmãs. É um dos poucos autores que apela ao coração de menino, na sua imprudência e seu excesso, nas suas lágrimas ingênuas e no seu prazer destrutivo. Dawkins quase me faz esquecer o bom-tom e a medida, me torna novamente puro, e uma vez mais converte o agnóstico em ateu praticante. Renasço intacto.

*

Construí o meu sistema-mundo com a leitura paulatina da literatura científica e da filosofia da ciência. Não fiz das ciências um dogma às avessas. Com Karl Popper, nelas encontrei precisamente uma forma não-dogmática de pensamento, cuja essência de suas verdades reside na refutabilidade mesma. Aprendi como o conhecimento científico não somente procede por refutações sucessivas, mas também por saltos qualitativos, por rupturas paradigmáticas, como Thomas Kuhn descreveu em livro clássico. O que se alinhava à minha percepção de um mundo-fluxo, em mutação profunda. O ápice do antidogmatismo e de uma visão aberta do mundo culminou na entusiasmada adesão ao anarquismo metodológico de Paul Feyerabend, radicalmente averso a cânones, metanarrativas e esquematismos.

Atribuo as religiões a dezenas de causas. Politicamente, por servir como peça importante da dominação de classe, exercida com base no temor e na ignorância. Moralmente, por ajudar no controle social/sexual pelo poder constituído contra as minorias políticas, a mulher, o jovem. Culturalmente, ao comodismo do hábito, à preguiça intelectual, ao zelo bovino pelas tradições familiares. Individualmente, à fraqueza de caráter, que anseia por consolo metafísico, diante do sofrimento e da morte; ou então como reação igualmente impotente perante a culpa, a baixa autoestima, o desespero. Esteticamente, à aspiração pela perfeição, pureza e sublime, num amor transcendente. Genealogicamente, como ressentimento dos fracos contra os fortes, como inversão da lógica do bom x ruim (potência), pela do bom x mau (moral), como vingança abstrata contra um mundo insatisfatório. Racionalmente, à ingenuidade de pretender uma explicação totalizante e definitiva, num sistema fechado e reconfortador, capaz de apaziguar a dúvida angustiante que move o homem.

Nessa recusa esclarecida da religião, não fujo da tradição do pensamento anticlerical, ainda que eu também abomine os teísmos e deísmos que os iluministas (traidores), em geral, incorriam. Daquela época, o único ateu lídimo que eu li foi o Marquês de Sade, no seu furioso materialismo. Antes dele, Spinoza: teórico do Deus filosófico, imanente, amoral e impessoal, adotado também por Einstein, que por sinal nada tem do Deus dos monoteísmos.

No século 20, por sua vez, abundam os ateus assumidos entre escritores e intelectuais. Poderia citar mais de cem, mas destaco o mais irônico: Woody Allen. No século 21, o aumento da população atéia contrasta com a onda de fundamentalismos cristãos, islâmicos e sionistas. Estes se espalham como epidemia sobretudo nos Estados Unidos, nos países árabes e em Israel, acuando os seus muitos cidadãos livres e inteligentes. É preciso resistir e é preciso ceticismo.

 

Leia também:

Fonte: Amálgama

julho 31, 2010

"Bem-Vindo à Casa de Bonecas"

[ O cinema degradante de Todd Solondz (+ 1) ]




» por Bruno Cava «

Lançado em DVD pela Lume Filmes, chegou mês passado às locadoras brasileiras um filme emblemático do cinema independente americano dos anos 1990. Bem-Vindo à Casa de Bonecas (1995), segundo longa do diretor Todd Solondz, dá prosseguimento, na referida coleção da Lume, a Felicidade (1998), aparecido em DVD há dois anos. Ambos os filmes de baixo orçamento, “outsiders” à indústria hollywoodiana e generosamente recepcionados pela crítica. O primeiro levou o prêmio do júri em Sundance/1996 e o segundo foi laureado na categoria internacional da Mostra de São Paulo/1998.


A filmografia de Todd Solondz é marcada por uma sátira inclemente da classe-média. Situados no subúrbio medioclassista de Nova Jérsei, seus enredos expõem a frustração de personagens impotentes aprisionados no vazio existencial. Essa temática, desenvolvida em Bem-Vindo à Casa de Bonecas, reaparecerá multiplicada nos longas seguintes, cada vez mais ácidos e chocantes. Basta lembrar a trama de sordidez, estupro, pedofilia e humilhação de Felicidade. Se, no primeiro filme, a degradação plasma o microcosmo adolescente; no último, Solondz generaliza-a para a classe-média como um todo, não abrindo exceções.

A protagonista de Bem-Vindo à Casa de Bonecas é uma menina oprimida pela rejeição social e falta de amor. Feia e sem atrativos, objeto de escárnio e violência moral por outros alunos, incompreendida pelos professores, longe de ser correspondida romanticamente, preterida na família em proveito da queridinha irmã mais nova. Apesar da situação, Dawn Wiener (Heather Matarazzo) não se angustia e não pensa em suicídio. Suporta a violência passivamente mais por covardia do que benevolência. Assim como a adolescente Carrie, no filme homônimo (Brian de Palma, 1976), Dawn terá o seu momento de vingança. E não perderá a oportunidade para descontar nos mais fracos – inclusive na irmãzinha e no único amigo, um menino efeminado.

-- Heather Matarazzo em cena --

Nenhum espaço para fábulas de cinderela, comoventes e esperançosas, como em Preciosa (Lee Daniels, 2009). Próximos da caricatura, os personagens medíocres e disfuncionais de Bem-Vindo à Casa de Bonecas encenam um drama sem superação, sem catarse, sem beleza. O diretor sistematicamente decepciona as expectativas, ao contornar qualquer resolução aos impasses e frustrações. Assim, a “high school” e o universo suburbano – cifras clássicas da autoconsciência americana – comparecem como purgatório permanente, em que todos sofrem e ninguém é absolvido. Os desejos de prazer e liberdade são frustrados e os elementos rebeldes sufocados pelo sistema opressivo. Resta o nojo diante do mundo e de si mesmo.

A única solução parece ser fugir daquele limbo para bem longe – opção adotada pelo usuário mirim de drogas e pelo roqueiro inadaptado. Dawn também tem a chance de dar o fora, mas “simplesmente não pode”. E aí concorre na responsabilidade pela circunstância lamacenta a que está condenada. A sátira aufere a dimensão conscientizadora que define o gênero. Dawn não arrisca nada e então se sentencia à felicidade cretina.

O cinema de Solondz pode parecer niilista e mesmo ineficaz como interpretação e transformação do real. Pode parecer, ainda, carregado em demasia pelo ressentimento – o filme como vingança pessoal do diretor. São leituras possíveis, porém injustas. Uma sátira opera precisamente pelo exagero constitutivo de personagens e situações, dentro de uma estratégia dramática que propicie a partilha da experiência com a audiência. Freqüentemente, a sátira extrapola e choca o público, a fim de incitá-lo à reflexão e à ação. Aí, os filmes de Todd Solondz dialogam com Michael Haneke – A Pianista (2001), Caché (2005), Violência Gratuita (2008) etc. –, que também elabora a crítica jogando com a repulsa do espectador.

Nesse sentido, o relançamento em DVD de Bem-Vindo à Casa de Bonecas vem em ótima hora. Compare-se essa poética corrosiva com o imaginário adolescente propagado por telenovelas ou por Malhação, em sua domesticação, seu apaziguamento, seu comodismo. Ou então com o recente sucesso de As Melhores Coisas do Mundo (Laís Bodanzky, 2010), história bobinha e deslumbrada de uma classe-média que reafirma a sua falta do que falar com filmes noveleiros. Juventude acomodada.

À margem desse entretenimento impotente, e sem incorrer na propaganda, Todd Solondz realiza um cinema de agressão, que força o posicionamento.
Twitter Facebook Tumblr del.icio.us Rec6 LinkedIn Technorati Google Bookmarks Live email

junho 17, 2010

É Avatar o futuro do cinema?

Imgem capturada em www.filmofilia.com
Seis meses depois: Avatar, o futuro do cinema?

por Bruno Cava – Um semestre depois do lançamento, Avatar continua no centro dos debates sobre o cinema. O blockbuster da década segue mobilizando cinéfilos, jornalistas, críticos, acadêmicos e, sobretudo, os seus milhões de fãs. Deslumbrados, eufóricos, siderados, os tietes ajudam na construção da vasta mitologia de tudo relacionado à Pandora e constituem mercado garantido para os filmes-seqüência, os videogames, os livros, os quadrinhos, as revistas e qualquer produto porventura associado a Avatar.

Desde dezembro de 2009, multiplicam-se portais, sites, canais de Orkut, twitters e blogues inteiramente dedicados a Pandora e seus nativos atléticos e naturebas. A Pandorapedia traz artigos não só sobre a flora, a fauna e a geografia locais, mas também sobre os Na´vi, seus costumes, hábitos de caça, rituais, organização social. Inclui ainda um dicionário inglês – Na´vi – aliás idioma meticulosamente montado, como o esperanto ou o Klingon – e informações up-to-date acerca das “operações humanas” no planeta azul. Tanta fissuração que foi diagnosticada até uma nova mazela, a “Síndrome Pós-Avatar”, também conhecida por “Naviblues”, Caracterizada por depressão, em casos extremos a Naviblues induz tendências suicidas em fãs esmagados pela beleza irreprodutível da vida em Pandora.

Nesse meio ano, o mundo (terráqueo!) pagou 2,8 bilhões de dólares para assistir a Avatar em salas 2D, 3D e 3D-IMAX. O longa arrecadou mais de seis vezes o seu orçamento de 450 milhões de dólares (150 milhões só em marketing). O filme já é a 14ª maior receita bruta dos EUA e Canadá, conforme o ranking que leva em consideração a correção monetária. Está atrás, entre outros, de E o Vento Levou (1ª), de dois episódios da trilogia original de Star Wars (2º e 12º) e de Titanic (6º), assinado pelo mesmo James Cameron. Só no Brasil, Avatar angariou 9,1 milhões de espectadores, alçando-se a segunda maior bilheteria do cinema nacional, atrás somente de Dona Beija e seus Dois Maridos, que acumulou 10,6 milhões em 1976.

Que foi um êxito avassalador de públicos, todo mundo sabe. Mas não foi só o público mundial que viu tudo azul. Contrariando o senso comum, o blockbuster dos blockbusters de Hollywood também maravilhou os críticos. E não somente os comentadores da grande imprensa, como também a crítica “dura”, mais intelectualizada e a acadêmica.

De acordo com o site Rotten Tomatoes, das 262 resenhas compiladas em língua inglesa, Avatar computou 216 positivas contra 46 negativas, num índice de 82% de aprovação. Resultado expressivo se comparado aos 88% (228-30) do excepcional Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino) e 85% (104-19) de A Fita Branca (Michael Haneke) – vencedor da Palm d´Or do ano passado. Reduzindo o espaço amostral para os “top critics”, segundo classificação do mesmo site, a avaliação de Avatar decola para 94%, com 32 resenhas favoráveis e somente duas desfavoráveis, e passa à frente dos outros dois, superando os 85% (20-4) do filme de Haneke e os 74% (31-11) de Tarantino. A seu passo, o site Metacritic ratifica a avaliação e atribui a Avatar a pontuação de 84/100, enquadrada como “aclamação universal”.

Mas não foi só a crítica anglófona.

Nos Cahiers du Cinéma, sob o título “Nova fronteira”, o resenhista esgarça elogios: “elã vital poderoso”, “vigor juvenil”, “impressionante mundo com coerência plástica”, “invenção de nova matéria visual”, “imagem total de síntese”, embora reclame da “assexualidade infantil” dos longilíneos nativos azul-turquesa.

No conceituado Critikat, por sua vez, a aprovação da resenha, intitulada “Idade do ouro”, se dá sem ressalvas: “assombroso”, “prodígio técnico”, “100% síntese”, “essência da receita épica”, “ascensão a outro estado da consciência” e “filme-exemplo pelo glamour e pela fábrica de sonhar”.

Texto ainda mais laudatório vem do também francófono Chronicart: “síntese terminal da estética numérica e do cinema clássico”, “pujança formal”, “cinema-total”, “entretenimento no seu sentido mais nobre”, “iconografia definitiva e imediatamente assimilável” e “Cameron parteiro de mundos”. Mesmo expressão que no ensaio poderia parecer negativa – “paradoxo baudrillariano”, a respeito do baralhamento entre real e virtual, – inscreve-se como elogio.

Na crítica brasileira, o tom elogioso igualmente foi generalizado.

Inácio de Araújo (Folha de São Paulo/UOL) assistiu a um “filme belo, livre”, “grande”, que “não é senão cinema, cinema por todo lado”. Identifica na narrativa um “elogio à liberdade”, “mistura Rousseau com Lévy-Strauss”, “contra o brucutismo reacionário”, no “moralismo da tradição americana, como John Ford”.

Rubens Ewald Filho (Band/TNT/Rádio Jovem Pan) não economiza palavras: “uma grande história, importante e empolgante (…) filme sensacional”, “vibrante”, “impressionante” e “a melhor aventura dos últimos anos e provavelmente o melhor filme do ano”. Politicamente, ao invés da promoção da liberdade, sublinha a “mensagem ecológica”.

Outro que adorou foi Luiz Carlos Merten (Estado de São Paulo). Batiza a crítica de “Estou chapado!” e realça o efeito inebriante das maravilhas de Pandora: “viajei”, “chorei”, “passei meio filme emocionado“, “universo paralelo que me arrebatou”, “beleza de cortar o fôlego” e “beleza naquelas imagens e sons que me deixaram chapado”. E arremata, sem esconder a empolgação: “recebi Avatar como uma experiência mística e religiosa”.

Neste ponto, o leitor poderia imaginar que recepção tão calorosa só poderia advir de críticos da grande imprensa, mais condescendentes com blockbusters de Hollywood. Poderia elucubrar que, decerto, os críticos por assim dizer “duros” e/ou acadêmicos chamarão todos à ordem e desmascararão a orgia midiática ao redor de Avatar.

Não foi o que aconteceu.

Na muito respeitada Revista Cinética, Fernando Veríssimo exalta o diretor pela sua “crença na imagem cinematográfica”: com as “conquistas técnicas” e na “exibição magistral em pleno domínio de suas capacidades”, James Cameron “reservou sua cadeira no panteão dos gigantes do cinema”. Mostra muita boa vontade perante Avatar: “termina com uma imagem linda”, “cheio de esperança”, “bem-vindo o bom-mocismo sincero”. E, embora ressalve que “escorregue na pregação desses valores”, isso “parece não importar”, porque a construção do universo de Pandora constitui um “marco da ficção científica no cinema”. Da mesma forma, não importa o crítico “não ter mais 14 anos”, o filme é “obra-prima” mesmo assim, graças às “mais rápidas duas horas e quarenta minutos que passei no cinema em muito tempo.” E perde a linha com: “Ninguém jamais viu nada parecido com este filme e tenho minhas dúvidas se algum dia veremos algo assim novamente.”

A Revista Contracampo, idólatra dos Cahiers du Cinéma clássicos, foi ainda mais fundo na apologia de Avatar – pelo menos em um dos dois textos publicados. Tatiana Monassa avaliou-o com a nota máxima (4/4), sem nove horas no veredito: “Avatar é sem dúvida o grande filme-síntese de seu tempo” e “real divisor de águas na história do cinema”. Pra ela, o filme sintetiza o Zeitgeist. Porque incorpora a “mentalidade da época” e as “aspirações e medos que mobilizam a vasta comunidade terrestre”, numa “narrativa absoluta”, “corporificação completa de um estado de espírito” e “síntese de tudo o que a precedeu e origem para tudo que a sucederá”. Flertando com o cinema pelo cinema, aplaude a “celebração grandiosa do meio” e sua “magia”, “afirmando e reafirmando” o imperativo de James Cameron pelo “cinema como meio único e privilegiado, capaz de proezas além da imaginação e de proporcionar uma vida mais completa, absurda e maravilhosa do que a própria vida.” Contra o comentário geral de que o roteiro é fraco, fez questão de polemizar: “seu roteiro funciona à perfeição”.

*

O primeiro livro em português dedicado ao filme foi lançado no Rio de Janeiro em 8 de junho. Em Avatar: o futuro do cinema e a ecologia das imagens digitais (Porto Alegre: 2010, ed. Sulina, 119 pág.), Erick Fellinto e Ivana Bentes contribuem independentemente, cada autor com um ensaio de aproximadamente 50 páginas. Os autores propõem-se a deglutir o filme não tanto no calor do momento, mas après-coup, mobilizando saberes da teoria da comunicação, da antropologia, da filosofia, dos cultural studies.

Aqui, me restrinjo modestamente a abordar a primeira metade do livro, reservando a vistosa contribuição de Ivana Bentes para outra oportunidade, porque merece tratamento próprio. No artigo de Erick Fellinto, são expostas as contradições entre o discurso articulado pelo filme e a realidade de que faz parte. O título vai ao ponto: “They killed their mother: Avatar, o tecno-misticismo e as contradições de Hollywood”.

O autor demonstra como Avatar desmoraliza as corporações insensíveis, predatórias e que-só-pensam-no-lucro, ao mesmo tempo em que a indústria americana de cinema é, ela mesma, um emaranhado corporativo dessa natureza. Ainda, como a crítica à ciência instrumental, desumanizadora e destrutiva, só pode operar devido à tecnologia cinematográfica que seria impensável sem essa mesma ciência. Além disso, como Avatar clama para que não nos acomodemos de modo passivo, alienados pela verdade oficial do capitalismo, mas por sua vez se realiza por meio do efeito espetacular, assombroso e duplamente alienante. Primeiro, na proposta mística (ou tecnomística) do enredo. Segundo, na imersão sensorial das imagens que tomam o espectador por todos os lados.
Noutra contradição, Fellinto reporta-se ao desejo de conexão global que permeia o longa-metragem. Ele promove uma mensagem de harmonia e comunhão em vários níveis: homem e máquina, homem e seu semelhante, homem e animal, homem e natureza e, enfim, homem e divindade – todos os pólos dissolvidos num uno primordial, na energia que tudo anima, no êxtase coletivo de corpos e mentes. A operação remete tanto ao pré-homem quanto ao pós-homem. O primeiro homem caracteriza-se pela existência pré-lingüística e pré-histórica, ser de intensidades puras e sentimentos indizíveis, no mito do bom selvagem, da criatura antes da Queda, antes de ser expulsa do Paraíso. O último homem pela superação das dicotomias, pela culminância numa espécie de Espírito Absoluto hegeliano, na reunião de fé e ciência, segundo o mito do renascimento na Parúsia. Operação em que o alfa e o ômega transfiguram a história em tempo mítico.

Se, por um lado, essa mensagem-síntese remete à espiritualidade orientalista (o “budismo ocidental” de Slavoj Zizek), à ético-estética new-age e tecnopagã, à Hipótese Gaia, ao sonho da aldeia global da Internet e ao atavismo da Comunidade (Gemeinschaft) perdida; por outro, a produção e promoção de Avatar não deixa de se inscrever em todo um sistema socioeconômico pautado pelo individualismo, o consumismo, a alienação do trabalho, o imperialismo cultural, a expropriação sistemática.

Não bastasse isso, a narrativa sozinha já contradiz o anseio de conexão, na medida em que Jake Sully, – o homem branco, o fuzileiro americano, – é quem vai salvar o planeta e comandar messianicamente os Na´vi ao triunfo. É certo que, antes, o personagem tenha de reaprender a andar e a viver num novo mundo, interconectado e maravilhoso, pelo qual se apaixonará. Porém, nada afasta o fato de que se trata de uma jornada individual do herói branco, em processo de autoconhecimento e iluminação religiosa – numa reedição extraterrestre do Caminho de Santiago ou da Subida do Monte Carmelo.

Nesse sentido, foi penetrante a crítica “The Messiah Complex”, de David Brooks, publicada no New York Times. Nele, Brooks argumenta como uma história supostamente panteísta, multicultural e comunitarista, não passa de mal-disfarçada versão do mito do messias ocidental. Ou seja, como um homem branco, iletrado, jovem, puro, que-vem-de-baixo é eleito pela Divindade para liderar os coadjuvantes não-brancos na cruzada do Bem contra o Mal. E com a vitória assegurada pela Providência – a aparição no último momento do exército de feras, que salva os Na´vi da derrota iminente. Etnocentrismo benevolente? Tão benevolente quanto o “capitalismo do bem” pregado por Cameron.

A verdadeira ironia, contudo, está em que o próprio Fellinto produz a maior contradição de seu texto sobre as contradições. O que não deixa de ser produtivo, as contradições também têm os seus direitos. Logo depois de 33 páginas desfavoráveis a Avatar, o autor insere o pós-escrito: “They killed wonder: como Hollywood pode nos devolver a sensação de espanto”. Para espanto do leitor, ele afirma que gostou! Maravilhou-se com “a potência do tecnológico”, “a dimensão artística das imagens de síntese”, “um mundo irreal, mas convincente”. Invocando o cinema de atrações da virada do século 19 para o 20, quando os filmes eram projetados em parques de diversões, Fellinto confere um valor em si ao deslumbramento das imagens, no seu “reencantamento da vida”. Diz o autor que o assombro, afinal, é o motor primeiro da busca do conhecimento.

Num balanço global (e nada definitivo), a maioria dos críticos admite de uma forma ou de outra que a narrativa baseia-se num mar de clichês. De ponta a ponta nos 160 minutos de Avatar. Que se alimenta de roteiros como Dança com Lobos, Flechas Ardentes, Um Homem Chamado Cavalo, Pocahontas, O Último Samurai, Coração Valente, entre muitos outros. Que se apropria conscientemente dos gêneros consagrados de Holywood: western, ficção científica, romance água-com-açúcar, épico de aventura. Que o dualismo metafísico, o exotismo fácil e o mambojambo esotérico, analisados friamente, restam rasteiros e pouco originais. Que as caricaturas e o maniqueísmo atravessam os personagens, os diálogos, os conflitos dramáticos, o caráter épico, a solução providencial deus ex machina.

Em geral, filmes muito formatados e recheados de chavões são vistos como falta de criatividade e ousadia, especialmente pelos bons críticos. Contudo, em Avatar a condensação de clichês foi tão totalizante que, para a maior parte da crítica, se transformou em sua principal qualidade. E fez do filme um monumento do cinema, da cultura, da época. Uma Meca para onde apontam os sentidos do contemporâneo.

Por isso, se Inácio de Araújo fala da “leitura muito fácil e imediata”, também afirma que “todo filme precisa de formulações evidentes”. Ewald de Souza ressalta as “velhas fórmulas” que se validam porque produzem “imagens autênticas”. A Revista Cinética não deixa de assinalar “a mais convencional das histórias”, mas somente para realçar o paradoxo por ela estruturar um filme revolucionário. Por sinal, o título da resenha, “Revolucionário da tradição”, reflete um dos paradoxos da modernidade, na máxima de Baudelaire: “tradição moderna, traição moderna”. Já a Revista Contracampo, menos moderada, vê na síntese bem-sucedida de gêneros e clichês um manancial para um cinema mítico e inesgotável. O máximo no mínimo. Por conseguinte, o mítico de Avatar aponta simultaneamente pra passado e futuro, em eterno retorno cinematográfico. Daí resgatar-se famosa reflexão de Eric Rohmer, pra quem o cinema mais futurista pode significar o retorno a um filme antigo – eis aí o seu (paradoxal) apelo vanguardista ao classicismo.

A bem da verdade, o processo crítico ao redor de Avatar revela a tensão entre forma e conteúdo nas argumentações. A luta conceitual entre tradição e modernidade, entre classicismo e futurismo, entre inovação e clichê. Isso fica claro quando críticos avaliam negativamente o roteiro, a narrativa, a temática ingênua, o drama pueril de Avatar; porém, ao mesmo tempo, aprovam as inovações estéticas, realçam a força das imagens, o encantamento realista de Pandora. Ou simplesmente dizem que, apesar de tudo, gostaram. Esses críticos têm dificuldades em articular forma e conteúdo e se esforçam para coordenar os juízos teóricos, éticos e de gosto. Nesse contexto, Luiz Carlos Merten, talvez o mais honesto dos deslumbrados (“estou chapado!”) pelas imagens, convoca até Nicholas Ray em seu auxílio: “o cinema é a melodia do olhar”. De somenos relevância a história, o que ele quer é audiovisual.
O drama crítico de quem gostou do filme, mas não consegue extravasar o gosto num juízo teórico consciente, é similar ao de quem não gostou, mas tem de enfrentar os efeitos de deslumbramento e a fabricação maravilhosa de Pandora. Pegando emprestado um conceito da teoria literária, o crítico que não gostou tem de enfrentar a força do realismo maravilhoso, nunca antes tão realista e tão maravilhoso. Isto significa interpretar a sedução da experiência imersiva e o tema dostoievskiano da salvação do mundo pela beleza – ambos os sentidos presentes no filme de James Cameron.

No blogue da revista Cinemascópio, encontrei um autêntico contracampo crítico, a articular forma e conteúdo de Avatar. Embora essa crítica seja somente um esboço, Kléber Mendonça Filho reconhece que “a técnica pega o público de jeito”, “induz a multidão a um transe coletivo”, “catapulta sensorial incomum ao espectador”. Comenta que a estética reverbera videogames e “perfis desejados” – me recordo agora de Buddy Poke e Second Life. Mas se o crítico destaca a poética, ataca a poesia. Pois os Na´vi são “pós-gnomos, longos, esotéricos e azuis, e em alguns momentos, exalam uma sensibilidade Xuxa realmente notável”. Pandora bem poderia ser a ambientação futurista da festa infantil da filha da apresentadora.

O Amálgama também não foi no vai-da-valsa da crítica deslumbrada, ao trabalhar forma e conteúdo. O crítico Luiz Biajoni foi além do conteudismo, ao apontar como a parafernália de texturas, luzes, formas, cores, sons – a sofisticada imagem em movimento de Avatar não expressa a riqueza e profundidade da experiência. Serve sim para “tecnicamente, mexer com os sentidos”. Avatar pode ser maravilhoso, mas não realista, porque a realidade de Pandora resultou esmaecida, simplória, pobre de consistência humana, perdida no presente imediato. Não é realismo, mas o seu contrário: “a abstração chegou ao cinema.”

Eu também não gostei. Infantilizado à náusea, de uma sensibilidade chã, o planeta azul parece mesmo um playground, repleto de brinquedos coloridos, concebidos para crianças de 12 anos. As suas seqüências mais envolventes, – os vôos de banshees – de fato, poderiam ser jogos sofisticados de Playstation ou x-Box, mas o filme não traz a mesma interatividade que um videogame. E que dirá então pilotar um avião real ou saltar de asa-delta. Realmente a mata fosforescente de Pandora é exuberante, sensual, tórrida, mas a sexualidade simplesmente não acontece, senão como farsa. E qual a graça de viver em comunhão e comunidade, se isso significa que todo mundo vai saber da sua vida sexual no mesmo dia? Mas o que me decepcionou mesmo na panacéia de James Cameron foi a carência absoluta de sangue, suor, sujeira, sêmen – numa imagem-mundo afinal descarnada, anódina e insípida. Um mundo maravilhoso, porém asséptico.

Fonte: Amálgama

Leia também:

Cinema não é apenas belas imagens, ou De como James Cameron foi refilmar Dança com Lobos lá em Pandora


Avatar


3D e pirotecnia para maus roteiros

maio 30, 2010

O Escritor Fatasma


diariodecinema — 1 de fevereiro de 2010 — O roteiro fala sobre um escritor fantasma britânico que concorda em escrever as memórias do ex-primeiro-ministro Adam Lang porque seu agente lhe garante que esta seria a oportunidade de sua carreira. Mas o projeto parece estar condenado desde o início, devido a um acidente misterioso.

***

[ O Escritor Fantasma ]



por Bruno Cava – O ultimo longa de Roman Polanski, que ganhou o Urso de Prata (melhor direção) no Festival de Berlim de 2010, estreia hoje no Brasil. Não, não é mais um da febre espírita. O título refere-se ao ghostwriter: aquele que, apesar de escrever o texto, não o assina e fica oculto. Atribui-se a autoria a outra pessoa, geralmente uma celebridade. No longa, o escritor interpretado por Ewan McGregor é o “fantasma” do primeiro-ministro britânico Adam Lang (Pierce Brosnan), que deseja produzir uma autobiografia de sua carreira política. O roteiro baseia-se num romance de mistério de Robert Harris, que co-escreveu com Polanski o roteiro. Sem ser nomeado na história, o Fantasma/McGregor é convocado de última hora para substituir o ghostwriter anterior, morto em circunstâncias suspeitas quando terminava a “autobiografia” de Lang. Obviamente as coisas vão se complicar para o novo redator. Desse argumento simples, parte um thriller preciso e maduro, que multiplica os sentidos de interpretação.


Como comentário político, O Escritor Fantasma expõe ligações mais ou menos ocultas por trás do discurso da guerra ao terror. Denuncia o enlace de bastidores entre os governos, órgãos de inteligência e institutos de pesquisa e ativismo (“think tanks“), que cimentaram a aliança unha-e-carne entre a política externa dos EUA/Bush e do Reino Unido/Blair. Lang/Brosnan representa o ex-premiê Tony Blair, mas no filme também aparecem “disfarçados” outros políticos ingleses, Condeleeza Rice, a CIA, o Instituto Claremont e até a Haliburton — megaempreiteira ligada ao vice de Bush, Dick Cheney, empresa responsável principal pela reconstrução do Iraque pós-guerra. Se Tarantino reescreveu a Segunda Guerra em Bastardos Inglórios (2009), Polanski faz o mesmo agora, já que, na sua ficção, o premiê britânico é intimado pelo Tribunal Penal Internacional a responder pelos crimes de guerra cometidos — entrega de prisioneiros para interrogatórios com tortura pela CIA. Nesse sentido, O Escritor Fantasma trava um diálogo com o filme vencedor do Oscar passado, Guerra ao Terror (Kathryn Bigelow, 2009), que contorna qualquer comentário sobre as dinâmicas políticas da guerra, em favor da exposição acrítica do aqui-e-agora dos soldados no fronte.



-- Cena do filme --

Como filme de estilo, Polanski apresenta outra obra matizada pela sobrevivência do protagonista em um mundo-cão, como em Chinatown (1974), O Inquilino (1976), O Pianista (2002), Oliver Twist (2005), entre outros de sua filmografia. Personagens isolados envoltos por uma atmosfera opressiva de perigo e estranhamento. Neste filme, boa parte da ação transcorre numa ilha semideserta e cinzenta, sob céu de tempestade, como metáfora da condição do Fantasma/Gregor. Nessa ilha, situa-se a mansão-bunker ultra-vigiada que é, ela mesma, uma prisão. O thriller se realiza nesse clima intoxicante e confinado, de ameaça desconhecida, onde não se pode confiar em ninguém, o que evoca o contemporâneo Ilha do Medo (2010). Mas dele se distancia, pois se Scorsese monta o suspense de modo direto, contínuo e rococó (principalmente ao trabalhar a memória), Polanski refina o seu suspense com simplicidade e um cinismo característico, como em O Bebê de Rosemary (1968) ou Cul-de-sac (1966).



De fato, o diretor, da escola hitchcockiana, demonstra como a intercalação de momentos cômicos e mesmo banais, ao invés de reduzir o suspense, aguça-o. Assim há cenas de piadas, facilitadas pela ironia fleumática do Fantasma/McGregor, e seqüências banais: a bicicleta atola no terreno, o vento desfaz montes de feno, o jet-lag deixa o escritor cochilante. O filme é mais falante do que de ação e dispensa malabarismos em 3D, explosões ou tiroteios. Por sinal, a única perseguição de carro é narrada de maneira elegante, sem clímaxes barulhentos. E o único lugar em que o protagonista se sente seguro e confortável é dentro de seu BMW, em merchandising cara-de-pau.


Há quem veja em O Escritor Fantasma uma espécie de metalinguagem reversa diante da situação pessoal do diretor. Afinal, ele finalizou o filme em prisão domiciliar na Suíça, país que possui tratado de extradição com os EUA e, portanto, reconhece uma sentença condenatória da justiça americana de 1978. Em janeiro deste ano, um mês antes de estrear na Berlinale, a justiça suíça decidiu detê-lo. No festival, quando a transferência forçada aos EUA parecia iminente, houve campanhas favoráveis a Polanski. A extradição não ocorreu até hoje e o advogado de Polanski segue interpondo recursos nas justiças americana e suíça. A referência metalingüística, por conseguinte, estaria na analogia com o político Lang, enquanto celebridade acusada no exílio, mas sobretudo com o Fantasma: um artista moralmente cinzento que não compreende a conspiração a seu redor e acaba, menos por ingenuidade do que azar, caindo numa armadilha.